Leviatã


Por Thomas Hobbes

1651

LEVIATÃ OU A MATÉRIA,
FORMA E PODER DE UMA COMUNIDADE
ECLISÁSTICA E CIVIL

Thomas Hobbes de Malmesbury.

Impresso por Andrew Crooke,
no Green Dragon,
no cemitério da Igreja de São Paulo,
em 1651.






NOTAS DO TRANSCRITOR SOBRE O TEXTO ELETRÔNICO:

Este texto eletrônico foi preparado a partir da edição Pelican Classics de Leviatã, que por sua vez foi preparada a partir da primeira edição. Tentei seguir o original o mais fielmente possível e transmitir o estilo do texto que o próprio Hobbes revisou, mas as seguintes diferenças foram inevitáveis.

Hobbes usava letras maiúsculas e itálico extensivamente, para dar ênfase, para nomes próprios, para citações e, às vezes, ao que parece, simplesmente por usar.

O original possui extensas notas marginais, que indicam onde o autor introduz as definições de palavras e conceitos, resumem o assunto abordado em cada parágrafo ou seção e fornecem referências às suas citações, em sua maioria, mas não exclusivamente, bíblicas. Em certa medida, essas notas marginais parecem ter sido concebidas como uma espécie de índice, já que o original não o possuía. Todas estão em itálico.

Ele também usou itálico para palavras em outros idiomas além do inglês, e há diversas palavras em grego, no alfabeto grego, no texto.

Para lidar com esses problemas dentro das limitações do ASCII puro, fiz o seguinte neste texto eletrônico.

Limitei o uso de letras maiúsculas aos trechos em que Hobbes as utilizou, exceto nos títulos dos capítulos, que escrevi inteiramente em maiúsculas, enquanto Hobbes usava uma combinação de maiúsculas e itálico.

Onde fica claro que o itálico serve para indicar que o texto está citando, utilizei aspas. Dentro das aspas, mantive a capitalização usada por Hobbes.

Onde o itálico parece ser usado para ênfase, para nomes próprios ou simplesmente por conveniência, coloquei a letra inicial das palavras em maiúscula. Isso tem a desvantagem de não diferenciá-las daquelas que Hobbes capitalizou no texto normal, mas a extensão do itálico usado por ele tornaria o texto muito feio se eu usasse um sublinhado ou uma barra.

Nos casos em que as notas de rodapé servem para introduzir o assunto do parágrafo ou para indicar onde são apresentadas definições de palavras, incluí-as como cabeçalhos do parágrafo, novamente com todas as palavras com iniciais maiúsculas e em uma linha mais curta.

Para as referências às citações nas margens, incluí-as no texto, entre parênteses, imediatamente ao lado da citação. Quando Hobbes incluiu referências no texto principal, mantive-as como ele as escreveu, exceto pela substituição dos colchetes retos por colchetes redondos.

Para o alfabeto grego, simplesmente substituí as letras pelas letras comuns mais próximas que consegui encontrar e usei letras maiúsculas iniciais para palavras em línguas estrangeiras.

Nem Thomas Hobbes nem seus tipógrafos parecem ter tido muitas inibições quanto à ortografia e à pontuação. Tentei reproduzir ambos exatamente, com exceção da introdução das aspas.

Ao preparar o texto, descobri que ele adquire muito mais significado se eu o ler com subvocalização, ou em voz alta, em vez de tentar lê-lo silenciosamente. O uso da ênfase por Hobbes e sua pontuação e construção excêntricas parecem funcionar melhor dessa forma.


Ao meu estimado amigo, Sr. Francis Godolphin, da Godolphin.

HONRADO SENHOR.

Seu digníssimo irmão, o Sr. Sidney Godolphin, quando vivo, teve a gentileza de considerar meus estudos importantes e, além disso, de me honrar, como sabe, com testemunhos sinceros de sua boa opinião, grandiosa por si só e ainda maior pela dignidade de sua pessoa. Pois não há virtude que disponha um homem, seja ao serviço de Deus, seja ao serviço de seu país, à sociedade civil ou à amizade privada, que não se manifeste em sua conduta, não como algo adquirido por necessidade ou fingido em determinada ocasião, mas inerente e resplandecente em sua generosa constituição. Portanto, em honra e gratidão a ele, e com devoção a você, dedico-lhe humildemente este meu discurso sobre a comunidade. Não sei como o mundo o receberá, nem como poderá refletir sobre aqueles que parecerem apoiá-lo. Pois, de certa forma, cercado por aqueles que defendem, de um lado, liberdade excessiva e, do outro, autoridade em excesso, é difícil transitar ileso entre os dois extremos. Contudo, creio que o esforço para promover o Poder Civil não deve ser condenado por este; nem os cidadãos comuns, ao repreendê-lo, devem declarar que o consideram excessivo. Além disso, não me refiro aos indivíduos, mas (em abstrato) à sede do poder (como aquelas criaturas simples e imparciais do Capitólio Romano, que com seu ruído defendiam os que lá estavam, não por serem eles, mas por estarem ali), não ofendendo, creio eu, senão os de fora, ou aqueles de dentro (se houver) que os favorecem. O que talvez mais possa ofender são certos textos das Sagradas Escrituras, que atribuo a mim um propósito diferente daquele que outros costumam atribuir. Mas fiz isso com a devida submissão e também (em função do meu tema) necessariamente. pois são as obras exteriores do inimigo, de onde atacam o poder civil. Se, apesar disso, meu trabalho for geralmente criticado, pode desculpar-se e dizer que sou um homem que preza suas próprias opiniões e acredita em tudo o que digo, que honrei seu irmão e o honro, e me aventurei nisso a assumir o título (sem seu conhecimento) de ser, como sou.

Senhor,

Seu mais humilde e mais obediente servo, Thomas Hobbes.

Paris, 15/25 de abril de 1651.


Conteúdo

INTRODUÇÃO

PARTE I. DO HOMEM
CAPÍTULO I. DOS SENTIDOS

CAPÍTULO II. DA IMAGINAÇÃO
Memória
Sonhos
Aparições ou Visões
Entendimento

CAPÍTULO III. DA CONSEQUÊNCIA OU TRAYNE DAS IMAGINAÇÕES
Trayne de Pensamentos Sem Guia
Trayne de Pensamentos Regulados
Lembrança
Prudência
Sinais
Conjectura do tempo passado

CAPÍTULO IV. DA FALA
Original do Discurso
O uso da fala
Abusos de fala
Nomes Próprios e Comuns Universais
Sujeito a nomes
Uso Positivo de Nomes
Nomes negativos e seus usos
Palavras insignificantes
Entendimento
Nomes inconsistentes

CAPÍTULO V. DA RAZÃO E DA CIÊNCIA.
Razão: O que é isso?
Razão Definida
Razão correta onde
O uso da razão
Do erro e do absurdo
Causas do Absurdo
Ciência
Prudência e Sabedoria, com suas diferenças
Sinais da Ciência

CAPÍTULO VI. DAS ORIGENS INTERIORES DOS MOVIMENTOS VOLUNTÁRIOS COMUMENTE CHAMADOS DE PAIXÕES, E DOS DISCURSOS PELOS QUAIS ELES SÃO EXPRESSOS.
Movimento Vital e Animal
Esforço; Apetite; Desejo; Fome; Sede; Aversão
Desprezo
Bem Mal
Turfa de Pulchrum; Delicioso e Lucrativo; Desagradável e Não Lucrativo
Prazer Desprazer
Crime de prazer
Prazeres dos Sentidos; Prazeres da Mente; Alegria, Dor, Tristeza
O testamento
Formas de Discurso, na Paixão
Bem e Mal Aparentemente
Felicidade
Amplificação do Louvor

CAPÍTULO VII. DOS FINS OU RESOLUÇÕES DO DISCURSO
Julgamento ou sentença final; dúvida
Ciência Opinião Consciência
Crença Fé

CAPÍTULO VIII. DAS VIRTUDES COMUMENTE CHAMADAS DE INTELECTUAIS E SEUS DEFEITOS CONTRÁRIOS
Virtude Intelectual Definida
Inteligência, natural ou adquirida
Bom senso ou imaginação; bom discernimento; discrição.
Prudência
Arte
Inteligência adquirida
Loucura da Vertigem
Raiva
Melancolia
Discurso insignificante

CAPÍTULO IX. DOS VÁRIOS ASSUNTOS DO CONHECIMENTO

CAPÍTULO X. DO PODER, VALOR, DIGNIDADE, HONRA E DIGNO
Poder
Valor
Dignidade
Honrar e desonrar
Títulos de Honra
Worthinesse Fitnesse

CAPÍTULO XI. DA DIFERENÇA DE MANEIRAS
O que se entende aqui por boas maneiras?
Um desejo inquieto de poder, em todos os homens.
Amor pela Contenda que Provém da Competição
Obediência Civil por Amor à Facilidade
Por medo da morte ou de ferimentos
E por amor às artes
Amor da Virtude, do Amor do Louvor
Ódio, devido à dificuldade de retribuir grandes benefícios.
E da Consciência de Merecer Ser Odiado
Prontidão para ferir, por medo
E por desconfiança em sua própria inteligência
Empreendimento Vã De Vaidade
Ambição, da perspectiva da suficiência
Irresolução, resultante da supervalorização de pequenas coisas.
E da ignorância das causas naturais
E por falta de compreensão
Credulidade resultante da ignorância da natureza
Curiosidade para saber, por conta do tempo futuro.
Religião Natural, da mesma

CAPÍTULO XII. DA RELIGIÃO
Religião, somente no homem
Primeiro, a partir de seu desejo de conhecer as causas.
Considerando o princípio das coisas
A partir de sua observação da sequência de acontecimentos.
O que os faz temer o poder das coisas invisíveis.
E suponhamos que eles sejam incorpóreos.
Mas não sabem como eles afetam alguma coisa.
Mas honrem-nos como eles honram os homens.
E atribua a eles todos os eventos extraordinários.
Quatro Coisas, Sementes Naturais da Religião
Transformados pela cultura
A opinião absurda do gentilismo
As causas da mudança na religião
Apreciando a Beleefe das Impossibilidades
Agindo contrariamente à religião que eles estabelecem.
Falta do Testemunho de Milagres

CAPÍTULO XIII. DA CONDIÇÃO NATURAL DA HUMANIDADE, NO QUE DIZ RESPEITO À SUA FELICIDADE E MISÉRIA
Da igualdade provém a desconfiança
Da Guerra da Desconfiança
Fora dos Estados Civis,
As desvantagens de uma guerra desse tipo
Em uma guerra como essa, nada é injusto.
As paixões que inclinam os homens à paz.

CAPÍTULO XIV. DA PRIMEIRA E DA SEGUNDA LEIS NATURAIS E DOS CONTRATOS
Direito da Natureza O quê?
Liberdade O quê?
Uma lei da natureza. O quê?
Naturalmente, todo homem tem direito a tudo.
A Lei Fundamental da Natureza
A Segunda Lei da Natureza
O que significa estabelecer um direito?
Renunciar (ou) Transferir Direito O quê; Obrigação Dever Injustiça
Nem todos os direitos são alienáveis.
Contrato O quê
Aliança O quê
Brinde
Assinaturas do Contrato Expressas
Sinais de contrato por inferência
Dádiva gratuita passa por aqui. Palavras do presente ou do passado.
Mérito O quê
Cláusulas de confiança mútua, quando inválidas
Direito ao fim contém direito aos meios.
Sem Pacto com as Feras
Nem com Deus sem Revelação Especial
Não um pacto, mas sim algo possível e futuro.
Pactos Como Voyd Foi Feito
Pactos extorquidos por Feare são válidos
O Pacto Anterior para um, faz de Voyd o Pacto Posterior para outro.
O pacto de um homem de não se defender é Voyd
Ninguém é obrigado a se acusar.
O Fim de um Juramento; A Forma de um Juramento
Sem juramento, a não ser por Deus.
Um juramento não acrescenta nada à obrigação.

CAPÍTULO XV. DE OUTRAS LEIS DA NATUREZA
A Terceira Lei da Natureza, Justiça
Justiça e injustiça: o quê?
A justiça não é contrária à razão.
Cláusulas não extintas pelo vício da pessoa a quem foram feitas.
Justiça dos Homens e Justiça das Ações: O Que
Justiça de maneiras e justiça de ações
Nada que seja feito a um homem com seu próprio consentimento pode ser considerado lesão.
Justiça Comutativa e Distributiva
A Quarta Lei da Natureza, Gratidão
A Quinta, Acomodação Mútua ou Complacência.
A Sexta, Facilidade para Indulto
A sétima: Que, em vinganças, os homens respeitam apenas o bem futuro.
O Oitavo, Contra a Insolência
A Nona, Contra o Orgulho
O Décimo Contra a Arrogância
A Décima Primeira Equidade
O Décimo Segundo, Uso Igualitário das Coisas Comuns
O Décimo Terceiro, de Ló
O Décimo Quarto, da Primogenitura e da Primeira Apreensão
O Décimo Quinto, Dos Mediadores
O Décimo Sexto, da Submissão à Arbitragem
O Décimo Sétimo, Ninguém é Juiz de Si Mesmo
O décimo oitavo, nenhum homem deve ser juiz, que tenha em si motivo de parcialidade.
O Décimo Nono, de Testemunha
Uma regra pela qual as leis da natureza podem ser facilmente examinadas.
As leis da natureza obrigam sempre à consciência,
As leis da natureza são eternas;
E ainda assim, mais fácil
A ciência dessas leis é a verdadeira filosofia moral.

CAPÍTULO XVI. DAS PESSOAS, AUTORES E COISAS PERSONADAS
Pessoa Natural e Artificial
A palavra Pessoa, de onde
Ator, Autor; Autoridade
Pactos por Autoridade, Vinculam o Autor
Mas não o ator.
A autoridade deve ser demonstrada.
Coisas personificadas, inanimadas
Irracional
Falsos Deuses
O Deus Verdadeiro
Uma multidão de homens, como uma pessoa
Todos são autores
Um ator pode ser muitos homens feitos um só pela pluralidade de vozes.
Representantes, quando o número é par, não são lucrativos.
Voz negativa

PARTE II. DA COMUNIDADE
CAPÍTULO XVII. DAS CAUSAS, GERAÇÃO E DEFINIÇÃO DE UMA COMUNIDADE
O Fim da Comunidade, Segurança Particular
O que não se pode obter da lei da natureza:
Nem da conjunção de alguns homens ou famílias
Nem de uma grande multidão, a menos que seja guiada por um único julgamento.
E isso continuamente
Por que certas criaturas não possuem razão nem fala?
Vivam, no entanto, em sociedade, sem qualquer poder coercitivo.
A geração de uma comunidade
A definição de uma comunidade
Soberano e súdito, o quê?

CAPÍTULO XVIII. DOS DIREITOS DOS SOBERANOS POR INSTITUIÇÃO
O ato de instituir uma comunidade, o quê?
As consequências para tal instituição são
1. Os súditos não podem alterar a forma de governo.
2. O poder soberano não pode ser perdido.
3. Nenhum homem pode, sem injustiça, protestar contra a instituição da soberania declarada pela maioria.
4. As ações do soberano não podem ser justamente acusadas pelo súdito.
5. Tudo o que o soberano fizer é impunível pelo súdito.
6. O Soberano é juiz do que é necessário para a paz e a defesa de seus súditos.
E julgar quais doutrinas são adequadas para serem ensinadas a eles.
7. O direito de elaborar regras, pelas quais cada súdito pode saber o que lhe é próprio, de modo que nenhum outro súdito possa, sem injustiça, tomar-lhe o direito.
8. A Ele também pertence o direito de julgar e decidir controvérsias:
9. E quanto a fazer a guerra e a paz, conforme lhe parecer melhor:
10. E quanto à escolha de todos os conselheiros e ministros, tanto da paz como da guerra:
11. E quanto a recompensar, punir e arbitrariamente (quando nenhuma lei anterior determinou sua medida):
12. E de Honra e Ordem
Esses direitos são indivisíveis
E não pode, de forma alguma, passar sem a renúncia direta ao poder soberano.
O poder e a honra dos súditos desaparecem na presença do soberano poderoso.
O poder soberano não é tão prejudicial quanto a sua ausência, e a maior parte da dor advém da não submissão a um poder inferior.

CAPÍTULO XIX. DOS VÁRIOS TIPOS DE COMUNIDADE POR INSTITUIÇÃO E DA SUCESSÃO AO PODER SOBERANO
As diferentes formas de comunidades, mas três
Tirania e oligarquia, mas com nomes diferentes para monarquia e aristocracia.
Representantes subordinados perigosos
Comparação da Monarquia com as Assembleias Soberanas
Do Direito de Sucessão
A sucessão passa por palavras expressas;
Ou, por não controlar um cliente;
Ou, por presunção de afeto natural
Dispor da sucessão, ainda que para um rei de outra nação, não é ilegal.

CAPÍTULO XX. DO DOMÍNIO PATERNAL E DESPÓTICO
Em que difere de uma comunidade por instituição
Os direitos de soberania são os mesmos em ambos os casos.
Domínio Paterno: Como é alcançado não por geração, mas por contrato?
Ou Educação;
Ou a sujeição precedente de um dos pais ao outro.
O direito de sucessão segue as regras dos direitos de posse.
Domínio Despótico, Como Alcançado
Não pela vitória, mas pelo consentimento dos vencidos.
Diferença entre uma família e um reino
O Direito da Monarquia Segundo as Escrituras
O poder soberano deve ser absoluto em todas as comunidades.

CAPÍTULO XXI. DA LIBERDADE DOS SÚDITOS
Liberdade O quê?
O que é ser livre?
Medo e Liberdade Consistentes
Liberdade e Necessidade Consistentes
Vínculos Artificiais, ou Pactos
A liberdade dos súditos consiste na liberdade de pactos.
Liberdade do súdito compatível com o poder ilimitado do soberano.
A liberdade que os escritores louvam é a liberdade dos soberanos, não dos cidadãos comuns.
Liberdade do sujeito: como ser medido
Os súditos têm a liberdade de defender seus próprios corpos, mesmo contra aqueles que os invadem legalmente.
Não estão obrigados a se machucar;
Nem à guerra, a menos que a empreendam voluntariamente.
A maior liberdade dos súditos depende do silêncio da lei.
Em que casos os súditos são absolvidos de sua obediência ao seu soberano?
Em caso de cativeiro
Caso o soberano se desvincule do governo e de Heyrs
Em caso de banimento
Caso o soberano se submeta a outro

CAPÍTULO XXII. DOS SISTEMAS SUJEITOS, POLÍTICOS E PRIVADOS
Os diversos tipos de sistemas de pessoas
Em todos os corpos políticos, o poder do representante é limitado.
Por meio de cartas patentes
E as Leis
Quando o representante é um só homem, seus atos injustificados são de sua inteira responsabilidade.
Quando se trata de uma assembleia, é o ato daqueles que deram seu consentimento apenas que prevalece.
Quando se trata de uma assembleia, apenas são responsáveis ​​aqueles que deram seu consentimento.
Se a dívida for para com um dos membros da assembleia, somente o corpo estará obrigado.
Protesto contra os decretos do Bodies Politique
Órgãos políticos para o governo de uma província, colônia ou cidade
Corpos Políticos para a Ordenação do Comércio
Um Corpo Político para Aconselhamento a Ser Dado ao Soberano
Uma entidade privada regular, legal, como uma família.
Corpos privados são regulares, mas ilegais
Sistemas Irregulares, como as Ligas Privadas
Cabalas Secretas
Rivalidades entre famílias particulares
Facções para o Governo

CAPÍTULO XXIII. DOS MINISTROS PÚBLICOS DO PODER SOBERANO
Ministro Público Quem
Ministros da Administração Geral
Para Administração Especial, assim como para Economia
Para instrução do povo
Para o Judiciário
Para Execução
Conselheiros sem outra ocupação além de aconselhar não são ministros públicos.

CAPÍTULO XXIV. DA NUTRIÇÃO E PROCRIAÇÃO DE UMA COMUNIDADE
E o direito de distribuição dos mesmos.
Todas as propriedades privadas de terras provêm originalmente da distribuição arbitrária do soberano.
A propriedade de um súdito não exclui o domínio do soberano, mas apenas o de outro súdito.
O público não deve fazer dieta.
Os locais e a matéria do tráfego dependem, assim como a sua distribuição, da soberania.
As leis que regem a transferência de propriedade também pertencem ao soberano.
Mony, o sangue de uma comunidade
Os canais e meios de pagamento do dinheiro para uso público
Os filhos das colônias da Commonwealth

CAPÍTULO XXV. DE CONSELHEIRO
Aconselhar o quê
Diferenças entre comando e aconselhamento
Exortação e Deortação O quê
Diferenças entre conselheiros adequados e inadequados

CAPÍTULO XXVI. DAS LEIS CÍVEIS
Direito Civil o quê?
O Soberano é o Legislador
E não sujeito ao direito civil
Uso, uma lei não pela virtude do tempo, mas pelo consentimento dos soberanos.
A lei da natureza e a lei civil se contêm mutuamente.
As leis provinciais não são feitas pelo costume, mas pelo poder soberano.
Algumas opiniões insensatas de advogados sobre a elaboração de leis.
Uma lei criada, se não for também divulgada, não é lei.
Leis não escritas são todas leis da natureza.
Nada é lei onde o legislador não pode ser conhecido.
Diferença entre verificar e autorizar
A lei verificada pelo juiz subordinado
Pelos Registros Públicos
Por Cartas Patentes e Selo Público
A interpretação da lei depende do poder soberano.
Todas as leis precisam de interpretação.
A interpretação autêntica da lei não é a dos escritores.
O intérprete da lei é o juiz que profere a sentença em cada caso particular.
A sentença de um juiz não o obriga, nem a outro juiz, a proferir sentença semelhante em casos semelhantes para sempre.
A diferença entre a letra e a frase da lei
Habilidades necessárias em um juiz
Divisões do Direito
Outra Divisão do Direito
Lei Positiva Divina: Como se tornou conhecida como lei
Outra Divisão de Leis
Uma Lei Fundamental O quê
Diferença entre lei e direito
E entre uma lei e uma carta

CAPÍTULO XXVII. DOS CRIMES, DESCULPAS E PRORROGAÇÕES
Um crime? O quê?
Onde não há lei civil, não há crime.
A ignorância das leis da natureza não justifica ninguém.
A ignorância do direito civil às vezes serve de desculpa.
A ignorância do soberano não o desculpa.
O desconhecimento da penalidade não a justifica.
As punições declaradas antes do fato servem de justificativa para punições maiores posteriormente.
Nada pode ser criminalizado por uma lei criada posteriormente.
Princípios falsos do certo e do errado: causas do crime
Falsos mestres interpretando erroneamente a lei da natureza. Em segundo lugar, por falsos
E inferências falsas a partir de princípios verdadeiros, por parte dos professores.
Pelas suas paixões;
Presunção de Riquezas
E amigos
Wisedome
Ódio, Luxúria, Ambição, Cobiça, Causas do Crime
O medo às vezes é a causa do crime, como quando o perigo não está presente, nem é físico.
Crimes não são iguais
Desculpas totais
Desculpas contra o autor
Presunção de Poder, Agrava
Professores Malvados, Atenuar
Exemplos de impunidade, atenuantes
Preemeditação, agrava
A aprovação tácita do soberano atenua
Comparação de crimes a partir de seus efeitos
Laesae Majestas
Suborno e falso testemunho
Despeculação
Autoridade de Combate à Falsificação
Crimes contra cidadãos comuns comparados
Crimes Públicos O quê

CAPÍTULO XXVIII. DAS PUNIÇÕES E RECOMPENSAS
A Definição de Punição
Direito de punir, de onde deriva
Lesões pessoais e vinganças sem punições.
Nem negação de preferência
Nem dor infligida sem audição pública
Nem a dor infligida pelo poder usurpado
Nem a dor infligida sem respeito pelo bem futuro.
Consequências do Mal Natural, Sem Punições
O dano infligido, se menor que o benefício da transgressão, não é punição.
Onde a punição está anexada à lei, um dano maior não é a punição, mas a hostilidade.
Dano infligido por um fato cometido antes da lei, sem punição.
O Representante da Comunidade Inpunível
Ferir súditos revoltados é um direito da guerra, não uma forma de punição.
Punições Corporais
Capital
Ignomínia
Prisão
Exílio
A punição de inocentes é contrária à lei da natureza.
Mas o mal causado aos inocentes na guerra, nem tanto.
A recompensa pode ser salário ou graça.
Benefícios concedidos por medo não são recompensas.
Salários certos e ocasionais

CAPÍTULO XXIX. DAS COISAS QUE FRAQUECEM OU TENDEM À DISSOLUÇÃO DE UMA COMUNIDADE
Falta de poder absoluto
Julgamento particular do bem e do mal
Consciência Errada
Fingimento de Inspiração
Submeter o Poder Soberano às Leis Civis
Atribuição de propriedade absoluta aos sujeitos
Divisão do Poder Soberano
Imitação das Nações Vizinhas
Imitação dos gregos e romanos
Governo Misto
Falta de dinheiro
Monopólios e abusos dos taberneiros
Homens populares
Grandeza excessiva de uma cidade, multidão de empresas
Liberdade de contestar o poder soberano
Dissolução da Comunidade

CAPÍTULO XXX. DO GABINETE DO REPRESENTANTE SOBERANO
A Busca do Bem do Povo
Por Instrução e Leis
Contra o dever de um soberano de renunciar a qualquer direito essencial de soberania ou de não instruir o povo sobre os fundamentos desses direitos.
Objeção daqueles que dizem que não existem princípios de razão para a soberania absoluta.
Objeção da Incapacidade do Vulgar
As matérias devem ser ensinadas, não influenciadas por mudanças de governo.
Nem aderir (contra o soberano) a homens populares
E para que sejam reservados dias para aprenderem o seu dever.
E para honrar seus pais
E para evitar causar danos:
E fazer tudo isso sinceramente, de coração.
O uso das universidades
Impostos iguais
Organização beneficente pública
Prevenção da Ociosidade
Boas Leis O quê
Tais como forem necessários
Tais como são perspicazes
Punições
Recompensas
Conselheiros
Comandantes

CAPÍTULO XXXI. DO REINO DE DEUS POR NATUREZA
O escopo dos capítulos seguintes
Quem são os súditos no Reino de Deus?
A Palavra de Deus em três partes: Razão, Revelação e Profecia.
O pecado não é a causa de toda a aflição.
Leis Divinas
Honrar e Adorar o quê
Diversos sinais de honra
Adoração Natural e Arbitrária
Adoração ordenada e gratuita
Culto Público e Privado
O Fim da Adoração
Atributos da Honra Divina
Ações que são sinais de honra divina
O culto público consiste na uniformidade.
Todos os atributos dependem das leis civis.
Nem todas as ações
Punições Naturais
Conclusão da Segunda Parte

PARTE III. DE UMA COMUNIDADE CRISTÃ
CAPÍTULO XXXII. DOS PRINCÍPIOS DA POLÍTICA CRISTÃ
O que significa cativar a compreensão?
Como Deus fala aos homens
Por quais marcas os profetas são conhecidos?
As Marcas de um Profeta na Antiga Lei, Milagres e Doutrina Conforme à Lei
Os milagres cessam, os profetas cessam, as Escrituras suprem o seu lugar.

CAPÍTULO XXXIII. DO NÚMERO, ANTIGUIDADE, ABRANGÊNCIA, AUTORIDADE E INTÉRPRETES DOS LIVROS DAS SAGRADAS ESCRITURAS
Dos livros das Sagradas Escrituras
Sua Antiguidade
O Pentateuco não foi escrito por Moisés
O Livro de Josué foi escrito depois de sua época.
O Livro dos Juízes e Rute foi escrito muito tempo depois do cativeiro.
Semelhante aos livros de Samuel
Os Livros dos Reis e as Crônicas
Esdras e Neemias
Ester
Trabalho
O Saltério
Os Provérbios
Eclesiastes e os Cânticos
Os Profetas
O Novo Testamento
Seu escopo
A questão da autoridade das Escrituras foi levantada.
Sua Autoridade e Interpretação

CAPÍTULO XXXIV. DO SIGNIFICADO DO ESPÍRITO, DO ANJO E DA INSPIRAÇÃO NOS LIVROS DAS SAGRADAS ESCRITURAS
Corpo e Espírito: Como São Considerados nas Escrituras
O Espírito de Deus é por vezes interpretado nas Escrituras como vento ou respiração.
Em segundo lugar, para dons extraordinários do entendimento.
Terceiro, por afetos extraordinários
Em quarto lugar, pelo dom da predição por meio de sonhos e visões.
Cinquenta, para a vida toda
Sexta vez, para uma subordinação à autoridade
Sétimo, para corpos aéreos
Anjo O quê
Inspiração O quê

CAPÍTULO XXXV. DO SIGNIFICADO NAS ESCRITURAS DO REINO DE DEUS, DO SANTO, DO SAGRADO E DO SACRAMENTO
O Reino de Deus é interpretado metaforicamente pelos teólogos, mas está presente nas Escrituras de forma adequada.
O Original do Reino de Deus
Que o Reino de Deus é propriamente a Sua Soberania Civil sobre um Povo Peculiar por Pacto
Sagrado O quê
Graus de Santidade
Sacramento

CAPÍTULO XXXVI. DA PALAVRA DE DEUS E DOS PROFETAS
Palavra O quê
As palavras ditas por Deus e concernentes a Deus são ambas chamadas de Palavra de Deus nas Escrituras.
Em segundo lugar, pelo efeito de Sua palavra.
Terceiro, pelas palavras da razão e da equidade.
Diversas interpretações da palavra profeta
Predição de Contingências Futuras, Não Profecia Sempre
A maneira como Deus falou aos profetas
Aos profetas extraordinários do Antigo Testamento, Ele falou por meio de sonhos ou visões.
Deus às vezes também falava por meio de sortes.
Todo homem deveria examinar a probabilidade de um falso profeta estar vocacionado.
Toda profecia, exceto a do Profeta Soberano, deve ser examinada por todos os súditos.

CAPÍTULO XXXVII. DOS MILAGRES E SEU USO
Um milagre é uma obra que causa admiração.
E, portanto, deve ser rara, não havendo causa natural conhecida para tal.
O que parece um milagre para um homem, pode parecer o contrário para outro.
O Fim dos Milagres
A definição de um milagre
Que os homens são propensos a serem enganados por falsos milagres.
Advertências contra a impostura de milagres

CAPÍTULO XXXVIII. DO SIGNIFICADO NAS ESCRITURAS DA VIDA ETERNA, DO INFERNO, DA SALVAÇÃO, DO MUNDO VIVO E DA REDENÇÃO
O lugar da eternidade de Adão, se ele não tivesse pecado, o paraíso terrestre.
Textos sobre o lugar da vida eterna para os crentes
Ascensão aos Céus
O lugar após o julgamento, daqueles que nunca estiveram no reino de Deus, ou que, tendo estado nele, são expulsos.
A Congregação dos Gigantes
Lago de Fogo
Escuridão total
Geena e Tofete
Do sentido literal das Escrituras concernente ao inferno
Satanás, Diabo, não são nomes próprios, mas sim apelidos.
Tormentos do Inferno
As alegrias da vida eterna e a salvação são a mesma coisa: salvação do pecado e da miséria, tudo uma só.
O Lugar da Salvação Eterna
Redenção

CAPÍTULO XXXIX. DO SIGNIFICADO DA PALAVRA IGREJA NAS ESCRITURAS
Igreja A Casa dos Lordes
Ecclesia propriamente dita O quê
Em que sentido a Igreja é uma só pessoa? Definição de Igreja
Uma comunidade cristã e uma igreja, todas una

CAPÍTULO XL DOS DIREITOS DO REINO DE DEUS, EM ABRAÃO, MOISÉS, SUMOS SACERDOTES E OS REIS DE JUDÁ
Os Direitos Soberanos de Abraão
Abraão tinha o poder exclusivo de ordenar a religião de seu próprio povo.
Nenhuma pretensão de espírito privado contra a religião de Abraão.
Abraão, o único juiz e intérprete da palavra de Deus.
A Autoridade de Moisés Fundamentada
Moisés era (sob a proteção de Deus) soberano dos judeus durante todo o seu tempo, embora Arão tivesse o sacerdócio.
Todos os espíritos estavam subordinados ao espírito de Moisés.
Após Moisés, a soberania passou para o sumo sacerdote.
Do poder soberano entre os tempos de Josué e de Saul
Dos direitos dos reis de Israel
A prática da supremacia religiosa não existia na época dos reis, segundo o seu direito.
Após o cativeiro, os judeus não tinham uma comunidade estabelecida.

CAPÍTULO XLI. DO OFÍCIO DE NOSSO SANTÍSSIMO SALVADOR
Três partes do ofício de Cristo
Seu ofício como redentor
O Reino de Cristo não é deste mundo.
O propósito da vinda de Cristo foi renovar a aliança do Reino de Deus e persuadir os eleitos a abraçá-la, o que constitui a segunda parte de seu ministério.
A pregação de Cristo não era contrária à lei dos judeus da época, nem à de César.
A terceira parte de seu ofício era ser rei (sob o comando de seu pai) dos eleitos.
A autoridade de Cristo no Reino de Deus é subordinada ao Seu Pai.
Um só e o mesmo Deus é a pessoa representada por Moisés e por Cristo.

CAPÍTULO XLII. DO PODER ECLESIÁSTICO
Do Espírito Santo que desceu sobre os apóstolos
Da Trindade
O poder eclesiástico nada mais é do que o poder de ensinar.
Um argumento a respeito, o próprio poder de Cristo
Do nome da regeneração
Da comparação com a pesca, o fermento e a semente.
Da obra "A Natureza da Fé":
Da autoridade que Cristo deixou aos príncipes civis
O que os cristãos podem fazer para evitar a perseguição
Dos mártires
Argumento a partir dos pontos de vista da sua comissão
Pregar
E ensinar
Batizar;
E perdoar e reter pecados
Da excomunhão
O uso da excomunhão sem poder civil.
Sem efeito sobre um apóstata
Mas somente sobre os fiéis
Qual é a culpa da excomunhão?
Das pessoas sujeitas à excomunhão
Do intérprete das Escrituras antes que os soberanos civis se tornassem cristãos.
Do poder de transformar as Escrituras em lei
Dos Dez Mandamentos
Da lei judicial e levítica
A Segunda Lei
O Antigo Testamento, quando canonizado
Do poder dos conselhos para fazer valer a lei das Escrituras
Do direito de constituir oficiais eclesiásticos na época dos apóstolos.
Matias foi nomeado apóstolo pela congregação.
Paulo e Barnabé foram feitos apóstolos pela Igreja de Antioquia.
Quais são os ofícios magistrais na Igreja?
Ordenação de Professores
Ministros da Igreja O quê
E como escolhido o quê
Da Receita Eclesiástica, sob a Lei de Moisés
Nos tempos de nossos Salvadores e depois deles.
O soberano civil, sendo cristão, tem o direito de nomear pastores.
A autoridade pastoral dos soberanos é exclusivamente de jure divino, enquanto a dos demais pastores é de jure civil.
Os reis cristãos têm poder para exercer toda sorte de funções pastorais.
O Soberano Civil, se cristão, é o chefe da Igreja em seus próprios domínios.
Cardeal Bellarmines Books De Summo Pontifice considerado
O Primeiro Livro
O Segundo Livro
O Terceiro Livro
O Quarto Livro
Textos sobre a infalibilidade do juízo papal em questões de fé.
Textos para o mesmo em termos de costumes
Do Poder Temporal do Papa

CAPÍTULO XLIII. DO QUE É NECESSÁRIO PARA A RECEPÇÃO DE UM HOMEM NO REINO DOS CÉUS
A dificuldade de obedecer a Deus e aos homens simultaneamente.
Para aqueles que fazem distinção entre o que é e o que não é necessário para a salvação, nada disso importa.
Tudo o que é necessário para a salvação está contido na fé e na obediência.
Que obediência é necessária;
E a que leis?
Na fé cristã, quem é a pessoa em quem se acredita?
As Causas da Fé Cristã
A fé vem pelo ouvir.
Comprovado pelo alcance dos evangelistas
Dos Sermões dos Apóstolos:
Da Facilidade da Doutrina:
De textos formais e claros
A partir disso, surge a base de todos os outros artigos.
Em que sentido outros artigos podem ser considerados necessários?
Que a fé e a obediência são ambas necessárias para a salvação.
O que cada um deles contribui para isso
Obediência a Deus e ao Soberano Civil não são inconsistentes.
Ou Infiel

PARTE IV. DO REINO DAS TREVAS
CAPÍTULO XLIV. DA ESCURIDÃO ESPIRITUAL DECORRENTE DA INTERPRETAÇÃO ERRADA DAS ESCRITURAS
O Reino das Trevas
A Igreja ainda não está totalmente livre das trevas.
Quatro Causas da Escuridão Espiritual
Erros decorrentes da má interpretação das Escrituras, concernentes ao Reino de Deus.
Assim como o Reino de Deus é a Igreja presente
E que o Papa é seu Vigário Geral.
E que os pastores são o clero.
Erro por confundir consagração com conjuração
Encantamento nas cerimônias de batismo
No casamento, na visita aos enfermos e na consagração de lugares.
Erros decorrentes da confusão entre a vida eterna e a morte eterna.
Como a doutrina do Purgatório, e os exorcismos, e a invocação dos santos
Os textos alegados para as doutrinas mencionadas já foram respondidos anteriormente.
Resposta ao texto em que Beza infere
Explicação do local em Marcos 9.1
Abuso de alguns outros textos em defesa do poder do Papa
A maneira de realizar as consagrações nas Escrituras era sem exorcismos.
A imortalidade da alma humana, não comprovada pelas Escrituras como sendo da natureza, mas sim da graça.
Tormentos Eternos O quê
Resposta dos textos alegados para o Purgatório
Lugares do Novo Testamento relacionados ao Purgatório (Respondido)
Batismo pelos mortos, como é entendido

CAPÍTULO XLV. DA DEMONOLOGIA E OUTRAS RELÍQUIAS DA RELIGIÃO DOS GENTIOS
O Original da Demonologia
O que eram os demônios dos antigos?
Como essa doutrina foi disseminada
Por que nosso Salvador não o controlou?
As Escrituras não ensinam que os espíritos são incorpóreos.
O poder de expulsar demônios não é o mesmo que era na Igreja primitiva.
Outra relíquia do gentilismo, imagens de adoração, deixadas na igreja, não trazidas para dentro dela.
Resposta a certos textos aparentemente falsos para imagens
O que é adoração?
Distinção entre culto divino e culto civil
Uma Imagem Que Fantasmas
Ficções; Imagens Materiais
Idolatria O quê?
Adoração escandalosa de imagens
Resposta ao argumento dos querubins e da serpente de bronze
Pinturas de fantasias não são idolatria: usá-las para culto religioso é
Como a idolatria foi deixada na Igreja
Canonização de Santos
O Nome do Pontífice
Procissão de Imagens
Velas de cera e tochas acesas

CAPÍTULO XLVI. DA ESCURIDÃO DA FILOSOFIA VÃ E DAS TRADIÇÕES FABULOSAS
O que é filosofia?
A prudência não faz parte da filosofia.
Nenhuma doutrina falsa faz parte da filosofia.
Nem o aprendizado é atribuído aos autores.
Dos primórdios e do progresso da filosofia
Das escolas de filosofia entre os atenienses
Das escolas dos judeus
A Escola dos Gregos Infrutífera
As escolas dos judeus são infrutíferas
Universidade: O que é?
Erros introduzidos na religião a partir da Metafísica de Aristóteles
Erros Relativos a Essências Abstratas
Nunc-stans
Um corpo em muitos lugares, e muitos corpos em um só lugar ao mesmo tempo.
Absurdos na Filosofia Natural, como a gravidade como causa da sensação de peso.
Quantidade colocada no corpo já produzido
Potência das Almas
Ubiquidade da Aparição
Vontade, a causa da vontade
Ignorância: Uma Causa Oculta
Uma pessoa cria a incongruência, outra cria a incongruência.
Apetite Privado: A Regra do Bem Público:
E que o casamento legítimo é impuro.
E que todo governo, exceto o popular, é tirania.
Que não sejam os homens, mas a lei que governe.
Leis acima da consciência
Interpretação privada da lei
Linguagem das Escolas de Divindade
Erros da tradição
Supressão da Razão

CAPÍTULO XLVII. DO BENEFÍCIO QUE PROCEDE DE TAIS TREVAS E A QUEM ELA SE APROPRIA
Presume-se que aquele que se beneficia de um fato seja o autor.
Que a Igreja Militante é o Reino de Deus foi ensinado primeiramente pela Igreja de Roma.
E mantido também pelo Presbitério.
Infalibilidade
Sujeição dos Bispos
Isenções do Clero
Os nomes dos Sacerdotes e os sacrifícios
A Sacramentoção do Matrimônio
A Vida de Solteiro dos Padres
Confissão Auricular
Canonização de Santos e Declaração de Mártires
Transubstanciação, Penitência, Absolvição
Purgatório, Indulgências, Obras Externas
Demonologia e Exorcismo
Escola de Divindade
Os Autores da Escuridão Espiritual, Quem São Eles?
Comparação do Papado com o Reino das Fadas

REVISÃO E CONCLUSÃO

INTRODUÇÃO

A natureza (a arte pela qual Deus criou e governa o mundo) é imitada pela arte do homem, como em muitas outras coisas, a ponto de poder criar um animal artificial. Pois, como a vida nada mais é do que o movimento dos membros, cujo início se encontra em alguma parte principal interna, por que não poderíamos dizer que todos os autômatos (máquinas que se movem por meio de molas e rodas, como um relógio) possuem uma vida artificial? Pois o que é o coração, senão uma mola? E os nervos, senão cordas? E as articulações, senão rodas, que dão movimento a todo o corpo, conforme planejado pelo artífice? A arte vai ainda mais longe, imitando essa obra racional e excelente da natureza: o homem. Pois pela arte é criado aquele grande Leviatã chamado Comunidade ou Estado (em latim, Civitas), que nada mais é do que um homem artificial, embora de maior estatura e força do que o natural, para cuja proteção e defesa foi concebido. E na qual a Soberania é uma Alma Artificial, que dá vida e movimento a todo o corpo; os Magistrados e outros Oficiais de Justiça e Execução, Juntas artificiais; Recompensa e Punição (pelas quais, atreladas à sede da Soberania, cada junta e membro é movido a cumprir seu dever) são os Nervos que fazem o mesmo no Corpo Natural; a Riqueza e os Bens de todos os membros particulares são a Força; Salus Populi (a Segurança do Povo), seu Negócio; Conselheiros, por meio dos quais tudo o que é necessário para o seu conhecimento lhe é sugerido, são a Memória; Equidade e Leis, uma Razão e Vontade artificiais; Concórdia, Saúde; Sedição, Doença; e Guerra Civil, Morte. Por fim, os Pactos e Alianças, pelos quais as partes deste Corpo Político foram inicialmente criadas, reunidas e unidas, assemelham-se àquele Fiat, ou o "Façamos o Homem", pronunciado por Deus na Criação.

Para descrever a natureza desse homem artificial, considerarei...

Primeiro, a matéria em si e o artífice; ambos são o Homem.

Em segundo lugar, como e por quais pactos ele é estabelecido; quais são os direitos e o poder ou autoridade legítimos de um soberano; e o que o preserva e o dissolve.

Em terceiro lugar, o que é uma Comunidade Cristã?

Por fim, o que é o Reino das Trevas?

Quanto ao primeiro ponto, há um ditado muito usado ultimamente, que diz: "A sabedoria se adquire não lendo livros, mas observando homens". Consequentemente, aqueles que, em sua maioria, não conseguem demonstrar sua sabedoria de outra forma, sentem grande prazer em exibir o que pensam ter aprendido com os outros, por meio de críticas maldosas pelas costas. Mas há outro ditado, pouco compreendido ultimamente, pelo qual poderiam aprender a realmente se conhecer, se quisessem: "Nosce Teipsum", "Leia a si mesmo". Esse ditado não tinha a intenção, como é usado hoje, de tolerar a barbárie dos homens no poder em relação aos seus inferiores, nem de encorajar homens de posição inferior a um comportamento desrespeitoso para com seus superiores. Mas para nos ensinar que, devido à semelhança entre os pensamentos e paixões de um homem e os pensamentos e paixões de outro, quem quer que se examine e considere o que faz quando pensa, opina, raciocina, espera, teme, etc., e com base em que fundamentos, poderá, por meio disso, ler e saber quais são os pensamentos e paixões de todos os outros homens em ocasiões semelhantes. Digo a semelhança das paixões, que são as mesmas em todos os homens: desejo, medo, esperança, etc.; não a semelhança ou os objetos das paixões, que são as coisas desejadas, temidas, esperadas, etc., pois estas variam tanto de pessoa para pessoa, dependendo da constituição individual e da educação específica, e são tão fáceis de ocultar do nosso conhecimento, que o caráter do coração humano, maculado e confundido como está pela dissimulação, mentira, falsificação e doutrinas errôneas, só é legível para aquele que sonda os corações. E embora por vezes descubramos, através das ações dos homens, quem eles querem alcançar, fazê-lo sem compará-las com as nossas próprias ações e sem distinguir todas as circunstâncias que podem alterar o caso é decifrar sem chave e, na maioria das vezes, ser enganado por excesso de confiança ou por excesso de desconfiança; pois quem lê é, ele próprio, um homem bom ou mau.

Mas, por mais perfeito que seja o exemplo de um homem que lê o outro por suas ações, isso só lhe serve de consolo em seus poucos conhecidos. Aquele que governará uma nação inteira deve ler em si mesmo, não este ou aquele indivíduo em particular, mas a humanidade; o que, embora seja difícil, mais difícil do que aprender qualquer idioma ou ciência, quando eu tiver registrado minha própria leitura de forma ordenada e clara, o esforço restante será apenas para refletir se ele também não encontrar o mesmo em si mesmo. Pois esse tipo de doutrina não admite outra demonstração.

PARTE I.
DO HOMEM

CAPÍTULO I.
DOS SENTIDOS

A respeito dos pensamentos do homem, considerarei primeiro cada um deles individualmente e, posteriormente, em conjunto, ou seja, em sua dependência mútua. Individualmente, cada um é uma representação ou aparência de alguma qualidade ou outro acidente de um corpo externo a nós, o qual é comumente chamado de objeto. Esse objeto atua sobre os olhos, ouvidos e outras partes do corpo humano e, por meio da diversidade de sua atuação, produz diversidade de aparências.

A origem de todas elas é aquilo que chamamos de Sentido; (pois não há concepção na mente humana que não tenha sido gerada, total ou parcialmente, pelos órgãos dos Sentidos). As demais derivam dessa origem.

Conhecer a causa natural dos sentidos não é essencial para o assunto em questão; já escrevi sobre isso detalhadamente em outro lugar. Contudo, para detalhar cada parte do meu método atual, irei apresentá-la brevemente aqui.

A causa da sensação é o Corpo Externo, ou Objeto, que pressiona o órgão próprio de cada sentido, seja imediatamente, como no paladar e no tato; seja mediatamente, como na visão, audição e olfato. Essa pressão, mediada por nervos e outras estruturas e membranas do corpo, continua internamente até o cérebro e o coração, causando ali uma resistência, ou contrapressão, ou esforço do coração para se libertar. Esse esforço, por ser externo, parece ser algo exterior. E essa percepção, ou imaginação, é o que os homens chamam de sentido; e consiste, no caso da visão, em uma luz ou cor percebida; no caso do ouvido, em um som; no caso do nariz, em um odor; no caso da língua e do palato, em um sabor; e no caso do resto do corpo, em calor, frio, dureza, maciez e outras qualidades que discernimos pelo tato. Todas as qualidades que chamamos de Sensíveis estão no objeto que as causa, mas são apenas os diversos movimentos da matéria que pressionam nossos órgãos de maneiras diferentes. Em nós, que somos pressionados, não há nada além de diversos movimentos (pois o movimento nada produz senão movimento). Mas a sua aparência para nós é Imaginação, o mesmo estado de vigília que o sonho. E assim como pressionar, esfregar ou golpear o olho nos faz imaginar uma luz, e pressionar o ouvido produz um zumbido, assim também os corpos que vemos ou ouvimos produzem o mesmo por sua ação forte, embora imperceptível. Pois se essas Cores e Sons estivessem nos Corpos ou Objetos que os causam, não poderiam ser separados deles, como vemos através de lentes e em ecos por reflexão, onde sabemos que a coisa que vemos está em um lugar, e a aparência, em outro. E embora a certa distância, o objeto real pareça revestido da imaginação que gera em nós; Contudo, o objeto é uma coisa, a imagem ou fantasia é outra. Assim, o Sentido, em todos os casos, nada mais é do que originalmente fantasia, causada (como eu disse) pela pressão, isto é, pelo movimento, de coisas externas sobre nossos Olhos, Ouvidos e outros órgãos para os quais fomos designados.

Mas as escolas de filosofia, em todas as universidades da cristandade, fundamentadas em certos textos de Aristóteles, ensinam outra doutrina; e dizem: Quanto à visão, a coisa vista emite, em todas as direções, uma espécie visível (em português, uma aparência, aparição ou aspecto visível, ou um ser visto); cuja recepção pelos olhos é a visão. E quanto à audição, a coisa ouvida emite uma espécie audível, isto é, um aspecto audível ou um ser visto audível; que, entrando pelo ouvido, possibilita a audição. Aliás, quanto ao entendimento também, dizem que a coisa compreendida emite uma espécie inteligível, isto é, um ser visto inteligível; que, entrando no entendimento, nos faz compreender. Não digo isso para desaprovar o uso das universidades, mas, como falarei adiante sobre seu papel em uma comunidade política, devo mostrar-lhes, em todas as ocasiões, o que nelas seria alterado. Dentre elas, a frequência da fala insignificante é uma.

CAPÍTULO II.
DA IMAGINAÇÃO

Que quando algo permanece imóvel, a menos que algo o perturbe, permanecerá imóvel para sempre, é uma verdade da qual ninguém duvida. Mas que quando algo está em movimento, permanecerá eternamente em movimento, a menos que algo o detenha, embora a razão seja a mesma (ou seja, que nada pode mudar a si mesmo), não é tão facilmente aceito. Pois os homens medem, não apenas outros homens, mas todas as outras coisas, por si mesmos; e porque se veem sujeitos, após o movimento, à dor e à lassidão, pensam que tudo o mais se cansa do movimento e busca o repouso por si só; sem considerar se não é algum outro movimento que constitui esse desejo de repouso que encontram em si mesmos. Daí se origina o fato de as escolas dizerem que os corpos pesados ​​caem, por um apetite de repouso e para conservar sua natureza no lugar que lhes é mais apropriado; atribuindo, absurdamente, apetite e conhecimento do que é bom para sua conservação (conhecimento esse que o homem não possui) a coisas inanimadas.

Uma vez que um corpo está em movimento, ele se move (a menos que algo o impeça) eternamente; e tudo o que o impede não pode extingui-lo num instante, mas sim com o tempo e gradualmente. Assim como vemos na água, mesmo que o vento cesse, as ondas não param de se agitar por muito tempo depois; o mesmo acontece com o movimento que ocorre nas partes internas do homem quando ele vê, sonha, etc. Pois, mesmo depois que o objeto é removido ou os olhos são fechados, ainda retemos uma imagem da coisa vista, embora mais obscura do que quando a vemos. E é isso que os latinos chamam de Imaginação, por causa da imagem formada pela visão; e aplicam o mesmo termo, embora de forma inadequada, a todos os outros sentidos. Mas os gregos chamam isso de Fantasia, que significa Aparência, e é tão próprio de um sentido quanto de outro. A Imaginação, portanto, nada mais é do que a Perturbação dos Sentidos; e é encontrada nos homens e em muitas outras criaturas vivas, tanto dormindo quanto acordadas.

Memória

A deterioração da percepção sensorial no homem desperto não se deve à deterioração do movimento sensorial em si, mas sim ao seu obscurecimento, de tal forma que a luz do Sol obscurece a luz das estrelas; estrelas essas que exercem a mesma virtude que as torna visíveis tanto de dia quanto de noite. Mas, como dentre os muitos estímulos que nossos olhos, ouvidos e outros órgãos recebem de corpos externos, apenas o predominante é perceptível; portanto, sendo a luz do Sol predominante, não somos afetados pela ação das estrelas. E, mesmo que um objeto seja removido de nossa vista, a impressão que ele deixou em nós permanece; outros objetos mais presentes surgem e atuam sobre nós, obscurecendo e enfraquecendo a imaginação do passado, assim como a voz de um homem se encontra no ruído do dia. Daí se conclui que, quanto maior o tempo decorrido após a visão ou a percepção de qualquer objeto, mais fraca se torna a imaginação. A constante mudança do corpo humano destrói, com o tempo, as partes que, em termos de percepção, eram móveis; de modo que a distância no tempo e no espaço tem o mesmo efeito em nós. Pois, assim como à distância, aquilo que observamos parece turvo e sem distinção de suas partes menores; e como as vozes enfraquecem e se tornam inarticuladas, também, após grande distância no tempo, nossa imaginação do passado se torna frágil; e perdemos (por exemplo) de cidades que vimos, muitas ruas específicas; e de ações, muitas circunstâncias particulares. Essa deterioração da percepção, quando queremos expressar a coisa em si (refiro-me à própria imaginação), chamamos de imaginação, como já disse; mas quando queremos expressar a deterioração e significar que a percepção está se esvaindo, envelhecida e passada, chamamos isso de memória. Assim, imaginação e memória são apenas uma coisa, que, por diferentes razões, recebe nomes diferentes.

Muita memória, ou memória de muitas coisas, é chamada de Experiência. Por outro lado, a Imaginação se refere apenas às coisas que foram previamente percebidas pelos sentidos, seja todas de uma vez, seja em partes, em momentos distintos. A primeira (que é imaginar o objeto inteiro, tal como foi apresentado aos sentidos) é Imaginação Simples; como quando alguém imagina um homem ou um cavalo que já viu antes. A segunda é Composta; como quando, a partir da visão de um homem em um momento e de um cavalo em outro, concebemos em nossa mente um Centauro. Assim também, quando um homem combina a imagem de sua própria pessoa com a imagem das ações de outro homem; como quando um homem se imagina um Hércules ou um Alexandre (o que acontece frequentemente com aqueles que se dedicam muito à leitura dos Romanos), trata-se de uma imaginação composta, e propriamente apenas uma Ficção da mente. Existem também outras Imaginações que surgem nos homens (mesmo acordados) a partir da grande impressão causada pelos sentidos. Assim como a contemplação do Sol deixa uma imagem diante de nossos olhos por muito tempo depois; e a atenção prolongada e veemente às figuras geométricas faz com que, mesmo acordado, o homem tenha diante dos olhos, no escuro, imagens de linhas e ângulos: esse tipo de imaginação não tem nome específico, por ser algo que geralmente não entra no discurso humano.

Sonhos

As imaginações daqueles que dormem são o que chamamos de sonhos. E estas também (como todas as outras imaginações) já existiram antes, seja totalmente ou parcialmente, nos sentidos. E como, nos sentidos, o cérebro e os nervos, que são os órgãos necessários para a percepção, estão tão entorpecidos durante o sono que não são facilmente movidos pela ação de objetos externos, não pode haver, durante o sono, nenhuma imaginação; e, portanto, nenhum sonho, senão o que procede da agitação das partes internas do corpo humano; partes essas que, pela conexão que têm com o cérebro e outros órgãos, quando perturbadas, mantêm-no em movimento; por meio das quais as imaginações ali criadas anteriormente aparecem como se o homem estivesse acordado; exceto pelo fato de que, estando os órgãos dos sentidos agora entorpecidos, de modo que não há novo objeto que possa dominá-los e obscurecê-los com uma impressão mais vigorosa, um sonho deve necessariamente ser mais claro, nesse silêncio dos sentidos, do que nossos pensamentos em estado de vigília. E daí resulta que é difícil, e para muitos considerado impossível, distinguir exatamente entre a percepção e o sonho. Quanto a mim, quando considero que, em sonhos, não penso frequentemente, nem constantemente, nas mesmas pessoas, lugares, objetos e ações que penso quando estou acordado; nem me lembro de uma sequência tão longa de pensamentos coerentes, sonhando, como em outros momentos; e porque, acordado, muitas vezes observo o absurdo dos sonhos, mas nunca sonho com os absurdos dos meus pensamentos acordados; estou bem convencido de que, estando acordado, sei que não estou sonhando; embora, quando sonho, eu me considere acordado.

E os sonhos são causados ​​pelo desequilíbrio de algumas partes internas do corpo; diferentes desequilíbrios necessariamente causam diferentes sonhos. E daí que o frio gera sonhos de medo e desperta o pensamento e a imagem de algum objeto temível (o movimento do cérebro para as partes internas e das partes internas para o cérebro sendo recíproco); e que, assim como a raiva causa calor em algumas partes do corpo quando estamos acordados, quando dormimos, o superaquecimento dessas mesmas partes causa raiva e desperta no cérebro a imaginação de um inimigo. Da mesma forma, assim como a bondade natural, quando estamos acordados, causa desejo, e o desejo gera calor em certas outras partes do corpo, também o excesso de calor nessas partes, enquanto dormimos, desperta no cérebro a imaginação de alguma bondade demonstrada. Em suma, nossos sonhos são o inverso de nossas imaginações quando estamos acordados; o movimento, quando estamos acordados, começa em uma extremidade, e quando sonhamos, em outra.

Aparições ou Visões

A maior dificuldade em discernir um sonho de um homem, em meio aos seus pensamentos de vigília, reside em perceber, por algum acaso, que não dormimos: o que é fácil de acontecer a um homem repleto de pensamentos temerosos, cuja consciência está muito perturbada e que dorme sem as circunstâncias de ir para a cama ou tirar as roupas, como alguém que cochila em uma cadeira. Pois aquele que se esforça e se deita diligentemente para dormir, caso alguma fantasia indelicada e extravagante lhe venha à mente, dificilmente poderá considerá-la outra coisa senão um sonho. Lemos sobre Marco Bruto (aquele que teve a vida tirada por Júlio César, e que também era seu favorito, e que, apesar disso, o assassinou), como em Filipos, na noite anterior à batalha contra Augusto César, ele viu uma aparição terrível, comumente relatada pelos historiadores como uma visão; mas, considerando as circunstâncias, pode-se facilmente julgar que não passou de um breve sonho. Sentado em sua tenda, pensativo e perturbado pelo horror de seu ato impensado, não lhe era difícil, adormecido no frio, sonhar com aquilo que mais o assustava; medo esse que, assim como o fazia despertar gradualmente, também deveria fazer a aparição desaparecer aos poucos. E, não tendo certeza de que dormia, não tinha motivos para pensar que fosse um sonho, ou qualquer outra coisa senão uma visão. E isso não é um acidente raro: pois mesmo aqueles que estão perfeitamente despertos, se estiverem medrosos e desconfiados, possuídos por histórias assustadoras e sozinhos na escuridão, estão sujeitos a fantasias semelhantes e acreditam ver espíritos e fantasmas de mortos caminhando em cemitérios; quando, na verdade, ou é apenas imaginação deles, ou então a astúcia de pessoas que se aproveitam de tal medo supersticioso para passar disfarçadas à noite a lugares que não costumam frequentar.

Dessa ignorância sobre como distinguir sonhos e outras fantasias fortes da visão e dos sentidos, surgiu a maior parte da religião dos gentios no passado, que adoravam sátiros, faunos, ninfas e semelhantes; e hoje em dia a opinião que as pessoas rudes têm de fadas, fantasmas e duendes; e do poder das bruxas. Pois, quanto às bruxas, não creio que sua feitiçaria seja um poder real; mas, ainda assim, elas são justamente punidas pela falsa crença que têm de que podem causar tal mal, aliada à sua intenção de fazê-lo se puderem; sua profissão está mais próxima de uma nova religião do que de um ofício ou ciência. E quanto às fadas e fantasmas errantes, a opinião sobre eles, creio eu, foi propositalmente difundida, seja por meio de ensinamentos ou por não refutação, para manter em xeque o uso de exorcismos, cruzes, água benta e outras invenções semelhantes de seres espirituais. Não obstante, não há dúvida de que Deus pode criar aparições sobrenaturais. Mas o fato de Ele fazê-lo com tanta frequência, a ponto de os homens temerem tais coisas mais do que temem a suspensão ou a alteração do curso da Natureza, que Ele também pode suspender e alterar, não é ponto central da fé cristã. Homens maus, sob o pretexto de que Deus pode fazer qualquer coisa, são tão ousados ​​a ponto de dizer qualquer coisa quando lhes convém, mesmo que a considerem falsa. Cabe ao homem sábio não acreditar neles além do que a reta razão torna crível o que dizem. Se esse medo supersticioso de espíritos fosse eliminado, juntamente com prognósticos baseados em sonhos, falsas profecias e muitas outras coisas que dependem deles, pelas quais pessoas astutas e ambiciosas enganam o povo simples, os homens estariam muito mais aptos à obediência civil.

E isso deveria ser obra das escolas; mas elas, ao contrário, alimentam tais doutrinas. Pois (sem saber o que são a imaginação ou os sentidos), ensinam o que recebem: alguns dizem que as imaginações surgem por si mesmas e não têm causa; outros, que surgem mais comumente da vontade; e que os bons pensamentos são inspirados no homem por Deus, e os maus, pelo Divino; ou que os bons pensamentos são infundidos no homem por Deus, e os maus, pelo Divino. Alguns dizem que os sentidos recebem as espécies das coisas e as entregam ao senso comum; e o senso comum as entrega à imaginação, e a imaginação à memória, e a memória ao juízo, como a transferência de coisas de um para o outro, com muitas palavras que nada se entende.

Entendimento

A imaginação que se manifesta no homem (ou em qualquer outra criatura dotada da faculdade de imaginar) por meio de palavras ou outros sinais voluntários é o que geralmente chamamos de entendimento; e é comum ao homem e aos animais. Pois um cão, por costume, entenderá o chamado ou a ordem de seu dono; e o mesmo ocorrerá com muitos outros animais. O entendimento peculiar ao homem não se limita à compreensão de sua vontade, mas também abrange suas concepções e pensamentos, por meio da sequência e estruturação dos nomes das coisas em afirmações, negações e outras formas de linguagem. E é sobre esse tipo de entendimento que falarei adiante.

CAPÍTULO III.
DA CONSEQUÊNCIA OU TRAYNE DAS IMAGINAÇÕES

Por consequência, ou sequência de pensamentos, entendo a sucessão de um pensamento a outro, que é chamada (para distingui-la do discurso em palavras) de discurso mental.

