A CIDADE DE DEUS LIVRO 18 VOLUME 2.

 

LIVRO DÉCIMO OITO.

ARGUMENTO.

Agostinho traça os percursos paralelos das cidades terrena e celestial desde a época de Abraão até o fim do mundo; e alude aos oráculos referentes a Cristo, tanto os proferidos pelas sibilas quanto os dos profetas sagrados que escreveram após a fundação de Roma: Oséias, Amós, Isaías, Miquéias e seus sucessores.

1. Daquelas coisas até os tempos do Salvador que foram discutidas nos dezessete livros.

Prometi escrever sobre a ascensão, o progresso e o fim predestinado das duas cidades, uma das quais é de Deus, a outra deste mundo, no qual, no que diz respeito à humanidade, a primeira é agora uma estranha. Mas, antes de tudo, empreendi, na medida em que Sua graça me permitiu, refutar os inimigos da cidade de Deus, que preferem seus deuses a Cristo, seu fundador, e odeiam ferozmente os cristãos com a mais mortal malícia. E isso fiz nos primeiros dez livros. Depois, quanto à minha tríplice promessa que acabei de mencionar, tratei distintamente, nos quatro livros que se seguem ao décimo, da ascensão de ambas as cidades. Em seguida, prossegui desde o primeiro homem até o dilúvio em um livro, que é o décimo quinto desta obra; e a partir daí, até Abraão, nossa obra seguiu ambas em ordem cronológica. Desde o patriarca Abraão até a época dos reis israelitas, com a qual encerramos o décimo sexto livro, e daí até o advento do próprio Cristo em carne, período que abrange o décimo sétimo livro, a cidade de Deus parece, pelo meu modo de escrever, ter percorrido seu curso sozinha; enquanto que não percorreu seu curso sozinha nesta era, pois ambas as cidades, em sua trajetória entre a humanidade, certamente experimentaram tempos conturbados juntas, assim como desde o princípio. Mas fiz isso para que, em primeiro lugar, desde o tempo em que as promessas de Deus começaram a se tornar mais claras, até o nascimento virginal daquele em quem aquelas coisas prometidas desde o princípio deveriam se cumprir, O curso daquela cidade que pertence a Deus poderia ser esclarecido mais claramente, sem a interpolação de elementos externos da história da outra cidade, embora até a revelação da nova aliança ela tenha se desenvolvido não na luz, mas nas sombras. Agora, portanto, julgo conveniente fazer o que deixei de lado e mostrar, na medida do necessário, como aquela outra cidade se desenvolveu desde os tempos de Abraão, para que os leitores atentos possam comparar as duas.

2. Dos reis e épocas da cidade terrena que coincidiram com os tempos dos santos, contando a partir da ascensão de Abraão.

A sociedade dos mortais, espalhada por toda a Terra e nos mais diversos lugares, embora unida por uma certa comunhão de nossa natureza comum, encontra-se, em sua maior parte, dividida entre si, e os mais fortes oprimem os outros, porque todos seguem seus próprios interesses e desejos, enquanto o que é almejado ou não basta para ninguém, ou não para todos, porque não é a coisa certa. Pois os vencidos sucumbem aos vitoriosos, preferindo qualquer tipo de paz e segurança à própria liberdade; de ​​modo que aqueles que escolheram morrer a serem escravos foram muito admirados. Pois em quase todas as nações, a própria voz da natureza proclama, de alguma forma, que aqueles que porventura forem conquistados devem preferir submeter-se aos seus conquistadores a serem mortos por toda sorte de destruição bélica. Isso não ocorre sem a providência de Deus, em cujo poder reside o poder de subjugar ou ser subjugado na guerra; de alguns serem dotados de reinos, outros sujeitos a reis. Ora, entre os muitos reinos da Terra em que a sociedade se divide por interesses ou desejos terrenos (que chamamos genericamente de cidade deste mundo), vemos que dois, estabelecidos e mantidos distintos um do outro tanto no tempo quanto no espaço, tornaram-se muito mais famosos que os demais: primeiro o dos Assírios, depois o dos Romanos. Primeiro veio um, depois o outro. O primeiro surgiu no Oriente e, imediatamente após seu declínio, o segundo no Ocidente. Posso falar de outros reinos e outros reis como apêndices destes.

Nino, então, que sucedeu seu pai Belo, o primeiro rei da Assíria, já era o segundo rei daquele reino quando Abraão nasceu na terra dos caldeus. Havia Naquela época, existia também o pequeno reino de Sicião, com o qual, desde tempos remotos, o erudito Marco Varrão inicia sua escrita sobre a raça romana. Pois, a partir desses reis de Sicião, ele passa aos atenienses, destes aos latinos e destes aos romanos. Contudo, muito pouco se relata sobre esses reinos antes da fundação de Roma, em comparação com o da Assíria. Pois, embora até mesmo Salústio, o historiador romano, admita que os atenienses eram muito famosos na Grécia, ele acredita que sua fama era maior do que a realidade. Ao falar deles, ele diz: "Os feitos dos atenienses, a meu ver, foram grandiosos e magníficos, mas um tanto menores do que a fama lhes reservou. Mas, como surgiram entre eles escritores de grande gênio, os feitos dos atenienses foram celebrados em todo o mundo como grandiosos. Assim, a virtude daqueles que os realizaram foi considerada tão grande quanto homens de gênio transcendente pudessem representá-la pelo poder de palavras elogiosas." Esta cidade também derivou considerável glória da literatura e da filosofia, cujo estudo floresceu principalmente ali. Mas, no que diz respeito ao império, nenhum nos tempos mais remotos foi maior do que o assírio, ou tão vasto. Pois, quando Nino, filho de Belo, era rei, consta que subjugou toda a Ásia, até às fronteiras da Líbia, que em número é chamada de um terço, mas em tamanho corresponde à metade do mundo inteiro. Os indianos nas regiões orientais foram o único povo sobre o qual ele não reinou; mas, após a sua morte, Semíramis, sua esposa, guerreou contra eles. Assim, aconteceu que todos os povos e reis daqueles países estavam sujeitos ao reino e à autoridade dos assírios e faziam tudo o que lhes era ordenado. Ora, Abraão nasceu naquele reino entre os caldeus, na época de Nino. Mas, como os assuntos gregos nos são muito mais conhecidos do que os assírios, e aqueles que investigaram diligentemente a antiguidade da origem da nação romana seguiram a ordem cronológica dos gregos aos latinos, e destes aos romanos, que também eram latinos, devemos, por essa razão, quando necessário, mencionar os reis assírios, para que se possa ver como a Babilônia, à semelhança de uma primeira Roma, trilhou seu caminho ao longo do tempo. com a cidade de Deus, que é estranha neste mundo. Mas os elementos adequados para inserir nesta obra, ao comparar as duas cidades, isto é, a terrena e a celestial, devem ser extraídos principalmente dos reinos grego e latino, onde a própria Roma é como uma segunda Babilônia.

Assim, no nascimento de Abraão, os segundos reis da Assíria e da Sicião eram Nino e Europs, respectivamente, tendo os primeiros sido Belo e Egialeu. Mas quando Deus prometeu a Abraão, em sua partida da Babilônia, que ele se tornaria uma grande nação e que, por meio de sua descendência, todas as nações da terra seriam abençoadas, os assírios tiveram seu sétimo rei, e os sicionianos, seu quinto; pois o filho de Nino reinou entre eles após sua mãe, Semíramis, que teria sido morta por ele por tentar desonrá-lo com incesto. Alguns acreditam que ela fundou a Babilônia, e de fato, pode tê-la refundado. Mas já contamos, no décimo sexto livro, quando e por quem ela foi fundada. Ora, o filho de Nino e Semíramis, que sucedeu sua mãe no reino, também é chamado de Nino por alguns, mas por outros de Nínias, um patronímico. Telexion então governou o reino dos sicionianos. Durante seu reinado, os tempos foram tão tranquilos e alegres que, após sua morte, ele foi venerado como um deus, com sacrifícios e jogos que, segundo consta, foram instituídos nessa ocasião.

3. Quais reis reinaram na Assíria e na Sicião quando, segundo a promessa, Isaque nasceu de Abraão aos cem anos, e quando os gêmeos Esaú e Jacó nasceram de Rebeca a Isaque aos sessenta anos?

Em seus dias também, pela promessa de Deus, Isaque, filho de Abraão, nasceu para seu pai, quando este tinha cem anos, de sua esposa Sara, que, sendo estéril e idosa, já havia perdido a esperança de ter filhos. Aralius era então o quinto rei dos assírios. A Isaque, aos sessenta anos, nasceram gêmeos, Esaú e Jacó, que Rebeca, sua esposa, lhe deu. Seu avô Abraão morreu ao completar cento e setenta anos, estando ainda vivo, e contabilizando seus cento e sessenta anos. Naquele tempo reinaram como sétimos reis,—entre os assírios, aquele mais antigo Xerxes, também chamado Balau; e entre os siciões, Turiaco, ou, como alguns escrevem seu nome, Thurimachus. O reino de Argos, no qual Ínaco reinou primeiro, surgiu na época dos netos de Abraão. E não devo omitir o que Varrão relata, que os sicionenses também costumavam sacrificar no túmulo de seu sétimo rei, Turiaco. No reinado de Armamitres na Assíria e de Leucipo na Sicião, como oitavos reis, e de Ínaco como o primeiro em Argos, Deus falou com Isaque e lhe prometeu as mesmas duas coisas que prometeu a seu pai: a terra de Canaã para sua descendência e a bênção de todas as nações em sua descendência. Essas mesmas coisas foram prometidas a seu filho, neto de Abraão, que a princípio foi chamado de Jacó, depois Israel, quando Beloco era o nono rei da Assíria e Foroneu, filho de Ínaco, reinava como o segundo rei de Argos, enquanto Leucipo continuava como rei da Sicião. Naqueles tempos, sob o reinado do rei argivo Foroneu, a Grécia tornou-se mais famosa pela instituição de certas leis e juízes. Após a morte de Foroneu, seu irmão mais novo, Fego, construiu um templo em seu túmulo, no qual ele era adorado como um deus, e bois eram sacrificados em sua homenagem. Creio que o consideravam digno de tamanha honra porque, em sua parte do reino (pois seu pai havia dividido seus territórios entre eles, nos quais reinaram durante sua vida), ele havia fundado capelas para o culto aos deuses e os ensinado a medir o tempo em meses e anos, e, a esse respeito, a contabilizar e calcular os acontecimentos. Homens ainda incultos, admirando-o por essas novidades, ou imaginaram que ele era um deus, ou resolveram que ele deveria ser transformado em um deus após sua morte. Diz-se também que Io era filha de Ínaco, que mais tarde foi chamada de Ísis, quando era adorada no Egito como uma grande deusa; Embora outros escrevam que ela veio como uma rainha da Etiópia, e que, por ter governado de forma ampla e justa, e instituído para seus súditos letras e muitas coisas úteis, tal honra divina lhe foi concedida após sua morte, que se alguém dissesse que ela havia sido humana, seria acusado de um crime capital.

4. Dos tempos de Jacó e de seu filho José.

No reinado de Balau, o nono rei da Assíria, e de Mesápo, o oitavo de Sicião, que alguns dizem ter Também chamado Cefiso (se de fato o mesmo homem tinha ambos os nomes, e aqueles que colocaram o outro nome em seus escritos não o confundiram com outro homem), enquanto Ápis era o terceiro rei de Argos, Isaque morreu aos cento e oitenta anos, deixando seus filhos gêmeos com cento e vinte anos. Jacó, o mais novo deles, pertencia à cidade de Deus sobre a qual escrevemos (o mais velho foi totalmente rejeitado) e teve doze filhos, um dos quais, chamado José, foi vendido por seus irmãos a mercadores que desciam ao Egito, enquanto seu avô Isaque ainda estava vivo. Mas, quando completou trinta anos, José compareceu perante o faraó, exaltado pela humilhação que sofrera, porque, ao interpretar divinamente os sonhos do rei, predisse que haveria sete anos de fartura, cuja rica abundância seria consumida por outros sete anos de fome que se seguiriam. Por essa razão, o rei o nomeou governante do Egito, libertando-o da prisão na qual fora lançado por manter sua castidade intacta; Pois ele bravamente o preservou de sua senhora, que o amava perversamente e contava mentiras ao seu senhor fraco e crédulo, e não consentiu em cometer adultério com ela, mas fugiu dela, deixando sua roupa em suas mãos quando ela o agarrou. No segundo dos sete anos de fome, Jacó desceu ao Egito para encontrar seu filho com tudo o que possuía, tendo cento e trinta anos de idade, como ele mesmo disse em resposta à pergunta do rei. José tinha então trinta e nove anos, se somarmos sete anos de fartura e dois de fome aos trinta que ele contabilizou quando foi homenageado pelo rei.

5. De Ápis, rei de Argos, a quem os egípcios chamavam de Serápis e veneravam com honras divinas.

Nessa época, Ápis, rei de Argos, atravessou para o Egito em navios e, ao morrer lá, tornou-se Serápis, o deus principal de todos os egípcios. Varrão apresenta esta razão muito clara para explicar por que, após sua morte, ele passou a ser chamado não de Ápis, mas de Serápis. A arca em que ele foi colocado após a morte, que hoje chamamos de sarcófago, era então chamada em grego de σορὸς (sorus), e começaram a venerá-lo quando sepultado nela, antes mesmo da construção de seu templo; e de Soros e Ápis, ele foi chamado primeiro de [Sorosapis, ou] Sorapis, e depois de Serápis, por meio de uma mudança de nome. carta, como acontece facilmente. Foi decretado também a respeito dele que quem dissesse que ele havia sido um homem seria punido com a pena capital. E como em cada templo onde Ísis e Serápis eram adorados havia também uma imagem que, com o dedo pressionado nos lábios, parecia advertir os homens a manterem silêncio, Varrão pensa que isso significa que deveria ser mantido em segredo que eles haviam sido humanos. Mas aquele touro que, com maravilhosa loucura, iludiu o Egito, alimentando-o com abundantes iguarias em sua homenagem, não era chamado de Serápis, mas de Ápis, porque o adoravam vivo, sem sarcófago. Após a morte daquele touro, quando procuraram e encontraram um bezerro da mesma cor — isto é, com manchas brancas semelhantes — acreditaram ser algo milagroso, providenciado divinamente para eles. Contudo, para os demônios, a fim de enganá-los, não era difícil mostrar a uma vaca prenhe a imagem de um touro, que somente ela podia ver, e assim despertar o instinto reprodutivo da mãe, de modo que este se manifestasse em forma física em seus filhotes, assim como Jacó fizera com as varas manchadas, fazendo com que as ovelhas e cabras nascessem malhadas. Pois o que os homens podem fazer com cores e substâncias reais, os demônios podem fazer com muita facilidade mostrando formas irreais aos animais em fase reprodutiva.

6. Quem eram os reis de Argos e da Assíria, quando Jacó morreu no Egito?

Ápis, então, que morreu no Egito, não era rei do Egito, mas de Argos. Ele foi sucedido por seu filho Argos, cujo nome deu origem ao nome da terra, Argos, e ao do povo, argivos, pois sob os reis anteriores nem o lugar nem a nação tinham esse nome. Enquanto Argos reinava sobre Argos, Erato sobre Sicião e Balau ainda era rei da Assíria, Jacó morreu no Egito aos cento e quarenta e sete anos de idade, depois de, ao morrer, ter abençoado seus filhos e seus netos com José, e profetizado muito claramente sobre Cristo, dizendo na bênção de Judá: "Não faltará príncipe de Judá, nem líder de suas coxas, até que venham as coisas que lhe estão reservadas; e ele é a esperança das nações." No reinado de Argos, a Grécia começou a usar frutas e a ter colheitas de milho em campos cultivados, sendo que a semente tinha foram trazidos de outros países. Argos também passou a ser considerado um deus após sua morte, sendo homenageado com um templo e sacrifícios. Essa honra foi concedida durante seu reinado, antes mesmo de ser dada a ele, a um indivíduo comum por ter sido o primeiro a atrelar bois ao arado. Esse indivíduo era um certo Homogyrus, que foi atingido por um raio.

7. Quem eram os reis quando José morreu no Egito?

Durante o reinado de Mamitus, o décimo segundo rei da Assíria, e de Plemneu, o décimo primeiro de Sicião, enquanto Argos ainda reinava sobre os argivos, José morreu no Egito com cento e dez anos de idade. Após sua morte, o povo de Deus, crescendo maravilhosamente, permaneceu no Egito por cento e quarenta e cinco anos, em tranquilidade a princípio, até que aqueles que conheceram José faleceram. Depois, por inveja de seu crescimento e pela suspeita de que finalmente conquistariam a liberdade, foram oprimidos com perseguições e trabalhos de servidão intolerável, em meio aos quais, contudo, continuaram a crescer, multiplicando-se com a fertilidade dada por Deus. Durante esse período, os mesmos reinos persistiram na Assíria e na Grécia.

8. Quem eram os reis quando Moisés nasceu e quais deuses começaram a ser adorados naquela época?

Quando Safro reinou como o décimo quarto rei da Assíria, Ortópolis como o décimo segundo de Sicião e Criaso como o quinto de Argos, Moisés nasceu no Egito, por meio de quem o povo de Deus foi libertado da escravidão egípcia, na qual precisavam ser provados para que pudessem desejar a ajuda de seu Criador. Alguns acreditam que Prometeu viveu durante o reinado dos reis mencionados. Conta-se que ele formou homens a partir do barro, pois era considerado o melhor mestre da sabedoria; contudo, não se sabe quais sábios existiram em sua época. Diz-se que seu irmão Atlas foi um grande astrólogo; e isso deu origem à fábula de que ele sustentava o céu, embora a opinião popular sobre ele sustentar o céu pareça ter sido sugerida por uma alta montanha que recebeu seu nome. De fato, a partir desses tempos, muitas outras histórias fabulosas começaram a ser inventadas na Grécia; até mesmo Cécrope, rei de Atenas, em cujo reinado a cidade recebeu seu nome, e em cujo reinado Deus libertou o Seu povo do Egito por meio de Moisés, e apenas alguns heróis mortos foram deificados, segundo a vã superstição dos gregos. Entre eles estavam Melantomice, esposa do rei Criaso, e Forbas, filho deles, que sucedeu o pai como sexto rei dos argivos, e Iaso, filho de Triopas, o sétimo rei, e o nono rei, Estenelas, ou Estenelo, ou Estenelo — pois seu nome é mencionado de maneiras diferentes por diversos autores. Nessa época também viveu Mercúrio, neto de Atlas e sua filha Maia, de acordo com o relato comum nos livros. Ele era famoso por sua habilidade em muitas artes e as ensinou aos homens, que por isso decidiram torná-lo, e até mesmo acreditar que ele merecia ser, um deus após a morte. Diz-se que Hércules viveu mais tarde, mas pertence ao mesmo período; embora alguns, que creio estarem equivocados, o situem em uma data anterior à de Mercúrio. Mas, independentemente da época em que nasceram, há consenso entre os historiadores sérios, que registraram esses eventos antigos por escrito, de que ambos eram homens e que mereceram honras divinas dos mortais por lhes conferirem muitos benefícios que tornaram esta vida mais agradável. Minerva era muito mais antiga do que eles; pois há relatos de que ela surgiu em idade virgem na época de Ogiges, no lago chamado Tritão, do qual também é chamada de Tritônia, a inventora de muitas obras, e mais facilmente considerada uma deusa por sua origem ser tão pouco conhecida. Pois o que se canta sobre ela ter surgido da cabeça de Júpiter pertence ao domínio da poesia e da fábula, e não ao da história e dos fatos reais. E os historiadores não concordam sobre quando Ogiges viveu, em cuja época também ocorreu um grande dilúvio — não aquele dilúvio gigantesco do qual ninguém escapou, exceto aqueles que conseguiram entrar na arca, pois nem a história grega nem a latina o mencionaram, mas um dilúvio maior do que o que aconteceu depois, na época de Deucalião. Pois Varrão inicia o livro que já mencionei nesta data, e não propõe a si mesmo, como ponto de partida para chegar aos assuntos romanos, nada mais antigo do que o dilúvio de Ogiges, isto é, o que aconteceu na época de Ogiges. Ora, os nossos cronistas — primeiro Eusébio e depois Jerônimo, que seguem inteiramente Alguns historiadores anteriores, nessa opinião, relatam que a inundação do rio Ogiges ocorreu mais de trezentos anos depois, durante o reinado de Foroneu, o segundo rei de Argos. Mas, independentemente de quando ele tenha vivido, Minerva já era venerada como uma deusa quando Cécrope reinou em Atenas, período em cujo reinado a própria cidade teria sido reconstruída ou fundada.

