A CIDADE DE DEUS LIVRO 8 VOLUME I.

 

LIVRO OITAVO.

ARGUMENTO.

Agostinho passa agora ao terceiro tipo de teologia, isto é, a natural, e aborda a questão de saber se a adoração dos deuses da teologia natural é de alguma utilidade para garantir a felicidade na vida futura. Ele prefere discutir essa questão com os platônicos, porque o sistema platônico é "princípios fáceis" entre as filosofias e representa a maior aproximação da verdade cristã. Ao desenvolver esse argumento, ele primeiro refuta Apuleio e todos aqueles que sustentam que os demônios devem ser adorados como mensageiros e mediadores entre deuses e homens; Demonstrando que, de forma alguma, os homens podem ser reconciliados com os bons deuses por meio de demônios, que são escravos do vício e que se deleitam e patrocinam aquilo que os homens bons e sábios abominam e condenam: as ficções blasfemas de poetas, as exibições teatrais e as artes mágicas.

1. Que a questão da teologia natural deve ser discutida com aqueles filósofos que buscaram uma sabedoria mais excelente .

Precisaremos dedicar nossa atenção à presente questão com muito mais intensidade do que foi necessário para a solução e o desdobramento das questões tratadas nos livros anteriores; pois não é com homens comuns, mas com filósofos, que devemos dialogar sobre a teologia que eles chamam de natural. Pois ela não se assemelha à teologia fabulosa, isto é, teatral; nem à teologia civil, isto é, urbana: a primeira revela os crimes dos deuses, enquanto a segunda manifesta seus desejos criminosos, que demonstram que eles são mais demônios malignos do que deuses. É, dizemos, com filósofos que devemos dialogar a respeito dessa teologia — homens cujo próprio nome, se traduzido para o latim, significa aqueles que professam o amor à sabedoria. Ora, se a sabedoria é Deus, que criou todas as coisas, como atestam a autoridade e a verdade divinas, então o filósofo é um amante de Deus. Mas como a própria coisa, que é chamada por este nome, não existe em todos os que se gloriam no nome, — pois não se segue, obviamente, que Todos os que são chamados filósofos são amantes da verdadeira sabedoria; precisamos selecionar, dentre aqueles cujas opiniões pudemos conhecer por meio da leitura, alguns com os quais não seja indignamente aceitável abordar esta questão. Pois não me propus, nesta obra, a refutar todas as vãs opiniões dos filósofos, mas apenas aquelas pertinentes à teologia, palavra grega que entendemos como uma descrição ou explicação da natureza divina. Tampouco me propus a refutar todas as vãs opiniões teológicas de todos os filósofos, mas apenas daquelas que, concordando na crença de que existe uma natureza divina e que essa natureza divina se preocupa com os assuntos humanos, negam, contudo, que a adoração do único Deus imutável seja suficiente para a obtenção de uma vida bem-aventurada após a morte, assim como no presente; e sustentam que, para obter essa vida, muitos deuses, criados, de fato, e designados para suas respectivas esferas por esse único Deus, devem ser adorados. Estes se aproximam mais da verdade do que até mesmo Varrão. Pois, embora não visse dificuldade em estender a teologia natural em sua totalidade até mesmo ao mundo e à alma do mundo, estes reconhecem Deus como existente acima de tudo o que é da natureza da alma, e como o Criador não apenas deste mundo visível, que muitas vezes é chamado de céu e terra, mas também de toda e qualquer alma, e como Aquele que concede bem-aventurança à alma racional — da qual a alma humana faz parte — pela participação em Sua própria luz imutável e incorpórea. Não há ninguém que tenha um conhecimento, ainda que superficial, dessas coisas que desconheça os filósofos platônicos, que derivam seu nome de seu mestre Platão. Sobre esse Platão, então, mencionarei brevemente o que considero necessário para a presente questão, citando de antemão aqueles que o precederam no mesmo campo da literatura.

2. Sobre as duas escolas de filósofos, a itálica e a jônica, e seus fundadores.

No que diz respeito à literatura dos gregos, cuja língua ocupa um lugar mais ilustre do que qualquer outra língua das outras nações, a história menciona duas escolas de filósofos, uma chamada escola itálica, originária daquela parte da Itália que antigamente era chamada de Magna Grécia; A outra escola era chamada de escola jônica, originária das regiões que ainda hoje são conhecidas como Grécia. A escola itálica teve como fundador Pitágoras de Samos, a quem também se atribui a origem do termo "filosofia". Pois, enquanto antigamente aqueles que pareciam se destacar pela maneira louvável com que conduziam suas vidas eram chamados de sábios, Pitágoras, ao ser questionado sobre sua profissão, respondeu que era um filósofo, isto é, um estudante ou amante da sabedoria; pois lhe parecia o cúmulo da arrogância professar-se sábio. O fundador da escola jônica foi Tales de Mileto, um dos sete que foram chamados de "sete sábios", dos quais seis se distinguiram pelo tipo de vida que levaram e por certas máximas que promulgaram para a conduta adequada da vida. Tales se destacou como investigador da natureza das coisas; e, para que pudesse ter sucessores em sua escola, dedicou suas dissertações à escrita. O que, porém, o tornou especialmente eminente foi sua capacidade, por meio de cálculos astronômicos, de prever até mesmo eclipses do sol e da lua. Ele pensava, no entanto, que a água era o princípio primeiro das coisas e que dela todos os elementos do mundo, o próprio mundo e todas as coisas que são geradas nele, consistem em última instância. Sobre toda essa obra, porém, que, quando consideramos o mundo, parece tão admirável, ele nada colocou sobre a natureza da mente divina. A ele sucedeu Anaximandro, seu discípulo, que tinha uma opinião diferente sobre a natureza das coisas; pois ele não sustentava que todas as coisas brotavam de um único princípio, como Tales, que considerava esse princípio a água, mas acreditava que cada coisa brotava de seu próprio princípio. Ele acreditava que esses princípios das coisas eram infinitos em número e que geravam inúmeros mundos e todas as coisas que neles surgem. Ele também acreditava que esses mundos estavam sujeitos a um processo perpétuo de dissolução e regeneração alternadas, cada um com duração maior ou menor, de acordo com a natureza do caso; e ele, assim como Tales, não atribuía nada a uma mente divina na produção de toda essa atividade das coisas. Anaximandro deixou como seu sucessor seu Anaxímenes, discípulo de Anaxímenes, atribuía todas as causas das coisas a um ar infinito. Ele não negava nem ignorava a existência dos deuses, mas, longe de acreditar que o ar fosse criado por eles, sustentava, ao contrário, que eles surgiam do ar. Anaxágoras, por sua vez, que fora seu discípulo, percebeu que uma mente divina era a causa produtiva de todas as coisas que vemos e afirmou que todos os diversos tipos de coisas, segundo seus diferentes modos e espécies, eram produzidos a partir de uma matéria infinita constituída de partículas homogêneas, mas pela ação de uma mente divina. Diógenes, também discípulo de Anaxímenes, disse que um certo ar era a substância original das coisas, da qual todas as coisas eram produzidas, mas que possuía uma razão divina, sem a qual nada poderia ser produzido a partir dele. Anaxágoras foi sucedido por seu discípulo Arquelau, que também acreditava que todas as coisas consistiam em partículas homogêneas, das quais cada coisa particular era feita, mas que essas partículas eram permeadas por uma mente divina, que energizava perpetuamente todos os corpos eternos, ou seja, essas partículas, de modo que elas se alternavam entre união e separação. Sócrates, o mestre de Platão, teria sido discípulo de Arquelau; e é por causa de Platão que apresentei este breve esboço histórico de toda a história dessas escolas.

3. Da filosofia socrática.

Diz-se que Sócrates foi o primeiro a direcionar todo o esforço da filosofia para a correção e regulação dos costumes, visto que todos os que o precederam dedicaram seus maiores esforços à investigação dos fenômenos físicos, ou seja, naturais. Contudo, parece-me que não se pode determinar com certeza se Sócrates fez isso por estar cansado de coisas obscuras e incertas, e por desejar direcionar sua mente para a descoberta de algo manifesto e certo, necessário para a obtenção de uma vida plena — esse grande objetivo para o qual o trabalho, a vigilância e a diligência de todos os filósofos parecem ter sido direcionados — ou se (como alguns, ainda mais favoráveis ​​a ele, supõem) o fez por não querer que mentes contaminadas por desejos terrenos tentassem elevar-se a coisas divinas. Pois ele via que as causas de As coisas eram buscadas por eles — causas que ele acreditava serem, em última análise, redutíveis a nada mais do que a vontade do único Deus verdadeiro e supremo — e, por essa razão, ele pensava que só poderiam ser compreendidas por uma mente purificada; e, portanto, que toda diligência deveria ser dada à purificação da vida por meio de bons costumes, para que a mente, liberta do peso opressor dos desejos, pudesse elevar-se com seu vigor inato às coisas eternas e pudesse, com entendimento purificado, contemplar aquela natureza que é luz incorpórea e imutável, onde residem as causas de todas as naturezas criadas. É evidente, contudo, que ele buscava e perseguia, com uma admirável agradabilidade de estilo e argumentação, e com uma urbanidade perspicaz e insinuante, a tolice dos homens ignorantes, que pensavam saber isto ou aquilo — às vezes confessando sua própria ignorância, às vezes dissimulando seu conhecimento, mesmo naquelas questões morais às quais parecia ter direcionado toda a força de sua mente. E assim surgiu a hostilidade contra ele, que culminou em sua calúnia e condenação à morte. Posteriormente, porém, a própria cidade de Atenas, que o havia condenado publicamente, passou a lamentá-lo publicamente — a indignação popular voltou-se com tamanha veemência contra seus acusadores que um deles pereceu pela violência da multidão, enquanto o outro escapou de punição semelhante apenas por meio de exílio voluntário e perpétuo.

Ilustre, portanto, tanto em vida quanto em morte, Sócrates deixou muitos discípulos de sua filosofia, que competiam entre si pelo desejo de dominar as questões morais que dizem respeito ao bem supremo ( summum bonum ), cuja posse pode tornar um homem bem-aventurado; e como, nas disputas de Sócrates, onde ele levantava todo tipo de questões, fazia afirmações e depois as refutava, não ficava evidente o que ele considerava o bem supremo, cada um extraía dessas disputas o que mais lhe agradava e cada um colocava o bem final em segundo plano. em qualquer coisa que lhe parecesse consistir. Ora, aquilo que se chama o bem final é aquilo em que, Quando alguém chega lá, é abençoado. Mas tão diversas eram as opiniões dos seguidores de Sócrates a respeito desse bem supremo, que (algo dificilmente crível em relação aos seguidores de um mesmo mestre) alguns colocavam o bem supremo no prazer, como Aristipo, outros na virtude, como Antístenes. De fato, seria tedioso relatar as diversas opiniões dos diferentes discípulos.