Quando um homem pensa em qualquer coisa, seu pensamento seguinte não é tão casual quanto parece. Nem todo pensamento sucede a outro indiferentemente. Mas, assim como não temos imaginação que não tenhamos tido anteriormente nos sentidos, no todo ou em partes, também não temos transição de uma imaginação para outra que nunca tenhamos tido similar antes em nossos sentidos. A razão disso é a seguinte: todas as fantasias são movimentos dentro de nós, resquícios daqueles feitos nos sentidos; e aqueles movimentos que se sucediam imediatamente nos sentidos, continuam juntos também depois dos sentidos. Na medida em que o primeiro volta a ocorrer e a ser preeminente, o segundo o segue, pela coerência da matéria movida, de maneira semelhante à água que se espalha sobre uma mesa plana, conforme a direção para a qual uma parte dela é guiada pelo dedo. Mas, como em certo sentido, a uma mesma coisa percebida, às vezes uma coisa sucede outra, acontece com o tempo que, ao imaginar qualquer coisa, não há certeza do que imaginaremos a seguir; apenas isto é certo: será algo que sucedeu o mesmo antes, em algum momento.

Trayne de Pensamentos Sem Guia

Este fluxo de pensamentos, ou discurso mental, é de dois tipos. O primeiro é desorientado, sem propósito e inconstante; nele não há um pensamento apaixonado para governar e direcionar os que o seguem, para si mesmo, como fim e objetivo de algum desejo ou outra paixão: nesse caso, diz-se que os pensamentos vagueiam e parecem impertinentes uns aos outros, como em um sonho. Tais são comumente os pensamentos dos homens que não estão apenas desamparados, mas também despreocupados com qualquer coisa; embora mesmo assim seus pensamentos estejam tão ocupados quanto em outros momentos, porém sem harmonia; como o som que uma lira desafinada produziria para qualquer homem; ou afinada, para alguém que não soubesse tocar. E, no entanto, nessa desordem da mente, um homem pode muitas vezes perceber seu curso e a dependência de um pensamento em relação a outro. Pois, em um discurso sobre nossa atual guerra civil, o que poderia parecer mais impertinente do que perguntar (como se fez) qual era o valor de um centavo romano? Contudo, a coerência era-me bastante evidente. Pois o pensamento da guerra introduziu o pensamento da entrega do Rei aos seus inimigos; o pensamento disso trouxe o pensamento da entrega de Cristo; e este, por sua vez, o pensamento dos 30 centavos, que era o preço daquela traição: e daí seguiu-se facilmente aquela pergunta maliciosa; e tudo isto num instante; pois o pensamento é rápido.

Trayne de Pensamentos Regulados

O segundo é mais constante, pois é regulado por algum desejo e objetivo. Pois a impressão causada por coisas como o nosso desejo ou medo é forte e permanente, ou (se cessar por um tempo) de rápido retorno: tão forte às vezes é a ponto de perturbar e interromper o nosso sono. Do desejo surge o pensamento de algum meio que vimos produzir algo semelhante àquilo que almejamos; e do pensamento disso, o pensamento de meios para alcançar esse meio; e assim continuamente, até chegarmos a algum começo ao nosso alcance. E como o fim, pela intensidade da impressão, vem frequentemente à mente, caso nossos pensamentos comecem a divagar, eles são rapidamente reconduzidos ao caminho: o que, observado por um dos sete sábios, o levou a dar aos homens este preceito, agora desgastado, Respice Finem; isto é, em todas as suas ações, olhe frequentemente para aquilo que você deseja, pois é aquilo que direciona todos os seus pensamentos no caminho para alcançá-lo.

Lembrança

A prática dos pensamentos regulados é de dois tipos: um, quando imaginamos um efeito, buscamos as causas ou os meios que o produzem; e isso é comum ao homem e aos animais. O outro é, quando imaginamos qualquer coisa, buscamos todos os efeitos possíveis que ela pode produzir; isto é, imaginamos o que podemos fazer com ela, quando a tivermos. Disso eu nunca vi nenhum sinal, exceto no homem; pois essa é uma curiosidade dificilmente inerente à natureza de qualquer criatura viva que não tenha outra paixão senão as sensuais, como fome, sede, luxúria e raiva. Em suma, o discurso da mente, quando governado por um propósito, nada mais é do que busca, ou a faculdade da invenção, que os latinos chamam de sagacitas e solertia; uma busca pelas causas de algum efeito, presente ou passado; ou pelos efeitos de alguma causa presente ou passada, às vezes o homem busca o que perdeu. E daquele lugar e momento em que sente falta, sua mente retrocede, de lugar em lugar e de época em época, para encontrar onde e quando o teve; isto é, para encontrar algum momento e lugar certos e limitados, nos quais iniciar um método de busca. Novamente, a partir daí, seus pensamentos percorrem os mesmos lugares e momentos, para encontrar qual ação ou outra ocasião possa tê-lo feito perdê-lo. A isso chamamos de Lembrança, ou Recordação: os latinos chamam de Reminiscência, como que uma Reavaliação de nossas ações passadas.

Às vezes, um homem conhece um lugar determinado, dentro do qual deve procurar; e então seus pensamentos percorrem todas as suas partes, da mesma maneira que alguém varreria um cômodo para encontrar uma joia; ou como um cão farejador percorre o campo até encontrar um rastro; ou como um homem percorreria o alfabeto para começar uma rima.

Prudência

Às vezes, um homem deseja saber o desfecho de uma ação; e então pensa em alguma ação semelhante passada e nos eventos subsequentes, supondo que eventos semelhantes seguirão ações semelhantes. Assim como aquele que prevê o que acontecerá a um criminoso, relembra o que viu acontecer com crimes semelhantes no passado, tendo esta ordem de pensamentos: o crime, o policial, a prisão, o juiz e a forca. Esse tipo de pensamento é chamado de previsão, prudência ou providência; e às vezes sabedoria; embora tal conjectura, devido à dificuldade de observar todas as circunstâncias, seja muito falaciosa. Mas isto é certo: quanto mais experiência um homem tiver de coisas passadas do que outro, mais prudente ele será e menos suas expectativas falharão. O presente só existe na natureza; as coisas passadas só existem na memória, mas as coisas futuras não existem de forma alguma; o futuro é apenas uma ficção da mente, aplicando as consequências de ações passadas às ações presentes. O que é feito com maior certeza por aquele que tem mais experiência; mas não com certeza suficiente. E embora seja chamada de prudência, quando o evento corresponde à nossa expectativa, em sua própria natureza, não passa de presunção. Pois a previsão das coisas futuras, que é a Providência, pertence unicamente àquele por cuja vontade elas devem acontecer. Dele, somente e sobrenaturalmente, procede a profecia. O melhor profeta é, naturalmente, o melhor adivinhador; e o melhor adivinhador é aquele que é mais versado e estudioso nos assuntos sobre os quais adivinha, pois ele possui mais sinais para adivinhar.

Sinais

Um Signo é o Evento Antecedente do Consequente; e, inversamente, o Consequente do Antecedente, quando consequências semelhantes já foram observadas anteriormente. E quanto mais frequentemente forem observadas, menos incerto será o Signo. Portanto, aquele que tem mais experiência em qualquer tipo de negócio possui mais Signos para prever o futuro e, consequentemente, é o mais prudente. E muito mais prudente do que aquele que é novo nesse tipo de negócio, a ponto de não poder ser igualado por nenhuma vantagem de raciocínio natural e improvisado, embora talvez muitos jovens pensem o contrário.

Contudo, não é a prudência que distingue o homem dos animais. Há animais que, com um ano de idade, observam mais e buscam o que é para o seu bem com mais prudência do que uma criança de dez anos.

Conjectura do tempo passado

Assim como a prudência é uma presunção do futuro, extraída da experiência do passado, também existe uma presunção de coisas passadas, extraída de outras coisas (não futuras, mas) passadas. Pois aquele que viu por quais caminhos e graus um Estado próspero primeiro entrou em guerra civil e depois em ruína, ao observar as ruínas de qualquer outro Estado, conjecturará que guerras semelhantes e caminhos semelhantes também ocorreram ali. Mas sua conjectura tem quase a mesma incerteza que a conjectura do futuro, ambas baseadas unicamente na experiência.

Não há outro ato da mente humana, que eu me lembre, que seja naturalmente inerente ao homem, de modo que não necessite de nada além de nascer homem e viver com o uso de seus cinco sentidos para exercê-lo. As demais faculdades, das quais falarei adiante, e que parecem próprias do homem, são adquiridas e aprimoradas pelo estudo e pela diligência; e, na maioria dos casos, são aprendidas por instrução e disciplina; e procedem todas da invenção das palavras e da fala. Pois, além dos sentidos, dos pensamentos e do processo de pensamento, a mente humana não possui outro movimento; embora, com o auxílio da fala e do método, essas mesmas faculdades possam ser aprimoradas a tal ponto que distinguem os homens de todas as outras criaturas vivas.

Tudo o que imaginamos é finito. Portanto, não existe ideia ou concepção de algo que chamamos de infinito. Nenhum homem pode ter em sua mente uma imagem de magnitude infinita; nem conceber os fins e limites da coisa nomeada; não tendo nenhuma concepção da coisa, a não ser de nossa própria incapacidade. E, portanto, o Nome de Deus é usado, não para nos fazer concebê-lo (pois ele é incompreensível; e sua grandeza e poder são inconcebíveis); mas para que possamos honrá-lo. Também porque tudo o que concebemos (como eu disse antes) foi percebido primeiro pelos sentidos, seja tudo de uma vez, seja em partes; um homem não pode ter um pensamento que represente algo que não esteja sujeito aos sentidos. Nenhum homem, portanto, pode conceber algo sem que o conceba em algum lugar; e dotado de alguma magnitude determinada; e que possa ser dividido em partes; e que algo não esteja totalmente neste lugar e totalmente em outro lugar ao mesmo tempo. nem que duas ou mais coisas possam estar no mesmo lugar ao mesmo tempo: pois nenhuma dessas coisas jamais teve, ou pode ter, significado inerente ao Sentido; mas são discursos absurdos, aceitos sem qualquer significado, de filósofos enganados e escolásticos enganados ou enganadores.

CAPÍTULO IV.
DA FALA

Original do Discurso

A invenção da imprensa, embora engenhosa, comparada à invenção das letras, não é grande coisa. Mas não se sabe quem foi o primeiro a descobrir a utilidade das letras. Dizem que aquele que as introduziu na Grécia foi Cadmo, filho de Agenor, rei da Fenícia. Uma invenção proveitosa para perpetuar a memória do passado e a união da humanidade, dispersa por tantas regiões distantes da Terra; e com todas as dificuldades, pois procedia da observação atenta dos diversos movimentos da língua, palato, lábios e outros órgãos da fala; por meio dos quais se podiam criar tantas diferenças de caracteres, para que se pudessem memorizá-los. Mas a invenção mais nobre e proveitosa de todas foi a da fala, que consiste em nomes ou apelidos e sua conexão; por meio dos quais os homens registram seus pensamentos, recordam-nos quando já passaram; e também os declaram uns aos outros para utilidade e conversa mútuas. Sem isso, não teria havido entre os homens nem Comunidade, nem Sociedade, nem Contrato, nem Paz, assim como não haveria entre leões, ursos e lobos. O primeiro autor da Fala foi o próprio DEUS, que instruiu Adão sobre como nomear as criaturas que se apresentavam à sua vista; pois as Escrituras não abordam esse assunto mais a fundo. Mas isso foi suficiente para orientá-lo a acrescentar mais nomes, conforme a experiência e o uso das criaturas lhe dessem ocasião; e a combiná-los de tal maneira, gradualmente, que se fizesse entender; e assim, com o passar do tempo, adquiriria tanta linguagem quanto lhe fosse útil; embora não tão abundante quanto a que um orador ou filósofo necessitaria. Pois não encontro nada nas Escrituras que, direta ou indiretamente, permita inferir que Adão tenha sido ensinado os nomes de todas as Figuras, Números, Medidas, Cores, Sons, Fantasias, Relações; muito menos os nomes de Palavras e Fala, como Geral, Especial, Afirmativo, Negativo, Interrogativo, Optativo, Infinitivo, todos úteis; e menos ainda, de Entidade, Intencionalidade, Quididade e outras palavras significativas da Escola.

Mas toda essa linguagem adquirida e ampliada por Adão e sua posteridade foi perdida novamente na Torre de Babel, quando, pela mão de Deus, cada homem foi atingido por sua rebelião, com o esquecimento de sua língua anterior. E, sendo forçados a se dispersarem por diversas partes do mundo, a diversidade de línguas que existe hoje se desenvolveu gradualmente a partir deles, conforme a necessidade (a mãe de todas as invenções) os ensinou; e, com o passar do tempo, tornou-se cada vez mais abundante.

O uso da fala

O uso geral da fala é transferir nosso discurso mental para a forma verbal, ou o conjunto de nossos pensamentos para um conjunto de palavras. Isso serve a dois propósitos: um deles é o registro das consequências de nossos pensamentos, que, por serem propensos a escapar de nossa memória e nos obrigarem a um novo trabalho, podem ser recuperados pelas palavras com que foram marcados. Assim, o primeiro uso dos nomes é servir como marcas ou notas de lembrança. Outro uso é quando muitos usam as mesmas palavras para significar (por sua conexão e ordem) uns aos outros o que concebem ou pensam sobre cada assunto, e também o que desejam, temem ou pelo que têm qualquer outra paixão. Para esse fim, as palavras são chamadas de signos. Os usos especiais da fala são estes: primeiro, registrar o que, por meio da cogitação, descobrimos ser a causa de algo, presente ou passado, e o que descobrimos que coisas presentes ou passadas podem produzir ou afetar. Em suma, isso é adquirir habilidades. Em segundo lugar, mostrar aos outros o conhecimento que adquirimos; ou seja, aconselhar e ensinar uns aos outros. Em terceiro lugar, tornar conhecidos aos outros as nossas vontades e propósitos, para que possamos contar com a ajuda mútua. Em quarto lugar, agradar e deleitar a nós mesmos e aos outros, brincando com as palavras, por prazer ou ornamento, inocentemente.

Abusos de fala

A esses usos, há também quatro abusos correspondentes. Primeiro, quando os homens registram seus pensamentos erroneamente, pela inconstância do significado de suas palavras; com isso, registram como suas concepções aquilo que jamais conceberam, enganando-se a si mesmos. Segundo, quando usam as palavras metaforicamente, isto é, em sentido diverso daquele para o qual foram ordenadas, enganando assim os outros. Terceiro, quando, por meio das palavras, declaram ser sua vontade aquilo que não é. Quarto, quando as usam para ferir uns aos outros: pois, visto que a natureza armou criaturas vivas, algumas com dentes, outras com chifres e outras com mãos, para ferir um inimigo, é um abuso da linguagem feri-lo com a língua, a menos que seja alguém que temos a obrigação de governar; e então não é para ferir, mas para corrigir e emendar.

A maneira como a Fala serve para a lembrança da consequência das causas e efeitos consiste na imposição de Nomes e na Conexão entre eles.

Nomes Próprios e Comuns Universais

Dos nomes, alguns são próprios e singulares a uma única coisa, como Pedro, João, Este Homem, Esta Árvore; e outros são comuns a muitas coisas, como Homem, Cavalo, Árvore; cada um deles, embora seja apenas um nome, é, no entanto, o nome de diversas coisas particulares; em relação a todas elas juntas, é chamado de universal; não havendo nada no mundo que seja universal além dos nomes; pois as coisas nomeadas são, cada uma delas, individuais e singulares.

Um nome universal é atribuído a muitas coisas, devido à sua semelhança em alguma qualidade ou outra circunstância: enquanto um nome próprio evoca uma única coisa, os universais lembram qualquer uma dessas muitas coisas.

E quanto aos Nomes Universais, alguns são de maior extensão, e outros de menor; os maiores abrangendo os menores; e alguns, ainda, de igual extensão, abrangendo-se reciprocamente. Como, por exemplo, o Nome Corpo tem um significado maior do que a palavra Homem, e a abrange; e os nomes Homem e Racional têm igual extensão, abrangendo-se mutuamente. Mas aqui devemos observar que um Nome nem sempre é entendido, como na Gramática, como uma única palavra; mas às vezes por circunlóquio, várias palavras juntas. Pois todas essas palavras, Aquele Que em Suas Ações Observa as Leis de Seu País, formam um único Nome, equivalente a esta única palavra, Justo.

Por meio dessa imposição de Nomes, alguns de significado mais amplo, outros de significado mais restrito, transformamos a avaliação das consequências de coisas imaginadas na mente em uma avaliação das consequências de Apelidos. Por exemplo, um homem que não tem o uso da fala (como alguém que nasce e permanece completamente surdo e mudo), se colocar diante de si um triângulo e, ao lado dele, dois ângulos retos (como os cantos de uma figura quadrada), poderá, por meio da meditação, comparar e descobrir que os três ângulos desse triângulo são iguais aos dois ângulos retos que o delimitam. Mas se lhe for mostrado outro triângulo, de formato diferente do anterior, ele não poderá saber, sem um novo esforço, se os três ângulos desse também são iguais aos do primeiro. Mas aquele que tem o uso das palavras, ao observar que tal igualdade era consequência não do comprimento dos lados, nem de qualquer outra característica particular de seu triângulo, mas unicamente do fato de os lados serem retos e os ângulos serem três; E isso era tudo, razão pela qual ele o chamou de Triângulo; concluirá, com ousadia e universalmente, que tal igualdade de ângulos está presente em todos os triângulos; e registrará sua invenção nestes termos gerais: Todo triângulo tem seus três ângulos iguais a dois ângulos retos. E assim, a consequência encontrada em um caso particular passa a ser registrada e lembrada como uma regra universal; e dispensa nosso cálculo mental de tempo e lugar; e nos livra de todo trabalho mental, exceto o primeiro; e faz com que aquilo que foi considerado verdadeiro aqui e agora seja verdadeiro em todos os tempos e lugares.

Mas o uso de palavras para registrar nossos pensamentos é evidente em nada tanto quanto na numeração. Um tolo por natureza, que jamais conseguiria memorizar a ordem dos numerais por extenso, como Um, Dois e Três, pode observar cada badalada do relógio e acenar com a cabeça, ou dizer um, um, um; mas jamais saberá que horas são. E parece que houve um tempo em que esses nomes numéricos não eram usados; e os homens tinham o hábito de aplicar os dedos de uma ou ambas as mãos às coisas que desejavam contabilizar; e daí resultou o fato de que agora nossos numerais por extenso se resumem a dez em qualquer nação, e em algumas a cinco, e então recomeçam. E aquele que consegue dizer dez, se os recitar fora de ordem, se perderá e não saberá quando terminar: muito menos será capaz de somar, subtrair e realizar todas as outras operações aritméticas. Portanto, sem palavras, não há possibilidade de calcular números. muito menos em magnitudes, em rapidez, em força e em outras coisas, cujos cálculos são necessários à existência ou ao bem-estar da humanidade.

Quando dois nomes são unidos numa consequência ou afirmação, como em "Um homem é uma criatura viva" ou "Se ele é um homem, ele é uma criatura viva", se o segundo nome, "criatura viva", significa tudo o que o primeiro nome, "homem", significa, então a afirmação ou consequência é verdadeira; caso contrário, é falsa. Pois verdadeiro e falso são atributos da fala, não das coisas. E onde não há fala, não há verdade nem falsidade. Pode haver erro, como quando esperamos o que não será ou suspeitamos do que não foi, mas em nenhum dos casos um homem pode ser acusado de inverdade.

Visto que a Verdade consiste na correta ordenação dos nomes em nossas afirmações, o homem que busca a Verdade precisa precisa lembrar o significado de cada nome que usa e colocá-lo de acordo; caso contrário, se verá enredado nas palavras, como um pássaro em galhos de tília: quanto mais se debate, mais se perde. E, portanto, na Geometria (a única Ciência que Deus até agora concedeu à humanidade), os homens começam por estabelecer os significados de suas palavras; esse estabelecimento de significados chama de Definições e as coloca no início de seus cálculos.

Com isso, fica evidente a necessidade de qualquer homem que aspire ao verdadeiro conhecimento examinar as definições dos autores anteriores, corrigindo-as quando negligentemente registradas ou criando-as ele mesmo. Pois os erros de definição se multiplicam à medida que o cálculo avança, levando os homens a absurdos que, por fim, percebem, mas não podem evitar sem recomeçar do zero; aí reside o fundamento de seus erros. Daí resulta que aqueles que confiam nos livros agem como aqueles que somam muitas pequenas quantias em uma maior, sem considerar se essas pequenas quantias foram corretamente calculadas ou não; e, ao finalmente perceberem o erro, e não desconfiando de seus fundamentos iniciais, não sabem como se corrigir, mas perdem tempo folheando seus livros. Assim como os pássaros que entram pela chaminé e se veem presos em um quarto, esvoaçam atraídos pela luz falsa de uma janela de vidro, por falta de discernimento para considerar por onde entraram. De modo que na definição correta dos nomes reside o primeiro uso da linguagem, que é a aquisição da ciência. E na definição errada, ou na ausência dela, reside o primeiro abuso, do qual procedem todos os preceitos falsos e insensatos, que fazem com que aqueles que se instruem pela autoridade dos livros, e não por sua própria meditação, estejam tão abaixo da condição dos ignorantes quanto os dotados da verdadeira ciência estão acima dela. Pois entre a verdadeira ciência e as doutrinas errôneas, a ignorância está no meio. O senso natural e a imaginação não estão sujeitos ao absurdo. A própria natureza não pode errar; e à medida que os homens abundam em copiosidade de linguagem, tornam-se mais sábios ou mais insensatos do que o comum. Nem é possível, sem as Letras, que um homem se torne extremamente sábio, ou (a menos que sua memória esteja prejudicada por doença ou má constituição dos órgãos) extremamente tolo. Pois as palavras são as ferramentas dos sábios, eles apenas calculam por elas; mas são as ferramentas dos tolos, que as valorizam pela autoridade de um Aristóteles, um Cícero, um Tomás de Aquino ou qualquer outro doutor, se é que se trata de um homem.

Sujeito a nomes

"Sujeito a nomes" refere-se a tudo o que pode entrar ou ser considerado em uma conta; e ser adicionado a outro para formar um total; ou subtraído de outro, deixando um resto. Os latinos chamavam as contas de dinheiro de "Rationes" e a contabilidade de "Ratiocinatio"; e aquilo que nós, em faturas ou livros contábeis, chamamos de itens, eles chamavam de "Nomina", isto é, nomes; e daí parece decorrer que eles estenderam a palavra "Ratio" à faculdade de calcular em todas as outras coisas. Os gregos têm apenas uma palavra, "Logos", tanto para a fala quanto para a razão; não que eles pensassem que não havia fala sem razão, mas sim que não havia raciocínio sem fala. E o ato de raciocinar eles chamavam de "silogismo", que significa o resumo das consequências de uma frase dita a outra. E como as mesmas coisas podem ser consideradas em diversos casos, seus nomes são (para mostrar essa diversidade) diversos e diversificados. Essa diversidade de nomes pode ser reduzida a quatro categorias gerais.

Em primeiro lugar, uma coisa pode ser considerada como Matéria ou Corpo; como Vivo, Sensível, Racional, Quente, Frio, Movido, Imóvel; com todos esses nomes, a palavra Matéria ou Corpo é entendida; todos esses sendo nomes da Matéria.

Em segundo lugar, pode-se levar em conta, ou considerar, algum acidente ou qualidade que concebemos estar presente; como, por exemplo, Ser Movido, Ser Longo, Ser Quente, etc.; e então, a partir do próprio nome da coisa, por uma pequena mudança ou distorção, criamos um nome para esse acidente que consideramos; e para Viver, consideramos Vida; para Movido, Movimento; para Quente, Calor; para Longo, Comprimento, e assim por diante. E todos esses Nomes são os nomes dos acidentes e propriedades pelos quais uma Matéria e um Corpo se distinguem de outro. Esses são chamados Nomes Abstratos; porque separados (não da Matéria, mas) da descrição da Matéria.

Em terceiro lugar, levamos em consideração as propriedades de nossos próprios corpos, pelas quais fazemos tal distinção: quando vemos algo, não consideramos a coisa em si, mas a visão, a cor, a ideia que temos dela na imaginação; e quando ouvimos algo, não consideramos a coisa em si, mas apenas a audição, ou o som, que é nossa imaginação ou concepção dele pelo ouvido: e esses são nomes de imaginações.

Em quarto lugar, levamos em consideração, analisamos e damos nomes aos próprios Nomes e aos Discursos: pois Geral, Universal, Especial, Equívoco são nomes de Nomes. E Afirmação, Interrogação, Mandamento, Narração, Silogismo, Sermão, Oração e muitos outros semelhantes são nomes de Discursos.

Uso Positivo de Nomes

E esta é toda a variedade de Nomes Positivos; que são usados ​​para marcar algo que está na Natureza, ou que pode ser simulado pela mente do homem, como Corpos que são, ou que podem ser concebidos como sendo; ou, no caso dos corpos, as Propriedades que são, ou que podem ser simuladas como sendo; ou Palavras e Fala.

Nomes negativos e seus usos

Existem também outros Nomes, chamados Negativos; que são notas para significar que uma palavra não é o nome da coisa em questão; como estas palavras Nada, Nenhum Homem, Infinito, Indocável, Três Faltam Quatro, e similares; que, no entanto, são úteis no cálculo, ou na correção do cálculo; e trazem à memória nossas cogitações passadas, embora não sejam nomes de nada; porque nos fazem recusar Nomes usados ​​incorretamente.

Palavras insignificantes

Todos os outros nomes não passam de sons insignificantes; e existem dois tipos. Um deles é quando são novos e seu significado ainda não foi explicado por uma definição; dos quais houve uma abundância de definições elaboradas por escolásticos e filósofos perplexos.

Outro exemplo é quando os homens criam um nome a partir de dois nomes cujos significados são contraditórios e inconsistentes; como este nome, um Corpo Incorpóreo, ou (que é tudo um só) uma Substância Incorpórea, e muitos outros. Pois, sempre que uma afirmação é falsa, os dois nomes que a compõem, unidos e transformados em um só, não significam absolutamente nada. Por exemplo, se for uma afirmação falsa dizer que um quadrilátero é redondo, a palavra Quadrângulo Redondo não significa nada; é apenas um som. Da mesma forma, se for falso dizer que a virtude pode ser "empoeirada" ou "inflada"; as palavras "Virtude Empoeirada" e "Virtude Inflada" são tão absurdas e insignificantes quanto "Quadrante Redondo". Portanto, dificilmente você encontrará uma palavra sem sentido e insignificante que não seja composta de nomes latinos ou gregos. Um francês raramente ouve nosso Salvador ser chamado pelo nome de Parole (Palavra), mas frequentemente pelo nome de Verbe (Verbo). No entanto, verbo e fala não diferem mais, exceto pelo fato de um ser latim e o outro francês.

Entendimento

Quando um homem, ao ouvir um discurso, tem os pensamentos que as palavras desse discurso, e sua conexão, foram ordenadas e constituídas para significar, então diz-se que ele o compreende; sendo a compreensão nada mais do que a concepção causada pela fala. E, portanto, se a fala é peculiar ao homem (como eu sei que é), então a compreensão também lhe é peculiar. E, portanto, de afirmações absurdas e falsas, caso sejam universais, não pode haver compreensão; embora muitos pensem que compreendem, quando na verdade apenas repetem as palavras baixinho ou as memorizam.

Que tipos de discursos significam os apetites, as aversões e as paixões da mente humana; e sobre seu uso e abuso, falarei quando tiver falado das paixões.

Nomes inconsistentes

Os nomes das coisas que nos afetam, isto é, que nos agradam e desagradam, porque nem todos os homens são afetados da mesma maneira pela mesma coisa, nem o mesmo homem em todos os momentos, têm, no discurso comum dos homens, um significado inconstante. Pois, como todos os nomes são impostos para significar nossas concepções, e todos os nossos afetos não passam de concepções, quando concebemos as mesmas coisas de maneira diferente, dificilmente podemos evitar nomes diferentes para elas. Pois, embora a natureza daquilo que concebemos seja a mesma, a diversidade de nossa recepção, em função das diferentes constituições corporais e preconceitos de opinião, confere a tudo um matiz de nossas diferentes paixões. E, portanto, no raciocínio, o homem deve atentar para as palavras que, além do significado do que imaginamos sobre sua natureza, disposição e interesse de quem as profere, também representam virtudes e vícios; pois um homem chama de Sabedoria o que outro chama de Medo; um de Crueldade, outro de Justiça; um de Prodigalidade, outro de Magnanimidade. Uma coisa é Gravidade, outra é Estupidez, etc. Portanto, tais nomes jamais poderão servir de base para qualquer raciocínio. O mesmo se aplica às metáforas e figuras de linguagem: estas são menos perigosas, pois professam sua inconstância, o que as outras não fazem.

CAPÍTULO V.
DA RAZÃO E DA CIÊNCIA.

Razão: O que é isso?

Quando um homem raciocina, ele nada mais faz do que conceber uma soma total a partir da adição de partes; ou conceber um resto a partir da subtração de uma soma de outra: o que (se feito por palavras) é conceber a consequência dos nomes de todas as partes para o nome do todo; ou dos nomes do todo e de uma parte para o nome da outra parte. E embora em algumas coisas (como em números), além de somar e subtrair, os homens nomeiem outras operações, como multiplicar e dividir, elas são a mesma coisa; pois multiplicação é apenas a adição de coisas iguais; e divisão, a subtração de uma coisa, quantas vezes pudermos. Essas operações não são exclusivas dos números, mas de todo tipo de coisa que pode ser somada e retirada uma da outra. Pois, assim como os aritméticos ensinam a somar e subtrair em números; Assim, os geômetras ensinam o mesmo em linhas, figuras (sólidas e superficiais), ângulos, proporções, tempos, graus de velocidade, força, potência e coisas semelhantes; os lógicos ensinam o mesmo em consequências de palavras; somando dois nomes para formar uma afirmação; duas afirmações para formar um silogismo; e muitos silogismos para formar uma demonstração; e da soma, ou conclusão, de um silogismo, subtraem uma proposição para encontrar a outra. Os escritores de política somam pactos para encontrar os deveres dos homens; e os advogados, leis e fatos, para descobrir o que é certo e errado nas ações dos indivíduos. Em suma, em qualquer assunto em que haja lugar para adição e subtração, também há lugar para a razão; e onde estas não têm lugar, a razão não tem nada a ver com isso.

Razão Definida

Dentre tudo isso, podemos definir (isto é, determinar) o que significa a palavra Razão, quando a consideramos entre as Faculdades da mente. Pois a Razão, neste sentido, nada mais é do que o cálculo (isto é, a soma e a subtração) das consequências de nomes gerais acordados para a marcação e o significado de nossos pensamentos; digo marcação, quando os calculamos por nós mesmos; e significado, quando demonstramos ou comprovamos nossos cálculos para outras pessoas.

Razão correta onde

Assim como na Aritmética, homens inexperientes podem errar, e até mesmo professores podem errar com frequência, da mesma forma, em qualquer outra área do Raciocínio, os homens mais capazes, atentos e experientes podem se enganar e inferir conclusões falsas. Não que a própria Razão seja sempre a Razão Correta, assim como a Aritmética é uma arte certa e infalível. Mas a Razão de um só homem, nem a Razão de um grupo de homens, garante a certeza; assim como uma explicação não é considerada correta apenas porque muitos homens a aprovaram unanimemente. Portanto, assim como quando há uma controvérsia em uma conta, as partes devem, por sua própria vontade, apresentar como Razão Correta a Razão de algum Árbitro ou Juiz, a cuja sentença ambas se submeterão, ou sua controvérsia ou chegará às vias de fato ou permanecerá indecisa, por falta de uma Razão Correta constituída pela Natureza. O mesmo ocorre em todos os debates, de qualquer natureza: e quando homens que se julgam mais sábios que todos os outros clamam e exigem a reta Razão como juiz, mas não buscam nada além de que as coisas sejam determinadas pela razão de ninguém mais do que a sua própria, é tão intolerável na sociedade humana quanto, em um jogo de cartas após o lançamento do trunfo, usar como trunfo, em todas as ocasiões, aquele que mais lhes cabe. Pois nada mais fazem senão deixar que cada uma de suas paixões, conforme lhes domina, seja tomada como reta Razão, e isso em suas próprias controvérsias, revelando sua falta de reta Razão pela argumentação que usam.

O uso da razão

O uso e o fim da razão não consistem em encontrar a soma e a verdade de uma ou algumas consequências, distantes das primeiras definições e significados estabelecidos dos nomes; mas sim em começar por estas e proceder de uma consequência a outra. Pois não pode haver certeza da conclusão final sem a certeza de todas as afirmações e negações sobre as quais ela foi fundamentada e inferida. Assim como quando um chefe de família, ao fazer as contas, soma todos os valores das despesas em um único montante, sem levar em conta como cada conta é somada por aqueles que as apresentam, nem o que ele está pagando, ele não se beneficia mais do que se aceitasse a conta bruta, confiando na habilidade e honestidade de cada contador; da mesma forma, no raciocínio sobre todas as outras coisas, aquele que tira conclusões confiando nos autores e não as busca nos primeiros itens de cada cálculo (que são os significados dos nomes estabelecidos por definições) perde seu trabalho. e não sabe coisa alguma; mas somente crê.

Do erro e do absurdo

Quando um homem faz um cálculo sem usar palavras, o que pode ser feito em situações específicas (como quando, ao observar algo, conjecturamos o que provavelmente o precedeu ou o que provavelmente o sucederá), se aquilo que ele pensava que provavelmente aconteceria não acontece, ou aquilo que ele pensava que provavelmente o precedeu não o precedeu, isso se chama ERRO; ao qual até mesmo os homens mais prudentes estão sujeitos. Mas quando raciocinamos em palavras de significado geral e chegamos a uma inferência geral que é falsa, embora seja comumente chamada de Erro, é, na verdade, um ABSURDO, ou discurso sem sentido. Pois o Erro nada mais é do que um engano, presumir que algo já passou ou está por vir; do qual, mesmo que não tivesse passado ou não estivesse por vir, não haveria nenhuma impossibilidade detectável. Mas quando fazemos uma afirmação geral, a menos que seja verdadeira, a possibilidade dela é inconcebível. E as palavras pelas quais não concebemos nada além do som são aquelas que chamamos de absurdas, insignificantes e sem sentido. Portanto, se um homem me falasse de um quadrilátero redondo; ou de acidentes de pão no queijo; ou de substâncias imateriais; ou de um sujeito livre; de ​​um livre-arbítrio; ou de qualquer liberdade, mas livre de ser impedida por oposição, eu não diria que ele está em erro; mas que suas palavras são sem sentido; isto é, absurdas.

Já disse antes (no segundo capítulo) que o Homem superava todos os outros Animais nesta faculdade: quando concebia algo, era capaz de indagar sobre as consequências e os efeitos que poderia produzir com isso. E agora acrescento este outro grau da mesma excelência: ele pode, por meio de palavras, reduzir as consequências que encontra a regras gerais, chamadas teoremas ou aforismos; isto é, ele pode raciocinar, ou calcular, não apenas em números, mas em todas as outras coisas, das quais uma pode ser adicionada ou subtraída de outra.

Mas esse privilégio é atenuado por outro: o privilégio do Absurdo, ao qual nenhuma criatura viva está sujeita, exceto o homem. E dentre os homens, aqueles que professam a Filosofia são os mais sujeitos a ele. Pois é bem verdade o que Cícero disse deles em algum lugar: que não pode haver nada tão absurdo que não possa ser encontrado nos livros dos filósofos. E a razão é evidente. Pois não há nenhum deles que inicie seu raciocínio a partir das definições ou explicações dos nomes que devem usar; método que só foi empregado na Geometria, cujas conclusões se tornaram indiscutíveis por meio dela.

Causas do Absurdo

A primeira causa das conclusões absurdas que atribuo é a falta de método; pois não iniciam seu raciocínio a partir de definições, ou seja, de significados estabelecidos de suas palavras: como se pudessem fazer contas sem conhecer o valor dos numerais Um, Dois e Três.

E considerando que todos os corpos são levados em conta por diversas razões (que mencionei no capítulo anterior), e que essas razões recebem nomes diversos, diversas absurdidades decorrem da confusão e da inadequada conexão de seus nomes em afirmações. Portanto,

A segunda causa das afirmações absurdas, atribuo ao ato de dar nomes de corpos a acidentes, ou de acidentes a corpos; como fazem aqueles que dizem que a fé é infundida ou inspirada, quando nada pode ser potencializado ou soprado em nada além do corpo; e que extensão é corpo; que fantasmas são espíritos, etc.

A terceira, atribuo à atribuição dos nomes dos acidentes dos corpos fora de nós aos acidentes dos nossos próprios corpos; como fazem aqueles que dizem: a cor está no corpo; o som está no ar, etc.

O quarto, para dar nomes aos Corpos, aos Nomes ou Discursos; como fazem aqueles que dizem que Existem Coisas Universais; que uma Criatura Viva é um Gênero, ou uma Coisa Geral, etc.

A quinta, referente à atribuição de nomes a acidentes, nomes e discursos; como fazem aqueles que dizem: "A natureza de uma coisa está em sua definição"; "O comando de um homem é a sua vontade"; e coisas semelhantes.

A sexta objeção diz respeito ao uso de metáforas, figuras de linguagem e outras figuras retóricas em vez de palavras propriamente ditas. Pois, embora seja lícito dizer, por exemplo, na linguagem comum, "O caminho segue", ou "Conduz para cá" ou "Conduz para lá", "O provérbio diz isto ou aquilo" (enquanto que os caminhos não podem seguir, nem os provérbios podem falar); contudo, na análise e na busca da verdade, tais expressões não devem ser admitidas.

O sétimo, para nomes que nada significam; mas são adotados e aprendidos de cor nas escolas, como Hipostático, Transubstanciar, Consubstanciar, Eterno-agora, e outras gírias semelhantes de escolásticos.

Para quem consegue evitar essas coisas, não é fácil cair em qualquer absurdo, a menos que seja pela extensão de uma explicação; na qual ele talvez se esqueça do que foi dito antes. Pois todos os homens, por natureza, raciocinam da mesma forma, e bem, quando têm bons princípios. Pois quem é tão estúpido a ponto de errar em Geometria e persistir no erro quando alguém lhe aponta o erro?

Ciência

Com isso, fica evidente que a Razão não é como os Sentidos e a Memória, que nos são inerentes; nem é adquirida apenas pela Experiência, como a Prudência; mas sim pela Diligência; primeiro na adequada atribuição de Nomes; e segundo, na obtenção de um bom e ordenado Método para proceder dos Elementos, que são os Nomes, às Afirmações feitas pela Conexão de um deles com outro; e assim aos silogismos, que são as Conexões de uma Afirmação com outra, até chegarmos ao conhecimento de todas as Consequências dos nomes pertinentes ao assunto em questão; e é isso que os homens chamam de CIÊNCIA. E enquanto os Sentidos e a Memória são apenas conhecimento de Fatos, que são coisas passadas e irrevogáveis; a Ciência é o conhecimento das Consequências e da dependência de um fato em relação a outro: por meio do qual, a partir do que podemos fazer agora, sabemos como fazer outra coisa quando quisermos, ou algo semelhante, em outro momento; Porque quando vemos como algo acontece, por quais causas e de que maneira; Quando causas semelhantes entram em nosso poder, vemos como fazê-las produzir efeitos semelhantes.

As crianças, portanto, não são dotadas de Razão até que adquiram o uso da Fala; mas são chamadas de Criaturas Racionais, pela aparente possibilidade de virem a usar a Razão no futuro. E a maioria dos homens, embora possua um pouco de raciocínio, como na incompreensão até certo ponto, este lhes serve de pouca utilidade na vida comum, na qual se governam, alguns melhor, outros pior, de acordo com suas diferenças de experiência, rapidez de memória e inclinações para diversos fins; mas especialmente de acordo com a boa ou má sorte e os erros uns dos outros. Pois, quanto à Ciência, ou a certas regras de suas ações, estão tão distantes dela que nem sabem o que é. Pensam que a geometria é mágica; mas, quanto às outras Ciências, aqueles que não lhes foram ensinados os fundamentos, e alguns que não progridem nelas para ver como são adquiridas e geradas, são, neste ponto, como crianças que, sem ter noção de geração, são levadas a crer pelas mulheres que seus irmãos e irmãs não nascem, mas são encontrados no jardim.

Contudo, aqueles que não possuem Ciência encontram-se em melhor e mais nobre condição, com sua Prudência natural, do que os homens que, por raciocínio equivocado ou por confiarem em raciocínios errôneos, se apegam a regras gerais falsas e absurdas. Pois a ignorância das causas e das regras não desvia tanto os homens de seu caminho quanto confiar em regras falsas e tomar por causas daquilo a que aspiram aquelas que não o são, mas sim causas contrárias.

Em suma, a luz das mentes humanas são palavras lúcidas, mas previamente expurgadas de ambiguidades por meio de definições exatas; a razão é o ritmo; o avanço da ciência, o caminho; e o benefício da humanidade, o fim. E, ao contrário, metáforas e palavras insensatas e ambíguas são como Ignes Fatui; ​​e raciocinar sobre elas é vagar por inúmeras absurdidades, cujo fim é contenda, sedição ou desprezo.

Prudência e Sabedoria, com suas diferenças

Assim como muita experiência é prudência, muita ciência é sabedoria. Pois, embora geralmente usemos um único nome para ambas, os latinos sempre distinguiram entre Prudentia e Sapientia, atribuindo a primeira à experiência e a segunda à ciência. Mas, para tornar a diferença mais clara, suponhamos um homem dotado de excelente habilidade natural e destreza no manuseio de suas armas; e outro que, além dessa destreza, tenha adquirido o conhecimento de onde pode ofender ou ser ofendido por seu adversário em todas as posturas ou defesas possíveis: a habilidade do primeiro seria para a habilidade do segundo como a prudência para a sabedoria; ambas úteis; mas a segunda infalível. Mas aqueles que, confiando apenas na autoridade dos livros, seguem cegamente os cegos, são como aquele que, confiando nas regras falsas do mestre de esgrima, se aventura presunçosamente contra um adversário, que o mata ou o desonra.

Sinais da Ciência

Os sinais da Ciência são, em parte, certos e infalíveis; em parte, incertos. Certos, quando aquele que se diz cientista de algo pode ensiná-lo; isto é, demonstrar a sua verdade de forma clara a outrem. Incertos, quando apenas alguns eventos particulares correspondem à sua pretensão e, em muitas ocasiões, comprovam o que ele afirma que devem provar. Os sinais de prudência são todos incertos, porque observar pela experiência e lembrar todas as circunstâncias que podem alterar o sucesso é impossível. Mas em qualquer negócio em que um homem não disponha de uma Ciência infalível para se guiar, abandonar o seu próprio juízo natural e ser guiado por sentenças gerais lidas em autores, sujeitas a muitas exceções, é sinal de insensatez e geralmente desprezado sob o nome de pedantismo. E mesmo daqueles que, nos Conselhos da República, gostam de exibir a sua leitura de Política e História, muito poucos o fazem nos seus assuntos domésticos, onde estão em causa os seus interesses particulares. Tendo prudência suficiente para seus assuntos particulares, em público preocupam-se mais com a reputação de sua própria inteligência do que com o sucesso dos negócios alheios.

CAPÍTULO VI.
DAS ORIGENS INTERIORES DOS MOVIMENTOS VOLUNTÁRIOS COMUMENTE CHAMADOS DE PAIXÕES, E DOS DISCURSOS PELOS QUAIS ELES SÃO EXPRESSOS.

Movimento Vital e Animal

Nos animais, existem dois tipos de movimentos peculiares: um chamado vital, que começa na geração e continua sem interrupção por toda a vida; como o curso do sangue, o pulso, a respiração, as misturas, a nutrição, a excreção, etc.; movimentos para os quais não é necessária a imaginação. O outro, o movimento animal, também chamado de movimento voluntário, é como ir, falar, mover qualquer um de nossos membros, da maneira que primeiro imaginamos. Esse sentido é o movimento nos órgãos e partes internas do corpo humano, causado pela ação das coisas que vemos, ouvimos, etc.; e essa imaginação nada mais é do que os resquícios do mesmo movimento, que permanecem após o sentido, como já foi dito nos capítulos um e dois. E como ir, falar e outros movimentos voluntários semelhantes dependem sempre de um pensamento prévio de para onde, em que direção e o quê; É evidente que a Imaginação é o primeiro início interno de todo Movimento Voluntário. E embora os homens leigos não concebam qualquer movimento onde o objeto movido seja invisível, ou onde o espaço em que se move seja (pela sua brevidade) imperceptível, isso não impede que tais Movimentos existam. Pois, por menor que seja o espaço, aquilo que se move sobre um espaço maior, do qual esse pequeno faz parte, deve primeiro se mover sobre esse espaço. Esses pequenos começos de Movimento, dentro do corpo do Homem, antes de se manifestarem no caminhar, na fala, no golpe e em outras ações visíveis, são comumente chamados de ESFORÇO.

Esforço; Apetite; Desejo; Fome; Sede; Aversão

Este esforço, quando direcionado a algo que o causa, é chamado de APETITE ou DESEJO; este último sendo o nome geral; e o outro, frequentemente usado para significar o desejo de comida, ou seja, fome e sede. E quando o esforço é direcionado para longe de algo, geralmente é chamado de AVERSÃO. Essas palavras, Apetite e Aversão, vêm do latim; e ambas significam movimentos, um de aproximação, o outro de afastamento. O mesmo ocorre com as palavras gregas para o mesmo, que são orme e aphorme. Pois a própria natureza muitas vezes impõe aos homens aquelas verdades que, posteriormente, quando buscam algo além da Natureza, encontram dificuldade em compreender. Pois as escolas não encontram no mero apetite de ir ou se mover nenhum movimento real; mas, como devem reconhecer algum movimento, chamam-no de Movimento Metafórico; o que não passa de um discurso absurdo; pois, embora as palavras possam ser chamadas de metafóricas, os corpos e os movimentos não podem.

Diz-se que os homens amam aquilo que desejam e odeiam aquilo por que têm aversão. Assim, desejo e amor são a mesma coisa; a diferença é que, por desejo, sempre significamos a ausência do objeto; por amor, mais comumente, a presença do mesmo. Da mesma forma, por aversão, significamos a ausência; e por ódio, a presença do objeto.

Dos apetites e aversões, alguns são inatos; como o apetite por comida, o apetite por excreção e por defecação (que também podem ser chamados, e mais propriamente, de aversões, devido à sensação que provocam em seus corpos); e alguns outros apetites, não muitos. Os demais, que são apetites por coisas específicas, provêm da experiência e da observação de seus efeitos sobre si mesmos ou sobre outros. Pois, em relação a coisas que desconhecemos completamente, ou que acreditamos não existir, não podemos ter outro desejo senão o de prová-las e experimentá-las. Mas temos aversão por coisas que sabemos que nos fizeram mal, e também por aquelas que desconhecemos se nos farão mal ou não.

Desprezo

Diz-se que desprezamos aquilo que não desejamos nem odiamos: o DESPREZO nada mais é do que uma imobilidade ou contumácia do Coração em resistir à ação de certas coisas; e procede do fato de o Coração já estar movido de outra forma, seja por objetos mais potentes, seja pela falta de experiência com eles.

E como a constituição do corpo de um homem está em constante mutação, é impossível que as mesmas coisas sempre lhe causem os mesmos apetites e aversões; muito menos podem todos os homens consentir no desejo de praticamente o mesmo objeto.

Bem Mal

Mas seja qual for o objeto do apetite ou desejo de um homem, isso é o que ele, por sua vez, chama de Bom; e o objeto de seu ódio e aversão, de Mal; e de seu desprezo, de Vil e Inconsiderável. Pois essas palavras, Bom, Mal e Desprezível, são sempre usadas em relação à pessoa que as usa: não havendo nada de simples e absoluto assim; nem qualquer regra comum do Bem e do Mal que possa ser extraída da natureza dos próprios objetos; mas sim da pessoa do homem (onde não há comunidade); ou (em uma comunidade), da pessoa que a representa; ou de um árbitro ou juiz, que os homens em desacordo podem, por consenso, estabelecer e cuja sentença se torna a regra.

Turfa de Pulchrum; Delicioso e Lucrativo; Desagradável e Não Lucrativo

A língua latina possui duas palavras cujos significados se aproximam dos de Bem e Mal, mas não são exatamente os mesmos: Pulchrum e Turpe. A primeira significa aquilo que, por alguns sinais aparentes, promete o Bem; e a segunda, aquilo que promete o Mal. Mas em nossa língua não temos nomes tão gerais para expressá-los. Para Pulchrum, dizemos, em alguns casos, Fayre (bonito); em outros, Beautiful (belo), Handsome (atraente), Gallant (galante), Honourable (honrado), Comely (agradável) ou Amyable (amável); e para Turpe, Foule (impuro), Deformed (deformado), Ugly (feio), Bas, Nauseous (vil), Nauseous (nauseante) e similares, conforme o assunto exigir. Todas essas palavras, em seus devidos lugares, não significam nada além da Mente, ou Semblante, que promete o Bem e o Mal. Assim, do Bem existem três tipos: o Bem na Promessa, que é Pulchrum; o Bem no Efeito, como o fim desejado, que é chamado Jucundum, Delightful (delicioso); e bom como o meio, que é chamado útil, proveitoso; e tantos males: pois o mal, na promessa, é o que chamam de torpe; o mal no efeito e no fim é molestum, desagradável, problemático; e o mal nos meios é inútil, improdutivo, prejudicial.

Prazer Desprazer

Assim como, em termos sensoriais, aquilo que realmente existe dentro de nós é (como já disse antes) apenas movimento, causado pela ação de objetos externos, mas apenas na aparência; para a visão, luz e cor; para o ouvido, som; para o nariz, odor, etc.: da mesma forma, quando a ação do mesmo objeto se estende dos olhos, ouvidos e outros órgãos até o coração, o efeito real ali não é senão movimento, ou esforço; que consiste em apetite, ou aversão, ao objeto em movimento ou contra ele. Mas a aparência, ou sensação desse movimento, é o que chamamos de deleite ou perturbação da mente.

Crime de prazer

Este movimento, que é chamado de apetite, e pela aparência de deleite e prazer, parece ser uma corroboração do movimento vital e uma ajuda para ele; e, portanto, as coisas que causavam deleite não eram imprópriamente chamadas de jucunda (ou juvando), por ajudarem ou fortalecerem; e o contrário, molesta, ofensiva, por dificultarem e perturbarem o movimento vital.

O prazer, portanto (ou deleite), é a aparência ou a sensação do bem; e a perturbação ou o desagrado, a aparência ou a sensação do mal. Consequentemente, todo apetite, desejo e amor são acompanhados por algum deleite, em maior ou menor grau; e todo ódio e aversão, por maior ou menor desagrado e ofensa.

Prazeres dos Sentidos; Prazeres da Mente; Alegria, Dor, Tristeza

Dos prazeres ou deleites, alguns surgem da percepção de um objeto presente; e esses podem ser chamados de prazeres sensoriais (a palavra "sensual", como é usada apenas por aqueles que os condenam, não tem lugar até que haja leis). Desse tipo são todas as sensações e prazeres do corpo; assim como tudo o que é agradável à vista, à audição, ao olfato, ao paladar ou ao tato; outros surgem da expectativa que procede da antecipação do fim ou da consequência das coisas; se essas coisas agradam ou desagradam aos sentidos: e esses são prazeres da mente daquele que prevê essas consequências; e são geralmente chamados de alegria. Da mesma forma, os desprazeres são alguns sensoriais e chamados de sofrimento; outros, na expectativa das consequências, e chamados de tristeza.

Essas paixões simples, chamadas apetite, desejo, amor, aversão, ódio, alegria e tristeza, têm seus nomes diferenciados por diversas considerações. Primeiro, quando uma sucede a outra, são chamadas de acordo com a opinião que as pessoas têm da probabilidade de alcançar o que desejam. Segundo, pelo objeto amado ou odiado. Terceiro, pela consideração de muitas delas em conjunto. Quarto, pela própria alternância ou sucessão.

Esperança — Pois o apetite com a intenção de alcançar algo é chamado de ESPERANÇA.

Desespero — O mesmo, sem essa opinião, DESESPERO.

Feare—Aversão, com a opinião de Dor proveniente do objeto, MEDO.

Coragem — A mesma, com a esperança de evitar essa dor pela resistência, CORAGEM.

Raiva — Coragem repentina, RAIVA.

Confiança — Esperança constante, CONFIANÇA em nós mesmos.

A timidez — Desespero constante, a timidez de nós mesmos.

Indignação — Raiva por grande dano causado a outrem, quando concebemos que o mesmo foi causado por lesão, INDIGNAÇÃO.

Benevolência — Desejo de fazer o bem a outrem, BENEVOLÊNCIA, BOA VONTADE, CARIDADE. Se direcionado ao homem em geral, BONDADE.

Cobiça — Desejo de Riquezas, COBIÇA: um nome usado sempre com conotação de censura; porque os homens que disputam as riquezas ficam descontentes com a conquista delas pelos outros; embora o desejo em si possa ser censurado ou permitido, dependendo dos meios pelos quais essas riquezas são buscadas.

Ambição — Desejo de cargo ou precedência. AMBIÇÃO: um termo usado também no pior sentido, pela razão já mencionada.

Pusilanimidade — Desejo por coisas que contribuem pouco para os nossos fins; e medo de coisas que representam pouco obstáculo, PUSILLANIMIDADE.

Magnanimidade — Desprezo pelas pequenas ajudas e pelos pequenos obstáculos, MAGNANIMIDADE.

Valor — Magnanimidade, em perigo de morte ou ferimentos, VALOR, FORTITUDE.

Liberalidade — Magnanimidade no uso das riquezas, LIBERALIDADE

Miserabilidade — Pusilanimidade, na mesma MISERICÓRDIA, MISERICÓRDIA; ou PASIMÔNIA; seja ela apreciada ou detestada.

Bondade — Amor pelas pessoas e pela sociedade, BONDADE.

Luxúria Natural — Amor por pessoas apenas para satisfazer os sentidos, LUXÚRIA NATURAL.

Luxo — Amor pelo mesmo, adquirido pela Ruminação, isto é, Imaginação do Prazer passado, LUXO.

A Paixão do Amor; Ciúme — Amor por alguém singularmente, com o desejo de ser amado singularmente, A PAIXÃO DO AMOR. O mesmo, com o medo de que o amor não seja recíproco, CIÚME.

Vingança — Desejo de, ao causar dano a outrem, fazê-lo condenar algum fato seu, VINGANÇA.

Curiosidade — Desejo de saber porquê e como; curiosidade que não existe em nenhuma criatura viva, exceto no Homem; de modo que o Homem se distingue, não só pela sua Razão, mas também por esta paixão singular, dos outros Animais; nos quais o apetite pela comida e outros prazeres dos Sentidos, por predominância, afastam a preocupação de conhecer as causas; o que é uma luxúria da mente que, pela perseverança no deleite na geração contínua e infatigável de Conhecimento, supera a veemência passageira de qualquer prazer carnal.

Religião e superstição; verdadeira religião — o medo de um poder invisível, fingido pela mente ou imaginado a partir de histórias publicamente aceitas, é RELIGIÃO; não é aceito, é superstição. E quando o poder imaginado é verdadeiramente como o imaginamos, é VERDADEIRA RELIGIÃO.

Pânico Terrível — Temor, sem a compreensão do porquê ou do quê, PÂNICO TERRÍVEL; chamado assim por causa das fábulas que fazem de Pã o autor delas; enquanto que, na verdade, sempre há naquele que assim teme, primeiro, alguma compreensão da causa, embora o resto fuja pelo exemplo; cada um supondo que seu semelhante saiba o porquê. E, portanto, essa Paixão acontece somente em meio a uma multidão de pessoas.

Admiração — Alegria, resultante da apreensão da novidade, ADMIRAÇÃO; própria do homem, porque desperta o apetite de conhecer a causa.

Glória vã — A alegria que surge da imaginação do próprio poder e capacidade é aquela exultação da mente que chamamos de GLORIFICAÇÃO: a qual, se fundamentada na experiência de suas próprias ações anteriores, é a mesma que Confiança; mas se fundamentada na bajulação alheia, ou apenas presumida por si mesmo, para deleitar-se com as consequências disso, é chamada de VÃ GLÓRIA: nome apropriado, pois uma Confiança bem fundamentada gera tentativa; enquanto a presunção de poder não gera, e por isso é corretamente chamada de Vã.

Desânimo — A tristeza, resultante da percepção de falta de poder, é chamada de desânimo de espírito.

A vaidade que consiste em fingir ou supor habilidades em nós mesmos, que sabemos não possuir, é mais comum em jovens e alimentada pelas histórias ou ficções de pessoas galantes; e é frequentemente corrigida pela idade e pelo trabalho.

Riso de Glória Súbita — A glória súbita é a paixão que produz aquelas caretas chamadas RISO; e é causada por algum ato repentino próprio que lhes agrada, ou pela percepção de alguma deformidade em outrem, em comparação à qual se aplaudem subitamente. E é mais comum entre aqueles que têm consciência de suas próprias habilidades, que são forçados a se manterem em seu próprio benefício observando as imperfeições alheias. Portanto, rir muito dos defeitos dos outros é sinal de pusilanimidade. Pois, para as grandes mentes, uma das tarefas próprias é ajudar e livrar os outros do desprezo, comparando-se apenas com os mais capazes.

Choro de Desânimo Repentino — Ao contrário, o Desânimo Repentino é a paixão que causa o CHORO; e é causado por acidentes que, de repente, tiram alguma esperança veemente ou algum apoio de sua força: e são mais suscetíveis a ele aqueles que dependem principalmente de ajudas externas, como mulheres e crianças. Portanto, alguns choram pela perda de amigos; outros, por sua falta de gentileza; outros, pela interrupção repentina de seus pensamentos de vingança pela reconciliação. Mas, em todos os casos, tanto o riso quanto o choro são movimentos repentinos; o costume os afasta. Pois ninguém ri de piadas antigas; ou chora por uma antiga calamidade.

Vergonha, rubor — Tristeza, pois a descoberta de alguma deficiência de habilidade é VERGONHA, ou a paixão que se revela no RUBOR; e consiste na apreensão de algo desonroso; e em jovens, é um sinal do amor pela boa reputação; e louvável: em idosos, é um sinal do mesmo; mas, como chega tarde demais, não é louvável.

Impudência — O desprezo pela boa reputação é chamado de IMPUDÊNCIA.

Piedade — Tristeza, pois a calamidade alheia é PENA; e surge da imaginação de que a mesma calamidade possa acontecer consigo mesmo; e, portanto, também é chamada COMPAIXÃO, e na linguagem atual, SENTIMENTO DE COMPAIXÃO: e, portanto, para a Calamidade que advém de grande maldade, os melhores homens têm menos Piedade; e, para a mesma Calamidade, aqueles que se consideram menos ofensivos a ela têm menos Piedade.

Crueldade — O desprezo, ou a pouca sensibilidade para com a desgraça alheia, é o que os homens chamam de CRUELDADE; decorrente da segurança da própria fortuna. Pois, que alguém se deleite com o grande sofrimento alheio, sem outro propósito próprio, não me parece possível.

Inveja por Emulação — A mágoa pelo sucesso de um concorrente em riqueza, honra ou outros bens, se combinada com o esforço para igualar ou superar nossas próprias habilidades, é chamada de EMULAÇÃO; mas combinada com o esforço para suplantar ou impedir um concorrente, é chamada de INVEJA.

Deliberação — Quando na mente do homem, Apetites e Aversões, Esperanças e Temores, referentes a uma mesma coisa, surgem alternadamente; e diversas consequências boas e más de fazer ou omitir a coisa proposta vêm sucessivamente aos nossos pensamentos; de modo que às vezes temos um Apetite por ela, às vezes uma Aversão a ela; às vezes Esperança de sermos capazes de fazê-la; às vezes Desespero ou Temor de tentar; toda a soma de Desejos, Aversões, Esperanças e Temores, que continua até que a coisa seja feita ou considerada impossível, é o que chamamos de DELIBERAÇÃO.

Portanto, não há deliberação sobre coisas passadas, pois são manifestamente impossíveis de mudar; nem sobre coisas sabidamente impossíveis, ou assim consideradas, pois os homens sabem, ou pensam, que tal deliberação é vã. Mas sobre coisas impossíveis, que consideramos possíveis, podemos deliberar, sem saber que é em vão. E chama-se DELIBERAÇÃO porque significa pôr fim à liberdade que tínhamos de fazer ou omitir, segundo nosso próprio apetite ou aversão.

Essa sucessão alternada de apetites, aversões, esperanças e medos não é menos presente em outras criaturas vivas do que no homem; e, portanto, os animais também deliberam.

Diz-se que toda deliberação termina quando aquilo sobre o que se delibera é feito ou considerado impossível; porque até então conservamos a liberdade de fazer ou omitir, de acordo com nosso apetite ou aversão.

O testamento

Na deliberação, o último apetite, ou aversão, imediatamente aderente à ação, ou à sua omissão, é o que chamamos de VONTADE; o ato (não a faculdade) de querer. E os animais que têm deliberação devem necessariamente ter também vontade. A definição de vontade, comumente dada pelas escolas de pensamento, de que se trata de um apetite racional, não é adequada. Pois, se assim fosse, não poderia haver ato voluntário contra a razão. Um ato voluntário é aquele que procede da vontade, e de mais nada. Mas se, em vez de um apetite racional, dissermos um apetite resultante de uma deliberação precedente, então a definição é a mesma que apresentei aqui. A vontade, portanto, é o último apetite na deliberação. E embora digamos no discurso comum que um homem teve a vontade de fazer algo, mas se absteve de fazê-lo, isso é propriamente apenas uma inclinação, que não torna nenhuma ação voluntária. Porque a ação não depende disso, mas da última inclinação ou apetite. Pois se os apetites intervenientes tornam qualquer ação voluntária, então, pela mesma razão, todas as aversões intervenientes deveriam tornar a mesma ação involuntária; e assim, uma mesma ação deveria ser ao mesmo tempo voluntária e involuntária.

Com isso, fica evidente que não apenas as ações que têm origem na cobiça, ambição, luxúria ou outros apetites pela coisa proposta, mas também aquelas que têm origem na aversão ou no medo das consequências que advêm da omissão são ações voluntárias.