9. Quando a cidade de Atenas foi fundada e qual a razão que Varrão atribui ao seu nome.

Atenas certamente derivou seu nome de Minerva, que em grego é chamada de Ἀθηνη, e Varrão aponta a seguinte razão para esse nome. Quando uma oliveira apareceu repentinamente ali, e água jorrou em outro lugar, esses prodígios levaram o rei a enviar um mensageiro a Apolo de Delfos para indagar sobre o significado dos fenômenos e o que ele deveria fazer. Apolo respondeu que a oliveira simbolizava Minerva, a água Netuno, e que os cidadãos tinham o poder de nomear sua cidade como quisessem, em homenagem a qualquer um desses dois deuses cujos símbolos eram aqueles. Ao receber esse oráculo, Cécrope convocou todos os cidadãos, de ambos os sexos, para votar, pois era costume naquelas regiões que as mulheres também participassem das deliberações públicas. Quando a multidão foi consultada, os homens votaram em Netuno, as mulheres em Minerva; e como as mulheres tinham maioria de um voto, Minerva venceu. Então Netuno, enfurecido, devastou as terras dos atenienses, lançando ondas do mar; pois os demônios não têm dificuldade em espalhar as águas ainda mais. A mesma autoridade disse que, para aplacar sua ira, as mulheres deveriam ser visitadas pelos atenienses com a tríplice punição: que elas não tivessem mais direito a voto; que nenhum de seus filhos recebesse o nome de suas mães; e que ninguém as chamasse de atenienses. Assim, aquela cidade, mãe e nutriz das doutrinas liberais e de tantos e grandes filósofos, além dos quais a Grécia não tinha nada mais famoso e nobre, pela zombaria dos demônios sobre a contenda de seus deuses, um masculino e um feminino, e pela vitória do feminino através das mulheres, recebeu o nome de Atenas; e, ao ser prejudicada pelo deus vencido, foi obrigada a punir a própria vitória do vitoriosa, temendo as águas de Netuno mais do que os braços de Minerva. Pois nas mulheres que foram assim punidas, Minerva, que havia conquistado, também foi conquistada, e não pôde sequer ajudar seus eleitores a ponto de, embora o direito de voto estivesse doravante perdido, e as mães não pudessem dar seus nomes aos filhos, ao menos lhes fosse permitido serem chamados de atenienses e merecerem o nome daquela deusa que haviam tornado vitoriosa sobre um deus masculino ao lhe concederem seus votos. O que e quanto poderia ser dito sobre isso, se não tivéssemos que nos apressar para outros assuntos em nossa discussão, é óbvio.

10. O que Varrão relata sobre o termo Areópago e sobre o dilúvio de Deucalião.

Marco Varrão, porém, não está disposto a dar crédito a fábulas mentirosas contra os deuses, para não encontrar algo que desonre sua majestade; e, portanto, não admite que o Areópago, o local onde o apóstolo Paulo disputou com os atenienses, tenha recebido esse nome porque Marte, que em grego é chamado Ἄρης, quando foi acusado do crime de homicídio e julgado por doze deuses naquele campo, foi absolvido pela sentença de seis; porque era costume, quando os votos eram iguais, absolver em vez de condenar. Contra essa opinião, que é a mais amplamente divulgada, ele tenta, a partir de relatos de livros obscuros, sustentar outra razão para esse nome, para que não se pense que os atenienses o chamaram de Areópago a partir das palavras "Marte" e "campo". como se fosse o campo de Marte, para desonra dos deuses, de fato, dos quais ele pensa que os processos e julgamentos estão muito distantes. E afirma que isso o que se diz sobre Marte não é menos falso do que o que se diz sobre as três deusas, a saber, Juno, Minerva e Vênus, cuja disputa pela palma da beleza, perante Páris como juiz, a fim de obter a maçã dourada, não só é relatada, como também é celebrada em canções e danças em meio aos aplausos dos teatros, em peças destinadas a agradar os deuses que se deleitam com esses crimes próprios, sejam eles reais ou fabulosos. Varrão não acredita nessas coisas, porque são incompatíveis com a natureza dos deuses e da moralidade; e, no entanto, ao não dar uma fabulosa Mas, para explicar a razão histórica do nome Atenas, ele insere em seus livros a disputa entre Netuno e Minerva sobre a quem deveria ser dado o nome da cidade, disputa essa tão grande que, quando contendiam exibindo prodígios, nem mesmo Apolo ousou julgar entre eles quando consultado; mas, para pôr fim à contenda dos deuses, assim como Júpiter enviou as três deusas que mencionamos a Páris, também as enviou aos homens, e Minerva venceu a votação, mas foi derrotada pela punição de seus próprios eleitores, pois não conseguiu conferir o título de atenienses às mulheres que eram suas amigas, embora pudesse impô-lo aos homens que eram seus oponentes. Nesses tempos, quando Cranaos reinava em Atenas como sucessor de Cécrope, como escreve Varrão, mas, segundo Eusébio e Jerônimo, enquanto o próprio Cécrope ainda reinava, ocorreu o dilúvio chamado de Deucalião, porque ocorreu principalmente nas partes da Terra onde ele reinava. Mas essa inundação não chegou ao Egito nem às suas proximidades.

11. Quando Moisés conduziu o povo para fora do Egito; e quem eram os reis quando seu sucessor Josué, filho de Num, morreu.

Moisés conduziu o povo para fora do Egito no último dia de Cécrope, rei de Atenas, quando Ascátedras reinava na Assíria, Maratus em Sicião e Triopas em Argos; e, tendo conduzido o povo para fora, deu-lhes no Monte Sinai a lei que recebera de Deus, a qual é chamada de Antigo Testamento, porque contém promessas terrenas, e porque, por meio de Jesus Cristo, haveria um Novo Testamento, no qual o reino dos céus seria prometido. Pois a mesma ordem devia ser observada nisto, como se observa em todo aquele que prospera em Deus, segundo o que diz o apóstolo: "Não é primeiro o espiritual, mas o natural", visto que, como ele diz, e isso é verdadeiramente verdade, "O primeiro homem da terra é terreno; o segundo homem, do céu, é celestial". Ora, Moisés governou o povo durante quarenta anos no deserto e morreu com cento e vinte anos de idade, depois de ter profetizado a respeito de Cristo por meio de figuras de observâncias carnais no tabernáculo, sacerdócio e sacrifícios, e muitas outras ordenanças místicas. Josué, filho de Num, sucedeu a Moisés e estabeleceu o povo que ele havia trazido para a terra prometida, tendo por A autoridade divina subjugou o povo que antes a detinha. Ele também morreu, após governar o povo vinte e sete anos depois da morte de Moisés, quando Amintas reinou na Assíria como o décimo oitavo rei, Coracos como o décimo sexto em Sicião, Dânao como o décimo em Argos e Erictônio como o quarto em Atenas.

12. Dos rituais de falsos deuses instituídos pelos reis da Grécia no período que vai do êxodo de Israel do Egito até a morte de Josué, filho de Num.

Durante esse período, ou seja, desde o êxodo de Israel do Egito até a morte de Josué, filho de Num, por meio de quem aquele povo recebeu a terra prometida, os reis da Grécia instituíram rituais aos falsos deuses que, por meio de celebrações solenes, relembravam o dilúvio, a libertação do povo daquele dilúvio e a vida atribulada que levavam, migrando entre as montanhas e as planícies. Pois até mesmo os Luperci, Quando sobem e descem o caminho sagrado, diz-se que representam os homens que buscavam os cumes das montanhas por causa da inundação e retornavam às terras baixas quando estas baixavam. Naqueles tempos, Dionísio, também chamado de Pai Líber, e considerado um deus após a morte, teria mostrado a videira ao seu anfitrião na Ática. Então, os jogos musicais foram instituídos para o Apolo de Delfos, para aplacar sua ira, pois acreditava-se que as regiões da Grécia eram afetadas pela esterilidade, porque não haviam defendido seu templo, que Dânao incendiou quando invadiu aquelas terras; pois foram avisados ​​por seu oráculo para instituir esses jogos. Mas o rei Erictônio foi o primeiro a instituir jogos para ele na Ática, e não apenas para ele, mas também para Minerva, nos quais a azeitona era dada como prêmio aos vencedores, pois dizem que Minerva foi a descobridora dessa fruta, assim como Líber foi da uva. Naqueles anos, alega-se que Europa foi raptada por Xanto, rei de Creta (a quem alguns atribuem outro nome), e que lhe deu à luz Radamanto, Sarpédon e Minos, que são mais comumente considerados filhos de Júpiter com a mesma mulher. Ora, aqueles que adoram tais deuses consideram o que dissemos sobre Xanto, rei de Creta, é considerado história verdadeira; mas isto sobre Júpiter, que os poetas cantam, os teatros aplaudem e o povo celebra, é uma fábula vazia inventada como pretexto para jogos a fim de apaziguar as divindades, mesmo com a falsa atribuição de crimes a elas. Naqueles tempos, Hércules era venerado em Tiro, mas não era o mesmo de quem falamos acima. Na história mais secreta, diz-se que existiram vários chamados Pai Líber e Hércules. Este Hércules, cujos grandes feitos são contados como doze (sem incluir o massacre de Anteo, o africano, porque esse episódio pertence a outro Hércules), é declarado em seus livros como tendo se queimado no Monte Eta, porque não conseguia, com a força com que subjugava monstros, suportar a doença que o afligia. Naquela época, o rei, ou melhor, o tirano Busíris, que supostamente era filho de Netuno com Líbia, filha de Épafo, teria oferecido seus convidados em sacrifício aos deuses. Ora, não se deve acreditar que Netuno tenha cometido esse adultério, para que os deuses não sejam incriminados; contudo, tais coisas devem ser atribuídas a eles pelos poetas e nos teatros, para que se sintam satisfeitos. Diz-se que Vulcano e Minerva foram os pais de Erictônio, rei de Atenas, em cujos últimos anos Josué, filho de Num, teria morrido. Mas, como querem afirmar que Minerva era virgem, dizem que Vulcano, perturbado pela luta entre eles, derramou seu sêmen na terra, e por isso o homem nascido dessa terra recebeu esse nome; pois em grego, ἔρις significa "conflito" e χθὼν significa "terra", sendo Erictônio uma palavra composta. Contudo, é preciso admitir que os mais eruditos refutam e rejeitam tais coisas a respeito de seus deuses, declarando que essa crença fabulosa se originou do fato de que, no templo de Atenas, que Vulcano e Minerva compartilhavam, um menino que havia sido exposto foi encontrado envolto nas espirais de um dragão, o que significava que ele se tornaria grande e, como seus pais eram desconhecidos, ele foi chamado de filho de Vulcano e Minerva, porque eles tinham o templo em comum. Essa fábula, porém, explica a origem de seu nome melhor do que essa história. Mas que nos importa? Deixemos que os livros que falam sobre a origem de seu nome nos digam o que realmente importa. A verdade edifica os homens religiosos, enquanto as fábulas mentirosas deleitam os demônios impuros. Contudo, esses homens religiosos os adoram como deuses. Ainda assim, embora neguem essas coisas a seu respeito, não podem absolvê-los de todo crime, pois, a seu pedido, encenam peças teatrais nas quais as próprias coisas que sabiamente negam são feitas de maneira vil, e os deuses são apaziguados por essas falsidades e baixezas. Ora, mesmo que a peça celebre um crime irreal dos deuses, deleitar-se com a atribuição de um crime irreal é um crime real.

13. Que fábulas foram inventadas na época em que os juízes começaram a governar os hebreus?

Após a morte de Josué, filho de Num, o povo de Deus teve juízes, em cujos tempos eram alternadamente humilhados por aflições devido aos seus pecados e consolados pela prosperidade através da compaixão de Deus. Naqueles tempos foram inventadas as fábulas sobre Triptólemo, que, por ordem de Ceres, carregado por serpentes aladas, distribuía trigo às terras necessitadas ao sobrevoá-las; sobre a besta Minotauro, que estava aprisionada no Labirinto, de onde os homens que entravam em seus inextricáveis ​​labirintos não conseguiam encontrar saída; sobre os Centauros, cuja forma era uma mistura de cavalo e homem; sobre Cérbero, o cão de três cabeças do inferno; sobre Frixo e sua irmã Hélade, que fugiram, carregados por um carneiro alado; sobre a Górgona, cujo cabelo era composto de serpentes e que transformava em pedra aqueles que a olhavam; sobre Belerofonte, que era carregado por um cavalo alado chamado Pégaso; sobre Anfion, que encantou e atraiu as pedras com a doçura de sua harpa; sobre o artífice Dédalo e seu filho Ícaro, que voaram com asas que eles mesmos adaptaram; sobre Édipo, que obrigou um certo monstro quadrúpede com rosto humano, chamado esfinge, a se destruir atirando-se de cabeça, após ter resolvido o enigma que ela costumava propor como insolúvel; sobre Anteo, que era filho da terra, razão pela qual, ao cair na terra, costumava se levantar mais forte, e foi morto por Hércules; e talvez haja outras que eu tenha esquecido. Essas fábulas, facilmente encontradas em relatos históricos que contêm uma descrição verídica dos eventos, nos levam à Guerra de Troia, na qual Marco Varrão encerrou seu segundo livro sobre a raça do povo romano; e elas São tão habilmente inventadas pelos homens que não causam escândalo aos deuses. Mas quem quer que tenha alegado que o estupro de Ganimedes, um belíssimo rapaz, por Júpiter foi o rei Tântalo quem cometeu o crime, e a fábula o atribuiu a Júpiter; ou que a gravidez de Dânae, supostamente por meio de uma chuva de ouro, significa que a virtude da mulher foi corrompida pelo ouro: quer essas coisas tenham realmente acontecido ou sejam apenas fábulas naquela época, ou tenham sido realmente feitas por outros e falsamente atribuídas a Júpiter, é impossível dizer quanta maldade devia ser considerada inerente aos corações dos homens para que fossem capazes de ouvir tais mentiras com paciência. E, no entanto, eles as aceitavam de bom grado, quando, na verdade, quanto mais devotamente adoravam Júpiter, mais severamente deveriam ter punido aqueles que ousavam dizer tais coisas sobre ele. Mas eles não apenas não se irritavam com aqueles que inventavam essas coisas, como temiam que os deuses se irritassem com eles se não encenassem tais ficções, mesmo nos teatros. Naqueles tempos, Latona deu à luz Apolo, não aquele de cujo oráculo falamos acima, como tantas vezes consultado, mas aquele que, junto com Hércules, teria apascentado os rebanhos do rei Admeto; contudo, acreditava-se tanto que ele era um deus, que muitos, na verdade quase todos, o consideravam o próprio Apolo. Também naquela época, o Pai Líber guerreou na Índia e liderou em seu exército muitas mulheres chamadas Baques, que se destacavam não tanto pela bravura, mas pela fúria. Alguns, de fato, escrevem que este Líber foi conquistado e aprisionado; outros, que foi morto na Pérsia, chegando a mencionar onde foi sepultado; e, no entanto, em seu nome, como se fosse o de um deus, os demônios impuros instituíram as sagradas, ou melhor, as sacrílegas, bacanais, de tamanha vileza que o Senado, depois de muitos anos, se envergonhou a ponto de proibi-las na cidade de Roma. Acreditava-se que, naquela época, Perseu e sua esposa Andrômeda haviam sido elevados ao céu após a morte, de modo que não sentiam vergonha nem medo de marcar suas imagens com constelações e chamá-los por seus nomes.

14. Dos poetas teológicos.

Durante o mesmo período surgiram os poetas, também chamados de teólogos , porque compunham hinos sobre o deuses; contudo, sobre deuses que, embora grandes homens, não passavam de homens, ou sobre os elementos deste mundo criados pelo verdadeiro Deus, ou sobre criaturas ordenadas como principados e potestades segundo a vontade do Criador e seus próprios méritos. E se, em meio a tanta vaidade e falsidade, cantavam algo sobre o único Deus verdadeiro, ao adorá-Lo juntamente com outros que não são deuses, e ao prestar-lhes o serviço que só a Ele é devido, não O serviam corretamente; e mesmo poetas como Orfeu, Museu e Lino não conseguiram se abster de desonrar seus deuses com fábulas. Mas, ainda assim, esses teólogos adoravam os deuses e não eram adorados como deuses, embora a cidade dos ímpios tenha o costume, não sei como, de colocar Orfeu acima dos ritos sagrados, ou melhor, sacrílegos, do inferno. A esposa do rei Atamas, chamada Ino, e seu filho Melicertes, pereceram atirando-se ao mar e, segundo a crença popular, foram considerados deuses, como outros homens da mesma época, [entre os quais estavam] Castor e Pólux. Os gregos, aliás, chamavam a mãe de Melicertes de Leucoteia, os latinos de Matuta; mas ambos a consideravam uma deusa.

15. Da queda do reino de Argos, quando Pico, filho de Saturno, recebeu pela primeira vez o reino de Laurento de seu pai.

Durante esse período, o reino de Argos chegou ao fim, sendo transferido para Micenas, de onde veio Agamenon, e surgiu o reino de Laurento, do qual Pico, filho de Saturno, foi o primeiro rei, época em que Débora julgou os hebreus; mas foi o Espírito de Deus quem a usou como Seu agente, pois ela também era profetisa, embora sua profecia seja tão obscura que não poderíamos demonstrar, sem uma longa discussão, que ela se referia a Cristo. Ora, os Laurentos já reinavam na Itália, de quem a origem do povo romano deriva, evidentemente, após os gregos; contudo, o reino da Assíria ainda durava, no qual Lampares era o vigésimo terceiro rei quando Pico começou a reinar em Laurento. Os adoradores de tais deuses podem ver o que devem pensar de Saturno, pai de Pico, que negam que ele tenha sido um homem; sobre quem alguns também escreveram que ele próprio reinou na Itália antes de Pico, seu filho; e Virgílio, em seu conhecido livro, diz:

"Essa raça indócil, e através de montanhas altasDisperso, ele se estabeleceu e estabeleceu leis,E deram ao seu país o nome de Lácio, porqueEle habitava em segurança, latente em suas costas.A tradição diz que as eras de ouro são puras.Começou quando ele era rei."

Mas eles consideram isso como fantasias poéticas e afirmam que o pai de Pico era, na verdade, Sterces, e relatam que, sendo um agricultor muito habilidoso, ele descobriu que os campos podiam ser fertilizados com o esterco de animais, que é chamado de stercus por causa de seu nome. Alguns dizem que ele se chamava Stercutius. Mas, seja qual for o motivo pelo qual escolheram chamá-lo de Saturno, é certo que fizeram deste Sterces ou Stercutius um deus por seu mérito na agricultura; e também incluíram no rol desses deuses Pico, seu filho, que eles afirmam ter sido um famoso áugure e guerreiro. Pico gerou Fauno, o segundo rei de Laurento; e ele também é, ou era, um deus entre eles. Essas honras divinas foram concedidas a homens mortos antes da Guerra de Troia.

16. De Diomedes, que após a destruição de Troia foi colocado entre os deuses, enquanto seus companheiros teriam sido transformados em pássaros.

Troia foi derrubada, e sua destruição foi cantada e divulgada por toda parte, até mesmo entre os meninos; pois foi notavelmente publicada e difundida, tanto por sua própria grandeza quanto por escritores de excelente estilo. E isso aconteceu durante o reinado de Latino, filho de Fauno, de quem o reino passou a ser chamado de Lácio em vez de Laurento. Os gregos vitoriosos, ao deixarem Troia destruída e retornarem às suas terras, foram dilacerados e esmagados por diversas e terríveis calamidades. Mesmo assim, entre eles, aumentaram o número de seus deuses, pois fizeram de Diomedes um deus. Alegam que seu retorno para casa foi impedido por um castigo divino, e provam, não por meio de falsidades fabulosas e poéticas, mas por testemunho histórico, que seus companheiros foram transformados em pássaros. Contudo, acreditam que, mesmo tendo sido feito um deus, ele não pôde restaurá-los à forma humana por seu próprio poder, nem obtê-la de Júpiter, seu rei, como um favor concedido a um novo habitante do céu. Dizem também que seu templo fica na ilha de Diomedeia, não muito longe do Monte Gargano, na Apúlia, e diz-se que essas aves sobrevoam o templo e o veneram com tamanha devoção que enchem seus bicos de água e a aspergem; e se gregos, ou descendentes de gregos, chegam até lá, elas não apenas ficam imóveis, mas voam ao seu encontro; mas se são estrangeiros, voam em direção às suas cabeças e os ferem com golpes tão violentos que chegam a matá-los. Pois dizem que elas são bem armadas para esses combates com seus bicos grandes e resistentes.

17. O que Varrão diz sobre as incríveis transformações dos homens.

Em apoio a essa história, Varrão relata outras não menos incríveis sobre a famosa feiticeira Circe, que transformou os companheiros de Ulisses em feras, e sobre os arcádios, que, por sorteio, atravessavam a nado um determinado lago e eram transformados em lobos, vivendo nos desertos daquela região com animais selvagens como eles. Mas se não comessem carne humana por nove anos, retornavam à forma humana ao atravessarem novamente o mesmo lago. Por fim, ele menciona expressamente um certo Demenetus, que, ao provar um menino oferecido em sacrifício pelos arcádios ao seu deus Liceu, segundo o costume local, foi transformado em lobo e, ao retornar à sua forma original no décimo ano, treinou como pugilista e saiu vitorioso nos Jogos Olímpicos. E o mesmo historiador acredita que o epíteto Liceu foi aplicado na Arcádia a Pã e ​​Júpiter unicamente por essa metamorfose de homens em lobos, pois se pensava que tal transformação só poderia ser realizada por um poder divino. Pois lobo é chamado em grego de λυκὸς, de onde parece ter se originado o nome Liceu. Ele afirma ainda que os lupercos romanos, por assim dizer, brotaram da semente desses mistérios.