4. Sobre Platão, o principal entre os discípulos de Sócrates, e sua tríplice divisão da filosofia.

Mas, entre os discípulos de Sócrates, Platão foi aquele que brilhou com uma glória que superou em muito a dos outros, e que não injustamente os eclipsou a todos. Nascido ateniense de família honrada, ele superou em muito seus companheiros discípulos em dons naturais, dos quais era dotado em grau extraordinário. Contudo, considerando a si mesmo e à disciplina socrática insuficientes para levar a filosofia à perfeição, viajou o máximo que pôde, indo a todos os lugares famosos pelo cultivo de qualquer ciência que pudesse dominar. Assim, aprendeu com os egípcios tudo o que eles consideravam e ensinavam como importante; e do Egito, passando para as regiões da Itália que eram famosas pelos pitagóricos, dominou, com a maior facilidade e sob a tutela dos mais eminentes mestres, toda a filosofia itálica que então estava em voga. E, como nutria um amor peculiar por seu mestre Sócrates, o tornou o orador em todos os seus diálogos, colocando em sua boca tudo o que havia aprendido, seja com outros, seja pelos esforços de seu próprio intelecto poderoso, temperando até mesmo suas disputas morais com a graça e a polidez do estilo socrático. E, como o estudo da sabedoria consiste em ação e contemplação, de modo que uma parte pode ser chamada de ativa e a outra de contemplativa — a parte ativa referindo-se à conduta da vida, isto é, à regulação da moral, e a parte contemplativa à investigação das causas da natureza e da verdade pura —, diz-se que Sócrates se destacou na parte ativa desse estudo, enquanto Pitágoras dedicou mais atenção à parte contemplativa, na qual empregou toda a força de seu grande intelecto. A Platão é atribuído o mérito de ter aperfeiçoado a filosofia ao combinar ambas as partes em uma só. Platão então divide a sabedoria em três partes: a primeira, moral, que se ocupa principalmente da ação; a segunda, natural, cujo objeto é a contemplação; e a terceira, racional, que distingue entre o verdadeiro e o falso. E embora esta última seja necessária tanto para a ação quanto para a contemplação, é a contemplação, contudo, que reivindica peculiarmente a função de investigar a natureza da verdade. Assim, essa divisão tripartite não é contrária àquilo que fez com que o estudo da sabedoria consistisse em ação e contemplação. Agora, quanto ao que Platão pensava a respeito de cada uma dessas partes — isto é, o que ele acreditava ser o fim de todas as ações, a causa de todas as naturezas e a luz de todas as inteligências — seria uma questão longa demais para ser discutida, e sobre a qual não devemos fazer nenhuma afirmação precipitada. Pois, como Platão apreciava e constantemente adotava o conhecido método de seu mestre Sócrates, ou seja, o de dissimular seu conhecimento ou suas opiniões, não é fácil descobrir claramente o que ele próprio pensava sobre vários assuntos, assim como não é fácil descobrir quais eram as verdadeiras opiniões de Sócrates. Devemos, contudo, inserir em nosso trabalho algumas das opiniões que ele expressa em seus escritos, sejam elas de sua própria autoria ou narradas por outros, e que ele próprio parece aprovar — opiniões ora favoráveis ​​à verdadeira religião, que nossa fé adota e defende, ora contrárias a ela, como, por exemplo, nas questões concernentes à existência de um só Deus ou de muitos, no que diz respeito à vida verdadeiramente bem-aventurada que haverá após a morte. Pois aqueles que são elogiados por terem seguido Platão mais de perto, que é justamente preferido a todos os outros filósofos gentios, e que se diz terem manifestado a maior acuidade em compreendê-lo, talvez nutram uma concepção de Deus tal que admitem que n'Ele se encontra a causa da existência, a razão última do entendimento e o fim em relação ao qual toda a vida deve ser regulada. Desses três aspectos, entende-se que o primeiro pertence à parte natural, o segundo à racional e o terceiro à moral da filosofia. Pois se o homem foi criado de tal forma que, por meio daquilo que nele há de mais excelente, pode alcançar aquilo que transcende todas as coisas — isto é, o único e absolutamente bom Deus, sem o qual nenhuma natureza existe, nenhuma doutrina instrui, nenhum exercício é proveitoso — que seja buscado por Ele, em quem todas as coisas nos são seguras; que seja descoberto por Ele, em quem toda a verdade se torna certa para nós; que seja amado por Ele, em quem tudo se torna correto para nós.

5. Que é especialmente com os platônicos que devemos conduzir nossas disputas sobre questões de teologia, sendo suas opiniões preferíveis às de todos os outros filósofos.

Se Platão definiu o sábio como aquele que imita, conhece e ama esse Deus, e que se torna bem-aventurado por meio da comunhão com Ele em Sua própria bem-aventurança, por que discutir com os outros filósofos? É evidente que nenhum se aproxima mais de nós do que os platônicos. A eles, portanto, ceda lugar aquela teologia fabulosa que deleita as mentes dos homens com os crimes dos deuses; e também essa teologia civil, na qual demônios impuros, sob o nome de deuses, seduziram os povos da terra entregues aos prazeres terrenos, desejando ser honrados pelos erros dos homens e, ao encherem as mentes de seus adoradores com desejos impuros, incitando-os a fazer da representação de seus crimes um dos ritos de seu culto, enquanto eles próprios encontravam nos espectadores dessas exibições um espetáculo extremamente agradável — uma teologia na qual tudo o que era honroso no templo era maculado por sua mistura com a obscenidade do teatro, e tudo o que era vil no teatro era justificado pelas abominações dos templos. A esses filósofos também devem ser consideradas as interpretações de Varrão, nas quais ele explica os ritos sagrados como tendo referência ao céu e à terra, e às sementes e operações de coisas perecíveis; pois, em primeiro lugar, esses ritos não possuem o significado que ele quer fazer crer que lhes é atribuído, e, portanto, a verdade não o acompanha em sua tentativa de interpretá-los dessa forma; e mesmo que tivessem esse significado, ainda assim não se deveria adorar como deus pela alma racional aquilo que lhe é inferior na escala da natureza, nem se deveria a alma preferir a si mesma, como deuses, coisas às quais o verdadeiro Deus lhe deu preferência. O mesmo se deve dizer dos escritos referentes aos ritos sagrados, que Numa Pompílio teve o cuidado de ocultar, mandando enterrá-los junto com ele, e que, Quando foram posteriormente desenterrados pelo arado, foram queimados por ordem do Senado. E, para tratar Numa com toda a honra, mencionemos, como pertencente à mesma categoria que estes escritos, o que Alexandre da Macedônia escreveu à sua mãe, conforme lhe foi comunicado por Leão, um sumo sacerdote egípcio. Nesta carta, não só Pico e Fauno, e Eneias e Rômulo, ou mesmo Hércules e Esculápio e Líber, filhos de Sêmele, e os gêmeos filhos de Tindáreo, ou quaisquer outros mortais que tenham sido deificados, mas até mesmo os próprios deuses principais, a quem Cícero, nas suas perguntas tusculanas, alude, sem mencionar seus nomes, a Júpiter, Juno, Saturno, Vulcano, Vesta e muitos outros que Varrão tenta identificar com as partes ou os elementos do mundo, e demonstra ter sido homens. Há, como dissemos, uma semelhança entre este caso e o de Numa; pois, o sacerdote, temendo por ter revelado um mistério, suplicou fervorosamente a Alexandre que ordenasse à sua mãe que queimasse a carta que lhe transmitia essas comunicações. Que essas duas teologias, então, a fabulosa e a civil, deem lugar aos filósofos platônicos, que reconheceram o verdadeiro Deus como o autor de todas as coisas, a fonte da luz da verdade e o generoso doador de toda a bem-aventurança. E não apenas a estes, mas também a esses grandes reconhecedores de um Deus tão grandioso, devem ceder aqueles filósofos que, tendo a mente escravizada ao corpo, supunham que os princípios de todas as coisas eram materiais; como Tales, que sustentava que o primeiro princípio de todas as coisas era a água; Anaxímenes, que era o ar; os estoicos, que era o fogo; Epicuro, que afirmou que o corpo humano era constituído de átomos, ou seja, de minúsculos corpúsculos; e muitos outros, que é desnecessário enumerar, mas que acreditavam que os corpos, simples ou compostos, animados ou inanimados, mas ainda assim corpos, eram a causa e o princípio de todas as coisas. Pois alguns deles — como, por exemplo, os epicuristas — acreditavam que os seres vivos podiam originar-se de coisas sem vida; outros sustentavam que todas as coisas, vivas ou sem vida, brotavam de um princípio vital, mas que, ainda assim, todas as coisas, sendo materiais, brotavam de um princípio material. Pois os estoicos pensavam que o fogo, isto é, um dos quatro elementos materiais dos quais este corpo visível é formado. O mundo é composto, era vivo e inteligente, o criador do mundo e de todas as coisas nele contidas — que era, de fato, Deus. Estes e outros como eles só puderam supor aquilo que seus corações, escravizados pelos sentidos, em vão lhes sugeriram. E, no entanto, eles têm dentro de si algo que não conseguem ver: representam para si mesmos interiormente coisas que viram exteriormente, mesmo quando não as veem, mas apenas pensam nelas. Mas essa representação no pensamento não é mais um corpo, mas apenas a semelhança de um corpo; e a faculdade da mente pela qual essa semelhança de um corpo é vista não é nem um corpo nem a semelhança de um corpo; e a faculdade que julga se a representação é bela ou feia é, sem dúvida, superior ao objeto julgado. Esse princípio é o entendimento do homem, a alma racional; e certamente não é um corpo, visto que a semelhança de um corpo que ela contempla e julga não é ela mesma um corpo. A alma não é terra, nem água, nem ar, nem fogo, dos quais, chamados os quatro elementos, compõem este mundo. E se a alma não é um corpo, como poderia Deus, seu Criador, ser um corpo? Que todos esses filósofos, então, cedam lugar, como já dissemos, aos platônicos, e também àqueles que se envergonharam de dizer que Deus é um corpo, mas que ainda assim pensaram que nossas almas são da mesma natureza que Deus. Eles não se assustaram com a grande mutabilidade da alma — um atributo que seria ímpio atribuir à natureza divina — mas dizem que é o corpo que muda a alma, pois em si mesma ela é imutável. Seria o mesmo que dizer: "A carne é ferida por algum corpo, pois em si mesma é invulnerável". Em suma, aquilo que é imutável não pode ser mudado por nada, de modo que aquilo que pode ser mudado pelo corpo não pode propriamente ser considerado imutável.

6. Sobre o significado dos platônicos naquela parte da filosofia chamada física.

Esses filósofos, então, que vemos não imerecidamente exaltados acima dos demais em fama e glória, perceberam que nenhum corpo material é Deus e, portanto, transcenderam todos os corpos na busca por Deus. Perceberam que tudo o que é mutável não é o Deus Altíssimo e, portanto, transcenderam toda alma e todo espírito mutável na busca pelo supremo. Viram também que, em toda coisa mutável, a forma que a torna o que ela é, seja qual for seu modo ou natureza, só pode existir por meio Daquele que verdadeiramente É , porque Ele é imutável. E, portanto, quer consideremos todo o corpo do mundo, sua forma, qualidades e movimento ordenado, e também todos os corpos que nele existem; quer consideremos toda a vida, seja aquela que nutre e sustenta, como a vida das árvores, ou aquela que, além disso, também possui sensações, como a vida dos animais; ou aquela que acrescenta a tudo isso inteligência, como a vida do homem; ou aquela que não precisa do suporte do alimento, mas apenas se sustenta, sente, compreende, como a vida dos anjos — tudo só pode existir por meio Daquele que absolutamente É . Pois para Ele não é uma coisa ser e outra viver, como se Ele pudesse ser sem viver; nem é para Ele uma coisa viver e outra compreender, como se Ele pudesse viver sem compreender; Para Ele, não é uma coisa compreender e outra ser abençoado, como se Ele pudesse compreender e não ser abençoado. Mas para Ele, viver, compreender e ser abençoado são o próprio ser . Compreenderam, a partir dessa imutabilidade e dessa simplicidade, que todas as coisas devem ter sido criadas por Ele, e que Ele próprio não poderia ter sido criado por ninguém. Pois consideraram que tudo o que existe é corpo ou vida, e que a vida é algo superior ao corpo, e que a natureza do corpo é sensível, e a da vida, inteligível. Portanto, preferiram a natureza inteligível à sensível. Entendemos por coisas sensíveis aquelas que podem ser percebidas pela visão e pelo tato do corpo; por coisas inteligíveis, aquelas que podem ser compreendidas pela visão da mente. Pois não há beleza corpórea, seja na condição de um corpo, como figura, seja em seu movimento, como na música, da qual não seja a mente que julga. Mas isso jamais teria sido possível se não existisse na própria mente uma forma superior dessas coisas, sem volume, sem ruído de voz, sem espaço e tempo. Mas mesmo em relação a essas coisas, se a mente não fosse mutável, não seria possível que alguém julgasse melhor do que outro no que diz respeito às formas sensíveis. Quem é inteligente julga melhor. do que aquele que é lento, aquele que é habilidoso do que aquele que é inábil, aquele que é experiente do que aquele que é inexperiente; e a mesma pessoa julga melhor depois de adquirir experiência do que antes. Mas aquilo que é capaz de mais e menos é mutável; daí que homens capazes, que refletiram profundamente sobre essas coisas, concluíram que a forma primordial não se encontra naquilo cuja forma é mutável. Visto que, portanto, perceberam que o corpo e a mente podiam ser mais ou menos belos em sua forma, e que, se lhes faltasse forma, não poderiam existir, compreenderam que há alguma existência na qual reside a forma primordial, imutável e, portanto, não admitindo graus de comparação, e na qual eles acreditavam, com toda razão, estar o princípio primordial das coisas, que não foi criado, e pelo qual todas as coisas foram criadas. Portanto, aquilo que se conhece de Deus, Ele lhes manifestou quando Suas coisas invisíveis foram vistas por eles, sendo compreendidas por meio das coisas que foram criadas; também Seu eterno poder e Divindade, por quem todas as coisas visíveis e temporais foram criadas. Já falamos o suficiente sobre aquela parte da teologia que eles chamam de física, isto é, natural.

7. Em que medida os platônicos devem ser considerados superiores a outros filósofos em lógica , ou seja, filosofia racional.