Formas de Discurso, na Paixão

As formas de expressão das paixões são, em parte, as mesmas e, em parte, diferentes daquelas com que expressamos nossos pensamentos. Em geral, todas as paixões podem ser expressas no indicativo, como em "Eu amo", "Eu temo", "Eu me alegro", "Eu delibero", "Eu quero", "Eu ordeno". Algumas, porém, têm expressões particulares próprias, que, no entanto, não são afirmações, a menos que sirvam para inferir outras coisas além da paixão da qual procedem. A deliberação é expressa no subjuntivo, que é uma forma de expressão própria para indicar suposições com suas consequências, como em "Se isto for feito, então isto acontecerá". Ela não difere da linguagem do raciocínio, exceto pelo fato de que o raciocínio é feito em palavras gerais, enquanto a deliberação, em sua maior parte, é feita de detalhes. A linguagem do desejo e da aversão é imperativa, como em "Faça isto, abstenha-se daquilo". Quando a pessoa é obrigada a fazer ou a se abster, trata-se de uma ordem; caso contrário, de uma oração ou conselho. A linguagem da vaidade, da indignação, da piedade e da vingança é optativa; mas para o desejo de saber, existe uma expressão peculiar chamada interrogativa, como: O que é isso?, Quando acontecerá?, Como se faz? e Por quê? Não encontro outra linguagem para as paixões, pois amaldiçoar, jurar, injuriar e coisas semelhantes não significam fala, mas sim as ações de uma língua acostumada.

Essas formas de fala, digo eu, são expressões ou significações voluntárias de nossas paixões; mas não são sinais certos, pois podem ser usadas arbitrariamente, independentemente de quem as usa possuir tais paixões ou não. Os melhores sinais das paixões presentes estão na expressão facial, nos movimentos do corpo, nas ações e nos fins ou objetivos que sabemos que o homem possui.

Bem e Mal Aparentemente

E porque na deliberação os apetites e aversões são despertados pela previsão das boas e más consequências e sequelas da ação sobre a qual deliberamos; o efeito bom ou mau depende da previsão de uma longa cadeia de consequências, das quais muito raramente alguém consegue ver até o fim. Mas, na medida em que um homem percebe, se o bem nessas consequências for maior que o mal, toda a cadeia é o que os escritores chamam de bem aparente ou aparente. E, inversamente, quando o mal excede o bem, tudo é mal aparente ou aparente: de modo que aquele que tem, pela experiência ou pela razão, a maior e mais segura perspectiva das consequências, delibera melhor por si mesmo; e é capaz, quando quiser, de dar o melhor conselho aos outros.

Felicidade

O sucesso contínuo na obtenção daquilo que um homem deseja de tempos em tempos, ou seja, a prosperidade contínua, é o que os homens chamam de FELICIDADE; refiro-me à Felicidade desta vida. Pois não existe tranquilidade mental perpétua enquanto vivemos aqui, porque a própria Vida é movimento e jamais poderá existir sem desejo, sem medo, assim como não pode existir sem sentidos. Que tipo de Felicidade Deus ordenou àqueles que o honram devotamente, o homem só saberá e desfrutará; alegrias que agora são tão incompreensíveis quanto a palavra dos escolásticos, Visão Beatífica, é ininteligível.

Amplificação do Louvor

A forma de discurso pela qual os homens expressam sua opinião sobre a bondade de algo é o elogio. Aquela pela qual expressam o poder e a grandeza de algo é a magnificação. E aquela pela qual expressam a opinião que têm da felicidade de um homem é chamada pelos gregos de Makarismos, termo para o qual não temos nome em nossa língua. E isso basta para o propósito atual ter sido dito sobre as paixões.

CAPÍTULO VII.
DOS FINS OU RESOLUÇÕES DO DISCURSO

De todo discurso, regido pelo desejo de conhecimento, há, enfim, um fim, seja pela conquista, seja pela entrega. E na cadeia do discurso, onde quer que seja interrompida, há um fim para aquele tempo.

Julgamento ou sentença final; dúvida

Se o discurso for meramente mental, consiste em pensamentos alternados de que a coisa será e não será; ou de que foi e não foi. De modo que, sempre que se interrompe a cadeia do discurso de um homem, deixa-se nele uma pressuposição de "Será" ou "Não Será"; ou de "Foi" ou "Não Foi". Tudo isso é opinião. E aquilo que é apetite alternado, ao deliberar sobre o bem e o mal, é a mesma opinião alternada na investigação da verdade do passado e do futuro. E assim como o último apetite na deliberação é chamado de vontade, a última opinião na busca da verdade do passado e do futuro é chamada de julgamento, ou sentença resoluta e final daquele que discursa. E assim como toda a cadeia de apetites alternados na questão do bem ou do mal é chamada de deliberação, toda a cadeia de opiniões alternadas na questão do verdadeiro ou do falso é chamada de dúvida.

Nenhum discurso, seja ele qual for, pode terminar em conhecimento absoluto de fatos, passados ​​ou futuros. Pois, quanto ao conhecimento de fatos, ele é originalmente sensorial; e, posteriormente, memória. E quanto ao conhecimento das consequências, que antes eu disse ser chamado de ciência, ele não é absoluto, mas condicional. Ninguém pode saber por meio do discurso que isto ou aquilo é, foi ou será; o que é saber absolutamente; mas apenas que, se isto é, aquilo é; se isto foi, aquilo foi; se isto há de ser, aquilo há de ser; o que é saber condicionalmente; e isso não é a consequência de uma coisa sobre outra, mas de um nome de uma coisa sobre outro nome da mesma coisa.

Ciência Opinião Consciência

Portanto, quando o Discurso é transformado em Fala, começando com as Definições de Palavras e prosseguindo pela Conexão destas em Afirmações gerais, e destas novamente em Silogismos, o fim ou soma final é chamado de Conclusão; e o pensamento da mente por ela significado é aquele Conhecimento condicional, ou Conhecimento da consequência das palavras, que é comumente chamado de Ciência. Mas se o primeiro fundamento de tal Discurso não forem as Definições, ou se as Definições não forem corretamente unidas em Silogismos, então o Fim ou Conclusão é novamente OPINIÃO, isto é, da verdade de algo dito, embora às vezes em palavras absurdas e sem sentido, sem possibilidade de ser compreendido. Quando dois ou mais homens têm conhecimento de um mesmo fato, diz-se que eles têm CONSCIÊNCIA dele uns para os outros; o que equivale a conhecê-lo juntos. E como tais são as testemunhas mais adequadas dos fatos uns dos outros, ou de um terceiro, era, e sempre será, considerado um ato muito perverso, para qualquer homem falar contra a sua Consciência; ou para corromper ou forçar outrem a fazê-lo: de tal forma que o apelo da Consciência sempre foi diligentemente ouvido em todos os tempos. Posteriormente, os homens passaram a usar a mesma palavra metaforicamente para o conhecimento de seus próprios fatos e pensamentos secretos; e, portanto, diz-se retoricamente que a Consciência é mil testemunhas. E, por fim, os homens, veementemente apaixonados por suas novas opiniões (por mais absurdas que fossem) e obstinadamente inclinados a mantê-las, deram a essas opiniões também o reverenciado nome de Consciência, como se quisessem que parecesse ilícito mudá-las ou falar contra elas; e assim fingem saber que são verdadeiras, quando, no máximo, sabem apenas que pensam assim.

Crença Fé

Quando o discurso de um homem não começa com definições, começa ou com alguma outra contemplação sua, e então ainda é chamado de opinião; ou começa com algum dito de outrem, cuja capacidade de conhecer a verdade e cuja honestidade em não enganar ele não duvida; e então o discurso não se refere tanto à coisa em si, mas à pessoa; e a resolução é chamada de crença e fé: fé no homem; crença tanto no homem quanto na verdade do que ele diz. Assim, na crença estão duas opiniões: uma sobre o dito do homem; a outra sobre sua virtude. Ter fé em, confiar em ou acreditar em um homem significam a mesma coisa; ou seja, uma opinião sobre a veracidade do homem: mas acreditar no que é dito significa apenas uma opinião sobre a verdade do dito. Mas devemos observar que esta frase, "Eu acredito em", assim como o latim "Credo in", e a expressão grega, Pisteno Eis, nunca é usada senão nos escritos de teólogos. Em vez delas, em outros escritos, usa-se: Eu Creio Nele; Eu Tenho Fé Nele; Eu Confio Nele; e em latim, Credo Illi; Fido Illi; e em grego, Pisteno Anto; e essa singularidade do uso eclesiástico da palavra tem suscitado muitas disputas sobre o objeto correto da fé cristã.

Mas crer em Deus, como se diz no Credo, não significa confiar na Pessoa, mas sim confessar e reconhecer a doutrina. Pois não apenas os cristãos, mas todos os tipos de pessoas creem em Deus a ponto de considerarem verdade tudo o que o ouvem dizer, quer o entendam ou não; o que representa toda a fé e confiança que se pode ter em qualquer pessoa. Contudo, nem todos creem na doutrina do Credo.

Daí podemos inferir que, quando acreditamos que qualquer dito, seja ele qual for, é verdadeiro com base em argumentos extraídos não da coisa em si, ou dos princípios da razão natural, mas da autoridade e da boa opinião que temos daquele que o proferiu, então o orador, ou a pessoa em quem acreditamos ou confiamos, e cuja palavra aceitamos, é o objeto de nossa fé; e a honra de crer é feita somente a ele. Consequentemente, quando cremos que as Escrituras são a palavra de Deus, sem ter recebido revelação direta de Deus, nossa crença, fé e confiança estão na Igreja, cuja palavra aceitamos e com a qual concordamos. E aqueles que creem no que um profeta lhes relata em nome de Deus, aceitam a palavra do profeta, honram-no, confiam nele e creem na veracidade do que ele relata, seja ele um profeta verdadeiro ou falso. E assim também se aplica a toda a História. Pois, se eu não acreditasse em tudo o que foi escrito pelos historiadores sobre os feitos gloriosos de Alexandre ou César, não creio que o espírito de Alexandre ou de César tivesse qualquer motivo justo para se ofender; nem ninguém além do historiador. Se Lívio disser que os deuses fizeram uma vaca falar, e nós não acreditarmos nisso, não desconfiamos de Deus, mas de Lívio. Portanto, é evidente que tudo aquilo em que acreditamos, sem outro fundamento além daquilo que se extrai da autoridade dos homens e de seus escritos, sejam eles enviados por Deus ou não, é fé apenas nos homens.

CAPÍTULO VIII.
DAS VIRTUDES COMUMENTE CHAMADAS DE INTELECTUAIS E SEUS DEFEITOS CONTRÁRIOS

Virtude Intelectual Definida

A virtude, em geral, em todos os tipos de assuntos, é algo que é valorizado por sua eminência; e consiste em comparação. Pois se todas as coisas fossem iguais em todos os homens, nada seria apreciado. E por virtudes intelectuais, entendem-se sempre as habilidades da mente que os homens elogiam, valorizam e desejam possuir; e são comumente chamadas de "boa mente"; embora a mesma palavra "mente" também possa ser usada para distinguir uma habilidade específica das demais.

Inteligência, natural ou adquirida

Essas virtudes são de dois tipos: naturais e adquiridas. Por natural, não me refiro àquilo que o homem possui desde o nascimento, pois isso nada mais é do que a sensibilidade, na qual os homens diferem tão pouco uns dos outros e dos animais irracionais, que não deve ser considerada uma virtude. Refiro-me, porém, à inteligência que se adquire apenas pelo uso e pela experiência, sem método, cultura ou instrução. Essa inteligência natural consiste principalmente em duas coisas: celeridade de imaginação (isto é, rápida sucessão de um pensamento a outro) e direção firme para um fim definido. Ao contrário, uma imaginação lenta gera aquele defeito ou falha da mente que é comumente chamado de torpor, estupidez e, às vezes, por outros nomes que significam lentidão de movimento ou dificuldade em se mover.

Bom senso ou imaginação; bom discernimento; discrição.

E essa diferença de rapidez é causada pela diferença nas paixões dos homens; que amam e detestam, uns uma coisa, outros outra; e, portanto, os pensamentos de alguns homens seguem um caminho, outros outro; e são apegados e observam de maneira diferente as coisas que passam por sua imaginação. E enquanto que na sucessão de pensamentos dos homens, não há nada a observar nas coisas em que pensam, senão em suas semelhanças ou diferenças, ou para que servem, ou como servem a tal propósito; aqueles que observam suas semelhanças, caso sejam tais que raramente são observadas por outros, diz-se que têm um bom senso; com o qual, nesta ocasião, se entende uma boa imaginação. Mas aqueles que observam suas diferenças e dissimilias; o que se chama distinguir, discernir e julgar entre as coisas; caso tal discernimento não seja fácil, diz-se que têm um bom julgamento; e particularmente em assuntos de conversa e negócios; onde se discernem tempos, lugares e pessoas, essa virtude é chamada de DISCRIÇÃO. A primeira, isto é, a fantasia sem o auxílio do discernimento, não é louvável como virtude; mas a segunda, que é discernimento e discrição, é louvável por si mesma, sem o auxílio da fantasia. Além da discrição quanto a tempos, lugares e pessoas, necessária a uma boa fantasia, exige-se também a aplicação frequente de seus pensamentos a um fim; ou seja, a algum uso que se possa fazer deles. Feito isso, aquele que possui essa virtude será facilmente agraciado com símiles que agradarão, não apenas por ilustrar seu discurso e adorná-lo com metáforas novas e apropriadas, mas também pela raridade ou inventividade delas. Mas sem constância e direção para algum fim, uma grande fantasia é uma espécie de loucura. tais como aqueles que, ao iniciarem qualquer discurso, são desviados de seu propósito por tudo o que lhes vem à mente, para tantas e tão longas digressões e parênteses, que se perdem completamente: Para esse tipo de tolice, não conheço um nome específico; mas a causa é, às vezes, a falta de experiência, pela qual aquilo que parece novo e raro a um homem não o parece a outros; às vezes, pusilanimidade, pela qual aquilo que parece grandioso a ele, outros consideram trivial; e tudo o que é novo ou grandioso, e por isso julgado digno de ser contado, afasta o homem gradualmente do rumo pretendido de seu discurso.

Num bom poema, seja ele épico ou dramático, assim como em sonetos, epigramas e outras peças, tanto o discernimento quanto a imaginação são necessários: mas a imaginação deve ser mais proeminente, pois agrada pela extravagância, sem, contudo, desagradar pela indiscrição.

Em uma boa História, o Julgamento deve ser eminente; pois a bondade consiste no Método, na Verdade e na Escolha das ações mais proveitosas de serem conhecidas. A fantasia não tem lugar, senão em adornar o estilo.

Nas orações de louvor e nas invectivas, a fantasia é predominante, pois o objetivo não é a verdade, mas a honra ou a desonra, o que se faz por meio de comparações nobres ou vis. O julgamento apenas sugere quais circunstâncias tornam uma ação louvável ou repreensível.

Em discursos exortativos e súplicas, assim como a verdade ou o disfarce melhor servem ao propósito em questão, o juízo ou a imaginação são os mais necessários.

Na demonstração, no conselho e em toda busca rigorosa da verdade, o julgamento tudo faz; exceto, às vezes, quando o entendimento precisa ser aberto por alguma comparação apropriada; e então há muito uso da imaginação. Mas, quanto às metáforas, elas são totalmente excluídas neste caso. Pois, como professam abertamente o engano, admiti-las no conselho ou no raciocínio seria uma manifesta tolice.

E em qualquer discurso, seja ele qual for, se a falta de discrição for aparente, por mais extravagante que seja a imaginação, todo o discurso será interpretado como um sinal de falta de inteligência; e o mesmo nunca ocorrerá quando a discrição for manifesta, ainda que a imaginação seja por mais comum que seja.

Os pensamentos secretos de um homem percorrem todas as coisas, sagradas, profanas, puras, obscenas, graves e leves, sem vergonha ou censura; algo que o discurso verbal não pode fazer, a menos que o Juízo aprove o Tempo, o Lugar e as Pessoas. Um anatomista ou um médico pode falar ou escrever seu juízo sobre coisas impuras, pois não é para agradar, mas para proveito próprio; mas para outro homem escrever suas fantasias extravagantes e agradáveis ​​sobre o mesmo assunto é como se um homem, depois de ter caído na lama, viesse apresentar-se diante de boa companhia. E é a falta de discrição que faz a diferença. Além disso, em evidente descuido mental e na companhia de pessoas íntimas, um homem pode brincar com os sons e os significados ambíguos das palavras; E isso muitas vezes ocorre em encontros de extraordinária imaginação; mas em um sermão, ou em público, ou diante de pessoas desconhecidas, ou a quem deveríamos reverenciar, não há um lampejo de palavras que não seja considerado tolice; e a diferença reside apenas na falta de discrição. Portanto, onde falta inteligência, não é imaginação que falta, mas discrição. Discernimento sem imaginação é inteligência, mas imaginação sem discernimento não é.

Prudência

Quando os pensamentos de um homem, que tem um objetivo em mente, percorrem uma infinidade de coisas, observando como elas contribuem para esse objetivo; ou para que objetivo elas podem conduzir; se suas observações forem incomuns ou não usuais, essa sua perspicácia é chamada de PRUDÊNCIA; e depende de muita Experiência e Memória de coisas semelhantes e suas consequências anteriores. Nisso não há tanta diferença entre os homens, quanto em suas Fantasias e Julgamentos; porque a experiência de homens da mesma idade não é muito desigual em quantidade, mas reside em diferentes ocasiões; cada um com seus objetivos particulares. Governar bem uma família e um reino não são diferentes graus de Prudência, mas diferentes tipos de negócios; assim como desenhar um quadro em pequena, grande ou maior que a vida não são diferentes graus de Arte. Um simples lavrador é mais Prudente nos assuntos de sua própria casa do que um Conselheiro Privado nos assuntos de outro homem.

Arte

À prudência, se acrescentarmos o uso de meios injustos ou desonestos, como os que geralmente levam os homens ao medo ou à necessidade, teremos a sabedoria tortuosa, chamada astúcia, que é um sinal de pusilanimidade. Pois a magnanimidade é o desprezo por auxílios injustos ou desonestos. E aquilo que os latinos chamam de versutia (traduzido para o português como "esquiva"), que consiste em adiar um perigo ou inconveniente presente, envolvendo-se em um maior, como quando um homem rouba um para pagar outro, nada mais é do que uma astúcia de visão curta, chamada versutia, de versura, que significa tomar dinheiro a juros usurários para o pagamento imediato de juros.

Inteligência adquirida

Quanto à inteligência adquirida (refiro-me à adquirida por método e instrução), não há outra senão a razão, que se fundamenta no uso correto da fala e produz as ciências. Mas da razão e da ciência, já falei nos capítulos cinco e seis.

As causas dessa diferença de intelecto residem nas paixões; e a diferença de paixões decorre, em parte, da constituição corporal distinta e, em parte, da educação diversa. Pois, se a diferença proviesse do temperamento do cérebro e dos órgãos dos sentidos, sejam eles externos ou internos, não haveria menos diferença entre os homens em sua visão, audição ou outros sentidos do que em seus gostos e discernimentos. Portanto, a diferença provém das paixões, que são diferentes não apenas pela cor da pele dos homens, mas também por suas diferenças de costumes e educação.

As paixões que mais causam divergências de espírito são, principalmente, o desejo, em maior ou menor grau, de poder, de riquezas, de conhecimento e de honra. Todas podem ser reduzidas à primeira, ou seja, ao desejo de poder. Pois riquezas, conhecimento e honra são apenas diferentes tipos de poder.

Loucura da Vertigem

Portanto, um homem que não tem grande paixão por nenhuma dessas coisas, mas é, como se costuma dizer, indiferente, embora possa ser um homem bom a ponto de não ofender ninguém, não pode ter grande imaginação nem muito discernimento. Pois os pensamentos são para os desejos como batedores e espiões, percorrendo o campo e encontrando o caminho para as coisas desejadas: toda a estabilidade do movimento da mente e toda a sua rapidez procedem daí. Pois assim como não ter desejo é estar morto; ter paixões fracas é embotamento; ter paixões indiferentes por tudo é vertigem e distração; e ter paixões mais fortes e veementes por qualquer coisa do que se vê normalmente nos outros é o que os homens chamam de loucura.

Das quais existem quase tantas variedades quanto das próprias Paixões. Às vezes, a Paixão extraordinária e extravagante procede da má constituição dos órgãos do Corpo, ou de danos causados ​​a eles; e às vezes, o dano e a indisposição dos Órgãos são causados ​​pela veemência ou longa duração da Paixão. Mas, em ambos os casos, a Loucura é da mesma natureza.

A paixão, cuja violência ou prolongamento leva à loucura, é ou uma grande vaidade, comumente chamada de orgulho e presunção, ou uma grande tristeza de espírito.

Raiva

O orgulho sujeita o homem à ira, cujo excesso é a loucura chamada fúria. E assim acontece que o desejo excessivo de vingança, quando se torna habitual, fere os órgãos e se transforma em fúria: que o amor excessivo, com ciúme, também se transforma em fúria: a opinião excessiva do homem sobre si mesmo, como inspiração divina, sabedoria, conhecimento, forma e coisas semelhantes, torna-se distração e vertigem: o mesmo, aliado à inveja, transforma-se em fúria: a opinião veemente sobre a verdade de qualquer coisa, contradita por outros, transforma-se em fúria.

Melancolia

O abatimento sujeita o homem a medos sem causa; o que é uma loucura comumente chamada de MELANCOLIA, que se manifesta também de diversas maneiras, como na mania de vagar por lugares solitários e túmulos, em comportamentos supersticiosos e no medo de alguém ou de alguma coisa em particular. Em suma, todas as paixões que produzem comportamentos estranhos e incomuns são chamadas pelo nome genérico de loucura. Mas, dentre os vários tipos de loucura, quem se dispusesse a detalhá-los poderia listar uma legião. E se os excessos são loucura, não há dúvida de que as próprias paixões, quando tendem ao mal, são graus do mesmo.

(Por exemplo,) Embora o efeito da loucura, naqueles que se consideram inspirados, nem sempre seja visível em um único homem, por meio de qualquer ação extravagante que proceda de tal paixão, quando muitos deles conspiram juntos, a fúria de toda a multidão torna-se bastante visível. Pois que argumento de loucura pode haver maior do que clamar, golpear e atirar pedras contra nossos melhores amigos? Contudo, isso é um pouco menos do que tal multidão fará. Pois eles clamarão, lutarão contra e destruirão aqueles que, durante toda a sua vida, os protegeram e os mantiveram a salvo de danos. E se isso é loucura na multidão, o mesmo ocorre em cada indivíduo. Pois, assim como no meio do mar, embora um homem não perceba o som da parte da água próxima a ele, está bem certo de que essa parte contribui tanto para o rugido do mar quanto qualquer outra parte da mesma quantidade; assim também, embora não percebamos grande inquietação em um ou dois homens; Contudo, podemos ter a certeza de que suas paixões singulares são parte do clamor sedicioso de uma nação conturbada. E mesmo que nada mais denunciasse sua loucura, o simples fato de arrogarem tal inspiração para si já seria argumento suficiente. Se algum homem em um hospício lhe oferecesse um discurso sóbrio, e você, ao se despedir, desejasse saber quem ele era para retribuir sua gentileza em outra ocasião, e ele lhe dissesse que era Deus Pai, creio que você não precisaria esperar nenhuma reação exagerada como prova de sua loucura.

Essa opinião sobre a Inspiração, comumente chamada de Espírito Privado, começa muitas vezes com a descoberta fortuita de um Erro geralmente aceito por outros; e, sem saber ou sem se lembrar por qual caminho de raciocínio chegaram a uma verdade tão singular (como a consideram, embora muitas vezes seja uma inverdade que descobrem), logo se admiram por estarem na graça especial de Deus Todo-Poderoso, que a revelou a eles sobrenaturalmente, por meio de Seu Espírito.

Novamente, que a loucura nada mais é do que uma paixão exagerada, pode ser inferido dos efeitos do vinho, que são os mesmos da má disposição dos órgãos. Pois a variedade de comportamentos em homens que beberam demais é a mesma dos loucos: alguns enfurecidos, outros apaixonados, outros rindo, todos extravagantemente, mas de acordo com suas respectivas paixões dominadoras. Pois o efeito do vinho apenas remove a dissimulação e lhes tira a visão da deformidade de suas paixões. Pois (creio eu) os homens mais sóbrios, quando caminham sozinhos, sem preocupações e ocupações da mente, não desejariam que a vaidade e a extravagância de seus pensamentos naquele momento fossem vistas publicamente; o que é uma confissão de que as paixões descontroladas são, em sua maioria, mera loucura.

As opiniões do mundo, tanto na antiguidade quanto em épocas posteriores, sobre a causa da loucura, foram duas. Alguns a atribuíam às Paixões; outros, a de Demônios ou Espíritos, bons ou maus, que acreditavam poder entrar em um homem, possuí-lo e mover seus órgãos de maneira tão estranha e grosseira quanto os loucos costumavam fazer. Os primeiros, portanto, chamavam esses homens de Loucos; já os mais recentes os chamavam, às vezes, de Daemoniacks ​​(isto é, possuídos por espíritos), outras vezes de Energumeni (isto é, agitados ou movidos por espíritos), e agora, na Itália, são chamados não apenas de Pazzi (loucos), mas também de Spiritati (homens possuídos).

Houve certa vez uma grande aglomeração de pessoas em Abdera, cidade grega, durante a apresentação da Tragédia de Andrômeda, num dia de calor extremo. Muitos espectadores, acometidos por febre, sofreram um mal causado pelo calor e pela tragédia, que os impedia de pronunciar palavras ininteligíveis, com os nomes de Perseu e Andrômeda. A febre, porém, foi curada com a chegada do inverno. Acreditava-se que essa loucura provinha da paixão provocada pela tragédia. Da mesma forma, houve um surto de loucura em outra cidade grega, que acometeu apenas jovens donzelas e levou muitas delas ao suicídio por enforcamento. Na época, muitos consideraram esse ato como obra do diabo. Mas alguém que suspeitava que o desprezo pela vida neles pudesse proceder de alguma paixão da mente, e supondo que eles também não desprezassem sua honra, aconselhou os magistrados a despir aqueles que se enforcaram e deixá-los pendurados nus. Diz a história que isso curou a loucura. Por outro lado, os mesmos gregos frequentemente atribuíam a loucura à ação das Eumênides ou Fúrias; e às vezes de Ceres, Febo e outros deuses: tanto se atribuía aos Fantasmas a ponto de considerá-los corpos vivos e geralmente chamá-los de Espíritos. E assim como os romanos compartilhavam da mesma opinião dos gregos, o mesmo acontecia com os judeus; pois chamavam os loucos de Profetas ou (conforme consideravam os espíritos bons ou maus) Demônios; e alguns chamavam tanto Profetas quanto Demônios de loucos; e alguns chamavam o mesmo homem tanto de Demônio quanto de louco. Mas para os gentios, não é de admirar, pois doenças e saúde, vícios e virtudes, e muitos acidentes naturais, eram por eles chamados e adorados como demônios. De modo que um homem entendia por demônio tanto (às vezes) uma febre quanto um demônio. Mas que os judeus tivessem tal opinião é um tanto estranho. Pois nem Moisés nem Abraão pretendiam profetizar por possessão de um espírito, mas sim pela voz de Deus, ou por uma visão ou sonho. Nem há nada em sua lei, moral ou cerimonial que lhes tenha ensinado que havia tal entusiasmo ou possessão. Quando se diz que Deus (Números 11:25) tomou do espírito que estava em Moisés e o deu aos 70 anciãos, o Espírito de Deus (considerando-o como a substância de Deus) não é dividido. As Escrituras, ao se referirem ao Espírito de Deus no homem, querem dizer o espírito do homem inclinado à piedade. E onde se diz (Êxodo 28:3): “Enchi-os do Espírito de sabedoria para fazerem vestes a Arão”, não se refere a um espírito colocado neles que possa fazer vestes, mas à sabedoria de seus próprios espíritos nesse tipo de trabalho. Da mesma forma, o espírito do homem, quando produz ações impuras,é geralmente chamado de espírito imundo; e assim também outros espíritos, embora nem sempre, mas com a mesma frequência que a virtude ou o vício assim denominados, são extraordinários e eminentes. Nem os outros profetas do Antigo Testamento fingiam entusiasmo, ou que Deus lhes falava por meio deles, mas sim por voz, visão ou sonho; e o fardo do Senhor não era a possessão, mas o mandamento. Como então os judeus poderiam ter chegado a essa opinião de possessão? Não consigo imaginar outra razão senão aquela que é comum a todos os homens: a falta de curiosidade para investigar as causas naturais; e a busca da felicidade na aquisição dos prazeres grosseiros dos sentidos e das coisas que mais imediatamente os conduzem. Pois aqueles que veem qualquer habilidade ou defeito estranho e incomum na mente de um homem, a menos que vejam com clareza de que causa provavelmente procede, dificilmente podem considerá-lo natural; e se não for natural, certamente o considerarão sobrenatural. E então, o que poderia ser, senão que Deus ou o Diabo estivesse nele? E assim aconteceu que, quando nosso Salvador (Marcos 3:21) estava cercado pela multidão, os presentes duvidaram que ele estivesse louco e saíram para detê-lo; mas os escribas disseram que ele tinha Belzebu, e era só isso, por meio do qual ele expulsava os diabos; como se o louco maior tivesse intimidado o menor. E sobre isso (João 10:20), alguns disseram: “Ele tem um Diabo e está louco”; enquanto outros, considerando-o um profeta, disseram: “Estas não são as palavras de alguém que tem um Diabo”. Assim também, no Antigo Testamento, aquele que veio ungir Jeú (2 Reis 9:11) era um profeta; mas alguns dos presentes perguntaram a Jeú: “O que veio fazer esse louco?” Em suma, fica evidente que qualquer pessoa que se comportasse de maneira extraordinária era considerada pelos judeus como possuída por um espírito bom ou mau; exceto pelos saduceus, que erraram tanto ao não acreditar na existência de espíritos (o que se aproxima muito do ateísmo), e por isso talvez tenham provocado ainda mais outros a chamar tais homens de demoníacos, em vez de loucos.ou defeito na mente de um homem; a menos que vejam com clareza de que causa provavelmente procede, dificilmente podem considerá-lo natural; e se não for natural, devem necessariamente considerá-lo sobrenatural; e então o que pode ser, senão que Deus, ou o Diabo, está nele? E assim aconteceu que, quando nosso Salvador (Marcos 3:21) estava cercado pela multidão, os presentes duvidaram que ele estivesse louco e saíram para detê-lo; mas os escribas disseram que ele tinha Belzebu, e era isso, por meio do qual expulsava os diabos; como se o louco maior tivesse intimidado o menor. E sobre isso (João 10:20), alguns disseram: “Ele tem um Diabo e está louco”; enquanto outros, considerando-o um profeta, disseram: “Estas não são as palavras de alguém que tem um Diabo”. Assim também, no Antigo Testamento, aquele que veio para ungir Jeú (2 Reis 9:11) era um profeta; Mas alguns dos presentes perguntaram a Jeú: "O que veio fazer aquele louco?" Assim, em suma, fica evidente que qualquer um que se comportasse de maneira extraordinária era considerado pelos judeus como possuído por um espírito bom ou maligno; exceto pelos saduceus, que erraram tanto ao não acreditarem na existência de espíritos (o que se aproxima muito do ateísmo); e, por isso, talvez tenham provocado ainda mais outros a chamarem tais homens de demônios, em vez de loucos.ou defeito na mente de um homem; a menos que vejam com clareza de que causa provavelmente procede, dificilmente podem considerá-lo natural; e se não for natural, devem necessariamente considerá-lo sobrenatural; e então o que pode ser, senão que Deus, ou o Diabo, está nele? E assim aconteceu que, quando nosso Salvador (Marcos 3:21) estava cercado pela multidão, os presentes duvidaram que ele estivesse louco e saíram para detê-lo; mas os escribas disseram que ele tinha Belzebu, e era isso, por meio do qual expulsava os diabos; como se o louco maior tivesse intimidado o menor. E sobre isso (João 10:20), alguns disseram: “Ele tem um Diabo e está louco”; enquanto outros, considerando-o um profeta, disseram: “Estas não são as palavras de alguém que tem um Diabo”. Assim também, no Antigo Testamento, aquele que veio para ungir Jeú (2 Reis 9:11) era um profeta; Mas alguns dos presentes perguntaram a Jeú: "O que veio fazer aquele louco?" Assim, em suma, fica evidente que qualquer um que se comportasse de maneira extraordinária era considerado pelos judeus como possuído por um espírito bom ou maligno; exceto pelos saduceus, que erraram tanto ao não acreditarem na existência de espíritos (o que se aproxima muito do ateísmo); e, por isso, talvez tenham provocado ainda mais outros a chamarem tais homens de demônios, em vez de loucos.

Mas por que então nosso Salvador procede na cura deles como se estivessem possuídos, e não como se estivessem loucos? Para isso, não posso dar outra resposta senão aquela dada àqueles que invocam as Escrituras da mesma maneira contra a teoria do movimento da Terra. As Escrituras foram escritas para mostrar aos homens o reino de Deus e para preparar suas mentes para se tornarem seus súditos obedientes, deixando o mundo e sua filosofia para a disputa dos homens, para o exercício de sua razão natural. Se o movimento da Terra ou do Sol causa o dia e a noite, ou se as ações desmedidas dos homens procedem da paixão ou do Divino (para que não o adoremos), tudo é a mesma coisa quanto à nossa obediência e submissão a Deus Todo-Poderoso, que é o propósito para o qual as Escrituras foram escritas. Quanto ao fato de nosso Salvador falar da doença como se falasse de uma pessoa; É a frase usual de todos aqueles que curam apenas com palavras, como Cristo fez (e os incantadores fingem fazer, quer falem com um demônio ou não). Pois não se diz também que Cristo (Mateus 8:26) repreendeu os ventos? Não se diz também (Lucas 4:39) que ele repreendeu uma febre? Contudo, isso não argumenta que uma febre seja um demônio. E considerando que muitos desses demônios confessam Cristo, não é necessário interpretar essas passagens de outra forma senão como se aqueles loucos o tivessem confessado. E considerando que nosso Salvador (Mateus 12:43) fala de um espírito imundo que, tendo saído de um homem, vagueia por lugares áridos, buscando repouso e não o encontrando; e retornando ao mesmo homem com outros sete espíritos piores do que ele, trata-se manifestamente de uma parábola, aludindo a um homem que, após um pequeno esforço para abandonar seus desejos, é vencido pela força deles. e se torna sete vezes pior do que era. Portanto, não vejo absolutamente nada nas Escrituras que exija uma crença de que os Daemoniacks ​​fossem algo além de loucos.

Discurso insignificante

Há ainda outra falha nos discursos de alguns homens, que também pode ser considerada uma espécie de loucura: o abuso das palavras, do qual falei anteriormente no quinto capítulo, chamando-o de absurdo. Isso ocorre quando as pessoas proferem palavras que, juntas, não têm significado algum, mas são usadas por alguns, por incompreensão das palavras que receberam e as repetem mecanicamente; por outros, com a intenção de enganar pela obscuridade. E isso ocorre somente com aqueles que conversam sobre assuntos incompreensíveis, como os eruditos, ou sobre questões de filosofia abstrusa. O homem comum raramente fala de forma insignificante e, portanto, é considerado idiota por essas outras pessoas desprezíveis. Mas para ter certeza de que suas palavras não têm qualquer significado para eles, seriam necessários alguns exemplos; e se alguém precisar, que pegue um erudito em suas mãos e veja se ele consegue traduzir um capítulo qualquer sobre algum ponto difícil. como a Trindade; a Deidade; a natureza de Cristo; a Transubstanciação; o Livre-arbítrio, etc., em qualquer uma das línguas modernas, de modo a torná-las inteligíveis; ou em qualquer latim tolerável, como aqueles que viviam quando o latim era vulgar. Qual o significado destas palavras: “A primeira causa não necessariamente infunde nada na segunda, pela força da subordinação essencial das segundas causas, pela qual pode ajudá-la a funcionar?” São a tradução do título do sexto capítulo do primeiro livro de Suárez, Do Concurso, Movimento e Auxílio de Deus. Quando os homens escrevem volumes inteiros com tais ideias, não estão loucos, ou pretendem enlouquecer os outros? E particularmente, na questão da Transubstanciação; onde, após certas palavras proferidas, aqueles que dizem: a Brancura, a Redondeza, a Magnitude, a Qualidade, a Corruptibilidade, todas as quais são incorpóreas, etc. Saindo da hóstia para o corpo de nosso bendito Salvador, não fazem com que esses Necessidades, Tudes e Laços sejam tais espíritos possuindo seu corpo? Pois por espíritos, eles sempre entendem coisas que, sendo incorpóreas, são, no entanto, móveis de um lugar para outro. De modo que esse tipo de absurdo pode ser justamente incluído entre as muitas formas de loucura; e o tempo todo que, guiados por pensamentos claros de sua luxúria mundana, eles se abstêm de discutir ou escrever, exceto em intervalos lúcidos. E assim se fala muito das virtudes e defeitos intelectuais.

CAPÍTULO IX.
DOS VÁRIOS ASSUNTOS DO CONHECIMENTO

Existem dois tipos de CONHECIMENTO: o Conhecimento do Fato e o Conhecimento da Consequência de uma Afirmação para Outra. O primeiro nada mais é do que a Sensação e a Memória, e é Conhecimento Absoluto; como quando vemos um Fato acontecer, ou nos lembramos dele acontecendo. E este é o Conhecimento exigido de uma Testemunha. O segundo é chamado de Ciência; e é Condicional; como quando sabemos que, se a Figura mostrada for um Círculo, então qualquer linha reta que passe pelo centro o dividirá em duas partes iguais. E este é o Conhecimento exigido de um Filósofo; isto é, daquele que pretende Raciocinar.

O registro do conhecimento dos fatos é chamado de História. Desta, existem dois tipos: um chamado História Natural, que é a história dos fatos ou efeitos da natureza que não dependem da vontade do homem, como as histórias dos metais, das plantas, dos animais, das regiões e similares. O outro é a História Civil, que é a história das ações voluntárias dos homens nas comunidades.

Os Registros da Ciência são livros que contêm demonstrações das consequências de uma afirmação para outra, e são comumente chamados de livros de filosofia. Existem muitos tipos desses livros, de acordo com a diversidade do assunto, e podem ser divididos da maneira como os dividi na tabela a seguir.

  I. Ciência, isto é, conhecimento das consequências; que também é chamada de FILOSOFIA

     A. Consequências de Acidentes Corporais Naturais; que é
        chamada FILOSOFIA NATURAL

        1. Consequências dos acidentes comuns a todos os corpos naturais;
           que são Quantidade e Movimento.

           a. Consequências da quantidade e movimento indeterminado;
              que, sendo os Princípios ou primeiro fundamento de
              Filosofia, chama-se Philosophia Prima

              FILOSOFIA PRIMA

           b. Consequências do Movimento e Quantidade Determinada

              1) Consequências da Quantidade e do Movimento Determinados

                 a) Por Figura, Por Número

                   1] Matemática,

                      GEOMETRIA
                      ARITMÉTICA

              2) Consequências do Movimento e Quantidade de Corpos em
                 Especial

                 a) Consequências do Movimento e Quantidade do
                    grandes partes do mundo, como a Terra e as estrelas,

                    1] Cosmografia

                       ASTRONOMIA
                       GEOGRAFIA

                 b) Consequências do Movimento de Tipos Especiais, e
                    Figuras do Corpo,

                    1] Mecânica, Doutrina do Peso

                       Ciência de
                       ENGENHEIROS
                       ARQUITETURA
                       NAVEGAÇÃO

        2. FÍSICO, ou Consequências das Qualidades

           a. Consequências das Qualidades Transitórias dos Corpos, tais como
              Como às vezes aparecem, às vezes desaparecem

              METEOROLOGIA

           b. Consequências das Qualidades dos Corpos Permanentes

              1) Consequências das Qualidades das Estrelas

                 a) Consequências da Luz das Estrelas. De
                    isto, e o movimento do Sol, é feito o
                    Ciência de

                    ESCÓGRAFIA

                 b) Consequências da influência das estrelas,

                    ASTROLOGIA

              2) Consequências das qualidades dos corpos líquidos que
                 preencher o espaço entre as estrelas; tais como são as
                 Ayre, ou substância etérea.

              3) Consequências das Qualidades dos Corpos Terrestres

                 a) Consequências de partes da Terra que são
                    sem sentido,

                    1] Consequências das Qualidades dos Minerais, como
                       Pedras, metais, etc.
2] Consequências das Qualidades dos Vegetais

                 b) Consequências das Qualidades dos Animais

                    1] Consequências das Qualidades dos Animais em
                       Generall

                       a] Consequências da Visão,

                          ÓTICAS

                       b] Consequências dos sons,

                          MÚSICA

                       c] Consequências dos demais sentidos

                    2] Consequências das Qualidades dos Homens em Especial

                       a) Consequências das Paixões dos Homens,

                          ÉTICAS

                       b] Consequências da fala,

                          i) Ao magnificar, difamar, etc.

                             POESIA

                          ii) Na persuasão,

                              RETÓRICA

                          iii) Em Raciocínio,

                               LÓGICA

                          iv) Em contratos,

                              A Ciência de
                              JUSTO e INJUSTO

     B. Consequências dos Acidentes dos Corpos Políticos; que é
        chamado POLÍTICAS e FILOSOFIA CIVIL

        1. Das consequências da instituição das COMUNIDADES, para
           Os direitos e deveres do corpo político, ou soberano.

        2. Das consequências disso, ao dever e direito de
           Os assuntos.

CAPÍTULO X.
DO PODER, VALOR, DIGNIDADE, HONRA E DIGNO

Poder

O PODER de um homem (em sentido universal) reside nos seus meios presentes para alcançar algum bem futuro aparente. E pode ser tanto original quanto instrumental.

O Poder Natural é a eminência das Faculdades do Corpo ou da Mente: como Força extraordinária, Forma, Prudência, Artes, Eloquência, Liberalidade e Nobreza. Instrumentais são aqueles Poderes que, adquiridos por meio destas faculdades ou pela fortuna, são meios e instrumentos para adquirir mais: como Riquezas, Reputação, Amigos e a Obra Secreta de Deus, que os homens chamam de Boa Sorte. Pois a natureza do Poder, neste ponto, é semelhante à Fama, aumentando à medida que avança; ou como o movimento de corpos pesados, que, quanto mais longe vão, mais rápidos se tornam.

O maior dos poderes humanos é aquele que se compõe dos poderes da maioria dos homens, unidos pelo consentimento em uma só pessoa, natural ou civil, que tem o uso de todos os seus poderes dependendo de sua vontade; como é o poder de uma comunidade; ou dependendo da vontade de cada indivíduo; como é o poder de uma facção, ou de diversas facções unidas. Portanto, ter servos é poder; ter amigos é poder: pois são forças unidas.

Assim também, a riqueza aliada à liberalidade é o poder, pois proporciona amigos e servos. Sem liberalidade, não há poder, pois, nesse caso, eles não se defendem, mas expõem os homens à inveja, como presas.

A reputação de poder é poder, pois atrai a confiança daqueles que precisam de proteção.

Assim também é a reputação de amor à pátria de um homem (chamada popularidade), pela mesma razão.

Além disso, qualquer qualidade que torne um homem amado ou temido por muitos, ou a reputação de tal qualidade, é o Poder; porque é um meio de obter a ajuda e o serviço de muitos.

O sucesso é poder, pois gera reputação de sabedoria ou boa fortuna, o que faz com que os homens o temam ou confiem nele.

A afabilidade dos homens que já detêm o poder aumenta o poder, pois conquista o amor.

A reputação de prudência na condução da paz ou da guerra é poder; porque aos homens prudentes confiamos o governo de nós mesmos com mais boa vontade do que a outros.

A nobreza é poder, não em todos os lugares, mas apenas naquelas comunidades onde possui privilégios: pois é nesses privilégios que reside o seu poder.

A eloquência é poder, pois aparenta ser prudência.

A forma é poder; pois, sendo uma promessa do bem, recomenda os homens ao favor das mulheres e dos estrangeiros.

As Ciências são um poder pequeno, porque não são eminentes; e, portanto, não são reconhecidas em nenhum homem, nem o são de todo, senão em poucos; e, nesses, apenas em algumas coisas. Pois a Ciência é de tal natureza que ninguém pode compreendê-la, a não ser aqueles que a alcançaram em boa medida.

Artes de uso público, como fortificação, fabricação de máquinas e outros instrumentos de guerra; porque conferem poder à defesa e à vitória; e embora a verdadeira mãe delas seja a ciência, ou seja, a matemática; ainda assim, porque são trazidas à luz pela mão do artífice, são consideradas (a parteira sendo confundida com a mãe pelo vulgo) como fruto dele.

Valor

O valor, ou mérito, de um homem, como de todas as outras coisas, é o seu preço; ou seja, o quanto se pagaria pelo uso do seu poder. Portanto, não é absoluto, mas algo dependente da necessidade e do julgamento de outrem. Um comandante de soldados competente tem grande valor em tempos de guerra, presente ou iminente, mas não tanto em tempos de paz. Um juiz erudito e íntegro tem muito valor em tempos de paz, mas não tanto em tempos de guerra. E como em outras coisas, também nos homens, não é o vendedor, mas o comprador que determina o preço. Pois, mesmo que um homem (como a maioria faz) se considere o mais valioso que puder, seu verdadeiro valor não é maior do que aquele que os outros lhe atribuem.

A manifestação do valor que atribuímos uns aos outros é o que comumente chamamos de honrar e desonrar. Atribuir grande valor a alguém é honrá-lo; atribuí-lo pouco é desonrá-lo. Mas, neste caso, "grande" e "pouco" devem ser entendidos em comparação com o valor que cada um atribui a si mesmo.

Dignidade

O valor público de um homem, que é o valor que a sociedade lhe atribui, é aquilo que os homens geralmente chamam de DIGNIDADE. E esse valor que a sociedade lhe atribui é compreendido por meio de cargos de comando, judiciário, empregos públicos; ou por nomes e títulos introduzidos para distinguir tal valor.

Honrar e desonrar

Orar a outrem, pedindo ajuda de qualquer tipo, é uma HONRA; porque, ao recebermos um sinal, acreditamos que Ele tem poder para nos ajudar; e quanto mais difícil for a ajuda, maior será a Honra.

Obedecer é honrar, pois ninguém obedece a quem eles consideram incapaz de ajudá-los ou prejudicá-los. Consequentemente, desobedecer é desonrar.

Oferecer grandes presentes a um homem é honrá-lo, pois significa comprar proteção e reconhecer seu poder. Oferecer pequenos presentes é desonrá-lo, pois não passa de esmola e demonstra a necessidade de pequenas ajudas. Dedicar-se a promover o bem alheio, assim como bajular, é honrá-lo, pois demonstra que buscamos sua proteção ou auxílio. Negligenciá-lo é desonrá-lo.

Ceder ou dar lugar a outrem em qualquer mercadoria é uma demonstração de honra, sendo uma confissão de maior poder. Arrogar-se é uma desonra.

Demonstrar qualquer sinal de amor ou temor por alguém é honrar; pois tanto amar quanto temer são formas de valorizar. Desprezar, ou amar ou temer menos do que se espera, é desonrar; pois é subvalorizar.

Elogiar, engrandecer ou chamar de feliz é honrar; pois nada além da bondade, do poder e da felicidade é valorizado. Injuriar, zombar ou ter pena é desonrar.

Falar com alguém com consideração, apresentar-se diante dele com decência e humildade, é honrá-lo; assim como demonstrar receio de ofendê-lo. Falar com ele precipitadamente, fazer algo diante dele de forma obscena, desleixada e impudente, é desonrá-lo.

Acreditar, confiar e depender de alguém é honrá-lo; é sinal de sua virtude e poder. Desconfiar ou não acreditar é desonrá-lo.

Dar ouvidos aos conselhos ou discursos de alguém, de qualquer natureza, é uma honra; como sinal de sabedoria, eloquência ou sagacidade, consideramos essa pessoa inteligente. Dormir, sair ou conversar enquanto isso é uma desonra.

Fazer ao outro aquilo que ele considera sinais de honra, ou que a lei ou o costume assim o determinam, é honrar; pois, ao aprovar a honra praticada por outros, reconhece-se o poder que os outros reconhecem. Recusar-se a fazê-lo é desonrar.

Concordar com alguém em uma opinião é honrá-lo, pois é um sinal de aprovação de seu julgamento e sabedoria. Discordar é desonrá-lo e repreendê-lo por seu erro e (se a discordância for em muitas coisas) por sua insensatez.

Imitar é honrar; pois é aprovar veementemente. Imitar o inimigo é desonrar.

Honrar aqueles que outros honram é honrá-lo, como sinal de aprovação de seu julgamento. Honrar seus inimigos é desonrá-lo.

Empregar alguém em aconselhamento ou em ações difíceis é honrar, como sinal de sua sabedoria ou poder. Negar ajuda nesses mesmos casos àqueles que a buscam é desonrar.

Todas essas formas de honrar são naturais, tanto dentro quanto fora das comunidades. Mas nas comunidades, onde aquele, ou aqueles que detêm a autoridade suprema, podem fazer o que bem entenderem para representar sinais de honra, haverá outras honras.

Um soberano honra um súdito, seja qual for o título, cargo, emprego ou ação que ele próprio tenha escolhido como sinal de sua vontade de honrá-lo.

O Rei da Pérsia, ao honrar Mordecay, ordenou que este fosse conduzido pelas ruas com as vestes reais, montado em um dos cavalos do rei, com uma coroa na cabeça e um príncipe à sua frente, proclamando: "Assim será feito àquele a quem o Rei honrar". E outro rei da Pérsia, ou o mesmo em outra ocasião, concedeu permissão a alguém que, por algum grande serviço, solicitou o uso de uma das vestes reais; mas com a condição de que a usasse como um bobo da corte; e então isso era desonra. Assim também é a honra civil, como a magistratura, os cargos, os títulos; e em alguns lugares, brasões e brasões pintados: e os homens são honrados por possuírem tais símbolos de favor na comunidade; favor esse que é poder.

Honrado é qualquer posse, ação ou qualidade, sendo um argumento e sinal de Poder.

Portanto, ser honrado, amado ou temido por muitos é honroso, assim como demonstrar poder. Ser honrado por poucos ou por ninguém é desonroso.

Boa fortuna (se duradoura) é honrosa, pois é um sinal do favor de Deus. Má fortuna e perdas são desonrosas. Riquezas são honrosas, pois representam poder. Pobreza é desonrosa. Magnanimidade, liberalidade, esperança, coragem e confiança são honrosas, pois procedem da consciência do poder. Pusilanimidade, avareza, medo e desconfiança são desonrosos.

A resolução oportuna, ou a determinação do que um homem deve fazer, é honrosa, pois demonstra desprezo por pequenas dificuldades e perigos. Já a irresolução é desonrosa, pois indica supervalorização de pequenos impedimentos e vantagens insignificantes. Quando um homem pondera as coisas até o limite do tempo disponível e não toma uma decisão, a diferença de peso é mínima; portanto, se ele não decide, supervaloriza pequenas coisas, o que é pusilanimidade.

Todas as ações e palavras que procedem, ou parecem proceder, de muita experiência, ciência, discrição ou inteligência são honrosas; pois todas essas são qualidades. Ações ou palavras que procedem de erro, ignorância ou insensatez são desonrosas.

A seriedade, na medida em que parece proceder de uma mente ocupada com outra coisa, é honrosa; porque a ocupação é um sinal de poder. Mas se parece proceder de um propósito de parecer grave, é desonrosa. Pois a seriedade da primeira é como a lentidão de um navio carregado de mercadorias; mas a da segunda, como a lentidão de um navio lastreado com areia e outros detritos.

Ser notável, ou seja, ser conhecido por riqueza, cargo, grandes feitos ou qualquer bem notável, é honroso, pois demonstra o poder pelo qual a pessoa se destaca. Em contrapartida, a obscuridade é desonrosa.

Descender de pais ilustres é honroso, pois assim conquistam mais facilmente a ajuda e a amizade de seus ancestrais. Por outro lado, descender de pais obscuros é desonroso.

Ações que procedem da equidade, aliadas à perda, são honrosas, pois demonstram magnanimidade, visto que a magnanimidade é um sinal de poder. Em contrapartida, a astúcia, a manipulação e o desrespeito à equidade são desonrosos.

Nem altera a questão da Honra o fato de uma ação (por mais grandiosa e difícil que seja, e consequentemente sinal de grande poder) ser justa ou injusta: pois a Honra consiste unicamente na opinião do Poder. Portanto, os antigos pagãos não pensavam que desonravam, mas sim que honravam grandemente os deuses, quando os incluíam em seus poemas cometendo estupros, roubos e outros atos grandiosos, porém injustos ou impuros: visto que nada é tão celebrado em Júpiter quanto seus adultérios; nem em Mercúrio quanto suas fraudes e roubos: de cujos louvores, em um hino de Homero, o maior é este: tendo nascido pela manhã, inventou a música ao meio-dia e, antes do anoitecer, roubou o gado de Apolo de seus pastores.

Entre os homens, até a formação de grandes repúblicas, não se considerava desonra ser pirata ou ladrão de estrada; pelo contrário, era um comércio lícito, não só entre os gregos, mas também entre todas as outras nações, como demonstram as histórias da antiguidade. E hoje, nesta parte do mundo, os duelos privados são, e sempre serão, honrosos, embora ilegais, até que haja honra para aqueles que recusam e ignomínia para aqueles que aceitam o desafio. Pois os duelos também são, muitas vezes, fruto da coragem; e a base da coragem é sempre a força ou a habilidade, que são poder; embora, na maioria das vezes, sejam fruto de palavras impensadas e do medo da desonra em um ou ambos os combatentes, que, movidos pela imprudência, são impelidos aos duelos para evitar a desgraça.

Escudos e brasões hereditários, quando conferem privilégios eminentes, são honrosos; caso contrário, não: pois seu poder consiste em tais privilégios, em riquezas ou em algo igualmente honrado em outros homens. Esse tipo de honra, comumente chamado de nobreza, deriva dos antigos germânicos. Pois nunca houve algo semelhante onde os costumes germânicos fossem desconhecidos. Nem é usado atualmente em nenhum lugar onde os germânicos não tenham habitado. Os antigos comandantes gregos, quando iam para a guerra, tinham seus escudos pintados com os símbolos que desejavam; de modo que um broquel sem pintura era sinal de pobreza e de um soldado comum; mas eles não transmitiam a herança desses símbolos. Os romanos transmitiam as marcas de suas famílias; mas eram as imagens, não os símbolos de seus ancestrais. Entre os povos da Ásia, África e América, não existe, nem nunca existiu, algo semelhante. Somente os alemães tinham esse costume; deles ele foi herdado pela Inglaterra, França, Espanha e Itália, quando um grande número de pessoas ou ajudou os romanos ou fez suas próprias conquistas nessas partes ocidentais do mundo.

Pois a Alemanha, antigamente, como todos os outros países, em seus primórdios, era dividida entre um número infinito de pequenos senhores, ou chefes de famílias, que guerreavam continuamente entre si; esses senhores, principalmente para que, ao ostentarem brasões, fossem reconhecidos por seus seguidores, e em parte por ornamentação, pintavam suas armaduras, escudos ou brasões com a imagem de algum animal ou outra coisa; e também colocavam alguma marca proeminente e visível no timbre de seus capacetes. E seus ornamentos, tanto das armas quanto do timbre, eram transmitidos por herança aos filhos; aos primogênitos, os mais puros, e aos demais com alguma distinção, conforme o antigo senhor, ou seja, em holandês, o Herealt (chefe da família real) julgasse conveniente. Mas quando muitas dessas famílias, unidas, formaram uma monarquia maior, essa obrigação do Herealt, de distinguir os escudos, tornou-se um ofício privado. E a descendência desses senhores é a grande e antiga nobreza rural; que, em sua maioria, ostentavam criaturas vivas, notáveis ​​por sua coragem e saque; ou castelos, ameias, cinturões, armas, barras, paliçadas e outros símbolos de guerra; nada era então motivo de honra, senão virtude militar. Posteriormente, não apenas reis, mas também repúblicas populares, concederam diversos tipos de brasões àqueles que partiam para a guerra ou retornavam dela, como incentivo ou recompensa por seus serviços. Tudo isso, por um leitor atento, pode ser encontrado em antigas histórias, gregas e latinas, que mencionam a nação e os costumes germânicos em seus tempos.

Títulos de Honra

Títulos de honra, como Duque, Conde, Marquês e Barão, são honrosos, pois significam o valor que lhes é atribuído pelo Poder Soberano da República. Esses títulos, antigamente, eram títulos de cargo e comando, derivados alguns dos romanos, outros dos germânicos e franceses. Duques, em latim "duces", eram generais na guerra; condes, condes, acompanhavam os generais por amizade e eram encarregados de governar e defender os lugares conquistados e pacificados; marqueses, marqueses, eram condes que governavam as Marcas, ou fronteiras do Império. Os títulos de Duque, Conde e Marquês chegaram ao Império por volta da época de Constantino, o Grande, dos costumes da milícia germânica. Já Barão parece ter sido um título dos gauleses e significa um grande homem, como os homens dos reis ou príncipes, que eles empregavam na guerra para proteger suas pessoas. e parece derivar de Vir, para Ber e Bar, que significavam o mesmo na língua dos gauleses, que Vir em latim; e daí para Bero e Baro: de modo que tais homens eram chamados de Berones, e depois Barones; e (em espanhol) Varones. Mas aquele que quiser saber mais especificamente a origem dos Títulos de Honra, pode encontrá-la, como eu fiz aqui, no excelente Tratado do Sr. Selden sobre esse assunto. Com o passar do tempo, esses ofícios de Honra, por ocasião de dificuldades e por razões de bom e pacífico governo, foram transformados em meros Títulos; servindo, em sua maior parte, para distinguir a precedência, o lugar e a ordem dos súditos na República: e homens foram feitos Duques, Condes, Marqueses e Barões de lugares nos quais não tinham posse nem comando: e outros Títulos também foram criados com o mesmo fim.

Worthinesse Fitnesse

DIGNO, é algo diferente do valor ou mérito de um homem; e também do seu merecimento; e consiste em um poder ou habilidade particular para aquilo que o torna digno: essa habilidade particular é geralmente chamada de APTIDÃO ou aptidão.

Pois é mais digno de ser comandante, juiz ou de exercer qualquer outra função aquele que melhor se adequar às qualidades necessárias para desempenhá-la bem; e mais digno de riquezas aquele que possuir as qualidades mais necessárias para o bom uso delas: mesmo que lhe faltem algumas dessas qualidades, a pessoa pode ser, ainda assim, digna e valiosa para alguma outra coisa. Da mesma forma, um homem pode ser digno de riquezas, cargos e empregos, mas não pode reivindicar o direito de ocupá-los perante outrem; portanto, não se pode dizer que os mereça. Pois o mérito pressupõe um direito e que o merecido seja devido por promessa: sobre o que falarei mais adiante, quando abordar os contratos.

CAPÍTULO XI.
DA DIFERENÇA DE MANEIRAS

O que se entende aqui por boas maneiras?

Por MANEIRAS, não me refiro aqui à decência de comportamento, como a forma de cumprimentar um homem, ou como lavar a boca ou usar palito de dente na presença de outras pessoas, e outros pontos semelhantes da pequena moral; mas sim às qualidades da humanidade que dizem respeito à convivência pacífica e harmoniosa. Para tanto, devemos considerar que a felicidade desta vida não consiste no repouso de uma mente satisfeita. Pois não existe um Finis Ultimus (o fim último) nem um Summum Bonum (o bem supremo) como os mencionados nos livros dos antigos filósofos morais. Nem pode um homem viver se seus desejos chegarem ao fim, assim como não pode viver se seus sentidos e imaginação estiverem estagnados. A felicidade é um progresso contínuo do desejo, de um objetivo a outro; a conquista do primeiro é apenas o caminho para o segundo. A causa disso é que o objetivo do desejo humano não é desfrutar apenas uma vez, por um instante de tempo; mas para assegurar para sempre o caminho de seu desejo futuro. E, portanto, as ações voluntárias e as inclinações de todos os homens tendem não só a obter, mas também a assegurar uma vida contente; e diferem apenas na forma: o que surge em parte da diversidade de paixões em diferentes homens; e em parte da diferença no conhecimento ou na opinião que cada um tem das causas que produzem o efeito desejado.

Um desejo inquieto de poder, em todos os homens.

Assim, em primeiro lugar, aponto como uma inclinação geral de toda a humanidade um desejo perpétuo e inquieto por poder após poder, que cessa apenas com a morte. E a causa disso nem sempre é que o homem almeja um deleite mais intenso do que aquele que já alcançou, ou que não consegue se contentar com um poder moderado, mas sim porque não consegue assegurar o poder e os meios para viver bem que possui, sem adquirir mais. E é daí que os reis, cujo poder é maior, voltam seus esforços para assegurá-lo em casa por meio de leis ou no exterior por meio de guerras; e quando isso é feito, surge um novo desejo: em alguns, de fama por novas conquistas; em outros, de conforto e prazeres sensuais; em outros ainda, de admiração ou de ser bajulado pela excelência em alguma arte ou outra habilidade intelectual.

Amor pela Contenda que Provém da Competição

A competição por riquezas, honra, comando ou qualquer outro poder inclina à contenda, à inimizade e à guerra, pois o caminho de um competidor para alcançar seu desejo é matar, subjugar, suplantar ou repelir o outro. Particularmente, a competição por louvor inclina a uma reverência à antiguidade, pois os homens contendem com os vivos, não com os mortos, atribuindo a estes mais do que o devido, para que possam obscurecer a glória do outro.

Obediência Civil por Amor à Facilidade

O desejo de conforto e prazeres sensuais leva os homens a obedecerem a um poder comum, pois, por meio de tais desejos, o homem abandona a proteção que poderia esperar de seu próprio trabalho e diligência.

Por medo da morte ou de ferimentos

O medo da morte e dos ferimentos predispõe a isso, e pela mesma razão. Ao contrário, homens necessitados e corajosos, não contentes com sua condição atual, assim como todos os que ambicionam o comando militar, inclinam-se a continuar as causas da guerra e a incitar problemas e sedições, pois não há honra militar senão pela guerra; nem esperança de corrigir um jogo ruim como provocando uma nova confusão.

E por amor às artes

O desejo de conhecimento e das artes da paz inclina os homens a obedecerem a um poder comum, pois tal desejo contém um anseio de ócio e, consequentemente, de proteção contra algum poder que não seja o seu.