18. O que devemos acreditar a respeito das transformações que parecem ocorrer aos homens por meio da arte dos demônios.

Talvez nossos leitores esperem que digamos algo sobre essa grande ilusão criada pelos demônios; e o que diremos senão que os homens devem fugir do meio da Babilônia? Pois este preceito profético deve ser entendido espiritualmente neste sentido: avançando no Deus vivo, pelos passos de Pela fé, que opera pelo amor, devemos fugir da cidade deste mundo, que é inteiramente uma sociedade de anjos e homens ímpios. Sim, quanto maior vemos o poder dos demônios nessas profundezas, mais tenazmente devemos nos apegar ao Mediador, por meio de quem ascendemos desses lugares mais baixos aos mais altos. Pois, se disséssemos que essas coisas não são dignas de crédito, não faltariam ainda hoje alguns que afirmariam ter ouvido de fontes confiáveis, ou mesmo experimentado, algo desse tipo. De fato, nós mesmos, quando estávamos na Itália, ouvimos falar de algo assim sobre uma certa região, onde donas de hospedarias, imbuídas dessas artes malignas, costumavam dar aos viajantes que escolhessem, ou conseguissem, algo em um pedaço de queijo, com o qual eles se transformavam instantaneamente em animais de carga, carregando o que fosse necessário e retornando à sua forma original quando o trabalho terminava. Contudo, suas mentes não se tornaram bestiais, mas permaneceram racionais e humanas, assim como Apuleio, nos livros que escreveu com o título de O Asno de Ouro , contou, ou fingiu, que aconteceu consigo mesmo que, ao ingerir veneno, transformou-se em um asno, mantendo, porém, sua mente humana.

Essas coisas são falsas ou tão extraordinárias que, com razão, são desacreditadas. Mas é preciso crer firmemente que o Deus Todo-Poderoso pode fazer o que Lhe apraz, seja punindo ou favorecendo, e que os demônios nada podem realizar por seu poder natural (pois sua criação é angelical, embora tornada maligna por sua própria culpa), exceto o que Ele permitir, cujos julgamentos são frequentemente ocultos, mas nunca injustos. E, de fato, os demônios, se realmente praticam tais coisas que norteiam esta discussão, não criam substâncias reais, mas apenas alteram a aparência das coisas criadas pelo verdadeiro Deus, de modo a fazê-las parecer o que não são. Portanto, não posso crer que mesmo o corpo, muito menos a mente, possa ser realmente transformado em formas e traços bestiais por qualquer razão, arte ou poder dos demônios; mas o fantasma de um homem, que mesmo em pensamento ou sonhos passa por inúmeras transformações, pode, quando os sentidos do homem estão adormecidos ou subjugados, ser apresentado aos sentidos de outros em forma corpórea. De alguma forma indescritível e desconhecida para mim, os próprios corpos dos homens podem estar em algum lugar, vivos, de fato, mas com os sentidos muito mais aprisionados e firmemente bloqueados do que pelo sono, enquanto esse fantasma, por assim dizer encarnado na forma de algum animal, pode aparecer aos sentidos de outros, e pode até parecer ao próprio homem estar transformado, assim como ele pode parecer a si mesmo, durante o sono, estar transformado e carregar fardos; e esses fardos, se forem substâncias reais, são carregados pelos demônios, para que os homens sejam enganados ao contemplarem, ao mesmo tempo, a substância real dos fardos e os corpos simulados dos animais de carga. Pois um certo homem chamado Prestâncio costumava contar que aconteceu com seu pai em sua própria casa, que ele tomou aquele veneno em um pedaço de queijo e ficou deitado na cama como se estivesse dormindo, mas de modo algum conseguia ser despertado. Mas ele disse que, depois de alguns dias, por assim dizer, acordou e relatou as coisas que havia sofrido como se fossem sonhos, a saber, que fora transformado em cavalo de carga e, junto com outros animais de carga, carregara provisões para os soldados da chamada Legião Rética, porque fora enviada à Récia. E tudo isso aconteceu exatamente como ele contou, embora lhe parecesse um sonho. E outro homem declarou que, em sua própria casa, à noite, antes de dormir, viu um certo filósofo, que conhecia muito bem, vir até ele e explicar-lhe algumas coisas da filosofia platônica que ele se recusara a explicar quando lhe pediam. E quando perguntou a esse filósofo por que fizera em sua casa o que se recusara a fazer em casa, ele disse: "Eu não fiz isso, mas sonhei que o fiz". E assim, o que um via enquanto dormia era mostrado ao outro quando acordado por uma imagem fantasmagórica.

Essas informações não nos foram transmitidas por pessoas que poderíamos considerar indignas de crédito, mas sim por informantes que não poderíamos supor que estivessem nos enganando. Portanto, o que os homens dizem e registraram sobre os arcádios sendo frequentemente transformados em lobos pelos deuses arcádios, ou melhor, por demônios, e o que é contado em canções sobre Circe transformando os companheiros de Ulisses, se eles realmente tivessem sido feitos, talvez, no meu Na minha opinião, tudo foi feito da maneira que eu disse. Quanto aos pássaros de Diomedes, visto que se alega que sua raça se perpetuou por meio de constante propagação, acredito que eles não foram criados pela metamorfose dos homens, mas sim astutamente substituídos por eles após sua remoção, assim como a corça substituiu Ifigênia, a filha do rei Agamenon. Pois artimanhas desse tipo não seriam difíceis para os demônios, se permitidas pelo julgamento de Deus; e como aquela virgem foi encontrada viva posteriormente, é fácil perceber que uma corça foi astutamente colocada em seu lugar. Mas como os companheiros de Diomedes desapareceram repentinamente e, posteriormente, não foram encontrados em lugar nenhum, tendo sido destruídos por anjos vingadores malignos, acreditava-se que eles haviam sido transformados naqueles pássaros, que foram secretamente trazidos de outros lugares onde tais pássaros existiam e repentinamente substituídos por fraude. Mas o fato de trazerem água em seus bicos e a aspergirem no templo de Diomedes, e de bajularem homens de raça grega e perseguirem estrangeiros, não é algo extraordinário que possa ser feito pela influência interior dos demônios, cujo interesse é persuadir os homens de que Diomedes foi feito um deus, e assim enganá-los para que adorem muitos deuses falsos, para grande desonra do verdadeiro Deus; e para que sirvam homens mortos, que nem mesmo em vida viveram verdadeiramente, com templos, altares, sacrifícios e sacerdotes, tudo o que, quando da espécie correta, é devido somente ao único Deus vivo e verdadeiro.

19. Que Eneias chegou à Itália quando Abdom, o juiz, governava sobre os hebreus.

Após a captura e destruição de Troia, Eneias, com vinte navios carregados com as relíquias troianas, chegou à Itália, onde Latino reinava, Menesteu em Atenas, Polifido em Sicião e Tautano na Assíria, e Abdon era juiz dos hebreus. Com a morte de Latino, Eneias reinou por três anos, e os mesmos reis continuaram nos lugares mencionados, com a exceção de Pelasgo, que passou a reinar em Sicião, e Sansão, juiz dos hebreus, que se acredita ser Hércules, devido à sua força extraordinária. Os latinos então fizeram de Eneias um de seus deuses, pois, após sua morte, seu paradeiro era desconhecido. Os sabinos também incluíram entre os deuses seu primeiro rei, Sancus (Sangus ou Sanctus, como alguns o denominam). Chamem-no. Naquela época, Codro, rei de Atenas, expôs-se incógnito para ser morto pelos inimigos peloponésios daquela cidade, e assim foi morto. Dizem que dessa forma ele libertou seu país. Pois os peloponésios haviam recebido uma resposta do oráculo, de que só venceriam os atenienses se não matassem seu rei. Portanto, ele os enganou, aparecendo vestido como um homem pobre e provocando-os, por meio de discussões, para que o assassinassem. Daí Virgílio dizer: "Ou as contendas de Codro". E os atenienses adoravam este homem como um deus, com honras sacrificiais. O quarto rei dos latinos foi Sílvio, filho de Eneias, não de Creusa, de quem nasceu Ascânio, o terceiro rei, mas de Lavínia, filha de Latino, e diz-se que ele foi seu filho póstumo. Oneu foi o vigésimo nono rei da Assíria, Melanto o décimo sexto dos atenienses, e Eli, o sacerdote, foi juiz dos hebreus; e o reino de Sicião chegou então ao fim, depois de durar, diz-se, novecentos e cinquenta e nove anos.

20. Da sucessão da linhagem de reis entre os israelitas depois dos tempos dos juízes.

Enquanto esses reis reinavam nos lugares mencionados, terminado o período dos juízes, o reino de Israel começou com o rei Saul, na época do profeta Samuel. Nessa época, começaram os reis latinos que receberam o sobrenome Sílvio, além de seu nome próprio, herdado de seu antecessor, o filho de Enéias chamado Sílvio; assim como, muito tempo depois, os sucessores de César Augusto receberam o sobrenome César. Saul foi rejeitado, de modo que nenhum de seus descendentes reinaria, e Davi o sucedeu no reino após sua morte, depois de ter reinado quarenta anos. Então, os atenienses deixaram de ter reis após a morte de Codro e passaram a ter uma magistratura para governar a república. Depois de Davi, que também reinou quarenta anos, seu filho Salomão foi rei de Israel, e construiu o majestoso templo de Deus em Jerusalém. Em seu tempo, Alba foi construída entre os latinos, e a partir daí os reis passaram a ser chamados não de reis latinos, mas de albanos, embora na mesma região do Lácio. Salomão foi sucedido por seu filho Roboão. Sob o reinado daquele povo, que se dividiu em dois reinos, e cujas partes separadas passaram a ter reis distintos.

21. Dos reis do Lácio, o primeiro e o décimo segundo, Eneias e Aventino, foram feitos deuses.

Depois de Eneias, a quem deificaram, o Lácio teve onze reis, nenhum dos quais foi deificado. Mas Aventino, o décimo segundo depois de Eneias, tendo sido morto em guerra e sepultado naquela colina ainda hoje chamada com seu nome, foi acrescentado ao número de deuses que eles criaram para si. Alguns, aliás, relutavam em escrever que ele fora morto em batalha, mas diziam que não se encontrava em lugar nenhum, e que não era por causa de seu nome, mas sim pelo pouso de pássaros, que aquela colina era chamada de Aventino. Depois disso, nenhum deus foi feito no Lácio, exceto Rômulo, o fundador de Roma. Mas dois reis se encontram entre esses dois, o primeiro dos quais descreverei no verso de Virgílio:

"Em seguida veio Procas, glória da raça troiana."

O maior de todos os reinos, o Assírio, teve sua longa duração encerrada em seu tempo, com a proximidade do nascimento de Roma. Pois o império Assírio foi transferido para os Medos após quase 1305 anos, se incluirmos o reinado de Belo, que gerou Nino e, contente com um pequeno reino, foi o primeiro rei ali. Ora, Procas reinou antes de Amúlio. E Amúlio havia feito da filha de seu irmão Numitor, chamada Reia, também conhecida como Ília, uma virgem vestal, que concebeu gêmeos com Marte, como eles dizem, honrando ou justificando assim seu adultério, acrescentando como prova que uma loba amamentou os bebês quando expostos. Pois eles acreditam que esse tipo de animal pertence a Marte, de modo que se acredita que a loba tenha amamentado os bebês, porque sabia que eram filhos de Marte, seu senhor; embora não faltem pessoas que digam que, quando os bebês chorando estavam expostos, foram primeiramente apanhados por uma meretriz desconhecida, e mamaram primeiro em seus seios (na verdade, as meretrizes eram chamadas de lupas , lobas, cujos locais infames ainda hoje são chamados de lupanários ), e que depois foram parar nas mãos do pastor Fáustulo e amamentados por sua esposa Aca. Que surpresa, então, se, para repreender o rei que cruelmente ordenou que fossem lançados na água, Deus, depois de os libertar divinamente da água, se dignou a socorrer, por meio de uma fera que amamentava, essas crianças que dariam origem a uma cidade tão grande? Amúlio foi sucedido no reino da Lácia por seu irmão Numitor, avô de Rômulo; e Roma foi fundada no primeiro ano de reinado deste Numitor, que a partir de então reinou junto com seu neto Rômulo.

22. Que Roma foi fundada quando o reino assírio pereceu, época em que Ezequias reinava em Judá.

Resumindo, a cidade de Roma foi fundada como uma nova Babilônia, e por assim dizer, filha da antiga Babilônia, por meio da qual Deus se agradou em conquistar o mundo inteiro e subjugá-lo por completo, unindo-o em uma só comunidade de governo e leis. Pois já existiam povos e nações poderosos e valentes, treinados em armas, que não se rendiam facilmente e cuja subjugação necessariamente envolvia grande perigo e destruição, bem como trabalho árduo e terrível. Pois quando o reino assírio subjugou quase toda a Ásia, embora isso tenha sido feito por meio de guerras, estas não puderam ser muito ferozes ou difíceis, porque as nações ainda não estavam treinadas para resistir, e não eram tão numerosas nem tão poderosas quanto depois; visto que, após o maior e, de fato, universal dilúvio, do qual apenas oito homens escaparam na arca de Noé, não haviam se passado mais de mil anos até que Nino subjugasse toda a Ásia, com exceção da Índia. Mas Roma não subjugou com a mesma rapidez e facilidade todas as nações do Oriente e do Ocidente que vemos sob o domínio do Império Romano, porque, em seu crescimento gradual, em qualquer direção em que se expandisse, as encontrava fortes e guerreiras. Na época da fundação de Roma, o povo de Israel já habitava a terra prometida havia setecentos e dezoito anos. Desses anos, vinte e sete pertencem a Josué, filho de Num, e, depois disso, trezentos e vinte e nove ao período dos juízes. Mas, desde o início do reinado dos reis, passaram-se trezentos e sessenta e dois anos. E naquela época havia um rei em Judá chamado Acaz, ou, como alguns consideram, Ezequias, seu sucessor, o melhor e mais piedoso rei, que, como se admite, reinou nos tempos de... Rômulo. E naquela parte da nação hebraica chamada Israel, Oséias havia começado a reinar.

23. Da sibila de Eritreia, que é conhecida por ter cantado muitas coisas sobre Cristo com mais clareza do que as outras sibilas.

Alguns dizem que a sibila de Eritreia profetizou nessa época. Ora, Varrão declara que havia muitas sibilas, e não apenas uma. Essa sibila de Eritreia certamente escreveu algumas coisas a respeito de Cristo que são bastante evidentes, e nós as lemos pela primeira vez em latim, em versos de latim ruim e sem ritmo, devido à inabilidade, como soubemos depois, de algum intérprete que desconheço. Pois Flacciano, um homem muito famoso, que também era procônsul, um homem de eloquência excepcional e grande erudição, quando falávamos de Cristo, apresentou um manuscrito grego, dizendo que se tratava das profecias da sibila de Eritreia, no qual ele apontava uma certa passagem cujas letras iniciais dos versos estavam dispostas de tal forma que estas palavras podiam ser lidas: Ἰησοῦς Χριστὸς Θεοῦ υἱὸς σωτήρ, que significam "Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Salvador". E esses versículos, cujas letras iniciais revelam esse significado, contêm o seguinte, traduzido por alguém para o latim em bom ritmo:

O julgamento umedecerá a terra com o suor de seu estandarte,Ó eterno, eis que o Rei virá através dos tempos,Σ Enviado para estar aqui em carne e osso, e Juiz no fim dos tempos.Ó Deus, tanto os crentes quanto os descrentes Te contemplarão.Elevados com os santos, quando enfim as eras chegarem ao fim.Σ Diante d'Ele estão as almas na carne para o Seu julgamento.
Χ Oculta em densos vapores, enquanto a terra jaz desolada.Os ídolos e os tesouros há muito escondidos são rejeitados pelos homens;A Terra é consumida pelo fogo, e este examina o oceano e o céu;I. Saindo, destrói os terríveis portais do inferno.Σ Os santos herdarão a liberdade e a luz em seu corpo e alma;Aqueles que forem culpados queimarão no fogo e enxofre para sempre.Ó ações ocultas reveladas, cada um publicará seus segredos;Σ Deus revelará à luz os segredos do coração de cada homem.
Θ Então haverá choro e lamento, sim, e ranger de dentes;E o sol foi eclipsado, e as estrelas silenciaram em seu coro.O esplendor do luar se foi, derreteu o céu.Os vales são exaltados por Ele, e os montes, abatidos.
Entre os homens, desapareceram completamente as distinções entre nobres e humildes.I Nas planícies correm as colinas, os céus e os oceanos se misturam.Oh, que fim terrível para todas as coisas! A terra, despedaçada, perecerá;Σ As águas e as chamas, juntas, fluirão em rios.
Σ O som da trombeta do arcanjo ecoará dos céus,Ω Sobre os ímpios que gemem em sua culpa e em suas múltiplas dores.Tremendo, a terra se abrirá, revelando o caos e o inferno.Todo rei comparecerá perante Deus naquele dia para ser julgado.Rios de fogo e enxofre cairão dos céus.

Nesses versículos latinos, o significado do grego é apresentado corretamente, embora não na ordem exata das linhas em relação às letras iniciais; pois em três delas, a quinta, a décima oitava e a décima nona, onde ocorre a letra grega Υ, não foi possível encontrar palavras latinas que começassem com a letra correspondente e produzissem um significado adequado. Assim, se anotarmos juntas as letras iniciais de todas as linhas em nossa tradução latina, exceto aquelas três em que mantemos a letra Υ no lugar correto, elas expressarão em cinco palavras gregas este significado: "Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Salvador". E os versículos são vinte e sete, que é o cubo de três. Pois três vezes três é nove; e nove, se triplicado, de modo a passar do quadrado superficial para o cubo, resulta em vinte e sete. Mas se juntarmos as letras iniciais destas cinco palavras gregas, Ἰησοῦς Χριστὸς Θεοῦ υἱὸς σωτήρ, que significam "Jesus Cristo, o Filho de Deus, o Salvador", elas formarão a palavra ἰχθὺς, isto é, "peixe", palavra na qual Cristo é misticamente compreendido, porque Ele foi capaz de viver, isto é, de existir, sem pecado no abismo desta mortalidade como na profundidade das águas.

Mas esta sibila, seja ela a Eritreia ou, como alguns acreditam, a Cumana, em todo o seu poema, do qual esta é uma pequena parte, não só não contém nada que se relacione com a adoração de deuses falsos ou fingidos, como antes se pronuncia contra eles e seus adoradores de tal forma que poderíamos até considerá-la entre os que pertencem à cidade de Deus. Lactâncio também inseriu em sua obra as profecias sobre Cristo de uma certa sibila, sem especificar qual. Mas achei conveniente reunir em um único trecho, que pode parecer longo, o que ele registrou em muitas citações curtas. Ela diz: "Depois, Ele virá para as mãos injuriosas dos incrédulos, e eles golpearão a Deus com mãos profanas e cuspirão saliva envenenada com a boca impura; mas Ele o fará com simplicidade." Ele oferecerá suas costas sagradas aos açoites. E se calará quando for atingido pelo punho, para que ninguém descubra que palavra, ou de onde, Ele vem falar ao inferno; e será coroado com uma coroa de espinhos. E deram-lhe fel por alimento e vinagre para a sua sede; prepararão esta mesa de inospitalidade. Porque tu, sendo insensato, não compreendeste o teu Deus, enganando o entendimento dos mortais, mas o coroaste com espinhos e lhe misturaste fel amargo. Mas o véu do templo se rasgará; e ao meio-dia haverá mais trevas do que a noite durante três horas. E ele morrerá, dormindo por três dias; E então, retornando do inferno, Ele primeiro virá à luz, sendo o início da ressurreição mostrado aos que foram lembrados." Lactâncio utilizou esses testemunhos sibilinos, introduzindo-os gradualmente no decorrer de sua discussão, conforme as coisas que pretendia provar pareciam exigir, e nós os registramos em uma série contínua, sem comentários, tomando o cuidado apenas de marcá-los com letras maiúsculas, contanto que os transcritores não se esqueçam de preservá-los daqui em diante. Alguns autores, de fato, dizem que a sibila de Eritreia não era da época de Rômulo, mas da Guerra de Troia.

24. Que os sete sábios floresceram no reinado de Rômulo, quando as dez tribos que eram chamadas de Israel foram levadas em cativeiro pelos caldeus, e Rômulo, quando morto, recebeu honras divinas.