Por outro lado, no que diz respeito à doutrina que trata daquilo que chamam de lógica, isto é, filosofia racional, longe de nós compará-los com aqueles que atribuíam aos sentidos corporais a faculdade de discernir a verdade e pensavam que tudo o que aprendemos deve ser medido por suas regras falaciosas e pouco confiáveis. Assim eram os epicuristas e todos os da mesma escola. Assim também eram os estoicos, que atribuíam aos sentidos corporais aquela perícia na argumentação que tanto amavam, chamada por eles de dialética, afirmando que a mente concebe, através dos sentidos, as noções (ἔννοιαι) das coisas que explicam por definição. E daí se desenvolve todo o plano e a conexão de seu aprendizado e ensinamento. Muitas vezes me pergunto, a respeito disso, como podem dizer que ninguém é belo senão os sábios; pois por qual sentido corporal perceberam essa beleza, por quais olhos da carne viram a formosura da sabedoria? de forma? Aqueles, porém, que justamente colocamos acima de todos os outros, distinguiram as coisas que são concebidas pela mente daquelas que são percebidas pelos sentidos, sem tirar dos sentidos nada do que são competentes, nem lhes atribuir nada além de sua competência. E a luz de nosso entendimento, pela qual todas as coisas são aprendidas por nós, eles afirmaram ser o próprio Deus por quem todas as coisas foram feitas.

8. Que os platônicos também ocupam o primeiro lugar na filosofia moral.

A parte restante da filosofia é a moral, ou o que os gregos chamavam de ἠθική, na qual se discute a questão do bem supremo — aquele que não nos deixará nada mais a buscar para sermos bem-aventurados, se fizermos com que todas as nossas ações se refiram a ele, e o buscarmos não por causa de algo externo, mas por si mesmo. Por isso, é chamado de fim, porque desejamos outras coisas por causa dele, mas ele próprio apenas por si mesmo. Esse bem beatífico, portanto, segundo alguns, provém do corpo, segundo outros, da mente, e, segundo outros, de ambos em conjunto. Pois eles viam que o próprio homem consiste em alma e corpo; e, portanto, acreditavam que de um desses dois, ou de ambos em conjunto, seu bem-estar deveria proceder, consistindo em um certo bem final, que poderia torná-los bem-aventurados, e ao qual poderiam referir todas as suas ações, sem necessitar de nada ulterior ao qual referir o próprio bem. É por isso que aqueles que acrescentaram um terceiro tipo de bens, que chamam de extrínsecos — como honra, glória, riqueza e similares — não os consideraram parte do bem final, isto é, a serem buscados por si mesmos, mas como coisas que devem ser buscadas em função de algo mais, afirmando que esse tipo de bem é bom para os bons e mau para os maus. Portanto, quer tenham buscado o bem do homem na mente, no corpo ou em ambos, supuseram que ele só deveria ser buscado no homem. Mas aqueles que o buscaram no corpo o buscaram na parte inferior do homem; aqueles que o buscaram na mente, na parte superior; e aqueles que o buscaram em ambos, no homem inteiro. Portanto, quer eles Buscou-a em alguma parte, ou no homem como um todo, mas buscou-a apenas no homem; e essas diferenças, sendo três, não deram origem apenas a três seitas dissidentes de filósofos, mas a muitas. Pois diversos filósofos sustentaram diversas opiniões, tanto a respeito do bem do corpo, quanto do bem da mente, e do bem de ambos em conjunto. Que todos esses cedam lugar àqueles filósofos que não afirmaram que o homem é abençoado pelo gozo do corpo, ou pelo gozo da mente, mas pelo gozo de Deus — desfrutando d'Ele, porém, não como a mente desfruta do corpo ou de si mesma, ou como um amigo desfruta do outro, mas como o olho desfruta da luz, se é que podemos traçar alguma comparação entre essas coisas. Mas a natureza dessa comparação será, se Deus me ajudar, demonstrada em outro lugar, da melhor maneira possível. Por ora, basta mencionar que Platão determinou que o bem supremo é viver segundo a virtude e afirmou que somente quem conhece e imita a Deus pode alcançar a virtude — sendo esse conhecimento e imitação a única causa da bem-aventurança. Portanto, ele não duvidava que filosofar é amar a Deus, cuja natureza é incorpórea. Daí se segue, certamente, que o estudante da sabedoria, isto é, o filósofo, se tornará bem-aventurado quando começar a desfrutar de Deus. Pois, embora não seja necessariamente bem-aventurado aquele que desfruta daquilo que ama (pois muitos são infelizes por amarem o que não deveria ser amado, e ainda mais infelizes por desfrutarem dele), ninguém é bem-aventurado aquele que não desfruta daquilo que ama. Pois mesmo aqueles que amam coisas que não deveriam ser amadas não se consideram bem-aventurados apenas por amá-las, mas por desfrutá-las. Quem, então, senão o mais infeliz, negará que é bem-aventurado aquele que desfruta daquilo que ama e ama o verdadeiro e supremo bem? Mas o verdadeiro e supremo bem, segundo Platão, é Deus, e por isso ele chamaria de filósofo aquele que ama a Deus; pois a filosofia visa à obtenção da vida bem-aventurada, e aquele que ama a Deus é bem-aventurado no desfrute de Deus.

9. Sobre a filosofia que mais se aproximou da fé cristã.

Portanto, quaisquer que fossem as ideias dos filósofos a respeito do Deus supremo, que Ele é tanto o criador de todas as coisas criadas, a luz pela qual as coisas são conhecidas e o bem em relação ao qual as coisas devem ser feitas; que temos n'Ele o primeiro princípio da natureza, a verdade da doutrina e a felicidade da vida — se esses filósofos podem ser mais apropriadamente chamados de platônicos, ou se podem dar outro nome à sua seita; se, dizemos, apenas os principais homens da escola jônica, como o próprio Platão, e aqueles que o compreenderam bem, pensaram assim; ou se incluímos também a escola itálica, por conta de Pitágoras e dos pitagóricos, e todos os que possam ter sustentado opiniões semelhantes; e, por fim, se incluímos também todos os que foram considerados sábios e filósofos entre todas as nações que se descobriu terem visto e ensinado isso, sejam eles atlânticos, líbios, egípcios, indianos, persas, caldeus, citas, gauleses, espanhóis ou de outras nações — preferimos estes a todos os outros filósofos e confessamos que são os que mais se aproximam de nós.

10. Que a excelência da religião cristã reside acima de tudo na ciência dos filósofos.

Pois, embora um cristão instruído apenas na literatura eclesiástica possa desconhecer até mesmo o nome dos platônicos, e talvez nem saiba que existiram duas escolas de filósofos que falavam a língua grega, a saber, a jônica e a itálica, ele não é, contudo, tão surdo aos assuntos humanos a ponto de não saber que os filósofos professam o estudo, e até mesmo a posse, da sabedoria. Ele se mantém vigilante, porém, em relação àqueles que filosofam segundo os elementos deste mundo, e não segundo Deus, por quem o próprio mundo foi criado; pois ele é advertido pelo preceito do apóstolo e ouve fielmente o que foi dito: "Cuidado para que ninguém vos engane com filosofias e vãs sutilezas, segundo os rudimentos do mundo." Então, para que ele não suponha que todos os filósofos sejam assim, ouve o mesmo apóstolo dizer a respeito de alguns deles: “Porque o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, pois Deus lhes manifestou. Pois as coisas invisíveis de Deus, desde a criação do mundo, são claramente vistas, sendo compreendidas pelas coisas criadas, também por meio delas.” Seu poder eterno e divindade." E, falando aos atenienses, depois de ter dito uma coisa grandiosa acerca de Deus, que poucos são capazes de compreender: “Nele vivemos, e nos movemos, e existimos”, Ele continua dizendo: “Como também alguns dos vossos disseram”. Ele sabe muito bem, também, que deve estar atento até mesmo a esses filósofos em seus erros. Pois onde ele disse: “que Deus lhes manifestou por meio das coisas que foram tornadas invisíveis, para que pudessem ser vistas pelo entendimento”, ali também foi dito que eles não adoraram corretamente o próprio Deus, porque prestaram honras divinas, que são devidas somente a Ele, a outras coisas às quais não deveriam ter prestado — “porque, conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus; nem foram agradecidos, mas se tornaram vãos em seus pensamentos, e seus corações insensatos se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se tolos e trocaram a glória do Deus incorruptível pela semelhança da imagem do homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis;” —onde o apóstolo quer que o entendamos como se referindo aos romanos, gregos e egípcios, que se gloriavam em nome da sabedoria; mas sobre isso discutiremos com eles mais tarde. No entanto, com respeito àquilo em que concordam conosco, preferimo-los a todos os outros, a saber, quanto ao único Deus, o autor deste universo, que não só está acima de todo corpo, sendo incorpóreo, mas também acima de todas as almas, sendo incorruptível — nosso princípio, nossa luz, nosso bem. E embora o cristão, por desconhecer os seus escritos, não use em disputas palavras que não aprendeu — não chamando de natural (termo latino) ou física (termo grego) a parte da filosofia que trata da investigação da natureza; ou de racional ou lógica a parte que trata da questão de como a verdade pode ser descoberta; ou aquela parte moral, ou ética, que diz respeito à moral e mostra como o bem deve ser buscado e o mal evitado — ele não ignora, portanto, que é do único Deus verdadeiro e supremamente bom que recebemos a natureza pela qual fomos feitos à imagem de Deus, e a doutrina pela qual O conhecemos e a nós mesmos. e essa graça pela qual, ao nos apegarmos a Ele, somos abençoados. Esta, portanto, é a razão pela qual preferimos estes a todos os outros, porque, enquanto outros filósofos desgastaram suas mentes e faculdades buscando as causas das coisas e se esforçando para descobrir o modo correto de aprender e viver, estes, conhecendo a Deus, encontraram onde reside a causa pela qual o universo foi constituído, a luz pela qual a verdade deve ser descoberta e a fonte da qual a felicidade deve ser bebida. Todos os filósofos, então, que tiveram esses pensamentos a respeito de Deus, sejam platônicos ou outros, concordam conosco. Mas julgamos melhor defender nossa causa com os platônicos, porque seus escritos são mais conhecidos. Pois os gregos, cuja língua ocupa o lugar mais elevado entre as línguas dos gentios, são efusivos em seus elogios a esses escritos; e os latinos, cativados por sua excelência ou renome, os estudaram com mais afinco do que outros escritos e, ao traduzi-los para nossa língua, lhes conferiram maior celebridade e notoriedade.

11. Como Platão conseguiu se aproximar tanto do conhecimento cristão.

Alguns que participam conosco da graça de Cristo se maravilham ao ouvir e ler que Platão tinha concepções sobre Deus nas quais reconhecem considerável concordância com a verdade de nossa religião. Alguns concluíram, a partir disso, que quando ele foi ao Egito, ouviu o profeta Jeremias ou, enquanto viajava pelo mesmo país, leu as escrituras proféticas, opinião que eu mesmo expressei em alguns dos meus escritos. Mas um cálculo cuidadoso das datas, contido na história cronológica, mostra que Platão nasceu cerca de cem anos depois da época em que Jeremias profetizou e, como viveu oitenta e um anos, constatou-se que decorreram cerca de setenta anos desde a sua morte até à época em que Ptolomeu, rei do Egito, solicitou que lhe fossem enviadas as escrituras proféticas do povo hebreu da Judeia, e as confiou a setenta hebreus, que também conheciam a língua grega, para serem traduzidas e guardadas. Portanto, nessa sua viagem, Platão não poderia ter visto Jeremias, que já havia morrido há tanto tempo, nem ter lido essas mesmas escrituras. que ainda não haviam sido traduzidos para o grego, língua da qual ele era mestre, a menos que digamos que, como ele era muito dedicado à busca do conhecimento, também estudou esses escritos por meio de um intérprete, como fez com os dos egípcios — não escrevendo, de fato, uma tradução deles (cujas facilidades para fazê-lo só foram obtidas, mesmo por Ptolomeu, em troca de generosos atos de bondade). embora o medo de sua autoridade real pudesse parecer um motivo suficiente), mas aprendendo o máximo possível sobre o conteúdo deles por meio de conversas. O que justifica essa suposição são os versículos iniciais de Gênesis: "No princípio, Deus fez os céus e a terra. A terra, porém, era invisível e sem ordem; havia trevas sobre o abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas." Pois no Timeu , ao escrever sobre a formação do mundo, ele diz que Deus primeiro uniu a terra e o fogo; do que se depreende que ele atribui ao fogo um lugar no céu. Essa opinião guarda certa semelhança com a afirmação: "No princípio, Deus fez o céu e a terra". Platão fala em seguida daqueles dois elementos intermediários, água e ar, pelos quais os outros dois extremos, a saber, terra e fogo, foram mutuamente unidos; circunstância pela qual se acredita que ele tenha entendido assim as palavras: "O Espírito de Deus pairava sobre as águas". Pois, não prestando atenção suficiente às designações dadas por essas escrituras ao Espírito de Deus, ele pode ter pensado que os quatro elementos são mencionados naquele trecho, porque o ar também é chamado de espírito. Então, quanto à afirmação de Platão de que o filósofo é um amante de Deus, nada resplandece mais claramente nesses escritos sagrados. Mas o mais impressionante a esse respeito, e o que mais me inclina quase a concordar com a opinião de que Platão não desconhecia esses escritos, é a resposta dada à pergunta feita ao santo Moisés quando as palavras de Deus lhe foram transmitidas pelo anjo; pois, quando ele perguntou qual era o nome daquele Deus que lhe ordenava ir libertar o povo hebreu do Egito, esta resposta foi Dado: "Eu Sou o que Sou; e dirás aos filhos de Israel: Aquele que me enviou a vós;" como se comparadas com Aquele que verdadeiramente É , porque Ele é imutável, aquelas coisas que foram criadas mutáveis ​​não o são — uma verdade que Platão sustentava veementemente e recomendava com a maior diligência. E não sei se esse sentimento é encontrado em algum lugar nos livros daqueles que vieram antes de Platão, a não ser naquele livro onde se diz: "Eu Sou o que Sou; e dirás aos filhos de Israel: Quem me enviou a vós?"