Amor da Virtude, do Amor do Louvor

O desejo de louvor predispõe a ações louváveis, que agradam àqueles cujo julgamento valorizamos; pois desses homens que desprezamos, desprezamos também os que recebem louvor. O desejo de fama após a morte faz o mesmo. E embora, após a morte, não haja percepção do louvor que nos é dado na Terra como alegrias que são absorvidas pelas alegrias indizíveis do Céu ou extintas nos tormentos extremos do Inferno, não é vã essa fama? Porque os homens têm um deleite presente nela, pela sua antecipação e pelo benefício que pode recair sobre a sua posteridade, benefícios esses que, embora não vejam agora, imaginam; e tudo o que é prazer sensorial também o é na imaginação.

Ódio, devido à dificuldade de retribuir grandes benefícios.

Receber de alguém, a quem nos consideramos iguais, benefícios maiores do que podemos retribuir, predispõe a um amor fingido, mas na verdade a um ódio secreto; e coloca o homem na condição de um devedor desesperado, que, ao recusar a visão de seu credor, tacitamente o deseja ali, onde talvez nunca mais o veja. Pois os benefícios obrigam; e a obrigação é servidão; o que é odioso para os iguais. Mas receber benefícios de alguém que reconhecemos como superior inclina o homem ao amor; porque a obrigação não é uma nova depressão; e a aceitação alegre (que os homens chamam de gratidão) é uma honra feita ao devedor, que geralmente é tomada como retribuição. Também receber benefícios, mesmo de um igual ou inferior, enquanto houver esperança de retribuição, predispõe ao amor; pois na intenção de quem recebe, a obrigação é de ajuda e serviço mútuo; daí procede uma emulação de quem excederá em beneficiar. A contenda mais nobre e proveitosa possível; na qual o vencedor se alegra com sua vitória, e o outro se vinga confessando-a.

E da Consciência de Merecer Ser Odiado

Ter causado mais dano a alguém do que esse alguém pode ou está disposto a expiar, inclina o agressor a odiar a vítima. Pois ele deve esperar vingança ou perdão; ambos são odiosos.

Prontidão para ferir, por medo

O medo da opressão leva o homem a antecipar-se ou a buscar ajuda na sociedade, pois não há outro meio pelo qual um homem possa garantir sua vida e liberdade.

E por desconfiança em sua própria inteligência

Homens que desconfiam da própria astúcia, em meio ao tumulto e à sedição, estão mais bem preparados para a vitória do que aqueles que se consideram sábios ou astutos. Pois estes últimos preferem consultar-se, enquanto os outros (temendo serem enganados) preferem atacar primeiro. E na sedição, estando os homens sempre em condições de batalha, manter-se unidos e usar todas as vantagens da força é uma estratégia melhor do que qualquer outra que possa advir da astúcia ou da inteligência.

Empreendimento Vã De Vaidade

Homens vaidosos, que, sem se darem conta de sua própria autossuficiência, se deleitam em se considerar galantes, inclinam-se apenas à ostentação, mas não à tentativa: pois, quando o perigo ou a dificuldade surgem, nada esperam senão ter sua insuficiência descoberta.

Homens vaidosos e arrogantes, que avaliam sua autoconfiança pela bajulação alheia ou pela sorte de alguma ação precedente, sem uma base sólida de esperança baseada no verdadeiro autoconhecimento, tendem a se envolver em ações precipitadas; e, diante do perigo ou da dificuldade, a recuar se possível, pois, não enxergando um caminho seguro, preferem arriscar sua honra, que pode ser amenizada com uma desculpa, do que suas vidas, para as quais nenhum remédio é suficiente.

Ambição, da perspectiva da suficiência

Homens que têm uma forte opinião sobre sua própria sabedoria em assuntos de governo tendem à ambição. Isso porque, sem emprego público em conselhos ou magistratura, a honra de sua sabedoria se perde. E, portanto, oradores eloquentes também tendem à ambição, pois a eloquência parece sabedoria, tanto para eles mesmos quanto para os outros.

Irresolução, resultante da supervalorização de pequenas coisas.

A pusilanimidade predispõe os homens à irresolução e, consequentemente, à perda das ocasiões e das melhores oportunidades de ação. Pois, depois de deliberarem até o momento da ação se aproximar, se não ficar evidente o que é melhor fazer, é sinal de que a diferença de motivações entre um lado e o outro não é grande. Portanto, não se decidir nesse momento é perder a oportunidade por se preocupar com trivialidades; isso é pusilanimidade.

A frugalidade (embora seja uma virtude nos homens pobres) torna o homem incapaz de realizar feitos que exigem a força de muitos ao mesmo tempo, pois enfraquece seu esforço, que deve ser nutrido e mantido vigoroso pela recompensa.

A confiança nos outros surge da ignorância das marcas da sabedoria e da bondade. A eloquência, aliada à bajulação, leva os homens a confiarem naqueles que a possuem; pois a primeira aparenta sabedoria, a segunda, bondade. Acrescente-se a isso a reputação militar, e os homens se inclinam a aderir e a submeter-se àqueles que a detêm. As duas primeiras, ao alertá-los sobre o perigo que vem dele, alertam-nos sobre o perigo que vem de outros.

E da ignorância das causas naturais

A falta de ciência, ou seja, a ignorância das causas, predispõe, ou melhor, constrange o homem a confiar no conselho e na autoridade de outros. Pois todos os homens que se preocupam com a verdade, se não confiam em si mesmos, devem confiar na opinião de alguém que consideram mais sábio do que eles próprios, e não veem por que esse alguém os enganaria.

E por falta de compreensão

A ignorância do significado das palavras, ou seja, a falta de entendimento, leva os homens a aceitarem como verdadeiras coisas que desconhecem, mas também erros, e mais ainda, absurdos. Pois nem o erro, nem o absurdo, podem ser detectados sem uma compreensão perfeita das palavras.

Daí resulta que os homens dão nomes diferentes à mesma coisa, devido à diferença de suas próprias paixões: assim como aqueles que aprovam uma opinião particular a chamam de Opinião; mas aqueles que a desaprovam, de Haeresie; e, no entanto, Haeresie não significa mais do que opinião particular; apenas carrega uma tonalidade maior de cólera.

Da mesma forma decorre que os homens não conseguem distinguir, sem estudo e grande entendimento, entre uma ação de muitos homens e muitas ações de uma multidão; como, por exemplo, entre a ação de todos os Senadores de Roma ao assassinar Catilina e as muitas ações de vários Senadores ao assassinar César; e, portanto, tendem a tomar como ação do povo aquilo que é uma multidão de ações realizadas por uma multidão de homens, talvez guiados pela persuasão de um só.

A adesão ao costume, resultante da ignorância da natureza do certo e do errado, leva o homem a fazer do costume e do exemplo a regra de suas ações, a ponto de considerar injusto aquilo que o costume tem de punir e justo aquilo cuja impunidade e aprovação podem servir de exemplo ou (como os advogados que usam barbaramente a falsa medida da justiça chamam) um precedente; como criancinhas que não têm outra regra de bons e maus costumes senão a correção que recebem de seus pais e mestres; exceto que as crianças são constantes à sua regra, enquanto os homens não o são, porque, tornados fortes e obstinados, apelam do costume à razão e da razão ao costume, conforme lhes convém. Afastando-se dos costumes quando seus interesses o exigem, e opondo-se à razão sempre que a razão se opõe a eles: essa é a causa de a doutrina do Certo e do Errado ser perpetuamente disputada, tanto pela pena quanto pela espada; enquanto a doutrina das Linhas e Figuras não o é, porque os homens não se importam, nesse assunto, com a verdade, pois não contraria a ambição, o lucro ou a luxúria de ninguém. Pois não duvido que, se fosse contrário ao direito de domínio de qualquer homem, ou aos interesses daqueles que detêm o domínio, que os três ângulos de um triângulo fossem iguais a dois ângulos de um quadrado, essa doutrina teria sido, senão disputada, ao menos suprimida pela queima de todos os livros de Geometria, tanto quanto fosse possível para aquele a quem ela se referia.

A Adesão aos Homens Privados, Decorrente da Ignorância das Causas da Paz: A ignorância das causas remotas leva os homens a atribuir todos os eventos às causas imediatas e instrumentais, pois estas são todas as causas que percebem. E daí acontece que, em todos os lugares, os homens que se sentem prejudicados pelos pagamentos ao público descarregam sua raiva nos publicanos, isto é, nos lavradores, cobradores e outros funcionários da receita pública; e aderem àqueles que criticam o governo público; e assim, quando já se envolveram além de qualquer esperança de justificativa, recorrem também à Autoridade Suprema, por medo de punição ou vergonha de receber perdão.

Credulidade resultante da ignorância da natureza

A ignorância das causas naturais predispõe o homem à credulidade, levando-o a acreditar muitas vezes em impossibilidades, pois tais pessoas nada sabem em contrário, a não ser que estas possam ser verdadeiras, sendo incapazes de discernir a impossibilidade. E a credulidade, pelo fato de os homens gostarem de ser ouvidos em companhia, os predispõe à mentira: de modo que a própria ignorância, sem malícia, é capaz de levar o homem tanto a acreditar em mentiras quanto a contá-las, e às vezes até mesmo a inventá-las.

Curiosidade para saber, por conta do tempo futuro.

A ansiedade em relação ao futuro leva os homens a investigar as causas das coisas, pois o conhecimento delas os torna mais capazes de organizar o presente da melhor maneira possível.

Religião Natural, da mesma

A curiosidade, ou o amor pelo conhecimento das causas, leva o homem a deixar de lado a consideração do efeito para buscar a causa; e, novamente, a causa dessa causa; até que, necessariamente, ele chegue ao pensamento de que existe alguma causa, da qual não há causa anterior, mas que é eterna; a essa causa que os homens chamam de Deus. De modo que é impossível fazer qualquer investigação profunda sobre as causas naturais sem ser inclinado, por meio dela, a crer que existe um Deus Eterno; embora não consigam ter em mente qualquer ideia dEle que corresponda à Sua natureza. Pois assim como um homem que nasce cego, ao ouvir homens falarem sobre se aquecerem junto ao fogo, e sendo levado a se aquecer pelo mesmo, pode facilmente conceber e se certificar de que existe algo ali, que os homens chamam de Fogo, e que é a causa do calor que sente; mas não consegue imaginar como é; nem ter uma ideia disso em sua mente, como têm aqueles que o veem: assim também, pelas coisas visíveis deste mundo e sua admirável ordem, um homem pode conceber que haja uma causa para elas, que os homens chamam de Deus; e ainda assim não ter uma ideia ou imagem dele em sua mente.

E aqueles que pouco ou nada investigam as causas naturais das coisas, mas que, pelo medo que provém da própria ignorância daquilo que tem o poder de lhes fazer bem ou mal, inclinam-se a supor e a imaginar diversos tipos de Poderes Invisíveis; e a temer a própria imaginação; e, em tempos de aflição, a invocá-los; assim como, em tempos de sucesso esperado, a agradecer-lhes; fazendo das criaturas da sua própria fantasia os seus Deuses. Por esse meio, aconteceu que, a partir da inumerável variedade da imaginação, os homens criaram no mundo inúmeras espécies de Deuses. E esse medo das coisas invisíveis é a semente natural daquilo que cada um chama de religião; e, naqueles que adoram ou temem esse Poder de maneira diferente da sua, de superstição.

E esta semente da Religião, tendo sido observada por muitos, alguns daqueles que a observaram inclinaram-se, por meio dela, a nutri-la, cultivá-la e transformá-la em Leis; e a acrescentar-lhe, por invenção própria, qualquer opinião sobre as causas de eventos futuros, pelas quais pensavam que melhor poderiam governar os outros e fazer para si o maior uso de seus poderes.

CAPÍTULO XII.
DA RELIGIÃO

Religião, somente no homem

Visto que não há sinais nem frutos da religião, exceto no homem, não há motivo para duvidar que a semente da religião também esteja presente apenas no homem e consista em alguma qualidade peculiar, ou pelo menos em algum grau eminente dela, que não se encontra em outras criaturas vivas.

Primeiro, a partir de seu desejo de conhecer as causas.

E, em primeiro lugar, é peculiar à natureza do Homem ser curioso sobre as causas dos acontecimentos que observa, alguns mais, outros menos; mas todos os homens tanto, a ponto de serem curiosos na busca das causas de sua própria boa e má sorte.

Considerando o princípio das coisas

Em segundo lugar, ao observar qualquer coisa que tenha um começo, pensar também que ela teve uma causa, que determinou seu início, naquele momento em que ocorreu, e não mais cedo ou mais tarde.

A partir de sua observação da sequência de acontecimentos.

Em terceiro lugar, enquanto que não há outra felicidade para os animais senão o desfrute de sua alimentação, conforto e prazeres cotidianos; tendo pouca ou nenhuma noção do futuro, por falta de observação e memória da ordem, consequência e dependência das coisas que veem; o homem observa como um evento foi produzido por outro; e lembra-se neles da antecedente e da consequência; e quando não consegue ter certeza das verdadeiras causas das coisas (pois as causas da boa e da má fortuna são, em sua maioria, invisíveis), ele supõe causas para elas, seja aquelas que sua própria imaginação sugere; ou confia na autoridade de outros homens, aqueles que ele considera seus amigos e mais sábios do que ele próprio.

A Causa Natural da Religião, a Ansiedade do Tempo Vindouro. As duas primeiras causas constituem a Ansiedade. Pois, estando certos de que existem causas para todas as coisas que aconteceram até agora, ou que acontecerão depois, é impossível para um homem, que continuamente se esforça para se proteger do mal que teme e obter o bem que deseja, não estar em perpétua preocupação com o tempo vindouro; de modo que todo homem, especialmente aqueles que são excessivamente previdentes, encontram-se em um estado semelhante ao de Prometeu. Pois assim como Prometeu (que, traduzido, significa "O Homem Prudente") foi aprisionado no monte Cáucaso, um lugar de grande vista, onde uma águia se alimentava de seu fígado, devorando durante o dia tanto quanto era restituído à noite, assim também o homem que olha muito para o futuro, preocupado com o tempo, tem o coração corroído o dia todo pelo medo da morte, da pobreza ou de outras calamidades; e não encontra repouso nem alívio para sua ansiedade, a não ser no sono.

O que os faz temer o poder das coisas invisíveis.

Esse medo perpétuo, que sempre acompanha a humanidade na ignorância das causas, como que na escuridão, deve necessariamente ter algum objeto. E, portanto, quando nada se vê, nada se pode culpar, seja pela sua boa ou má sorte, senão algum Poder ou Agente Invisível: talvez nesse sentido tenha sido que alguns poetas antigos disseram que os deuses foram criados inicialmente pelo medo humano; o que, falando dos deuses (isto é, dos muitos deuses dos gentios), é bem verdade. Mas o reconhecimento de um Deus Eterno, Infinito e Onipotente pode derivar mais facilmente do desejo que os homens têm de conhecer as causas dos corpos naturais e suas diversas virtudes e operações, do que do medo do que lhes aconteceria no futuro. Pois aquele que, a partir de qualquer efeito que veja ocorrer, deve raciocinar para a causa seguinte e imediata, e daí para a causa dessa causa, e mergulhar profundamente na busca das causas; chegará, por fim, a isto: que deve haver (como até mesmo os filósofos pagãos confessavam) um Primeiro Motor; isto é, uma Primeira e Eterna causa de todas as coisas; que é aquilo a que os homens se referem com o nome de Deus. E tudo isso sem pensar em seu destino; cuja preocupação, tanto inclina ao medo quanto os impede de buscar as causas de outras coisas; e, com isso, dá ocasião à invenção de tantos deuses quantos forem os homens que os inventam.

E suponhamos que eles sejam incorpóreos.

E quanto à matéria, ou substância, dos Agentes Invisíveis, assim imaginados, não podiam, por cogitação natural, conceber outra ideia senão a de que era a mesma da Alma do homem; e que a Alma do homem era da mesma substância que aquela que aparece em um sonho para quem dorme, ou em um espelho para quem está acordado; as quais, desconhecendo que tais aparições nada mais são do que criaturas da imaginação, os homens pensam ser substâncias reais e externas; e, portanto, chamam-nas de fantasmas, como os latinos as chamavam de imaginários e umbras; e as consideravam espíritos, isto é, corpos tênues e aéreos; e aqueles Agentes Invisíveis, que temiam, eram semelhantes a eles, exceto pelo fato de aparecerem e desaparecerem quando bem entendem. Mas a opinião de que tais espíritos eram incorpóreos ou imateriais jamais poderia entrar na mente de qualquer homem por natureza. Porque, embora os homens possam combinar palavras de significados contraditórios, como Espírito e Incorpóreo, jamais poderão imaginar algo que lhes corresponda. Portanto, aqueles que, por sua própria meditação, chegam ao reconhecimento de um Deus Infinito, Onipotente e Eterno, preferem confessar que Ele é Incompreensível e está acima de seu entendimento, em vez de definir Sua Natureza por Espírito Incorpóreo e, em seguida, confessar que sua definição é ininteligível. Ou, se Lhe atribuem tal título, não o fazem dogmaticamente, com a intenção de tornar a Natureza Divina compreensível, mas piedosamente, para honrá-Lo com atributos de significados tão distantes quanto possível da grosseria dos Corpos Visíveis.

Mas não sabem como eles afetam alguma coisa.

Então, quanto à maneira como eles pensam que esses Agentes Invisíveis produziram seus efeitos; isto é, quais causas imediatas eles usaram para fazer as coisas acontecerem, os homens que não sabem o que chamamos de Causar (isto é, quase todos os homens) não têm outra regra para adivinhar, senão observando e lembrando o que viram preceder o mesmo efeito em algum outro momento, ou momentos anteriores, sem ver qualquer dependência ou conexão entre o evento antecedente e o subsequente: E, portanto, a partir de coisas semelhantes no passado, eles esperam que coisas semelhantes aconteçam; e esperam por boa ou má sorte, supersticiosamente, de coisas que não têm nenhuma participação em sua causa: Como os atenienses fizeram para sua guerra em Lepanto, exigem outro Formio; a facção pompeiana para sua guerra na África, outro Cipião; e outros fizeram em diversas outras ocasiões desde então. Da mesma forma, atribuem sua sorte a um observador, a um lugar de sorte ou azar, a palavras proferidas, especialmente se o nome de Deus estiver entre elas; como encantamentos e feitiços (a leiturgia das bruxas); a ponto de acreditarem que têm o poder de transformar pedra em pão, pão em homem, ou qualquer coisa em qualquer coisa.

Mas honrem-nos como eles honram os homens.

Em terceiro lugar, quanto à adoração que os homens naturalmente demonstram aos poderes invisíveis, não pode ser outra senão a expressão de reverência que demonstrariam aos homens: dádivas, súplicas, agradecimentos, submissão do corpo, discursos respeitosos, comportamento sóbrio, palavras premeditadas, juramentos (isto é, assegurar uns aos outros o cumprimento de suas promessas), invocando-os. Além disso, a razão nada sugere; deixa-os ou se acomodarem nesse ponto, ou, para cerimônias adicionais, confiarem naqueles que consideram mais sábios do que eles próprios.

E atribua a eles todos os eventos extraordinários.

Por fim, no que diz respeito a como esses Poderes Invisíveis revelam aos homens as coisas que hão de acontecer, especialmente no que se refere à sua boa ou má sorte em geral, ou ao seu sucesso ou insucesso em qualquer empreendimento particular, os homens naturalmente se encontram em um impasse; exceto pelo fato de que, acostumados a conjecturar sobre o futuro, com base no passado, eles são muito propensos não apenas a tomar eventos casuais, após um ou dois encontros, como prognósticos de encontros semelhantes no futuro, mas também a acreditar em prognósticos semelhantes vindos de outros homens, dos quais já formaram uma boa opinião.

Quatro Coisas, Sementes Naturais da Religião

E nestas quatro coisas — crença em fantasmas, ignorância de causas secundárias, devoção ao que os homens temem e tomada de eventos casuais como prognósticos — consiste a semente natural da religião; a qual, em razão das diferentes fantasias, julgamentos e paixões de vários homens, cresceu em cerimônias tão diversas que aquelas usadas por um homem são, em sua maioria, ridículas para outro.

Transformados pela cultura

Pois essas sementes foram cultivadas por dois tipos de homens. Um tipo foi aquele que as nutriu e ordenou segundo sua própria invenção. O outro o fez por mandamento e direção de Deus; mas ambos os tipos o fizeram com o propósito de tornar aqueles que confiaram nelas mais propensos à obediência, às leis, à paz, à caridade e à sociedade civil. Assim, a religião do primeiro tipo é parte da política humanitária e ensina parte do dever que os reis terrenos exigem de seus súditos. E a religião do segundo tipo é a política divina e contém preceitos para aqueles que se entregaram como súditos no Reino de Deus. Do primeiro tipo foram todos os fundadores das comunidades e os legisladores dos gentios; do segundo tipo foram Abraão, Moisés e nosso bendito Salvador, por meio dos quais nos foram transmitidas as leis do Reino de Deus.

A opinião absurda do gentilismo

E quanto à parte da religião que consiste em opiniões sobre a natureza dos poderes invisíveis, quase nada que tenha um nome não tenha sido considerado, entre os gentios, em um lugar ou outro, um Deus ou divindade; ou por seus poetas fingido ser inanimado, habitado ou possuído por algum espírito.

A matéria informe do Mundo era um Deus, chamado Caos.

O Céu, o Oceano, os Planetas, o Fogo, a Terra, os Ventos, eram tantos Deuses.

Homens, mulheres, um pássaro, um crocodilo, um bezerro, um cão, uma cobra, uma cebola, um alho-poró, todos deificados. Além disso, eles povoaram quase todos os lugares com espíritos chamados demônios; as planícies, com Pã e ​​Panises, ou sátiros; as florestas, com cervos e ninfas; o mar, com tritões e outras ninfas; cada rio e fonte, com um fantasma com seu nome e com ninfas; cada casa, com seus lares ou familiares; cada homem, com seu gênio; o inferno, com fantasmas e oficiais espirituais, como Caronte, Cérbero e as Fúrias; e à noite, todos os lugares com larvas, lêmures, fantasmas de homens falecidos e um reino inteiro de fadas e bichos-papões. Eles também atribuíram divindade e construíram templos a meros acidentes e qualidades; tais como Tempo, Noite, Dia, Paz, Concórdia, Amor, Contenda, Virtude, Honra, Saúde, Ferrugem, Febre e similares; os quais, quando oravam por eles ou contra eles, invocavam como se houvesse fantasmas com esses nomes pairando sobre suas cabeças, concedendo ou negando o Bem ou o Mal pelo qual oravam ou contra o qual oravam. Invocavam também sua própria inteligência, sob o nome de Musas; sua própria ignorância, sob o nome de Fortuna; sua própria luxúria, sob o nome de Cupido; sua própria raiva, sob o nome de Fúrias; seus próprios órgãos genitais, sob o nome de Príapo; e atribuíam suas impurezas a Íncubos e Súcubas: de tal forma que não havia nada que um poeta pudesse introduzir como pessoa em seu poema que eles não transformassem em um Deus ou um Diabo.

Os mesmos autores de A Religião dos Gentios, observando o segundo fundamento da religião, que é a ignorância dos homens quanto às causas; e, portanto, sua propensão a atribuir sua fortuna a causas das quais não havia nenhuma dependência aparente, aproveitaram-se dessa ignorância para, em vez de causas secundárias, impor uma espécie de deuses secundários e auxiliares; atribuindo a causa da fertilidade a Vênus; a causa das artes a Apolo; da sutileza e da astúcia a Mercúrio; das tempestades e vendavais a Éolo; e de outros efeitos a outros deuses: de modo que havia entre os pagãos quase tanta variedade de deuses quanto de funções.

E ao culto que os homens naturalmente consideravam apropriado para seus deuses, ou seja, oferendas, orações, agradecimentos e o restante mencionado anteriormente, os mesmos legisladores dos gentios acrescentaram suas imagens, tanto em pinturas quanto em esculturas, para que os mais ignorantes (isto é, a maior parte ou generalidade do povo), pensando que os deuses para cuja representação elas foram feitas estavam realmente incluídos e, por assim dizer, alojados dentro delas, pudessem temê-las ainda mais. E as dotaram de terras, casas, oficiais e rendas, separadas de todos os outros usos humanos; isto é, consagraram e santificaram aqueles a esses seus ídolos, como cavernas, bosques, florestas, montanhas e ilhas inteiras; e atribuíram a elas não apenas as formas, algumas de homens, algumas de animais, algumas de monstros, mas também as faculdades e paixões de homens e animais. como os Sentidos, a Fala, o Sexo, a Luxúria, a Geração (e isso não apenas pela mistura uns com os outros, para propagar a espécie dos Deuses; mas também pela mistura com homens e mulheres, para gerar Deuses mestiços, e não apenas habitantes do Céu, como Baco, Hércules e outros); além disso, a Ira, a Vingança e outras paixões das criaturas vivas, e as ações que delas procedem, como a Fraude, o Roubo, o Adultério, a Sodomia e qualquer vício que possa ser tomado como um efeito do Poder ou uma causa do Prazer; e todos esses Vícios, que entre os homens são considerados contra a Lei, em vez de contra a Honra.

Por fim, às Prognosticações do tempo vindouro, que são, naturalmente, apenas Conjecturas baseadas na Experiência do tempo passado e na Revelação divina sobrenatural, os mesmos autores da Religião dos Gentios, em parte baseados em pretensa Experiência, em parte em pretensa Revelação, acrescentaram inúmeras outras formas supersticiosas de Adivinhação, fazendo os homens acreditarem que encontrariam sua sorte, às vezes nas respostas ambíguas ou sem sentido dos sacerdotes de Delfos, Delos, Amon e outros oráculos famosos; respostas essas que eram propositalmente ambíguas para contemplar o evento de ambas as maneiras, ou absurdas devido ao vapor inebriante do local, muito frequente em cavernas sulfurosas; às vezes nas folhas das Sibilas. De cujas profecias (talvez como as de Nostradamus; pois os fragmentos que restam parecem ser invenção de tempos posteriores) havia alguns livros de renome na época da República Romana: às vezes nos discursos insignificantes de loucos, supostamente possuídos por um espírito divino; possessão essa que chamavam de Entusiasmo; e esse tipo de predição de eventos era considerado Teomancia ou Profecia; às vezes no aspecto das estrelas em seu nascimento; o que era chamado de Horóscopo e estimado como parte da Astrologia judicial; às vezes em suas próprias esperanças e medos, chamado de Tumomancia ou Presságio; às vezes na predição de bruxas, que fingiam ter contato com os mortos; o que é chamado de Necromancia, Feitiçaria e Bruxaria; e não passa de charlatanismo e trapaça conivente; às vezes no voo casual ou na alimentação de pássaros; chamado de Augúrio; às vezes nas traições de um animal sacrificado; que era Aruspicina: às vezes em sonhos; às vezes no grasnar dos corvos ou no chilrear dos pássaros; às vezes nos traços do rosto, o que era chamado de metoposcopia; ou pela quiromancia, nas linhas da mão; em palavras casuais, chamadas Omina; às vezes em monstros ou acidentes incomuns, como eclipses, cometas, meteoros raros, terremotos, inundações, nascimentos estranhos e coisas semelhantes, que chamavam de Portenta e Ostenta, porque pensavam que pressagiavam ou prenunciavam alguma grande calamidade futura; às vezes, em simples loterias, como a cruz e a pilha; contando buracos em uma peneira; citando versos de Homero e Virgílio; e inúmeras outras vãs ideias. Tão fácil é levar os homens a acreditar em qualquer coisa vinda de pessoas que conquistaram sua credibilidade e que, com gentileza e destreza, conseguem manipular seu medo e ignorância.

Os desígnios dos autores da religião pagã. E, portanto, os primeiros fundadores e legisladores de comunidades entre os gentios, cujo único objetivo era manter o povo em obediência e paz, em todos os lugares se preocuparam em: primeiro, incutir em suas mentes a crença de que os preceitos que davam a respeito da religião não deveriam ser considerados fruto de sua própria invenção, mas sim dos ditames de algum Deus ou outro espírito; ou então que eles próprios eram de natureza superior à dos meros mortais, para que suas leis pudessem ser mais facilmente aceitas. Assim, Numa Pompílio fingiu receber as cerimônias que instituiu entre os romanos da ninfa Egéria; e o primeiro rei e fundador do reino do Peru fingiu a si mesmo e à sua esposa serem filhos do Sol; e Maomé, para estabelecer sua nova religião, fingiu ter encontros com o Espírito Santo, na forma de uma pomba. Em segundo lugar, eles se preocuparam em fazer crer que as mesmas coisas proibidas pelas leis desagradavam aos deuses. Em terceiro lugar, prescreveram cerimônias, súplicas, sacrifícios e festivais pelos quais, acreditava-se, a ira dos deuses poderia ser aplacada; e que o insucesso na guerra, as grandes epidemias, os terremotos e a miséria pessoal de cada homem provinham da ira dos deuses; e a ira destes, da negligência em seu culto, ou do esquecimento ou interpretação errônea de algum ponto das cerimônias exigidas. E embora entre os antigos romanos não fosse proibido negar o que os poetas descreviam sobre as dores e os prazeres após esta vida, que diversas figuras de grande autoridade e importância nesse estado ridicularizaram abertamente em seus discursos, essa crença sempre foi mais acalentada do que a contrária.

E por meio dessas e de outras instituições, eles conseguiram, para atingir seu objetivo (que era a paz da República), que o povo comum, em seus infortúnios, atribuindo a culpa à negligência ou ao erro em suas cerimônias, ou à sua própria desobediência às leis, fosse menos propenso a se amotinar contra seus governantes. E, sendo entretidos com a pompa e os passatempos de festivais e festas populares, realizadas em honra aos deuses, nada mais precisavam além do pão para evitar o descontentamento, a murmuração e a comoção contra o Estado. E, portanto, os romanos, que haviam conquistado a maior parte do mundo então conhecido, não tinham escrúpulos em tolerar qualquer religião na própria cidade de Roma, a menos que ela contivesse algo que não fosse compatível com seu governo civil; nem lemos que qualquer religião fosse proibida ali, exceto a dos judeus. que (sendo o peculiar Reino de Deus) considerava ilícito reconhecer a submissão a qualquer rei ou Estado mortal. E assim se vê como a religião dos gentios fazia parte de sua política.

A Verdadeira Religião e as Leis do Reino de Deus São as Mesmas. Mas onde o próprio Deus, por meio da Revelação sobrenatural, estabeleceu a Religião, ali Ele também criou para Si um Reino peculiar e deu Leis, não apenas de conduta para consigo mesmo, mas também para com os outros; e, portanto, no Reino de Deus, a Política e as Leis Civis são parte da Religião; e, consequentemente, a distinção entre Dominação Temporal e Espiritual não tem lugar ali. É verdade que Deus é Rei de toda a Terra; contudo, Ele pode ser Rei de uma Nação peculiar e escolhida. Pois não há mais incongruência nisso do que aquele que tem o comando geral de todo o Exército ter, ao mesmo tempo, um Regimento ou Companhia peculiar próprio. Deus é Rei de toda a Terra por Seu Poder; mas de Seu povo escolhido, Ele é Rei por Aliança. Mas, para falar mais amplamente sobre o Reino de Deus, tanto por Natureza quanto por Aliança, reservei outro lugar no discurso seguinte.

As causas da mudança na religião

A partir da propagação da religião, não é difícil compreender as causas de sua resolução em suas primeiras sementes ou princípios; que são apenas a opinião de uma divindade e de poderes invisíveis e sobrenaturais; que jamais poderão ser abolidos por natureza humana, a menos que novas religiões possam surgir a partir deles, por meio da formação de homens que tenham reputação para tal propósito.

Pois, como toda religião formada se fundamenta, em primeiro lugar, na fé que uma multidão deposita em uma única pessoa, a quem acreditam ser não apenas um homem sábio e trabalhador em busca de sua felicidade, mas também um homem santo, a quem o próprio Deus se digna revelar sua vontade sobrenaturalmente, segue-se necessariamente que, quando aqueles que detêm o governo da religião tiverem sua sabedoria, sinceridade ou amor questionados, ou quando forem incapazes de demonstrar qualquer sinal provável de revelação divina, a religião que desejam defender também será suspeita e (sem o temor da espada civil) contradita e rejeitada.

Apreciando a Beleefe das Impossibilidades

O que tira a reputação de sabedoria daquele que forma uma religião, ou acrescenta algo a ela quando já está formada, é a crença em contradições: pois ambas as partes de uma contradição não podem ser verdadeiras; portanto, acreditar nelas é um argumento de ignorância, que expõe o autor e o descredita em tudo o mais que ele propuser como revelação sobrenatural, revelação essa que um homem pode, de fato, ter de muitas coisas celestiais, mas de nada que contrarie a razão natural.

Agindo contrariamente à religião que eles estabelecem.

O que destrói a reputação de sinceridade é a prática ou a declaração de tais coisas que parecem ser sinais de que aquilo que exigem que outros acreditem não é acreditado por eles mesmos; todas essas práticas ou declarações são, portanto, chamadas de escandalosas, porque são pedras de tropeço que fazem os homens tropeçarem no caminho da religião: tais como a injustiça, a crueldade, a profanação, a avareza e o luxo. Pois quem pode acreditar que aquele que pratica habitualmente tais ações, que procedem de qualquer uma dessas raízes, acredite que exista um poder invisível a ser temido, com o qual ele assusta os outros por faltas menores?

O que destrói a reputação do Amor é ser flagrado com fins privados: como quando a crença que se exige dos outros leva, ou parece levar, à aquisição de domínio, riquezas, dignidade ou prazer seguro, somente para si mesmos ou de forma especial. Pois aquilo de que os homens colhem benefícios para si mesmos é considerado como algo que fazem por seu próprio interesse, e não por amor aos outros.

Falta do Testemunho de Milagres

Por fim, o testemunho que os homens podem dar da vocação divina não pode ser outro senão a operação de milagres; ou a verdadeira profecia (que também é um milagre); ou a felicidade extraordinária. Portanto, aos pontos da religião que foram recebidos daqueles que realizaram tais milagres, aqueles que são acrescentados por aqueles que não comprovam sua vocação por meio de algum milagre não obtêm maior crença do que aquela que os costumes e as leis dos lugares em que foram educados lhes incutiram. Pois, assim como nas coisas naturais os homens de juízo requerem sinais e argumentos naturais, também nas coisas sobrenaturais requerem sinais sobrenaturais (que são milagres) antes de consentirem interiormente e de coração.

Todas as causas do enfraquecimento da fé humana se manifestam claramente nos exemplos a seguir. Primeiro, temos o exemplo dos filhos de Israel, que, quando Moisés, que havia comprovado seu chamado por meio de milagres e pela feliz conduta deles ao saírem do Egito, esteve ausente por apenas 40 dias, se rebelou contra a adoração ao verdadeiro Deus, que lhes fora recomendado por ele; e, erguendo (Êxodo 32:1,2) um bezerro de ouro para o seu Deus, recaíram na idolatria dos egípcios, dos quais haviam sido libertados tão recentemente. E novamente, depois que Moisés, Arão, Josué e aquela geração que havia testemunhado as grandes obras de Deus em Israel (Juízes 2:11) morreram, outra geração surgiu e serviu a Baal. Assim, com o fracasso dos milagres, a fé também falhou.

Novamente, quando os filhos de Samuel (1 Samuel 8:3), constituídos por seus pais juízes em Bersebe, aceitaram subornos e julgaram injustamente, o povo de Israel recusou-se a ter Deus como seu Rei, de maneira diferente da que Ele era Rei de outros povos; e, portanto, clamou a Samuel para que lhes escolhesse um Rei segundo o costume das nações. Assim, falhando a Justiça, também falhou a Fé, visto que depuseram seu Deus, impedindo-o de reinar sobre eles.

E considerando que, com o estabelecimento da religião cristã, os oráculos cessaram em todas as partes do Império Romano, e o número de cristãos aumentou maravilhosamente a cada dia e em todos os lugares, pela pregação dos apóstolos e evangelistas; grande parte desse sucesso pode ser razoavelmente atribuída ao desprezo que os sacerdotes dos gentios daquela época haviam incorrido por sua impureza, avareza e intrigas entre os príncipes. Além disso, a religião da Igreja de Roma foi parcialmente abolida na Inglaterra e em muitas outras partes da cristandade pela mesma razão, visto que a falta de virtude nos pastores faz com que a fé falhe no povo; e em parte pela introdução da filosofia e doutrina de Aristóteles na religião pelos escolásticos, de onde surgiram tantas contradições e absurdos que deram ao clero a reputação tanto de ignorância quanto de intenções fraudulentas; e inclinaram as pessoas a revoltarem-se contra eles, seja contra a vontade dos seus próprios príncipes, como na França e na Holanda; seja a favor da sua vontade, como na Inglaterra.

Por fim, entre os pontos declarados pela Igreja de Roma como necessários para a Salvação, há tantos, manifestamente vantajosos para o Papa e seus súditos espirituais, residentes nos territórios de outros príncipes cristãos, que, não fosse a mútua emulação desses príncipes, poderiam, sem guerra ou dificuldade, excluir toda autoridade estrangeira, tão facilmente quanto foi excluída na Inglaterra. Pois quem não vê, para o benefício de quem isso conduz, que se acredite que um rei não tem autoridade de Cristo, a menos que um bispo o coroe? Que um rei, se for sacerdote, não pode casar? Que o fato de um príncipe ter nascido em casamento legítimo ou não deve ser julgado pela autoridade de Roma? Que os súditos podem ser libertados de sua lealdade se, pela Corte de Roma, o rei for considerado herege? Que um rei (como Chilperique da França) pode ser deposto por um Papa (como o Papa Zacarias) sem motivo algum, e seu reino entregue a um de seus súditos? Que o clero e os membros regulares, em qualquer país, estejam isentos da jurisdição de seu rei em casos criminais? Ou quem não vê a quem rendem as taxas de missas privadas e vales do purgatório, com outros sinais de interesse privado, suficientes para mortificar a fé mais viva, se (como eu disse) o magistrado civil e o costume não a sustentassem mais do que qualquer opinião que tenham da santidade, sabedoria ou probidade de seus mestres? De modo que posso atribuir todas as mudanças de religião no mundo a uma única causa: sacerdotes desagradáveis; e não apenas entre os católicos, mas também naquela Igreja que mais se presenciou na Reforma.

CAPÍTULO XIII.
DA CONDIÇÃO NATURAL DA HUMANIDADE, NO QUE DIZ RESPEITO À SUA FELICIDADE E MISÉRIA

A natureza fez os homens tão iguais, nas faculdades do corpo e da mente, que, embora às vezes se encontre um homem manifestamente mais forte fisicamente ou mais ágil mentalmente do que outro, quando tudo é considerado em conjunto, a diferença entre os homens não é tão considerável a ponto de um poder reivindicar para si qualquer vantagem que outro não possa reivindicar da mesma forma. Pois, quanto à força física, o mais fraco tem força suficiente para matar o mais forte, seja por meio de maquinações secretas, seja por conluio com outros que estejam em perigo semelhante.

E quanto às faculdades da mente (deixando de lado as artes baseadas em palavras, e especialmente aquela habilidade de proceder segundo regras gerais e infalíveis, chamada Ciência; que muito poucos possuem, e apenas em poucas coisas; por não ser uma faculdade inata, com a qual nascemos; nem adquirida (como a Prudência), enquanto buscamos algo mais), encontro ainda uma igualdade maior entre os homens do que a de força. Pois a Prudência nada mais é do que Experiência; que o tempo, igualmente, concede a todos os homens, naquilo a que se dedicam igualmente. O que talvez torne tal igualdade inacreditável é apenas uma vã presunção da própria sabedoria, que quase todos os homens pensam possuir em maior grau do que o vulgo; isto é, do que todos os homens, exceto eles mesmos e alguns outros, a quem aprovam pela fama ou por concordarem consigo mesmos. Pois tal é a natureza dos homens, que por mais que reconheçam que muitos outros são mais espirituosos, mais eloquentes ou mais instruídos; Contudo, dificilmente acreditarão que existam muitos tão sábios quanto eles próprios, pois veem sua própria inteligência ao alcance e a dos outros à distância. Mas isso prova, antes, que os homens são iguais nesse aspecto, e não desiguais. Pois não há, normalmente, sinal maior da distribuição igualitária de qualquer coisa do que o fato de cada um estar contente com a sua parte.

Da igualdade provém a desconfiança

Dessa igualdade de capacidade surge a igualdade de esperança na conquista de nossos fins. Portanto, se dois homens desejam a mesma coisa, que, no entanto, ambos não podem desfrutar, tornam-se inimigos; e, no caminho para seu fim (que é principalmente sua própria preservação, e às vezes apenas seu deleite), procuram destruir ou subjugar um ao outro. E daí resulta que, onde um invasor não tem mais a temer do que o poder individual de outro homem, se alguém planta, semeia, constrói ou possui um local conveniente, outros provavelmente virão preparados com forças unidas para desapossá-lo e privá-lo não apenas do fruto de seu trabalho, mas também de sua vida ou liberdade. E o invasor, por sua vez, corre o mesmo perigo diante de outro.

Da Guerra da Desconfiança

E dessa desconfiança mútua, não há maneira mais razoável para um homem se assegurar do que a Antecipação; isto é, pela força ou por artimanhas, dominar a pessoa de todos os homens que puder, até que não veja outro poder suficientemente grande para ameaçá-lo. E isso não é mais do que sua própria conservação exige, e é geralmente permitido. Também porque há alguns que, encontrando prazer em contemplar seu próprio poder nos atos de conquista, os levam além do que sua segurança exige; se outros, que de outra forma se contentariam em viver em paz dentro de limites modestos, não aumentassem seu poder por meio de invasões, não seriam capazes, por muito tempo, de subsistir apenas se defendendo. E, por consequência, sendo tal aumento de domínio sobre os homens necessário à conservação de um homem, deve-se permitir que ele o faça.

Novamente, os homens não têm prazer (mas, pelo contrário, muita tristeza) em manter uma companhia onde não há poder capaz de intimidá-los a todos. Pois cada homem espera que seu companheiro o valorize na mesma medida que se valoriza; e diante de todos os sinais de desprezo ou desvalorização, naturalmente se esforça, na medida em que ousa (o que, entre aqueles que não têm poder comum para mantê-los em paz, é suficiente para fazê-los se destruírem mutuamente), para extorquir um valor maior de seus desprezadores, por meio de danos; e dos outros, pelo exemplo.

Assim, na natureza humana, encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a timidez; terceiro, a glória.

O primeiro motivo leva os homens a invadir por ganho; o segundo, por segurança; e o terceiro, por reputação. O primeiro usa a violência para se tornar senhor de outras pessoas, esposas, filhos e animais; o segundo, para defendê-los; o terceiro, por ninharias, como uma palavra, um sorriso, uma opinião diferente e qualquer outro sinal de desprezo, seja direto em suas pessoas, seja por reflexo em seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome.

Em estados civis, sempre há guerra de todos contra todos.

Por meio disso, fica manifesto que, durante o tempo em que os homens vivem sem um Poder comum que os mantenha a todos em temor, eles se encontram na condição que se chama Guerra; e uma guerra de cada homem contra cada homem. Pois a GUERRA não consiste apenas na batalha ou no ato de lutar, mas em um período de tempo no qual a vontade de contender por meio da batalha é suficientemente conhecida; e, portanto, a noção de Tempo deve ser considerada na natureza da Guerra, assim como na natureza do Tempo. Pois, assim como a natureza do mau tempo não reside em uma ou duas pancadas de chuva, mas em uma propensão a elas por muitos dias seguidos, assim também a natureza da Guerra não consiste no combate em si, mas na conhecida disposição para ele, durante todo o tempo em que não há garantia em contrário. Todo o resto do tempo é PAZ.

As desvantagens de uma guerra desse tipo

Tudo o que resulta de um tempo de guerra, onde cada homem é inimigo de cada homem, resulta de um tempo em que os homens vivem sem outra segurança além daquela que sua própria força e invenção lhes proporcionam. Em tal condição, não há lugar para a indústria, porque seu fruto é incerto; e, consequentemente, não há cultivo da terra; nem navegação, nem uso das mercadorias que podem ser importadas por mar; nem construções confortáveis; nem instrumentos para mover e remover coisas que exigem muita força; nenhum conhecimento da face da Terra; nenhuma noção de tempo; nenhuma arte; nenhuma letra; nenhuma sociedade; e o pior de tudo, o medo constante e o perigo de morte violenta; e a vida do homem, solitária, pobre, sórdida, brutal e curta.

Pode parecer estranho a algum homem, que não tenha ponderado bem essas coisas, que a Natureza se dissocie dessa maneira, tornando os homens propensos a invadir e destruir uns aos outros; e ele pode, portanto, não confiando nessa inferência feita a partir das paixões, desejar talvez que a mesma seja confirmada pela experiência. Considere, então, que ao viajar, ele se arma e procura ir bem acompanhado; ao dormir, ele tranca as portas; mesmo em casa, ele tranca os cofres; e isso quando ele sabe que há leis e oficiais públicos armados, prontos para vingar todas as ofensas que lhe forem feitas; qual a opinião que ele tem de seus concidadãos quando viaja armado; de seus concidadãos quando tranca as portas; e de seus filhos e servos quando tranca os cofres. Não acusa ele, com suas ações, tanto quanto eu com minhas palavras? Mas nenhum de nós acusa a natureza humana nisso. Os desejos e outras paixões do homem não são, em si mesmos, pecado. As ações que procedem dessas paixões não existem mais até que se conheça uma lei que as proíba; o que elas não podem conhecer até que leis sejam feitas; e nenhuma lei pode ser feita até que se tenha concordado sobre a pessoa que a fará.

Pode-se pensar que nunca houve um tempo ou uma condição de guerra como esta; e creio que nunca foi assim em todo o mundo. Mas há muitos lugares onde as pessoas vivem assim agora. Pois os povos primitivos em muitas partes da América, exceto pelo governo de pequenas famílias, cuja harmonia depende da luxúria natural, não têm governo algum e vivem hoje dessa maneira brutal, como eu disse antes. Seja como for, pode-se perceber que tipo de vida haveria onde não houvesse um poder comum a temer, pela maneira como os homens que antes viviam sob um governo pacífico costumam degenerar em uma guerra civil.

Mas, embora nunca tenha havido um tempo em que homens particulares estivessem em guerra uns contra os outros, em todos os tempos, reis e pessoas com autoridade soberana, por causa de sua independência, estão em constante rivalidade e na postura de gladiadores, com suas armas apontadas e os olhos fixos uns nos outros; isto é, seus fortes, guarnições e canhões nas fronteiras de seus reinos, e espiões constantes sobre seus vizinhos; o que é uma postura de guerra. Mas, como isso sustenta o trabalho de seus súditos, não resulta da miséria que acompanha a liberdade individual.

Em uma guerra como essa, nada é injusto.

A esta guerra de todos contra todos, decorre também o seguinte: nada pode ser injusto. As noções de certo e errado, justiça e injustiça, não têm lugar. Onde não há poder comum, não há lei; onde não há lei, não há injustiça. Força e fraude são, em guerra, as duas virtudes cardinais. Justiça e injustiça não são faculdades do corpo nem da mente. Se o fossem, poderiam estar presentes num homem sozinho no mundo, assim como seus sentidos e paixões. São qualidades que se relacionam aos homens em sociedade, não na solidão. Decorre também dessa mesma condição que não há propriedade, domínio, distinção entre "meu" e "teu"; mas apenas o que cada um pode obter e manter. E assim se resume a má condição em que o homem, por sua própria natureza, se encontra, embora com a possibilidade de sair dela, que consiste em parte nas paixões, em parte na razão.

As paixões que inclinam os homens à paz.

As paixões que inclinam os homens à paz são o medo da morte, o desejo por coisas necessárias a uma vida confortável e a esperança de obtê-las por meio do trabalho. E a razão sugere artigos convenientes de paz, pelos quais os homens podem ser levados a um acordo. Esses artigos são também conhecidos como as Leis da Natureza, sobre as quais falarei mais detalhadamente nos dois capítulos seguintes.

CAPÍTULO XIV.
DA PRIMEIRA E DA SEGUNDA LEIS NATURAIS E DOS CONTRATOS

Direito da Natureza O quê?

O DIREITO DA NATUREZA, que os escritores geralmente chamam de Jus Naturale, é a liberdade que cada homem tem de usar seu próprio poder, como bem entender, para a preservação de sua própria natureza; isto é, de sua própria vida; e, consequentemente, de fazer qualquer coisa que, em seu próprio julgamento e razão, considere o meio mais adequado para tal.

Liberdade O quê?

Por LIBERDADE, entende-se, segundo o significado próprio da palavra, a ausência de impedimentos externos: impedimentos esses que, muitas vezes, podem diminuir em parte a capacidade do homem de fazer o que deseja, mas não podem impedi-lo de usar a capacidade que lhe resta, conforme seu juízo e a razão lhe ditarem.

Uma lei da natureza. O quê?

Uma lei da natureza (Lex Naturalis) é um preceito, ou regra geral, descoberta pela razão, pela qual é proibido ao homem fazer aquilo que destrói sua vida ou lhe tira os meios de preservá-la; e omitir aquilo que ele considera ser o melhor meio de preservá-la. Pois, embora aqueles que falam sobre este assunto costumem confundir Jus e Lex, Direito e Lei, eles devem ser distinguidos; porque o DIREITO consiste na liberdade de fazer ou de se abster; enquanto a LEI determina e obriga a uma delas: de modo que a Lei e o Direito diferem tanto quanto a Obrigação e a Liberdade, que, em um mesmo princípio, são incompatíveis.

Naturalmente, todo homem tem direito a tudo.

E porque a condição do Homem (como foi declarado no capítulo anterior) é uma condição de guerra de todos contra todos; caso em que cada um é governado pela sua própria razão; e não há nada que ele possa usar que não lhe seja útil para preservar a sua vida contra os seus inimigos; segue-se que, em tal condição, todo homem tem direito a tudo; até mesmo ao corpo do outro. E, portanto, enquanto este direito natural de cada homem a tudo perdurar, não pode haver segurança para nenhum homem (por mais forte ou sábio que seja) de viver o tempo que a Natureza normalmente permite aos homens viverem.

A Lei Fundamental da Natureza

E, consequentemente, é um preceito, ou regra geral da Razão, que “todo homem deve esforçar-se pela paz, na medida em que tiver esperança de obtê-la; e quando não puder obtê-la, que busque e utilize todos os auxílios e vantagens da guerra”. O primeiro ramo dessa regra contém a primeira e fundamental lei da natureza, que é: “Buscar a paz e segui-la”. O segundo, a síntese do direito da natureza, que é: “Por todos os meios ao nosso alcance, defender-nos”.

A Segunda Lei da Natureza

Dessa Lei Fundamental da Natureza, pela qual os homens são ordenados a buscar a Paz, deriva-se esta segunda Lei: “Que o homem esteja disposto, quando os outros também o estiverem, a renunciar a esse direito sobre todas as coisas, tanto quanto julgar necessário para a Paz e a sua própria defesa; e a contentar-se com tanta liberdade contra os outros homens quanto permitiria que os outros homens tivessem sobre si mesmo.” Pois enquanto cada homem mantiver esse Direito de fazer o que bem entender, todos os homens estarão em estado de Guerra. Mas se os outros homens não renunciarem ao seu Direito, assim como ele, então não há Razão para que alguém se despoje do seu: pois isso seria expor-se à Presa (à qual ninguém está obrigado) em vez de dispor-se à Paz. Esta é a Lei do Evangelho: “Tudo o que vocês querem que os outros façam a vocês, façam também a eles.” E esta é a Lei de todos os homens: “Quod tibi feiri non vis, alteri ne feceris.”

O que significa estabelecer um direito?

Renunciar ao direito de alguém a qualquer coisa é privar-se da liberdade de impedir que outro usufrua do seu próprio direito à mesma coisa. Pois aquele que renuncia ou abdica do seu direito não concede a outro um direito que ele próprio não possuía antes; porque não há nada a que todo homem não tenha direito por natureza: mas apenas se retira do seu caminho para que ele possa desfrutar do seu direito original, sem impedimento da sua parte, e não sem impedimento de outro. Assim, o efeito que reverte para um homem, pela falta de direito de outro, é apenas uma diminuição dos impedimentos ao exercício do seu próprio direito original.

Renunciar (ou) Transferir Direito O quê; Obrigação Dever Injustiça

O direito é deixado de lado, seja simplesmente renunciando a ele, seja transferindo-o para outrem. Renunciando simplesmente, quando não importa a quem o benefício dele recaia. Transferindo, quando se destina o benefício a uma pessoa ou pessoas específicas. E quando um homem, de qualquer uma dessas maneiras, abandona ou cede seu direito, diz-se que ele é obrigado a não impedir que aqueles a quem tal direito foi concedido ou abandonado usufruam dele; e que ele deve, e é seu dever, não anular esse ato voluntário; e que tal impedimento é injustiça e dano, por ser algo incontestável, já que o direito foi renunciado ou transferido anteriormente. Assim, a injustiça, nas controvérsias do mundo, é de certa forma semelhante àquilo que, nas disputas dos estudiosos, é chamado de absurdo. Pois, assim como lá se chama de Absurdo contradizer o que se sustentou no princípio, no mundo se chama de Injustiça e Dano desfazer voluntariamente aquilo que se fez voluntariamente desde o princípio. A maneira pela qual um homem simplesmente renuncia ou transfere seu direito é por meio de uma declaração ou significação, através de algum sinal voluntário e suficiente, de que ele renuncia ou transfere tal direito, ou o renunciou ou transferiu para aquele que o aceita. E esses sinais são apenas palavras, apenas ações ou (como acontece com mais frequência) ambas. E esses são os laços pelos quais os homens estão presos e obrigados: laços que têm sua força não em sua própria natureza (pois nada se quebra mais facilmente do que a palavra de um homem), mas no medo de alguma consequência maligna caso sejam rompidos.

Nem todos os direitos são alienáveis.

Sempre que um homem transfere ou renuncia a um direito, é em consideração a algum direito reciprocamente transferido a si mesmo, ou por algum outro bem que espera obter com isso. Pois é um ato voluntário; e o objetivo dos atos voluntários de todo homem é algum bem para si mesmo. Portanto, existem alguns direitos que ninguém pode inferir, por meio de palavras ou outros sinais, que tenha abandonado ou transferido. Por exemplo, um homem não pode renunciar ao direito de resistir àqueles que o atacam com força para lhe tirar a vida, porque não se pode inferir que ele esteja dizendo, com isso, que busca algum bem para si mesmo. O mesmo se pode dizer de ferimentos, correntes e prisões; tanto porque não há benefício consequente a tal paciência, como há na paciência de suportar que outro seja ferido ou preso, quanto porque um homem não pode saber, quando vê homens agindo contra ele com violência, se pretendem matá-lo ou não. E, por fim, o motivo e o fim para os quais essa renúncia e transferência de direito são introduzidas não é outro senão a segurança da pessoa do homem, em sua vida, e nos meios de preservá-la de modo a não se cansar dela. Portanto, se um homem, por meio de palavras ou outros sinais, parece se privar do fim para o qual esses sinais foram intencionados, não se deve entender que ele o fez intencionalmente ou que essa era sua vontade, mas sim que desconhecia como tais palavras e ações deveriam ser interpretadas.

Contrato O quê

A transferência mútua de direitos é o que os homens chamam de CONTRATO.

Há diferença entre a transferência do direito sobre a coisa e a transferência, ou transmissão, isto é, a entrega da própria coisa. Pois a coisa pode ser entregue juntamente com a transmissão do direito, como na compra e venda à vista, ou na troca de mercadorias ou terras, e pode ser entregue algum tempo depois.

Aliança O quê

Novamente, um dos contratantes pode entregar o bem contratado de sua parte e deixar que o outro cumpra sua parte em algum momento determinado posteriormente, sendo que, nesse ínterim, o contrato da parte deste é chamado de PACTO ou CONVÊNIO. Ou ambas as partes podem contratar agora para cumprir posteriormente: nesses casos, aquele que deve cumprir no futuro, sendo confiável, tem seu cumprimento chamado de Cumprimento da Promessa ou Fé; e a falha no cumprimento (se for voluntária) é chamada de Violação da Fé.

Brinde

Quando a transferência de um direito não é mútua, mas uma das partes o transfere na esperança de obter amizade ou serviço da outra, ou de seus amigos; ou na esperança de obter reputação de caridade ou magnanimidade; ou para livrar sua mente da dor da compaixão; ou na esperança de recompensa no céu; isso não é um contrato, mas sim uma doação, uma dádiva gratuita, uma graça: palavras que significam a mesma coisa.

Assinaturas do Contrato Expressas

Os sinais de um contrato podem ser expressos ou implícitos. Os expressos são palavras proferidas com o entendimento do seu significado; e tais palavras podem se referir ao presente ou ao passado, como em "Eu dou", "Eu concedo", "Eu dei", "Eu concedi", "Eu quero que isto seja seu"; ou ao futuro, como em "Eu darei", "Eu concederei"; sendo que as palavras futuras são chamadas de promessa.

Sinais de contrato por inferência

Os sinais implícitos, por vezes, são consequência de palavras; por vezes, do silêncio; por vezes, de ações; por vezes, da omissão; e, em geral, um sinal implícito de qualquer contrato é tudo aquilo que demonstra suficientemente a vontade do contratante.

Dádiva gratuita passa por aqui. Palavras do presente ou do passado.

As palavras por si só, se forem referentes ao futuro e contiverem uma mera promessa, são um sinal insuficiente de uma dádiva gratuita e, portanto, não são obrigatórias. Pois, se forem referentes ao futuro, como "Amanhã darei", são um sinal de que ainda não dei e, consequentemente, de que meu direito não foi transferido, mas permanece até que eu o transfira por algum outro ato. Mas se as palavras forem referentes ao presente ou ao passado, como "Dei ou dou para ser entregue amanhã", então meu direito de amanhã é cedido hoje; e isso pela virtude das palavras, mesmo que não houvesse outro argumento da minha vontade. E há uma grande diferença no significado destas palavras, "Volos Hoc Tuum Esse Cras" e "Cros Dabo"; isto é, entre "Quero que isto seja teu amanhã" e "Darei a ti amanhã". Pois a expressão "Quero", no primeiro caso, significa um ato da vontade presente; Mas, neste último caso, significa uma promessa de um ato da vontade por vir; e, portanto, as primeiras palavras, sendo do presente, transferem um direito futuro; as últimas, que são do futuro, não transferem nada. Mas se houver outros sinais da vontade de transferir um direito, além das palavras, então, embora a dádiva seja gratuita, o direito pode ser entendido como sendo transmitido por palavras do futuro: como se um homem oferecesse um prêmio àquele que chegasse primeiro ao final de uma corrida. A dádiva é gratuita; e, embora as palavras sejam do futuro, o direito é transmitido: pois, se ele não quisesse que suas palavras fossem entendidas dessa forma, não as teria deixado correr.

Os sinais do contrato são palavras tanto do passado, presente e futuro. Nos contratos, o direito se transmite não apenas quando as palavras se referem ao presente ou ao passado, mas também quando se referem ao futuro, porque todo contrato é uma tradução mútua ou uma mudança de direito; e, portanto, aquele que promete apenas porque já recebeu o benefício pelo qual prometeu, deve ser entendido como se pretendesse que o direito se transmitisse: pois, a menos que ele estivesse disposto a que suas palavras fossem assim entendidas, a outra parte não teria cumprido sua parte primeiro. E por essa razão, na compra, venda e outros atos contratuais, uma promessa é equivalente a um pacto e, portanto, obrigatória.

Mérito O quê

Aquele que cumpre primeiro, no caso de um contrato, é considerado o que MERECE receber aquilo que receberá em virtude do cumprimento da obrigação do outro; e o recebe como devido. Da mesma forma, quando um prêmio é oferecido a muitos, sendo concedido apenas ao vencedor; ou quando dinheiro é distribuído entre muitos, para ser desfrutado por aqueles que o apanharem; embora isso seja uma dádiva gratuita; ainda assim, ganhar ou apanhar é merecer e recebê-lo como devido. Pois o direito é transferido na oferta do prêmio e no lançamento do dinheiro; embora não se determine a quem, mas sim pelo resultado da disputa. Mas há entre esses dois tipos de mérito a seguinte diferença: no contrato, eu mereço pela virtude do meu próprio poder e pela necessidade do contratante; mas, neste caso de dádiva gratuita, sou capacitado a merecer apenas pela benevolência do doador; no contrato, mereço, pelas mãos do contratante, que ele parta com o seu direito. Neste caso de dádiva, não mereço que o doador abra mão de seu direito, mas sim que, quando o fizer, seja meu, e não de outrem. E creio ser este o significado da distinção das escolas entre Meritum Congrui e Meritum Condigni. Pois Deus Todo-Poderoso, tendo prometido o Paraíso àqueles homens (enganados por desejos carnais) que conseguem trilhar este mundo segundo os preceitos e limites por Ele prescritos, dizem que aquele que assim trilhar merecerá o Paraíso Ex Congrui. Mas, como ninguém pode exigir o direito a ele por sua própria justiça ou qualquer outro poder em si mesmo, senão pela Graça Livre de Deus, dizem que ninguém pode merecer o Paraíso Ex Condigno. Digo que este é o significado dessa distinção; mas, como os debatedores não chegam a um acordo sobre o significado de seus próprios termos técnicos, enquanto lhes convier, não afirmarei nada de seu significado: apenas digo isto: Quando um presente é dado indefinidamente, como um prêmio a ser disputado, aquele que o ganha merece e pode reivindicar o prêmio como devido.

Cláusulas de confiança mútua, quando inválidas

Se um pacto for firmado, no qual nenhuma das partes o cumpre imediatamente, mas confiam uma na outra, no estado de mera natureza (que é um estado de guerra de todos contra todos), sob qualquer suspeita razoável, é válido. Mas se houver um poder comum sobre ambos, com direito e força suficientes para compelir o cumprimento, não é válido. Pois aquele que cumpre primeiro não tem garantia de que o outro cumprirá depois, porque os laços da palavra são muito frágeis para refrear a ambição, a avareza, a ira e outras paixões dos homens, sem o temor de algum poder coercitivo, o qual, no estado de mera natureza, onde todos os homens são iguais e juízes da justiça de seus próprios temores, não pode ser presumido. E, portanto, aquele que cumpre primeiro, apenas se entrega ao seu inimigo, contrariando o direito (que ele jamais pode abandonar) de defender sua vida e seus meios de subsistência.

Mas, no âmbito civil, onde existe um Poder instituído para coagir aqueles que, de outra forma, violariam sua fé, esse temor não é mais razoável; e, por essa razão, aquele que, segundo o Pacto, deve cumprir primeiro, é obrigado a fazê-lo.

A causa do medo, que invalida tal aliança, deve sempre ser algo que surge após a sua celebração; como algum fato novo ou outro sinal da vontade de não cumpri-la; caso contrário, não pode invalidar a aliança. Pois aquilo que não impede um homem de prometer não deve ser admitido como impedimento ao seu cumprimento.