Durante o reinado de Rômulo, Tales, o Milesiano, teria vivido, sendo um dos sete sábios que sucederam os poetas teológicos, dos quais Orfeu era o mais renomado, e que eram chamados de Σοφοί, isto é, sábios. Nesse período, as dez tribos, que na divisão dos povos eram chamadas de Israel, foram conquistadas pelos caldeus e levadas cativas para suas terras, enquanto as duas tribos, chamadas de Judá, que tinham a sede de seu reino em Jerusalém, permaneceram na Judeia. Como Rômulo, após sua morte, não pôde ser encontrado em lugar nenhum, os romanos, como é notório em todos os lugares, o colocaram entre os deuses — algo que já havia deixado de ser feito naquela época, e que não foi repetido até o período dos Césares, e mesmo assim não por erro, mas por bajulação; de modo que Cícero atribui grandes louvores a Rômulo, porque ele mereceu tais honras não em tempos rudes e incultos, quando os homens Eram facilmente enganados, mas em tempos já refinados e eruditos, embora a loquacidade sutil e aguda dos filósofos ainda não tivesse atingido seu ápice. Mas, embora os tempos posteriores não divinizassem os mortos, não deixaram de venerar como deuses aqueles divinizados na antiguidade; aliás, por meio de imagens, que os antigos jamais possuíram, intensificaram os encantos da vã e ímpia superstição, instigados pelos demônios impuros em seus corações, e também os enganando com oráculos mentirosos, de modo que até mesmo os crimes fabulosos dos deuses, jamais imaginados por uma época mais polida, eram vilmente encenados nas peças em honra dessas mesmas falsas divindades. Numa reinou após Rômulo; e embora acreditasse que Roma estaria melhor defendida quanto mais deuses existissem, ao morrer, ele próprio não foi considerado digno de um lugar entre eles, como se supusesse que ele tivesse lotado tanto o céu que não houvesse lugar para ele lá. Relatam que a sibila de Samos viveu enquanto ele reinava em Roma, e quando Manassés começou a reinar sobre os hebreus — um rei ímpio, por quem se diz que o profeta Isaías foi morto.

25. Quais filósofos eram famosos quando Tarquínio Prisco reinava sobre os romanos, e Zedequias sobre os hebreus, quando Jerusalém foi tomada e o templo destruído?

Quando Zedequias reinou sobre os hebreus e Tarquínio Prisco, sucessor de Anco Márcio, sobre os romanos, o povo judeu foi levado cativo para a Babilônia, e Jerusalém e o templo construído por Salomão foram destruídos. Pois os profetas, ao repreendê-los por sua iniquidade e impiedade, predisseram que essas coisas aconteceriam, especialmente Jeremias, que chegou a mencionar o número de anos. Pítaco de Mitilene, outro dos sábios, teria vivido nessa época. E Eusébio escreve que, enquanto o povo de Deus estava cativo na Babilônia, outros cinco sábios viveram, os quais devem ser somados a Tales, já mencionado, e a Pítaco, para completar os sete. São eles: Sólon de Atenas, Quilo de Lacedemônia, Periandro de Corinto, Cleóbulo de Lindus e Bias de Priene. Esses poetas floresceram depois dos poetas teológicos e eram chamados de sábios, porque se destacavam entre os demais em uma determinada área louvável da vida e sintetizavam alguns preceitos morais em ditos epigramáticos. Mas não deixaram à posteridade nenhum legado literário. Os monumentos, com exceção de Sólon, que teria dado certas leis aos atenienses, e Tales, um filósofo natural, que deixou livros de sua doutrina em provérbios concisos. Na época do cativeiro judaico, floresceram Anaximandro, Anaxímenes e Xenófanes, filósofos naturais. Pitágoras também viveu nessa época, e foi nesse período que o termo "filósofo" foi usado pela primeira vez.

26. Que, na época em que o cativeiro dos judeus chegou ao fim, ao completar setenta anos, os romanos também foram libertados do domínio real.

Nessa época, Ciro, rei da Pérsia, que também governava os caldeus e assírios, tendo aliviado um pouco o cativeiro dos judeus, fez com que cinquenta mil deles retornassem para reconstruir o templo. Eles apenas começaram os primeiros alicerces e construíram o altar; mas, devido a invasões hostis, não puderam prosseguir, e a obra foi adiada para o tempo de Dario. Durante esse mesmo período, também foram feitos os eventos descritos no livro de Judite, que, aliás, diz-se que os judeus não receberam no cânon das Escrituras. Sob o reinado de Dario, rei da Pérsia, então, ao término dos setenta anos preditos pelo profeta Jeremias, o cativeiro dos judeus chegou ao fim e eles foram libertados. Tarquínio reinou então como o sétimo rei dos romanos. Com sua expulsão, eles também começaram a se libertar do domínio de seus reis. Até então, o povo de Israel teve profetas; Mas, embora fossem numerosos, os escritos canônicos de apenas alguns deles foram preservados entre os judeus e entre nós. Ao concluir o livro anterior, prometi escrever algo sobre eles neste, e farei isso agora.

27. Dos tempos dos profetas cujos oráculos estão contidos em livros, e que cantaram muitas coisas sobre o chamado dos gentios no tempo em que o reino romano começou e o assírio chegou ao fim.

Para que possamos considerar esses tempos, vamos retroceder um pouco a tempos anteriores. No início do livro do profeta Oséias, que é o primeiro dos doze, está escrito: "Palavra do Senhor que veio a Oséias nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá." Amós também escreve que profetizou nos dias de Uzias e acrescenta o nome de Jeroboão, rei de Israel, que viveu na mesma época. tempo. Isaías, filho de Amós — seja o profeta acima mencionado, ou, como é mais provável, outro que não era profeta, mas era chamado pelo mesmo nome — também coloca no início de seu livro estes quatro reis nomeados por Oseias, dizendo a título de prefácio que ele profetizou em seus dias. Miquéias também menciona os mesmos tempos que os de sua profecia, depois dos dias de Uzias; pois ele nomeia os mesmos três reis que Oseias nomeou: Jotão, Acaz e Ezequias. Encontramos em seus próprios escritos que esses homens profetizaram contemporaneamente. A estes se acrescentam Jonas, no reinado de Uzias, e Joel, no de Jotão, que sucedeu Uzias. Mas podemos encontrar a data desses dois profetas nas crônicas, não em seus próprios escritos, pois eles mesmos nada dizem sobre isso. Ora, esses dias se estendem desde Procas, rei dos latinos, ou seu predecessor Aventino, até Rômulo, rei dos romanos, ou mesmo até o início do reinado de seu sucessor, Numa Pompílio. Ezequias, rei de Judá, certamente reinou até então. Assim, essas fontes de profecia, como posso chamá-las, jorraram de uma só vez durante aqueles tempos em que o reino assírio fracassou e o romano começou; de modo que, assim como no primeiro período do reino assírio surgiu Abraão, a quem foram feitas as promessas mais distintas de que todas as nações seriam abençoadas em sua descendência, assim também no início da Babilônia ocidental, no tempo de cujo governo Cristo viria, em quem essas promessas seriam cumpridas, os oráculos dos profetas foram dados não apenas oralmente, mas também por escrito, como testemunho de que tão grande coisa aconteceria. Pois, embora o povo de Israel raramente tenha ficado sem profetas desde que começaram a ter reis, estes serviam apenas para seu próprio uso, não para o das nações. Mas quando as Escrituras, com seu caráter mais manifestamente profético, começaram a ser formadas, as quais também beneficiariam as nações, foi apropriado que isso começasse com a fundação desta cidade que governaria as nações.

28. Das coisas concernentes ao evangelho de Cristo que Oséias e Amós profetizaram.

O profeta Oséias fala de forma tão profunda que é um trabalho árduo compreender seu significado. Mas, segundo Prometo que devemos inserir algo do seu livro. Ele diz: "E acontecerá que, no lugar onde lhes foi dito: Vós não sois o meu povo, ali serão chamados filhos do Deus vivo." Até mesmo os apóstolos entenderam isso como um testemunho profético do chamado das nações que antes não pertenciam a Deus; e porque este mesmo povo dos gentios está espiritualmente entre os filhos de Abraão, e por essa razão é corretamente chamado Israel, portanto ele continua dizendo: “E os filhos de Judá e os filhos de Israel serão reunidos em um só, e constituirão para si uma só cabeça, e subirão da terra”. Só diluiríamos o sabor deste oráculo profético se nos propuséssemos a interpretá-lo. Que o leitor se lembre daquela pedra angular e daqueles dois muros de separação, um dos judeus, o outro dos gentios, e ele os reconhecerá, uns sob o termo filhos de Judá, os outros como filhos de Israel, sustentando-se sob a mesma chefia e ascendendo da terra. Mas que aqueles israelitas carnais que agora não querem crer em Cristo crerão depois, isto é, seus filhos crerão (pois eles mesmos, é claro, irão para o seu próprio lugar pela morte), este mesmo profeta testifica, dizendo: "Porque os filhos de Israel permanecerão muitos dias sem rei, sem príncipe, sem sacrifício, sem altar, sem sacerdócio, sem manifestações". Quem não vê que os judeus estão agora assim? Mas ouçamos o que ele acrescenta: “E depois os filhos de Israel voltarão, e buscarão o Senhor seu Deus, e Davi seu rei, e ficarão maravilhados com o Senhor e com a sua bondade nos últimos dias”. Nada é mais claro do que esta profecia, na qual por Davi, distinguido pelo título de rei, Cristo deve ser entendido, “que é feito”, como diz o apóstolo, “da semente de Davi segundo a carne”. Este profeta também predisse a ressurreição de Cristo no terceiro dia, como convinha que fosse predito, com altivez profética, quando diz: «Ele nos curará depois de dois dias, e no terceiro dia ressuscitaremos». Concordando com isso, o apóstolo nos diz: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são acima." Amós também profetiza assim sobre essas coisas: “Prepara-te, ó Israel, para invocares o teu Deus; porque eis que eu acorrento o trovão, e crio o espírito, e anuncio aos homens o seu Cristo”. E em outro lugar ele diz: “Naquele dia, levantarei a tenda caída de Davi e reconstruirei as suas brechas; levantarei as suas ruínas e as reconstruirei como nos dias antigos, para que o restante dos homens me consulte, e todas as nações sobre as quais o meu nome é invocado, diz o Senhor que faz isto”.

29. Que coisas Isaías predisseram a respeito de Cristo e da Igreja.

A profecia de Isaías não se encontra no livro dos doze profetas, chamados de menores pela brevidade de seus escritos, em comparação com aqueles chamados de maiores profetas por terem publicado volumes maiores. Isaías pertence a este último grupo, contudo, eu o associo aos dois mencionados anteriormente, pois profetizou na mesma época. Isaías, então, juntamente com suas repreensões à maldade, preceitos de justiça e predições do mal, profetizou muito mais do que os demais sobre Cristo e a Igreja, isto é, sobre o Rei e a cidade que ele fundou; de modo que alguns dizem que ele deveria ser chamado de evangelista em vez de profeta. Mas, para concluir esta obra, cito apenas uma passagem dentre muitas presentes aqui. Falando em nome do Pai, ele diz: "Eis que o meu servo entenderá, e será exaltado e glorificado grandemente; e muitos se maravilharão contigo." Isto diz respeito a Cristo.

Mas ouçamos agora o que se segue sobre a Igreja. Ele diz: "Alegra-te, ó estéril, tu que não tens filhos; exulta e clama, tu que não tiveste dores de parto; porque muito mais são os filhos da mulher desolada do que os daquela que tem marido." Mas estes devem bastar; e algumas coisas neles devem ser explicadas; contudo, considero suficientes as partes que são tão claras que até os inimigos terão de ser obrigados contra a sua vontade a compreendê-las.

30. O que Miquéias, Jonas e Joel profetizaram de acordo com o Novo Testamento.

O profeta Miquéias, representando Cristo sob a figura de uma grande montanha, diz o seguinte: "Nos últimos dias, o monte do Senhor, que se manifestará, será preparado no cume dos montes e se elevará acima das colinas; e a ele acorrerão os povos. Muitas nações virão e dirão: 'Venham, subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, para que ele nos ensine o seu caminho e andemos nas suas veredas. Pois de Sião sairá a lei, e de Jerusalém, a palavra do Senhor. Ele julgará entre muitos povos e repreenderá nações poderosas até mesmo de longe.'" Este profeta prediz o próprio lugar onde Cristo nasceu, dizendo: “E tu, Belém, da casa de Efrata, és a menor entre os milhares de Judá; de ti me sairá um líder, que será o príncipe em Israel; e a sua origem é desde o princípio, desde os dias da eternidade. Portanto, ele os entregará até o tempo em que a que está em trabalho de parto der à luz; e o restante de seus irmãos se converterá aos filhos de Israel. E ele se levantará, e verá, e apascentará o seu rebanho na força do Senhor, e na dignidade do nome do Senhor seu Deus; porque agora será engrandecido até aos confins da terra.”

O profeta Jonas, não tanto por meio da palavra, mas sim por sua própria experiência dolorosa, profetizou a morte e ressurreição de Cristo com muito mais clareza do que se as tivesse proclamado com a sua voz. Pois por que ele foi levado para o ventre da baleia e ressuscitado ao terceiro dia, senão para ser um sinal de que Cristo retornaria das profundezas do inferno no terceiro dia?

Eu seria obrigado a usar muitas palavras para explicar tudo o que Joel profetizou, a fim de esclarecer o que diz respeito a Cristo e à Igreja. Mas há uma passagem que não posso deixar de mencionar, a qual os apóstolos também citaram quando o Espírito Santo desceu do alto sobre os crentes reunidos, conforme a promessa de Cristo. Ele diz: "E acontecerá que..." Após essas coisas, derramarei o meu Espírito sobre toda a humanidade; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos sonharão, vossos jovens terão visões; e até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei o meu Espírito naqueles dias.

31. Das predições concernentes à salvação do mundo em Cristo, em Obadias, Naum e Habacuque.

A data de três dos profetas menores, Obadias, Naum e Habacuque, não é mencionada por eles mesmos nem consta nas crônicas de Eusébio e Jerônimo. Pois, embora eles incluam Obadias junto com Miquéias, a data em que Miquéias profetizou não consta na parte de seus escritos onde as datas são registradas. E isso, creio eu, ocorreu por erro deles ao copiarem negligentemente as obras de outros. Mas não conseguimos encontrar os outros dois mencionados nas cópias das crônicas que possuímos; contudo, como estão contidos no cânone, não devemos ignorá-los.

Obadias, no que diz respeito aos seus escritos, o mais conciso de todos os profetas, fala contra a Idumeia, isto é, a nação de Esaú, aquele ancião réprobo dos gêmeos filhos de Isaque e netos de Abraão. Ora, se, por essa forma de expressão em que uma parte representa o todo, tomarmos Idumeia como sinônimo das nações, podemos entender de Cristo o que ele diz, entre outras coisas: "Mas no monte Sião haverá segurança, e ali estará o Santo". E um pouco depois, no final da mesma profecia, ele diz: “E os que forem salvos subirão do monte Sião, para defenderem o monte Esaú, e este será um reino para o Senhor”. É bastante evidente que isso se cumpriu quando aqueles que foram salvos novamente do Monte Sião — isto é, os crentes em Cristo da Judeia, dos quais os apóstolos são os principais responsáveis ​​— subiram para defender o Monte Esaú. Como poderiam defendê-lo senão tornando seguros, por meio da pregação do evangelho, aqueles que creram, para que pudessem ser “libertos do poder das trevas e transportados para o reino de Deus”? Ele expressou isso como uma inferência, acrescentando: "E será para o Senhor um reino". Pois o Monte Sião significa Judeia, onde está predito que haverá segurança e um Santo, isto é, Cristo Jesus. Mas o Monte Esaú é Idumeia, que significa a Igreja dos Gentios, a qual, como expus, aqueles salvos novamente de Sião defenderam que deveria ser um reino para o Senhor. Isso era obscuro antes de acontecer; mas qual crente não o descobre agora que aconteceu?

Quanto ao profeta Naum, por meio dele Deus diz: "Exterminarei as coisas esculpidas e as fundidas; farei a tua sepultura. Pois eis que os pés daquele que traz boas novas e anuncia a paz são velozes sobre os montes! Ó Judá, celebra as tuas festas e cumpre os teus votos, pois agora não durarão mais, para que não se tornem obsoletos. Está consumado, está consumido, está tirado. Subirá aquele que sopra em teu rosto, livrando-te da tribulação." Que aquele que se lembra do evangelho recorde aquele que ascendeu do inferno e soprou o Espírito Santo na face de Judá, isto é, dos discípulos judeus; pois eles pertencem ao Novo Testamento, cujas festas são tão espiritualmente renovadas que não podem se tornar antiquadas. Além disso, já vemos as coisas esculpidas e fundidas, isto é, os ídolos dos falsos deuses, exterminados pelo evangelho e entregues ao esquecimento como da sepultura, e sabemos que esta profecia se cumpre nisto mesmo.

De que outra coisa Habacuque se referia senão da vinda de Cristo, que estava para vir, ao dizer: "E o Senhor me respondeu, e disse: Escreve a visão claramente numa tábua de buxo, para que quem lê estas coisas entenda. Porque a visão ainda está para um tempo determinado, e no fim se cumprirá, e não será anulada; se demorar, espera-a, porque certamente virá, e não tardará?"