12. Que mesmo os platônicos, embora digam essas coisas a respeito do único Deus verdadeiro, ainda assim pensavam que ritos sagrados deveriam ser realizados em honra de muitos deuses.

Mas não precisamos determinar de que fonte ele aprendeu essas coisas — se foi dos livros dos antigos que o precederam ou, como é mais provável, das palavras do apóstolo: "Porque o que de Deus se pode conhecer foi manifestado entre eles, pois Deus lhes manifestou. Pois os seus atributos invisíveis, desde a criação do mundo, são claramente vistos, sendo compreendidos pelas coisas criadas, assim como o seu eterno poder e divindade." Seja qual for a fonte de onde ele tenha derivado esse conhecimento, então, creio ter deixado suficientemente claro que não escolhi os filósofos platônicos injustamente como os interlocutores; porque a questão que acabamos de abordar diz respeito à teologia natural — a questão, a saber, se os ritos sagrados devem ser realizados para um Deus ou para muitos, em prol da felicidade que haverá após a morte. Escolhi-os especialmente porque seus pensamentos mais justos a respeito do único Deus que criou o céu e a terra os tornaram ilustres entre os filósofos. Isso lhes conferiu tal superioridade sobre todos os outros no julgamento da posteridade, que, embora Aristóteles, discípulo de Platão, um homem de eminentes habilidades, inferior em eloquência a Platão, mas muito superior a muitos nesse aspecto, tivesse fundado a seita peripatética — assim chamada porque tinham o hábito de caminhar durante suas disputas — e embora, devido à grandeza de sua fama, tivesse reunido muitos discípulos em sua escola, mesmo durante a vida de seu mestre; e embora Platão em sua morte Platão foi sucedido em sua escola, chamada Academia, por Espeusipo, filho de sua irmã, e Xenócrates, seu discípulo predileto, que, juntamente com seus sucessores, ficaram conhecidos como Acadêmicos, nome derivado da escola. Contudo, os filósofos mais ilustres dos últimos tempos, que escolheram seguir Platão, não quiseram ser chamados de Peripatéticos ou Acadêmicos, preferindo o título de Platônicos. Entre eles, destacam-se os renomados Plotino, Jâmblico e Porfírio, que eram gregos, e o africano Apuleio, versado tanto em grego quanto em latim. Todos esses, porém, e os demais da mesma escola, assim como o próprio Platão, acreditavam que ritos sagrados deveriam ser realizados em honra a muitos deuses.

13. Sobre a opinião de Platão, segundo a qual ele definiu os deuses como seres inteiramente bons e amigos da virtude.

Portanto, embora em muitos outros aspectos importantes eles difiram de nós, no que diz respeito a este ponto específico de divergência, que acabei de mencionar, por ser de grande relevância e estar relacionado à questão em apreço, perguntarei primeiro a eles a quais deuses eles acreditam que os ritos sagrados devem ser realizados: aos bons, aos maus ou a ambos? Mas temos a opinião de Platão, que afirma que todos os deuses são bons e que não há nenhum deus mau. Segue-se, portanto, que esses ritos devem ser realizados aos bons, pois então são realizados aos deuses; pois se não são bons, também não são deuses. Ora, se este for o caso (pois em que mais deveríamos acreditar a respeito dos deuses?), certamente isso refuta a opinião de que os deuses maus devem ser propiciados por ritos sagrados para que não nos prejudiquem, mas os deuses bons devem ser invocados para que nos auxiliem. Pois não existem deuses maus, e é aos bons que, como se costuma dizer, se presta a devida honra de tais ritos. Que caráter, então, são esses deuses que amam espetáculos cênicos, chegando a exigir que lhes seja dado um lugar entre as coisas divinas e que sejam exibidos em sua honra? O poder desses deuses prova que eles existem, mas o fato de gostarem de tais coisas prova que são maus. Pois é bem conhecido qual era a opinião de Platão a respeito das peças cênicas. Ele pensa que os próprios poetas, porque eles Compuseram canções tão indignas da majestade e da bondade dos deuses, que deveriam ser banidas do Estado. Que caráter, portanto, têm esses deuses que contendem com o próprio Platão sobre essas peças teatrais? Ele não permite que os deuses sejam difamados por falsos crimes; os deuses ordenam que esses mesmos crimes sejam celebrados em sua própria honra.

Enfim, quando ordenaram a estreia dessas peças, não só exigiram coisas vis, como também cometeram atos cruéis, tirando-lhes o filho, Tito Latino, e enviando-lhe uma doença por se recusar a obedecê-los, doença essa que foi curada quando ele cumpriu suas ordens. Platão, porém, por mais perversos que fossem, não os considerava dignos de temor; mas, mantendo sua opinião com a máxima firmeza e constância, não hesita em expurgar de um estado bem ordenado todas as tolices sacrílegas dos poetas, com as quais esses deuses se deleitam por serem eles próprios impuros. Mas Labão coloca esse mesmo Platão (como já mencionei no segundo livro) ) entre os semideuses. Ora, Labeo pensa que as divindades más devem ser propiciadas com vítimas sangrentas e jejuns acompanhados das mesmas, mas as divindades boas com peças teatrais e todas as outras coisas associadas à alegria. Como é que, então, o semideus Platão ousa tão persistentemente retirar esses prazeres, porque os considera vis, não dos semideuses, mas dos deuses, e estes, os deuses bons? Além disso, esses mesmos deuses certamente refutam a opinião de Labeo, pois mostraram-se, no caso de Latinius, não apenas libertinos e brincalhões, mas também cruéis e terríveis. Que os platônicos, portanto, nos expliquem essas coisas, já que, seguindo a opinião de seu mestre, pensam que todos os deuses são bons e honrados, e amigos das virtudes dos sábios, considerando ilícito pensar o contrário a respeito de qualquer um dos deuses. Nós explicaremos, dizem eles. Ouçamo-los atentamente.

14. Da opinião daqueles que disseram que as almas racionais são de três tipos, a saber, as dos deuses celestiais, as dos demônios aéreos e as dos homens terrestres.

Dizem que existe, segundo eles, uma divisão tríplice de todos os animais dotados de... com uma alma racional, ou seja, em deuses, homens e demônios. Os deuses ocupam a região mais elevada, os homens a mais baixa, os demônios a intermediária. Pois a morada dos deuses é o céu, a dos homens a terra, a dos demônios o ar. Assim como a dignidade de suas regiões é diversa, também o é a de suas naturezas; portanto, os deuses são superiores aos homens e aos demônios. Os homens foram colocados abaixo dos deuses e demônios, tanto em relação à ordem das regiões que habitam, quanto à diferença de seus méritos. Os demônios, portanto, que ocupam o lugar intermediário, assim como são inferiores aos deuses, que habitam uma região inferior, também são superiores aos homens, que habitam uma mais elevada. Pois compartilham com os deuses a imortalidade do corpo, mas compartilham com os homens as paixões da mente. Por isso, dizem eles, não é de admirar que se deleitem com as obscenidades do teatro e as ficções dos poetas, visto que também estão sujeitos às paixões humanas, das quais os deuses estão muito distantes e às quais são totalmente alheios. Daí concluímos que não foram os deuses, que são todos bons e sublimemente exaltados, que Platão privou do prazer das peças teatrais, ao reprovar e proibir as ficções dos poetas, mas sim os demônios.

Muitos escreveram sobre esses assuntos: entre eles, Apuleio, o platônico de Madaura, que compôs uma obra inteira sobre o tema, intitulada " Sobre o Deus de Sócrates" . Nela, ele discute e explica de que tipo era a divindade que acompanhava Sócrates, uma espécie de familiar, que, segundo consta, o advertia a desistir de qualquer ação que não lhe trouxesse benefício. Ele afirma categoricamente, e demonstra detalhadamente, que não se tratava de um deus, mas de um demônio; e discute com grande diligência a opinião de Platão a respeito da elevada posição dos deuses, da posição humilde dos homens e da posição intermediária dos demônios. Sendo assim, como ousou Platão privar, se não dos deuses, a quem ele afastou de toda contaminação humana, certamente dos demônios, todos os prazeres do teatro, expulsando os poetas do Estado? Evidentemente, dessa forma, ele desejava admoestar a alma humana, embora ainda confinada nesses membros moribundos, a desprezar as ordens vergonhosas dos demônios. e detestar sua impureza, e escolher antes o esplendor da virtude. Mas se Platão se mostrou virtuoso ao responder e proibir essas coisas, então certamente era vergonhoso da parte dos demônios ordená-las. Portanto, ou Apuleio está errado, e o familiar de Sócrates não pertencia a essa classe de divindades, ou Platão sustentava opiniões contraditórias, ora honrando os demônios, ora removendo do estado bem regulamentado as coisas que lhes davam prazer, ou Sócrates não deve ser congratulado pela amizade com o demônio, da qual Apuleio se envergonhou tanto que intitulou seu livro " Sobre o Deus de Sócrates" , enquanto, de acordo com o teor de sua discussão, na qual ele tão diligentemente e detalhadamente distingue deuses de demônios, ele não deveria tê-lo intitulado " Sobre o Deus" , mas "Sobre o Demônio de Sócrates" . Mas ele preferiu inserir isso na própria discussão em vez de no título de seu livro. Pois, graças à sã doutrina que iluminou a sociedade humana, todos, ou quase todos os homens, nutrem tal horror ao nome de demônios, que qualquer um que, antes de ler a dissertação de Apuleio, que expõe a dignidade dos demônios, tivesse lido o título do livro, Sobre o Demônio de Sócrates , certamente teria pensado que o autor não era um homem são. Mas o que Apuleio encontrou para elogiar nos demônios, senão a sutileza, a força física e uma morada elevada? Pois, quando falou de modo geral sobre seus costumes, não disse nada de bom, mas muito de ruim. Finalmente, ninguém, depois de ler esse livro, se admira de que eles desejassem ter até mesmo a obscenidade do palco entre as coisas divinas, ou que, querendo ser considerados deuses, se deleitassem com os crimes dos deuses, ou que todas aquelas solenidades sagradas, cuja obscenidade provoca risos e cuja crueldade vergonhosa causa horror, estivessem em consonância com suas paixões.

15. Que os demônios não são melhores que os homens por causa de seus corpos aéreos, ou por causa de seu lugar de morada superior.

Portanto, que a mente verdadeiramente religiosa e submissa ao verdadeiro Deus não suponha que os demônios sejam superiores aos homens por possuírem corpos melhores. Do contrário, ela teria que colocar diante de si muitas bestas que nos são superiores tanto em acuidade sensorial quanto em facilidade e rapidez de movimento. Em força e vigor físico prolongado. Que homem pode igualar a águia ou o abutre em acuidade visual? Quem pode igualar o cão em acuidade olfativa? Quem pode igualar a lebre, o veado e todas as aves em velocidade? Quem pode igualar em força o leão ou o elefante? Quem pode igualar em longevidade as serpentes, que, segundo a lenda, se livram da velhice junto com a pele e retornam à juventude? Mas, assim como somos superiores a todos esses por possuirmos razão e entendimento, também devemos ser superiores aos demônios por vivermos vidas boas e virtuosas. Pois a divina providência lhes deu corpos de qualidade superior aos nossos, para que aquilo em que os superamos pudesse, dessa forma, ser recomendado a nós como merecedor de muito mais cuidado do que o corpo, e para que aprendêssemos a desprezar a excelência corporal dos demônios em comparação com a bondade de vida, em relação à qual somos melhores do que eles, sabendo que também nós teremos a imortalidade do corpo — não uma imortalidade torturada por um castigo eterno, mas aquela que é consequência da pureza da alma.