Direito ao fim contém direito aos meios.

Aquele que transfere qualquer direito, transfere também os meios de desfrutá-lo, na medida em que estiver ao seu alcance. Assim como aquele que vende uma terra transfere a pastagem e tudo o que nela cresce; e aquele que vende um moinho não pode desviar a correnteza que o impulsiona. E aqueles que concedem a um homem o direito de governar em soberania, entendem que lhe conferem o direito de arrecadar dinheiro para sustentar soldados e de nomear magistrados para a administração da justiça.

Sem Pacto com as Feras

Fazer um pacto com bestas brutais é impossível, pois, não entendendo nossa linguagem, elas não entendem nem aceitam qualquer tradução do Direito, nem podem traduzir qualquer Direito para outro; e sem aceitação mútua, não há pacto.

Nem com Deus sem Revelação Especial

Fazer aliança com Deus é impossível, a não ser pela mediação daqueles a quem Deus fala, seja por revelação sobrenatural, seja por seus representantes que governam sob seu comando e em seu nome; pois, de outra forma, não sabemos se nossas alianças serão aceitas ou não. Portanto, aqueles que fazem votos contrários a qualquer lei da natureza, fazem votos em vão, pois seria injusto cumprir tal voto. E se for algo ordenado pela lei da natureza, não é o voto, mas a lei que os obriga.

Não um pacto, mas sim algo possível e futuro.

A matéria, ou objeto de um Pacto, é sempre algo que se enquadra na deliberação; (pois fazer um Pacto é um ato da Vontade; isto é, um ato, e o último ato, de deliberação;) e, portanto, é sempre entendido como algo que está por vir; e que é julgado possível para aquele que faz o Pacto, cumprir.

Portanto, prometer aquilo que se sabe ser impossível não constitui um pacto. Mas se, posteriormente, aquilo que antes era considerado possível se provar impossível, o pacto é válido e vincula (embora não à coisa em si), mas ao seu valor; ou, se isso também for impossível, ao esforço sincero de cumprir o máximo possível; pois ninguém pode ser obrigado a mais do que isso.

Pactos Como Voyd Foi Feito

Os homens são libertados de seus pactos de duas maneiras: cumprindo-os ou sendo perdoados. O cumprimento é o fim natural da obrigação, e o perdão, a restituição da liberdade, por ser uma retransferência daquele direito no qual consistia a obrigação.

Pactos extorquidos por Feare são válidos

Pactos firmados por medo, em estado de mera natureza, são obrigatórios. Por exemplo, se eu fizer um pacto para pagar um resgate ou prestar serviços em troca da minha vida a um inimigo, estou obrigado a cumpri-lo. Pois é um contrato no qual uma parte recebe o benefício da vida e a outra recebe dinheiro ou serviços em troca; e, consequentemente, onde nenhuma outra lei (como em estado de mera natureza) proíbe o cumprimento do pacto, ele é válido. Portanto, prisioneiros de guerra, se confiados com o pagamento de seu resgate, são obrigados a pagá-lo; e se um príncipe mais fraco fizer uma paz desvantajosa com um mais forte, por medo, ele é obrigado a cumpri-la, a menos que (como já foi dito) surja alguma nova e justa causa de medo para renovar a guerra. E mesmo em repúblicas, se eu for forçado a me redimir de um ladrão prometendo-lhe dinheiro, sou obrigado a pagá-lo até que a lei civil me liberte. Pois tudo o que eu posso fazer licitamente sem obrigação, isso eu posso pactuar licitamente por temor; e o que eu pactuar licitamente, não posso quebrar licitamente.

O Pacto Anterior para um, faz de Voyd o Pacto Posterior para outro.

Uma aliança anterior torna nula uma posterior. Pois um homem que hoje cede o seu direito a um homem, não o terá amanhã a outro; portanto, a promessa posterior não transmite nenhum direito, sendo, portanto, nula.

O pacto de um homem de não se defender é Voyd

Um pacto de não me defender da força, pela força, é sempre inválido. Pois (como já demonstrei) nenhum homem pode transferir ou renunciar ao seu direito de se salvar da morte, de ferimentos e da prisão (cujo único fim é renunciar a esses direitos), e, portanto, a promessa de não resistir à força, em nenhum pacto, transfere qualquer direito; nem é obrigatória. Pois, embora um homem possa fazer um pacto assim: "A menos que eu faça isso ou aquilo, matem-me", ele não pode fazer um pacto assim: "A menos que eu faça isso ou aquilo, não resistirei a vocês quando vierem me matar". Pois o homem, por natureza, escolhe o mal menor, que é o perigo de morte ao resistir, em vez do mal maior, que é a morte certa e iminente ao não resistir. E isso é considerado verdade por todos, visto que conduzem criminosos à execução e à prisão com homens armados, mesmo que tais criminosos tenham consentido com a lei pela qual são condenados.

Ninguém é obrigado a se acusar.

Um pacto para acusar a si mesmo, sem garantia de perdão, é igualmente inválido. Pois, na condição da natureza, onde cada homem é juiz, não há lugar para acusação; e no Estado civil, a acusação é seguida de punição, que, sendo a força, não obriga o homem a resistir. O mesmo se aplica à acusação daqueles cuja condenação leva um homem à miséria, como um pai, esposa ou benfeitor. Pois o testemunho de tal acusador, se não for dado de livre e espontânea vontade, presume-se corrompido pela natureza e, portanto, não deve ser aceito; e se o testemunho de um homem não for digno de crédito, ele não é obrigado a prestá-lo. Acusações sob tortura também não devem ser consideradas como testemunhos. Pois a tortura deve ser usada apenas como meio de conjectura e luz no exame posterior e na busca da verdade. E o que é confessado nesse caso contribui para o alívio daquele que está sendo torturado, e não para informar os torturadores; portanto, não deveria ter o crédito de um testemunho suficiente, pois, quer ele se liberte por acusação verdadeira ou falsa, o faz pelo direito de preservar a própria vida.

O Fim de um Juramento; A Forma de um Juramento

A força das palavras, sendo (como já observei) muito fraca para obrigar os homens a cumprirem seus pactos, encontra na natureza humana apenas dois auxílios imagináveis ​​para fortalecê-la. E esses auxílios são o medo das consequências de quebrar a palavra; ou a glória, ou orgulho, de aparentar não precisar quebrá-la. Este último é uma generosidade raramente encontrada, que não se pode presumir, especialmente nos que buscam riqueza, poder ou prazeres sensuais, que constituem a maior parte da humanidade. A paixão a ser considerada é o medo; do qual existem dois objetos muito gerais: um, o poder dos espíritos invisíveis; o outro, o poder daqueles que eles ofenderem. Desses dois, embora o primeiro seja o poder maior, o medo do segundo é geralmente o maior temor. O medo do primeiro reside em cada homem, em sua própria religião, que tem lugar na natureza do homem antes da sociedade civil. O segundo não tem tanto lugar, ou pelo menos não o suficiente, para obrigar os homens a cumprirem suas promessas. Porque, no estado de mera Natureza, a desigualdade de Poder não é percebida, exceto pelo evento da Batalha. Assim, antes do surgimento da Sociedade Civil, ou durante sua interrupção pela Guerra, nada pode fortalecer um Pacto de Paz acordado contra as tentações da Avareza, da Ambição, da Luxúria ou de outros desejos fortes, senão o temor daquele Poder Invisível, que todos adoram como Deus e temem como um Vingador de sua perfídia. Portanto, tudo o que se pode fazer entre dois homens não sujeitos ao Poder Civil é fazer com que um ao outro jure pelo Deus a quem teme: juramento ou juramento é uma forma de discurso, acrescentada a uma promessa; pela qual aquele que promete significa que, a menos que cumpra, renuncia à misericórdia de seu Deus ou o invoca para vingança contra si mesmo. Tal era a forma pagã: "Que Júpiter me mate, assim como eu mato esta besta." Assim é a nossa forma: "Farei assim, e assim farei, que Deus me ajude". E isto, com os ritos e cerimônias que cada um usa em sua própria religião, para que o temor de quebrar a fé seja maior.

Sem juramento, a não ser por Deus.

Com isso se depreende que um juramento feito segundo qualquer outra forma ou rito que não seja o de quem jura é em vão; não é juramento algum. E não há juramento por nada que o jurador considere não ser Deus. Pois, embora os homens às vezes jurassem por seus reis, por medo ou bajulação, queriam que se entendesse que lhes atribuíam honra divina. E jurar desnecessariamente por Deus é profanar o Seu nome; e jurar por outras coisas, como se faz no discurso comum, não é juramento, mas um costume ímpio, adquirido por excesso de veemência na fala.

Um juramento não acrescenta nada à obrigação.

Parece também que o juramento nada acrescenta à obrigação. Pois uma aliança, se lícita, obriga perante Deus, tanto sem o juramento quanto com ele; se ilícita, não obriga de modo algum, ainda que seja confirmada com um juramento.

CAPÍTULO XV.
DE OUTRAS LEIS DA NATUREZA

A Terceira Lei da Natureza, Justiça

Dessa lei da Natureza, pela qual somos obrigados a transferir a outrem os direitos que, se retidos, prejudicam a paz da humanidade, decorre uma terceira: que os homens cumpram os pactos firmados. Sem isso, os pactos são vãos, não passando de palavras vazias; e, permanecendo o direito de todos a todas as coisas, permanecemos em estado de guerra.

Justiça e injustiça: o quê?

E nesta lei da Natureza reside a Fonte e a Origem da JUSTIÇA. Pois onde não houve Aliança, nenhum Direito foi transferido, e todo homem tem direito a tudo; e, consequentemente, nenhuma ação pode ser Injusta. Mas quando uma Aliança é feita, quebrá-la é Injusto: E a definição de INJUSTIÇA nada mais é do que o Não Cumprimento da Aliança. E tudo o que não é Injusto é Justo.

Justiça e decoro começam com a constituição da comunidade. Mas, como os pactos de confiança mútua, onde há receio de descumprimento por qualquer uma das partes (como foi dito no capítulo anterior), são inválidos; embora a origem da justiça seja a celebração de pactos; contudo, a injustiça, de fato, não pode existir até que a causa de tal receio seja eliminada; o que, enquanto os homens estiverem na condição natural de guerra, não pode ser feito. Portanto, antes que os nomes de justo e injusto possam ter lugar, deve haver algum poder coercitivo para compelir os homens igualmente ao cumprimento de seus pactos, pelo temor de alguma punição maior do que o benefício que esperam com a quebra de seu pacto; e para ressarcir o decoro que os homens adquirem por contrato mútuo, em compensação pelo direito universal que abandonam: e tal poder não existe antes da criação de uma comunidade. E isso também se depreende da definição comum de Justiça nas escolas: pois dizem que “Justiça é a vontade constante de dar a cada um o que lhe é devido”. E, portanto, onde não há o que é devido, isto é, onde não há propriedade, não há injustiça; e onde não há poder coercitivo estabelecido, isto é, onde não há comunidade, não há propriedade; todos os homens tendo direito a todas as coisas: portanto, onde não há comunidade, nada é injusto. Assim, a natureza da Justiça consiste em cumprir pactos válidos; mas a validade dos pactos começa somente com a constituição de um poder civil, suficiente para compelir os homens a cumpri-los: e é então também que a propriedade começa.

A justiça não é contrária à razão.

O Insensato disse em seu coração que não existe Justiça; e às vezes também com a língua, alegando seriamente que, estando a conservação e a satisfação de cada homem confiadas ao seu próprio cuidado, não haveria razão para que cada um não fizesse o que considerasse propício a isso; e, portanto, fazer ou não fazer, guardar ou não guardar Alianças, não seria contrário à Razão, quando contribuísse para o benefício de cada um. Ele não nega, com isso, que existam Alianças; e que elas sejam às vezes quebradas, às vezes guardadas; e que tal quebra delas possa ser chamada de Injustiça, e a sua observância, de Justiça: mas questiona se a Injustiça, ao afastar o temor de Deus (pois o mesmo Insensato disse em seu coração que não há Deus), não pode, por vezes, coexistir com a Razão, que dita a cada homem o seu próprio bem. E particularmente, quando isso conduz a um benefício que coloca o homem em condições de negligenciar não apenas o desprezo e as injúrias, mas também o poder de outros homens. O Reino de Deus é obtido pela violência; mas e se pudesse ser obtido por violência injusta? Seria contrário à razão obtê-lo assim, quando é impossível sofrer dano por ela? E se não for contrário à razão, não é contrário à justiça; ou então a justiça não seria aprovada para o bem. De raciocínios como este, a maldade bem-sucedida obteve o nome de virtude; e alguns que em todas as outras coisas rejeitaram a violação da fé, ainda assim a permitiram quando se trata da obtenção de um Reino. E os pagãos que acreditavam que Saturno foi deposto por seu filho Júpiter, acreditavam, no entanto, que o mesmo Júpiter era o vingador da injustiça: algo semelhante a um trecho de lei nos Comentários de Coke sobre Litleton, onde ele diz: "Se o legítimo herdeiro da Coroa for condenado por traição; Contudo, a Coroa passará para ele, e Eo Instante o Atteynder será voyd; a partir desses exemplos, um homem será muito propenso a inferir que, quando o herdeiro aparente de um reino mata aquele que está na posse, mesmo que seja seu pai, você pode chamar isso de injustiça, ou por qualquer outro nome que quiser; contudo, nunca poderá ser contrário à razão, visto que todas as ações voluntárias dos homens tendem ao seu próprio benefício; e as ações mais racionais são aquelas que melhor contribuem para seus fins. Esse raciocínio falacioso, no entanto, é falso.

A questão não se resume a promessas mútuas, onde não há garantia de cumprimento por nenhuma das partes, como quando não há um Poder Civil instituído sobre as partes que prometem, pois tais promessas não constituem contratos. Mas sim, quando uma das partes já cumpriu sua obrigação, ou quando há um Poder para obrigá-la a cumpri-la, surge a questão de saber se é contra a razão, isto é, contra o benefício da outra parte, cumprir ou não. E eu digo que não é contra a razão. Para entendermos a sua manifestação, devemos considerar o seguinte: primeiro, que quando um homem faz algo que, apesar de tudo ser previsível e contabilizável, tende à sua própria destruição, por mais que algum acidente inesperado possa transformá-lo em benefício próprio, tais eventos não tornam a ação razoável ou sábia. Em segundo lugar, numa situação de guerra em que todos são inimigos uns dos outros, por falta de um poder comum que os mantenha a todos em respeito, ninguém pode esperar, por sua própria força ou astúcia, defender-se da destruição sem a ajuda de aliados; onde todos esperam a mesma defesa da confederação que qualquer outro: e, portanto, aquele que declara que considera razoável enganar aqueles que o ajudam, não pode, em sã consciência, esperar outro meio de segurança senão aquele que pode obter de seu próprio poder individual. Aquele que quebra seu pacto e, consequentemente, declara que acredita poder fazê-lo com razão, não pode ser recebido em nenhuma sociedade que se una pela paz e defesa, senão pelo erro daqueles que o recebem; nem, uma vez recebido, pode ser retido nela sem perceber o perigo desse erro; erros que um homem não pode razoavelmente considerar como meio de sua segurança; e, portanto, se for abandonado ou expulso da sociedade, perecerá. E se ele vive em sociedade, é pelos erros de outros homens, que ele não poderia prever nem levar em conta; e, consequentemente, contra a razão de sua preservação; e assim, todos os homens que não contribuem para sua destruição o toleram apenas por ignorância do que é bom para si mesmos.

Quanto à possibilidade de obter a felicidade segura e perpétua do Céu por qualquer meio, é algo fútil, pois só existe um caminho imaginável: e esse não é quebrar, mas sim cumprir a Aliança.

E quanto ao outro exemplo de alcançar a soberania por meio da rebelião, é manifesto que, embora o evento se siga, como não se pode razoavelmente esperar isso, mas sim o contrário; e como, ao conquistá-la dessa forma, outros são ensinados a conquistá-la da mesma maneira, a tentativa é contrária à razão. A justiça, portanto, isto é, o cumprimento do pacto, é uma regra da razão, pela qual somos proibidos de fazer qualquer coisa destrutiva para nossa vida; e, consequentemente, uma lei da natureza.

Há alguns que vão além e não consideram a Lei da Natureza como as regras que conduzem à preservação da vida do homem na Terra, mas sim à conquista de uma felicidade eterna após a morte, para a qual acreditam que a quebra da Aliança pode conduzir e, consequentemente, ser justa e razoável (tais são aqueles que consideram um ato meritório matar, depor ou rebelar-se contra o Poder Soberano constituído sobre eles por seu próprio consentimento). Mas, como não há conhecimento natural do estado do homem após a morte, muito menos da recompensa que então deve ser dada à quebra da Fé, mas apenas uma crença baseada no que outros dizem, que sabem sobrenaturalmente disso, ou que conhecem aqueles que os conheciam, que conheciam outros que sabiam sobrenaturalmente, a quebra da Fé não pode ser chamada de preceito da razão ou da natureza.

Cláusulas não extintas pelo vício da pessoa a quem foram feitas.

Outros, que admitem uma Lei da Natureza, a manutenção da Fé, fazem, no entanto, exceções para certas pessoas, como os hereges e aqueles que não cumprem seu pacto com os outros. E isso também é contrário à razão. Pois, se qualquer falta de um homem fosse suficiente para anular o pacto que fizemos, a mesma deveria, em tese, ter sido suficiente para impedi-lo.

Justiça dos Homens e Justiça das Ações: O Que

Os termos "Justo" e "Injusto", quando atribuídos a homens, significam uma coisa; quando atribuídos a ações, outra. Quando atribuídos a homens, significam conformidade ou inconformidade de costumes com a razão. Mas quando atribuídos a ações, significam a conformidade ou inconformidade com a razão, não de costumes ou modo de vida, mas de ações específicas. Um homem justo, portanto, é aquele que se empenha ao máximo para que suas ações sejam justas; e um homem injusto é aquele que negligencia esse cuidado. E tais homens são mais frequentemente chamados em nossa língua de retos e injustos do que de justos e injustos, embora o significado seja o mesmo. Portanto, um homem justo não perde esse título por uma ou algumas ações injustas, que procedem de uma paixão súbita ou de um erro de discernimento sobre as coisas ou as pessoas; nem um homem injusto perde seu caráter por tais ações, como aquelas que ele evita por medo, porque sua vontade não é moldada pela justiça, mas pelo benefício aparente do que ele deve fazer. O que confere às ações humanas o sabor da justiça é uma certa nobreza ou galanteria de coragem (raramente encontrada), pela qual um homem despreza a possibilidade de, para a satisfação de sua vida, recorrer à fraude ou à quebra de promessas. Essa justiça dos costumes é o que se quer dizer quando se chama justiça de virtude e injustiça de vício.

Mas a Justiça das Ações denomina os homens não como Justos, mas como Inconscientes; e a Injustiça das mesmas (que também é chamada de Lesão) lhes dá apenas o nome de Culpados.

Justiça de maneiras e justiça de ações

Novamente, a injustiça de costumes é a disposição ou aptidão para causar dano; e é injustiça antes mesmo de agir, sem supor que haja qualquer pessoa individualmente prejudicada. Mas a injustiça de uma ação (isto é, dano) pressupõe uma pessoa individual prejudicada, ou seja, aquela com quem o pacto foi feito. Portanto, muitas vezes o dano é recebido por um homem, enquanto o prejuízo recai sobre outro. Como quando o senhor ordena ao seu servo que dê dinheiro a um estranho; se isso não for feito, o dano é causado ao senhor, a quem ele havia pactuado obedecer; mas o prejuízo recai sobre o estranho, a quem ele não tinha obrigação; e, portanto, não poderia prejudicá-lo. E assim também nas comunidades, os indivíduos podem perdoar suas dívidas uns aos outros; mas não roubos ou outras violências pelas quais sejam prejudicados; porque a retenção da dívida é um dano a si mesmos. Mas roubo e violência são ofensas à pessoa da comunidade.

Nada que seja feito a um homem com seu próprio consentimento pode ser considerado lesão.

Tudo o que for feito a um homem, conforme a sua própria Vontade manifestada a quem o faz, não lhe causa dano. Pois, se aquele que o faz não tiver renunciado ao seu direito original de fazer o que bem entender, por meio de algum Pacto Antecedente, não há quebra de Pacto; e, portanto, nenhum dano lhe é causado. E se o tiver feito, então, tendo sido manifestada a sua Vontade de que assim fosse feito, isso constitui uma liberação desse Pacto; e, assim também, nenhum dano lhe é causado.

Justiça Comutativa e Distributiva

A justiça das ações é dividida pelos autores em comutativa e distributiva; a primeira, dizem, consiste na proporção aritmética; a segunda, na proporção geométrica. A comutativa, portanto, é entendida como a igualdade de valor das coisas contratadas; e a distributiva, na distribuição de benefícios iguais a homens de igual mérito. Como se fosse injustiça vender mais caro do que se compra, ou dar a alguém mais do que merece. O valor de todas as coisas contratadas é medido pelo apetite dos contratantes; portanto, o valor justo é aquele que eles se contentam em dar. E o mérito (além daquele que é concedido por pacto, onde o cumprimento de uma parte merece o cumprimento da outra, e se enquadra na justiça comutativa, não na distributiva) não é devido pela justiça, mas é recompensado somente pela graça. Portanto, essa distinção, no sentido em que costuma ser exposta, não é correta. Para falar propriamente, a justiça comutativa é a justiça do contratante. ou seja, o cumprimento de um pacto, na compra e venda; no aluguel e arrendamento; no empréstimo e financiamento; na troca, permuta e outros atos contratuais.

E a Justiça Distributiva, a Justiça de um Árbitro; isto é, o ato de definir o que é Justo. Nela, (sendo confiado por aqueles que o nomeiam Árbitro), se ele cumpre seu dever, diz-se que distribui a cada um o que lhe é devido: e a sua é, de fato, uma Distribuição Justa, e pode ser chamada (embora impropriamente) de Justiça Distributiva; mas mais propriamente de Equidade; que também é uma Lei da Natureza, como será demonstrado no devido tempo.

A Quarta Lei da Natureza, Gratidão

Assim como a Justiça depende de um Pacto Antecedente, a Gratidão depende da Graça Antecedente, ou seja, da Dádiva Antecedente. Esta é a quarta Lei da Natureza, que pode ser concebida da seguinte forma: "Que um homem que recebe um benefício de outro por pura Graça, se esforce para que aquele que o concede não tenha motivo razoável para se arrepender de sua boa vontade." Pois ninguém dá senão com a intenção de se beneficiar; porque a Dádiva é Voluntária; e de todos os Atos Voluntários, o objetivo de cada homem é o seu próprio bem; se os homens perceberem que serão frustrados, não haverá início de benevolência ou confiança; nem, consequentemente, de ajuda mútua; nem de reconciliação entre um homem e outro; e, portanto, permanecerão em estado de Guerra; o que é contrário à primeira e Fundamental Lei da Natureza, que ordena aos homens que busquem a Paz. A violação desta Lei é chamada de Ingratidão. e tem a mesma relação com a Graça que a Injustiça tem com a Obrigação por Aliança.

A Quinta, Acomodação Mútua ou Complacência.

Uma quinta Lei da Natureza é a COMPLEMENTAÇÃO; isto é, “Que cada homem se esforce para se adaptar aos demais”. Para entendermos isso, podemos considerar que existe na aptidão dos homens para a sociedade uma diversidade de natureza, resultante da diversidade de seus afetos; algo semelhante ao que vemos nas pedras reunidas para a construção de um edifício. Pois assim como a pedra que, pela aspereza e irregularidade de sua forma, ocupa mais espaço do que preenche, e que, por sua dureza, não pode ser facilmente aplainada, dificultando a construção, é descartada pelos construtores por ser inútil e problemática, também o homem que, pela aspereza de sua natureza, se esforça para reter aquilo que para si é supérfluo e necessário para os outros, e que, pela obstinação de suas paixões, não pode ser corrigido, deve ser deixado de lado ou expulso da sociedade por ser um empecilho para ela. Pois, considerando que todo homem, não apenas por direito, mas também por necessidade da natureza, deve se esforçar ao máximo para obter o necessário à sua preservação, aquele que se opõe a isso, buscando coisas supérfluas, é culpado da guerra que daí decorre; e, portanto, age contrariamente à lei fundamental da natureza, que ordena buscar a paz. Os observadores dessa lei podem ser chamados de sociáveis ​​(os latinos os chamam de commodéstia); os contrários, de teimosos, insociáveis, obstinados, intratáveis.

A Sexta, Facilidade para Indulto

Uma sexta Lei da Natureza é esta: "Que, por precaução em relação ao tempo futuro, o homem deve perdoar as ofensas passadas daqueles que, arrependidos, o desejam." Pois o PERDÃO nada mais é do que conceder a Paz; a qual, embora concedida àqueles que perseveram em sua hostilidade, não é Paz, mas Temor; contudo, não concedida àqueles que precauem em relação ao tempo futuro é sinal de aversão à Paz; e, portanto, contrária à Lei da Natureza.

A sétima: Que, em vinganças, os homens respeitam apenas o bem futuro.

Uma sétima lei é: “Que nas vinganças (isto é, na retribuição do mal pelo mal), os homens não olham para a grandeza do mal passado, mas para a grandeza do bem que virá”. Com isso, somos proibidos de infligir punição com qualquer outro propósito que não seja a correção do ofensor ou a orientação de outros. Pois esta lei é consequência da anterior, que ordena o perdão, com base na segurança do tempo futuro. Além disso, a vingança sem respeito ao exemplo e ao proveito vindouro é um triunfo, ou seja, uma glorificação da dor alheia, sem fim algum (pois o fim está sempre por vir); e glorificar-se sem fim é vaidade e contrário à razão; e ferir sem razão tende a incitar a guerra, o que é contra a lei da natureza e é comumente chamado de crueldade.

O Oitavo, Contra a Insolência

E como todos os sinais de ódio ou desprezo incitam à luta, visto que a maioria dos homens prefere arriscar a vida a não se vingar, podemos, em oitavo lugar, estabelecer este preceito como Lei da Natureza: "Que nenhum homem, por ato, palavra, semblante ou gesto, declare ódio ou desprezo por outro". A violação dessa lei é comumente chamada de injúria.

A Nona, Contra o Orgulho

A questão de quem é o melhor homem não tem lugar na condição da mera Natureza, onde (como já foi demonstrado) todos os homens são iguais. A desigualdade que existe hoje foi introduzida pelas leis civis. Sei que Aristóteles, no primeiro livro de sua Política, como fundamento de sua doutrina, considera que alguns homens, por natureza, são mais dignos de comandar, entendendo-se os mais sábios (como ele se considerava, devido à sua filosofia), e outros de servir (entendendo-se aqueles que tinham corpos fortes, mas não eram filósofos como ele), como se mestre e servo não fossem instituídos pelo consentimento dos homens, mas pela diferença de intelecto; o que não só contraria a razão, como também a experiência. Pois há poucos tão tolos que não prefeririam governar a si mesmos a serem governados por outros. E quando os sábios, em sua própria presunção, lutam pela força contra aqueles que desconfiam de sua própria sabedoria, nem sempre, ou frequentemente, ou quase nunca, obtêm a vitória. Se a Natureza, portanto, fez os homens iguais, essa igualdade deve ser reconhecida; ou se a Natureza fez os homens desiguais, ainda assim, como os homens que se consideram iguais não aceitam condições de paz senão em termos de igualdade, tal igualdade deve ser admitida. E, portanto, para a nona Lei da Natureza, coloco esta: “Que cada homem reconheça o outro como seu igual por natureza”. A transgressão deste preceito é o orgulho.

O Décimo Contra a Arrogância

Dessa lei depende outra: “Que, ao se estabelecer a paz, nenhum homem exija reservar para si qualquer direito que não esteja disposto a ser reservado a todos os demais”. Assim como é necessário que todos os homens que buscam a paz renunciem a certos direitos naturais, ou seja, não tenham liberdade para fazer tudo o que quiserem, também é necessário para a vida do homem reter alguns direitos, como o direito de governar o próprio corpo, desfrutar do ar, da água, do movimento, dos meios de locomoção e de todas as outras coisas sem as quais o homem não pode viver, ou não viver bem. Se, nesse caso, ao se estabelecer a paz, os homens exigem para si aquilo que não gostariam que fosse concedido aos outros, agem contrariamente à lei precedente que ordena o reconhecimento da igualdade natural e, portanto, também contra a lei da natureza. Os observadores dessa lei são aqueles que chamamos de modestos, e os que a infringem, de arrogantes. Os gregos chamam a violação dessa lei de pleonexia. Ou seja, um desejo de ter mais do que a sua parte.

A Décima Primeira Equidade

Além disso, “se um homem for considerado apto a julgar entre dois homens”, é um preceito da Lei da Natureza, “que ele os trate com equidade”. Pois, sem isso, as controvérsias entre os homens não podem ser resolvidas senão pela guerra. Portanto, aquele que é parcial em seu julgamento faz tudo o que está ao seu alcance para dissuadir os homens de recorrerem a juízes e árbitros; e, consequentemente, (contra a Lei fundamental da Natureza) é a causa da guerra.

A observância desta lei, da distribuição igualitária a cada homem daquilo que lhe pertence por direito, chama-se EQUIDADE e (como já disse antes) justiça distributiva; a violação, Aceitação de Pessoas, Prosopolepsia.

O Décimo Segundo, Uso Igualitário das Coisas Comuns

E disso decorre outra lei: "Que as coisas que não podem ser divididas sejam desfrutadas em comum, se possível; e se a quantidade da coisa o permitir, sem restrições; caso contrário, proporcionalmente ao número daqueles que têm direito." Pois, do contrário, a distribuição é desigual e contrária à equidade.

O Décimo Terceiro, de Ló

Mas há coisas que não podem ser divididas nem desfrutadas em comum. Então, a Lei da Natureza, que prescreve a Equidade, exige que "o Direito Integral, ou então (tornando o uso alternado), a Primeira Posse, seja determinada por sorteio". Pois a distribuição igualitária é da Lei da Natureza; e outros meios de distribuição igualitária não podem ser imaginados.

O Décimo Quarto, da Primogenitura e da Primeira Apreensão

Existem dois tipos de sorteio: o arbitrário e o natural. O arbitrário é aquele que é acordado entre os competidores; o natural é a primogenitura (que os gregos chamam de cleronia, que significa "dado por sorteio") ou a primeira posse.

Portanto, as coisas que não podem ser desfrutadas em comum, nem divididas, devem ser atribuídas ao primeiro possuidor; e, em alguns casos, ao primogênito, como adquirido por sorteio.

O Décimo Quinto, Dos Mediadores

É também uma Lei da Natureza que “todos os homens que mediam a Paz tenham salvo-conduto”. Pois a Lei que ordena a Paz como fim, ordena a Intercessão como meio; e a Intercessão, como meio, é o salvo-conduto.

O Décimo Sexto, da Submissão à Arbitragem

E porque, embora os homens nunca estejam tão dispostos a observar essas Leis, podem surgir, no entanto, questões relativas à ação de um homem; primeiro, se foi feita ou não; segundo (se feita), se é contrária à Lei ou não; a primeira é chamada de questão de fato; a segunda, de questão de direito; portanto, a menos que as partes na questão se comprometam mutuamente a acatar a sentença da outra, estarão tão longe da paz como sempre estiveram. Essa outra parte, a cuja sentença se submetem, é chamada de ÁRBITRO. E, portanto, é da Lei da Natureza que "aqueles que estão em controvérsia submetam seu direito ao julgamento de um Árbitro".

O Décimo Sétimo, Ninguém é Juiz de Si Mesmo

E, visto que se presume que cada homem age em benefício próprio, nenhum homem é um árbitro apto em sua própria causa; e mesmo que jamais o fosse, a equidade, concedendo a cada parte igual benefício, exige que, se uma for admitida como juiz, a outra também o seja; e assim permanece a controvérsia, isto é, a causa da guerra, contrária à lei da natureza.

O décimo oitavo, nenhum homem deve ser juiz, que tenha em si motivo de parcialidade.

Pelo mesmo motivo, em qualquer causa, ninguém deve ser aceito como árbitro se, aparentemente, a vitória de uma parte gerar maior lucro, honra ou prazer do que a da outra: pois ele aceitou (embora seja um suborno inevitável) um suborno; e ninguém pode ser obrigado a confiar nele. E assim permanece a controvérsia e a condição de guerra, contrárias à lei da natureza.

O Décimo Nono, de Testemunha

E em uma controvérsia de fato, não podendo o juiz dar mais crédito a um do que ao outro (se não houver outros argumentos), deve dar crédito a um terceiro; ou a um terceiro e um quarto; ou mais: pois, do contrário, a questão fica indecisa e sujeita à força, contrariamente à lei da natureza.

Estas são as Leis da Natureza, que ditam a Paz como meio de conservação dos homens em multidões; e que dizem respeito apenas à doutrina da Sociedade Civil. Há outras coisas que tendem à destruição de indivíduos, como a embriaguez e todas as outras formas de intemperança; que, portanto, também podem ser consideradas entre as coisas que a Lei da Natureza proibiu; mas não é necessário mencioná-las, nem são pertinentes o suficiente para este assunto.

Uma regra pela qual as leis da natureza podem ser facilmente examinadas.

E embora isso possa parecer uma dedução sutil demais das Leis da Natureza para ser levada em consideração por todos os homens, dos quais a maioria está ocupada demais em conseguir alimento, e o restante negligente demais para compreender, ainda assim, para deixar todos inexcusáveis, elas foram condensadas em um resumo simples, inteligível até para a capacidade mais limitada: "Não faça aos outros o que você não gostaria que fizessem a você". Isso lhe mostra que ele não precisa mais aprender as Leis da Natureza, mas, ao comparar as ações dos outros com as suas próprias, estas lhe parecem pesadas demais para serem colocadas na outra metade da balança, e as suas próprias no lugar delas, de modo que suas paixões e seu amor-próprio não acrescentem nada ao peso. E então, nenhuma dessas Leis da Natureza lhe parecerá incoerente.

As leis da natureza obrigam sempre à consciência,

Mas, na prática, as leis da natureza só obrigam in foro interno quando há segurança; isto é, obrigam ao desejo de que se cumpram, mas in foro externo, ou seja, à sua execução, nem sempre. Pois aquele que se mostrasse modesto, dócil e cumprisse todas as suas promessas em um tempo e lugar onde ninguém mais o fizesse, tornar-se-ia presa fácil para os outros e acarretaria sua própria ruína certa, contrariando o princípio de todas as leis da natureza, que visam à sua preservação. E, ainda, aquele que observasse as mesmas leis em relação a si, não as observaria a si mesmo, não buscaria a paz, mas a guerra; e, consequentemente, a destruição de sua natureza pela violência.

E quaisquer leis que vinculem em foro interno podem ser quebradas, não apenas por um fato contrário à lei, mas também por um fato de acordo com ela, caso alguém pense o contrário. Pois, mesmo que sua ação, neste caso, esteja de acordo com a lei, o que, quando a obrigação é em foro interno, constitui uma violação.

As leis da natureza são eternas;

As leis da natureza são imutáveis ​​e eternas, pois a injustiça, a ingratidão, a arrogância, o orgulho, a iniquidade, a preferência por certas pessoas e as demais jamais poderão ser legitimadas. Pois jamais poderá ser que a guerra preserve a vida e a paz a destrua.

E ainda assim, mais fácil

As mesmas leis, por obrigarem apenas ao desejo e ao esforço, quero dizer, a um esforço sincero e constante, são fáceis de serem observadas. Pois, por exigirem nada além de esforço, aquele que se esforça para cumpri-las, as cumpre; e aquele que cumpre a lei é justo.

A ciência dessas leis é a verdadeira filosofia moral.

E a ciência disso é a verdadeira e única Filosofia Moral. Pois a Filosofia Moral nada mais é do que a ciência do que é Bom e Mau na conduta e na sociedade da humanidade. Bom e Mau são nomes que significam nossos apetites e aversões, os quais, em diferentes temperamentos, costumes e doutrinas dos homens, são diferentes. E os diversos homens diferem não apenas em seu julgamento sobre os sentidos do que é agradável e desagradável ao paladar, olfato, audição, tato e visão, mas também sobre o que é conforme ou desagradável à razão nas ações da vida comum. Aliás, o mesmo homem, em diferentes momentos, difere de si mesmo; e em um momento elogia, isto é, chama de Bom, o que em outro momento critica e chama de Mau. Daí surgem as disputas, as controvérsias e, por fim, a guerra. E, portanto, enquanto o homem estiver na condição de mera Natureza (que é uma condição de Guerra), o apetite privado é a medida do Bem e do Mal; e, consequentemente, todos os homens concordam que a Paz é Boa, e, portanto, também o caminho ou os meios para a Paz, que (como já mostrei) são Justiça, Gratidão, Modéstia, Equidade, Misericórdia e o restante das Leis da Natureza, são bons; isto é, Virtudes Morais; e seus vícios contrários, o Mal. Ora, a ciência da Virtude e do Vício é a Filosofia Moral; e, portanto, a verdadeira Doutrina das Leis da Natureza é a verdadeira Filosofia Moral. Mas os escritores da Filosofia Moral, embora reconheçam as mesmas Virtudes e Vícios, não percebem onde consiste sua Bondade; nem que eles sejam louvados como os meios para uma vida pacífica, sociável e confortável; Colocá-los em uma mediocridade de paixões: como se não fosse a Causa, mas o Grau de ousadia, que criasse a Fortaleza; ou como se não fosse a Causa, mas a Quantidade de uma dádiva, que criasse a Liberalidade.

Esses ditames da Razão, os homens costumam chamar de Leis; mas de forma inadequada: pois são apenas Conclusões ou Teoremas concernentes àquilo que contribui para a conservação e defesa de si mesmos; enquanto a Lei, propriamente, é a palavra daquele que, por direito, tem domínio sobre os outros. Mas, se considerarmos os mesmos Teoremas, tal como foram transmitidos na palavra de Deus, que por direito ordena todas as coisas, então são propriamente chamados de Leis.

CAPÍTULO XVI.
DAS PESSOAS, AUTORES E COISAS PERSONADAS

Uma pessoa O quê

Uma PESSOA é aquela "cujas palavras ou ações são consideradas, seja como suas, seja como representando as palavras ou ações de outro homem, ou de qualquer outra coisa a quem sejam atribuídas, seja verdadeira ou fictícia".

Pessoa Natural e Artificial

Quando são consideradas como sendo suas próprias, então ele é chamado de Pessoa Natural; e quando são consideradas como representando as palavras e ações de outrem, então ele é uma Pessoa Fingida ou Artificial.

A palavra Pessoa, de onde

A palavra Pessoa é latina: em vez disso, os gregos têm Prosopon, que significa Rosto, assim como Persona em latim significa Disfarce, ou Aparência Exterior de um homem, falsificado no palco; e às vezes mais particularmente aquela parte que disfarça o rosto, como uma Máscara ou Viseira: E de Palco, foi traduzido para qualquer Representante da fala e da ação, tanto em Tribunais quanto em Teatros. Assim, uma Pessoa é o mesmo que um Ator, tanto no palco quanto na conversa comum; e Personificar é Agir, ou Representar a si mesmo, ou a outrem; e aquele que representa outro, diz-se que carrega sua Pessoa, ou age em seu nome; (sentido em que Cícero a usa quando diz: “Unus Sustineo Tres Personas; Mei, Adversarii, & Judicis, Eu carrego três Pessoas: a minha, a dos meus Adversários e a dos Juízes;”) e é chamada em diversas ocasiões, de diversas maneiras; como um Representante, ou Deputado, um Tenente, um Vigário, um Advogado, um Deputado, um Procurador, um Ator, e similares.

Ator, Autor; Autoridade

Em relação às Pessoas Artificiais, algumas têm suas palavras e ações pertencentes àqueles que representam. Nesse caso, a Pessoa é o Agente; e aquele que detém a propriedade de suas palavras e ações é o AUTOR: sendo que o Agente age por Autoridade. Pois aquilo que, ao falar de bens e posses, é chamado de Proprietário, e em latim Dominus, em grego Kurios; ao falar de Ações, é chamado de Autor. E assim como o Direito de posse é chamado de Domínio; assim também o Direito de praticar qualquer Ação é chamado de AUTORIDADE. Portanto, por Autoridade, sempre se entende o Direito de praticar qualquer ato; e Feito por Autoridade, feito por Comissão ou Licença daquele a quem pertence o direito.

Pactos por Autoridade, Vinculam o Autor

Daí se segue que, quando o Agente faz um Pacto por Autoridade, ele vincula o Autor, tanto quanto se o tivesse feito ele mesmo; e não menos o sujeita a todas as consequências do mesmo. E, portanto, tudo o que foi dito anteriormente (Cap. 14) sobre a natureza dos Pactos entre homens em sua capacidade natural, também é válido quando são feitos por seus Agentes, Representantes ou Procuradores, que têm autoridade deles, até o limite de sua Comissão, mas não além.

Portanto, aquele que firma um pacto com o agente ou representante, desconhecendo a autoridade que este possui, o faz por sua própria conta e risco. Pois ninguém é obrigado por um pacto do qual não seja autor; nem, consequentemente, por um pacto firmado contra ou além da autoridade que lhe conferiu.

Mas não o ator.

Quando o Agente faz algo contra a Lei da Natureza por ordem do Autor, se ele for obrigado por um Pacto anterior a obedecê-lo, não ele, mas o Autor, transgride a Lei da Natureza: pois, embora a Ação seja contrária à Lei da Natureza, ela não é dele; mas, ao contrário, recusar-se a fazê-la é contrário à Lei da Natureza, que proíbe a quebra do Pacto.

A autoridade deve ser demonstrada.

E aquele que faz um pacto com o Autor, por mediação do Agente, desconhecendo a autoridade que este possui, mas confiando apenas em sua palavra, caso tal autoridade não lhe seja manifestada mediante solicitação, não estará mais obrigado: pois o pacto feito com o Autor não é válido sem a sua contra-garantia. Mas se aquele que assim faz o pacto sabia de antemão que não podia esperar outra garantia senão a palavra do Agente, então o pacto é válido, porque o Agente, neste caso, se torna o próprio Autor. E, portanto, assim como quando a autoridade é evidente, o pacto obriga o Autor, não o Agente, da mesma forma, quando a autoridade é fingida, obriga somente o Agente, não havendo outro Autor senão ele mesmo.

Coisas personificadas, inanimadas

Há poucas coisas que não podem ser representadas pela ficção. Coisas inanimadas, como uma igreja, um hospital ou uma ponte, podem ser personificadas por um reitor, mestre ou administrador. Mas coisas inanimadas não podem ser autoras, nem, portanto, conferir autoridade aos seus atores; contudo, os atores podem ter autoridade para garantir sua manutenção, concedida por aqueles que são proprietários ou governantes dessas coisas. E, portanto, tais coisas não podem ser personificadas antes que haja algum estado de governo civil.

Irracional

Da mesma forma, crianças, tolos e loucos que não possuem o uso da razão podem ser representados por tutores ou curadores; mas não podem ser autores (durante esse período) de qualquer ação por eles praticada, até que (quando recuperarem o uso da razão) a julguem razoável. Contudo, durante a loucura, aquele que tem o direito de governá-los pode conferir autoridade ao tutor. Mas isso só tem lugar em um Estado civil, pois diante de tal estado não há domínio sobre pessoas.

Falsos Deuses

Um ídolo, ou mera invenção da mente, pode ser personificado; como o eram os deuses dos pagãos, que eram personificados por funcionários nomeados pelo Estado e detinham posses, bens e direitos que os homens, de tempos em tempos, lhes dedicavam e consagravam. Mas ídolos não podem ser autores, pois um ídolo não é nada. A autoridade emanava do Estado; portanto, antes da introdução do governo civil, os deuses dos pagãos não podiam ser personificados.

O Deus Verdadeiro

O verdadeiro Deus pode ser personificado. Como foi, primeiramente, por Moisés, que governou os israelitas (que não eram seu povo, mas de Deus), não em seu próprio nome, com "Hoc Dicit Moses", mas em nome de Deus, com "Hoc Dicit Dominus". Em segundo lugar, pelo Filho do Homem, seu próprio Filho, nosso bendito Salvador Jesus Cristo, que veio para converter os judeus e conduzir todas as nações ao Reino de seu Pai, não por si mesmo, mas como enviado por seu Pai. E em terceiro lugar, pelo Espírito Santo, ou Consolador, que falou e atuou nos Apóstolos: o qual Espírito Santo era um Consolador que não veio por si mesmo, mas foi enviado e procedeu de ambos.

Uma multidão de homens, como uma pessoa

Uma multidão de homens torna-se uma só Pessoa quando é representada por um só homem, ou uma só Pessoa; desde que isso ocorra com o consentimento de cada um dessa multidão em particular. Pois é a unidade do representante, e não a unidade do representado, que faz com que a Pessoa seja uma. E é o representante que carrega a Pessoa, e apenas uma Pessoa: e a unidade não pode ser entendida de outra forma em multidão.

Todos são autores

E porque a Multidão naturalmente não é Uma, mas Muitas; não podem ser entendidas como uma só; mas como muitos Autores, de tudo aquilo que representam, ou fazem em seu nome; Cada um dando ao seu Representante comum Autoridade de si mesmo em particular; e reconhecendo todas as ações que o Representante realiza, caso lhe deem Autoridade sem restrições: Caso contrário, quando o limitam no que e até que ponto ele os representará, nenhum deles reconhece mais do que lhe foi comissionado para agir.

Um ator pode ser muitos homens feitos um só pela pluralidade de vozes.

E se a Representação for composta por muitos homens, a voz da maioria deve ser considerada como a voz de todos eles. Pois se a minoria pronunciar (por exemplo) a favor e a maioria contra, haverá negativas mais do que suficientes para anular as afirmações; e assim, o excesso de negativas, sem contestação, será a única voz que a Representação terá.

Representantes, quando o número é par, não são lucrativos.

E um representante em número par, especialmente quando o número não é grande, de modo que as vozes contraditórias são frequentemente iguais, é, portanto, muitas vezes mudo e incapaz de agir. Contudo, em alguns casos, vozes contraditórias em número igual podem determinar uma questão; como na condenação ou absolvição, a igualdade de votos, mesmo que não condenem, absolvem; mas não, pelo contrário, condenam, pelo fato de não absolverem. Pois quando uma causa é ouvida, não condenar é absolver; mas, pelo contrário, dizer que não absolver é condenar não é verdade. O mesmo ocorre na deliberação de executar imediatamente ou adiar para outro momento; pois quando as vozes são iguais, não decretar a execução é decretar a adiamento.

Voz negativa

Ou, se o número for ímpar, como três ou mais (homens ou assembleias), em que cada um, por meio de uma Voz Negativa, tem autoridade para anular o efeito de todas as Vozes Afirmativas dos demais, esse número não é representativo; porque, devido à diversidade de opiniões e interesses dos homens, torna-se, muitas vezes, e em casos de extrema importância, uma pessoa muda e inadequada, tanto para outras coisas quanto para o governo de uma multidão, especialmente em tempos de guerra.

Existem dois tipos de autores. O primeiro, simplesmente chamado assim, é aquele que reconhece a ação de outrem de forma direta. O segundo é aquele que reconhece uma ação ou pacto de outrem condicionalmente; isto é, compromete-se a cumpri-lo caso o outro não o faça, em ou antes de um determinado momento. Esses autores condicionais são geralmente chamados de fiadores, em latim fidejussores e sponsores; e, particularmente para dívidas, praedes; e para comparecimento perante um juiz ou magistrado, vades.

PARTE II.
DA COMUNIDADE

CAPÍTULO XVII.
DAS CAUSAS, GERAÇÃO E DEFINIÇÃO DE UMA COMUNIDADE

O Fim da Comunidade, Segurança Particular

A causa, o fim ou o desígnio final dos homens (que naturalmente amam a liberdade e o domínio sobre os outros) ao introduzirem essa restrição sobre si mesmos (na qual os vemos viver em comunidades) é a previsão de sua própria preservação e de uma vida mais contente por meio dela; isto é, de se livrarem daquela condição miserável de guerra, que é necessariamente consequência (como foi demonstrado) das paixões naturais dos homens, quando não há poder visível para mantê-los em temor e prendê-los, pelo medo da punição, ao cumprimento de seus pactos e à observância dessas leis da natureza estabelecidas nos capítulos quatorze e quinze.

O que não se pode obter da lei da natureza:

Pois as Leis da Natureza (como Justiça, Equidade, Modéstia, Misericórdia e, em suma, Fazer aos Outros o Que Gostaríamos de Ser Feitos a Nós), se por si mesmas, sem o temor de algum Poder que as faça ser observadas, são contrárias às nossas paixões naturais, que nos levam à parcialidade, ao orgulho, à vingança e similares. E os pactos, sem a espada, são apenas palavras, sem força alguma para garantir a segurança de um homem. Portanto, não obstante as Leis da Natureza (que todos observam quando têm a vontade de observá-las e quando podem fazê-lo com segurança), se não houver um Poder estabelecido, ou se este não for suficientemente grande para nossa segurança, cada homem pode e deve confiar legitimamente em sua própria força e astúcia para se proteger dos demais. E em todos os lugares onde os homens viveram em pequenas famílias, roubar e saquear uns aos outros era um comércio, e tão longe de ser considerado contrário à Lei da Natureza, que quanto maiores os saques que obtinham, maior era sua honra; e os homens não observavam outras leis senão as Leis da Honra; isto é, abster-se da crueldade, deixando aos outros suas vidas e instrumentos de cultivo. E assim como as pequenas famílias faziam então, assim também fazem agora as cidades e reinos, que nada mais são do que famílias maiores (para sua própria segurança), expandindo seus domínios, sob todos os pretextos de perigo e medo de invasão, ou de auxílio que possa ser dado aos invasores, esforçando-se ao máximo para subjugar ou enfraquecer seus vizinhos pela força aberta e artimanhas secretas, por falta de outras precauções, justamente; e são lembrados por isso nas gerações futuras com honra.

Nem da conjunção de alguns homens ou famílias

Nem é a união de um pequeno número de homens que lhes confere essa segurança; pois, em pequenos números, pequenos acréscimos de um lado ou do outro tornam a vantagem de força tão grande que é suficiente para alcançar a vitória; e, portanto, encoraja uma invasão. A multidão suficiente para confiarmos em nossa segurança não é determinada por um número específico, mas pela comparação com o inimigo que tememos; e é suficiente quando as probabilidades do inimigo não são tão visíveis e evidentes a ponto de determinar o resultado da guerra e motivá-lo a tentar.

Nem de uma grande multidão, a menos que seja guiada por um único julgamento.

E por mais numerosa que seja a multidão, se suas ações forem dirigidas segundo seus julgamentos e apetites particulares, não poderão esperar defesa nem proteção, seja contra um inimigo comum, seja contra as injúrias uns dos outros. Pois, dispersos em opiniões sobre o melhor uso e aplicação de sua força, não se ajudam, mas se atrapalham mutuamente; e reduzem sua força a nada por meio da oposição mútua: por isso, são facilmente subjugados não apenas por alguns poucos que concordam entre si, mas também, quando não há inimigo comum, guerreiam uns contra os outros por seus interesses particulares. Pois, se pudéssemos supor que uma grande multidão de homens consentisse na observância da Justiça e de outras Leis da Natureza, sem um Poder comum para mantê-los todos em temor, poderíamos igualmente supor que toda a Humanidade fizesse o mesmo; e então não haveria, nem precisaria haver, qualquer Governo Civil ou Comunidade, porque haveria Paz sem submissão.

E isso continuamente

Nem basta, para a segurança que os homens desejam que dure por toda a vida, que sejam governados e dirigidos por um único juízo por um período limitado, como em uma batalha ou guerra. Pois, embora obtenham uma vitória por seu esforço unânime contra um inimigo estrangeiro, posteriormente, quando não tiverem mais um inimigo em comum, ou quando aquele que por uma parte é considerado inimigo for considerado amigo por outra, inevitavelmente se dissolverão devido à diferença de seus interesses e voltarão a guerrear entre si.

Por que certas criaturas não possuem razão nem fala?

Vivam, no entanto, em sociedade, sem qualquer poder coercitivo.

É verdade que certas criaturas vivas, como abelhas e formigas, vivem em sociedade umas com as outras (sendo, portanto, classificadas por Aristóteles entre as criaturas políticas); e, no entanto, não possuem outra direção além de seus julgamentos e apetites particulares; nem a fala, pela qual uma delas possa comunicar à outra o que considera conveniente para o bem comum. E, portanto, alguém talvez deseje saber por que a humanidade não pode fazer o mesmo. Ao que eu respondo:

Primeiro, que os homens estão continuamente em competição por Honra e Dignidade, o que não acontece com essas criaturas; e, consequentemente, entre os homens surge, por esse motivo, Inveja e Ódio, e finalmente Guerra; mas entre estas não é assim.

Em segundo lugar, entre essas criaturas, o bem comum não difere do particular; e, sendo por natureza inclinadas ao seu particular, elas obtêm, por meio dele, o benefício comum. Mas o homem, cuja alegria consiste em comparar-se com os outros, não pode apreciar nada além daquilo que é eminente.

Em terceiro lugar, essas criaturas, não tendo (como o homem) o uso da razão, não veem, nem pensam que veem, qualquer falha na administração de seus negócios comuns; enquanto que entre os homens, há muitos que se consideram mais sábios e mais capazes de governar o público melhor do que os demais; e estes se esforçam para reformar e inovar, um de um jeito, outro de outro; e assim o levam à desordem e à guerra civil.

Em quarto lugar, essas criaturas, embora possuam alguma habilidade vocal para expressar umas às outras seus desejos e outros afetos, carecem da arte da palavra, pela qual alguns homens podem representar a outros o Bem à semelhança do Mal, e o Mal à semelhança do Bem, aumentando ou diminuindo a aparente grandeza do Bem e do Mal, descontentando os homens e perturbando sua paz a seu bel-prazer.

Cinquenta vezes, as criaturas irracionais não conseguem distinguir entre Injúria e Dano; e, portanto, enquanto estão em paz, não se ofendem com seus semelhantes: enquanto o Homem é mais problemático quando está mais em paz, pois é então que ele gosta de exibir sua Sabedoria e controlar as Ações daqueles que governam a Comunidade.

Por fim, o acordo dessas criaturas é Natural; o dos homens, é apenas por Pacto, que é Artificial; e, portanto, não é de admirar que seja necessário algo mais (além do Pacto) para tornar seu Acordo constante e duradouro; que seja um Poder Comum, para mantê-los em reverência e direcionar suas ações para o Benefício Comum.

A geração de uma comunidade

A única maneira de estabelecer um Poder Comum capaz de defendê-los da invasão de estrangeiros e das injustiças mútuas, e assim garantir-lhes a segurança de tal forma que, por seu próprio trabalho e pelos frutos da terra, possam se sustentar e viver contentes, é conferir todo o seu poder e força a um só homem, ou a uma assembleia de homens, que possa reduzir todas as suas vontades, por pluralidade de vozes, a uma só vontade: o que equivale a dizer, designar um homem, ou uma assembleia de homens, para representá-los; e cada um reconhecer-se como autor de tudo o que aquele que os representa agir ou mandar agir em assuntos que dizem respeito à paz e segurança comuns; e nisso submeter suas vontades, cada um à sua vontade, e seus julgamentos ao seu julgamento. Isso é mais do que consentimento ou concórdia; Trata-se de uma verdadeira Unidade de todos eles, em uma só e mesma Pessoa, feita por Pacto de cada homem com cada homem, de tal maneira que, se cada homem dissesse a cada homem: “Autorizo ​​e abro mão do meu Direito de autogoverno a este Homem, ou a esta Assembleia de homens, sob a condição de que tu lhe renuncies o teu Direito e autorizes todas as suas Ações da mesma forma”. Feito isso, a Multidão assim unida em uma só Pessoa é chamada de COMUNIDADE, em latim CIVITAS. Esta é a Geração daquele grande LEVIATÃ, ou melhor (para falar com mais reverência) daquele Deus Mortal, a quem devemos, sob o Deus Imortal, nossa paz e defesa. Pois por esta Autoridade, que lhe é conferida por cada homem em particular na Comunidade, ele tem o uso de tanto Poder e Força que lhe são conferidos, que, pelo temor disso, ele é capaz de moldar a vontade de todos eles, para a Paz em casa e para a ajuda mútua contra seus inimigos no exterior.

A definição de uma comunidade

E nele consiste a essência da comunidade; que (para defini-la) é "Uma Pessoa, de cujos atos uma grande multidão, por meio de pactos mútuos entre si, se tornaram cada uma o Autor, para que ele possa usar a força e os meios de todos eles, como achar conveniente, para sua paz e defesa comum."

Soberano e súdito, o quê?

E aquele que carrega esta Pessoa, chamada SOBERANO, e que se diz ter Poder Soberano; e todos os demais, seus SÚDITOS.

A conquista desse Poder Soberano se dá de duas maneiras. Uma, pela força natural; como quando um homem obriga seus filhos a se submeterem, e seus filhos também, ao seu governo, podendo destruí-los caso se recusem, ou quando subjuga seus inimigos pela guerra, concedendo-lhes a vida sob essa condição. A outra ocorre quando os homens concordam entre si em se submeter voluntariamente a um homem ou assembleia de homens, confiando em sua proteção contra todos os outros. Esta última pode ser chamada de Comunidade Política ou Comunidade por Instituição; e a primeira, de Comunidade por Aquisição. E, em primeiro lugar, falarei da Comunidade por Instituição.

CAPÍTULO XVIII.
DOS DIREITOS DOS SOBERANOS POR INSTITUIÇÃO

O ato de instituir uma comunidade, o quê?

Diz-se que uma comunidade é instituída quando uma multidão de homens concorda e pactua, cada um com cada um, que a qualquer homem ou assembleia de homens que receber, pela maioria, o direito de apresentar a pessoa de todos eles (isto é, de ser seu representante); cada um, tanto aquele que votou a favor quanto aquele que votou contra, autorizará todas as ações e julgamentos desse homem ou assembleia de homens, da mesma maneira que se fossem seus, com o objetivo de viver pacificamente entre si e serem protegidos uns dos outros.

As consequências para tal instituição são

1. Os súditos não podem alterar a forma de governo.

Dessa instituição de uma comunidade política derivam todos os direitos e faculdades daquele ou daqueles a quem o poder soberano é conferido pelo consentimento do povo reunido.

Primeiro, porque eles firmaram um Pacto, é preciso entender que não estão obrigados por um Pacto anterior a nada que seja repugnante a este. Consequentemente, aqueles que já instituíram uma Comunidade, estando por meio deste Pacto obrigados a reconhecer as Ações e os Julgamentos de um, não podem legalmente fazer um novo Pacto entre si para serem obedientes a qualquer outro, em qualquer coisa, sem a permissão deste. E, portanto, aqueles que são súditos de um Monarca não podem, sem a sua permissão, abandonar a Monarquia e retornar à confusão de uma Multidão desunida; nem transferir sua Pessoa daquele que a possui para outro Homem ou outra Assembleia de homens: pois estão obrigados, cada um a cada um, a reconhecer e ser considerado Autor de tudo o que aquele que já é seu Soberano fizer e julgar conveniente fazer; de modo que qualquer homem que discorde, todos os demais quebrarão o Pacto feito a esse homem, o que é injustiça; e também cada um concedeu a Soberania àquele que possui sua Pessoa; e, portanto, se o depõem, tomam dele o que lhe pertence, e assim também é injustiça. Além disso, se aquele que tenta depor seu Soberano for morto ou punido por ele por tal tentativa, é autor de sua própria punição, pois, sendo pela Instituição, Autor de tudo o que seu Soberano fizer: E porque é injustiça um homem fazer algo pelo qual possa ser punido por sua própria autoridade, ele também é injusto nesse título. E enquanto alguns homens alegaram, para justificar sua desobediência ao seu Soberano, uma nova Aliança, feita não com homens, mas com Deus, isso também é injusto: pois não há Aliança com Deus senão por mediação de alguém que representa a Pessoa de Deus; o que ninguém faz senão o Tenente de Deus, que detém a Soberania sob Deus. Mas essa pretensão de Aliança com Deus é uma mentira tão evidente, mesmo na consciência dos próprios pretensos, que não é apenas um ato de injustiça, mas também de índole vil e covarde.

2. O poder soberano não pode ser perdido.

Em segundo lugar, como o direito de representar a pessoa de todos eles é dado àquele que o torna Soberano, por meio de um pacto feito unicamente entre si, e não dele para com qualquer um deles, não pode haver quebra de pacto por parte do Soberano; e, consequentemente, nenhum de seus súditos, sob qualquer pretexto de perda, pode ser libertado de sua sujeição. Que aquele que é feito Soberano não faça um pacto com seus súditos antecipadamente é manifesto; porque ou ele deve fazê-lo com toda a multidão, como uma única parte do pacto; ou ele deve fazer um pacto individual com cada um. Com todos, como uma única parte, é impossível; Porque ainda não são uma só Pessoa; e se ele fizer tantos pactos diferentes quantos forem os homens, esses pactos, depois que ele tiver a Soberania, serão nulos, porque qualquer ato que possa ser alegado por qualquer um deles como violação do pacto será um ato tanto dele mesmo quanto de todos os demais, porque foi feito em nome da Pessoa e pelo Direito de cada um deles em particular. Além disso, se um ou mais deles alegarem violação do pacto feito pelo Soberano em sua Instituição; e outros, ou um de seus súditos, ou ele próprio sozinho, alegarem que não houve tal violação, neste caso, não haverá Juiz para decidir a controvérsia: ela retorna, portanto, à Espada; e cada homem recupera o direito de se proteger por sua própria força, contrariamente ao propósito que tinham na Instituição. É, portanto, inútil conceder Soberania por meio de um pacto precedente. A opinião de que qualquer monarca recebe seu poder por meio de um pacto, ou seja, sob condição, decorre da falta de compreensão desta verdade simples: que os pactos, sendo meras palavras e palavras, não têm força para obrigar, conter, constranger ou proteger ninguém, a não ser aquela que provém da espada pública; isto é, das mãos livres daquele homem, ou assembleia de homens, que detém a soberania, e cujas ações são atestadas por todos e executadas pela força de todos, unidos nele. Mas quando uma assembleia de homens se torna soberana, ninguém imagina que tal pacto tenha sido firmado na instituição; pois ninguém é tão obtuso a ponto de dizer, por exemplo, que o povo de Roma fez um pacto com os romanos para manter a soberania sob tais ou tais condições; caso não fossem cumpridas, os romanos poderiam legitimamente depor o povo romano. O fato de os homens não verem razão para serem iguais numa Monarquia e num Governo Popular decorre da ambição de alguns, que são mais favoráveis ​​ao governo de uma Assembleia, da qual podem esperar participar, do que à Monarquia, da qual desesperam desfrutar.