32. Da profecia contida na oração e no cântico de Habacuque.

Em sua oração, com um cântico, a quem senão ao Senhor Cristo ele diz: "Ó Senhor, ouvi a tua mensagem e temi; ó Senhor, considerei as tuas obras e fiquei muito assustado?" O que é isto senão a inexprimível admiração pela salvação dos homens, anunciada, nova e repentina? "No meio de duas criaturas viventes, serás reconhecido." O que é isto senão entre os dois testamentos, ou entre os Dois ladrões, ou entre Moisés e Elias conversando com Ele no monte? "Enquanto os anos se aproximam, Tu serás reconhecido; na chegada do tempo, Tu serás revelado" dispensa explicações. "Enquanto a minha alma estiver perturbada por causa dEle, na minha ira, Tu te lembrarás da misericórdia." O que é isso senão Ele se colocar no lugar dos judeus, de cuja nação Ele era, que estavam perturbados com grande ira e crucificaram Cristo, quando Ele, lembrando-se da misericórdia, disse: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem?" “Deus virá de Temã, e o Santo da montanha sombria e fechada.” O que se diz aqui, “Ele virá de Temã”, alguns interpretam como “do sul” ou “do sudoeste”, significando o meio-dia, isto é, o fervor da caridade e o esplendor da verdade. “A montanha sombria e fechada” pode ser entendida de muitas maneiras, mas prefiro interpretá-la como a profundidade das Sagradas Escrituras, nas quais Cristo é profetizado: pois nas Escrituras há muitas coisas obscuras e fechadas que exercitam a mente do leitor; e Cristo vem de lá quando aquele que tem entendimento o encontra ali. “O seu poder cobre os céus, e a terra está cheia do seu louvor.” O que é isso senão o que também é dito no salmo: “Seja exaltado, ó Deus, acima dos céus, e a tua glória acima de toda a terra?” “Seu esplendor será como a luz.” O que é isso senão que a fama dEle iluminará os crentes? “Chifres estão em Suas mãos.” O que é isso senão o troféu da cruz? “E Ele colocou a firme caridade de Sua força” dispensa explicações. "Diante da Sua face irá a palavra, e ela correrá pelo campo atrás dos Seus pés." O que significa isto senão que Ele seja anunciado antes da Sua vinda e depois do Seu retorno? "Ele se pôs de pé, e a terra tremeu." O que significa isto senão que "Ele se pôs de pé" para socorrer, "e a terra tremeu" para crer? "Ele olhou, e as nações se derreteram"; isto é, Ele teve compaixão e fez o povo se arrepender. "Os montes se quebraram com violência"; isto é, pelo poder daqueles que operam milagres, o orgulho dos soberbos é quebrado. "Os montes eternos se desfizeram"; Ou seja, eles são humilhados no tempo para que possam ser exaltados na eternidade. "Vi os Seus passos [tornados] eternos por causa dos Seus trabalhos"; isto é, contemplei o Seu trabalho de amor não deixado sem a recompensa da eternidade. "As tendas da Etiópia tremerão de medo, e as tendas da terra de Midiã"; isto é, mesmo aquelas nações que não estão sob a autoridade romana, subitamente aterrorizadas pelas notícias das Tuas maravilhosas obras, se tornarão um povo cristão. "Estavas Tu irado contra os rios, ó Senhor? Ou a Tua fúria foi contra os rios? Ou a Tua ira foi contra o mar?" Isso é dito porque Ele não vem agora para condenar o mundo, mas para que o mundo, por meio dEle, seja salvo. “Pois montarás em teus cavalos, e a tua cavalgada será salvação”; isto é, teus evangelistas te carregarão, pois são guiados por ti, e teu evangelho é salvação para aqueles que creem em ti. “Inclinando, inclinarás teu arco contra os cetros, diz o Senhor”; isto é, ameaçarás até mesmo os reis da terra com teu julgamento. “A terra será fendida por rios”; isto é, pelos sermões daqueles que te pregam, fluindo sobre eles, os corações dos homens serão abertos para fazer confissão, aos quais é dito: “Rasguem seus corações e não suas vestes”. O que significa “O povo te verá e se entristecerá”, senão que no luto eles serão abençoados? O que significa “Espalhar as águas ao marchar”, senão que, caminhando entre aqueles que por toda parte Te proclamam, espalharás para cá e para lá os rios da Tua doutrina? O que significa “O abismo proferiu a sua voz”? Não é que a profundidade do coração humano expressou o que percebeu? As palavras “A profundidade da sua fantasia” são uma explicação do versículo anterior, pois a profundidade é o abismo; e “Proferiu a sua voz” deve ser entendida antes delas, isto é, como dissemos, expressou o que percebeu. Ora, a fantasia é a visão, que não reteve nem ocultou, mas derramou em confissão. “O sol nasceu, e a lua parou no seu curso”; isto é, Cristo ascendeu ao céu, e a Igreja foi estabelecida sob o seu Rei. “Os teus dardos irão na luz”; isto é, as Tuas palavras não serão enviadas em segredo, mas abertamente. Pois Ele havia dito aos Seus próprios discípulos: “O que eu digo "Vós que estais nas trevas, vós que falais na luz." “Ameaçando, diminuirás a terra”; isto é, por meio dessa ameaça, humilharás os homens. “E em fúria, abaterás as nações”; pois, ao punir aqueles que se exaltam, os lanças uns contra os outros. “Saíste para a salvação do teu povo, para que pudesses salvar o teu Cristo; enviaste a morte sobre a cabeça dos ímpios.” Nenhuma dessas palavras requer explicação. “Levantaste as cadeias, até o pescoço.” Isso pode ser entendido até mesmo como as boas cadeias da sabedoria, para que os pés sejam colocados em seus grilhões e o pescoço em seu colarinho. “Quebraste, em espanto da mente, as cadeias” deve ser entendido, pois Ele exalta o bem e destrói o mal, sobre o qual Lhe é dito: “Quebraste as minhas cadeias”, e que “em espanto da mente”, isto é, maravilhosamente. “As cabeças dos poderosos se comoverão com isso”; a saber, nessa admiração. “Eles abrirão os dentes como um pobre que come às escondidas.” Pois alguns dos poderosos entre os judeus virão ao Senhor, admirando Suas obras e palavras, e comerão avidamente o pão de Sua doutrina em segredo por medo dos judeus, assim como o Evangelho mostrou que fizeram. “E enviaste ao mar os teus cavalos, agitando muitas águas”, que nada mais são do que muitas pessoas; pois, a menos que todos fossem perturbados, alguns não se converteriam com medo, outros perseguidos com fúria. “Prestei atenção, e o meu ventre estremeceu à voz da oração dos meus lábios; e um tremor entrou nos meus ossos, e o meu corpo se agitou debaixo de mim.” Ele prestou atenção àquelas coisas que disse e ficou aterrorizado com a sua própria oração, que havia proferido profeticamente, e na qual discerniu coisas que estavam por vir. Pois, quando muitas pessoas estavam aflitas, ele viu a ameaçadora tribulação da Igreja e imediatamente reconheceu-se como membro dela, dizendo: "Descansarei no dia da tribulação", como alguém que se alegra na esperança e é paciente na tribulação. “Para que eu possa ascender”, diz ele, “entre o povo da minha peregrinação”, afastando-me completamente do povo perverso de sua linhagem carnal, que não são peregrinos nesta terra e não buscam a pátria acima. "Embora “A figueira”, diz ele, “não florescerá, nem haverá fruto na videira; o fruto da oliveira ficará em vão, e os campos não produzirão mantimento; as ovelhas serão separadas do pasto, e não haverá bois nos currais.” Ele vê aquela nação que iria matar Cristo prestes a perder a abundância de provisão espiritual, que, de forma profética, ele apresentou pela figura da fartura terrena. E porque aquela nação iria sofrer tamanha ira de Deus, porque, ignorando a justiça de Deus, desejava estabelecer a sua própria, ele diz imediatamente: “Contudo, eu me alegrarei no Senhor; exultarei em Deus, minha salvação. O Senhor Deus é a minha força, e ele firmará os meus pés; ele me colocará acima das alturas, para que eu vença no seu cântico”, a saber, naquele cântico do qual algo semelhante é dito no salmo: “Ele pôs os meus pés sobre uma rocha, e dirigiu os meus passos; e pôs na minha boca um cântico novo, um hino ao nosso Deus”. Portanto, ele vence no cântico do Senhor, que se deleita no louvor d'Ele, e não no seu próprio; porque "Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor". Mas algumas cópias trazem: “Alegrarei-me em Deus meu Jesus”, o que me parece melhor do que a versão daqueles que, querendo colocá-la em latim, não escreveram esse mesmo nome que para nós é mais querido e doce de pronunciar.

33. O que Jeremias e Sofonias, pelo Espírito profético, falaram antes a respeito de Cristo e da vocação das nações.

Jeremias, assim como Isaías, é um dos grandes profetas, não dos menores, como os outros cujos escritos acabei de citar. Ele profetizou quando Josias reinava em Jerusalém e Anco Márcio em Roma, quando o cativeiro dos judeus já estava próximo; e continuou a profetizar até o quinto mês do cativeiro, como constatamos em seus escritos. Sofonias, um dos profetas menores, é incluído junto com ele, porque ele próprio afirma ter profetizado nos dias de Josias; porém, não especifica até quando. Jeremias, portanto, profetizou não apenas nos tempos de Anco Márcio, mas também nos de Tarquínio Prisco, que os romanos tiveram como seu quinto rei. Pois ele já havia começado a reinar quando o cativeiro ocorreu. Jeremias, ao profetizar sobre Cristo, diz: "O fôlego da nossa boca, o Senhor Cristo, foi tomado em nossos pecados," mostrando assim brevemente que Cristo é nosso Senhor e que Ele sofreu por nós. Também em outro lugar ele diz: “Este é o meu Deus, e não haverá outro que se compare a Ele; que descobriu todo o caminho da prudência e o deu a Jacó, seu servo, e a Israel, seu amado; depois disso, foi visto na terra e conversou com os homens”. Alguns atribuem este testemunho não a Jeremias, mas ao seu secretário, chamado Baruque; porém, é mais comum atribuí-lo a Jeremias. Novamente, o mesmo profeta diz a respeito d'Ele: "Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi um renovo justo, e reinará um rei sábio, que praticará o juízo e a justiça na terra. Naqueles dias, Judá será salvo, e Israel habitará em segurança; e este é o nome pelo qual o chamarão: Nosso Senhor justo". E sobre o chamado das nações que havia de acontecer, e que agora vemos cumprido, ele assim falou: “Ó Senhor meu Deus, e meu refúgio no dia dos males, a ti virão as nações desde os confins da terra, dizendo: Na verdade, nossos pais adoraram imagens falsas, nas quais não há proveito algum”. Mas que os judeus, pelos quais Ele deveria até ser morto, não iriam reconhecê-Lo, este profeta assim indica: "O coração de todos está pesado; e Ele é um homem, e quem O conhecerá?" Essa passagem também é dele, a qual citei no décimo sétimo livro referente ao novo testamento, do qual Cristo é o Mediador. Pois o próprio Jeremias diz: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que completarei sobre a casa de Jacó um novo testamento”, e o restante, que pode ser lido ali.

Por ora, registrarei as profecias a respeito de Cristo feitas pelo profeta Sofonias, que profetizou com Jeremias: "Esperem em mim, diz o Senhor, no dia da minha ressurreição, pois determinei reunir as nações e congregar os reinos." E novamente ele diz: “O Senhor será terrível sobre eles e exterminará todos os deuses da terra; e eles serão Adorem-no todos em seus lugares, sim, em todas as ilhas das nações." E um pouco depois, ele diz: “Então darei aos povos uma língua, e aos seus descendentes, para que invoquem o nome do Senhor e o sirvam sob um só jugo. Das margens dos rios da Etiópia me trarão sacrifícios. Naquele dia, não serás confundido por todas as tuas artimanhas, que impiamente praticaste contra mim; porque então tirarei de ti a maldade da tua transgressão, e não te engrandecerás mais sobre o teu santo monte. E deixarei em ti um povo manso e humilde, e os que restarem de Israel temerão o nome do Senhor.” Estes são os remanescentes dos quais o apóstolo cita o que está profetizado em outro lugar: “Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, um remanescente será salvo”. Estes são os remanescentes daquela nação que creram em Cristo.

34. Da profecia de Daniel e Ezequiel, outros dois dos maiores profetas.

Daniel e Ezequiel, outros dois grandes profetas, também profetizaram pela primeira vez durante o cativeiro na Babilônia. Daniel chegou a definir o tempo em que Cristo viria e sofreria, especificando a data exata. Seria muito extenso demonstrar isso por meio de cálculos, e isso já foi feito diversas vezes por outros antes de nós. Mas sobre o Seu poder e glória, ele assim falou: "Eu estava olhando em uma visão noturna, e eis que vinha com as nuvens do céu um semelhante ao Filho do homem; e dirigiu-se ao Ancião de Dias, e fizeram-lhe comparecer perante ele. E foi-lhe dado domínio, e honra, e o reino; e todos os povos, tribos e línguas o servirão. O seu poder é um poder eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído."

Ezequiel também, falando profeticamente em nome de Deus Pai, prediz Cristo desta forma, referindo-se a Ele de maneira profética como Davi, porque Ele assumiu a carne da descendência de Davi e, por causa dessa forma de servo na qual se fez homem, Aquele que é o Filho de Deus também é chamado de servo de Deus. Ele diz: "E eu estabelecerei sobre Tenho um só pastor para as minhas ovelhas, o meu servo Davi; ele as apascentará e lhes servirá de pastoreio. Eu, o Senhor, serei o seu Deus, e o meu servo Davi, príncipe no meio delas. Eu, o Senhor, falei. E em outro lugar ele diz: “E haverá um só Rei sobre todos eles; e nunca mais serão duas nações, nem se dividirão mais em dois reinos; nem se contaminarão mais com os seus ídolos, e com as suas abominações, e com todas as suas iniquidades. E eu os salvarei de todas as suas moradas em que pecaram, e os purificarei; e eles serão o meu povo, e eu serei o seu Deus. E o meu servo Davi será rei sobre eles, e haverá um só Pastor para todos eles.”

35. Da profecia dos três profetas, Ageu, Zacarias e Malaquias.

Restam três profetas menores, Ageu, Zacarias e Malaquias, que profetizaram no final do cativeiro. Destes, Ageu profetizou mais abertamente sobre Cristo e a Igreja, desta forma sucinta: "Assim diz o Senhor dos Exércitos: Ainda um pouco, e abalarei os céus, e a terra, e o mar, e a terra seca; e farei estremecer todas as nações, e virá o desejado de todas as nações." O cumprimento desta profecia já se vê em parte e, em parte, espera-se no fim. Pois Ele comoveu os céus com o testemunho dos anjos e das estrelas, quando Cristo se encarnou. Comoveu a terra com o grande milagre do Seu nascimento da virgem. Comoveu o mar e a terra seca, quando Cristo foi proclamado tanto nas ilhas como em todo o mundo. Assim, vemos todas as nações movidas à fé; e o cumprimento do que se segue, “E virá o desejado de todas as nações”, é aguardado na Sua última vinda. Pois, antes que os homens possam desejá-Lo e esperá-Lo, devem crer e amá-Lo.

Zacarias diz de Cristo e da Igreja: "Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém! Eis que o teu Rei virá a ti, justo e Salvador; ele mesmo, pobre, montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta; e o seu domínio se estenderá de mar a mar, e desde o rio até aos confins da terra." Como isso foi feito, Quando o Senhor Cristo, em Sua jornada, usou um animal de carga desse tipo, lemos no Evangelho, onde também é citada a quantidade de profecia que parece suficiente para o contexto. Em outro lugar, falando no Espírito de profecia ao próprio Cristo sobre a remissão dos pecados por meio de Seu sangue, Ele diz: "Tu também, pelo sangue da Tua aliança, libertaste os Teus prisioneiros do lago em que não há água." Podem existir opiniões diferentes, coerentes com a crença correta, quanto ao que ele quis dizer com este lago. No entanto, parece-me que nenhum significado se adequa melhor do que o da profundidade da miséria humana, que é, por assim dizer, seca e estéril, onde não há rios de justiça, mas apenas o lamaçal da iniquidade. Pois está escrito nos Salmos: "E ele me tirou do lago da miséria e do lamaçal".

Malaquias, prevendo a Igreja que agora vemos propagada por meio de Cristo, diz abertamente aos judeus, na pessoa de Deus: "Não tenho prazer em vós, e não aceitarei oferta alguma de vossas mãos. Porque desde o nascer até ao pôr do sol, o meu nome é grande entre as nações; e em todo lugar se oferecerá sacrifício, e oferta pura se apresentará ao meu nome; porque o meu nome será grande entre as nações, diz o Senhor." Visto que já podemos ver este sacrifício oferecido a Deus em todo lugar, desde o nascer do sol até o seu pôr, por meio do sacerdócio de Cristo segundo a ordem de Melquisedeque, enquanto os judeus, aos quais foi dito: “Não tenho prazer em vós, nem aceitarei oferta alguma de vossas mãos”, não podem negar que seu sacrifício cessou, por que ainda procuram outro Cristo, quando leem isso na profecia e a veem cumprida, a qual não poderia se cumprir senão por meio dEle? E um pouco depois, diz dEle, na pessoa de Deus: “A minha aliança com Ele foi de vida e paz; e eu lhe dei para que me temesse com temor, e reverenciasse o meu nome. A lei da verdade estava em sua boca; dirigindo em paz, andou comigo e desviou muitos da iniquidade. Porque os lábios do sacerdote guardarão o conhecimento, e da sua boca buscarão a lei; porque ele é o Anjo do Senhor Todo-Poderoso”. Nem é de admirar que Cristo Jesus seja chamado de Anjo do Deus Todo-Poderoso. Pois assim como Ele é chamado de servo por causa da forma de servo com que veio aos homens, também é chamado de anjo por causa do evangelho que proclamou aos homens. Pois, se interpretarmos essas palavras gregas, evangelho significa "boas novas" e anjo significa "mensageiro". Novamente, Ele diz a respeito dEle: "Eis que enviarei o meu anjo, que vigiará o caminho diante da minha face; e de repente virá ao seu templo o Senhor, a quem vós buscais, o anjo da aliança, a quem vós desejais. Eis que ele vem, diz o Senhor Todo-Poderoso; e quem poderá permanecer no dia da sua entrada? E quem poderá subsistir na sua aparição?" Neste lugar ele predisse tanto a primeira quanto a segunda vinda de Cristo: a primeira, a saber, da qual ele diz: “E Ele virá subitamente ao Seu templo”; isto é, à Sua carne, da qual Ele disse no Evangelho: “Destruam este templo, e em três dias Eu o reconstruirei”. E da segunda vinda ele diz: “Eis que Ele vem, diz o Senhor Todo-Poderoso, e quem poderá permanecer no dia da Sua entrada, ou quem poderá subsistir na Sua aparição?” Mas o que ele diz: “O Senhor a quem buscais, e o Anjo da aliança a quem desejais”, significa justamente que até mesmo os judeus, segundo as Escrituras que liam, buscariam e desejariam a Cristo. Mas muitos deles não reconheceram que Aquele a quem buscavam e desejavam havia vindo, estando cegos em seus corações, que estavam preocupados com seus próprios méritos. Ora, o que ele aqui chama de aliança, seja acima, onde diz: “A minha aliança esteve com Ele”, seja aqui, onde O chamou de Anjo da aliança, devemos, sem dúvida, tomar como sendo a nova aliança, na qual as coisas prometidas são eternas, e não a antiga, na qual são apenas temporais. No entanto, muitos que são fracos se perturbam ao ver os ímpios abundarem em tais coisas temporais, porque as valorizam muito e servem ao verdadeiro Deus para serem recompensados ​​com elas. Por essa razão, para distinguir a bem-aventurança eterna do Novo Testamento, que será dada somente aos bons, da felicidade terrena do Antigo Testamento, que em grande parte é dada também aos maus, o mesmo profeta diz: "Vós me tornastes pesado com as vossas palavras; contudo, dizeis: Em que temos falado mal de ti? Dissestes: Insensato é todo aquele que serve a Deus; e que proveito temos em guardar os seus preceitos e em andar como suplicantes diante da face do Senhor Todo-Poderoso? E agora chamamos os estrangeiros de bem-aventurados; sim, todos os que praticam o mal são edificados novamente; sim, eles se opõem a Deus e são salvos. Os que temiam ao Senhor proferiram essas injúrias cada um ao seu próximo; e o Senhor atentou e ouviu; e escreveu um livro de memória diante de si, para os que temem ao Senhor e reverenciam o seu nome. Por esse livro entende-se o Novo Testamento. Finalmente, ouçamos o que se segue: "Eles serão minha aquisição, diz o Senhor Todo-Poderoso, no dia que eu fizer; e eu os escolherei como um pai escolhe o seu filho, aquele que o serve. E vós voltareis e discernireis entre o justo e o injusto, e entre o que serve a Deus e o que não o serve. Porque eis que vem o dia ardendo como uma fornalha, e os consumirá; e todos os estrangeiros e todos os que praticam a impiedade serão como palha; e o dia que há de vir os abrasará, diz o Senhor Todo-Poderoso, e não deixará nem raiz nem ramo. E para vós, que temeis o meu nome, nascerá o Sol da Justiça, e saúde haverá nas suas asas; e saireis e exultareis como bezerros soltos das correntes. E pisareis os ímpios, e eles serão como cinzas debaixo dos vossos pés, no dia em que eu fizer isso, diz o Senhor Todo-Poderoso." Este dia é o dia do julgamento, do qual, se Deus quiser, falaremos mais detalhadamente no seu próprio lugar.

36. Sobre Esdras e os livros dos Macabeus.

Após esses três profetas, Ageu, Zacarias e Malaquias, durante o mesmo período da libertação do povo da servidão babilônica, Esdras também escreveu, sendo este último mais histórico do que profético, assim como o livro chamado Ester, que relata, para o louvor de Deus, eventos não muito distantes daquela época; a menos, talvez, que Esdras deva ser entendido como profetizando sobre Cristo naquela passagem onde, surgida entre alguns jovens a respeito do que era mais forte, um respondeu reis, outro vinho, e o terceiro mulheres, que em sua maioria governam reis, e ainda assim... O mesmo terceiro jovem demonstrou que a verdade triunfa sobre tudo. Pois, consultando o Evangelho, aprendemos que Cristo é a Verdade. Desde esse tempo, quando o templo foi reconstruído, até a época de Aristóbulo, os judeus não tiveram reis, mas príncipes; e a contagem de suas datas é encontrada, não nas Sagradas Escrituras, que são chamadas de canônicas, mas em outras, entre as quais estão também os livros dos Macabeus. Estes são considerados canônicos, não pelos judeus, mas pela Igreja, por causa dos sofrimentos extremos e maravilhosos de certos mártires que, antes da vinda de Cristo em carne, lutaram pela lei de Deus até a morte e suportaram males gravíssimos e horríveis.

37. Que foram encontrados registros proféticos mais antigos do que qualquer fonte da filosofia gentia.

Na época de nossos profetas, cujos escritos já haviam chegado ao conhecimento de quase todas as nações, os filósofos das nações ainda não haviam surgido — pelo menos não aqueles que receberam esse nome, que se originou com Pitágoras de Samos, que se tornava famoso na época em que terminou o cativeiro judaico. Muito mais, então, são os outros filósofos que surgiram depois dos profetas. Pois até mesmo Sócrates, o ateniense, o mestre de todos os que então eram mais famosos, detentor da preeminência no campo chamado moral ou ativo, é mencionado nas crônicas depois de Esdras. Platão também nasceu não muito depois, e superou em muito os outros discípulos de Sócrates. Se, além destes, considerarmos seus predecessores, que ainda não haviam sido chamados de filósofos, a saber, os sete sábios, e depois os físicos que sucederam Tales e imitaram sua investigação estudiosa da natureza das coisas, como Anaximandro, Anaxímenes e Anaxágoras, e alguns outros, antes de Pitágoras se declarar filósofo, mesmo estes não precederam todos os nossos profetas na antiguidade, visto que Tales, a quem os outros sucederam, teria florescido no reinado de Rômulo, quando a corrente da profecia jorrou das fontes de Israel nos escritos que se espalharam por todo o mundo. Assim, apenas os poetas teológicos Orfeu, Lino e Museu, e talvez alguns outros, Entre os gregos, encontramos escritos que são mais antigos do que os dos profetas hebreus, cujos escritos consideramos como autoridade. Mas nem mesmo estes precederam no tempo o nosso verdadeiro divino, Moisés, que pregou autenticamente o único Deus verdadeiro, e cujos escritos são os primeiros no cânone autorizado; e, portanto, os gregos, em cuja língua a literatura desta época se concentra principalmente, não têm motivos para se vangloriar de sua sabedoria, na qual a nossa religião, que contém a verdadeira sabedoria, é evidentemente mais antiga, senão superior. Contudo, é preciso reconhecer que antes de Moisés já existia, não entre os gregos, mas entre nações bárbaras, como no Egito, alguma doutrina que poderia ser chamada de sabedoria deles, caso contrário não estaria escrito nos livros sagrados que Moisés era versado em toda a sabedoria dos egípcios. como ele era, quando, tendo nascido lá, e sido adotado e amamentado pela filha do Faraó, também recebeu uma educação liberal. Contudo, nem mesmo a sabedoria dos egípcios poderia ser anterior no tempo à sabedoria dos nossos profetas, porque até Abraão era um profeta. E que sabedoria poderia haver no Egito antes de Ísis lhes ter dado as cartas, a quem eles consideraram digno de adorar como uma deusa após a sua morte? Ora, Ísis é declarada como sendo filha de Ínaco, que começou a reinar em Argos quando se sabe que os netos de Abraão já tinham nascido.