Mas agora, no que diz respeito à elevação do lugar, é totalmente ridículo sermos influenciados pelo fato de os demônios habitarem o ar e nós a terra, a ponto de pensarmos que, por isso, eles devam ser colocados acima de nós; pois dessa forma colocamos todos os pássaros acima de nós mesmos. Mas os pássaros, quando se cansam de voar ou precisam reparar seus corpos com alimento, voltam à terra para descansar ou se alimentar, o que os demônios, dizem, não fazem. Estariam eles, portanto, inclinados a dizer que os pássaros são superiores a nós e os demônios superiores aos pássaros? Mas se é loucura pensar assim, não há razão para pensarmos que, por habitarem um elemento mais elevado, os demônios tenham direito à nossa submissão religiosa. Mas, assim como as aves do céu não só não são colocadas diante de nós, que habitamos a terra, como até mesmo nos são subjugadas por causa da dignidade da alma racional que habita em nós, também os demônios, embora sejam aéreos, não são superiores a nós, que somos terrestres, pelo fato de o ar ser mais alto que a terra; pelo contrário, os homens devem ser colocados diante dos demônios porque seu desespero não se compara à esperança dos homens piedosos. Até mesmo essa lei de A lei de Platão, segundo a qual ele ordena e organiza mutuamente os quatro elementos, inserindo entre os dois elementos extremos — o fogo, que é o mais móvel, e a terra, imóvel — os dois intermediários, o ar e a água, de modo que, na mesma medida em que o ar está acima da água e o fogo acima do ar, as águas também estão acima da terra, essa lei, digo eu, nos adverte suficientemente para não avaliarmos os méritos das criaturas animadas de acordo com os graus dos elementos. E o próprio Apuleio afirma que o homem é um animal terrestre como os demais, que, no entanto, deve ser colocado muito antes dos animais aquáticos, embora Platão coloque as próprias águas antes da terra. Com isso, ele quer que entendamos que a mesma ordem não deve ser observada quando se trata dos méritos dos animais, embora pareça ser a correta na gradação dos corpos; pois parece possível que uma alma de ordem superior habite um corpo de ordem inferior, e uma alma de ordem inferior um corpo de ordem superior.

16. O que Apuleio, o platônico, pensava sobre os costumes e as ações dos demônios.

O mesmo Apuleio, ao falar sobre os costumes dos demônios, disse que eles se agitam com as mesmas perturbações mentais que os homens; que são provocados por injúrias, apaziguados por serviços e presentes, regozijam-se com honras, deleitam-se com uma variedade de ritos sagrados e se incomodam se algum deles for negligenciado. Entre outras coisas, ele também diz que deles dependem as adivinhações de áugures, adivinhos e profetas, e as revelações dos sonhos; e que deles também provêm os milagres dos magos. Mas, ao dar uma breve definição deles, ele diz: "Os demônios são de natureza animal, passivos na alma, racionais na mente, aéreos no corpo, eternos no tempo." "Desses cinco aspectos, os três primeiros são comuns a eles e a nós, o quarto é peculiar a eles e o quinto é comum a eles e aos deuses." Mas vejo que eles têm em comum com os deuses duas das primeiras coisas que também têm em comum conosco. Pois ele diz que os deuses também são animais; e quando ele atribui a cada ordem de seres o seu próprio elemento, ele nos coloca entre os outros. Animais terrestres que vivem e sentem sobre a terra. Portanto, se os demônios são animais em termos de gênero, isso lhes é comum não apenas aos homens, mas também aos deuses e às bestas; se são racionais em sua mente, isso lhes é comum aos deuses e aos homens; se são eternos no tempo, isso lhes é comum apenas aos deuses; se são passivos em sua alma, isso lhes é comum apenas aos homens; se são aéreos em corpo, nisso são únicos. Portanto, não é grande coisa para eles serem de natureza animal, pois as bestas também o são; sendo racionais em sua mente, não estão acima de nós, pois nós também o somos; e quanto à sua eternidade no tempo, qual a vantagem disso se não são abençoados? Pois melhor é a felicidade temporal do que a miséria eterna. Novamente, quanto à sua passividade em alma, como eles estão acima de nós nesse aspecto, visto que nós também o somos, mas não o seríamos se não fôssemos miseráveis? Além disso, quanto ao fato de serem seres aéreos, que valor se deve atribuir a isso, visto que uma alma, de qualquer espécie, deve ser colocada acima de qualquer corpo? Portanto, o culto religioso, que deveria emanar da alma, não é de modo algum devido àquilo que é inferior à alma. Ademais, se ele tivesse, entre as coisas que diz pertencerem aos demônios, enumerado a virtude, a sabedoria, a felicidade, e afirmado que eles têm essas coisas em comum com os deuses e, como eles, são eternos, certamente teria atribuído a eles algo muito desejável e muito valioso. E mesmo nesse caso, não seria nosso dever adorá-los como a Deus por causa dessas coisas, mas sim adorar Aquele de quem sabemos que as receberam. Mas quanto menos dignos de honra divina são eles, esses animais aéreos que são racionais apenas para serem capazes de sofrimento, passivos para serem de fato miseráveis ​​e eternos para que lhes seja impossível pôr fim ao seu sofrimento!

17. Se é correto que os homens adorem os espíritos dos quais é necessário libertá-los dos vícios.

Portanto, para omitir outras coisas e restringir nossa atenção àquilo que ele diz ser comum aos demônios e a nós, façamos a seguinte pergunta: se todos os quatro elementos estão repletos de seus próprios animais, o fogo e o ar são imortais, e a água e o Terra dos mortais, por que as almas dos demônios são agitadas pelos redemoinhos e tempestades das paixões? — pois a palavra grega πάθος significa perturbação, razão pela qual ele escolheu chamar os demônios de "passivos em alma", porque a palavra paixão, que deriva de πάθος, significava uma comoção da mente contrária à razão. Por que, então, essas coisas existem nas mentes dos demônios, que não existem nas bestas? Pois se algo desse tipo aparece nas bestas, não é perturbação, porque não é contrário à razão, da qual elas são desprovidas. Ora, é a tolice ou a miséria que causa essas perturbações no caso dos homens, pois ainda não fomos agraciados com a perfeição da sabedoria que nos é prometida, enfim, quando formos libertados de nossa mortalidade presente. Mas os deuses, dizem, estão livres dessas perturbações, porque não são apenas eternos, mas também bem-aventurados; pois eles também possuem o mesmo tipo de alma racional, porém puríssima, livre de toda mácula e pestilência. Portanto, se os deuses estão livres de perturbações porque são bem-aventurados, e não animais miseráveis, e as bestas estão livres delas porque são animais incapazes tanto de bem-aventurança quanto de miséria, resta o fato de que os demônios, assim como os homens, estão sujeitos a perturbações porque não são bem-aventurados, mas animais miseráveis. Que tolice, portanto, ou melhor, que loucura, submeter-nos aos demônios por qualquer sentimento religioso, quando pertence à verdadeira religião livrar-nos da depravação que nos torna semelhantes a eles! Pois o próprio Apuleio, embora seja muito benevolente para com eles e os considere dignos de honras divinas, é obrigado a confessar que estão sujeitos à ira; e a verdadeira religião nos ordena a não nos deixarmos levar pela ira, mas sim a resistir a ela. Os demônios são conquistados por meio de presentes; e a verdadeira religião nos ordena a não favorecer ninguém por causa de presentes recebidos. Os demônios são lisonjeados por honras; Mas a verdadeira religião nos ordena, de modo algum, a não nos deixarmos abalar por tais coisas. Os demônios odeiam alguns homens e amam outros, não por causa de um julgamento prudente e sereno, mas por causa do que ele chama de sua "alma passiva"; enquanto a verdadeira religião nos ordena a amar até mesmo nossos inimigos. Por fim, a verdadeira religião nos ordena a afastar toda inquietação do coração e agitação da mente, bem como toda comoção e... Tempestades da alma, que Apuleio afirma estarem continuamente crescendo e se agitando nas almas dos demônios. Por que, então, a não ser por tolice e erro miserável, deverias te humilhar a adorar um ser do qual desejas ser diferente em tua vida? E por que deverias prestar homenagem religiosa àquele a quem não queres imitar, quando o dever supremo da religião é imitar Aquele a quem adoras?

18. Que tipo de religião é essa que ensina que os homens devem recorrer à intercessão de demônios para serem recomendados ao favor dos bons deuses?

Em vão, portanto, Apuleio e seus seguidores conferiram aos demônios a honra de colocá-los no ar, entre os céus etéreos e a terra, para que levassem aos deuses as preces dos homens e aos homens as respostas dos deuses; pois Platão sustentava, dizem eles, que nenhum deus se comunica com o homem. Aqueles que acreditam nessas coisas consideram impróprio que os homens se comuniquem com os deuses e os deuses com os homens, mas apropriado que os demônios se comuniquem tanto com deuses quanto com homens, apresentando aos deuses as petições dos homens e transmitindo aos homens o que os deuses concederam; de modo que um homem casto, e alguém que desconhece os crimes das artes mágicas, precisa usar como patronos, por meio dos quais os deuses podem ser induzidos a ouvi-lo, demônios que amam esses crimes, embora o próprio fato de ele não amá-los devesse tê-lo recomendado como alguém que merecia ser ouvido com maior prontidão e boa vontade por parte deles. Eles amam as abominações do palco, que a castidade não ama. Eles amam, nas feitiçarias dos mágicos, " mil artes de infligir dano ". que a inocência não ama. Contudo, tanto a castidade quanto a inocência, se desejam obter algo dos deuses, não poderão fazê-lo por seus próprios méritos, a menos que seus inimigos atuem como mediadores em seu favor. Apuleio não precisa tentar justificar as ficções dos poetas e as zombarias do palco. Se a modéstia humana pode agir com tanta infidelidade consigo mesma a ponto não só de amar coisas vergonhosas, mas até mesmo de pensar que elas são Para agradar à divindade, podemos citar, por outro lado, sua mais alta autoridade e mestre, Platão.

19. Da impiedade da arte mágica, que depende da ajuda de espíritos malignos.

Além disso, contra essas artes mágicas, das quais alguns homens, extremamente miseráveis ​​e ímpios, se deleitam em vangloriar-se, não pode a própria opinião pública ser invocada como testemunha? Pois por que essas artes são tão severamente punidas pelas leis, se são obras de divindades que deveriam ser adoradas? Será que foram os cristãos que promulgaram essas leis que punem as artes mágicas? Com ​​que outro significado, senão o de que essas feitiçarias são, sem dúvida, perniciosas para a raça humana, disse o mais ilustre poeta?

"Por Deus, eu juro, e pela sua própria vida,Empunho estas armas contra a minha vontade,E leve, para enfrentar o conflito que se aproxima,Espada e escudo do encantamento."

E aquilo que ele diz em outro lugar a respeito das artes mágicas,

"Eu o vi transportar o milho ainda em pé para outro lugar."

Refere-se ao fato de que os frutos de um campo são supostamente transferidos para outro por meio dessas artes ensinadas por essa doutrina pestilenta e maldita. Acaso Cícero não nos informa que, entre as leis das Doze Tábuas, isto é, as leis mais antigas dos romanos, havia uma lei que previa uma punição para quem praticasse tal ato? Por último, foi perante juízes cristãos que o próprio Apuleio foi acusado de artes mágicas? Se ele soubesse que essas artes eram divinas e piedosas, e congruentes com as obras do poder divino, não só deveria tê-las confessado, mas também tê-las professado, antes censurando as leis pelas quais essas coisas eram proibidas e consideradas dignas de condenação, enquanto deveriam ter sido consideradas dignas de admiração e respeito. Pois, agindo assim, ou ele teria persuadido os juízes a adotarem sua própria opinião, ou, se eles tivessem demonstrado parcialidade por leis injustas e o condenado à morte, apesar de ele louvar e elogiar tais coisas, os demônios teriam concedido à sua alma as recompensas que ele merecia, aquele que, para proclamar e divulgar suas obras divinas, não temeu a perda de sua vida humana. Assim como nossos mártires, quando essa religião lhes foi acusada de crime, religião essa que sabiam que os tornaria seguros e gloriosos por toda a eternidade, não escolheram, negando-a, escapar das punições temporais, mas sim confessando-a, professando-a e proclamando-a, suportando tudo por ela com fidelidade e fortaleza, e morrendo por ela com piedosa serenidade, envergonharam a lei que proibia essa religião e provocaram sua revogação. Mas existe uma oratória copiosa e eloquente deste filósofo platônico, na qual ele se defende da acusação de praticar essas artes, afirmando ser totalmente alheio a elas e desejando apenas demonstrar sua inocência negando aquilo que não pode ser cometido inocentemente. Contudo, todos os milagres dos magos, que ele considera merecedores de condenação, são realizados segundo os ensinamentos e pelo poder dos demônios. Por que, então, ele acha que eles devem ser honrados? Pois ele afirma que são necessários para apresentar nossas preces aos deuses, e, no entanto, suas obras são tais que devemos evitar se quisermos que nossas preces cheguem ao verdadeiro Deus. Novamente, pergunto: que tipo de preces dos homens ele supõe serem apresentadas aos bons deuses pelos demônios? Se forem preces mágicas, eles não as receberão; se forem preces lícitas, eles não as receberão por meio de tais seres. Mas se um pecador arrependido profere orações, especialmente se cometeu algum crime de feitiçaria, receberá ele perdão pela intercessão daqueles demônios por cuja instigação e auxílio caiu no pecado que lamenta? Ou os próprios demônios, para merecerem o perdão do penitente, primeiro se tornam penitentes por tê-lo enganado? Ninguém jamais disse isso a respeito dos demônios; pois, se assim fosse, eles jamais teriam ousado buscar para si honras divinas. Pois como poderiam fazê-lo aqueles que desejam, pelo arrependimento, obter a graça de Deus? Perdão, visto que tal orgulho detestável não poderia coexistir com uma humildade digna de perdão?