3. Nenhum homem pode, sem injustiça, protestar contra a instituição da soberania declarada pela maioria.

Em terceiro lugar, porque a maioria, por unanimidade, declarou um Soberano; aquele que discordou deve agora consentir com os demais; isto é, contentar-se em confessar todas as ações que praticar, ou então ser justamente destruído pelos outros. Pois, se ele voluntariamente entrou na Congregação dos que estavam reunidos, declarou suficientemente, por meio disso, sua vontade (e, portanto, tacitamente pactuou) de acatar o que a maioria ordenasse; e, portanto, se ele se recusar a acatar ou protestar contra qualquer um de seus Decretos, estará agindo contrariamente ao seu Pacto e, portanto, injustamente. E, seja ele da Congregação ou não; e seja seu consentimento solicitado ou não, ele deve submeter-se aos seus decretos ou permanecer na condição de guerra em que se encontrava antes; na qual poderá ser destruído, sem injustiça, por qualquer homem.

4. As ações do soberano não podem ser justamente acusadas pelo súdito.

Em quarto lugar, porque cada súdito é, por esta instituição, autor de todas as ações e julgamentos do soberano instituído, segue-se que, qualquer que seja a sua ação, ela não pode prejudicar nenhum dos seus súditos, nem deve ser acusado de injustiça por nenhum deles. Pois quem age por autoridade de outrem não prejudica aquele que lhe concede a autoridade. Mas, por esta instituição de uma comunidade, cada indivíduo é autor de tudo o que o soberano faz; e, consequentemente, quem se queixa de prejuízo por parte do seu soberano, queixa-se daquilo de que ele próprio é autor; e, portanto, não deve acusar ninguém além de si mesmo de prejuízo, pois prejudicar a si próprio é impossível. É verdade que aqueles que detêm o poder soberano podem cometer iniquidade, mas não injustiça ou dano no sentido próprio da palavra.

5. Tudo o que o soberano fizer é impunível pelo súdito.

Cinquenta, e em consequência do que foi dito por último, nenhum homem que detenha poder soberano pode ser justamente morto, ou punido de qualquer outra forma por seus súditos. Pois, como cada súdito é autor das ações de seu soberano, este pune outro pelas ações que ele próprio cometeu.

6. O Soberano é juiz do que é necessário para a paz e a defesa de seus súditos.

E porque o objetivo desta instituição é a paz e a defesa de todos; e quem tem direito ao objetivo, tem direito aos meios; pertence por direito a qualquer homem ou assembleia que detenha a soberania, ser juiz tanto dos meios de paz e defesa, quanto dos obstáculos e perturbações a ela; e fazer tudo o que julgar necessário, tanto antecipadamente, para a preservação da paz e da segurança, prevenindo a discórdia interna e a hostilidade externa; quanto, quando a paz e a segurança forem perdidas, para a sua recuperação. E, portanto,

E julgar quais doutrinas são adequadas para serem ensinadas a eles.

Sexto, é inerente à Soberania julgar quais opiniões e doutrinas são contrárias e quais conduzem à paz; e, consequentemente, em que ocasiões, até que ponto e com que responsabilidade os homens devem ser confiados ao falar a multidões; e quem deve examinar as doutrinas de todos os livros antes de serem publicados. Pois as ações dos homens procedem de suas opiniões; e o bom governo das opiniões consiste no bom governo das ações dos homens, visando à sua paz e concórdia. E embora, em matéria de doutrina, nada deva ser considerado senão a verdade, isso não é incompatível com a regulação da paz. Pois uma doutrina incompatível com a paz não pode ser verdadeira, assim como a paz e a concórdia não podem ser contrárias à lei da natureza. É verdade que, numa comunidade onde, por negligência ou inabilidade dos governantes e professores, falsas doutrinas são geralmente aceitas, as verdades contrárias podem ser geralmente ofensivas. Contudo, a mais repentina e abrupta introdução de uma nova verdade jamais rompe a paz, apenas por vezes desperta a guerra. Pois aqueles homens que são governados de forma tão negligente que ousam pegar em armas para defender ou introduzir uma opinião, permanecem em guerra; e sua condição não é de paz, mas apenas uma cessação das armas por medo uns dos outros; e vivem, por assim dizer, em constante estado de alerta. Pertence, portanto, àquele que detém o poder soberano ser juiz ou constituir todos os juízes de opiniões e doutrinas, como algo necessário à paz, prevenindo assim a discórdia e a guerra civil.

7. O direito de elaborar regras, pelas quais cada súdito pode saber o que lhe é próprio, de modo que nenhum outro súdito possa, sem injustiça, tomar-lhe o direito.

Sétimo, está anexado à Soberania todo o poder de prescrever as Regras, pelas quais cada homem pode saber quais Bens pode desfrutar e quais Ações pode praticar, sem ser molestado por nenhum de seus concidadãos: E é a isso que os homens chamam de Propriedade. Pois antes da constituição do Poder Soberano (como já foi demonstrado), todos os homens tinham direito a todas as coisas; o que necessariamente causa Guerra; e, portanto, esta Propriedade, sendo necessária à Paz e dependendo do Poder Soberano, é o Ato do Poder, a fim da paz pública. Essas Regras de Propriedade (ou Meum e Tuum) e do Bem, do Mal, do Lícito e do Ilícito nas ações dos súditos são as Leis Civis, isto é, as leis de cada Comunidade em particular; embora o nome de Direito Civil esteja agora restrito às antigas Leis Civis da Cidade de Roma; que, sendo a capital de grande parte do mundo, suas leis naquela época eram, nessas regiões, o Direito Civil.

8. A Ele também pertence o direito de julgar e decidir controvérsias:

Oitavo, anexa-se à Soberania o Direito de Judicatura; isto é, o direito de ouvir e decidir todas as controvérsias que possam surgir concernentes à lei, seja ela civil, natural ou factual. Pois sem a decisão de controvérsias, não há proteção de um súdito contra as injúrias de outro; as leis concernentes a Meum e Tuum são vãs; e a cada homem permanece, pelo apetite natural e necessário de sua própria conservação, o direito de se proteger por sua força privada, o que é condição de guerra; e contrário ao fim para o qual toda comunidade é instituída.

9. E quanto a fazer a guerra e a paz, conforme lhe parecer melhor:

Em nono lugar, está anexado à Soberania o Direito de fazer guerra e paz com outras nações e comunidades; isto é, de julgar quando é para o bem público e quão grandes forças devem ser reunidas, armadas e pagas para esse fim; e de cobrar impostos dos súditos para custear as despesas daí decorrentes. Pois o poder pelo qual o povo deve ser defendido consiste em seus exércitos; e a força de um exército reside na união de suas forças sob um único comando; comando esse que o soberano instituiu, portanto, detém; porque o comando da milícia, sem outra instituição, torna soberano aquele que o detém. E, portanto, quem quer que seja nomeado general de um exército, aquele que detém o poder soberano é sempre generalíssimo.

10. E quanto à escolha de todos os conselheiros e ministros, tanto da paz como da guerra:

Em décimo lugar, está anexada à Soberania a escolha de todos os Conselheiros, Ministros, Magistrados e Oficiais, tanto em tempos de paz quanto de guerra. Pois, visto que o Soberano é incumbido do fim, que é a paz e a defesa comuns, entende-se que ele tem o poder de usar os meios que julgar mais adequados para cumprir sua missão.

11. E quanto a recompensar, punir e arbitrariamente (quando nenhuma lei anterior determinou sua medida):

Décimo primeiro, ao Soberano é confiado o Poder de Recompensar com riquezas ou honras; e de Punir com castigos corporais ou pecuniários, ou com ignomínia, cada Súdito, de acordo com a Lei que ele tenha anteriormente estabelecido; ou, se não houver Lei estabelecida, de acordo com o que ele julgar mais adequado para encorajar os homens a servir à Comunidade, ou para dissuadi-los de lhe prestar desserviço.

12. E de Honra e Ordem

Por fim, considerando os valores que os homens tendem naturalmente a atribuir a si mesmos, o respeito que esperam dos outros e o pouco valor que atribuem aos demais, daí surgem continuamente entre eles a emulação, as contendas, as facções e, por fim, a guerra, para a destruição mútua e a diminuição de sua força contra um inimigo comum, torna-se necessário que haja leis de honra e uma avaliação pública do valor daqueles que mereceram ou são capazes de merecer o respeito da comunidade; e que haja poder nas mãos de alguém para pôr essas leis em prática. Mas já foi demonstrado que não apenas toda a milícia ou as forças da comunidade, mas também a jurisdição sobre todas as controvérsias, está vinculada à soberania. Ao soberano, portanto, pertence também conceder títulos de honra e designar a ordem de posição e a dignidade que cada homem deverá ocupar. e que sinais de respeito, em reuniões públicas ou privadas, deverão trocar entre si.

Esses direitos são indivisíveis

Estes são os Direitos que constituem a Essência da Soberania; e que são as marcas pelas quais um homem pode discernir em qual Homem, ou Assembleia de homens, o Poder Soberano está investido e reside. Pois estes são incomunicáveis ​​e inseparáveis. O Poder de arrecadar dinheiro; de dispor dos bens e das pessoas de herdeiros menores; de ter prioridade nos mercados; e todas as demais Prerrogativas Estatutárias podem ser transferidos pelo Soberano; e ainda assim o Poder de proteger seus súditos deve ser retido. Mas se ele transferir a Milícia, retém a Justiça em vão, por falta de execução das Leis; ou se ele conceder o Poder de arrecadar dinheiro, a Milícia torna-se inútil; ou se ele renunciar ao governo das doutrinas, os homens serão incitados à rebelião pelo medo de espíritos. Assim, se considerarmos qualquer um dos referidos Direitos, veremos em breve que a manutenção de todos os demais não produzirá efeito algum na conservação da Paz e da Justiça, fim para o qual todas as Comunidades são instituídas. E é essa divisão que explica o ditado: "Um reino dividido em si mesmo não pode subsistir". Pois, a menos que essa divisão preceda, a divisão em exércitos opostos jamais poderá ocorrer. Se não tivesse havido, antes, a opinião difundida pela maior parte da Inglaterra de que esses Poderes estavam divididos entre o Rei, os Lordes e a Câmara dos Comuns, o povo jamais teria se dividido e mergulhado nesta Guerra Civil; primeiro entre aqueles que discordavam em questões políticas; e depois entre os dissidentes quanto à liberdade religiosa; o que instruiu os homens de tal forma nesse ponto do Direito Soberano, que poucos agora (na Inglaterra) não percebem que esses Direitos são inseparáveis ​​e serão amplamente reconhecidos no próximo retorno da Paz; e assim continuarão até que seus sofrimentos sejam esquecidos. e não mais, a menos que o vulgo seja melhor instruído do que tem sido até agora.

E não pode, de forma alguma, passar sem a renúncia direta ao poder soberano.

E, por serem direitos essenciais e inseparáveis, segue-se necessariamente que, independentemente das palavras com que qualquer um deles pareça ser concedido, se o próprio Poder Soberano não for renunciado em termos diretos, e o nome de Soberano não for mais atribuído pelos beneficiários àquele que os concede, a concessão é inválida; pois, quando ele tiver concedido tudo o que pode, se devolvermos a Soberania, tudo estará restaurado, por estar inseparavelmente anexado a ela.

O poder e a honra dos súditos desaparecem na presença do soberano poderoso.

Sendo esta grande Autoridade indivisível e indissoluvelmente ligada à Soberania, há pouco fundamento para a opinião daqueles que dizem dos Reis Soberanos, embora sejam Singulis Majores, de maior poder do que cada um de seus súditos, ainda assim são Universis Minores, de menor poder do que todos eles juntos. Pois, se por "todos juntos" eles não se referem ao corpo coletivo como uma só pessoa, então "todos juntos" e "cada um" significam a mesma coisa; e o discurso é absurdo. Mas se por "todos juntos" eles os entendem como uma só Pessoa (pessoa que o Soberano representa), então o poder de todos juntos é o mesmo que o poder do Soberano; e assim, novamente, o discurso é absurdo; absurdo esse que eles percebem muito bem quando a Soberania reside em uma Assembleia do povo; mas em um Monarca eles não o percebem; e, no entanto, o poder da Soberania é o mesmo em qualquer pessoa em quem esteja depositado.

E assim como o Poder, também a Honra do Soberano deve ser maior do que a de qualquer um ou de todos os Súditos. Pois na Soberania reside a fonte da Honra. As dignidades de Lorde, Conde, Duque e Príncipe são Suas criações. Assim como na presença do Mestre os Servos são iguais, e sem qualquer honra, assim também o são os Súditos na presença do Soberano. E embora brilhem um pouco mais, outros menos, quando estão fora de Sua vista, em Sua presença, não brilham mais do que as Estrelas na presença do Sol.

O poder soberano não é tão prejudicial quanto a sua ausência, e a maior parte da dor advém da não submissão a um poder inferior.

Mas alguém pode objetar aqui que a condição dos súditos é muito miserável, sendo repugnante aos desejos e outras paixões desordenadas dele ou daqueles que detêm um poder tão ilimitado. E geralmente aqueles que vivem sob um monarca consideram isso uma falha da monarquia; e aqueles que vivem sob o governo da democracia ou de outra assembleia soberana atribuem todos os inconvenientes a essa forma de governo; quando, na verdade, o poder em todas as formas, se for suficientemente perfeito para protegê-los, é o mesmo; sem considerar que a condição humana jamais pode estar isenta de algum tipo de inconveniência; e que a maior que, em qualquer forma de governo, possa acontecer ao povo em geral é quase imperceptível em comparação com as misérias e calamidades horríveis que acompanham uma guerra civil. ou aquela condição dissoluta de homens sem mestre, sem submissão às leis e sem um poder coercitivo que os impeça de cometer rapina e vingança; nem considerando que a maior pressão dos governantes soberanos não provém de qualquer prazer ou lucro que possam esperar com o dano ou enfraquecimento de seus súditos, em cujo vigor consiste eles mesmos, que, contribuindo involuntariamente para sua própria defesa, tornam necessário que seus governantes extraiam deles o que puderem em tempos de paz, para que tenham meios, em qualquer ocasião emergencial ou necessidade repentina, de resistir ou tirar vantagem sobre seus inimigos. Pois todos os homens são, por natureza, dotados de notáveis ​​lentes multiplicadoras (isto é, suas paixões e amor-próprio), através das quais cada pequeno sacrifício parece uma grande injustiça; mas são destituídos daquelas lentes prospectivas (a saber, a ciência moral e civil) para enxergar de longe as misérias que pairam sobre eles e das quais não podem escapar sem tais sacrifícios.

CAPÍTULO XIX.
DOS VÁRIOS TIPOS DE COMUNIDADE POR INSTITUIÇÃO E DA SUCESSÃO AO PODER SOBERANO

As diferentes formas de comunidades, mas três

A diferença entre as comunidades políticas reside na diferença do soberano, ou da pessoa que representa todos e cada um da multidão. E como a soberania reside ou em um só homem, ou em uma assembleia de mais de um; e nessa assembleia ou todo homem tem o direito de entrar, ou não todo homem, mas certos homens distintos dos demais; é evidente que só podem existir três tipos de comunidade política. Pois o representante deve ser necessariamente um homem, ou mais: e se mais de um, então é a assembleia de todos, ou apenas de uma parte. Quando o representante é um homem, então a comunidade política é uma monarquia; quando é uma assembleia de todos que se reúnem, então é uma democracia, ou comunidade política popular; quando é uma assembleia apenas de uma parte, então é chamada de aristocracia. Não pode haver outro tipo de comunidade: pois ou Um, ou Mais, ou Todos devem ter o Poder Soberano (que demonstrei ser indivisível) por inteiro.

Tirania e oligarquia, mas com nomes diferentes para monarquia e aristocracia.

Existem outros nomes para o governo, nas histórias e nos livros de política, como tirania e oligarquia. Mas esses não são nomes de outras formas de governo, e sim das mesmas formas que são malvistas. Pois aqueles que estão descontentes com a monarquia a chamam de tirania; e aqueles que estão descontentes com a aristocracia a chamam de oligarquia; assim também, aqueles que se sentem aflitos sob uma democracia a chamam de anarquia (o que significa falta de governo); e, no entanto, creio que ninguém acredita que a falta de governo seja um novo tipo de governo; nem, pela mesma razão, deveriam acreditar que o governo é de um tipo quando lhe agradam e de outro quando o desagradam ou são oprimidos pelos governantes.

Representantes subordinados perigosos

É evidente que os homens, em absoluta liberdade, podem, se assim o desejarem, conferir autoridade a um só homem para representá-los a todos, assim como podem conferir tal autoridade a qualquer assembleia de homens; e, consequentemente, podem submeter-se, se assim o entenderem, a um monarca, tão absolutamente quanto a qualquer outro representante. Portanto, onde já existe um poder soberano, não pode haver outro representante do mesmo povo, senão apenas para certos fins particulares, limitados pelo soberano. Pois isso seria erigir dois soberanos; e cada homem ter a sua pessoa representada por dois atores que, opondo-se um ao outro, inevitavelmente dividiriam esse poder que (se os homens quiserem viver em paz) é indivisível, reduzindo assim a multidão à condição de guerra, contrariamente ao fim para o qual toda soberania é instituída. Portanto, assim como é absurdo pensar que uma Assembleia Soberana, convidando o povo de seu domínio a enviar seus representantes, com poder para manifestar seus conselhos ou desejos, deveria considerar tais representantes, e não a si mesma, como representantes absolutos do povo, também é absurdo pensar o mesmo em uma monarquia. E não sei como essa verdade tão evidente tenha sido tão pouco observada ultimamente: que em uma monarquia, aquele que detinha a soberania por descendência de 600 anos, era o único chamado de Soberano, recebia o título de Majestade de todos os seus súditos e era inquestionavelmente considerado por eles como seu Rei; contudo, jamais era considerado seu representante; esse nome, sem contradição, servia como título para aqueles homens que, por sua ordem, eram enviados pelo povo para levar suas petições e dar-lhe (se ele permitisse) seus conselhos. O que pode servir de advertência para aqueles que são os verdadeiros e absolutos representantes de um povo, para que instruam os homens sobre a natureza desse ofício e atentem para como admitem qualquer outra representação geral em qualquer ocasião, se pretendem cumprir a verdade que lhes foi confiada.

Comparação da Monarquia com as Assembleias Soberanas

A diferença entre esses três tipos de sociedade não reside na diferença de poder, mas na diferença de conveniência ou aptidão para produzir a paz e a segurança do povo, fim para o qual foram instituídas. E, comparando a monarquia com as outras duas, podemos observar o seguinte: primeiro, quem quer que represente o povo, ou seja um membro da assembleia que o representa, representa também a sua própria pessoa natural. E, embora se esforce, em sua atuação política, para garantir o interesse comum, é igualmente ou mais cuidadoso em buscar o bem privado para si mesmo, sua família, parentes e amigos; e, na maioria das vezes, se o interesse público se sobrepõe ao privado, prefere o privado, pois as paixões dos homens são geralmente mais potentes que a razão. Daí se conclui que, onde o interesse público e o privado estão mais intimamente unidos, ali o público está mais avançado. Ora, na monarquia, o interesse privado é o mesmo que o público. A riqueza, o poder e a honra de um monarca provêm unicamente da riqueza, da força e da reputação de seus súditos. Pois nenhum rei pode ser rico, glorioso ou seguro se seus súditos forem pobres, desprezíveis ou fracos demais, por necessidade ou dissidência, para sustentar uma guerra contra seus inimigos. Já em uma democracia ou aristocracia, a prosperidade pública não contribui tanto para a fortuna privada de alguém corrupto ou ambicioso quanto, muitas vezes, um conselho pérfido, uma ação traiçoeira ou uma guerra civil.

Em segundo lugar, um monarca recebe conselhos de quem, quando e onde lhe aprouver; e, consequentemente, pode ouvir a opinião de homens versados ​​no assunto sobre o qual delibera, de qualquer posição ou qualidade, e com a antecedência e o sigilo que desejar. Mas quando uma Assembleia Soberana necessita de conselhos, ninguém é admitido senão aqueles que têm direito a eles desde o início; os quais, em sua maioria, são aqueles que se dedicaram mais à aquisição de riquezas do que ao conhecimento; e devem dar seus conselhos em longos discursos, que podem, e geralmente o fazem, incitar os homens à ação, mas não os governam nela. Pois o entendimento, pela chama das paixões, nunca é iluminado, mas sim obscurecido: e não há lugar ou tempo em que uma Assembleia possa receber conselhos em segredo, por causa de sua própria multidão.

Em terceiro lugar, as resoluções de um monarca não estão sujeitas a outra inconstância senão a da natureza humana; mas nas assembleias, além da inconstância da natureza humana, surge uma inconstância decorrente do número de membros. Pois a ausência de alguns que desejariam que a resolução, uma vez tomada, se mantivesse firme (o que pode ocorrer por questões de segurança, negligência ou impedimentos particulares), ou o comparecimento diligente de alguns com opinião contrária, desfaz hoje tudo o que foi concluído ontem.

Em quarto lugar, que um monarca não pode discordar de si mesmo por inveja ou interesse próprio; mas uma assembleia pode, e até um ponto que pode provocar uma guerra civil.

Em quinto lugar, na Monarquia existe este inconveniente: qualquer súdito, pelo poder de um só homem, para enriquecer um favorito ou bajulador, pode ser privado de tudo o que possui; o que, confesso, é um grande e inevitável inconveniente. Mas o mesmo pode acontecer onde o Poder Soberano reside numa Assembleia: pois o seu poder é o mesmo; e estão tão sujeitos a maus conselhos e a serem seduzidos por oradores quanto um Monarca por bajuladores; e, tornando-se bajuladores uns dos outros, servem alternadamente à cobiça e à ambição uns dos outros. E enquanto que os favoritos de uma Assembleia são muitos, e os parentes muito mais numerosos do que os de qualquer Monarca. Além disso, não há favorito de um Monarca que não possa tanto socorrer os seus amigos quanto prejudicar os seus inimigos: mas os oradores, isto é, os favoritos das Assembleias Soberanas, embora tenham grande poder para prejudicar, têm pouco para salvar. Pois acusar exige menos eloquência (tal é a natureza do homem) do que desculpar; e a condenação, mais do que a absolvição, assemelha-se à justiça.

Sexto, que é um inconveniente na Monarquia que a Soberania recaia sobre uma criança ou alguém que não consegue discernir entre o Bem e o Mal; e consiste nisto: que o uso do seu Poder deve estar nas mãos de outro homem, ou de alguma assembleia de homens, que devem governar por seu direito e em seu nome; como curadores e protetores da sua Pessoa e Autoridade. Mas dizer que há inconveniente em colocar o uso do Poder Soberano nas mãos de um homem ou de uma assembleia de homens é dizer que todo governo é mais inconveniente do que a confusão e a guerra civil. E, portanto, todo o perigo que se possa alegar deve surgir da contenda daqueles que, por um cargo de tão grande honra e proveito, podem tornar-se concorrentes. Para demonstrar que esse inconveniente não decorre da forma de governo que chamamos de Monarquia, devemos considerar que o monarca precedente designou quem ficará responsável pela educação de seu sucessor infantil, seja expressamente por testamento, seja tacitamente, ao não controlar o costume vigente nesse caso. Assim, tal inconveniente (caso ocorra) deve ser atribuído não à Monarquia, mas à ambição e à injustiça dos súditos, o que ocorre em todos os tipos de governo, onde o povo não é bem instruído sobre seus deveres e direitos de soberania. Ou então, o monarca precedente não tomou nenhuma providência em relação a tal educação. E então a lei da natureza estabeleceu esta regra suficiente: a educação ficará a cargo daquele que, por natureza, tem maior interesse na preservação da autoridade do infante e a quem menos se beneficiará com sua morte ou diminuição. Pois todo homem, por natureza, busca seu próprio benefício e promoção. Colocar uma criança sob o poder daqueles que podem se promover com sua destruição ou dano não é educação, mas traição. Portanto, mesmo que se tomem as devidas providências contra toda justa contenda sobre o governo de uma criança, se surgir alguma disputa que perturbe a paz pública, esta não deve ser atribuída à forma da monarquia, mas à ambição dos súditos e à ignorância de seus deveres. Por outro lado, não existe grande comunidade, cuja soberania resida em uma grande assembleia, que não esteja, no que diz respeito às consultas sobre paz e guerra e à elaboração de leis, na mesma condição que se o governo estivesse nas mãos de uma criança. Pois, assim como uma criança precisa de discernimento para discordar dos conselhos que lhe são dados e, por isso, é obrigada a acatar o conselho daqueles a quem foi confiada, assim também uma assembleia precisa da liberdade de discordar do conselho da maioria, seja ele bom ou ruim. E assim como uma criança precisa de um tutor ou protetor para preservar sua pessoa e autoridade:Assim também (nas grandes repúblicas), a Assembleia Soberana, em todos os grandes perigos e dificuldades, necessita de Custodes Libertatis; isto é, de Ditadores ou Protetores de sua Autoridade; que são tanto quanto Monarcas Temporários; a quem, por um tempo, podem confiar todo o exercício de seu Poder; e que (ao final desse tempo) foram mais frequentemente privados dele do que os Reis Infantes, por seus Protetores, Regentes ou quaisquer outros Tutores.

Embora os tipos de soberania sejam, como já mostrei, apenas três: Monarquia, onde um homem a detém; Democracia, onde a Assembleia Geral dos Súditos a detém; ou Aristocracia, onde reside em uma Assembleia de certas pessoas nomeadas ou de alguma forma distintas das demais; ainda assim, quem considerar as comunidades específicas que existiram e existem no mundo, talvez não as reduza facilmente a três, podendo, com isso, inclinar-se a pensar que existem outras formas, surgindo da mistura destas. Como, por exemplo, os reinos eletivos, onde os reis recebem o poder soberano por um período determinado; ou os reinos em que o rei tem um poder limitado: governos que, no entanto, são chamados de monarquia pela maioria dos autores. Da mesma forma, se uma comunidade popular ou aristocrática subjugar um país inimigo e governá-lo por meio de um presidente, procurador ou outro magistrado; À primeira vista, isso pode parecer um governo democrático ou aristocrático. Mas não é. Pois os reis eleitos não são soberanos, mas ministros do soberano; nem os reis com poderes limitados são soberanos, mas ministros daqueles que detêm o poder soberano; e as províncias que estão sujeitas a uma democracia ou aristocracia de outra comunidade não são governadas democraticamente ou aristocraticamente, mas monarquicamente.

E, em primeiro lugar, no que diz respeito a um Rei Eleito, cujo poder se limita à sua vida, como acontece em muitos lugares da Cristandade até hoje; ou a certos Anos ou Meses, como o poder dos ditadores entre os Romanos; se ele tem o direito de nomear seu Sucessor, ele não é mais Eleito, mas Hereditário. Mas se ele não tem o poder de eleger seu Sucessor, então existe algum outro Homem, ou Assembleia conhecida, que após a sua morte pode eleger um novo, ou então a República morre e se dissolve com ele, e retorna à condição de Guerra. Se é conhecido quem tem o poder de conceder a Soberania após a sua morte, também é conhecido que a Soberania já lhes pertencia antes: pois ninguém tem o direito de conceder aquilo que não tem o direito de possuir e guardar para si, se assim o entender. Mas se não há ninguém que possa conceder a Soberania após a morte daquele que foi eleito primeiro; Então ele tem o poder, aliás, ele é obrigado pela Lei da Natureza, a prover, estabelecendo seu Sucessor, para impedir que aqueles que lhe confiaram o Governo recaiam na miserável condição de guerra civil. E, consequentemente, quando eleito, ele era um Soberano absoluto.

Em segundo lugar, aquele rei cujo poder é limitado não é superior a ele, nem àqueles que têm o poder de limitá-lo; e aquele que não é superior não é supremo; isto é, não é soberano. A soberania, portanto, sempre residia na assembleia que tinha o direito de limitá-lo; e, por consequência, o governo não era monárquico, mas sim democrático ou aristocrático, como antigamente em Esparta, onde os reis tinham o privilégio de liderar seus exércitos, mas a soberania residia nos éforos.

Em terceiro lugar, enquanto que, até então, o povo romano governava a Judeia (por exemplo) por meio de um presidente, a Judeia não era, portanto, uma democracia, pois não era governada por uma assembleia na qual qualquer um de seus membros tivesse o direito de entrar, nem por uma aristocracia, pois não era governada por uma assembleia na qual qualquer homem pudesse entrar por eleição. Mas era governada por uma única pessoa, que, embora para o povo romano fosse uma assembleia do povo, ou democracia, para o povo da Judeia, que não tinha nenhum direito de participar do governo, era um monarca. Pois, embora quando o povo é governado por uma assembleia escolhida por si mesmo dentre seus membros, o governo seja chamado de democracia ou aristocracia, quando é governado por uma assembleia que não foi escolhida por eles, trata-se de uma monarquia; não de um homem sobre outro, mas de um povo sobre outro.

Do Direito de Sucessão

De todas essas formas de governo, sendo a matéria mortal, de modo que não apenas monarcas, mas também assembleias inteiras morrem, é necessário, para a conservação da paz entre os homens, que, assim como se tomou a ordem de um Homem Artificial, também se tome a ordem de uma Eternidade Artificial da vida; sem a qual, os homens governados por uma assembleia retornariam à condição de guerra em todas as épocas; e aqueles governados por um só homem, assim que seu governante morresse. Essa Eternidade Artificial é o que os homens chamam de Direito de Sucessão.

Não existe forma perfeita de governo em que a disposição da sucessão não esteja nas mãos do soberano em exercício. Pois, se estiver nas mãos de qualquer outro homem em particular, ou de uma assembleia privada, estará nas mãos de uma pessoa submissa, que poderá ser assumida pelo soberano a seu bel-prazer; e, consequentemente, o direito estará nele próprio. E se não estiver nas mãos de nenhum homem em particular, mas for deixada a uma nova escolha, então a República se dissolve; e o direito estará naquele que puder obtê-lo; contrariamente à intenção daqueles que instituíram a República, para sua segurança perpétua, e não temporária.

Numa democracia, toda a Assembleia não pode falhar, a menos que a multidão que deve ser governada falhe. E, portanto, questões de direito de sucessão não têm lugar algum nessa forma de governo.

Numa aristocracia, quando um membro da Assembleia morre, a eleição de outro para o seu lugar cabe à Assembleia, assim como ao Soberano, a quem cabe a escolha de todos os Conselheiros e Oficiais. Pois aquilo que o Representante faz, como Agente, cada um dos Súditos faz, como Autor. E embora a Assembleia Soberana possa delegar poder a outros para elegerem novos homens para compor a sua Corte, é sempre pela sua Autoridade que a eleição é feita; e por essa mesma autoridade que ela pode (quando o público assim o exigir) ser revogada.

O Monarca Atual Tem o Direito de Dispor da Sucessão. A maior dificuldade relativa ao direito de sucessão reside na Monarquia: e a dificuldade surge do fato de que, à primeira vista, não é evidente quem deve nomear o sucessor; nem, muitas vezes, quem foi nomeado. Pois, em ambos os casos, exige-se um raciocínio mais preciso do que aquele a que todos estão habituados. Quanto à questão de quem deve nomear o sucessor de um Monarca que detém a Autoridade Soberana (isto é, pois Reis e Príncipes Eleitos não detêm o Poder Soberano em princípio, mas apenas em exercício), devemos considerar que ou aquele que detém o poder tem o direito de dispor da sucessão, ou então esse direito pertence à multidão dissolvida. Pois a morte daquele que detém o poder soberano em princípio deixa a multidão sem qualquer soberano. Ou seja, sem nenhum representante em quem se unissem e fossem capazes de realizar qualquer ação: portanto, são incapazes de eleger um novo monarca; cada homem tem o mesmo direito de se submeter àquele que considera mais capaz de protegê-lo ou, se puder, proteger-se com a própria espada; o que leva à confusão e à condição de guerra de todos contra todos, contrário ao propósito para o qual a monarquia foi instituída. Portanto, é evidente que, pela instituição da monarquia, a escolha do sucessor sempre fica a critério do atual possuidor.

E quanto à questão (que pode surgir por vezes) de quem o Monarca, em posse, designou para a sucessão e herança do seu poder, isso é determinado pelas suas palavras expressas e testamento, ou por outros sinais tácitos suficientes.

A sucessão passa por palavras expressas;

Por palavras expressas ou por testamento, quando declarado por ele em vida, oralmente ou por escrito; como os primeiros imperadores de Roma declararam quem seriam seus herdeiros. Pois a palavra herdeiro não implica, por si só, os filhos ou parentes mais próximos de um homem; mas sim quem quer que um homem declare, este deverá sucedê-lo em seus bens. Portanto, se um monarca declarar expressamente que tal homem será seu herdeiro, seja por palavra ou por escrito, então esse homem, imediatamente após o falecimento de seu predecessor, estará investido no direito de ser monarca.

Ou, por não controlar um cliente;

Mas onde faltam testamento e palavras expressas, outros sinais naturais da vontade devem ser seguidos: um deles é o costume. E, portanto, onde o costume é que o parente mais próximo suceda absolutamente, ali também o parente mais próximo tem direito à sucessão; pois, se a vontade daquele que detinha a posse fosse outra, ele poderia facilmente tê-la declarado em vida. E da mesma forma, onde o costume é que o parente masculino mais próximo suceda, ali também o direito de sucessão pertence ao parente masculino mais próximo, pela mesma razão. E assim é se o costume favorecer a mulher. Pois qualquer costume que um homem possa controlar com palavras, e não o faça, é um sinal natural de que ele deseja que esse costume permaneça.

Ou, por presunção de afeto natural

Mas onde nem o costume nem o testamento precedem, deve-se entender, em primeiro lugar, que a vontade do monarca é que o governo permaneça monárquico, porque ele o aprovou em si mesmo. Em segundo lugar, que um filho seu, homem ou mulher, seja preferido a qualquer outro, porque presume-se que os homens sejam mais inclinados, por natureza, a promover seus próprios filhos do que os filhos de outros homens; e, dentre os seus, um homem do que uma mulher, porque os homens são naturalmente mais aptos do que as mulheres para trabalhos árduos e atividades perigosas. Em terceiro lugar, quando faltar um filho, um irmão do que um estranho; e assim por diante, o parente mais próximo em sangue, em vez do mais distante, porque sempre se presume que o parente mais próximo é o mais próximo em afeto; e é evidente que um homem sempre recebe, por reflexão, a maior honra da grandeza de seu parente mais próximo.

Dispor da sucessão, ainda que para um rei de outra nação, não é ilegal.

Mas se for lícito a um monarca dispor da sucessão por meio de contrato ou testamento, talvez se considere isso um grande inconveniente: pois ele pode vender ou ceder seu direito de governar a um estrangeiro; o que, pelo fato de estrangeiros (isto é, homens não acostumados a viver sob o mesmo governo, que não falam a mesma língua) geralmente se desvalorizarem mutuamente, pode resultar na opressão de seus súditos; o que é, de fato, um grande inconveniente; mas isso não decorre necessariamente da submissão a um governo estrangeiro, mas da inabilidade dos governantes, ignorantes das verdadeiras regras da política. E, portanto, os romanos, quando subjugavam muitas nações, para tornar seu governo mais palatável, costumavam atenuar esse problema, tanto quanto julgavam necessário, concedendo, às vezes a nações inteiras, e às vezes a figuras importantes de cada nação conquistada, não apenas os privilégios, mas também o nome de romanos; e nomeavam muitos deles para o Senado e para cargos de chefia, inclusive na cidade romana. E era a isso que nosso sábio Rei, o Rei Jaime, aspirava ao tentar unir seus dois reinos, Inglaterra e Escócia. Se ele tivesse conseguido, essa união provavelmente teria evitado as guerras civis que, atualmente, tornam ambos os reinos miseráveis. Portanto, não é prejudicial ao povo que um monarca disponha da sucessão por testamento, embora, por culpa de muitos príncipes, isso às vezes se mostre inconveniente. Quanto à legalidade disso, há também o argumento de que qualquer inconveniente que possa advir da concessão de um reino a um estrangeiro pode advir também do casamento com estrangeiros, de modo que o direito de sucessão possa recair sobre eles; contudo, isso é considerado legal por todos.

CAPÍTULO XX.
DO DOMÍNIO PATERNAL E DESPÓTICO

Uma comunidade política por aquisição é aquela em que o poder soberano é adquirido pela força; e é adquirida pela força quando homens individualmente, ou muitos juntos por pluralidade de vozes, por medo da morte ou de vínculos, autorizam todas as ações daquele homem ou assembleia que tem suas vidas e liberdade em seu poder.

Em que difere de uma comunidade por instituição

E este tipo de domínio, ou soberania, difere da soberania por instituição apenas nisto: os homens que escolhem seu soberano o fazem por medo uns dos outros, e não daquele a quem instituem; mas, neste caso, submetem-se àquele a quem temem. Em ambos os casos, agem por medo, o que deve ser observado por aqueles que consideram inválidos todos os pactos que procedem do medo da morte ou da violência; pois, se isso fosse verdade, nenhum homem, em qualquer tipo de comunidade, poderia ser obrigado à obediência. É verdade que, em uma comunidade, uma vez instituída ou adquirida, as promessas que procedem do medo da morte ou da violência não são pactos nem obrigam, quando o que foi prometido é contrário às leis; mas a razão não é porque foi feita por medo, mas porque aquele que promete não tem direito sobre o que foi prometido. Além disso, quando ele tem o direito de cumprir a promessa e não o faz, não é a invalidade do pacto que o absolve, mas sim a sentença do Soberano. Caso contrário, sempre que um homem promete legalmente, ele quebra a promessa ilegalmente; mas quando o Soberano, que é o agente, o absolve, então ele é absolvido por aquele que fez a promessa, como se fosse o autor de tal absolvição.

Os direitos de soberania são os mesmos em ambos os casos.

Mas os direitos e as consequências da soberania são os mesmos em ambos os casos. Seu poder não pode, sem o seu consentimento, ser transferido a outrem; ele não pode perdê-lo; não pode ser acusado de injustiça por nenhum de seus súditos; não pode ser punido por eles; ele é o juiz do que é necessário para a paz e o juiz das doutrinas; ele é o único legislador e o juiz supremo das controvérsias, dos tempos e das ocasiões de guerra e paz; a ele pertence escolher magistrados, conselheiros, comandantes e todos os demais oficiais e ministros; e determinar recompensas, punições, honra e ordem. As razões para isso são as mesmas alegadas no capítulo anterior, referentes aos mesmos direitos e consequências da soberania por instituição.

Domínio Paterno: Como é alcançado não por geração, mas por contrato?

O domínio é adquirido de duas maneiras: por geração e por conquista. O direito de domínio por geração é aquele que o pai tem sobre seus filhos e é chamado de PATERNAL. E não deriva da geração como se o pai tivesse domínio sobre seu filho simplesmente por tê-lo gerado, mas sim do consentimento do filho, seja expresso ou declarado por outros argumentos suficientes. Pois, quanto à geração, Deus ordenou ao homem um auxiliador; e sempre há dois que são igualmente pais: o domínio sobre o filho, portanto, deveria pertencer igualmente a ambos, e ele deveria ser igualmente sujeito a ambos, o que é impossível, pois nenhum homem pode obedecer a dois senhores. E enquanto alguns atribuem o domínio somente ao homem, por ser do sexo mais excelente, eles se enganam. Pois nem sempre há uma diferença de força ou prudência entre o homem e a mulher que permita determinar o direito sem guerra. Nas repúblicas, esta controvérsia é decidida pelo Direito Civil; e, na maioria dos casos (mas nem sempre), a sentença é favorável ao pai, porque, em sua maioria, as repúblicas foram erigidas pelos pais, e não pelas mães. Mas a questão reside agora no estado de pura natureza, onde se supõe não haver leis matrimoniais, nem leis para a educação dos filhos, mas sim a lei da natureza e a inclinação natural dos sexos um pelo outro e pelos seus filhos. Nessa condição de pura natureza, ou os pais, entre si, dispõem sobre o domínio da criança por contrato, ou não o dispõem de forma alguma. Se o dispõem, o direito passa de acordo com o contrato. Encontramos na história que as Amazonas fizeram um contrato com os homens dos países vizinhos, aos quais recorriam para ter filhos, para que os filhos homens fossem devolvidos, mas as mulheres permanecessem com elas; de modo que o domínio das mulheres ficava com a mãe.

Ou Educação;

Se não houver contrato, o domínio pertence à mãe. Pois, na condição de mera natureza, onde não existem leis matrimoniais, não se pode saber quem é o pai, a menos que seja declarado pela mãe; portanto, o direito de domínio sobre a criança depende da vontade dela e, consequentemente, pertence a ela. Além disso, como o bebê está primeiramente sob o poder da mãe, tanto ela pode amamentá-lo quanto expô-lo a outros cuidados. Se ela o amamenta, a criança deve sua vida à mãe e, portanto, é obrigada a obedecê-la, e não a qualquer outra pessoa; e, por consequência, o domínio sobre ele é dela. Mas se ela o expõe a outros cuidados, e outro o encontra e o alimenta, o domínio pertence a quem o alimenta. Pois a criança deve obedecer àquele que a preserva; porque, sendo a preservação da vida o fim pelo qual um homem se submete a outro, presume-se que todo homem prometa obediência àquele em cujo poder está a salvação ou a destruição.

Ou a sujeição precedente de um dos pais ao outro.

Se a mãe for súdita do pai, a criança estará sob o poder do pai; e se o pai for súdito da mãe (como quando uma rainha soberana se casa com um de seus súditos), a criança estará sujeita à mãe, porque o pai também é seu súdito.

Se um homem e uma mulher, monarcas de dois reinos distintos, tiverem um filho e firmarem um contrato sobre quem terá o domínio sobre ele, o direito de domínio será anulado pelo contrato. Se não firmarem um contrato, o domínio seguirá o domínio do local de residência do filho. Pois o soberano de cada país tem domínio sobre todos os que nele residem.

Aquele que tem domínio sobre a criança, tem domínio também sobre os filhos de seus filhos. Pois aquele que tem domínio sobre a pessoa de um homem, tem domínio sobre tudo o que lhe pertence; sem isso, o domínio seria apenas um título, sem efeito.

O direito de sucessão segue as regras dos direitos de posse.

O direito de sucessão ao domínio paterno procede da mesma maneira que o direito de sucessão à monarquia, sobre o qual já falei suficientemente no capítulo anterior.

Domínio Despótico, Como Alcançado

O domínio adquirido por conquista ou vitória na guerra é o que alguns escritores chamam de DESPÓTICO, derivado de déspota, que significa senhor ou mestre; e é o domínio do mestre sobre seu servo. E esse domínio é adquirido pelo vencedor quando o vencido, para evitar o golpe da morte, pactua, seja por palavras expressas ou por outros sinais suficientes de sua vontade, que enquanto sua vida e a liberdade de seu corpo lhe forem concedidas, o vencedor terá o uso delas a seu bel-prazer. E depois de tal Aliança ser feita, o Vencido é um SERVO, e não antes: pois pela palavra Servo (seja derivada de Servire, servir, ou de Servare, salvar, o que deixo para os gramáticos discutirem) não se entende um Cativeiro, que é mantido na prisão ou acorrentado até que o dono daquele que o capturou, ou o comprou de quem o capturou, considere o que fazer com ele: (pois tais homens, (comumente chamados de Escravos), não têm obrigação alguma; mas podem romper seus grilhões ou a prisão; e matar ou levar cativo seu Senhor, justamente): mas aquele que, sendo capturado, tem sua liberdade corporal concedida; e, mediante a promessa de não fugir nem violentar seu Senhor, recebe a confiança deste.

Não pela vitória, mas pelo consentimento dos vencidos.

Não é, portanto, a Vitória que confere o direito de domínio sobre o Vencido, mas sim o seu próprio Pacto. Nem é ele obrigado, por ter sido conquistado, isto é, derrotado, capturado ou posto em fuga, mas sim por se submeter ao Vencedor. Nem é o Vencedor obrigado, pelo fato de um inimigo se sacrificar (sem promessa de vida), a poupá-lo por esta submissão, que não obriga o Vencedor por mais tempo do que aquele que, a seu próprio critério, julgar conveniente.

E o que os homens fazem, quando exigem (como agora se chama) clemência (o que os gregos chamavam de zogria, captura viva), é evitar a fúria imediata do vencedor, submetendo-se a isso e negociando a própria vida com resgate ou serviço. Portanto, aquele que recebe clemência não tem a vida dada, mas sim adiada para uma deliberação posterior; pois não se trata de uma rendição sob condição de vida, mas sim de discrição. E somente quando a vida está segura e o serviço devido, o vencedor lhe confia a liberdade corporal. Pois os escravos que trabalham em prisões ou acorrentados não o fazem por dever, mas para evitar a crueldade de seus senhores.

O senhor do servo é também senhor de tudo o que ele possui e pode exigir o uso de seus bens, de seu trabalho, de seus servos e de seus filhos, sempre que lhe parecer conveniente. Pois ele detém sua vida em nome de seu senhor, pelo pacto de obediência; isto é, por reconhecer e autorizar tudo o que o senhor fizer. E, caso o senhor se recuse, o mate, o aprisione ou o castigue de qualquer outra forma por sua desobediência, ele próprio será o autor do ato e não poderá acusá-lo de injustiça.

Em suma, os direitos e consequências tanto do domínio paternal quanto do despótico são os mesmos que os de um soberano por instituição, e pelas mesmas razões: razões essas que são expostas no capítulo anterior. Assim, para um homem que é monarca de diversas nações, das quais possui, em uma, a soberania por instituição do povo reunido, e em outra, por conquista, isto é, pela submissão de cada indivíduo para evitar a morte ou a servidão, exigir de uma nação mais do que da outra, pelo título de conquista, por ser uma nação conquistada, é um ato de ignorância dos direitos de soberania. Pois o soberano é absoluto sobre ambas igualmente; ou então não há soberania alguma; e assim, cada homem pode legitimamente se proteger, se puder, com sua própria espada, que é a condição da guerra.

Diferença entre uma família e um reino

Com isso, depreende-se que uma grande família, se não fizer parte de uma comunidade, é, por si só, no que diz respeito aos direitos de soberania, uma pequena monarquia; seja essa família composta por um homem e seus filhos, ou por um homem e seus servos, ou por um homem, seus filhos e servos juntos, sendo o pai ou o senhor o soberano. Contudo, uma família não é propriamente uma comunidade, a menos que tenha poder suficiente, por seu próprio número ou por outras circunstâncias, para não ser subjugada sem o risco de guerra. Pois, quando um grupo de homens é manifestamente fraco demais para se defender unido, cada um pode usar sua própria razão em tempos de perigo para salvar a própria vida, seja fugindo, seja submetendo-se ao inimigo, como achar melhor; da mesma forma que um pequeno grupo de soldados, surpreendido por um exército, pode depor as armas e pedir clemência, ou fugir, em vez de ser morto à espada. E isso basta. com relação ao que constato por especulação e dedução sobre os Direitos Soberanos, a partir da natureza, necessidade e desígnios dos homens, ao criarem Comunidades Sociais e se colocarem sob Monarcas ou Assembleias, aos quais foi confiado poder suficiente para sua proteção.

O Direito da Monarquia Segundo as Escrituras

Consideremos agora o que as Escrituras ensinam sobre o mesmo ponto. A Moisés, os filhos de Israel disseram o seguinte (Êxodo 20:19): “Fala tu conosco, e nós te ouviremos; mas Deus não nos fale, para que não morramos”. Esta é a obediência absoluta a Moisés. A respeito do direito dos reis, o próprio Deus, pela boca de Samuel, diz (1 Samuel 8:11, 12, etc.): “Este será o direito do rei que vocês terão para reinar sobre vocês. Ele tomará seus filhos e os colocará para conduzir seus carros, para serem seus cavaleiros e para correrem à frente de seus carros; para recolherem sua colheita e para fabricarem suas máquinas de guerra e instrumentos para seus carros; e tomará suas filhas para fazerem perfumes, para serem suas cozinheiras e padeiras. Ele tomará seus campos, seus vinhedos e seus olivais e os dará aos seus servos. Ele tomará o dízimo de seus cereais e vinhos e o dará aos homens de sua câmara e aos seus outros servos. Ele tomará seus servos, suas servas e os melhores de seus jovens e os empregará em seus negócios. Ele tomará o dízimo de seus rebanhos, e vocês serão seus servos.” Este é o poder absoluto, resumido nas últimas palavras: “Sereis seus servos”. Novamente, quando o povo ouviu o poder que seu Rei teria, ainda assim consentiu e disse o seguinte (versículo 19 e seguintes): “Seremos como todas as outras nações, e nosso Rei julgará nossas causas e irá à nossa frente para conduzir nossas guerras”. Aqui se confirma o direito que os soberanos têm, tanto sobre a milícia quanto sobre toda a justiça; nisso reside o poder absoluto que um homem pode transferir para outro. Novamente, a oração do Rei Salomão a Deus foi esta (1 Reis 3:9): “Dá ao teu servo entendimento para julgar o teu povo e discernir entre o bem e o mal”. Pertence, portanto, ao soberano ser juiz e prescrever as regras para discernir o bem e o mal; regras essas que são leis; e, portanto, nele reside o poder legislativo. Saul procurou a vida de Davi; Contudo, quando Davi tinha o poder de matar Saul, e seus servos queriam fazê-lo, ele os proibiu, dizendo (1 Samuel 24:9): “Deus me livre de cometer tal ato contra o meu Senhor, o Ungido de Deus!” Sobre a obediência dos servos, São Paulo diz (Colossenses 3:20): “Servos, obedeçam a seus senhores em tudo” e (versículo 22): “Filhos, obedeçam a seus pais em tudo”. Há obediência simples naqueles que estão sujeitos ao domínio paternal ou despótico. Novamente (Mateus 23:2,3): “Os escribas e fariseus se assentam no palácio de Moisés; portanto, tudo o que eles vos disserem, observai e fazei”. Aí está, mais uma vez, a obediência simples. E São Paulo (Tito 3:2): “Adverte-os a que se sujeitem aos príncipes e aos que exercem autoridade, e lhes obedeçam”.Essa obediência também é simples. Por fim, o próprio Salvador reconhece que os homens devem pagar os impostos impostos pelos reis, conforme Ele diz: “Dai a César o que é de César”; e Ele próprio pagou tais impostos. E que a palavra do rei é suficiente para tomar qualquer coisa de qualquer súdito, quando houver necessidade; e que o rei é o juiz dessa necessidade: pois Ele mesmo, como Rei dos Judeus, ordenou aos seus discípulos que tomassem a jumenta e o jumentinho para levá-Lo a Jerusalém, dizendo (Mateus 21:2,3): “Ide à aldeia que está defronte de vós, e encontrareis uma jumenta amarrada, e o seu jumentinho com ela; desamarrai-os e trazei-os a mim. E, se alguém vos perguntar o que quereis por isto, dizei: O Senhor precisa deles; e eles os deixarão ir.” Não perguntarão se a sua necessidade é um título suficiente; nem se Ele é o juiz dessa necessidade; mas aquiescerão à vontade do Senhor.

A esses trechos pode-se acrescentar também o de Gênesis (Gênesis 3:5): “Sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal”, e o versículo 11: “Quem te disse que estavas nu? Comeste da árvore da qual te ordenei que não comesses?”. Pois o discernimento do bem e do mal, sendo proibido pelo nome do fruto da árvore do conhecimento, como prova da obediência de Adão, o profeta, para inflamar a ambição da mulher, para quem aquele fruto já parecia belo, disse-lhe que, ao prová-lo, seriam como Deus, conhecendo o bem e o mal. Assim, tendo ambos comido, de fato assumiram a função de Deus, que é a de conhecer o bem e o mal; mas não adquiriram nenhuma nova capacidade de discernir corretamente entre eles. E, embora se diga que, tendo comido, viram que estavam nus; Ninguém interpretou esse trecho como se eles tivessem sido cegos anteriormente, a ponto de não verem a própria pele: o significado é claro, que foi então que eles julgaram pela primeira vez sua nudez (para a qual foi a vontade de Deus ao criá-los) como indecorosa; e, envergonhados, censuraram tacitamente o próprio Deus. E então Deus diz: “Tu comeste, etc.”, como se dissesse: “Tu, que me deves obediência, te atreves a julgar os meus mandamentos?” Com isso, fica claro (embora alegoricamente) que os mandamentos daqueles que têm o direito de comandar não devem ser censurados nem contestados por seus súditos.

O poder soberano deve ser absoluto em todas as comunidades.

Assim, a meu ver, tanto pela Razão quanto pelas Escrituras, fica claro que o Poder Soberano, seja concentrado em um só homem, como na Monarquia, ou em uma assembleia de homens, como nas repúblicas populares e aristocráticas, é tão grande quanto se possa imaginar. E embora o poder seja tão ilimitado, os homens podem imaginar muitas consequências negativas, mas as consequências da sua ausência, que é a guerra perpétua de cada um contra o seu próximo, são muito piores. A condição humana nesta vida jamais estará isenta de inconvenientes; mas não há, em nenhuma república, grande inconveniente que não resulte da desobediência dos súditos e da violação dos pactos que deram origem à república. E quem quer que considere o Poder Soberano demasiado grande, procure diminuí-lo, terá de se submeter ao poder que o pode limitar; isto é, a um poder maior.

A maior objeção reside na prática; quando se pergunta onde e quando tal poder foi reconhecido pelos súditos, pode-se perguntar-lhes novamente quando ou onde houve um reino livre de sedição e guerra civil por um longo período. Nas nações cujas comunidades foram longevas e destruídas apenas por guerras estrangeiras, os súditos jamais questionaram o poder soberano. Contudo, qualquer argumento a favor da prática por parte de homens que não investigaram a fundo e ponderaram com exatidão as causas e a natureza das comunidades, e que sofrem diariamente as misérias que decorrem da ignorância a esse respeito, é inválido. Pois, embora em todos os lugares do mundo os homens lancem os alicerces de suas casas sobre a areia, não se pode inferir daí que assim deva ser. A habilidade de criar e manter comunidades consiste em certas regras, assim como a aritmética e a geometria. não (como no tênis) apenas na prática: regras que nem os pobres têm tempo livre, nem os que tiveram tempo livre tiveram até agora a curiosidade ou o método para descobrir.

CAPÍTULO XXI.
DA LIBERDADE DOS SÚDITOS

Liberdade O quê?

Liberdade, ou LIBERDADE, significa (propriamente) a ausência de Oposição; (por Oposição, entendo os impedimentos externos ao movimento); e pode ser aplicada tanto a criaturas irracionais e inanimadas quanto às racionais. Pois tudo o que está preso ou cercado de tal forma que não pode se mover senão dentro de um certo espaço, espaço esse determinado pela oposição de algum corpo externo, dizemos que não tem Liberdade para ir além. E assim, de todas as criaturas vivas, enquanto estão aprisionadas ou contidas por paredes ou correntes; e da água, enquanto é mantida por margens ou embarcações que, de outra forma, se espalhariam por um espaço maior, costumamos dizer que não têm Liberdade para se mover da maneira como se moveriam sem esses impedimentos externos. Mas quando o impedimento ao movimento está na própria constituição da coisa, não costumamos dizer que lhe falta Liberdade, mas sim o Poder de se mover. como quando uma pedra permanece imóvel, ou quando um homem está preso à cama por causa da doença.

O que é ser livre?

E, de acordo com este significado próprio e geralmente aceito da palavra, um HOMEM LIVRE é "aquele que, naquilo que é capaz de fazer por sua força e inteligência, não é impedido de fazer o que deseja". Mas quando as palavras Livre e Liberdade são aplicadas a qualquer coisa que não sejam Corpos, elas são usadas de forma abusiva; pois aquilo que não está sujeito a Movimento não está sujeito a Impedimento. Portanto, quando se diz (por exemplo) "O caminho é livre", não se refere à liberdade do caminho em si, mas à liberdade daqueles que o percorrem sem parar. E quando dizemos que um Presente é livre, não se refere à liberdade do Presente em si, mas à liberdade de quem o dá, que não estava obrigado por nenhuma lei ou pacto a dá-lo. Assim, quando falamos livremente, não se trata da liberdade de voz ou pronúncia, mas da liberdade do homem, a quem nenhuma lei obrigou a falar de outra forma. Por fim, a partir do uso da palavra Livre-arbítrio, não se pode inferir nenhuma liberdade à vontade, ao desejo ou à inclinação, mas sim à liberdade do homem; que consiste em não encontrar qualquer impedimento para fazer aquilo que tem vontade, desejo ou inclinação para fazer.

Medo e Liberdade Consistentes

Medo e liberdade são compatíveis; assim como quando um homem joga seus bens ao mar por medo de que o navio afunde, ele o faz de bom grado, podendo se recusar a fazê-lo se assim o desejasse: é, portanto, a ação de alguém que era livre; da mesma forma, um homem às vezes paga sua dívida apenas por medo de ser preso, o que, como ninguém o impediu de detê-lo, foi a ação de um homem em liberdade. E, em geral, todas as ações que os homens praticam em comunidades, por medo da lei, ou ações que os autores tinham liberdade para omitir.

Liberdade e Necessidade Consistentes

Liberdade e Necessidade são Consistentes: Assim como na água, que não só possui Liberdade, mas também a Necessidade de descer pelo Canal, da mesma forma nas Ações que os homens praticam voluntariamente; as quais (por procederem de sua vontade) procedem da Liberdade; e, no entanto, como todo ato da vontade do homem, e todo desejo e inclinação procedem de alguma causa, que, numa cadeia contínua (cujo primeiro elo na mão de Deus é a primeira de todas as causas), procedem da Necessidade. De modo que, para aquele que pudesse ver a conexão dessas causas, a Necessidade de todas as ações voluntárias dos homens se manifestaria. E, portanto, Deus, que vê e dispõe todas as coisas, vê também que a Liberdade do homem em fazer o que quer é acompanhada pela Necessidade de fazer o que Deus quer, e nada mais, nem menos. Pois, embora os homens possam fazer muitas coisas que Deus não ordena, nem é, portanto, o Autor delas, eles não podem ter paixão nem apetite por nada que não seja a causa da vontade de Deus. E se a Sua vontade não assegurasse a necessidade da vontade do homem e, consequentemente, de tudo aquilo de que depende a vontade do homem, a liberdade dos homens não seria uma contradição e um impedimento à onipotência e à liberdade de Deus? E isto bastará (quanto ao assunto em questão) daquela liberdade natural, que é a única que propriamente pode ser chamada de liberdade.

Vínculos Artificiais, ou Pactos

Mas assim como os homens, para alcançar a paz e, por meio dela, preservar a si mesmos, criaram um Homem Artificial, que chamamos de Comunidade, também criaram Correntes Artificiais, chamadas Leis Civis, que eles próprios, por meio de pactos mútuos, fixaram em uma extremidade aos lábios daquele Homem, ou Assembleia, a quem conferiram o Poder Soberano, e na outra extremidade aos seus próprios ouvidos. Esses laços, embora frágeis por natureza, podem, no entanto, ser mantidos, pelo perigo, embora não pela dificuldade, de rompê-los.

A liberdade dos súditos consiste na liberdade de pactos.

É apenas em relação a esses vínculos que falarei agora, da Liberdade dos Súditos. Pois, visto que não existe no mundo uma comunidade que regule todas as ações e palavras dos homens (por ser algo impossível), segue-se necessariamente que, em todos os tipos de ações, pelas leis preestabelecidas, os homens têm a liberdade de fazer o que a sua própria razão lhes sugerir, para seu próprio proveito. Pois, se tomarmos Liberdade no sentido próprio, como liberdade corporal; isto é, liberdade de correntes e prisões, seria muito absurdo que os homens clamassem, como o fazem, pela liberdade que tão manifestamente desfrutam. Novamente, se tomarmos Liberdade como isenção das leis, não é menos absurdo que os homens exijam, como o fazem, a liberdade pela qual todos os outros homens podem ser senhores de suas vidas. E, no entanto, por mais absurdo que seja, é isso que eles exigem; desconhecendo que as leis não têm poder para protegê-los, a menos que uma espada esteja nas mãos de um homem, ou homens, para fazer com que essas leis sejam postas em prática. A liberdade de um súdito reside, portanto, apenas naquilo que o soberano, ao regular suas ações, preteriu; como a liberdade de comprar, vender e contratar uns com os outros; de escolher sua própria moradia, sua própria dieta, sua própria profissão e educar seus filhos como bem entenderem; e assim por diante.

Liberdade do súdito compatível com o poder ilimitado do soberano.

Contudo, não devemos entender que, por meio de tal liberdade, o poder soberano sobre a vida e a morte seja abolido ou limitado. Pois já foi demonstrado que nada que o representante soberano possa fazer a um súdito, sob qualquer pretexto, pode ser propriamente chamado de injustiça ou dano; porque todo súdito é autor de todo ato praticado pelo soberano; de modo que ele nunca carece de direito a nada, a não ser pelo fato de ele próprio ser súdito de Deus e, por isso, obrigado a observar as leis da natureza. E, portanto, pode acontecer, e frequentemente acontece em comunidades, que um súdito seja morto por ordem do poder soberano, sem que nenhum dos dois cause dano ao outro: como quando Jefté ordenou o sacrifício de sua filha. Nesse caso, e em outros semelhantes, aquele que morre tinha liberdade para praticar o ato pelo qual, mesmo assim, é morto sem nenhum dano. O mesmo se aplica também a um príncipe soberano que mata um súdito inocente. Pois, embora a ação seja contrária à lei da natureza, por ser injusta (como foi o assassinato de Urias por Davi), não foi uma injustiça contra Urias, mas contra Deus. Não contra Urias, porque o direito de fazer o que bem entendesse lhe fora dado pelo próprio Urias; mas contra Deus, porque Davi era súdito de Deus e proibia toda iniquidade pela lei da natureza. Distinção essa que o próprio Davi, ao se arrepender, evidentemente confirmou, dizendo: "Contra ti somente pequei". Da mesma forma, o povo de Atenas, ao banir o mais poderoso de sua comunidade por dez anos, pensou não ter cometido injustiça; contudo, jamais questionou qual crime ele havia cometido, mas sim qual mal ele causaria. Aliás, ordenaram o banimento de alguém que desconheciam. E todo cidadão que levasse sua concha de ostra à praça do mercado, com o nome daquele que desejasse banir, sem que o acusassem formalmente, às vezes bania um Aristides, por sua reputação de justiça; e às vezes um bobo da corte injurioso, como Hipérbole, para fazer uma piada da situação. E, no entanto, ninguém pode dizer que o povo soberano de Atenas tinha o direito de bani-los; ou que um ateniense tinha a liberdade de zombar ou de ser justo.