38. Que o cânone eclesiástico não admitiu certos escritos devido à sua antiguidade demasiadamente avançada, para que por meio deles não se inserissem coisas falsas em lugar das verdadeiras.

Se me permitem recordar tempos muito mais antigos, o nosso patriarca Noé certamente viveu antes mesmo do grande dilúvio, e eu não poderia chamá-lo injustamente de profeta, visto que a arca que construiu, na qual escapou com a sua família, foi em si uma profecia dos nossos tempos. E quanto a Enoque, o sétimo depois de Adão? Não declara a epístola canônica do apóstolo Judas que ele profetizou? Mas os escritos desses homens não podiam ser considerados como autoritativos nem entre os judeus nem entre nós, devido à sua antiguidade excessiva, o que fazia parecer necessário encará-los com suspeita, para que não fossem apresentadas coisas falsas em vez de verdadeiras. Pois alguns escritos que se dizem ser deles são citados por aqueles que, segundo a sua própria autoria, humor, acreditam livremente no que lhes convém. Mas a pureza do cânone não admitiu esses escritos, não porque a autoridade desses homens que agradaram a Deus seja rejeitada, mas porque não se acredita que sejam deles. Nem deveria parecer estranho que escritos dos quais se reivindica tamanha antiguidade sejam vistos com suspeita, visto que na própria história dos reis de Judá e Israel, contendo seus atos, que cremos pertencerem às Escrituras canônicas, muitas coisas são mencionadas que não são explicadas ali, mas que se diz encontrarem em outros livros que os profetas escreveram, sendo por vezes mencionados os próprios nomes desses profetas, e, no entanto, não se encontram no cânone que o povo de Deus recebeu. Ora, confesso que a razão disso me é oculta; apenas penso que mesmo aqueles homens, aos quais certamente o Espírito Santo revelou as coisas que deveriam ser consideradas de autoridade religiosa, poderiam escrever algumas coisas como homens, por diligência histórica, e outras como profetas, por inspiração divina; E essas coisas eram tão distintas que se julgou que as primeiras deveriam ser atribuídas a si mesmas, mas as últimas a Deus falando por meio delas; e assim, uma pertencia à abundância do conhecimento, a outra à autoridade da religião. É nessa autoridade que o cânone se guarda. De modo que, se quaisquer escritos fora dele forem apresentados sob o nome dos antigos profetas, não podem servir nem mesmo como auxílio ao conhecimento, porque é incerto se são genuínos; e por essa razão não são confiáveis, especialmente aqueles em que se encontram coisas que são até mesmo contrárias à verdade dos livros canônicos, de modo que fica bastante evidente que não lhes pertencem.

39. Sobre os caracteres hebraicos escritos que essa língua sempre possuiu.

Ora, não devemos acreditar que Héber, de cujo nome deriva a palavra hebraico, preservou e transmitiu a língua hebraica a Abraão apenas como língua falada, e que o alfabeto hebraico surgiu com a entrega da lei por meio de Moisés; mas sim que essa língua, juntamente com seu alfabeto, foi preservada por essa sucessão de patriarcas. Moisés, de fato, designou alguns dentre o povo de Deus para ensinar o alfabeto, antes mesmo que pudessem conhecer qualquer letra da lei divina. As Escrituras chamam esses homens de γραμματεισαγωγεῖς, que em latim podem ser chamados de inductores ou introductores de letras, porque eles, por assim dizer, as introduzem nos corações dos aprendizes, ou melhor, conduzem aqueles a quem ensinam a elas. Portanto, nenhuma nação poderia se vangloriar sobre nossos patriarcas e profetas por qualquer vaidade perversa quanto à antiguidade de sua sabedoria; visto que nem mesmo o Egito, que costuma se gloriar falsa e vãmente na antiguidade de suas doutrinas, precedeu no tempo a sabedoria de nossos patriarcas em sua própria sabedoria, tal como a possui. Tampouco alguém ousaria dizer que eles eram hábeis em ciências maravilhosas antes de conhecerem as letras, isto é, antes de Ísis vir e ensiná-las lá. Além disso, o que era, em grande parte, aquela memorável doutrina que chamavam de sabedoria senão astronomia, e talvez outras ciências do mesmo tipo, que geralmente têm mais poder para exercitar o intelecto dos homens do que para iluminar suas mentes com verdadeira sabedoria? Quanto à filosofia, que se propõe a ensinar aos homens algo que os fará felizes, estudos desse tipo floresceram naquelas terras por volta da época de Mercúrio, a quem chamavam de Trismegisto, muito antes dos sábios e filósofos da Grécia, mas ainda depois de Abraão, Isaque, Jacó e José, e até mesmo depois do próprio Moisés. Naquela época, aliás, quando Moisés nasceu, viveu Atlas, aquele grande astrônomo, irmão de Prometeu e neto materno do Mercúrio mais velho, de quem esse Mercúrio Trismegisto era neto.

40. Sobre a mais mentirosa vaidade dos egípcios, na qual atribuem à sua ciência uma antiguidade de cem mil anos.

Em vão, então, alguns tagarelam com a mais vazia presunção, dizendo que o Egito compreendeu a contagem das estrelas por mais de cem mil anos. Pois em que livros reuniram esse número de pessoas que aprenderam a escrita com Ísis, sua senhora, há não mais de dois mil anos? Varrão, que declarou isso, é uma autoridade considerável em história, e sua afirmação não contradiz a verdade dos livros divinos. Pois, como ainda não se passaram seis mil anos desde o primeiro homem, chamado Adão, não são aqueles que devem ser ridicularizados, e não refutados, que tentam nos persuadir de algo a respeito de um período de tempo tão diferente e contrário ao... Verdade comprovada? Pois a qual historiador do passado devemos dar mais crédito senão àquele que também previu eventos futuros que agora vemos se concretizar? E a própria discordância entre os historiadores fornece um bom motivo para acreditarmos naquele que não contradiz a história divina que professamos. Mas, por outro lado, os cidadãos da cidade ímpia, espalhados por toda a Terra, quando leem os escritores mais eruditos, nenhum dos quais parece ter autoridade desprezível, e os encontram discordando entre si sobre assuntos muito remotos da memória de nossa época, não conseguem discernir em quem devem confiar. Mas nós, sustentados pela autoridade divina na história de nossa religião, não temos dúvida de que tudo o que se opõe a ela é completamente falso, seja qual for o caso em relação a outros assuntos em livros seculares, que, sejam verdadeiros ou falsos, nada contribuem para que vivamos de forma correta e feliz.

41. Sobre a discordância de opiniões filosóficas e a concordância das Escrituras que são consideradas canônicas pela Igreja.

Mas deixemos de lado uma análise mais aprofundada da história e voltemos aos filósofos, dos quais nos desviamos para essas questões. Parece que eles se dedicaram aos estudos com o único propósito de descobrir como viver de maneira adequada para alcançar a bem-aventurança. Por que, então, os discípulos discordaram de seus mestres, e os discípulos uns dos outros, senão porque, como homens, buscaram essas coisas por meio dos sentidos e raciocínios humanos? Ora, embora pudesse haver entre eles um desejo de glória, de modo que cada um desejasse ser considerado mais sábio e perspicaz do que o outro, e de modo algum dependente do julgamento alheio, mas sim criador de seu próprio dogma e opinião, ainda assim posso admitir que havia alguns, ou mesmo muitos deles, cujo amor pela verdade os separava de seus mestres ou discípulos, para que pudessem lutar pelo que consideravam a verdade, fosse ela ou não. Mas o que pode a miséria humana fazer, ou como ou onde ela pode chegar, a fim de alcançar a bem-aventurança, se a autoridade divina não a guia? Finalmente, que nossos autores, entre os quais o cânone dos livros sagrados está fixado e delimitado, estejam longe de discordar em qualquer ponto. respeito. Não é sem razão, portanto, que não apenas algumas pessoas tagarelando nas escolas e ginásios em disputas capciosas, mas tantas e grandes pessoas, eruditas e iletradas, em campos e cidades, acreditaram que Deus falou com elas ou por meio delas, isto é , os escritores canônicos, quando escreveram esses livros. Deveria haver, de fato, poucos deles, para que, por causa de sua multidão, o que deveria ser religiosamente estimado não se tornasse banal; e, ainda assim, não tão poucos a ponto de sua concordância não ser admirável. Pois, entre a multidão de filósofos que, em suas obras, deixaram para trás os monumentos de seus dogmas, ninguém encontrará facilmente aqueles que concordam em todas as suas opiniões. Mas demonstrar isso é uma tarefa longa demais para esta obra.

Mas que autor de qualquer seita é tão aprovado nesta cidade adoradora de demônios, que os demais que discordaram ou se opuseram a ele em opinião foram desaprovados? Os epicuristas afirmavam que os assuntos humanos não estavam sob a providência dos deuses; e os estoicos, sustentando a opinião oposta, concordavam que eram governados e protegidos por deuses benevolentes e tutelares. No entanto, não eram ambas as seitas famosas entre os atenienses? Pergunto-me, então, por que Anaxágoras foi acusado de um crime por dizer que o sol era uma pedra em chamas e negar que fosse um deus; enquanto na mesma cidade Epicuro florescia gloriosamente e vivia em segurança, embora não só não acreditasse que o sol ou qualquer estrela fosse um deus, como também afirmasse que nem Júpiter nem nenhum dos deuses habitavam o mundo de modo que as orações e súplicas dos homens pudessem chegar até eles! Não estavam lá Aristipo e Antístenes, dois nobres filósofos e ambos socráticos? Contudo, eles colocavam o principal objetivo da vida dentro de limites tão diversos e contraditórios que o primeiro considerava o prazer do corpo o bem supremo, enquanto o outro afirmava que o homem era feito feliz principalmente pela virtude da mente. Um dizia também que o sábio deveria fugir da república; o outro, que deveria administrar seus assuntos. No entanto, cada um não reunia discípulos para seguir sua própria seita? De fato, nos pórticos visíveis e conhecidos, nos ginásios, nos jardins, em lugares públicos e privados, eles lutavam abertamente em grupos, cada um defendendo sua própria opinião, alguns afirmando que havia um só mundo, outros inúmeros mundos; Alguns acreditavam que este mundo teve um começo, outros que não; alguns que pereceria, outros que existiria para sempre; alguns que era governado pela mente divina, outros pelo acaso e pelo acidente; alguns que as almas são imortais, outros que são mortais — e, dentre os que afirmavam sua imortalidade, alguns diziam que transmigravam através de animais, outros que isso não era verdade, enquanto, dentre os que afirmavam sua mortalidade, alguns diziam que pereciam imediatamente após o corpo, outros que sobreviviam por um curto período ou por um período mais longo, mas nem sempre; alguns fixavam o bem supremo no corpo, outros na mente, outros em ambos; outros acrescentavam à mente e ao corpo coisas boas externas; alguns pensavam que os sentidos corporais deveriam ser sempre confiáveis, outros nem sempre, outros nunca. Ora, que povo, senado, poder ou dignidade pública da cidade ímpia jamais se preocupou em julgar entre todas essas e outras inúmeras dissensões dos filósofos, aprovando e aceitando algumas, e desaprovando e rejeitando outras? Porventura não abrigou em seu seio, de forma aleatória, sem qualquer discernimento e confusa, tantas controvérsias entre homens em desacordo, não sobre campos, casas ou qualquer coisa de natureza pecuniária, mas sobre aquelas coisas que tornam a vida miserável ou feliz? Mesmo que algumas verdades fossem ditas nela, falsidades eram proferidas com a mesma licença; de modo que tal cidade não recebeu mal o título de Babilônia mística. Pois Babilônia significa confusão, como já explicamos. E para o diabo, seu rei, pouco importa como eles disputam entre si em erros contraditórios, visto que todos lhe pertencem igualmente, por causa de sua grande e variada impiedade.

Mas aquela nação, aquele povo, aquela cidade, aquela república, aqueles israelitas, a quem foram confiados os oráculos de Deus, de modo algum confundiram, com permissividade semelhante, falsos profetas com os verdadeiros profetas; mas, concordando entre si e não divergindo em nada, reconheceram e defenderam os autores autênticos de seus livros sagrados. Estes eram seus filósofos, estes eram seus sábios, teólogos, profetas e mestres da probidade e da piedade. Quem era sábio e vivia de acordo com eles, era sábio e vivia não segundo os homens, mas segundo Deus, que falou por meio deles. Se o sacrilégio é proibido ali, Deus o proibiu. Se for dito: "Honra teu pai e tua mãe," Deus o ordenou. Se for dito: “Não adulterarás, não matarás, não furtarás”, e outros mandamentos semelhantes, não foram pronunciados por lábios humanos, mas pelos oráculos divinos. Qualquer verdade que certos filósofos, em meio às suas falsas opiniões, foram capazes de ver e se esforçaram por meio de laboriosas discussões para persuadir os homens — como a de que Deus criou este mundo e Ele mesmo o governa com a maior providência, ou a nobreza das virtudes, do amor à pátria, da fidelidade na amizade, das boas obras e tudo o que diz respeito aos costumes virtuosos, embora não soubessem a que fim e a que regra todas essas coisas se referiam —, todas essas, por palavras proféticas, isto é, divinas, embora proferidas por homens, foram recomendadas ao povo daquela cidade e não inculcadas por contendas e argumentos, de modo que aquele que as conhecesse pudesse temer desprezar, não a inteligência dos homens, mas o oráculo de Deus.

42. Por qual desígnio da providência de Deus as Sagradas Escrituras do Antigo Testamento foram traduzidas do hebraico para o grego, para que pudessem ser dadas a todas as nações?

Um dos Ptolomeus, reis do Egito, desejava conhecer e possuir esses livros sagrados. Pois, depois que Alexandre da Macedônia, também chamado o Grande, subjugou, com seu poder extraordinário, mas de modo algum duradouro, toda a Ásia, sim, quase todo o mundo, em parte pela força das armas, em parte pelo terror, e, entre outros reinos do Oriente, entrou e conquistou também a Judeia, após sua morte, seus generais não dividiram pacificamente aquele vasto reino entre si como possessão, mas o dispersaram, devastando tudo em guerras. Então, o Egito começou a ter os Ptolomeus como seus reis. O primeiro deles, filho de Lago, levou muitos cativos da Judeia para o Egito. Mas outro Ptolomeu, chamado Filadelfo, que o sucedeu, permitiu que todos os que ele havia subjugado retornassem livres; E, além disso, enviou presentes reais ao templo de Deus e suplicou a Eleazar, o sumo sacerdote, que lhe desse as Escrituras, que, segundo ouvira dizer, eram verdadeiramente divinas e, portanto, desejava muito tê-las naquela nobilíssima biblioteca que ele havia construído. Quando o sumo sacerdote... Um sacerdote havia lhe enviado as Escrituras em hebraico, e ele posteriormente solicitou intérpretes, aos quais foram designados setenta e dois, seis homens de cada uma das doze tribos, a maioria versada em ambas as línguas, a saber, hebraico e grego; e a tradução deles é hoje conhecida, por costume, como a Septuaginta. De fato, relata-se que havia uma concordância em suas palavras tão maravilhosa, estupenda e claramente divina, que, quando se sentaram para realizar esse trabalho, cada um separadamente (pois assim agradou a Ptolomeu testar sua fidelidade), não divergiram entre si em nenhuma palavra que tivesse o mesmo significado e força, nem na ordem das palavras; mas, como se os tradutores fossem um só, o que todos traduziram também era um só, porque, de fato, o mesmo Espírito estava em todos eles. E eles receberam um dom tão maravilhoso de Deus, para que a autoridade dessas Escrituras fosse louvada não como humana, mas divina, como de fato o era, para o benefício das nações que um dia creriam, como agora vemos acontecer.

43. Da autoridade da tradução da Septuaginta, que, preservando a honra do original hebraico, deve ser preferida a todas as traduções.

Pois, embora tenha havido outros intérpretes que traduziram esses oráculos sagrados do hebraico para o grego, como Áquila, Símaco e Teodócio, e também aquela tradução que, como o nome do autor é desconhecido, é citada como a quinta edição, a Igreja recebeu esta tradução da Septuaginta como se fosse a única; e ela tem sido usada pelo povo cristão grego, a maioria dos quais desconhece a existência de outra. Desta tradução também foi feita uma tradução para o latim, que é usada pelas igrejas latinas. Nossos tempos, porém, tiveram a vantagem do presbítero Jerônimo, um homem muito erudito e versado nas três línguas, que traduziu essas mesmas Escrituras para o latim, não do grego, mas do hebraico. Mas, embora os judeus reconheçam a fidelidade desta obra erudita e afirmem que os tradutores da Septuaginta erraram em muitos pontos, as igrejas de Cristo julgam que ninguém deve ser preferido à autoridade de tantos homens, escolhidos para esta grandiosa obra por Eleazar, que era então o sumo sacerdote; pois mesmo que não tivesse se manifestado neles um só espírito, sem dúvida divino, e Os setenta homens sábios, à maneira dos homens, compararam entre si as palavras de sua tradução, para que prevalecesse o que agradasse a todos, não havendo necessidade de se preferir um único tradutor a eles; mas, visto que tão grande sinal de divindade se manifestou neles, certamente, se qualquer outro tradutor das Escrituras do hebraico para qualquer outra língua for fiel, então ele concorda com esses setenta tradutores, e se não concordar com eles, então devemos crer que o dom profético está com eles. Pois o mesmo Espírito que estava nos profetas quando falaram essas coisas também estava nos setenta homens quando as traduziram, de modo que certamente eles poderiam dizer algo diferente, como se o próprio profeta tivesse dito ambas as coisas, porque seria o mesmo Espírito que diria ambas; e poderia dizer a mesma coisa de maneira diferente, de modo que, embora as palavras não fossem as mesmas, o mesmo significado transparecesse para aqueles de bom entendimento; e podiam omitir ou acrescentar algo, de modo que mesmo por isso se pudesse demonstrar que naquela obra não havia servidão humana, que o tradutor devia às palavras, mas sim poder divino, que preenchia e governava a mente do tradutor. Alguns, porém, pensaram que as cópias gregas da versão da Septuaginta deveriam ser emendadas a partir das cópias hebraicas; contudo, não ousaram retirar o que faltava ao hebraico e a Septuaginta tinha, mas apenas acrescentaram o que se encontrava nas cópias hebraicas e faltava na Septuaginta, e o indicaram colocando no início dos versículos certas marcas em forma de estrelas que chamam de asteriscos. E as coisas que as cópias hebraicas não têm, mas a Septuaginta tem, eles marcaram da mesma forma no início dos versículos com marcas horizontais em forma de espeto, como aquelas que usamos para denotar onças; e muitas cópias com essas marcas circulam até mesmo em latim. Mas não podemos, sem examinar ambos os tipos de cópias, descobrir as coisas que não foram omitidas nem acrescentadas, mas expressas de maneira diferente, se elas produzem outro significado que não seja em si inadequado, ou se podem ser mostradas para explicar o mesmo significado de outra maneira. Se, então, como nos convém, não vemos nada mais nessas Escrituras além do que o Espírito de Deus falou por meio de Homens, se algo está nas cópias hebraicas e não na versão dos Setenta, o Espírito de Deus não escolheu dizê-lo por meio deles, mas somente por meio dos profetas. Mas tudo o que está na Septuaginta e não nas cópias hebraicas, o mesmo Espírito escolheu dizer por meio destas últimas, mostrando assim que ambos eram profetas. Pois dessa maneira Ele falou como quis, algumas coisas por meio de Isaías, algumas por meio de Jeremias, algumas por meio de vários profetas, ou então a mesma coisa por meio deste profeta e daquele. Além disso, tudo o que se encontra em ambas as edições, o mesmo Espírito quis dizer por meio de ambas, mas de modo que a primeira precedeu na profecia e a segunda a seguiu na interpretação profética; porque, assim como o único Espírito de paz estava na primeira quando eles falaram palavras verdadeiras e concordantes, assim o mesmo Espírito apareceu na segunda, quando, sem conferência mútua, interpretaram todas as coisas como se tivessem uma só boca.

44. Como deve ser entendida a ameaça da destruição dos ninivitas, que no hebraico se estende por quarenta dias, enquanto na Septuaginta é reduzida a três.