20. Se devemos acreditar que os bons deuses estão mais dispostos a ter relações sexuais com demônios do que com homens.

Mas será que existe alguma causa urgente e premente que obrigue os demônios a mediar entre os deuses e os homens, para que estes possam interceder pelos homens e trazer as respostas dos deuses? E se assim for, qual é essa causa, qual é essa necessidade tão grande? Porque, dizem eles, nenhum deus se relaciona com o homem. Santidade admirável de Deus, que não se relaciona com um homem suplicante, mas se relaciona com um demônio arrogante! Que não se relaciona com um homem penitente, mas se relaciona com um demônio enganador! Que não se relaciona com um homem que busca refúgio na natureza divina, mas se relaciona com um demônio que finge divindade! Que não se relaciona com um homem que busca perdão, mas se relaciona com um demônio que persuade à maldade! que não tem relações com um homem que expulsa os poetas de um estado bem regulamentado por meio de escritos filosóficos, e ainda assim tem relações com um demônio que exige dos príncipes e sacerdotes de um estado a representação teatral das zombarias dos poetas! que não tem relações com o homem que proíbe a atribuição de crimes aos deuses, e ainda assim tem relações com um demônio que se deleita na representação fictícia de seus crimes! que não tem relações com um homem que pune os crimes dos magos por leis justas, e ainda assim tem relações com um demônio que ensina e pratica artes mágicas! que não tem relações com um homem que evita a imitação de um demônio, e ainda assim tem relações com um demônio que espreita a armadilha para enganar um homem!

21. Se os deuses usam os demônios como mensageiros e intérpretes, e se são enganados por eles de livre e espontânea vontade ou sem o seu próprio conhecimento.

Mas aqui reside, sem dúvida, a grande necessidade dessa absurdidade, tão indigna dos deuses, que os deuses etéreos, preocupados com os assuntos humanos, não saberiam o que os homens terrestres estavam fazendo a menos que os demônios aéreos lhes trouxessem informações, porque o éter está suspenso muito longe da terra e muito acima dela, mas o ar é contíguo. tanto para o éter quanto para a terra. Ó admirável sabedoria! O que mais pensam esses homens a respeito dos deuses que, dizem, são todos da mais alta bondade, senão que se preocupam com os assuntos humanos para não parecerem indignos de adoração, enquanto, por outro lado, devido à distância entre os elementos, ignoram as coisas terrenas? É por isso que supõem que os demônios sejam necessários como agentes, por meio dos quais os deuses podem se informar sobre os assuntos humanos e por meio dos quais, quando necessário, podem socorrer os homens; e é por causa dessa função que os próprios demônios são considerados merecedores de adoração. Se assim for, então um demônio é mais bem conhecido por esses bons deuses pela proximidade física do que um homem pela bondade de espírito. Ó lamentável necessidade! Ou não devo dizer antes erro detestável e vão, para não atribuir vaidade à natureza divina? Pois, se os deuses, com suas mentes livres do empecilho dos corpos, podem ver nossa mente, não precisam dos demônios como mensageiros de nossa mente para eles; mas se os deuses etéreos, por meio de seus corpos, percebem os índices corpóreos das mentes, como a fisionomia, a fala, o movimento, e daí compreendem o que os demônios lhes dizem, então também é possível que sejam enganados pelas falsidades dos demônios. Além disso, se a divindade dos deuses não pode ser enganada pelos demônios, tampouco pode ignorar nossas ações. Mas eu gostaria que me dissessem se os demônios informaram aos deuses que as ficções dos poetas sobre os crimes dos deuses desagradam a Platão, ocultando o prazer que eles próprios obtêm com elas; ou se ocultaram ambas as coisas, preferindo que os deuses ignorassem todo o assunto, ou se contaram tanto a piedosa prudência de Platão em relação aos deuses quanto sua própria luxúria, que é prejudicial aos deuses; Ou será que ocultaram a opinião de Platão, segundo a qual ele não desejava que os deuses fossem difamados com crimes falsamente alegados pela licença ímpia dos poetas, enquanto eles próprios não se envergonharam nem temeram tornar públicas as suas próprias maldades, que os levam a amar peças teatrais nas quais se celebram os feitos infames dos deuses? Que escolham. Eles escolherão entre essas quatro alternativas e considerarão o quanto de maldade cada uma delas os obrigaria a pensar dos deuses. Pois, se escolherem a primeira, terão que confessar que não era possível aos bons deuses habitarem com o bom Platão, embora este buscasse proibir coisas prejudiciais a eles, enquanto eles habitavam com demônios malignos, que se regozijavam em suas injúrias; e isso porque supõem que os bons deuses só podem conhecer um homem bom, situado a uma distância tão grande deles, por meio da mediação de demônios malignos, que eles poderiam conhecer devido à proximidade destes. Se escolherem a segunda opção e disserem que ambas as coisas são ocultadas pelos demônios, de modo que os deuses são totalmente ignorantes tanto da lei mais religiosa de Platão quanto do prazer sacrílego dos demônios, o que, nesse caso, os deuses podem saber de proveito algum em relação aos assuntos humanos por meio desses demônios intermediários, quando não conhecem as coisas que são decretadas, pela piedade dos homens bons, para a honra dos bons deuses contra a luxúria dos demônios maus? Mas se escolherem a terceira opção e responderem que esses demônios intermediários comunicaram não apenas a opinião de Platão, que proibia que se cometessem injustiças contra os deuses, mas também seu próprio deleite nessas injustiças, eu perguntaria se tal comunicação não seria antes um insulto? Ora, os deuses, ouvindo e conhecendo ambos, não só permitem a aproximação daqueles demônios malignos, que desejam e fazem coisas contrárias à dignidade dos deuses e à religião de Platão, como também, por meio desses demônios perversos, que lhes são próximos, enviam coisas boas ao bom Platão, que está longe deles; pois habitam tal lugar na série concatenada dos elementos, que podem entrar em contato com aqueles que os acusam, mas não com aquele que os defende — conhecendo a verdade de ambos os lados, mas não sendo capazes de alterar o peso do ar e da terra. Resta a quarta suposição; mas é pior que as demais. Pois quem permitiria que se dissesse que os demônios revelaram as ficções caluniosas dos poetas a respeito dos deuses imortais, e também as zombarias vergonhosas dos teatros, e sua própria luxúria ardente e doce por... prazer nessas coisas, enquanto lhes ocultaram que Platão, com a gravidade de um filósofo, expressou a opinião de que todas essas coisas deveriam ser removidas de uma república bem regulamentada; de modo que os bons deuses são agora obrigados, por meio de tais mensageiros, a conhecer as más ações dos seres mais perversos, isto é, dos próprios mensageiros, e não lhes é permitido conhecer as boas ações dos filósofos, embora as primeiras sejam para o prejuízo, enquanto estas últimas para a honra dos próprios deuses?

22. Que devemos, apesar da opinião de Apuleio, rejeitar o culto aos demônios.

Nenhuma dessas quatro alternativas, portanto, deve ser escolhida; pois não ousamos supor coisas tão impróprias para os deuses quanto a adoção de qualquer uma delas nos levaria a crer. Resta, portanto, não dar qualquer crédito à opinião de Apuleio e dos demais filósofos da mesma escola, a saber, que os demônios atuam como mensageiros e intérpretes entre os deuses e os homens para levar nossas petições aos deuses e trazer de volta a nós o auxílio divino. Ao contrário, devemos crer que são espíritos ávidos por infligir dano, totalmente alheios à retidão, repletos de orgulho, pálidos de inveja, sutis no engano; que habitam, de fato, este ar como em uma prisão, em consonância com sua própria natureza, pois, lançados das alturas do céu superior, foram condenados a habitar este elemento como justa punição por uma transgressão irremediável. Mas, embora o ar esteja situado acima da terra e das águas, não são por isso superiores em mérito aos homens, que, embora não os ultrapassem em termos de corpos terrenos, excedem-nos em muito em piedade de espírito — tendo escolhido o verdadeiro Deus como seu auxílio. Sobre muitos, porém, que são manifestamente indignos de participar da verdadeira religião, eles tiranizam como sobre cativos que subjugaram — a maior parte dos quais persuadiram de sua divindade por meio de sinais maravilhosos e enganosos, consistindo em atos ou previsões. Sobre alguns, contudo, que examinaram seus vícios com mais atenção e diligência, não conseguiram convencê-los de que são deuses e, assim, fingiram ser mensageiros. entre os deuses e os homens. Alguns, de fato, pensaram que nem mesmo esta última honra deveria ser reconhecida como pertencente a eles, não acreditando que fossem deuses, porque os viam como perversos, enquanto os deuses, segundo sua visão, eram todos bons. Contudo, não ousavam dizer que eram totalmente indignos de toda honra divina, por medo de ofender a multidão que, por meio de superstição inveterada, servia aos demônios com a realização de muitos ritos e a construção de muitos templos.

23. O que Hermes Trismegisto pensava sobre a idolatria e de que fonte ele sabia que as superstições do Egito deveriam ser abolidas.

O Hermes egípcio, a quem chamam de Trismegisto, tinha uma opinião diferente a respeito desses demônios. Apuleio, de fato, nega que sejam deuses; mas quando afirma que ocupam um lugar intermediário entre os deuses e os homens, de modo que parecem ser necessários aos homens como mediadores entre eles e os deuses, ele não distingue entre a adoração que lhes é devida e a homenagem religiosa devida aos deuses supremos. Este egípcio, porém, diz que existem alguns deuses criados pelo Deus supremo e outros criados pelos homens. Qualquer um que ouça isso, como expus, sem dúvida supõe que se refere a imagens, por serem obras das mãos dos homens; mas ele afirma que as imagens visíveis e tangíveis são, por assim dizer, apenas os corpos dos deuses, e que nelas habitam certos espíritos, que foram convidados a entrar nelas e que têm o poder de infligir dano ou de satisfazer os desejos daqueles que lhes prestam honras e serviços divinos. Unir, portanto, por meio de uma certa arte, esses espíritos invisíveis às coisas visíveis e materiais, de modo a criar, por assim dizer, corpos animados, dedicados e entregues aos espíritos que os habitam — isso, diz ele, é criar deuses, acrescentando que os homens receberam esse grande e maravilhoso poder. Transcreverei as palavras desse egípcio conforme foram traduzidas para a nossa língua: "E, já que nos propusemos a discorrer sobre a relação e a comunhão entre os homens e os deuses, saiba, ó Esculápio, o poder e a força do homem. Assim como o Senhor e Pai, ou o Altíssimo, Deus, é o criador dos deuses celestiais, assim também o homem o é." Criador dos deuses que estão nos templos, contente em habitar perto dos homens." E um pouco depois ele diz: “Assim, a humanidade, sempre atenta à sua natureza e origem, persevera na imitação da divindade; e assim como o Senhor e Pai fez deuses eternos, para que fossem como Ele, assim a humanidade moldou seus próprios deuses à semelhança de seu próprio semblante”. Quando este Esculápio, a quem ele se dirigia especialmente, lhe respondeu, dizendo: "Referes-te às estátuas, ó Trismegisto?", — "Sim, as estátuas", respondeu ele, "por mais incrédulo que sejas, ó Esculápio, — as estátuas, animadas, cheias de sensações e espírito, que realizam coisas tão grandiosas e maravilhosas, — as estátuas, previdentes do futuro, que o anunciam por sorteio, por profecia, por sonhos e muitas outras coisas, que trazem doenças aos homens e os curam, dando-lhes alegria ou tristeza de acordo com seus méritos. Não sabes, Esculápio, que o Egito é uma imagem do céu, ou, mais precisamente, uma transposição e descendência de todas as coisas que lá são ordenadas e realizadas, — que é, na verdade, se assim podemos dizer, o templo do mundo inteiro? E, no entanto, como convém ao homem prudente conhecer todas as coisas de antemão, não deves ignorar que há um tempo que virá." Quando se constatar que os egípcios, com mente piedosa e diligência escrupulosa, serviram à divindade em vão, e quando toda a sua santa adoração se reduzir a nada e for considerada vã."