A liberdade que os escritores louvam é a liberdade dos soberanos, não dos cidadãos comuns.

A Liberdade, da qual há menção tão frequente e honrosa nas Histórias e Filosofia dos antigos gregos e romanos, e nos escritos e discursos daqueles que deles receberam todo o seu conhecimento em Política, não é a Liberdade dos homens particulares, mas a Liberdade da Comunidade: que é a mesma que todo homem deveria ter se não houvesse Leis Civis nem Comunidade alguma. E os seus efeitos também seriam os mesmos. Pois, entre homens sem senhor, há guerra perpétua de cada um contra o seu próximo; nenhuma herança para transmitir ao Filho, nem para esperar do Pai; nenhuma propriedade de bens ou terras; nenhuma segurança; mas uma Liberdade plena e absoluta para cada indivíduo: Assim, em Estados e Comunidades não interdependentes, cada Comunidade (não cada indivíduo) possui uma Liberdade absoluta para fazer o que julgar (isto é, o que o indivíduo ou Assembleia que a representa julgar) mais benéfico para si. Contudo, vivem em estado de guerra perpétua, à beira do conflito, com suas fronteiras armadas e canhões posicionados contra seus vizinhos. Os atenienses e romanos eram livres; isto é, comunidades livres: não que qualquer indivíduo em particular tivesse a Liberdade de resistir ao seu próprio Representante, mas sim que seu Representante tinha a Liberdade de resistir ou invadir outros povos. Ainda hoje, nas torres da cidade de Lucca, está escrita em letras garrafais a palavra LIBERTAS; contudo, ninguém pode inferir daí que um indivíduo em particular tenha mais Liberdade ou Imunidade em relação ao serviço da Comunidade ali do que em Constantinopla. Quer a República seja monárquica ou popular, a liberdade permanece a mesma.

Mas é fácil para os homens serem enganados pelo nome enganoso de Liberdade; e, por falta de discernimento para distinguir, confundi-la com sua Herança Privada e Direito de Nascimento, que é direito exclusivo do Público. E quando esse mesmo erro é confirmado pela autoridade de homens renomados por seus escritos sobre o assunto, não é de se admirar que produza sedição e mudança de governo. Nessas partes ocidentais do mundo, recebemos nossas opiniões sobre a instituição e os direitos das comunidades de Aristóteles, Cícero e outros homens, gregos e romanos, que, vivendo sob Estados populares, derivaram esses direitos não dos princípios da natureza, mas os transcreveram para seus livros a partir da prática de suas próprias comunidades, que eram populares; assim como os gramáticos descrevem as regras da linguagem a partir da prática da época; ou as regras da poesia a partir dos poemas de Homero e Virgílio. E porque os atenienses eram ensinados (para evitar que desejassem mudar seu governo) que eram homens livres e que todos os que viviam sob a monarquia eram escravos; portanto, Aristóteles afirma em sua Política (livro 6, capítulo 2): “Na democracia, presume-se a liberdade, pois é geralmente aceito que nenhum homem é livre em qualquer outro governo”. E assim como Aristóteles, Cícero e outros escritores fundamentaram sua doutrina civil nas opiniões dos romanos, que foram ensinados a odiar a monarquia, primeiro por aqueles que, tendo deposto seu soberano, compartilharam entre si a soberania de Roma, e depois por seus sucessores. E, pela leitura desses autores gregos e latinos, os homens, desde a infância, adquiriram o hábito (sob uma falsa aparência de liberdade) de favorecer tumultos e de controlar licenciosamente as ações de seus soberanos; e, ainda, de controlar esses controladores com derramamento de sangue. Como creio poder afirmar com toda a certeza, jamais houve algo tão bem adquirido quanto o conhecimento das línguas grega e latina por estas regiões ocidentais.

Liberdade do sujeito: como ser medido

Para abordarmos agora os detalhes da verdadeira Liberdade de um Súdito; isto é, quais são as coisas que, embora ordenadas pelo Soberano, ele pode, sem injustiça, recusar-se a fazer; devemos considerar a quais direitos renunciamos quando constituímos uma comunidade; ou (o que é tudo a mesma coisa) a qual Liberdade negamos a nós mesmos ao reconhecermos todas as Ações (sem exceção) do homem ou da assembleia que elegemos nosso Soberano. Pois no ato de nossa Submissão consistem tanto nossa Obrigação quanto nossa Liberdade; que, portanto, deve ser inferida por argumentos extraídos daí; não havendo obrigação para qualquer homem que não decorra de algum ato seu; pois todos os homens, igualmente, são livres por natureza. E como tais argumentos devem ser extraídos das palavras expressas "Eu autorizo ​​todas as suas ações" ou da intenção daquele que se submete ao seu poder (intenção essa que deve ser entendida pelo fim ao qual ele se submete), a obrigação e a liberdade do súdito devem ser derivadas dessas palavras (ou outras equivalentes) ou do fim da instituição da soberania; ou seja, a paz dos súditos entre si e sua defesa contra um inimigo comum.

Os súditos têm a liberdade de defender seus próprios corpos, mesmo contra aqueles que os invadem legalmente.

Primeiramente, portanto, considerando que a Soberania por Instituição se dá por meio de um Pacto de cada um para com todos; e a Soberania por Aquisição, por meio de Pactos do Vencido para o Vencedor, ou do Filho para com o Pai; é manifesto que todo Súdito tem Liberdade em todas aquelas coisas cujo direito não pode ser transferido por Pacto. Já mostrei anteriormente, no Capítulo 14, que Pactos que não visam à defesa do próprio corpo são inválidos. Portanto,

Não estão obrigados a se machucar;

Se o Soberano ordenar a um homem (embora justamente condenado) que se mate, se fira ou se mutile; ou que não resista àqueles que o atacam; ou que se abstenha do uso de alimentos, ar, remédios ou qualquer outra coisa sem a qual não possa viver; ainda assim, esse homem tem a liberdade de desobedecer.

Se um homem for interrogado pelo Soberano, ou por sua Autoridade, a respeito de um crime que ele mesmo cometeu, não é obrigado (sem a garantia do Perdão) a confessá-lo; porque nenhum homem (como mostrei no mesmo Capítulo) pode ser obrigado por Aliança a se acusar.

Novamente, o Consentimento de um Súdito ao Poder Soberano está contido nestas palavras: “Eu autorizo, ou assumo, todas as suas ações”; nas quais não há qualquer restrição à sua própria liberdade natural anterior: Pois, ao permitir que ele me mate, não sou obrigado a me matar quando ele me ordena. “Uma coisa é dizer 'Mate-me, ou ao meu semelhante, se quiser'; outra coisa é dizer 'Eu me matarei, ou ao meu semelhante'”. Segue-se, portanto, que

Ninguém está obrigado pelas próprias palavras a matar a si mesmo ou a matar outro homem; e, consequentemente, a obrigação que um homem possa ter, por vezes, sob o comando do Soberano, de executar qualquer ofício perigoso ou desonroso, não depende das palavras da nossa submissão, mas da intenção, que deve ser compreendida pelo seu fim. Portanto, quando a nossa recusa em obedecer frustra o fim para o qual a Soberania foi instituída, então não há liberdade para recusar; caso contrário, há.

Nem à guerra, a menos que a empreendam voluntariamente.

Com base nisso, um homem que recebe a ordem de lutar como soldado contra o inimigo, embora seu soberano tenha o direito de punir sua recusa com a morte, pode, em muitos casos, recusar-se sem injustiça; como quando substitui um soldado competente em seu lugar, pois, nesse caso, ele não abandona o serviço da comunidade. E há espaço para o receio natural, não apenas para as mulheres (das quais não se espera tal dever perigoso), mas também para os homens de coragem feminina. Quando os exércitos lutam, há, de um lado ou de ambos, uma debandada; contudo, quando o fazem não por traição, mas por medo, não são considerados injustos, mas desonrosos. Pelo mesmo motivo, evitar a batalha não é injustiça, mas covardia. Mas aquele que se alista como soldado ou recebe dinheiro de reserva, perde a desculpa da natureza tímida. e é obrigado, não só a ir para a batalha, mas também a não fugir dela, sem a permissão de seu capitão. E quando a defesa da República exige imediatamente a ajuda de todos os que são capazes de portar armas, todos são obrigados; porque, do contrário, a instituição da República, que eles não têm o propósito ou a coragem de preservar, teria sido em vão.

Resistir à espada da República, em defesa de outro homem, culpado ou inocente, é algo que ninguém tem liberdade; pois tal liberdade priva o Soberano dos meios de nos proteger e, portanto, destrói a própria essência do governo. Mas, se um grande número de homens já tiver resistido injustamente ao poder soberano ou cometido algum crime capital, pelo qual cada um deles espera a morte, não teriam eles então a liberdade de se unirem, auxiliarem-se e defenderem-se mutuamente? Certamente que sim: pois estão apenas defendendo suas próprias vidas, o que o culpado pode fazer tanto quanto o inocente. Houve, de fato, injustiça na primeira violação de seu dever; o porte de armas subsequente, ainda que para manter o que já haviam feito, não constitui um novo ato injusto. E se for apenas para defender suas pessoas, não é injusto de forma alguma. Mas a oferta de perdão retira daqueles a quem é oferecida a alegação de legítima defesa e torna ilegal a sua perseverança em auxiliar ou defender os demais.

A maior liberdade dos súditos depende do silêncio da lei.

Quanto às outras liberdades, elas dependem do silêncio da lei. Nos casos em que o soberano não prescreveu nenhuma regra, o súdito tem a liberdade de agir ou se abster de agir segundo seu próprio critério. E, portanto, tal liberdade é em alguns lugares maior e em outros menor; e em algumas épocas maior e em outras menor, conforme aqueles que detêm a soberania considerem mais conveniente. Por exemplo, houve um tempo em que, na Inglaterra, um homem podia entrar em sua própria terra (e desapossar aqueles que a possuíam injustamente) à força. Mas, posteriormente, essa liberdade de entrada forçada foi revogada por um estatuto feito (pelo rei) no Parlamento. E em alguns lugares do mundo, os homens têm a liberdade de ter muitas esposas; em outros lugares, tal liberdade não é permitida.

Se um súdito tiver uma controvérsia com seu soberano, seja por dívida, direito de posse de terras ou bens, ou por qualquer serviço exigido, ou ainda por qualquer penalidade corporal ou pecuniária, fundamentada em lei precedente, ele terá a mesma liberdade de demandar por seu direito como se a demanda fosse contra outro súdito, perante os juízes designados pelo soberano. Pois, como o soberano exige com base em uma lei anterior, e não pela virtude de seu poder, ele declara, por meio disso, que não exige mais do que o devido por essa lei. A demanda, portanto, não é contrária à vontade do soberano; e, consequentemente, o súdito tem a liberdade de exigir que sua causa seja ouvida e que sua sentença seja proferida de acordo com essa lei. Mas se ele exigir ou tomar algo sob o pretexto de seu poder; Nesse caso, não há qualquer ação legal: pois tudo o que ele faz em virtude do seu poder é feito pela autoridade de cada súdito e, consequentemente, quem move uma ação contra o Soberano, move-a contra si mesmo.

Se um Monarca, ou Assembleia Soberana, concede uma Liberdade a todos ou a qualquer um de seus Súditos; e, estando essa Liberdade em vigor, ele fica impossibilitado de prover a segurança deles, a Liberdade é inválida; a menos que ele renuncie diretamente ou transfira a Soberania para outro. Pois, visto que ele poderia abertamente (se fosse de sua vontade) e em termos claros, ter renunciado ou transferido a Liberdade, e não o fez, deve-se entender que não era de sua vontade, mas que a Liberdade procedeu da ignorância da repugnância entre tal Liberdade e o Poder Soberano; e, portanto, a Soberania permanece; e, consequentemente, todos os Poderes necessários ao seu exercício, tais como o Poder de Guerra e Paz, de Judicatura, de nomear Oficiais e Conselheiros, de arrecadar Impostos e os demais mencionados no Capítulo 18.

Em que casos os súditos são absolvidos de sua obediência ao seu soberano?

A obrigação dos súditos para com o Soberano é entendida como durando enquanto durar o poder que lhe permite protegê-los. Pois o direito que os homens têm por natureza de se protegerem, quando ninguém mais pode protegê-los, não pode ser renunciado por nenhum pacto. A Soberania é a alma da comunidade; uma vez que se separa do corpo, os membros não recebem mais dela sua força motriz. O fim da obediência é a proteção; onde quer que um homem a veja, seja em sua própria espada ou na de outrem, a natureza lhe aplica sua obediência e seu esforço para mantê-la. E embora a Soberania, na intenção daqueles que a estabelecem, seja imortal, ela é, em sua própria natureza, sujeita não apenas à morte violenta por guerra estrangeira, mas também, devido à ignorância e às paixões dos homens, contém em si, desde a sua instituição, muitas sementes de uma mortalidade natural, por meio de discórdia interna.

Em caso de cativeiro

Se um súdito for feito prisioneiro de guerra, ou se sua pessoa ou seus meios de subsistência estiverem sob a guarda do inimigo, e sua vida e liberdade corporal lhe forem concedidas sob a condição de se submeter ao vencedor, ele tem a liberdade de aceitar a condição; e, tendo-a aceitado, torna-se súdito daquele que o capturou, pois não tinha outra maneira de se preservar. O mesmo se aplica se ele for detido nas mesmas condições em um país estrangeiro. Mas se um homem for mantido na prisão, ou sob grilhões, ou se não lhe for confiada a liberdade de seu corpo, não se pode entender que ele esteja obrigado por pacto à submissão; e, portanto, pode, se puder, escapar por qualquer meio que seja.

Caso o soberano se desvincule do governo e de Heyrs

Se um monarca renunciar à soberania, tanto para si quanto para seus herdeiros, seus súditos retornarão à absoluta liberdade da natureza; pois, embora a natureza possa declarar quem são seus filhos e quem são os parentes mais próximos, depende de sua própria vontade (como foi dito no capítulo anterior) quem será seu herdeiro. Portanto, se ele não tiver herdeiro, não haverá soberania nem sujeição. O mesmo ocorre se ele morrer sem parentesco conhecido e sem que seu herdeiro seja declarado. Pois, nesse caso, não se pode conhecer nenhum herdeiro e, consequentemente, nenhuma sujeição será devida.

Em caso de banimento

Se o soberano banir seu súdito, durante o banimento, ele não estará sujeito. Mas aquele que for enviado em missão ou tiver permissão para viajar, ainda estará sujeito; porém, por contrato entre soberanos, não por virtude do pacto de submissão. Pois quem quer que entre no domínio de outrem estará sujeito a todas as suas leis, a menos que tenha privilégio pela amizade dos soberanos ou por licença especial.

Caso o soberano se submeta a outro

Se um monarca subjugado pela guerra se submete ao vencedor, seus súditos são libertados de sua antiga obrigação e passam a ser obrigados ao vencedor. Mas se ele for mantido prisioneiro ou não tiver a liberdade de seu próprio corpo, não se entende que ele tenha renunciado ao direito de soberania; portanto, seus súditos são obrigados a obedecer aos magistrados anteriormente empossados, que governam não em nome próprio, mas em nome dele. Pois, mantendo-se seu direito, a questão se resume à administração, ou seja, aos magistrados e oficiais; dos quais, se ele não tiver meios de nomear, presume-se que ele aprove aqueles que ele próprio nomeou anteriormente.

CAPÍTULO XXII.
DOS SISTEMAS SUJEITOS, POLÍTICOS E PRIVADOS

Os diversos tipos de sistemas de pessoas

Tendo falado da Geração, Forma e Poder de uma Comunidade, devo agora falar de suas partes. E primeiro dos Sistemas, que se assemelham às partes ou músculos de um corpo natural. Por SISTEMAS, entendo qualquer grupo de homens unidos por um interesse ou negócio comum. Destes, alguns são regulares e outros irregulares. Os regulares são aqueles em que um homem, ou assembleia de homens, é constituído como representante de todos. Todos os outros são irregulares.

Dos governos regulares, alguns são absolutos e independentes, sujeitos apenas ao seu próprio representante: tais são os governos comuns, dos quais já falei nos cinco capítulos anteriores. Outros são dependentes, ou seja, subordinados a algum poder soberano, ao qual todos, assim como seus representantes, estão sujeitos.

Dos sistemas subordinados, alguns são políticos e outros privados. Os políticos (também chamados de corpos políticos e pessoas de direito) são aqueles constituídos por autoridade do poder soberano da comunidade. Os privados são aqueles constituídos pelos súditos entre si ou por autoridade de um terceiro. Pois nenhuma autoridade derivada de poder estrangeiro, dentro do domínio de outrem, é ali pública, mas sim privada.

E quanto aos sistemas privados, alguns são lícitos; outros, ilícitos: lícitos são aqueles permitidos pela comunidade; todos os outros são ilícitos. Sistemas irregulares são aqueles que, não tendo representante, consistem apenas na aglomeração de pessoas; os quais, se não forem proibidos pela comunidade, nem feitos com má intenção (como a concentração de pessoas em mercados, espetáculos ou qualquer outro fim inofensivo), são lícitos. Mas quando a intenção é maligna, ou (se o número for considerável) desconhecida, são ilícitos.

Em todos os corpos políticos, o poder do representante é limitado.

Nos corpos políticos, o poder do representante é sempre limitado; e aquilo que prescreve os seus limites é o poder soberano. Pois o poder ilimitado é a soberania absoluta. E o soberano, em toda comunidade política, é o representante absoluto de todos os súditos; e, portanto, nenhum outro pode ser representante de qualquer parte deles, a não ser na medida em que ele o autorizar. E autorizar um corpo político de súditos a ter um representante absoluto, para todos os efeitos práticos, seria abandonar o governo de grande parte da comunidade e dividir o domínio, contrariamente à sua paz e defesa, o que não se pode entender que o soberano faça por qualquer concessão que não os liberte clara e diretamente da sua sujeição. Pois as consequências das palavras não são sinais da sua vontade quando outras consequências são sinais do contrário; mas sim sinais de erro e de cálculo incorreto, aos quais toda a humanidade é demasiado propensa.

Os limites do poder conferido ao representante de um corpo político devem ser observados sob duas perspectivas: primeiro, por meio de seus documentos escritos ou cartas do soberano; segundo, pela lei da comunidade.

Por meio de cartas patentes

Pois, embora na instituição ou aquisição de uma comunidade independente não haja necessidade de escrita, porque o poder do representante não tem outros limites além daqueles estabelecidos pela lei natural não escrita, nos órgãos subordinados existem tantas limitações necessárias, referentes aos seus negócios, horários e locais, que não podem ser lembradas sem cartas, nem levadas em consideração, a menos que tais cartas sejam patentes, para que possam ser lidas a eles e, com tudo isso, seladas ou autenticadas com os selos ou outros sinais permanentes da autoridade soberana.

E as Leis

E como tal limitação nem sempre é fácil, ou talvez possível, de ser descrita por escrito, as leis comuns, aplicáveis ​​a todos os súditos, devem determinar que o representante pode agir legalmente em todos os casos em que as próprias cartas sejam omissas. Portanto,

Quando o representante é um só homem, seus atos injustificados são de sua inteira responsabilidade.

Num Corpo Político, se o Representante for um só homem, tudo o que ele fizer em nome do Corpo, que não esteja previsto em suas Cartas nem nas Leis, é seu próprio ato, e não do Corpo, nem de qualquer outro membro além dele mesmo: porque, além dos limites de suas Cartas ou das Leis, ele não representa a pessoa de ninguém, senão a sua própria. Mas o que ele fizer de acordo com estas normas é ato de todos: pois do ato do Soberano todos são Autores, porque são seus Representantes ilimitados; e o ato daquele que não se afasta das Cartas do Soberano é ato do Soberano, e, portanto, cada membro do Corpo é Autor dele.

Quando se trata de uma assembleia, é o ato daqueles que deram seu consentimento apenas que prevalece.

Mas se a Representação for uma Assembleia, qualquer decreto dessa Assembleia, não autorizado por suas Cartas ou pelas Leis, será ato da Assembleia ou Corpo Político, e ato de todos aqueles por cujo voto o decreto foi feito; mas não ato de qualquer homem que, estando presente, votou em contrário; nem de qualquer homem ausente, a menos que o tenha votado por procuração. É ato da Assembleia, porque foi votado pela maioria; e se for um crime, a Assembleia poderá ser punida, na medida de sua capacidade, como por dissolução ou perda de suas Cartas (o que é capital para tais Corpos artificiais e fictícios) ou (se a Assembleia tiver um capital comum, no qual nenhum dos membros inocentes tenha propriedade) por multa pecuniária. Pois a Natureza isentou todos os Corpos Políticos de penas corporais. Mas aqueles que não deram seu voto são, portanto, inocentes, porque a Assembleia não pode representar nenhum homem em assuntos não autorizados por suas cartas, e, consequentemente, não estão envolvidos em suas votações.

Quando o Representante é um só homem, se ele toma dinheiro emprestado ou o contrai por contrato, ele é o único responsável, não os membros. Se a pessoa do Corpo Político, sendo um só homem, toma dinheiro emprestado de um estranho, isto é, de alguém que não pertence ao mesmo Corpo (pois não há necessidade de as Cartas limitarem os empréstimos, visto que cabe às inclinações individuais limitar os financiamentos), a dívida é do Representante. Pois, se ele tivesse autoridade, por meio de suas Cartas, para fazer com que os membros pagassem o que ele toma emprestado, ele teria, por consequência, a soberania sobre eles; e, portanto, a concessão seria ou inválida, por proceder de um erro, comum à natureza humana, e um sinal insuficiente da vontade do concedente; ou, se for declarada por ele, então o Representante é soberano e não se enquadra na presente questão, que diz respeito apenas aos Corpos subordinados. Nenhum membro, portanto, é obrigado a pagar a dívida assim contraída, senão o próprio Representante: porque aquele que a empresta, sendo alheio às Cartas e à qualificação do Corpo, entende que somente aqueles que estão comprometidos são responsáveis ​​por seus devedores; e vendo que o Representante pode se comprometer, e ninguém mais, tem somente ele como Devedor; que, portanto, deve pagá-lo, com o capital comum (se houver), ou (se não houver) com seu próprio patrimônio.

Se ele contrair dívida por contrato ou multa, o caso é o mesmo.

Quando se trata de uma assembleia, apenas são responsáveis ​​aqueles que deram seu consentimento.

Mas quando o Representante é uma Assembleia, e a dívida é para com um terceiro, todos eles, e somente eles, são responsáveis ​​pela dívida, aqueles que deram seus votos para o empréstimo, ou para o Contrato que o tornou devido, ou para o fato pelo qual o Multa foi imposto; porque cada um daqueles que votaram se comprometeu com o pagamento: pois aquele que é o autor do empréstimo é obrigado ao pagamento, mesmo de toda a dívida, embora, quando paga por alguém, ele seja exonerado.

Se a dívida for para com um dos membros da assembleia, somente o corpo estará obrigado.

Mas se a dívida for para com um dos membros da Assembleia, somente a Assembleia é obrigada ao pagamento, com seus recursos comuns (se houver): pois, tendo liberdade de voto, se votar que o dinheiro deve ser emprestado, vota que deve ser pago; se votar que não deve ser emprestado, ou estiver ausente, ainda assim, como ao emprestar vota a favor do empréstimo, contradiz seu voto anterior e é obrigado pelo posterior, tornando-se tanto devedor quanto credor, e consequentemente não podendo exigir o pagamento de nenhum indivíduo em particular, mas somente do Tesouro comum; falhando nisso, não tem remédio nem queixa, senão contra si mesmo, que, estando ciente dos atos da Assembleia e de seus meios de pagamento, e não sendo obrigado, mesmo assim, por sua própria insensatez, emprestou seu dinheiro.

Protesto contra os decretos do Bodies Politique

Por vezes lícito; mas contra o poder soberano, jamais. É evidente, por isto, que em corpos políticos subordinados e sujeitos a um poder soberano, por vezes não só é lícito, como também conveniente, que um indivíduo faça protesto público contra os decretos da Assembleia Representativa e registre a sua discordância ou tome testemunho dela; porque, do contrário, poderá ser obrigado a pagar dívidas contraídas e a ser responsabilizado por crimes cometidos por outros. Mas, numa Assembleia Soberana, essa liberdade é suprimida, tanto porque quem protesta ali nega a sua soberania, como também porque tudo o que é ordenado pelo poder soberano é, quanto ao súdito (embora nem sempre assim aos olhos de Deus), justificado pelo mandamento; pois de tal mandamento todo súdito é o autor.

Órgãos políticos para o governo de uma província, colônia ou cidade

A variedade de Corpos Políticos é quase infinita; pois eles não se distinguem apenas pelos diversos assuntos para os quais são constituídos, nos quais existe uma diversidade indizível, mas também pelos tempos, lugares e números, sujeitos a muitas limitações. E quanto aos seus assuntos, alguns são ordenados para o Governo; como, por exemplo, o Governo de uma Província pode ser confiado a uma Assembleia de homens, na qual todas as resoluções dependerão dos votos da maioria; e então esta Assembleia é um Corpo Político, e seu poder é limitado por Comissão. Esta palavra Província significa um encargo, ou cuidado de negócios, que aquele a quem o negócio pertence confia a outro homem, para ser administrado em seu nome e sob sua autoridade; e, portanto, quando em uma Comunidade existem diversos Países, que têm suas Leis distintas uns dos outros, ou estão muito distantes geograficamente, sendo a Administração do Governo confiada a diversas pessoas, aqueles Países onde o Soberano não reside, mas governa por Comissão, são chamados de Províncias. Mas, quanto ao governo de uma província por uma assembleia residente na própria província, há poucos exemplos. Os romanos, que detinham a soberania sobre muitas províncias, governavam-nas sempre por meio de presidentes e pretores, e não por assembleias, como faziam com a cidade de Roma e os territórios adjacentes. Da mesma forma, quando colônias foram enviadas da Inglaterra para a Virgínia Ocidental e as Ilhas Selvagens, embora o governo delas fosse confiado a assembleias em Londres, essas assembleias jamais confiaram o governo sob seu domínio a qualquer assembleia lá, mas enviavam um governador para cada colônia. Pois, embora todo homem, onde possa estar presente por natureza, deseje participar do governo, onde não pode estar presente, também se inclina, por natureza, a confiar o governo de seus interesses comuns a uma forma de governo monárquica, em vez de popular. Isso também é evidente naqueles homens que possuem grandes propriedades privadas. que, quando não querem se dar ao trabalho de administrar os negócios que lhes pertencem, preferem confiar em um único servo a uma assembleia de amigos ou servos. Mas, seja como for, podemos supor que o governo de uma província ou colônia esteja confiado a uma assembleia; e, quando isso acontece, o que tenho a dizer aqui é o seguinte: qualquer dívida contraída por essa assembleia, ou qualquer ato ilegal decretado, é ato exclusivo daqueles que concordaram, e não daqueles que discordaram ou estavam ausentes, pelas razões já mencionadas. Além disso, uma assembleia que reside fora dos limites da colônia que governa não pode exercer nenhum poder sobre as pessoas ou bens de qualquer membro da colônia.Para apreender dívidas ou outros deveres em qualquer lugar fora da própria Colônia, visto que não possuem jurisdição nem autoridade em outro lugar, mas são deixados ao bel-prazer da lei local. E embora a Assembleia tenha o direito de impor uma multa a qualquer um de seus membros que viole as leis que ela própria cria, fora da própria Colônia, não têm o direito de executá-la. E o que foi dito aqui sobre os direitos de uma Assembleia para o governo de uma Província ou Colônia aplica-se também a uma Assembleia para o governo de uma Cidade, Universidade, Faculdade, Igreja ou qualquer outro governo sobre pessoas.

E, em geral, em todos os Corpos Políticos, se algum membro em particular se considera prejudicado pelo próprio Corpo, o conhecimento de sua causa pertence ao Soberano e àqueles que o Soberano designou como juízes para tais causas, ou que venha a designar para essa causa específica; e não ao próprio Corpo. Pois todo o Corpo é, neste caso, seu concidadão, o que, em uma Assembleia Soberana, é diferente: pois ali, se o Soberano não for juiz, mesmo que em sua própria causa, não pode haver juiz algum.

Corpos Políticos para a Ordenação do Comércio

Em um Corpo Político, para a boa organização do Comércio Exterior, a representação mais conveniente é uma Assembleia de todos os membros; isto é, uma assembleia em que cada um que arrisque seu dinheiro possa estar presente em todas as deliberações e resoluções do Corpo, se assim o desejar. Para comprovar isso, devemos considerar o objetivo pelo qual homens que são comerciantes e que podem comprar, vender, exportar e importar suas mercadorias, segundo seus próprios interesses, se unem em uma única corporação. É verdade que poucos comerciantes, com as mercadorias que compram em casa, podem fretar um navio para exportá-las; ou com as que compram no exterior, podem trazê-las para casa; e, portanto, precisam se unir em uma sociedade, onde cada um possa participar dos lucros de acordo com a proporção de seu risco, ou ficar com sua parte e vender o que transporta ou importa pelos preços que julgar adequados. Mas isto não é um Corpo Político, pois não há um Representante Comum para obrigá-los a qualquer outra Lei além daquela comum a todos os demais súditos. O objetivo de sua incorporação é maximizar seus lucros, o que se consegue de duas maneiras: comprando e vendendo exclusivamente, tanto no mercado interno quanto no externo. Assim, conceder a uma Companhia de Comerciantes o direito de ser uma Corporação, ou Corpo Político, é conceder-lhes um monopólio duplo, sendo um deles o de compradores exclusivos e o outro o de vendedores exclusivos. Pois quando uma Companhia é constituída para um determinado país estrangeiro, ela exporta apenas as mercadorias comercializáveis ​​naquele país, o que significa comprar exclusivamente no mercado interno e vender exclusivamente no exterior. No mercado interno, há apenas um comprador, e no exterior, apenas um vendedor: ambos os casos são vantajosos para o comerciante, pois ele compra no mercado interno a preços mais baixos e vende no exterior a preços mais altos. E no exterior, há apenas um comprador de mercadorias estrangeiras e apenas um vendedor no mercado interno; ambos os casos, novamente, são vantajosos para os comerciantes.

Deste duplo monopólio, uma parte é desvantajosa para a população local, a outra para os estrangeiros. Pois, no país, através da exportação exclusiva, fixam o preço que bem entendem sobre os produtos agrícolas e artesanais do povo; e, através da importação exclusiva, fixam o preço que bem entendem sobre todas as mercadorias estrangeiras de que o povo necessita; ambas as situações são prejudiciais para a população. Ao contrário, ao venderem exclusivamente as mercadorias nacionais no exterior e comprarem exclusivamente as mercadorias estrangeiras no local, aumentam o preço destas e diminuem o preço das estrangeiras, em desvantagem para o estrangeiro: pois onde apenas um vende, a mercadoria é mais cara; e onde apenas um compra, é mais barata. Tais corporações, portanto, nada mais são do que monopólios; embora fossem muito lucrativas para uma comunidade, se, estando unidas num só corpo nos mercados estrangeiros, tivessem liberdade no país, permitindo que cada um comprasse e vendesse ao preço que conseguisse.

O objetivo dessas associações de mercadores, portanto, não é o benefício comum a todo o grupo (que, neste caso, não possui capital comum, exceto o que é deduzido das despesas individuais com a construção, compra, abastecimento e tripulação de navios), mas sim o lucro particular de cada comerciante, sendo razoável que cada um esteja ciente das atividades da sua própria associação; isto é, que cada um faça parte da assembleia que terá o poder de ordená-las e esteja ciente das suas contas. Assim, o representante de tal associação deve ser uma assembleia, onde cada membro possa estar presente nas reuniões, se assim o desejar.

Se uma corporação de comerciantes contrair uma dívida com um terceiro por meio de um ato de sua assembleia representativa, cada membro será responsável individualmente pelo pagamento integral. Isso porque um terceiro não pode levar em consideração suas leis particulares, mas os considera como indivíduos isolados, cada um obrigado ao pagamento total, até que o pagamento feito por um deles quite todos os demais. Mas se a dívida for com um dos membros da corporação, o credor será devedor integralmente a si mesmo e, portanto, não poderá exigir o pagamento, senão do capital comum, se houver.

Se a Comunidade impuser um Imposto sobre o Corpo, entende-se que este incide sobre cada membro proporcionalmente à sua participação particular na Companhia. Pois, neste caso, não existe outro capital comum senão o que resulta das suas participações individuais.

Se uma multa for imposta ao Corpo por algum ato ilegal, somente serão responsabilizados aqueles cujos votos decretaram o ato ou cuja assistência o permitiu executá-lo; pois em nenhum dos demais há outro crime senão o de pertencer ao Corpo; o qual, se for crime (já que o Corpo foi ordenado pela autoridade da Comunidade), não é dele.

Se um dos membros estiver em dívida com o Corpo, este poderá processá-lo; mas seus bens não poderão ser tomados, nem sua pessoa presa pela autoridade do Corpo, mas somente pela autoridade da Comunidade: pois se eles podem fazê-lo por sua própria autoridade, podem, por sua própria autoridade, julgar que a dívida é devida, o que equivale a serem juízes em causa própria.

Um Corpo Político para Aconselhamento a Ser Dado ao Soberano

Esses órgãos, criados para o governo dos homens ou para o comércio, podem ser perpétuos ou ter duração determinada por escrito. Mas também existem órgãos cuja duração é limitada, e isso apenas pela natureza de suas funções. Por exemplo, se um monarca soberano ou uma assembleia soberana julgar conveniente ordenar às cidades e outras partes de seu território que lhe enviem seus representantes para informá-lo sobre a situação e as necessidades dos súditos, ou para aconselhá-lo na elaboração de boas leis, ou por qualquer outro motivo, como acontece com uma pessoa que representa todo o país, esses representantes, tendo um local e horário de reunião designados, estão presentes e, naquele momento, constituem um corpo político, representando cada súdito daquele domínio; mas somente para as questões que lhes forem propostas por aquele homem ou assembleia convocada pela autoridade soberana; e quando for declarado que nada mais será proposto ou debatido por eles, o corpo é dissolvido. Pois, se eles fossem os representantes absolutos do povo, então seria a Assembleia Soberana; e assim haveria duas Assembleias Soberanas, ou dois Soberanos, sobre o mesmo povo; o que não pode ser compatível com a sua paz. E, portanto, onde há uma Soberania, não pode haver representação absoluta do povo senão por meio dela. E quanto aos limites de até que ponto tal Corpo pode representar todo o Povo, eles estão estabelecidos no documento pelo qual foram convocados. Pois o Povo não pode escolher seus Deputados com outro propósito senão o expresso no documento que lhes foi dirigido por seu Soberano.

Uma entidade privada regular, legal, como uma família.

Corpos privados regulares e legítimos são aqueles constituídos sem cartas ou outra autoridade escrita, exceto as leis comuns a todos os demais súditos. E, por estarem unidos em uma única pessoa representante, são considerados regulares; tais como todas as famílias, nas quais o pai ou o senhor comanda toda a família. Pois ele obriga seus filhos e servos até onde a lei permite, mas não além, porque nenhum deles está obrigado à obediência nas ações que a lei proíbe. Em todas as outras ações, durante o tempo em que estão sob governo doméstico, estão sujeitos a seus pais e senhores, como a seus soberanos imediatos. Pois, sendo o pai e o senhor soberanos absolutos em suas próprias famílias antes da instituição da comunidade, eles não perdem posteriormente mais de sua autoridade do que a lei da comunidade lhes retira.

Corpos privados são regulares, mas ilegais

Entidades privadas regulares, porém ilegais, são aquelas que se unem em um único representante, sem qualquer autoridade pública; tais como as corporações de mendigos, ladrões e ciganos, para melhor organizar seu comércio de mendicância e roubo; e as corporações de homens que, por autoridade de qualquer pessoa estrangeira, se unem em domínio alheio, para facilitar a propagação de doutrinas e para formar um partido contra o poder da comunidade.

Sistemas Irregulares, como as Ligas Privadas

Sistemas irregulares, por sua natureza, mas ligas, ou às vezes meras aglomerações de pessoas, sem união a qualquer desígnio particular, não por obrigação de um para com o outro, mas procedendo unicamente de uma semelhança de vontades e inclinações, tornam-se lícitos ou ilícitos, de acordo com a licitude ou ilicitude do desígnio de cada indivíduo envolvido: e seu desígnio deve ser compreendido pela ocasião.

As ligas de súditos (pois as ligas são geralmente formadas para defesa mútua) são, em sua maioria, desnecessárias em uma comunidade (que nada mais é do que uma liga de todos os súditos juntos) e têm um caráter ilícito; por essa razão, são ilegais e geralmente conhecidas como facções ou conspirações. Pois uma liga, sendo uma união de homens por meio de pactos, se não houver poder conferido a nenhum homem ou assembleia (como na condição da mera natureza) para obrigá-los a cumpri-los, ela só é válida enquanto não houver justa causa para desconfiança; e, portanto, as ligas entre comunidades, sobre as quais não há um poder humano estabelecido para mantê-las todas em temor, não são apenas lícitas, mas também proveitosas enquanto durarem. Mas as ligas dos súditos de uma mesma comunidade, onde cada um pode obter seu direito por meio do Poder Soberano, são desnecessárias para a manutenção da paz e da justiça e (caso suas intenções sejam malignas ou desconhecidas da comunidade) ilegais. Pois toda união de forças por indivíduos privados é, se motivada por más intenções, injusta; se motivada por intenções desconhecidas, perigosa para o público e injustamente ocultada.

Cabalas Secretas

Se o Poder Soberano estiver reunido em uma grande Assembleia, e um grupo de homens, membros da Assembleia, sem autoridade, consultar uma parte para arquitetar a orientação do restante, isso constitui uma facção ou conspiração ilegal, por se tratar de uma sedução fraudulenta da Assembleia para benefício próprio. Mas se aquele cujo interesse privado deve ser debatido e julgado na Assembleia fizer o máximo de amigos que puder, não haverá injustiça, pois, nesse caso, ele não faz parte da Assembleia. E mesmo que ele suborne esses amigos com dinheiro (a menos que haja uma lei expressa contra isso), ainda assim não será injustiça. Pois, às vezes (como são os costumes humanos), a justiça não pode ser feita sem dinheiro; e cada um pode considerar sua própria causa justa até que seja ouvida e julgada.

Rivalidades entre famílias particulares

Em todas as repúblicas, se um indivíduo mantém mais servos do que o necessário para administrar sua propriedade e para o emprego lícito que lhes é atribuído, isso é considerado facção e ilegal. Pois, tendo a proteção da república, ele não precisa da defesa da força privada. E enquanto em nações não totalmente civilizadas, diversas famílias numerosas viveram em contínua hostilidade e invadiram umas às outras com força privada, é evidente que agiram injustamente; ou então que não havia república.

Facções para o Governo

Assim como as facções por laços de parentesco, também as facções por governos religiosos, como os de católicos, protestantes, etc., ou por governos de Estado, como os de patrícios e plebeus na Roma antiga, e os de aristocratas e democráticos na Grécia antiga, são injustas, pois são contrárias à paz e à segurança do povo e representam uma retirada da espada das mãos do soberano.

A reunião de pessoas é um sistema irregular, cuja legalidade ou ilegalidade depende da ocasião e do número de pessoas reunidas. Se a ocasião for lícita e manifesta, a reunião é lícita; como o encontro habitual de homens na igreja ou em um espetáculo público, em números usuais: pois se o número de pessoas for extraordinariamente grande, a ocasião não é evidente; e, consequentemente, aquele que não puder dar uma explicação detalhada e adequada de sua presença entre eles será considerado consciente de um propósito ilegal e tumultuoso. Pode ser lícito que mil homens se unam em uma petição a ser entregue a um juiz ou magistrado; contudo, se mil homens vierem apresentá-la, trata-se de uma assembleia tumultuosa, pois bastariam apenas uma ou duas pessoas para esse fim. Mas, em casos como esses, não é um número fixo que torna a assembleia ilegal, mas sim um número que as autoridades presentes não consigam suprimir e levar à justiça.

Quando um número incomum de homens se reúne contra alguém que acusam, a assembleia constitui um tumulto ilegal, pois podem apresentar a acusação ao magistrado por poucos ou por um só homem. Tal foi o caso de São Paulo em Éfeso, onde Demétrio e um grande número de outros homens levaram dois companheiros de Paulo perante o magistrado, dizendo em uníssono: "Grande é Diana dos efésios!", o que era a maneira que encontraram para exigir justiça contra eles por ensinarem ao povo doutrinas contrárias à sua religião e profissão. A ocasião, considerando as leis daquele povo, era justa. Contudo, a sua assembleia foi considerada ilegal, e o magistrado os repreendeu por isso, nestas palavras (Atos 19:40): “Se Demétrio e os outros trabalhadores podem acusar alguém de alguma coisa, que se acusem uns aos outros, e que os seus representantes também acusem uns aos outros. E se tiverdes alguma outra queixa, o vosso caso poderá ser julgado numa assembleia legalmente convocada. Pois corremos o risco de sermos acusados ​​da sedição de hoje, porque não há motivo pelo qual alguém possa justificar esta reunião de pessoas.” Onde ele convoca uma assembleia da qual ninguém pode dar uma justa explicação, há sedição, e isso é tudo o que direi a respeito de sistemas e assembleias de pessoas, que podem ser comparadas (como eu disse) às partes semelhantes do corpo humano; aquelas que são legais, aos músculos; tais como são ilegais, para Wens, Biles e Apostemes, engendradas pela confluência antinatural de humores malignos.

CAPÍTULO XXIII.
DOS MINISTROS PÚBLICOS DO PODER SOBERANO

No capítulo anterior, falei das partes semelhantes de uma comunidade; neste, falarei das partes orgânicas, que são os ministros públicos.

Ministro Público Quem

Um MINISTRO PÚBLICO é aquele que, por ordem do Soberano (seja um Monarca ou uma Assembleia), é empregado em quaisquer assuntos, com autoridade para representar, nesse emprego, a Pessoa da Comunidade. E considerando que todo homem ou assembleia que detém Soberania representa duas Pessoas, ou (como é mais comum dizer) possui duas Capacidades, uma Natural e outra Política (assim como um Monarca representa não apenas a Pessoa da Comunidade, mas também a de um homem; e uma Assembleia Soberana representa não apenas a Pessoa da Comunidade, mas também a da Assembleia); aqueles que os servem em sua Capacidade Natural não são Ministros Públicos; mas apenas aqueles que os servem na Administração dos Negócios Públicos. E, portanto, nem os porteiros, nem os sargentos, nem outros oficiais que servem à Assembleia sem outro propósito senão o de servir aos homens reunidos, seja em uma Aristocracia ou em uma Democracia; Nem os mordomos, camareiros, tesoureiros ou quaisquer outros funcionários da casa de um monarca são ministros públicos em uma monarquia.

Ministros da Administração Geral

Entre os Ministros Públicos, alguns têm a responsabilidade pela Administração geral, seja de todo o Domínio, seja de uma parte dele. A administração total do Reino pode ser confiada a um Protetor ou Regente pelo predecessor de um Rei menor de idade. Nesse caso, todo súdito é obrigado a obedecer na medida em que as ordenanças que fizer e as ordens que der forem em nome do Rei e não forem incompatíveis com seu Poder Soberano. A administração de uma parte ou província também é obrigatória quando um Monarca ou uma Assembleia Soberana confia a administração geral a um Governador, Tenente, Prefeito ou Vice-Rei. Nesse caso também, todos os daquela província são obrigados a fazer tudo em nome do Soberano, desde que não seja incompatível com o direito do Soberano. Pois tais Protetores, Vice-Reis e Governadores não têm outro direito senão o que depende da Vontade do Soberano. E nenhuma comissão que lhes seja dada pode ser interpretada como uma declaração de vontade de transferir a soberania, sem palavras expressas e inequívocas para esse fim. E esse tipo de ministros públicos assemelha-se aos nervos e tendões que movem naturalmente os diversos membros de um corpo.

Para Administração Especial, assim como para Economia

Outros têm administração especial; isto é, são responsáveis ​​por algum negócio específico, seja no país ou no exterior: No âmbito nacional, em primeiro lugar, para a economia de uma comunidade, aqueles que têm autoridade sobre o tesouro, como tributos, impostos, rendas, multas ou qualquer receita pública, para coletar, receber, emitir ou prestar contas, são ministros públicos: ministros, porque servem à pessoa representante e não podem fazer nada contra a sua ordem nem sem a sua autoridade; públicos, porque o servem na sua capacidade política.

Em segundo lugar, aqueles que têm autoridade sobre a milícia; para ter a custódia de armas, fortes, portos; para recrutar, pagar ou comandar soldados; ou para prover qualquer coisa necessária para o uso na guerra, seja por terra ou por mar, são ministros públicos. Mas um soldado sem comando, embora lute pela comunidade, não a representa, pois não há ninguém a quem representá-la. Pois todo aquele que tem comando, o representa apenas àqueles a quem comanda.

Para instrução do povo

Aqueles que têm autoridade para ensinar, ou para capacitar outros a ensinar ao povo o seu dever para com o Poder Soberano, e instruí-los no conhecimento do que é justo e injusto, tornando-os assim mais aptos a viver em piedade e em paz entre si, e a resistir ao inimigo público, são Ministros Públicos: Ministros, porque o fazem não por sua própria Autoridade, mas por outrem; e Públicos, porque o fazem (ou deveriam fazê-lo) sem outra Autoridade senão a do Soberano. O Monarca, ou a Assembleia Soberana, é o único que possui Autoridade imediata de Deus para ensinar e instruir o povo; e ninguém, senão o Soberano, recebe seu poder simplesmente pela Graça Divina; isto é, pelo favor de ninguém além de Deus. Todos os outros recebem o seu poder pelo favor e providência de Deus e de seus Soberanos; como numa Monarquia, pela Graça Divina e pelo Regis; ou pela Providência Divina e pelo Regis Voluntário.

Para o Judiciário

Aqueles a quem é dada jurisdição são ministros públicos. Pois, em seus tribunais, representam a pessoa do soberano; e sua sentença é a sentença dele; pois (como já foi declarado) toda a justiça está essencialmente ligada à soberania; e, portanto, todos os outros juízes são apenas ministros dele, ou daqueles que detêm o poder soberano. E assim como as controvérsias são de dois tipos, a saber, de fato e de direito, o mesmo ocorre com os julgamentos, alguns de fato, outros de direito: e, consequentemente, na mesma controvérsia, pode haver dois juízes, um de fato e outro de direito.

E em ambas as controvérsias, pode surgir uma divergência entre a parte julgada e o juiz; sendo ambos súditos do soberano, deveriam, por equidade, ser julgados por homens escolhidos de comum acordo; pois ninguém pode ser juiz em causa própria. Mas o soberano já foi escolhido como juiz por ambos, e, portanto, deve ou ouvir a causa e decidir por si mesmo, ou nomear como juiz aquele que ambos concordarem. E entende-se que esse acordo é feito entre eles de diversas maneiras: primeiro, se for permitido ao réu apresentar recurso contra aqueles juízes cujos interesses o façam suspeitar (pois quanto ao autor da ação, ele já escolheu o seu próprio juiz), aqueles contra os quais ele não apresentar recurso são juízes com os quais ele próprio concorda. Segundo, se ele recorrer a qualquer outro juiz, não poderá recorrer novamente; pois o recurso é de sua escolha. Terceiro, se ele apelar diretamente ao Soberano, e este, por si mesmo ou por Delegados que as partes acordarem, proferir a Sentença, essa Sentença será definitiva: pois o Réu é julgado por seus próprios juízes, isto é, por si mesmo.

Considerando essas propriedades de uma justiça justa e racional, não posso deixar de observar a excelente constituição dos Tribunais de Justiça, estabelecidos tanto para as Causas Comuns quanto para as Causas Públicas na Inglaterra. Por Causas Comuns, refiro-me àquelas em que tanto o autor quanto o réu são súditos; e por Causas Públicas (também chamadas de Causas da Coroa), àquelas em que o autor é o Soberano. Pois, enquanto havia duas ordens de homens, uma dos Lordes e a outra dos Comuns, os Lordes tinham o privilégio de ter como juízes, em todos os crimes capitais, somente outros Lordes; e dentre eles, tantos quantos quisessem estar presentes; o que, sendo sempre reconhecido como um privilégio de favor, fazia com que seus juízes fossem apenas aqueles que eles próprios desejassem. E em todas as controvérsias, cada súdito (assim como nas controvérsias civis os Lordes) tinha como juízes homens do país onde a questão em disputa se encontrava; contra as quais ele poderia apresentar suas objeções, até que, finalmente, doze homens, sem exceção, concordaram e foram julgados por esses doze. De modo que, tendo seus próprios juízes, não havia nada que o partido pudesse alegar para que a sentença não fosse definitiva. Essas pessoas públicas, com autoridade do Poder Soberano para instruir ou julgar o povo, são membros da comunidade que podem ser comparados aos órgãos da voz em um corpo natural.

Para Execução

Ministros Públicos são também todos aqueles que têm Autoridade do Soberano para garantir a Execução de Sentenças proferidas; para publicar os Mandamentos do Soberano; para suprimir Tumultos; para prender e encarcerar Malfeitores; e outros atos que visam à manutenção da Paz. Pois todo ato que praticam com tal Autoridade é um ato da Comunidade; e seu serviço, equivalente ao dos Mãos, em um Corpo Natural.

Ministros públicos no exterior são aqueles que representam a Pessoa de seu próprio Soberano perante Estados estrangeiros. São eles Embaixadores, Mensageiros, Agentes e Arautos, enviados por autoridade pública e em missão pública.

Mas aqueles que são enviados apenas por autoridade de algum grupo privado de um Estado em dificuldades, embora sejam recebidos, não são ministros públicos nem privados da República, pois nenhuma de suas ações tem a República como autora. Da mesma forma, um embaixador enviado por um príncipe para felicitar, apresentar condolências ou assistir a uma solenidade, embora a autoridade seja pública, é uma pessoa privada, pois o assunto é privado e lhe pertence em sua capacidade natural. Também, se um homem for enviado a outro país secretamente para explorar seus conselhos e sua força, embora tanto a autoridade quanto o assunto sejam públicos, pois não há ninguém nele que o reconheça, senão ele mesmo, ele é apenas um ministro privado, mas ainda assim um ministro da República, e pode ser comparado a um olho no corpo. E aqueles que são designados para receber as petições ou outras informações do povo, e são, por assim dizer, os ouvidos públicos, são ministros públicos e representam seu soberano nesse ofício.

Conselheiros sem outra ocupação além de aconselhar não são ministros públicos.

Nem um Conselheiro, nem um Conselho de Estado, se o considerarmos sem autoridade judicial ou de comando, mas apenas como alguém que aconselha o Soberano quando necessário, ou que o oferece quando não necessário, é uma Pessoa Pública. Pois o conselho é dirigido apenas ao Soberano, cuja pessoa não pode, em sua própria presença, ser representada por outrem. Mas um Corpo de Conselheiros nunca está desprovido de alguma outra autoridade, seja judicial, seja administrativa: como numa Monarquia, eles representam o Monarca ao transmitir suas ordens aos Ministros Públicos; numa Democracia, o Conselho, ou Senado, apresenta o resultado de suas deliberações ao povo, como um Conselho; mas quando nomeiam Juízes, ou ouvem Causas, ou concedem Audiência a Embaixadores, fazem-no na qualidade de Ministros do Povo; e numa Aristocracia, o Conselho de Estado é a própria Assembleia Soberana; e não aconselha ninguém além de si mesmo.

CAPÍTULO XXIV.
DA NUTRIÇÃO E PROCRIAÇÃO DE UMA COMUNIDADE

O sustento de uma comunidade consiste nas mercadorias.

Do mar e da terra

A nutrição de uma comunidade consiste na abundância e distribuição de materiais que conduzem à vida: na preparação ou no preparo; e (quando preparada) no seu transporte, por meios convenientes, para uso público.

Quanto à abundância de matéria, trata-se de algo limitado pela Natureza, àquelas mercadorias que Deus, da Terra e do Mar (os dois seios de nossa Mãe comum), geralmente dá gratuitamente ou vende ao homem mediante trabalho.

Quanto a este alimento, composto de animais, vegetais e minerais, Deus o colocou livremente diante de nós, na face da Terra ou próximo a ela; de modo que nada mais é necessário além do trabalho e da diligência para recebê-lo. Visto que a abundância depende (além da graça de Deus) unicamente do trabalho e da diligência dos homens.

Esta matéria, geralmente chamada de mercadorias, é em parte nativa e em parte estrangeira: nativa, aquilo que se encontra dentro do território da Comunidade; estrangeira, aquilo que é importado de fora. E porque não há território sob o domínio de uma única Comunidade (exceto se for de vasta extensão) que produza tudo o que é necessário para a manutenção e o funcionamento de todo o corpo; e poucos que não produzam algo além do necessário; As mercadorias supérfluas disponíveis internamente deixam de ser supérfluas e suprem essas necessidades internas por meio da importação daquilo que pode ser obtido no exterior, seja por câmbio, por guerra justa ou por trabalho: pois o trabalho de um homem também é uma mercadoria trocável por benefício, assim como qualquer outra coisa. E houve comunidades que, não tendo mais território do que o necessário para sua habitação, não só mantiveram, como também aumentaram seu poder, em parte pelo trabalho de comércio entre diferentes lugares e em parte pela venda de produtos manufaturados, cujas matérias-primas eram trazidas de outros lugares.

E o direito de distribuição dos mesmos.

A distribuição dos materiais deste alimento constitui o Meu, o Teu e o Dele, ou seja, em uma palavra, a Propriedade; e pertence, em todos os tipos de comunidade, ao Poder Soberano. Pois onde não há comunidade, há (como já foi demonstrado) uma guerra perpétua de cada homem contra o seu próximo; e, portanto, tudo pertence àquele que o obtém e o mantém pela força; o que não é Propriedade nem Comunidade, mas Incerteza. O que é tão evidente que até mesmo Cícero (um defensor apaixonado da Liberdade), em uma argumentação pública, atribui toda a Propriedade à Lei Civil: "Que a Lei Civil", diz ele, "seja abandonada ou apenas negligenciada (para não dizer oprimida), e não há nada que um homem possa ter certeza de receber de seu ancestral ou deixar para seus filhos." E novamente; “Retirem a Lei Civil, e ninguém saberá o que é seu e o que é de outrem.” Visto que a Introdução da Propriedade é um efeito da Comunidade; que nada pode fazer senão pela Pessoa que a Representa, é um ato exclusivo do Soberano; e consiste nas Leis, que ninguém pode criar a não ser que tenha o Poder Soberano. E isto bem sabiam eles antigamente, aqueles que chamavam de Nomos (isto é, Distribuição) aquilo que nós chamamos de Lei; e definiram a Justiça, distribuindo a cada homem o que lhe pertence.

Todas as propriedades privadas de terras provêm originalmente da distribuição arbitrária do soberano.

Nesta Distribuição, a Primeira Lei trata da Divisão da própria Terra: na qual o Soberano atribui a cada homem uma porção, conforme ele, e não conforme qualquer súdito, ou qualquer número deles, julgar conveniente à equidade e ao bem comum. Os Filhos de Israel eram uma comunidade no deserto; mas careciam dos recursos da terra até se tornarem senhores da Terra Prometida; a qual, posteriormente, foi dividida entre eles, não por sua própria vontade, mas pela vontade de Eleazar, o sacerdote, e Josué, seu general: que, havendo doze tribos, tornando-se treze pela subdivisão da tribo de José, fizeram, contudo, apenas doze porções da terra; e não destinaram nenhuma terra à tribo de Levi, mas lhes atribuíram a décima parte de todos os frutos; divisão essa que foi, portanto, arbitrária. E embora um povo que conquista uma terra por meio da guerra nem sempre extermine os antigos habitantes (como fizeram os judeus), mas deixe para muitos, ou para a maioria, ou para todos eles as suas propriedades; contudo, é evidente que eles as mantêm posteriormente, como se fossem da distribuição dos vencedores; assim como o povo da Inglaterra manteve todas as suas propriedades de Guilherme, o Conquistador.

A propriedade de um súdito não exclui o domínio do soberano, mas apenas o de outro súdito.

Daí podemos inferir que a propriedade que um súdito possui sobre suas terras consiste no direito de excluir todos os outros súditos do uso delas; e não de excluir seu Soberano, seja ele uma Assembleia ou um Monarca. Pois, visto que o Soberano, isto é, a Comunidade (cuja Pessoa ele representa), é entendido como agindo apenas em prol da paz e segurança comuns, esta distribuição de terras deve ser entendida como feita com o mesmo propósito: e, consequentemente, qualquer distribuição que ele fizer em prejuízo disso é contrária à vontade de cada súdito, que confiou sua paz e segurança à sua discrição e consciência; e, portanto, pela vontade de cada um deles, deve ser considerada inválida. É verdade que um Monarca Soberano, ou a maior parte de uma Assembleia Soberana, pode ordenar a realização de muitas coisas na busca de suas paixões, contrárias às suas próprias consciências, o que é uma quebra de confiança e da Lei da Natureza; Mas isso não basta para autorizar qualquer súdito a guerrear contra, ou sequer acusá-lo de injustiça, ou de qualquer forma falar mal de seu soberano; pois eles autorizaram todas as suas ações e, ao conferirem o poder soberano, as tornaram suas. Mas os casos em que os mandamentos dos soberanos são contrários à equidade e à lei da natureza serão considerados posteriormente, em outro lugar.

O público não deve fazer dieta.

Na distribuição de terras, pode-se conceber que a própria Comunidade tenha uma porção, a possua e a aprimore por meio de seu Representante; e que tal porção seja suficiente para sustentar todas as despesas com a paz comum e a defesa necessariamente exigida: o que seria muito verdade, se pudesse haver algum Representante concebido livre de paixões e fraquezas humanas. Mas, dada a natureza humana, a destinação de terras públicas ou de qualquer receita certa para a Comunidade é vã; e tende à dissolução do Governo e à condição de mera natureza e guerra, assim que o Poder Soberano cai nas mãos de um Monarca ou de uma Assembleia que seja negligente com o dinheiro ou muito arriscada ao envolver o povo em uma guerra longa ou custosa. As comunidades não podem suportar nenhuma dieta: pois, como suas despesas não são limitadas por seus próprios apetites, mas por circunstâncias externas e pelos apetites de seus vizinhos, as riquezas públicas não podem ser limitadas por outros limites além daqueles que as ocasiões emergentes exigirem. E enquanto na Inglaterra, o Conquistador reservou diversas terras para seu próprio uso (além de florestas e áreas de caça, seja para seu lazer ou para a preservação de bosques), e reservou diversos serviços nas terras que concedeu a seus súditos; contudo, parece que essas terras não foram reservadas para sua manutenção pública, mas sim para sua manutenção natural: pois ele e seus sucessores, apesar de tudo isso, impuseram impostos arbitrários sobre todas as terras de seus súditos, quando julgaram necessário. Ou, se essas terras e serviços públicos foram ordenados como manutenção suficiente da comunidade, isso seria contrário ao propósito da instituição. sendo (como se depreende dos impostos subsequentes) insuficiente e (como se depreende da recente receita da Coroa) sujeita a alienação e diminuição, é, portanto, inútil atribuir uma parte à Comunidade, que pode vendê-la ou doá-la, e de fato a vende e a doa quando isso é feito por seu representante.

Os locais e a matéria do tráfego dependem, assim como a sua distribuição, da soberania.

Assim como a distribuição de terras no país, também a designação dos locais e das mercadorias com que o súdito poderá negociar no exterior é prerrogativa do Soberano. Pois, se fosse da alçada de particulares exercerem seu próprio discernimento nesse sentido, alguns seriam levados a agir em benefício próprio, tanto para fornecer ao inimigo meios de prejudicar a República, quanto para prejudicá-la eles mesmos, importando coisas que, embora agradáveis ​​aos apetites humanos, seriam nocivas ou, pelo menos, improdutivas para eles. Portanto, cabe à República (isto é, somente ao Soberano) aprovar ou reprovar tanto os locais quanto a natureza do comércio exterior.

As leis que regem a transferência de propriedade também pertencem ao soberano.

Além disso, visto que não basta, para a sustentação de uma comunidade, que cada homem possua uma porção de terra, ou algumas mercadorias, ou uma aptidão natural para alguma arte útil – e não há arte no mundo que não seja necessária para a existência ou o bem-estar de quase todo indivíduo –, é necessário que os homens distribuam aquilo que podem poupar e transfiram mutuamente a sua propriedade sobre o mesmo, por meio de trocas e contratos mútuos. Portanto, cabe à comunidade (isto é, ao soberano) determinar de que maneira todos os tipos de contrato entre súditos (como compra, venda, troca, empréstimo, arrendamento e aluguel) devem ser feitos; e por quais palavras e sinais serão considerados válidos. E quanto à questão e à distribuição do alimento aos diversos membros da comunidade, isso (considerando o modelo de toda a obra) é suficiente.

Mony, o sangue de uma comunidade

Por "concoção", entendo a redução de todas as mercadorias que não são consumidas no presente, mas reservadas para sustento futuro, a algo de valor equivalente e, ao mesmo tempo, tão portátil que não impeça a movimentação dos homens de um lugar para outro; para que um homem possa ter, em qualquer lugar, o sustento que o lugar lhe oferecer. E isso nada mais é do que ouro, prata e dinheiro. Pois o ouro e a prata, sendo (como acontece) altamente valorizados em quase todos os países do mundo, são uma medida conveniente do valor de todas as outras coisas entre as nações; e o dinheiro (de qualquer matéria arrecadada pelo soberano de uma comunidade) é uma medida suficiente do valor de todas as outras coisas entre os súditos dessa comunidade. Por meio dessas medidas, todas as mercadorias, móveis e imóveis, são levadas a acompanhar um homem a todos os lugares que frequenta, dentro e fora de sua residência habitual. e o mesmo passa de homem para homem, dentro da comunidade; e circula, nutrindo (ao passar) cada parte dela; visto que esta mistura é, por assim dizer, a sangria da comunidade: pois o sangue natural é, da mesma forma, feito dos frutos da terra; e, circulando, nutre, ao longo do caminho, cada membro do corpo do homem.

E porque a prata e o ouro têm seu valor intrínseco à matéria em si, possuem, em primeiro lugar, o privilégio de que seu valor não pode ser alterado pelo poder de um só indivíduo, nem de algumas comunidades, por serem uma medida comum das mercadorias de todos os lugares. Mas a moeda corrente pode ser facilmente valorizada ou desvalorizada. Em segundo lugar, têm o privilégio de fazer com que as comunidades se mobilizem e estendam seus exércitos, quando necessário, para países estrangeiros, e abasteçam não só os cidadãos comuns que viajam, mas também exércitos inteiros com provisões. Mas essa moeda, que não é considerável pela matéria em si, mas pelo status do lugar, não podendo suportar mudanças de tempo, tem seu efeito apenas em seu próprio território, onde também está sujeita à alteração das leis e, consequentemente, à diminuição de seu valor, em prejuízo, muitas vezes, daqueles que a possuem.