Mas alguém poderá perguntar: "Como saberei se o profeta Jonas disse aos ninivitas: 'Daqui a três dias, Nínive será destruída', ou em quarenta dias?" Pois quem não vê que o profeta não poderia ter dito ambas as coisas, quando foi enviado para aterrorizar a cidade com a ameaça de ruína iminente? Pois se a sua destruição deveria ocorrer no terceiro dia, certamente não poderia ser no quadragésimo; mas se no quadragésimo, então certamente não no terceiro. Se, então, me perguntarem qual destas Jonas pode ter dito, eu diria que é o que se lê no hebraico: "Ainda quarenta dias e Nínive será destruída". Contudo, os Setenta, interpretando muito tempo depois, poderiam dizer algo diferente, mas pertinente ao assunto, e concordar no mesmo significado, embora sob uma significação diferente. E isto pode advertir o leitor a não desprezar a autoridade de nenhuma das duas, mas a elevar-se acima da história e a procurar as coisas que a própria história foi escrita para relatar. Estas coisas, de fato, ocorreram na cidade de Nínive, mas também significavam algo mais, demasiado grandioso para ser aplicado apenas a ela. cidade; assim como, quando aconteceu que o próprio profeta esteve três dias no ventre da baleia, isso significava também que Aquele que é o Senhor de todos os profetas estaria três dias nas profundezas do inferno. Portanto, se essa cidade for corretamente considerada como representando profeticamente a Igreja dos Gentios, isto é, como derrubada pelo arrependimento, de modo a não mais ser o que fora, visto que isso foi feito por Cristo na Igreja dos Gentios, que Nínive representava, o próprio Cristo era significado tanto pelos quarenta quanto pelos três dias: pelos quarenta, porque Ele passou esse número de dias com Seus discípulos após a ressurreição e então ascendeu ao céu, mas pelos três dias, porque Ele ressuscitou no terceiro dia. Assim, se o leitor não deseja nada além de se ater à história dos eventos, ele pode ser despertado de seu sono pelos intérpretes da Septuaginta, bem como pelos profetas, para sondar a profundidade da profecia, como se tivessem dito: "Nos quarenta dias busca aquele em quem também encontrarás os três dias: um em sua ascensão, o outro em sua ressurreição". Porque aquilo que poderia ser mais adequadamente significado por ambos os números, um usado pelo profeta Jonas e o outro pela profecia da versão da Septuaginta, foi o mesmo Espírito que falou. Temo a prolixidade, portanto, não devo demonstrar isso com muitos exemplos em que os setenta intérpretes podem parecer divergir do hebraico, mas, quando bem compreendidos, concordam. Por essa razão, eu também, de acordo com minhas capacidades, seguindo os passos dos apóstolos, que citaram testemunhos proféticos de ambos os textos, isto é, do hebraico e da Septuaginta, considerei que ambos deveriam ser usados ​​como fontes autorizadas, visto que ambos são um só e divinos. Mas vejamos agora o que resta.

45. Que os judeus deixaram de ter profetas após a reconstrução do templo, e desde então até o nascimento de Cristo foram afligidos por contínuas adversidades, para provar que a construção de outro templo havia sido prometida por vozes proféticas.

Sem dúvida, a nação judaica piorou depois de deixar de ter profetas, justamente quando, com a reconstrução do templo após o cativeiro na Babilônia, esperava melhorar. Pois era exatamente isso que aquele povo carnal entendia. O que foi predito pelo profeta Ageu, dizendo: "A glória desta última casa será maior do que a da primeira." Ora, que isto é dito do novo testamento, ele mostrou um pouco acima, onde diz, evidentemente prometendo Cristo: “E eu farei mover todas as nações, e o desejado virá a todas as nações”. Nesta passagem, os tradutores da Septuaginta, dando outro sentido mais adequado ao corpo do que à Cabeça, isto é, à Igreja do que a Cristo, disseram por autoridade profética: “Virão as coisas que são escolhidas pelo Senhor dentre todas as nações”, isto é, homens , dos quais Jesus diz no Evangelho: “Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”. Pois por meio desses escolhidos dentre as nações, através do novo testamento, com pedras vivas, foi construída uma casa de Deus muito mais gloriosa do que aquele templo que foi construído pelo rei Salomão e reconstruído após o cativeiro. Por essa razão, então, aquela nação não teve profetas desde então, mas foi afligida com muitas pragas por reis de raça estrangeira e pelos próprios romanos, para que não imaginassem que esta profecia de Ageu se cumprira com a reconstrução do templo.

Não muito tempo depois, com a chegada de Alexandre, o povo foi subjugado. Embora não tenha havido pilhagem, pois não ousaram resistir e, sendo facilmente subjugados, o receberam pacificamente, a glória daquela casa não era tão grande quanto quando estava sob o poder de seus próprios reis. Alexandre, de fato, ofereceu sacrifícios no templo de Deus, não como um convertido ao Seu culto em verdadeira piedade, mas pensando, com ímpia insensatez, que Ele deveria ser adorado junto com falsos deuses. Então, Ptolomeu, filho de Lago, a quem já mencionei, após a morte de Alexandre, os levou cativos para o Egito. Seu sucessor, Ptolomeu Filadelfo, os libertou benevolamente; e por meio dele, como narrei anteriormente, foi possível que tivéssemos a versão da Septuaginta das Escrituras. Depois, foram derrotados pelas guerras narradas nos livros dos Macabeus. Depois, foram feitos prisioneiros por Ptolomeu, rei de Alexandria, chamado Epifânio. Então, Antíoco, rei da Síria, os obrigou, por meio de muitos e gravíssimos males, a adoravam ídolos e enchiam o próprio templo com as superstições sacrílegas dos gentios. Contudo, seu líder mais vigoroso, Judas, também chamado Macabeu, depois de derrotar os generais de Antíoco, purificou-o de toda essa impureza da idolatria.

Mas não muito tempo depois, um certo Alcimo, embora fora da tribo sacerdotal, foi, por ambição, feito pontífice, o que foi um ato ímpio. Após quase cinquenta anos, durante os quais nunca tiveram paz, embora prosperassem em alguns assuntos, Aristóbulo assumiu pela primeira vez o diadema entre eles e foi feito rei e pontífice. Antes disso, de fato, desde o seu retorno do cativeiro babilônico e a reconstrução do templo, eles não tiveram reis, mas generais ou príncipes . Embora um rei possa ser chamado de príncipe, por sua autoridade no governo, e de líder, por comandar o exército, isso não significa que todos os que são príncipes e líderes possam também ser chamados de reis, como era o caso de Aristóbulo. Ele foi sucedido por Alexandre, também rei e pontífice, que, segundo relatos, reinou sobre eles com crueldade. Depois dele, sua esposa Alexandra foi rainha dos judeus, e a partir de seu tempo, males ainda mais graves os perseguiram. Por isso, os filhos de Alexandra, Aristóbulo e Hircano, quando disputavam o reino, convocaram as forças romanas contra a nação de Israel. Hircano havia solicitado auxílio romano contra seu irmão. Naquela época, Roma já havia subjugado a África e a Grécia, e governava extensivamente outras partes do mundo, e ainda assim, como se não conseguisse suportar o próprio peso, havia, de certa forma, se destruído por seu próprio tamanho. Pois, de fato, havia chegado a graves sedições internas, e destas a guerras sociais, e, por fim, a guerras civis, enfraquecendo-se e desgastando-se tanto que a transformação em república, sob o governo de reis, era iminente. Pompeu, então, um príncipe ilustríssimo do povo romano, tendo entrado na Judeia com um exército, tomou a cidade, abriu o templo, não com a devoção de um suplicante, mas com a autoridade de um conquistador, e entrou, não reverentemente, mas profanamente, no Santo dos Santos, onde somente o pontífice tinha permissão para entrar. Tendo estabelecido Hircano no pontificado e colocado Antípatro sobre a nação subjugada como O guardião ou procurador, como eram chamados na época, levou Aristóbulo consigo, amarrado. A partir desse momento, os judeus também começaram a ser tributários romanos. Posteriormente, Cássio saqueou o próprio templo. Depois de alguns anos, coube a eles Herodes, um rei de origem estrangeira, em cujo reinado Cristo nasceu. Pois havia chegado o tempo indicado pelo Espírito profético através da boca do patriarca Jacó, quando ele disse: "Não faltará um príncipe de Judá, nem um mestre de seus lombos, até que venha aquele para quem está reservado; ele é a esperança das nações". Não faltou, portanto, um príncipe judeu dentre os judeus até Herodes, que foi o primeiro rei de raça estrangeira recebido por eles. Portanto, era agora o tempo em que viria aquele para quem estava reservado o que foi prometido no Novo Testamento, que Ele seria a expectativa das nações. Mas não era possível que as nações esperassem que Ele viesse, como vemos que esperaram, para fazer julgamento no esplendor do poder, a menos que primeiro cressem nEle quando Ele viesse para sofrer julgamento na humildade da paciência.

46. ​​Do nascimento de nosso Salvador, pelo qual o Verbo se fez carne; e da dispersão dos judeus entre todas as nações, como havia sido profetizado.

Enquanto Herodes reinava na Judeia e César Augusto era imperador em Roma, tendo o estado da república já mudado e o mundo pacificado por ele, Cristo nasceu em Belém de Judá, homem manifesto de uma virgem humana, Deus oculto de Deus Pai. Pois assim havia predito o profeta: "Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e chamarão o seu nome Emanuel, que traduzido é: Deus conosco". Ele realizou muitos milagres para louvar a Deus em si mesmo, alguns dos quais, tantos quantos pareciam suficientes para proclamá-lo, estão contidos nas Escrituras evangélicas. O primeiro deles é que Ele nasceu de forma tão maravilhosa, e o último, que com o Seu corpo ressuscitado dentre os mortos, Ele ascendeu ao céu. Mas os judeus que O mataram e não creram nEle, porque Lhe era necessário morrer e ressuscitar, foram ainda mais miseravelmente destruídos pelos romanos e completamente... desarraigados do seu reino, onde estrangeiros já os dominavam, e dispersos por toda a terra (de modo que, na verdade, não há lugar onde não estejam), e assim, pelas suas próprias Escrituras, são testemunho para nós de que não forjamos as profecias acerca de Cristo. E muitos deles, considerando isso, mesmo antes da sua paixão, mas principalmente depois da sua ressurreição, creram naquele de quem foi predito: "Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o restante será salvo". Mas os demais estão cegos, dos quais foi predito: “Que a sua mesa seja feita diante deles uma armadilha, e uma retribuição, e uma pedra de tropeço. Que os seus olhos sejam escurecidos para que não vejam, e que as suas costas estejam sempre curvadas”. Portanto, quando não creem em nossas Escrituras, as suas próprias, que leem cegamente, se cumprem nelas, para que ninguém diga que os cristãos forjaram essas profecias sobre Cristo, citadas sob o nome da sibila, ou de outros, se houver, que não pertencem ao povo judeu. Para nós, na verdade, bastam aquelas citadas dos livros de nossos inimigos, aos quais reconhecemos, por causa deste testemunho que, apesar de si mesmos, eles contribuem com a posse desses livros, enquanto eles próprios estão dispersos entre todas as nações, onde quer que a Igreja de Cristo esteja espalhada. Pois uma profecia sobre isso foi enviada antes nos Salmos, que eles também leem, onde está escrito: “Meu Deus, a sua misericórdia me alcançará. Meu Deus me mostrou acerca dos meus inimigos que não os matarás, para que não se esqueçam da tua lei; dispersa-os no teu poder.” Portanto, Deus mostrou à Igreja em seus inimigos, os judeus, a graça de Sua compaixão, visto que, como diz o apóstolo, “a sua ofensa é a salvação dos gentios”. E, portanto, Ele não os matou, isto é, não permitiu que o conhecimento de que eram judeus se perdesse neles, embora tivessem sido conquistados pelos romanos, para que não se esquecessem da lei de Deus e seu testemunho não tivesse valor algum nesta questão que estamos tratando. Mas não bastava que Ele dissesse: “Não os mateis, para que não se esqueçam da lei de Deus e seu testemunho não tenha valor algum”. "Esquece-te, enfim, a tua lei", a menos que também tivesse acrescentado: "Dispersa-os"; porque se eles tivessem estado apenas na sua própria terra com esse testemunho das Escrituras, e não em todo o lado, certamente a Igreja que está em todo o lado não os teria tido como testemunhas entre todas as nações das profecias que foram enviadas antes acerca de Cristo.

47. Se antes dos tempos cristãos havia alguém fora da raça israelita que pertencia à comunhão da cidade celestial.

Portanto, se lermos sobre algum estrangeiro — isto é, alguém que não nasceu em Israel nem foi recebido por esse povo no cânone dos livros sagrados — que tenha profetizado algo sobre Cristo, se isso chegou ou vier a chegar ao nosso conhecimento, podemos nos referir a isso acima; não que isso seja necessário, mesmo que falte, mas porque não é incongruente acreditar que mesmo em outras nações pode ter havido homens a quem este mistério foi revelado e que também foram impelidos a proclamá-lo, quer tenham participado da mesma graça ou não a tenham experimentado, mas foram ensinados por anjos maus, que, como sabemos, até confessaram o Cristo presente, a quem os judeus não reconheceram. Nem creio que os próprios judeus ousem afirmar que ninguém pertenceu a Deus, exceto os israelitas, visto que o crescimento de Israel começou com a rejeição de seu irmão mais velho. Pois, de fato, não houve outro povo que fosse especificamente chamado de povo de Deus; Mas eles não podem negar que houve certos homens, mesmo de outras nações, que pertenceram, não por comunhão terrena, mas celestial, aos verdadeiros israelitas, os cidadãos da pátria celestial. Porque, se negarem isso, podem ser facilmente refutados pelo caso do santo e maravilhoso homem Jó, que não era nativo nem prosélito, isto é, um estrangeiro que se uniu ao povo de Israel, mas, sendo da raça idumeia, nasceu e morreu lá, e que é tão louvado pelo oráculo divino que nenhum homem de sua época se compara a ele em justiça e piedade. E embora não encontremos sua data nas crônicas, pelo seu livro, que os israelitas receberam como autoridade canônica por seu mérito, inferimos que ele pertencia à terceira geração depois de Israel. E não duvido que tenha sido divinamente providenciado que, por meio deste caso, soubéssemos que também entre outras nações poderia haver homens pertencentes à Jerusalém espiritual que viveram segundo Deus e lhe agradaram. E não se deve supor que isso tenha sido concedido a alguém, a não ser ao único Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem. foi divinamente revelado a ele; aquele que foi preanunciado aos santos da antiguidade como ainda por vir na carne, assim como nos é anunciado como já tendo vindo, para que a mesma fé, por meio dele, conduza a Deus todos os que estão predestinados a ser a cidade de Deus, a casa de Deus e o templo de Deus. Mas quaisquer profecias concernentes à graça de Deus por meio de Cristo Jesus que sejam citadas, podem ser consideradas como tendo sido forjadas pelos cristãos. De modo que não há nada de maior peso para refutar todo tipo de estrangeiros, se eles contenderem sobre este assunto, e para apoiar nossos amigos, se eles forem verdadeiramente sábios, do que citar aquelas predições divinas sobre Cristo que estão escritas nos livros dos judeus, que foram arrancados de sua morada natal e dispersos por todo o mundo a fim de prestar este testemunho, de modo que a Igreja de Cristo cresceu em todos os lugares.

48. Que a profecia de Ageu, na qual ele disse que a glória da casa de Deus seria maior do que a da primeira,foi realmente cumprido, não na reconstrução do templo, mas na Igreja de Cristo.

Esta casa de Deus é mais gloriosa do que aquela primeira, construída de madeira, pedra, metais e outras coisas preciosas. Portanto, a profecia de Ageu não se cumpriu na reconstrução daquele templo. Pois nunca se poderá demonstrar que, após a reconstrução, ela tenha tido tanta glória quanto na época de Salomão; aliás, a glória daquela casa diminuiu, primeiro com o fim das profecias e depois com as grandes calamidades sofridas pela própria nação, culminando na destruição final pelos romanos, como comprovam os eventos mencionados anteriormente. Mas esta casa, que pertence ao Novo Testamento, é tão mais gloriosa quanto as pedras vivas, os homens crentes e renovados, dos quais ela foi construída, que são melhores. Ela foi simbolizada pela reconstrução daquele templo por esta razão: porque a própria renovação daquele edifício simboliza, no oráculo profético, outro testamento, chamado de Novo Testamento. Quando, portanto, Deus disse por meio de... O profeta acabou de mencionar: "E darei paz a este lugar." Deve-se entender aquele que é tipificado por esse lugar típico; pois, visto que por esse lugar reconstruído é tipificada a Igreja que seria edificada por Cristo, nada mais pode ser aceito como significado da afirmação: “Darei a paz neste lugar”, a não ser “Darei a paz no lugar que esse lugar significa”. Pois todas as coisas típicas parecem, de alguma forma, personificar aqueles que elas tipificam, como disse o apóstolo: “Aquela Rocha era Cristo”. Portanto, a glória desta casa do novo testamento é maior do que a glória da casa do antigo testamento; e ela se mostrará ainda maior quando for consagrada. Pois então "virá o desejado de todas as nações", como lemos no hebraico. Pois antes de Sua vinda, Ele ainda não havia sido desejado por todas as nações. Porque elas não conheciam Aquele a quem deveriam desejar, em quem não haviam crido. Então, também, segundo a interpretação da Septuaginta (pois também é um significado profético), “virão aqueles que são eleitos pelo Senhor dentre todas as nações”. Pois então, de fato, virão somente aqueles que são eleitos, do que o apóstolo diz: “Assim como Ele nos escolheu nele antes da fundação do mundo”. Pois o Mestre Construtor disse: “Muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”, não disse isso daqueles que, ao serem chamados, vieram de tal maneira que foram expulsos da festa, mas apontou para a casa edificada dos eleitos, que doravante não temerá ruína. Contudo, como as igrejas também estão cheias daqueles que serão separados pela joeira, como na eira, a glória desta casa não é tão evidente agora como será quando todos os que estão nela estiverem lá para sempre.

49. Do aumento indiscriminado da Igreja, na qual muitos réprobos estão neste mundo misturados com os eleitos.

Neste mundo perverso, nestes dias maus, quando a Igreja mede a sua futura grandeza pela sua humildade presente, e é atormentada por temores angustiantes, tristezas dilacerantes, trabalhos inquietantes e tentações perigosas, quando ela se alegra sobriamente, alegrando-se apenas na esperança, há muitos réprobos misturados com os bons, e ambos são reunidos pelo evangelho como em uma rede de arrasto; e neste mundo, como num mar, ambos nadam envoltos sem distinção na rede, até que ela seja trazida para a praia, quando os ímpios devem ser separados dos bons, para que nos bons, como em Seu templo, Deus seja tudo em todos. Reconhecemos, de fato, que Sua palavra agora se cumpriu, Ele que falou no salmo e disse: “Eu anunciei e falei; eles se multiplicaram além do número”. Isto acontece agora, porque Ele falou, primeiro pela boca de seu precursor João, e depois pela Sua própria boca, dizendo: “Arrependam-se, porque o reino dos céus está próximo”. Ele escolheu discípulos, aos quais também chamou apóstolos, de nascimento humilde, sem honra e analfabetos, para que qualquer grande coisa que eles pudessem ser ou fazer, Ele pudesse ser e fazer neles. Ele tinha um entre eles cuja maldade Ele podia usar bem para cumprir Sua paixão designada e fornecer à Sua Igreja um exemplo de tolerância para com os ímpios. Tendo semeado o santo evangelho tanto quanto era necessário por Sua presença corporal, Ele sofreu, morreu e ressuscitou, mostrando por Sua paixão o que devemos sofrer pela verdade e por Sua ressurreição o que devemos esperar na adversidade; preservando sempre o mistério do sacramento, pelo qual Seu sangue foi derramado para a remissão dos pecados. Ele conversou na terra quarenta dias com Seus discípulos e, à vista deles, ascendeu ao céu e, após dez dias, enviou o prometido Espírito Santo. Foi dado como o principal e mais necessário sinal de Sua vinda àqueles que creram que cada um deles falava em línguas de todas as nações; significando assim que a unidade da Igreja Católica abrangeria todas as nações e, da mesma forma, falaria em todas as línguas.