Hermes então desenvolve longamente as afirmações desta passagem, na qual parece predizer o tempo presente, em que a religião cristã está derrubando todas as mentiras e ilusões com uma veemência e liberdade proporcionais à sua verdade e santidade superiores, para que a graça do verdadeiro Salvador possa libertar os homens dos deuses que o homem criou e sujeitá-los ao Deus por quem o homem foi criado. Mas quando Hermes prediz essas coisas, ele fala como alguém que simpatiza com essas mesmas zombarias demoníacas e não menciona claramente o nome de Cristo. Ao contrário, ele deplora, como se já tivesse ocorrido, a futura abolição daquilo que era mantido em prática. No Egito, uma semelhança do céu — ele dá testemunho do cristianismo por meio de uma espécie de profecia triste. Ora, foi a respeito disso que o apóstolo disse: "Conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas tornaram-se vãos em seus próprios raciocínios, e o coração insensato deles obscureceu-se; dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus incorruptível pela semelhança da imagem do homem corruptível." e assim por diante, pois toda a passagem é longa demais para ser citada. Pois Hermes faz muitas declarações desse tipo, concordantes com a verdade a respeito do único Deus verdadeiro que criou este mundo. E não sei como ele se deixou confundir por esse "escurecimento do coração" a ponto de expressar o desejo de que os homens permaneçam sempre sujeitos aos deuses que ele confessa serem feitos por homens, e lamentar sua futura remoção; como se pudesse haver algo mais miserável do que a humanidade tiranizada pela obra de suas próprias mãos, visto que o homem, ao adorar as obras de suas próprias mãos, pode mais facilmente deixar de ser homem do que as obras de suas mãos podem, por meio de sua adoração, tornar-se deuses. Pois é mais provável que o homem, que recebeu uma posição honrosa, por falta de entendimento, se torne comparável aos animais, do que as obras do homem se tornem preferíveis à obra de Deus, feita à Sua própria imagem, isto é, ao próprio homem. Por isso, o homem é merecidamente deixado a afastar-se daquele que o criou, quando prefere a si mesmo aquilo que ele mesmo criou.

Por essas coisas vãs, enganosas, perniciosas e sacrílegas, o egípcio Hermes se entristecia, pois sabia que chegaria o tempo em que seriam removidas. Mas sua tristeza era expressa com a mesma impudência com que seu conhecimento fora obtido; pois não fora o Espírito Santo quem lhe revelara essas coisas, como fizera aos santos profetas, que, prevendo-as, disseram com júbilo: "Se alguém fizer deuses, eis que não serão deuses;" e em outro lugar: “E acontecerá naquele dia, diz o Senhor, que eliminarei da terra os nomes dos ídolos, e eles não serão mais lembrados”. Mas o santo Isaías profetiza expressamente concernente ao Egito em referência a este assunto, dizendo: "E os ídolos do Egito se comoverão diante da Sua presença, e o seu coração se comoverá neles." e outras coisas com o mesmo efeito. E com o profeta devem ser classificados aqueles que se alegraram porque aquilo que sabiam que haveria de vir de fato veio, — como Simeão, ou Ana, que reconheceu imediatamente Jesus quando Ele nasceu, ou Isabel, que no Espírito O reconheceu quando Ele foi concebido, ou Pedro, que disse pela revelação do Pai: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Mas a este egípcio aqueles espíritos indicaram o tempo da sua própria destruição, o qual também, quando o Senhor estava presente em carne, disse com tremor: "Vieste aqui para nos destruir antes do tempo?" entendendo por destruição antes do tempo, ou aquela própria destruição que eles esperavam que viesse, mas que não pensavam que viria tão repentinamente como pareceu ter vindo, ou apenas aquela destruição que consistiu em serem desprezados por terem sido revelados. E, de fato, esta foi uma destruição antes do tempo, isto é, antes do tempo do julgamento, quando eles serão punidos com a danação eterna, juntamente com todos os homens que estão envolvidos em sua maldade, como declara a verdadeira religião, que não erra nem leva ao erro; pois não é como aquele que, levado de um lado para o outro por todo vento de doutrina, e misturando coisas verdadeiras com coisas falsas, lamenta como prestes a perecer uma religião que depois confessa ser um erro.

24. Como Hermes confessou abertamente o erro de seus antepassados, cuja destruição iminente ele, no entanto, lamentou.

Após um longo intervalo, Hermes retorna ao tema dos deuses criados pelos homens, dizendo o seguinte: "Mas basta desse assunto. Voltemos ao homem e à razão, esse dom divino pelo qual o homem foi chamado de animal racional. Pois as coisas que foram ditas a respeito do homem, por mais maravilhosas que sejam, são menos maravilhosas do que as que foram ditas a respeito da razão. O fato de o homem descobrir a natureza divina e criá-la supera a maravilha de todas as outras coisas maravilhosas. Portanto, nossos antepassados ​​erraram muito a respeito da..." Como nossos antepassados ​​erraram muito no conhecimento dos deuses, por incredulidade e por falta de atenção ao seu culto e serviço, inventaram a arte de fazer deuses; e, uma vez inventada essa arte, associaram a ela uma virtude adequada, emprestada da natureza universal, e, sendo incapazes de criar almas, evocaram as de demônios ou de anjos, e as uniram a essas imagens sagradas e mistérios divinos, para que, por meio dessas almas, as imagens pudessem ter o poder de fazer o bem ou o mal aos homens." Não sei se os próprios demônios poderiam ter sido levados, mesmo por conjuração, a confessar como ele confessou nestas palavras: "Como nossos antepassados ​​erraram muito no conhecimento dos deuses, por incredulidade e por falta de atenção ao seu culto e serviço, inventaram a arte de fazer deuses." Ele diz que foi um grau moderado de erro que resultou na descoberta da arte de fazer deuses, ou contentou-se em dizer "eles erraram"? Não; ele precisa acrescentar "muito" e dizer: " Eles erraram muito." "Foi esse grande erro e incredulidade, então, de seus antepassados ​​que não se dedicaram ao culto e ao serviço dos deuses, que deu origem à arte de fazer deuses. E, no entanto, esse sábio lamenta a ruína dessa arte em algum momento futuro, como se fosse uma religião divina. Não está ele, na verdade, compelido por influência divina, por um lado, a revelar o erro passado de seus antepassados ​​e, por influência diabólica, por outro, a lamentar o futuro castigo dos demônios? Pois se seus antepassados, errando profundamente no que diz respeito ao conhecimento dos deuses, por meio da incredulidade e da aversão da mente ao seu culto e serviço, inventaram a arte de fazer deuses, que admiração há de que tudo o que é feito por essa arte detestável, que se opõe à religião divina, seja removido por essa religião, quando a verdade corrige o erro, a fé refuta a incredulidade e a conversão retifica a aversão?"

Pois se ele tivesse apenas dito, sem mencionar a causa, que seus antepassados ​​haviam descoberto a arte de fazer deuses, seria nosso dever, se tivéssemos qualquer consideração pelo que é correto e piedoso, considerar e perceber que eles jamais teriam alcançado tal arte se não tivessem se desviado da verdade, se tivessem acreditado naquilo que é digno de Deus, se tivessem se dedicado ao culto e ao serviço divino. Contudo, Se disséssemos que as causas dessa arte se encontravam no grande erro e na incredulidade dos homens, e na aversão da mente que se desvia e é infiel à religião divina, a impudência daqueles que resistem à verdade seria de alguma forma tolerável; mas quando aquele que admira no homem, acima de todas as outras coisas, esse poder que lhe foi concedido para praticar, e se entristece porque está chegando o tempo em que todas essas criações de deuses inventadas pelos homens serão até mesmo proibidas pelas leis — quando até mesmo esse homem confessa, e explica as causas que levaram à descoberta dessa arte, dizendo que seus ancestrais, por meio de grande erro e incredulidade, e por não se dedicarem ao culto e ao serviço dos deuses, inventaram essa arte de fazer deuses — o que devemos dizer, ou melhor, fazer, senão dar ao Senhor nosso Deus toda a gratidão que pudermos, porque Ele removeu essas coisas por causas contrárias às que levaram à sua instituição? Pois aquilo que a prevalência do erro instituiu, o caminho da verdade removeu; Aquilo que a incredulidade instaurou, a fé removeu; aquilo que a aversão ao culto e serviço divino instaurou, a conversão ao único Deus verdadeiro e santo removeu. E isso não ocorreu apenas no Egito, país pelo qual apenas o espírito dos demônios lamentou em Hermes, mas em toda a Terra, que canta ao Senhor um cântico novo. como predisseram as Escrituras verdadeiramente santas e verdadeiramente proféticas, nas quais está escrito: “Cantem ao Senhor um cântico novo; cantem ao Senhor, toda a terra”. Pois o título deste salmo é: “Quando a casa foi reconstruída depois do cativeiro”. Pois uma casa está sendo reconstruída para o Senhor em toda a terra, a cidade de Deus, que é a santa Igreja, depois daquele cativeiro em que demônios mantiveram cativos aqueles homens que, pela fé em Deus, se tornaram pedras vivas na casa. Pois, embora o homem tenha feito deuses, isso não significa que aquele que os fez não tenha sido mantido cativo por eles, quando, ao adorá-los, foi levado à comunhão com eles — à comunhão não de ídolos sólidos, mas de demônios astutos; pois o que são ídolos senão o que são representados nas mesmas Escrituras: “Eles têm olhos, mas não veem”? e, embora artisticamente elaborados, são Ainda sem vida e sem sensações? Mas os espíritos imundos, associados por meio dessa arte perversa a esses mesmos ídolos, têm aprisionado miseravelmente as almas de seus adoradores, levando-os à comunhão consigo mesmos. Por isso o apóstolo diz: "Sabemos que um ídolo nada é; mas as coisas que os gentios sacrificam, sacrificam-nas a demônios e não a Deus; e eu não quero que tenhais comunhão com demônios." Depois desse cativeiro, portanto, no qual os homens foram mantidos por demônios malignos, a casa de Deus está sendo construída em toda a terra; daí o título daquele salmo em que se diz: “Cantem ao Senhor um cântico novo; cantem ao Senhor, toda a terra. Cantem ao Senhor, bendigam o seu nome; anunciem bem a sua salvação dia após dia. Anunciem a sua glória entre as nações, entre todos os povos as suas maravilhas. Porque grande é o Senhor e digno de ser louvado; ele é mais terrível do que todos os deuses. Pois todos os deuses das nações são demônios; mas o Senhor fez os céus.”

Por isso, aquele que se entristecia porque se aproximava o tempo em que a adoração de ídolos seria abolida, e o domínio dos demônios sobre os que os adoravam, desejou, sob a influência de um demônio, que esse cativeiro perdurasse para sempre, ao término do qual o salmo celebra a construção da casa do Senhor em toda a terra. Hermes predisse essas coisas com tristeza, o profeta com alegria; e porque o Espírito é vitorioso, aquele que cantou essas coisas por meio dos antigos profetas, até mesmo Hermes foi compelido, de maneira admirável, a confessar que aquelas mesmas coisas que ele não desejava que fossem removidas, e cuja remoção o entristecia, haviam sido instituídas não por homens prudentes, fiéis e religiosos, mas por homens errantes e incrédulos, avessos à adoração e ao serviço dos deuses. E embora os chame de deuses, ao afirmar que foram feitos por homens como nós certamente não deveríamos ser, ele demonstra, quer queira quer não, que não devem ser adorados por aqueles que não se assemelham a esses criadores de imagens, isto é, por homens prudentes, fiéis e religiosos, deixando também evidente que os próprios homens que os fizeram se envolveram na adoração de deuses que não o eram. Pois é verdadeira a palavra do profeta: "Se alguém fizer deuses, verá que eles não são deuses." Tais deuses, portanto, reconhecidos por tais adoradores e feitos por tais homens, Hermes chamou de "deuses feitos por homens", isto é, demônios, por meio de alguma arte de descrição desconhecida, acorrentados por suas próprias paixões a imagens. Mas, no entanto, ele não concordava com a opinião do Apuleio platônico, cuja incongruência e absurdo já demonstramos, a saber, que eles eram intérpretes e intercessores entre os deuses que Deus criou e os homens que o mesmo Deus criou, levando a Deus as orações dos homens e de Deus as dádivas concedidas em resposta a essas orações. Pois é extremamente estúpido acreditar que deuses feitos por homens têm mais influência sobre os deuses que Deus criou do que os próprios homens, que o próprio Deus criou. E considere também que é um demônio que, acorrentado por um homem a uma imagem por meio de uma arte ímpia, foi transformado em deus, mas um deus apenas para esse homem, não para todos os homens. Que tipo de deus, portanto, é aquele que nenhum homem criaria a não ser um deus errante, incrédulo e avesso ao verdadeiro Deus? Além disso, se os demônios que são adorados nos templos, introduzidos por alguma estranha arte em imagens, isto é, em representações visíveis de si mesmos, por aqueles homens que, por meio dessa arte, criaram deuses quando se desviavam e eram avessos à adoração e ao serviço dos deuses — se, digo eu, esses demônios não são mediadores nem intérpretes entre os homens e os deuses, tanto por causa de seus próprios costumes perversos e vis, quanto porque os homens, embora errantes, incrédulos e avessos à adoração e ao serviço dos deuses, são, sem dúvida, melhores do que os demônios que eles mesmos evocaram, então resta afirmar que o poder que possuem é exercido como demônios, causando dano ao concederem pretensos benefícios — dano tanto maior pela ilusão — ou então praticando o mal contra os homens de forma aberta e descarada. Eles não podem, contudo, fazer nada desse tipo a menos que sejam permitidos pela profunda e secreta providência de Deus, e mesmo assim, apenas na medida em que lhes for permitido. Quando, porém, lhes é permitido, não é porque eles, estando a meio caminho entre Os homens e os deuses, por meio da amizade dos deuses, têm grande poder sobre os homens; pois esses demônios não podem ser amigos dos bons deuses que habitam a morada sagrada e celestial, por meio dos quais entendemos anjos santos e criaturas racionais, sejam tronos, dominações, principados ou potestades, dos quais estão tão distantes em disposição e caráter quanto o vício está da virtude, a maldade da bondade.