50. Da pregação do evangelho, que se torna mais famosa e poderosa pelos sofrimentos de seus pregadores.

Então se cumpriu aquela profecia: "De Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor, de Jerusalém;" e a predição do próprio Senhor Cristo, quando, após a ressurreição, "Ele abriu o entendimento" de Seus discípulos admirados "para que pudessem entender as Escrituras, e disse-lhes que assim está escrito, e assim convinha que Cristo padecesse e ressuscitasse dos mortos ao terceiro dia, e que o arrependimento e a remissão dos pecados sejam pregados em Seu nome a todas as nações, começando por Jerusalém." E novamente, quando, em resposta ao seu questionamento sobre o dia de Sua última vinda, Ele disse: “Não vos compete saber os tempos ou as épocas que o Pai reservou para o Seu poder; mas recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra”. Primeiramente, a Igreja espalhou-se a partir de Jerusalém; e, tendo muitos na Judeia e Samaria crido, também foi para outras nações por meio daqueles que anunciavam o evangelho, os quais Ele mesmo havia preparado como luzes por Sua palavra e acendido pelo Seu Santo Espírito. Pois Ele lhes havia dito: “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. E para que não ficassem paralisados ​​de medo, ardiam com o fogo da caridade. Finalmente, o evangelho de Cristo foi pregado em todo o mundo, não apenas por aqueles que o viram e ouviram antes de sua paixão e depois de sua ressurreição, mas também após a morte deles, por seus sucessores, em meio às horríveis perseguições, aos diversos tormentos e mortes dos mártires, sendo Deus também deles testemunhado, tanto com sinais e prodígios, quanto com diversos milagres e dons do Espírito Santo, para que os povos das nações, crendo naquele que foi crucificado para sua redenção, pudessem venerar com amor cristão o sangue dos mártires que derramaram com fúria diabólica, e os próprios reis por cujas leis a Igreja foi devastada pudessem se submeter proveitosamente àquele nome que cruelmente se esforçaram para tirar da terra, e pudessem começar a perseguir os falsos deuses por causa dos quais os adoradores do verdadeiro Deus foram anteriormente perseguidos.

51. Que a fé católica seja confirmada mesmo pelas dissensões dos hereges.

Mas o diabo, vendo os templos dos demônios desertos e a raça humana correndo em direção ao nome do Mediador libertador, incitou os hereges sob o nome cristão a resistirem à doutrina cristã, como se pudessem ser mantidos em cativeiro. A cidade de Deus acolhia indiferentemente, sem qualquer correção, assim como a cidade da confusão acolhia indiferentemente os filósofos de opiniões diversas e divergentes. Portanto, aqueles que, na Igreja de Cristo, nutrem qualquer sentimento mórbido e depravado e, ao serem corrigidos para que possam cultivar o que é salutar e correto, resistem contumazmente e não emendam seus dogmas pestilentos e mortais, persistindo em defendê-los, tornam-se hereges e, por estarem fora da Igreja, devem ser considerados inimigos que servem à sua disciplina. Pois mesmo assim, aproveitam-se de sua maldade aqueles verdadeiros membros católicos de Cristo, visto que Deus faz bom uso até mesmo dos ímpios, e todas as coisas cooperam para o bem daqueles que o amam. Pois todos os inimigos da Igreja, qualquer que seja o erro que os cegue ou a malícia que os deprave, exercem a sua paciência se receberem o poder de afligi-la corporalmente; e se apenas se opõem a ela com pensamentos perversos, exercem a sua sabedoria; mas, ao mesmo tempo, se esses inimigos são amados, exercem a sua benevolência, ou mesmo a sua beneficência, quer ela os trate por meio de doutrina persuasiva, quer por meio de disciplina severa. E assim, ao diabo, príncipe da cidade ímpia, quando incita os seus próprios vasos contra a cidade de Deus que peregrina neste mundo, não lhe é permitido causar-lhe mal algum. Pois, sem dúvida, a divina providência lhe proporciona tanto consolação por meio da prosperidade, para que não seja quebrada pela adversidade, quanto provação por meio da adversidade, para que não seja corrompida pela prosperidade; e assim cada uma é temperada pela outra, como reconhecemos nos Salmos aquela voz que não surge de outra causa: "Conforme a multidão das minhas dores no meu coração, as tuas consolações alegraram a minha alma". Daí também o dito do apóstolo: “Alegrem-se na esperança, sejam pacientes na tribulação”.

Pois não se deve pensar que o que o mesmo mestre diz possa falhar em algum momento: "Quem quiser viver piedosamente em Cristo será perseguido". Porque mesmo quando os que estão desamparados não se enfurecem, e assim parece haver, e de fato há, tranquilidade, o que traz muita consolação, especialmente aos fracos, não lhes falta, sim, há Há muitos que, com seus costumes depravados, atormentam os corações daqueles que vivem piedosamente, pois por meio deles o nome cristão e católico é blasfemado; e quanto mais caro esse nome é para aqueles que desejam viver piedosamente em Cristo, mais se entristecem porque, por causa dos ímpios que ali se encontram, ele se torna menos amado do que as mentes piedosas desejam. Os próprios hereges, por serem considerados detentores do nome, dos sacramentos, das Escrituras e da profissão de fé cristã, causam grande tristeza nos corações dos piedosos, tanto porque muitos que desejam ser cristãos são compelidos por suas dissensões a hesitar, quanto porque muitos maldosos encontram neles pretexto para blasfemar o nome cristão, visto que também são chamados de cristãos. Por esses e outros costumes depravados e erros semelhantes, aqueles que desejam viver piedosamente em Cristo sofrem perseguição, mesmo quando ninguém molesta ou aflige seus corpos; pois sofrem essa perseguição não em seus corpos, mas em seus corações. De onde vem a expressão "segundo a multidão das minhas dores no meu coração"? Pois ele não diz "no meu corpo". Contudo, por outro lado, nenhuma delas pode perecer, porque as imutáveis ​​promessas divinas são lembradas. E porque o apóstolo diz: "O Senhor conhece os que lhe pertencem; aqueles que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho; nenhum deles pode perecer; portanto, segue-se nesse salmo: “As tuas consolações alegraram a minha alma”. Mas essa dor que surge nos corações dos piedosos, perseguidos pelos costumes dos maus ou falsos cristãos, é proveitosa para os que sofrem, porque procede da caridade com que não desejam que eles pereçam nem impeçam a salvação de outros. Finalmente, grandes consolações brotam de seu castigo, que imbuem as almas dos piedosos de uma fecundidade tão grande quanto as dores com que foram afligidos por causa de sua própria perdição. Assim, neste mundo, nestes dias maus, não só desde o tempo da presença corporal de Cristo e de seus apóstolos, mas também desde a de Abel, a quem seu irmão ímpio matou primeiro por ser justo, e daí em diante, até o fim deste mundo, a Igreja tem Seguiram em peregrinação em meio às perseguições do mundo e às consolações de Deus.

52. Se devemos acreditar no que alguns pensam, que, como as dez perseguições passadas já se cumpriram, não resta nenhuma outra além da décima primeira, que deve acontecer no próprio tempo do Anticristo.

Na verdade, não creio que o que alguns pensaram ou possam pensar seja dito ou acreditado precipitadamente, que até o tempo do Anticristo a Igreja de Cristo não sofrerá nenhuma perseguição além daquelas que já sofreu — isto é, dez — e que a décima primeira e última será infligida pelo Anticristo. Consideram como primeira a praga de Nero, a segunda a de Domiciano, a terceira a de Trajano, a quarta a de Antonino, a quinta a de Severo, a sexta a de Maximino, a sétima a de Décio, a oitava a de Valeriano, a nona a de Aureliano, a décima a de Diocleciano e a de Maximiano. Pois, assim como houve dez pragas no Egito antes que o povo de Deus pudesse começar a sair, pensam que isso se refere a uma demonstração de que a última perseguição do Anticristo deve ser como a décima primeira praga, na qual os egípcios, enquanto perseguiam os hebreus com hostilidade, pereceram no Mar Vermelho quando o povo de Deus passou por terra seca. Contudo, não creio que as perseguições tenham sido profeticamente significadas pelo que aconteceu no Egito, por mais engenhosamente que aqueles que assim pensam pareçam ter comparado os dois em detalhe, não pelo Espírito profético, mas pela conjectura da mente humana, que por vezes acerta na verdade e por vezes se engana. Mas o que podem dizer aqueles que pensam assim da perseguição em que o próprio Senhor foi crucificado? Em que número a incluirão? E se pensam que a contagem deve ser feita excluindo esta, como se devessem ser contadas as que dizem respeito ao corpo, e não aquela em que a própria Cabeça foi atacada e morta, o que podem dizer daquela que, depois da ascensão de Cristo ao céu, ocorreu em Jerusalém, quando o bem-aventurado Estêvão foi apedrejado; quando Tiago, irmão de João, foi morto à espada; quando o apóstolo Pedro foi preso para ser morto e foi libertado pelo anjo; quando os irmãos foram expulsos e dispersos de Jerusalém; quando Saulo, que mais tarde se tornou o apóstolo Paulo, devastou a Igreja; e quando ele mesmo, publicando Por que, então, acham conveniente começar por Nero, quando a Igreja, em seu crescimento, já havia alcançado a época de Nero em meio às mais cruéis perseguições, sobre as quais seria muito longo falar? Mas se pensam que apenas as perseguições feitas por reis devem ser consideradas, foi o rei Herodes quem também fez uma perseguição gravíssima após a ascensão do Senhor. E o que dizem de Juliano, que não está entre os dez? Não perseguiu ele a Igreja, que proibia os cristãos de ensinar ou aprender letras liberais? Sob seu reinado, Valentiniano, o Velho, que foi o terceiro imperador depois dele, se destacou como confessor da fé cristã e foi destituído do comando do exército. Não direi nada do que ele fez em Antioquia, exceto para mencionar sua admiração pela liberdade e alegria de um jovem fiel e firme, que, enquanto muitos eram presos para serem torturados, foi torturado durante um dia inteiro e cantou sob o instrumento de tortura, até que o imperador temeu que ele sucumbisse às contínuas crueldades e o envergonhasse por fim, o que o fez temer ser ainda mais desonrosamente humilhado pelos demais. Por fim, lembrando-nos de Valente, o ariano, irmão do já mencionado Valentiniano, não devastou a Igreja Católica com grande perseguição em todo o Oriente? Mas quão irracional é não considerar que a Igreja, que dá frutos e cresce em todo o mundo, possa sofrer perseguição de reis em algumas nações, mesmo quando não a sofre em outras! Talvez, porém, não se deva considerar perseguição o fato de o rei dos godos, na própria Gótia, ter perseguido os cristãos com terrível crueldade, numa cidade onde só havia católicos, muitos dos quais foram martirizados, como ouvimos de alguns irmãos que lá estiveram quando meninos e que, sem hesitar, se lembraram de ter presenciado tais coisas? E o que aconteceu na Pérsia recentemente? A perseguição contra os cristãos não foi tão intensa (se é que já diminuiu) que alguns dos fugitivos chegaram até a Pérsia? Cidades romanas? Quando penso nessas e em outras coisas semelhantes, não me parece que se possa precisar com certeza o número de perseguições que a Igreja enfrentará. Mas, por outro lado, não é menos temerário afirmar que haverá outras perseguições por parte de reis além daquela última, sobre a qual nenhum cristão duvida. Portanto, deixamos essa questão em aberto, sem apoiar ou refutar nenhum dos lados, apenas alertando para a audácia de afirmar qualquer um deles.

53. Do tempo oculto da perseguição final.

Verdadeiramente, o próprio Jesus extinguirá, com a Sua presença, a última perseguição que será feita pelo Anticristo. Pois assim está escrito: "Ele o matará com o sopro da sua boca e o esvaziará com o resplendor da sua presença". É costume perguntar: Quando será isso? Mas isso é totalmente irracional. Pois, se nos fosse proveitoso saber isso, quem melhor poderia ter nos dito senão o próprio Deus, o Mestre, quando os discípulos o questionaram? Pois eles não se calaram quando estavam com Ele, mas perguntaram-Lhe, dizendo: "Senhor, entregarás o reino a Israel neste tempo, ou quando?" Mas Ele disse: “Não vos compete saber os tempos que o Pai reservou para a Sua própria autoridade”. Quando receberam essa resposta, não O haviam questionado sobre a hora, o dia ou o ano, mas sobre o tempo. Em vão, então, tentamos calcular com precisão os anos que podem restar neste mundo, quando podemos ouvir da boca da Verdade que não nos compete saber isso. Alguns disseram que quatrocentos, outros quinhentos, outros ainda mil anos, podem se completar desde a ascensão do Senhor até a Sua vinda final. Mas apontar como cada um deles apoia a sua própria opinião levaria muito tempo, e não é necessário; pois, na verdade, eles usam conjecturas humanas e não apresentam nada de certo com base na autoridade das Escrituras canônicas. Mas sobre este assunto, Ele deixa de lado os cálculos dos calculistas e ordena silêncio, aquele que diz: “Não vos compete saber os tempos que o Pai reservou para a Sua própria autoridade”.

Mas, como essa passagem está no Evangelho, não é de admirar que os adoradores dos muitos e falsos deuses tenham sido impedidos de fingir que, pelas respostas dos demônios, a quem adoram como deuses, ficou determinado quanto tempo a religião cristã deveria durar. Pois, quando viram que ela não poderia ser consumida por tantas e grandes perseguições, mas, ao contrário, delas se expandiu maravilhosamente, inventaram versículos gregos, não sei quais, como se fossem proferidos por um oráculo divino a alguém que o consultasse, nos quais, de fato, absolvem Cristo desse, por assim dizer, crime sacrílego, mas acrescentam que Pedro, por meio de encantamentos, fez com que o nome de Cristo fosse adorado por trezentos e sessenta e cinco anos e, após o término desse período, chegasse ao fim abruptamente. Oh, corações de homens sábios! Ó, mentes eruditas, tão dignas de crer em tais coisas sobre Cristo que vocês não estão dispostos a crer no próprio Cristo: que Seu discípulo Pedro não aprendeu artes mágicas com Ele, mas que, embora inocente, Seu discípulo era um encantador e escolheu que Seu nome, e não o seu próprio, fosse adorado por meio de suas artes mágicas, seus grandes trabalhos e perigos, e por fim, até mesmo o derramamento de seu sangue! Se Pedro, o encantador, fez o mundo amar tanto a Cristo, o que fez Cristo, o inocente, para que Pedro O amasse tanto? Que eles respondam a si mesmos, então, e, se puderem, que compreendam que o mundo, em nome da vida eterna, foi levado a amar a Cristo pela mesma graça suprema que fez Pedro também amar a Cristo em nome da vida eterna que receberia dEle, e isso até mesmo ao ponto de sofrer a morte terrena por Ele. E então, que tipo de deuses são esses que conseguem prever tais coisas, mas não conseguem evitá-las, sucumbindo de tal maneira a um único encantador e mago perverso (que, como dizem, depois de matar um menino de um ano e despedaçá-lo, enterrou-o com ritos nefastos), a ponto de permitirem que a seita hostil a eles ganhasse força por tanto tempo e superasse as horríveis crueldades de tantas perseguições, não resistindo, mas sofrendo, e conseguisse a destruição de suas próprias imagens, templos, rituais e oráculos? Finalmente, que deus foi esse — certamente não um dos nossos, mas um dos deles — que foi seduzido ou compelido? Por que tamanha maldade realizar essas coisas? Pois esses versículos dizem que Pedro não prendeu um demônio, mas um deus para fazer essas coisas. Tal deus têm aqueles que não têm Cristo.

54. Da mentira muito tola dos pagãos, ao fingirem que a religião cristã não duraria mais de trezentos e sessenta e cinco anos.

Eu poderia reunir esses e muitos outros argumentos semelhantes, se aquele ano que a adivinhação mentirosa prometeu e a vaidade enganosa acreditou já não tivesse passado. Mas, como há poucos anos se completaram trezentos e sessenta e cinco anos desde que o culto ao nome de Cristo foi estabelecido por Sua presença em carne e osso e pelos apóstolos, que outra prova precisamos buscar para refutar essa falsidade? Pois, não se trata de situar o início desse período no nascimento de Cristo, porque quando criança e menino Ele não tinha discípulos, mas, quando começou a tê-los, sem dúvida a doutrina e a religião cristãs se tornaram conhecidas por meio de Sua presença corporal, isto é, depois que Ele foi batizado no rio Jordão pelo ministério de João. Pois foi por isso que a profecia a Seu respeito foi proferida: "Ele reinará de mar a mar, e desde o rio até os confins da terra". Mas, visto que, antes de Ele sofrer e ressuscitar dos mortos, a fé ainda não havia sido definida para todos, mas foi definida na ressurreição de Cristo (pois assim fala o apóstolo Paulo aos atenienses, dizendo: "Mas agora Ele anuncia a todos, em todo lugar, que se arrependam, porque estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com equidade, por meio do Homem em quem definiu a fé para todos, ressuscitando-o dentre os mortos" ), é melhor que, ao resolvermos esta questão, comecemos por esse ponto, especialmente porque o Espírito Santo foi então dado, assim como convinha que fosse dado após a ressurreição de Cristo naquela cidade da qual a segunda lei, isto é, o novo testamento, deveria começar. Pois a primeira, que é chamada de antigo testamento, foi dada no Monte Sinai por meio de Moisés. Mas a respeito desta que seria dada por Cristo, foi predito: “De Sião sairá a lei, e a palavra do Senhor de Jerusalém;” donde Ele mesmo disse que o arrependimento em Seu nome devia ser pregado entre todas as nações, mas começando por Jerusalém. Ali, portanto, surgiu a adoração a este nome, para que se acreditasse em Jesus, que morreu e ressuscitou. Ali, esta fé irrompeu com tão nobres começos que vários milhares de homens, convertendo-se ao nome de Cristo com maravilhosa prontidão, venderam seus bens para distribuição entre os necessitados, chegando, assim, por uma santa resolução e ardente caridade, à pobreza voluntária e preparando-se, em meio aos judeus enfurecidos e sedentos de sangue, para lutar pela verdade até a morte, não com poder armado, mas com uma paciência ainda maior. Se isso não foi realizado por artes mágicas, por que hesitam em acreditar que o outro poderia ser feito em todo o mundo pelo mesmo poder divino pelo qual isso foi feito? Mas supondo que Pedro tenha realizado aquele encantamento, de modo que uma multidão tão grande de homens em Jerusalém fosse assim incitada a adorar o nome de Cristo, que ou o havia agarrado e pregado na cruz, ou o havia insultado quando ali pregado, ainda assim devemos indagar quando os trezentos e sessenta e cinco anos devem ser completados, contando a partir daquele ano. Ora, Cristo morreu quando os geminianos eram cônsules, no oitavo dia antes das calendas de abril. Ressuscitou ao terceiro dia, como os apóstolos comprovaram por meio de suas próprias experiências. Quarenta dias depois, ascendeu aos céus. Dez dias depois, isto é, no quinquagésimo dia após a Sua ressurreição, enviou o Espírito Santo; então, três mil homens creram quando os apóstolos O anunciaram. Portanto, surgiu então o culto a esse nome, como cremos, e segundo a verdadeira verdade, pela eficácia do Espírito Santo, e não, como a vaidade ímpia fingiu ou pensou, pelas artes mágicas de Pedro. Pouco tempo depois, também, quando um sinal maravilhoso foi realizado, quando, por ordem do próprio Pedro, um certo mendigo, tão paralítico desde o ventre de sua mãe que era carregado por outros e colocado à porta do templo, onde pedia esmolas, foi curado em nome de Jesus Cristo e saltou de pé, cinco mil homens creram, e daí em diante a Igreja cresceu com a adesão de vários fiéis. Assim, reunimos o próprio dia em que aquele ano começou, ou seja, aquele em que o Espírito Santo foi enviado, isto é, durante os idos de maio. E, contando os cônsules, os trezentos e sessenta e cinco anos se completam no mesmo dia. ides no consulado de Honório e Eutiquiano. Ora, no ano seguinte, no consulado de Málico Teodoro, quando, segundo aquele oráculo dos demônios ou invenção dos homens, já não deveria haver religião cristã, não era necessário indagar o que porventura se fazia em outras partes da terra. Mas, como sabemos, na notória e eminente cidade de Cartago, na África, Gaudêncio e Jóvio, oficiais do imperador Honório, no décimo quarto dia antes das calendas de abril, derrubaram os templos e destruíram as imagens dos falsos deuses. E desde então até o presente, durante quase trinta anos, quem não vê o quanto o culto ao nome de Cristo aumentou, especialmente depois que muitos daqueles que se tornaram cristãos foram afastados da fé por acreditarem na veracidade daquela adivinhação, mas perceberam, ao final desse mesmo período, que ela era vazia e ridícula? Nós, portanto, que somos chamados e somos cristãos, não cremos em Pedro, mas naquele em quem Pedro creu — sendo edificados pelos sermões de Pedro sobre Cristo, não envenenados por seus encantamentos; e não enganados por seus feitiços, mas auxiliados por suas boas obras. O próprio Cristo, que foi o Mestre de Pedro na doutrina que conduz à vida eterna, é também o nosso Mestre.

Mas enfim, concluamos este livro, após termos tratado e demonstrado, na medida do possível, qual é o curso mortal das duas cidades, a celestial e a terrena, que se misturam do princípio ao fim. Destas, a terrena criou para si deuses falsos, vindos de qualquer outra fonte, ou mesmo dentre os homens, aos quais pudesse servir com sacrifícios; mas aquela que é celestial, e peregrina na terra, não cria deuses falsos, mas é ela mesma criada pelo Deus verdadeiro, de quem ela deve ser o verdadeiro sacrifício. Contudo, ambas desfrutam de bens temporais ou são afligidas por males temporais, mas com fé, esperança e amor diferentes, até que devam ser separadas pelo Juízo Final, e cada uma receba seu próprio fim, que não tem fim. É sobre esses fins de ambas que devemos tratar a seguir.

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