25. Sobre as coisas que podem ser comuns aos santos anjos e aos homens.

Portanto, não devemos de modo algum buscar, por meio da suposta mediação de demônios, nos valer da benevolência ou beneficência dos deuses, ou melhor, dos bons anjos, mas sim assemelhando-nos a eles na posse de uma boa vontade, por meio da qual estamos com eles, vivemos com eles e adoramos com eles o mesmo Deus, embora não possamos vê-los com os olhos da nossa carne. Mas não é em termos de localização que estamos distantes deles, mas em mérito de vida, causado pela nossa miserável diferença em vontade e pela fraqueza do nosso caráter; pois o mero fato de habitarmos na terra sob as condições da vida na carne não impede a nossa comunhão com eles. Ela só é impedida quando, na impureza dos nossos corações, nos preocupamos com as coisas terrenas. Mas neste tempo presente, enquanto estamos sendo curados para que possamos, eventualmente, ser como eles são, somos aproximados deles pela fé, se, com a ajuda deles, crermos que Aquele que é a sua bem-aventurança também é a nossa.

26. Que toda a religião dos pagãos tem referência a homens mortos.

É certamente algo notável como este egípcio, ao expressar sua tristeza pela chegada do tempo em que essas coisas seriam retiradas do Egito, coisas que ele confessa terem sido inventadas por homens errantes, incrédulos e avessos ao serviço da religião divina, diz, entre outras coisas: "Então aquela terra, o lugar mais sagrado de santuários e templos, ficará cheia de sepulcros e mortos", como se, de fato, se essas coisas não fossem retiradas, os homens não morreriam! Como se os corpos pudessem ser enterrados em outro lugar que não a terra! Como se, com o passar do tempo, o número de sepulcros não devesse necessariamente aumentar proporcionalmente ao aumento do número de mortos! Os mortos! Mas aqueles que têm uma mente perversa e se opõem a nós supõem que o que ele lamenta é que os memoriais de nossos mártires sucedam seus templos e santuários, para que, ora, eles tenham motivos para pensar que os deuses eram adorados pelos pagãos em templos, mas que os mortos são adorados por nós em sepulcros. Pois com tamanha cegueira os homens ímpios tropeçam, por assim dizer, em montanhas, e não veem as coisas que lhes saltam aos olhos, que não percebem que em toda a literatura dos pagãos não se encontram deuses, ou quase nenhum, que não tenham sido homens, aos quais, quando mortos, foram prestadas honras divinas. Não me deterei no fato de Varrão afirmar que todos os mortos são considerados deuses por eles, e comprova isso pelos ritos sagrados realizados em honra de quase todos os falecidos, entre os quais menciona os jogos funerários, considerando-os a maior prova de divindade, pois os jogos só costumam ser celebrados em honra das divindades. O próprio Hermes, de quem estamos tratando agora, nesse mesmo livro em que, como que prevendo o futuro, diz com pesar: "Então aquela terra, o lugar mais sagrado de santuários e templos, estará repleta de sepulcros e mortos", testemunha que os deuses do Egito eram mortos. Pois, tendo dito que seus antepassados, errando muito no que diz respeito ao conhecimento dos deuses, incrédulos e desatentos ao culto e serviço divinos, inventaram a arte de fazer deuses, arte essa que, ao ser inventada, associaram à virtude apropriada inerente à natureza universal, e, misturando essa virtude com essa arte, invocaram as almas de demônios ou de anjos (pois não podiam criar almas) e fizeram com que elas se apossassem ou se associassem a imagens sagradas e mistérios divinos, para que, por meio dessas almas, as imagens tivessem o poder de fazer o bem ou o mal aos homens;—tendo dito isso, ele prossegue, por assim dizer, para prová-lo com ilustrações, dizendo: "Teu avô, ó Esculápio, o primeiro descobridor da medicina, a quem foi consagrado um templo em uma montanha da Líbia, perto da costa dos crocodilos, nesse templo repousa seu homem terreno, isto é, seu corpo,—a maior parte dele, ou melhor, todo ele, se considerarmos o homem como um todo." na vida inteligente, voltou para o céu—proporciona Ele afirma, portanto, que um homem morto era adorado como um deus no local onde estava sepultado. Engana os homens com uma mentira, pois o homem "retornou ao céu". Em seguida, acrescenta: "Acaso Hermes, meu avô, cujo nome eu carrego, não ajuda e preserva todos os mortais que vêm a ele de todos os cantos?" Pois este Hermes mais velho, isto é, Mercúrio, que, segundo ele, era seu avô, estaria sepultado em Hermópolis, ou seja, na cidade que leva seu nome; eis aqui dois deuses que ele afirma terem sido homens: Esculápio e Mercúrio. Ora, quanto a Esculápio, tanto os gregos quanto os latinos pensam o mesmo; mas, quanto a Mercúrio, muitos não acreditam que ele tenha sido mortal, embora Hermes testemunhe. que ele era seu avô. Mas seriam esses dois indivíduos diferentes que receberam o mesmo nome? Não discutirei muito se são ou não indivíduos diferentes. Basta saber que este Mercúrio de quem Hermes fala é, assim como Esculápio, um deus que outrora foi homem, segundo o testemunho do próprio Trismegisto, tão estimado por seus compatriotas, e também neto do próprio Mercúrio.

Hermes prossegue dizendo: "Mas sabemos quantas coisas boas Ísis, esposa de Osíris, concede quando está apta, e quanta oposição ela pode oferecer quando enfurecida?" Então, para mostrar que existiram deuses criados por homens através dessa arte, ele continua dizendo: "Pois é fácil para os deuses terrenos e mundanos se irarem, sendo feitos e compostos por homens a partir de qualquer natureza"; dando-nos assim a entender que ele acreditava que os demônios eram antigamente as almas de homens mortos, que, como ele diz, por meio de uma certa arte inventada por homens muito equivocados, incrédulos e irreligiosos, foram levadas a possuir imagens, porque aqueles que criaram tais deuses não eram capazes de criar almas. Quando, portanto, ele diz "qualquer natureza", ele se refere à alma e ao corpo — o demônio sendo a alma e a imagem o corpo. O que acontece, então, com aquela triste queixa de que a terra do Egito, o lugar mais sagrado de santuários e templos, deveria estar repleta de sepulcros e Homens mortos? Na verdade, o espírito falacioso, por cuja inspiração Hermes proferiu essas coisas, foi compelido a confessar por meio dele que aquela terra já estava repleta de sepulcros e de homens mortos, que eram adorados como deuses. Mas era a dor dos demônios que se expressava por meio de sua boca, que se lamentavam pelos castigos que estavam prestes a recair sobre eles nos túmulos dos mártires. Pois em muitos desses lugares eles são torturados e obrigados a confessar, e são expulsos dos corpos dos homens que haviam possuído.

27. Sobre a natureza da honra que os cristãos prestam aos seus mártires.

Mas, ainda assim, não construímos templos, nem ordenamos sacerdotes, ritos e sacrifícios para esses mesmos mártires; pois eles não são nossos deuses, mas o Deus deles é o nosso Deus. Certamente, honramos seus relicários como memoriais de homens santos de Deus que lutaram pela verdade até a morte de seus corpos, para que a verdadeira religião fosse revelada e as religiões falsas e fictícias expostas. Pois, se antes deles havia alguém que pensasse que essas religiões eram realmente falsas e fictícias, temia expressar suas convicções. Mas quem já ouviu um sacerdote dos fiéis, de pé diante de um altar construído para a honra e adoração de Deus sobre o corpo sagrado de algum mártir, dizer em suas orações: "Ofereço-te um sacrifício, ó Pedro, ou ó Paulo, ou ó Cipriano"? Pois é a Deus que os sacrifícios são oferecidos em seus túmulos — o Deus que os fez homens e mártires, e os associou a santos anjos em honra celestial. E a razão pela qual prestamos tais honras à sua memória é para que, ao fazê-lo, possamos tanto agradecer ao verdadeiro Deus por suas vitórias quanto, ao recordá-las novamente, nos inspiremos a imitá-las, buscando obter coroas e palmas semelhantes, invocando em nosso auxílio o mesmo Deus a quem eles invocaram. Portanto, quaisquer honras que os religiosos prestem nos lugares dos mártires são apenas honras prestadas à sua memória. não ritos sagrados ou sacrifícios oferecidos a homens mortos como a deuses. E mesmo aqueles que trazem comida para lá — o que, de fato, não é feito pelos melhores cristãos, e na maioria dos lugares de O mundo ainda não está terminado — faça-o para que seja santificado para eles pelos méritos dos mártires, em nome do Senhor dos mártires, primeiro apresentando o alimento e oferecendo uma oração, e depois levando-o para ser comido, ou para ser em parte distribuído aos necessitados. Mas quem conhece o único sacrifício dos cristãos, que é o sacrifício oferecido nesses lugares, sabe também que esses não são sacrifícios oferecidos aos mártires. Não é, portanto, com honras divinas nem com crimes humanos, pelos quais eles adoram seus deuses, que honramos nossos mártires; tampouco lhes oferecemos sacrifícios, ou convertemos os crimes dos deuses em seus ritos sagrados. Pois que aqueles que quiserem e puderem leiam a carta de Alexandre à sua mãe Olímpia, na qual ele conta as coisas que lhe foram reveladas pelo sacerdote Leão, e que aqueles que a leram se lembrem do seu conteúdo, para que vejam que grandes abominações foram transmitidas à memória, não por poetas, mas pelos escritos místicos dos egípcios, a respeito da deusa Ísis, esposa de Osíris, e dos pais de ambos, todos os quais, segundo esses escritos, eram personagens reais. Diz-se que Ísis, ao oferecer sacrifícios a seus pais, descobriu uma plantação de cevada, da qual levou algumas espigas ao rei, seu marido, e a seu conselheiro Mercúrio, sendo assim identificada com Ceres. Aqueles que lerem a carta poderão ver ali qual era o caráter daquelas pessoas a quem, após a morte, foram instituídos ritos sagrados como se fossem deuses, e quais foram os seus feitos que deram origem a esses ritos. Que jamais ousem comparar, em qualquer aspecto, essas pessoas, embora as considerem deuses, aos nossos santos mártires, embora nós não os consideremos deuses. Pois não ordenamos sacerdotes nem oferecemos sacrifícios aos nossos mártires, como eles fazem aos seus mortos, pois isso seria incongruente, indevido e ilícito, sendo tal ato devido somente a Deus. E assim não os deleitamos com seus próprios crimes, nem com peças tão vergonhosas como aquelas em que se celebram os crimes dos deuses, que são ou crimes reais cometidos por eles quando ainda eram homens, ou, se nunca foram homens, crimes fictícios inventados para o prazer de demônios nocivos. O deus de Sócrates, se ele tivesse um Deus não poderia ter pertencido a essa classe de demônios. Mas talvez aqueles que desejavam se destacar na arte de criar deuses tenham imposto um deus desse tipo a um homem que era alheio e inocente de qualquer ligação com essa arte. O que mais precisamos dizer? Ninguém que seja minimamente sábio imagina que demônios devam ser adorados por causa da vida abençoada que virá após a morte. Mas talvez digam que todos os deuses são bons, mas que, entre os demônios, alguns são maus e outros bons, e que são os bons que devem ser adorados, para que, por meio deles, possamos alcançar a vida eternamente abençoada. Dedicaremos o livro seguinte ao exame dessa opinião.

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