Os canais e meios de pagamento do dinheiro para uso público

Os canais e meios pelos quais o sangue é conduzido para o uso público são de dois tipos: um que o leva aos cofres públicos; o outro que o devolve para pagamentos públicos. Do primeiro tipo, estão os coletores, recebedores e tesoureiros; do segundo, estão os tesoureiros e os funcionários designados para o pagamento de diversos ministros públicos ou privados. E nisso também o homem artificial mantém sua semelhança com o natural, cujas veias, recebendo o sangue das diversas partes do corpo, o levam ao coração, onde, vitalizado, o coração, pelas artérias, o bombeia novamente para vivificar e permitir o movimento de todos os seus membros.

Os filhos das colônias da Commonwealth

A procriação, ou os filhos de uma comunidade, são aqueles que chamamos de plantações ou colônias; que são grupos de homens enviados da comunidade, sob o comando de um condutor ou governador, para habitar um país estrangeiro, anteriormente desabitado ou que se tornou desabitado por guerra. E quando uma colônia é estabelecida, seus membros ou se tornam uma comunidade por si só, desobrigados de sua sujeição ao soberano que os enviou (como ocorreu com muitas comunidades da antiguidade), caso em que a comunidade de onde partiram era chamada de sua metrópole ou mãe, e não exigia deles mais do que os pais exigem dos filhos, a quem emancipam e libertam de seu governo doméstico, que consiste em honra e amizade; ou então permanecem unidos à sua metrópole, como eram as colônias do povo de Roma. E, portanto, elas próprias não são comunidades, mas províncias, e partes da comunidade que as enviou. Assim, o direito das colônias (salvando a honra e a aliança com sua metrópole) depende inteiramente de sua licença ou carta, pela qual seu soberano as autorizou a se estabelecerem.

CAPÍTULO XXV.
DE CONSELHEIRO

Aconselhar o quê

Quão falacioso é julgar a natureza das coisas pelo uso comum e inconstante das palavras, fica evidente na confusão entre conselhos e ordens, resultante do tom imperativo de ambos, e em muitas outras ocasiões. Pois as palavras "Faça isto" não são palavras apenas daquele que ordena, mas também daquele que aconselha e daquele que exorta; e, no entanto, poucos são os que não percebem que se tratam de coisas muito diferentes, ou os que não conseguem distinguir entre elas quando compreendem quem fala, a quem se dirige o discurso e em que ocasião. Mas, encontrando essas frases nos escritos alheios, e não sendo capazes ou não querendo considerar as circunstâncias, confundem, por vezes, os preceitos dos conselheiros com os preceitos daqueles que ordenam, e, por vezes, o contrário, conforme melhor se adeque às conclusões que desejam inferir ou às ações que aprovam. Para evitar tais erros e atribuir aos termos "Comandar", "Aconselhar" e "Exortar" seus significados próprios e distintos, eu os defino assim.

Diferenças entre comando e aconselhamento

ORDEM é quando um homem diz: “Faça isto” ou “Não faça isto”, sem esperar outra razão senão a vontade daquele que diz. Disso se segue manifestamente que quem ordena pretende, com isso, obter seu próprio benefício: pois a razão de sua ordem é unicamente sua própria vontade, e o objetivo próprio da vontade de todo homem é algum bem para si mesmo.

CONSELHAR é quando um homem diz "Faça isso" ou "Não faça isso" e deduz suas próprias razões do benefício que isso lhe proporciona. E disso se torna evidente que quem dá conselho pretende apenas (seja qual for sua intenção) o bem daquele a quem o dá.

Portanto, entre conselho e ordem, uma grande diferença é que a ordem visa o benefício próprio do indivíduo, enquanto o conselho visa o benefício de outro. E disso surge outra diferença: um homem pode ser obrigado a fazer o que lhe é ordenado, como quando se compromete a obedecer. Mas não pode ser obrigado a fazer o que lhe é aconselhado, porque o prejuízo de não seguir o conselho é seu; ou, se ele se comprometesse a segui-lo, o conselho se transformaria em ordem. Uma terceira diferença entre eles é que ninguém pode reivindicar o direito de ser conselheiro de outrem, pois não deve pretender obter benefício próprio com isso; mas exigir o direito de aconselhar outro demonstra a vontade de conhecer seus desígnios ou de obter algum outro bem para si, o que (como eu disse antes) é o objetivo próprio da vontade de todo homem.

Isso também é inerente à natureza do conselho; seja qual for, aquele que o pede não pode, em equidade, acusá-lo ou puni-lo. Pois pedir conselho a outrem é permitir que ele dê o conselho que julgar melhor; e, consequentemente, aquele que aconselha seu soberano (seja um monarca ou uma assembleia) quando este o pede, não pode, em equidade, ser punido por isso, quer o conselho esteja de acordo com a opinião da maioria, quer não, assim como não esteja de acordo com a proposição em debate. Pois, se o entendimento da assembleia puder ser levado em consideração antes do término do debate, não se deve pedir nem consultar mais ninguém; pois o entendimento da assembleia é a resolução do debate e o fim de toda deliberação. E, geralmente, aquele que pede conselho é o autor dele; e, portanto, não pode puni-lo; e o que o soberano não pode, ninguém mais pode. Mas se um cidadão aconselhar outro a fazer algo contrário às leis, seja esse conselho fruto de má intenção ou apenas de ignorância, isso é punível pela comunidade; porque a ignorância da lei não é uma boa desculpa, visto que todos são obrigados a observar as leis às quais estão sujeitos.

Exortação e Deortação O quê

EXORTAÇÃO e DESORTAÇÃO são conselhos acompanhados, por quem os profere, de um desejo veemente de que sejam seguidos; ou, para dizer de forma mais concisa, conselhos veementemente insistidos. Pois quem exorta não deduz as consequências do que aconselha, nem se prende ao rigor do raciocínio correto; mas encoraja aquele a quem aconselha à ação: assim como quem desorda o dissuade. E, portanto, em seus discursos, levam em consideração as paixões e opiniões comuns dos homens ao fundamentarem suas razões; e utilizam símiles, metáforas, exemplos e outras ferramentas da oratória para persuadir seus ouvintes da utilidade, honra ou justiça de seguir seus conselhos.

Daí se pode inferir, em primeiro lugar, que a exortação e a desobediência são dirigidas ao bem de quem dá o conselho, e não ao de quem o pede, o que é contrário ao dever de um conselheiro; que (pela definição de conselho) deveria considerar não os seus próprios benefícios, mas os de quem aconselha. E que ele dirige o seu conselho ao seu próprio benefício é bastante evidente pela longa e veemente insistência, ou pela oferta artificial do conselho; o qual, não sendo exigido dele, e consequentemente procedendo das suas próprias circunstâncias, dirige-se principalmente ao seu próprio benefício, e apenas acidentalmente ao bem de quem é aconselhado, ou nem sequer o beneficia.

Em segundo lugar, que o uso da exortação e da desobediência se aplica somente quando um homem se dirige a uma multidão; pois, quando o discurso é dirigido a um indivíduo, este pode interrompê-lo e examinar seus argumentos com mais rigor do que seria possível diante de uma multidão, que é numerosa demais para entrar em disputa e dialogar com aquele que lhes fala indiferentemente a todos ao mesmo tempo. Em terceiro lugar, que aqueles que exortam e desobedecem, quando lhes é exigido que deem conselhos, são conselheiros corruptos e, por assim dizer, subornados por seus próprios interesses. Pois, embora o conselho que dão seja por mais bom que seja, aquele que o dá não é mais um bom conselheiro do que aquele que profere uma sentença justa em troca de recompensa o é um juiz justo. Mas onde um homem pode legitimamente comandar, como um pai em sua família ou um líder em um exército, suas exortações e admoestações não são apenas lícitas, mas também necessárias e louváveis. Porém, então, elas deixam de ser conselhos e se tornam ordens; e quando estas se destinam à execução de um trabalho árduo, por vezes a necessidade, e sempre a humanidade, exigem que sejam suavizadas na fala, com encorajamento, no tom e na linguagem de um conselho, em vez da linguagem mais áspera de uma ordem.

Podemos observar exemplos da diferença entre mandamento e conselho nas formas de expressão presentes nas Sagradas Escrituras. “Não terás outros deuses além de mim; não farás para ti imagem esculpida; não tomarás o nome de Deus em vão; santifica o sábado; honra teu pai e tua mãe; não matarás; não furtarás”, etc., são mandamentos, pois a razão pela qual devemos obedecê-los deriva da vontade de Deus, nosso Rei, a quem somos obrigados a obedecer. Mas estas palavras: “Vende tudo o que tens, dá aos pobres e segue-me”, são conselhos, pois a razão pela qual devemos fazê-lo deriva do nosso próprio benefício: o de termos um “tesouro no céu”. Estas palavras: “Ide à aldeia que está em frente de vós, e encontrareis uma jumenta amarrada, e o seu jumentinho; desamarrai-a e trazei-a a mim”, são uma ordem, pois a razão para a sua existência deriva da vontade do seu Senhor. Já estas palavras: “Arrependei-vos e sede batizados em nome de Jesus”, são um conselho, porque a razão pela qual devemos fazê-lo não visa o benefício de Deus Todo-Poderoso, que continuará a ser Rei, independentemente da forma como nos rebelarmos, mas sim o nosso próprio benefício, pois não temos outro meio de escapar ao castigo que nos aguarda pelos nossos pecados.

Diferenças entre conselheiros adequados e inadequados

Assim como a diferença entre aconselhamento e comando foi deduzida da natureza do aconselhamento, que consiste em deduzir o benefício ou prejuízo que pode advir àquele que deve ser aconselhado, pelas consequências necessárias ou prováveis ​​da ação que ele propõe, da mesma forma podem ser derivadas as diferenças entre conselheiros aptos e ineptos. Pois a experiência nada mais é do que a memória das consequências de ações semelhantes observadas anteriormente, e o aconselhamento nada mais é do que a fala pela qual essa experiência é comunicada a outrem; as virtudes e os defeitos do aconselhamento são os mesmos que as virtudes e os defeitos intelectuais. E para a pessoa de uma sociedade, seus conselheiros servem como substitutos da memória e do discurso mental. Mas a essa semelhança da sociedade com o homem natural, há uma dissimilaridade de grande importância. Ou seja, o homem natural recebe sua experiência dos objetos naturais dos sentidos, que atuam sobre ele sem paixão ou interesse próprio; enquanto aqueles que aconselham o representante de uma comunidade podem ter, e frequentemente têm, fins e paixões particulares que tornam seus conselhos sempre suspeitos e, muitas vezes, infiéis. Portanto, podemos estabelecer como primeira condição de um bom conselheiro que seus fins e interesses não sejam incompatíveis com os fins e interesses daquele a quem aconselha.

Em segundo lugar, porque a função de um conselheiro, quando uma ação entra em deliberação, é tornar manifestas as suas consequências de tal maneira que o aconselhado possa ser verdadeiramente e claramente informado, ele deve expor seu conselho na forma de discurso que faça a verdade aparecer mais evidentemente; isto é, com raciocínio firme, linguagem significativa e apropriada, e o mais conciso possível, conforme as evidências permitirem. E, portanto, inferências precipitadas e inevidentes (tais como aquelas extraídas apenas de exemplos ou da autoridade de livros, e que não são argumentos sobre o que é bom ou mau, mas testemunhos de fato ou de opinião), expressões obscuras, confusas e ambíguas, bem como discursos metafóricos que tendem a inflamar paixões (porque tal raciocínio e tais expressões são úteis apenas para enganar ou conduzir o aconselhado a fins diferentes dos seus próprios) são repugnantes à função de conselheiro.

Em terceiro lugar, como a capacidade de aconselhar provém da experiência e de longo estudo, e não se presume que um homem tenha experiência em todas as coisas necessárias para a administração de uma grande comunidade, presume-se que nenhum homem seja um bom conselheiro, a não ser em assuntos nos quais não apenas tenha sido muito versado, mas também tenha meditado e considerado profundamente. Pois, visto que a função de uma comunidade é preservar o povo em seu território e defendê-lo contra invasões estrangeiras, veremos que isso exige um grande conhecimento da disposição da humanidade, dos direitos do governo e da natureza da equidade, da lei, da justiça e da honra, conhecimento esse que não se adquire sem estudo; e também do poderio, das comodidades e dos lugares, tanto de seu próprio país quanto de seus vizinhos; bem como das inclinações e dos desígnios de todas as nações que possam, de alguma forma, incomodá-los. E isso não se conquista sem muita experiência. De todas essas coisas, não apenas o todo, mas cada um dos detalhes exige a idade e a observação de um homem experiente, além de mais do que o estudo comum. A perspicácia necessária para aconselhar, como já disse, é o discernimento. E as diferenças entre os homens nesse ponto decorrem de diferentes níveis de educação, alguns voltados para um tipo de estudo ou negócio, e outros para outro. Quando existem regras infalíveis para a realização de algo (como em máquinas e edifícios, as regras da geometria), toda a experiência do mundo não se compara à de um conselheiro que aprendeu ou descobriu a regra. E quando não há tal regra, aquele que tem mais experiência naquele tipo específico de negócio possui o melhor discernimento e é o melhor conselheiro.

Em quarto lugar, para poder aconselhar uma Comunidade em assuntos que dizem respeito a outra Comunidade, é necessário estar a par das notícias e cartas que daí emanam, bem como de todos os registros de tratados e demais transações de Estado entre elas; o que ninguém pode fazer, exceto aqueles que o Representante julgar conveniente. Com isso, podemos ver que aqueles que não são chamados a aconselhar não podem ter bons conselhos para se intrometer em tais casos.

Em quinto lugar, supondo que o número de conselheiros seja igual, um homem é melhor aconselhado ouvindo-os individualmente do que em assembleia; e isso por muitas razões. Primeiro, ao ouvi-los individualmente, você tem o conselho de cada um; mas em assembleia, alguns podem expressar seus conselhos com "eu" ou "não", ou com gestos, não movidos por seus próprios sentidos, mas pela eloquência de outro, ou por medo de desagradar alguns dos que falaram, ou toda a assembleia, por contradição; ou por medo de parecer menos perspicaz do que aqueles que aplaudiram a opinião contrária. Segundo, em uma assembleia de muitos, inevitavelmente haverá alguns cujos interesses sejam contrários aos do público; e esses interesses os tornam apaixonados, e a paixão, eloquente, e a eloquência leva outros a concordarem com o mesmo conselho. Pois as paixões dos homens, quando separadas, são moderadas, como o calor de uma brasa; Em uma assembleia, as pessoas são como muitas brasas que se inflamam umas às outras (especialmente quando se atiçam mutuamente com discursos eloquentes), incendiando a comunidade sob o pretexto de aconselhá-la. Em terceiro lugar, ao ouvir cada homem individualmente, pode-se examinar (quando necessário) a veracidade ou a probabilidade de suas razões e dos fundamentos dos conselhos que oferece, por meio de frequentes interrupções e objeções; o que não é possível em uma assembleia, onde (em cada questão difícil) o indivíduo fica mais surpreso e deslumbrado com a variedade de discursos do que informado sobre o caminho que deveria seguir. Além disso, não pode haver uma assembleia de muitos, reunidos para aconselhamento, na qual não haja alguns que ambicionem ser considerados eloquentes e também versados ​​em política; e que ofereçam seus conselhos não com cuidado com o assunto proposto, mas sim com o aplauso de seus discursos heterogêneos, feitos de diversos fios coloridos ou fragmentos de autores; O que é, no mínimo, uma impertinência, pois consome o tempo de uma consulta séria e, no aconselhamento particular, é facilmente evitado. Em quarto lugar, em deliberações que devem ser mantidas em segredo (das quais há muitas ocasiões em assuntos públicos), os conselhos de muitos, especialmente em assembleias, são perigosos; portanto, as grandes assembleias são obrigadas a confiar tais assuntos a um número menor de pessoas, e àquelas que são mais versadas e em cuja fidelidade depositam maior confiança.

Em suma, quem aprovaria a prática de consultar uma grande assembleia de conselheiros, desejando ou aceitando seus esforços, quando se trata de casar os filhos, dispor de terras, governar a casa ou administrar os bens particulares, especialmente se houver entre eles quem não deseje sua prosperidade? Um homem que conduz seus negócios com a ajuda de muitos e prudentes conselheiros, cada um consultando-se individualmente em sua área de atuação, faz o melhor possível, assim como aquele que utiliza bons segundos no tênis, posicionados em seus devidos lugares. O segundo melhor resultado é aquele que usa apenas seu próprio julgamento, assim como aquele que não tem nenhum segundo. Mas aquele que é levado para cima e para baixo em seus negócios por um conselho armado, que não pode avançar senão pela pluralidade de opiniões concordantes, cuja execução é comumente (por inveja ou interesse) retardada pela parte dissidente, é o que pior se sai, e é como alguém que é levado para a bola, embora por bons jogadores, em um carrinho de mão ou outra estrutura pesada por si só, e também retardada pelos julgamentos e esforços inconcorrentes daqueles que a conduzem; e tanto mais, quanto mais pessoas se envolvem nisso; e principalmente, quando há um ou mais entre eles que desejam vê-lo perder. E embora seja verdade que muitos olhos veem mais de um, isso não deve ser entendido como muitos conselheiros; mas apenas quando a resolução final está nas mãos de um só homem. Caso contrário, porque muitos olhos veem a mesma coisa de maneiras diversas e tendem a olhar de soslaio em busca de seu próprio benefício; Aqueles que não desejam errar o alvo, embora olhem ao redor com dois olhos, nunca pensam senão com um; e, portanto, nenhuma grande comunidade popular jamais se manteve senão por um inimigo estrangeiro que os uniu; ou pela reputação de algum homem eminente entre eles; ou pelo conselho secreto de alguns; ou pelo medo mútuo de facções iguais; e não pelas consultas abertas da assembleia. E quanto às pequenas comunidades, sejam elas populares ou monárquicas, não há sabedoria humana que possa sustentá-las por mais tempo do que durar o ciúme de seus poderosos vizinhos.

CAPÍTULO XXVI.
DAS LEIS CÍVEIS

Direito Civil o quê?

Por LEIS CIVIS, entendo as leis que os homens são obrigados a observar por serem membros não desta ou daquela comunidade em particular, mas de uma comunidade. Pois o conhecimento das leis particulares pertence àqueles que professam o estudo das leis de seus respectivos países; mas o conhecimento do Direito Civil em geral é para qualquer pessoa. O antigo Direito de Roma era chamado de Direito Civil, da palavra Civitas, que significa comunidade; e aqueles países que, tendo estado sob o Império Romano e governados por esse Direito, ainda conservam a parte que consideram adequada, chamam essa parte de Direito Civil, para distingui-la do restante de suas próprias leis civis. Mas não é disso que pretendo falar aqui; meu objetivo não é mostrar o que é Direito aqui e ali, mas o que é Direito, como Platão, Aristóteles, Cícero e vários outros fizeram, sem assumir a profissão de estudiosos do Direito.

E, em primeiro lugar, manifesta-se que a Lei, em geral, não é conselho, mas ordem; e não uma ordem de um homem para outro, mas apenas daquele cuja ordem se dirige a quem antes era obrigado a obedecer-lhe. E quanto ao Direito Civil, este acrescenta apenas o nome da pessoa que ordena, que é a Persona Civitatis, a Pessoa da Comunidade.

Considerando isso, defino Direito Civil da seguinte maneira: “O DIREITO CIVIL consiste, para cada súdito, nas regras que a Comunidade lhe ordenou, por palavra, escrito ou outro sinal suficiente de sua vontade, que utilizasse para distinguir o certo do errado; isto é, do que é contrário e do que não é contrário à regra.”

Nessa definição, nada é inegável à primeira vista. Pois todos percebem que algumas leis se dirigem a todos os súditos em geral; outras, a províncias específicas; outras, a profissões específicas; e outras, a indivíduos específicos; sendo, portanto, leis para todos aqueles a quem o mandamento é dirigido, e para mais ninguém. Da mesma forma, as leis são as regras do justo e do injusto; nada é considerado injusto que não seja contrário a alguma lei. Igualmente, ninguém pode criar leis senão a comunidade, pois nossa submissão é somente à comunidade; e os mandamentos devem ser indicados por sinais suficientes, pois o homem não sabe, de outra forma, como obedecê-los. Portanto, tudo o que se pode deduzir dessa definição por consequência necessária deve ser reconhecido como verdade. Deduzo, então, o seguinte.

O Soberano é o Legislador

1. O Legislador, em todas as Comunidades, é somente o Soberano, seja ele um homem, como em uma Monarquia, ou uma assembleia de homens, como em uma Democracia ou Aristocracia. Pois o Legislador é quem faz a Lei. E somente a Comunidade prescreve e ordena a observância dessas regras que chamamos de Lei; portanto, a Comunidade é o Legislador. Mas a Comunidade não é uma Pessoa, nem tem capacidade para fazer nada, senão por meio do Representante (isto é, o Soberano); e, portanto, o Soberano é o único Legislador. Pelo mesmo motivo, ninguém pode revogar uma Lei feita, senão o Soberano; porque uma Lei não é revogada senão por outra Lei, que a impede de ser executada.

E não sujeito ao direito civil

2. O soberano de uma comunidade, seja ela uma assembleia ou um único homem, não está sujeito às leis civis. Pois, tendo o poder de criar e revogar leis, ele pode, quando lhe aprouver, libertar-se dessa submissão, revogando as leis que o incomodam e criando novas; e, consequentemente, ele já era livre antes. Pois é livre aquele que pode ser livre quando quiser. E não é possível que alguém esteja preso a si mesmo, porque quem pode prender, pode libertar; e, portanto, quem está preso apenas a si mesmo não está preso.

Uso, uma lei não pela virtude do tempo, mas pelo consentimento dos soberanos.

3. Quando o uso prolongado adquire a autoridade de uma lei, não é a duração do tempo que lhe confere a autoridade, mas a vontade do soberano, manifestada pelo seu silêncio (pois o silêncio é, por vezes, um argumento de consentimento); e se a lei deixar de existir, o soberano deverá manter-se em silêncio a respeito. Portanto, se o soberano tiver uma questão de direito fundamentada não na sua vontade atual, mas nas leis anteriormente promulgadas, a duração do tempo não prejudicará o seu direito; a questão deverá ser julgada pela equidade. Pois muitas ações injustas e sentenças injustas permanecem sem controle por um tempo que nenhum homem consegue recordar. E os nossos juristas não consideram nenhum costume como lei, exceto aqueles que são razoáveis, e que os maus costumes devem ser abolidos; mas o julgamento do que é razoável e do que deve ser abolido pertence àquele que cria a lei, que é a Assembleia Soberana, ou Monarca.

A lei da natureza e a lei civil se contêm mutuamente.

4. A Lei da Natureza e a Lei Civil se contêm mutuamente e têm igual extensão. Pois as Leis da Natureza, que consistem em Equidade, Justiça, Gratidão e outras Virtudes morais das quais dependem, na condição da mera Natureza (como já mencionei no final do Capítulo 15), não são propriamente Leis, mas qualidades que dispõem os homens à paz e à obediência. Uma vez estabelecida uma Comunidade, então elas se tornam de fato Leis, e não antes, pois são então os mandamentos da Comunidade; e, portanto, também Leis Civis: pois é o Poder Soberano que obriga os homens a obedecê-las. Pois, nas divergências entre indivíduos, para declarar o que é Equidade, o que é Justiça e o que é Virtude moral, e para torná-las vinculativas, são necessárias as Ordenanças do Poder Soberano e as Punições a serem ordenadas para aqueles que as infringirem; ordenanças essas que, portanto, fazem parte da Lei Civil. A Lei da Natureza, portanto, é parte da Lei Civil em todas as comunidades do mundo. Reciprocamente, a Lei Civil também é parte dos ditames da Natureza. Pois a Justiça, isto é, o cumprimento do pacto e a concessão de direitos a cada um, é um ditame da Lei da Natureza. Mas todo súdito em uma comunidade pactuou em obedecer à Lei Civil (seja uns com os outros, como quando se reúnem para eleger um representante comum, seja com o próprio representante, individualmente, quando subjugados pela espada, prometendo obediência para receberem a vida). E, portanto, a obediência à Lei Civil também é parte da Lei da Natureza. A Lei Civil e a Lei Natural não são tipos diferentes, mas partes diferentes da Lei; sendo uma parte escrita, é chamada de Civil, e a outra, não escrita, de Natural. Mas o Direito da Natureza, isto é, a Liberdade natural do homem, pode ser restringido e limitado pela Lei Civil; aliás, o objetivo das leis não é outro senão essa restrição, sem a qual não pode haver paz. E a lei foi criada para nada mais do que limitar a liberdade natural dos indivíduos, de modo que não se prejudiquem, mas sim se auxiliem mutuamente e se unam contra um inimigo comum.

As leis provinciais não são feitas pelo costume, mas pelo poder soberano.

5. Se o soberano de uma república subjugar um povo que viveu sob outras leis escritas e, posteriormente, governá-lo pelas mesmas leis pelas quais era governado antes, essas leis serão as leis civis do vencedor, e não da república vencida. Pois o legislador não é aquele por cuja autoridade as leis foram originalmente criadas, mas sim aquele por cuja autoridade elas continuam a ser leis. Portanto, onde houver diversas províncias dentro do domínio de uma república, e nessas províncias houver diversidade de leis, comumente chamadas de costumes de cada província, não devemos entender que tais costumes tenham sua força apenas pela longa duração do tempo, mas sim que eram leis antigas, escritas ou de outra forma tornadas conhecidas, para as constituições e estatutos de seus soberanos; e são agora leis, não por virtude da prescrição do tempo, mas pelas constituições de seus soberanos atuais. Mas se uma lei não escrita for geralmente observada em todas as províncias de um domínio, e nenhuma iniquidade aparecer em seu uso, essa lei não pode ser outra senão uma lei da natureza, que obriga igualmente toda a humanidade.

Algumas opiniões insensatas de advogados sobre a elaboração de leis.

6. Visto que todas as leis, escritas e não escritas, têm sua autoridade e força da vontade da comunidade; isto é, da vontade do representante, que em uma monarquia é o monarca e em outras comunidades a Assembleia Soberana, pode-se questionar a origem de opiniões como as encontradas nos livros de juristas eminentes de diversas comunidades, que direta ou indiretamente fazem com que o poder legislativo dependa de indivíduos privados ou juízes subordinados. Como, por exemplo, a afirmação de que "o direito comum não tem outro controlador senão o Parlamento", o que só é verdade quando um Parlamento detém o poder soberano e não pode ser reunido nem dissolvido senão por sua própria discrição. Pois, se existe o direito de dissolvê-los, existe também o direito de controlá-los e, consequentemente, de controlar seus controles. E se não houver tal direito, então o Controlador das Leis não é o Parlamento, mas sim o Rei no Parlamento. E onde um Parlamento é Soberano, mesmo que reúna tantos homens, ou tão sábios, dos países a ele sujeitos, por qualquer motivo, ninguém acreditará que tal Assembleia tenha adquirido, por isso, um Poder Legislativo. Além disso, os dois braços de uma República são a Força e a Justiça; a primeira está nas mãos do Rei; a outra, nas mãos do Parlamento. Como se uma República pudesse existir onde a Força estivesse em mãos que a Justiça não tivesse a autoridade para comandar e governar.

7. Nossos juristas concordam que a Lei jamais pode ser contrária à Razão; e que não a letra (isto é, toda interpretação dela), mas sim aquilo que está de acordo com a intenção do legislador, é a Lei. E isso é verdade: mas a dúvida reside em cuja razão deve ser aceita como Lei. Não se refere a qualquer razão privada; pois então haveria tanta contradição nas Leis quanto há nas Escolas; nem (como afirma Sir Edward Coke (Sir Edward Coke, sobre Littleton, Livro 2, Capítulo 6, fol. 97.b)) uma Perfeição Artificial da Razão, Obtida por Longo Estudo, Observação e Experiência (como foi o caso dele). Pois é possível que o longo estudo aumente e confirme Sentenças errôneas; e onde os homens constroem sobre fundamentos falsos, quanto mais constroem, maior é a ruína. E daqueles que estudam e observam com igual tempo e diligência, as razões e resoluções são, e devem permanecer, discordantes; portanto, não é a Juris Prudentia, ou sabedoria dos juízes subordinados, mas a Razão deste nosso Homem Artificial, a Comunidade, e seu Comando, que faz a Lei. E, tendo a Comunidade em seu Representante apenas uma Pessoa, não pode facilmente surgir qualquer contradição nas Leis; e quando surge, a mesma Razão é capaz, por interpretação ou alteração, de eliminá-la. Em todos os Tribunais de Justiça, o Soberano (que é a Pessoa da Comunidade) é quem julga. O juiz subordinado deve levar em consideração a razão que levou seu Soberano a fazer tal Lei, para que sua Sentença esteja de acordo com ela; que então é a Sentença de seu Soberano; caso contrário, é a sua própria, e uma sentença injusta.

Uma lei criada, se não for também divulgada, não é lei.

8. Disso, que a Lei é um Mandamento, e um Mandamento consiste na declaração ou manifestação da vontade daquele que ordena, por voz, escrito ou algum outro argumento suficiente do mesmo, podemos entender que o Mandamento da Comunidade é Lei apenas para aqueles que têm meios de a observar. Sobre os tolos naturais, crianças ou loucos não há Lei, assim como não há sobre os animais irracionais; nem são eles passíveis do título de justos ou injustos, porque nunca tiveram o poder de fazer qualquer pacto ou de compreender as suas consequências; e, consequentemente, nunca se arrogaram o direito de autorizar as ações de qualquer Soberano, como devem fazer aqueles que constituem para si uma Comunidade. E assim como aqueles de quem a Natureza ou o Acidente retiraram a atenção de todas as Leis em geral, também todo homem de quem qualquer acidente, não decorrente de sua própria culpa, retirou os meios de observar qualquer Lei em particular, está desculpado se não a observar; E, falando propriamente, essa Lei não é Lei para ele. É necessário, portanto, considerar neste ponto quais argumentos e sinais são suficientes para o conhecimento do que é a Lei; isto é, qual é a vontade do Soberano, tanto nas Monarquias quanto em outras formas de governo.

Leis não escritas são todas leis da natureza.

E, em primeiro lugar, se for uma Lei que obriga todos os súditos sem exceção, e que não esteja escrita nem publicada de qualquer outra forma em locais onde possam tomar conhecimento dela, é uma Lei da Natureza. Pois tudo aquilo que os homens devem conhecer como Lei, não pelas palavras de outros homens, mas cada um pela sua própria razão, deve ser algo que seja aceitável à razão de todos os homens; o que nenhuma Lei pode ser, senão a Lei da Natureza. As Leis da Natureza, portanto, não precisam de publicação nem de proclamação, pois estão contidas nesta única frase, aprovada por todo o mundo: "Não faças ao outro aquilo que tu consideras irracional que o outro te faça."

Em segundo lugar, se for uma lei que obriga apenas uma certa condição de homens, ou um homem em particular, e não for escrita nem publicada verbalmente, então também é uma lei da natureza; e conhecida pelos mesmos argumentos e sinais que distinguem aqueles em tal condição dos demais súditos. Pois qualquer lei que não seja escrita, ou de alguma forma publicada por quem a cria, só pode ser conhecida pela razão daquele que deve obedecê-la; e, portanto, é também uma lei não apenas civil, mas natural. Por exemplo, se o soberano empregar um ministro público sem instruções escritas sobre o que fazer, este é obrigado a tomar como instruções os ditames da razão. Como se fosse um Juiz, este deveria atentar para que sua sentença fosse proferida de acordo com a razão de seu Soberano, que, sendo sempre entendida como Equidade, está vinculada a ela pela Lei da Natureza. Ou, se for um Embaixador, deve (em todas as questões não contidas em suas Instruções escritas) seguir o que a Razão dita ser mais favorável aos interesses de seu Soberano; e assim também se aplica a todos os demais Ministros da Soberania, públicos e privados. Todas essas Instruções da Razão natural podem ser compreendidas sob o nome de Fidelidade, que é um ramo da Justiça natural.

Exceto pela Lei da Natureza, pertence à essência de todas as outras Leis o dever de ser revelado a todo homem que seja obrigado a obedecê-las, seja por palavra, por escrito ou por algum outro ato que se saiba proceder da Autoridade Soberana. Pois a vontade de outrem não pode ser compreendida senão por sua própria palavra, ato ou por conjecturas extraídas de seu alcance e propósito; os quais, na pessoa da Comunidade, devem ser sempre considerados consonantes com a Equidade e a Razão. E, na antiguidade, antes que as letras fossem de uso comum, as Leis eram muitas vezes expressas em versos, para que o povo rude, que se deleitava em cantá-las ou recitá-las, pudesse retê-las mais facilmente na memória. E, pela mesma razão, Salomão aconselha o homem a amarrar os Dez Mandamentos (Provérbios 7:3) em seus dez dedos. E quanto à Lei que Moisés deu ao povo de Israel na renovação da Aliança (Deuteronômio 11:19), ele os instrui a ensiná-la a seus filhos, conversando sobre ela em casa e no caminho; ao deitar e ao levantar; e a escrevê-la nos batentes e nas portas de suas casas; e (Deuteronômio 31:12) a reunir o povo, homens, mulheres e crianças, para ouvi-la ser lida.

Nada é lei onde o legislador não pode ser conhecido.

Não basta que a lei seja escrita e publicada; é preciso também que haja sinais evidentes de que ela procede da vontade do Soberano. Pois indivíduos, quando têm, ou pensam que têm, força suficiente para garantir seus desígnios injustos e levá-los a salvo a seus fins ambiciosos, podem publicar leis como bem entenderem, sem ou contra a Autoridade Legislativa. Portanto, é necessário não apenas uma Declaração da Lei, mas também sinais suficientes do Autor e da Autoridade. Presume-se que o Autor, ou Legislador, seja evidente em toda Comunidade, porque é o Soberano, que, tendo sido constituído pelo consentimento de todos, presume-se que seja suficientemente conhecido por todos. E embora a ignorância e a segurança dos homens sejam tais, em sua maioria, que, quando a memória da primeira Constituição de sua Comunidade se desgasta, eles não consideram por cujo poder costumavam ser defendidos contra seus inimigos, ter sua indústria protegida e serem indenizados quando lhes era feito um dano; Contudo, como ninguém que reflita sobre o assunto pode questioná-lo, nenhuma desculpa pode ser derivada da ignorância sobre onde reside a Soberania. E é um ditame da Razão Natural, e consequentemente uma Lei evidente da Natureza, que nenhum homem deve enfraquecer o poder cuja proteção ele mesmo exigiu ou conscientemente recebeu contra outros. Portanto, ninguém, a não ser por sua própria culpa (independentemente do que homens maldosos sugiram), pode duvidar de quem é o Soberano. A dificuldade reside na comprovação da Autoridade que dele deriva; cuja remoção depende do conhecimento dos Registros Públicos, dos Conselhos Públicos, dos Ministros Públicos e dos Selos Públicos, pelos quais todas as Leis são suficientemente verificadas.

Diferença entre verificar e autorizar

Verificado, eu digo, não autorizado: pois a verificação é apenas o testemunho e o registro; não a autoridade da lei, que consiste unicamente no comando do soberano.

A lei verificada pelo juiz subordinado

Portanto, se um homem tiver uma questão de dano, dependendo da Lei da Natureza, isto é, da equidade comum, a sentença do juiz que, por comissão, tem autoridade para tomar conhecimento de tais causas, é uma verificação suficiente da Lei da Natureza naquele caso específico. Pois, embora o conselho de alguém que professa o estudo da Lei seja útil para evitar contendas, ainda assim é apenas um conselho; cabe ao juiz dizer aos homens o que é a Lei, ao ouvir a controvérsia.

Pelos Registros Públicos

Mas quando a questão é de lesão ou crime, segundo uma lei escrita, todo homem, consultando os registros, por si mesmo ou por terceiros, pode (se assim o desejar) informar-se suficientemente, antes de cometer tal lesão ou crime, se é ou não uma lesão. Aliás, ele deveria fazê-lo, pois quando um homem duvida se o ato que pratica é justo ou injusto, e pode informar-se, se assim o desejar, a ação é ilícita. Da mesma forma, aquele que se considera lesado em um caso determinado pela lei escrita, que ele mesmo ou terceiros podem consultar e considerar, se reclamar antes de consultar a lei, age injustamente e revela uma disposição mais para perturbar os outros do que para reivindicar seus próprios direitos.

Por Cartas Patentes e Selo Público

Se a questão for a obediência a um funcionário público, ter visto sua comissão, com o selo público, e tê-la ouvido ser lida, ou ter tido os meios para ser informado dela, caso alguém o desejasse, é uma verificação suficiente de sua autoridade. Pois todo homem é obrigado a fazer o melhor possível para se informar sobre todas as leis escritas que possam afetar suas ações futuras.

A interpretação da lei depende do poder soberano.

Sabendo-se do Legislador e tendo as Leis suficientemente publicadas, seja por escrito, seja pela luz da Natureza, falta ainda outra circunstância essencial para torná-las obrigatórias. Pois não é a Letra, mas a Intenção, ou Significado; isto é, a Interpretação autêntica da Lei (que é o sentido do Legislador), na qual consiste a natureza da Lei; e, portanto, a Interpretação de todas as Leis depende da Autoridade Soberana; e os Intérpretes não podem ser outros senão aqueles que o Soberano (a quem somente o Súdito deve obediência) designar. Pois, do contrário, pela astúcia de um Intérprete, a Lei pode ser levada a ter um sentido contrário ao do Soberano; por esse meio, o Intérprete torna-se o Legislador.

Todas as leis precisam de interpretação.

Todas as leis, escritas e não escritas, necessitam de interpretação. A lei não escrita da natureza, embora seja fácil para aqueles que, sem parcialidade ou paixão, utilizam a razão natural, deixando, portanto, os seus violadores sem desculpa, é, considerando que poucos, talvez nenhum, não estejam cegados pelo amor-próprio ou por alguma outra paixão, tornando-se a mais obscura de todas as leis e, consequentemente, a que mais necessita de intérpretes capazes. As leis escritas, se curtas, são facilmente mal interpretadas devido aos diversos significados de uma ou duas palavras; se longas, são ainda mais obscuras devido aos diversos significados de muitas palavras, visto que nenhuma lei escrita, expressa em poucas ou muitas palavras, pode ser bem compreendida sem uma perfeita compreensão das causas finais para as quais a lei foi criada; o conhecimento dessas causas finais reside no legislador. Para ele, portanto, não pode haver nenhum nó insolúvel na lei, seja descobrindo os fins para desfazê-la; ou então, fazendo o que bem entender (como Alexandre fez com sua espada no nó górdio), pelo poder legislativo; o que nenhum outro intérprete pode fazer.

A interpretação autêntica da lei não é a dos escritores.

A interpretação das leis da natureza, em uma comunidade política, não depende dos livros de filosofia moral. A autoridade dos escritores, sem a autoridade da comunidade política, não torna suas opiniões lei, por mais verdadeiras que sejam. O que escrevi neste tratado sobre as virtudes morais e sua necessidade para a obtenção e manutenção da paz, embora seja uma verdade evidente, não é, portanto, lei imediata; mas sim porque, em todas as comunidades políticas do mundo, faz parte do direito civil. Pois, embora seja naturalmente razoável, é pelo poder soberano que se torna lei. Do contrário, seria um grande erro chamar as leis da natureza de lei não escrita, da qual vemos tantos volumes publicados, e neles tantas contradições entre si e consigo mesmos.

O intérprete da lei é o juiz que profere a sentença em cada caso particular.

A interpretação da Lei da Natureza é a sentença do juiz constituído pela autoridade soberana para ouvir e decidir as controvérsias que dela dependem; e consiste na aplicação da lei ao caso em questão. Pois, no ato de julgar, o juiz não faz mais do que considerar se a demanda da parte é consonante com a razão natural e a equidade; e a sentença que ele profere é, portanto, a interpretação da Lei da Natureza; interpretação esta que é autêntica, não por ser sua sentença particular, mas porque ele a profere por autoridade do soberano, tornando-se, assim, a sentença do soberano, que é a lei vigente para as partes litigantes naquele momento.

A sentença de um juiz não o obriga, nem a outro juiz, a proferir sentença semelhante em casos semelhantes para sempre.

Mas, como não há Juiz Subordinado, nem Soberano, que não possa errar num Julgamento de Equidade, se posteriormente, em outro caso semelhante, ele achar mais consonante com a Equidade proferir uma Sentença contrária, ele é obrigado a fazê-lo. O erro de ninguém se torna sua própria Lei, nem o obriga a persistir nela. Tampouco (pela mesma razão) se torna Lei para outros Juízes, ainda que jurem segui-la. Pois, embora uma Sentença errada proferida pela autoridade do Soberano, se ele a conhece e a permite, em tais Leis mutáveis, possa constituir uma nova Lei, em casos nos quais cada pequena circunstância é a mesma, ainda assim, em Leis imutáveis, como as Leis da Natureza, elas não são Leis para o mesmo Juiz, nem para outros Juízes, em casos semelhantes, para sempre. Príncipes se sucedem; e um Juiz passa, outro vem; aliás, o Céu e a Terra passarão; mas nenhum título da Lei da Natureza passará; pois é a Lei Eterna de Deus. Portanto, todas as sentenças de juízes precedentes que já existiram não podem, juntas, constituir uma lei contrária à equidade natural; nem quaisquer exemplos de juízes anteriores podem justificar uma sentença desarrazoada, ou eximir o juiz presente do trabalho de estudar o que é equidade (no caso que lhe cabe julgar) a partir dos princípios de sua própria razão natural. A título de exemplo, é contra a lei da natureza punir o inocente; e inocente é aquele que se absolve judicialmente e é reconhecido como inocente pelo juiz. Consideremos agora o caso de um homem acusado de um crime capital, que, percebendo o poder e a malícia de algum inimigo, e a frequente corrupção e parcialidade dos juízes, foge por medo do que lhe acontecer, e que, posteriormente, é levado a julgamento e demonstra suficientemente que não era culpado do crime, e, sendo absolvido, é, no entanto, condenado a perder seus bens; esta é uma condenação manifesta do inocente. Digo, portanto, que não há lugar no mundo onde isso possa ser uma interpretação de uma Lei da Natureza, ou se tornar lei pelas sentenças de juízes precedentes que fizeram o mesmo. Pois aquele que julgou primeiro, julgou injustamente; e nenhuma injustiça pode servir de modelo de julgamento para juízes subsequentes. Uma lei escrita pode proibir inocentes de voar, e eles podem ser punidos por voar: mas que voar por medo de lesão seja considerado presunção de culpa, depois que um homem já foi absolvido judicialmente do crime, é contrário à natureza de uma presunção, que não tem lugar após o julgamento. No entanto, isso foi estabelecido por um grande jurista do direito comum da Inglaterra: "Se um homem", disse ele, "que é inocente, for acusado de crime grave,e por medo foge do mesmo; ainda que seja judicialmente absolvido do crime; contudo, se for constatado que fugiu por causa do crime, não obstante sua inocência, perderá todos os seus bens, pertences, dívidas e obrigações. Pois, quanto à perda dos mesmos, a lei não admite prova contra a presunção legal, fundamentada em sua fuga.” Eis aqui um homem inocente, absolvido judicialmente, apesar de sua inocência (já que nenhuma lei escrita o proibia de fugir), após sua absolvição, sob uma presunção legal, condenado a perder todos os seus bens. Se a lei fundamentou sua fuga em uma presunção de fato (que era capital), a sentença deveria ter sido capital; se a presunção não fosse de fato, por que ele deveria perder seus bens? Portanto, esta não é uma lei da Inglaterra; nem a condenação se baseia em uma presunção legal, mas na presunção dos juízes. Também é contra a lei dizer que nenhuma prova será admitida contra uma presunção legal. Pois todos os juízes, soberanos e subordinados, se se recusam a ouvir provas, recusam-se a fazer justiça; pois, embora a sentença seja justa, os juízes que condenam sem ouvir as provas oferecidas são juízes injustos; e sua presunção não passa de preconceito, que ninguém deveria trazer consigo. Ele, ao assumir o cargo de Juiz, independentemente dos precedentes ou exemplos que pretenda seguir. Há outras situações dessa natureza em que o julgamento dos homens foi deturpado pela confiança em precedentes; mas isso basta para demonstrar que, embora a sentença do Juiz seja lei para a parte que a contesta, não o é para nenhum juiz que o suceda no cargo.São juízes injustos; e sua presunção não passa de preconceito, o qual ninguém deveria levar consigo para o Tribunal, quaisquer que sejam os precedentes ou exemplos que pretenda seguir. Há outras coisas dessa natureza, em que o julgamento dos homens foi pervertido pela confiança em precedentes; mas isso basta para mostrar que, embora a sentença do juiz seja lei para a parte que ajuíza a ação, não o é para nenhum juiz que o suceda no cargo.São juízes injustos; e sua presunção não passa de preconceito, o qual ninguém deveria levar consigo para o Tribunal, quaisquer que sejam os precedentes ou exemplos que pretenda seguir. Há outras coisas dessa natureza, em que o julgamento dos homens foi pervertido pela confiança em precedentes; mas isso basta para mostrar que, embora a sentença do juiz seja lei para a parte que ajuíza a ação, não o é para nenhum juiz que o suceda no cargo.

Da mesma forma, quando se trata do significado das leis escritas, não é o intérprete delas aquele que escreve um comentário sobre elas. Pois os comentários são geralmente mais sujeitos a contestações do que o próprio texto; e, portanto, necessitam de outros comentários; e assim não haverá fim para tais interpretações. E, portanto, a menos que haja um intérprete autorizado pelo soberano, do qual os juízes subordinados não devam se afastar, o intérprete não pode ser outro senão o juiz comum, da mesma forma que nos casos de leis não escritas; e suas sentenças devem ser acatadas por aqueles que defendem as leis naquele caso específico; mas não para obrigar outros juízes, em casos semelhantes, a proferir julgamentos semelhantes. Pois um juiz pode errar na interpretação até mesmo das leis escritas; mas nenhum erro de um juiz subordinado pode mudar a lei, que é a sentença geral do soberano.

A diferença entre a letra e a frase da lei

Nas leis escritas, costuma-se fazer distinção entre a letra e a sentença da lei. E quando por letra se entende tudo o que se pode inferir das palavras em si, a distinção é clara. Pois o significado de quase todas as palavras é ambíguo, seja em si mesmas, seja em seu uso metafórico, e pode ser interpretado de diversas maneiras; mas há apenas um sentido da lei. Porém, se por letra se entende o sentido literal, então a letra e a sentença, ou intenção, da lei são uma só coisa. Pois o sentido literal é aquele que o legislador sempre supõe ser a equidade: pois seria uma grande afronta para um juiz pensar diferente do soberano. Portanto, se a letra da lei não autoriza plenamente uma sentença razoável, ele deve complementá-la com a lei natural; ou, se o caso for difícil, suspender o julgamento até que tenha recebido autoridade mais ampla. Por exemplo, uma lei escrita ordena que aquele que for expulso de sua casa à força seja restituído à força. Acontece que um homem, por negligência, deixa sua casa vazia e, ao retornar, é impedido de entrar à força, caso em que não há lei específica prevista. É evidente que este caso está previsto na mesma lei, pois, caso contrário, não haveria remédio algum para ele, o que seria contrário à intenção do legislador. Além disso, a lei ordena que se julgue segundo as provas. Um homem é falsamente acusado de um fato que o juiz presenciou sendo cometido por outrem, e não pelo acusado. Neste caso, não se deve seguir a letra da lei para condenar o inocente, nem o juiz deve proferir sentença contrária ao depoimento das testemunhas, pois a letra da lei determina o contrário. Mas o soberano deve providenciar para que outro seja nomeado juiz e ele próprio testemunha. Para que o incômodo que se segue às palavras exatas de uma lei escrita possa levá-lo à intenção da lei, permitindo-lhe interpretá-la melhor; embora nenhum incômodo possa justificar uma sentença contrária à lei. Pois nem todo juiz do certo e do errado é juiz do que é conveniente ou inconveniente para o bem comum.

Habilidades necessárias em um juiz

As habilidades exigidas de um bom intérprete da lei, ou seja, de um bom juiz, não são as mesmas de um advogado; a saber, o estudo das leis. Pois um juiz, assim como deve tomar conhecimento dos fatos apenas pelas testemunhas, também deve tomar conhecimento da lei apenas pelos estatutos e constituições do soberano, alegados na petição inicial ou declarados a ele por alguém que tenha autoridade do poder soberano para declará-los; e não precisa se preocupar antecipadamente com o que irá julgar, pois lhe será dado o que deve dizer sobre os fatos pelas testemunhas; e o que deve dizer em termos de direito, por aqueles que o demonstrarem em suas petições e o interpretarem com autoridade no local. Os Lordes do Parlamento na Inglaterra eram juízes, e as causas mais difíceis foram ouvidas e decididas por eles. Contudo, poucos deles eram versados ​​no estudo das Leis, e menos ainda as professavam; e embora consultassem advogados designados para estarem presentes com esse propósito, somente eles detinham a autoridade para proferir a sentença. Da mesma forma, nos julgamentos ordinários de direito, doze homens do povo comum atuam como juízes e proferem a sentença, não apenas quanto aos fatos, mas também quanto ao direito; e se pronunciam simplesmente a favor do acusador ou do réu; isto é, são juízes não apenas dos fatos, mas também do direito; e em uma questão criminal, não apenas determinam se o crime foi cometido ou não, mas também se é assassinato, homicídio, crime grave, agressão e outros crimes semelhantes, que são determinações da lei; mas, como não se presume que eles próprios conheçam a lei, há alguém que tem autoridade para informá-los dela, no caso específico que devem julgar. Mas, mesmo que não julguem de acordo com o que ele lhes diz, não estarão sujeitos a qualquer penalidade, a menos que se prove que agiram contra a própria consciência ou que foram corrompidos por recompensa. As qualidades que fazem um bom juiz ou um bom intérprete das leis são, em primeiro lugar, uma compreensão correta daquela lei principal da natureza chamada equidade; que, dependendo não da leitura dos escritos de outros homens, mas da bondade da própria razão natural e da meditação, presume-se estar presente naqueles que tiveram mais tempo livre e maior inclinação para meditar sobre ela. Em segundo lugar, o desprezo por riquezas e privilégios desnecessários. Em terceiro lugar, a capacidade de, ao julgar, despojar-se de todo medo, raiva, ódio, amor e compaixão. Em quarto e último lugar, a paciência para ouvir; a atenção diligente ao ouvir; e a memória para reter, digerir e aplicar o que ouviu.

Divisões do Direito

A distinção e divisão das Leis foram feitas de diversas maneiras, segundo os diferentes métodos daqueles que as escreveram. Pois é algo que não depende da Natureza, mas do alcance do Escritor; e está sujeito ao método próprio de cada um. Nas Instituições de Justiniano, encontramos sete tipos de Leis Civis.

1. Os Éditos, Constituições e Epístolas do Príncipe, isto é, do Imperador; porque todo o poder do povo estava nele. Semelhantes a estes são as Proclamações dos Reis da Inglaterra.

2. Os Decretos de Todo o Povo de Roma (incluindo o Senado), quando submetidos à questão pelo Senado. Inicialmente, esses eram Leis pela virtude do Poder Soberano que residia no povo; e aqueles que não foram revogados pelos Imperadores permaneceram Leis pela Autoridade Imperial. Pois todas as Leis que obrigam são entendidas como Leis pela autoridade daquele que tem o poder de revogá-las. De certa forma semelhantes a essas Leis são as Leis do Parlamento na Inglaterra.

3. Os Decretos do Povo Comum (excluindo o Senado), quando submetidos à questão pelo Tribuno do povo. Aqueles que não foram revogados pelos Imperadores permaneceram Leis pela Autoridade Imperial. Semelhantes a estes eram as Ordens da Câmara dos Comuns na Inglaterra.

4. Senatus Consulta, as Ordens do Senado; porque quando o povo de Roma se tornou tão numeroso que se tornou inconveniente reuni-lo, o Imperador achou conveniente que os homens consultassem o Senado em vez do povo: e estas têm alguma semelhança com os Atos do Conselho.

5. Os Éditos dos Pretores e (em alguns casos) dos Edis: tais como os Juízes Chefes nos Tribunais da Inglaterra.

6. Responsa Prudentum; que eram as sentenças e opiniões daqueles juristas a quem o Imperador conferiu autoridade para interpretar a lei e responder àqueles que, em matéria jurídica, solicitassem seus conselhos; respostas essas que os juízes, ao proferirem seus julgamentos, eram obrigados pelas constituições do Imperador a observar; e deveriam ser como os relatórios dos casos julgados, se outros juízes fossem obrigados pela lei inglesa a observá-las. Pois os juízes do direito comum inglês não são propriamente juízes, mas sim consultores jurídicos; dos quais os juízes, que são os Lordes ou os Doze Homens do País, devem, em questão jurídica, pedir conselhos.

7. Além disso, os costumes não escritos (que, por sua própria natureza, são uma imitação da lei), com o consentimento tácito do Imperador, caso não sejam contrários à lei da natureza, são verdadeiras leis.

Outra divisão das Leis é em Naturais e Positivas. As Naturais são aquelas que têm sido Leis desde toda a Eternidade; e são chamadas não apenas de Naturais, mas também de Leis Morais; consistindo nas Virtudes Morais, como a Justiça, a Equidade e todos os hábitos da mente que conduzem à Paz e à Caridade; das quais já falei nos capítulos quatorze e quinze.

Positivas são aquelas que não existem para a eternidade, mas foram transformadas em leis pela vontade daqueles que detêm o poder soberano sobre os outros, e são escritas ou tornadas conhecidas pelos homens por algum outro argumento da vontade de seu legislador.

Outra Divisão do Direito

Novamente, das Leis Positivas, algumas são Humanas, outras Divinas; e das leis positivas Humanas, algumas são Distributivas, outras Penais. As Distributivas são aquelas que determinam os Direitos dos Súditos, declarando a cada homem o que lhe confere propriedade sobre terras ou bens, e o direito ou liberdade de ação; e estas se dirigem a todos os Súditos. As Penais são aquelas que declaram qual Penalidade será infligida àqueles que violarem a Lei; e se dirigem aos Ministros e Oficiais designados para a execução. Pois, embora todos devam ser informados das Punições ordenadas antecipadamente para sua transgressão, o Mandamento não se dirige ao Delinquente (de quem não se pode supor que se punirá fielmente), mas aos Ministros públicos designados para garantir a execução da Penalidade. E essas Leis Penais são, em sua maioria, escritas juntamente com as Leis Distributivas; e às vezes são chamadas de Julgamentos. Pois todas as Leis são julgamentos gerais, ou Sentenças do Legislador; Assim como cada julgamento particular, ele se torna lei para aquele cujo caso é julgado.

Lei Positiva Divina: Como se tornou conhecida como lei

As Leis Positivas Divinas (pois as Leis Naturais, sendo eternas e universais, são todas divinas) são aquelas que, sendo mandamentos de Deus (não desde toda a eternidade, nem dirigidos universalmente a todos os homens, mas apenas a um certo povo ou a certas pessoas), são declaradas para tais pessoas por aqueles a quem Deus autorizou a declará-las. Mas como se pode conhecer essa autoridade do homem para declarar essas Leis Positivas de Deus? Deus pode ordenar a um homem, por um meio sobrenatural, que transmita leis a outros homens. Mas, como é da essência da lei que aquele que deve ser obrigado tenha certeza da autoridade daquele que a declara, autoridade essa que não podemos naturalmente considerar como proveniente de Deus, como pode um homem, sem revelação sobrenatural, ter certeza da revelação recebida do declarante? E como pode ele ser obrigado a obedecê-las? Quanto à primeira questão, como um homem pode ter certeza da Revelação de outro sem uma Revelação específica para si mesmo, é evidentemente impossível: pois, embora um homem possa ser levado a crer em tal Revelação pelos Milagres que vê o outro realizar, ou pela extraordinária santidade de sua vida, ou pela extraordinária sabedoria, ou pela extraordinária felicidade de suas ações, todas as quais são marcas do extraordinário favor de Deus, ainda assim não são provas seguras de uma Revelação especial. Milagres são obras maravilhosas; mas o que é maravilhoso para um pode não o ser para outro. A santidade pode ser fingida; e as felicidades visíveis deste mundo são, na maioria das vezes, obra de Deus por causas naturais e ordinárias. Portanto, ninguém pode saber infalivelmente, pela razão natural, que outro teve uma revelação sobrenatural da vontade de Deus; mas apenas uma crença; cada um (conforme os sinais dessa revelação se mostrem maiores ou menores) uma crença mais firme ou mais fraca.

Mas quanto ao segundo ponto, como ele pode ser obrigado a obedecê-las, não é tão difícil. Pois se a Lei declarada não for contrária à Lei da Natureza (que é, sem dúvida, a Lei de Deus) e ele se comprometer a obedecê-la, estará obrigado por seu próprio ato; obrigado, eu digo, a obedecê-la, mas não obrigado a crer nela: pois a crença e os pensamentos interiores dos homens não estão sujeitos aos mandamentos, mas apenas à operação de Deus, ordinária ou extraordinária. A fé na Lei Sobrenatural não é um cumprimento, mas apenas uma concordância com a mesma; e não um dever que demonstramos a Deus, mas uma dádiva que Deus concede livremente a quem Ele quer; assim como a incredulidade não é uma violação de nenhuma de Suas Leis, mas uma rejeição de todas elas, exceto as Leis Naturais. Mas isso que eu digo ficará ainda mais claro pelos exemplos e testemunhos a respeito deste ponto nas Sagradas Escrituras. A aliança que Deus fez com Abraão (de maneira sobrenatural) foi a seguinte (Gênesis 17:10): “Esta é a aliança que você fará entre mim e você e a sua descendência depois de você”. A descendência de Abraão não tinha essa revelação, nem ainda existia; contudo, eles eram parte da aliança e obrigados a obedecer ao que Abraão lhes declarasse como a Lei de Deus; o que não seria possível, senão pela obediência que deviam a seus pais, os quais (se não estivessem sujeitos a nenhum outro poder terreno, como no caso de Abraão) tinham poder soberano sobre seus filhos e servos. Novamente, quando Deus diz a Abraão: “Em você serão benditas todas as nações da terra; porque eu sei que você ordenará a seus filhos e à sua casa depois de você que guardem o caminho do Senhor e observem a justiça e o juízo”, fica evidente que a obediência de sua família, que não tinha revelação, dependia de sua obrigação anterior de obedecer ao seu Soberano. No Monte Sinai, somente Moisés subiu até Deus; o povo foi proibido de se aproximar sob pena de morte; contudo, eles eram obrigados a obedecer a tudo o que Moisés lhes declarava como sendo a Lei de Deus. Com que fundamento, senão com esta submissão própria: “Fala tu conosco, e nós te ouviremos; mas que Deus não nos fale, para que não morramos?” Por meio desses dois trechos, fica suficientemente evidente que, em uma comunidade, um indivíduo que não possui uma Revelação certa e segura, particularmente para si mesmo, a respeito da Vontade de Deus, deve obedecer, em nome deste, ao Mandamento da comunidade: pois se os homens tivessem a liberdade de tomar como Mandamentos de Deus seus próprios sonhos e fantasias, ou os sonhos e fantasias de indivíduos particulares, dificilmente dois concordariam sobre o que é o Mandamento de Deus; e, no entanto, em relação a estes, todos desprezariam os Mandamentos da comunidade. Concluo, portanto, que em todas as coisas que não são contrárias à Lei Moral (isto é, à Lei da Natureza), todos os súditos são obrigados a obedecer àquela que é a Lei divina.O que é declarado como tal pelas Leis da Comunidade. O que também é evidente para qualquer razão humana; pois tudo o que não contraria a Lei da Natureza pode ser transformado em Lei em nome daqueles que detêm o poder soberano; e não há razão para que os homens sejam menos obrigados a cumpri-la quando é proposta em nome de Deus. Além disso, não há lugar no mundo onde os homens sejam autorizados a alegar outros Mandamentos de Deus além daqueles declarados pela Comunidade. Os Estados cristãos punem aqueles que se revoltam contra a religião cristã, e todos os outros Estados, aqueles que estabelecem qualquer religião por eles proibida. Pois em tudo o que não é regulamentado pela Comunidade, é equidade (que é a Lei da Natureza e, portanto, uma Lei eterna de Deus) que todos os homens desfrutem igualmente de sua liberdade.

Outra Divisão de Leis

Há também outra distinção entre as leis, em fundamentais e não fundamentais; mas nunca consegui encontrar em nenhum autor o que significa uma lei fundamental. Não obstante, é perfeitamente razoável distinguir as leis dessa maneira.

Uma Lei Fundamental O quê

Uma Lei Fundamental em toda Comunidade é aquela cuja revogação leva ao colapso e à completa dissolução da Comunidade, como um edifício cuja fundação é destruída. Portanto, uma Lei Fundamental é aquela pela qual os súditos são obrigados a cumprir todo o poder conferido ao Soberano, seja um Monarca ou uma Assembleia Soberana, sem o qual a Comunidade não pode subsistir, como o poder de Guerra e Paz, de Judicatura, de Eleição de Oficiais e de fazer tudo o que ele julgar necessário para o bem público. Não é Fundamental aquela cuja revogação não acarreta a dissolução da Comunidade, como as Leis concernentes às controvérsias entre súditos. Isso resume a divisão das leis.

Diferença entre lei e direito

Encontro as palavras Lex Civilis e Jus Civile, isto é, Lei e Direito Civil, usadas indiscriminadamente para a mesma coisa, mesmo entre os autores mais eruditos; o que, no entanto, não deveria ser assim. Pois Direito é Liberdade, ou seja, aquela Liberdade que a Lei Civil nos concede: mas a Lei Civil é uma Obrigação e nos priva da Liberdade que a Lei da Natureza nos deu. A Natureza concedeu a cada homem o direito de se proteger com sua própria força e de invadir um vizinho suspeito, a título de precaução; mas a Lei Civil retira essa Liberdade, em todos os casos em que a proteção da Lei possa ser seguramente garantida. Assim sendo, Lex e Jus são tão diferentes quanto Obrigação e Liberdade.

E entre uma lei e uma carta

Da mesma forma, leis e cartas régias são tomadas indiscriminadamente como sinônimos. No entanto, as cartas régias são doações do soberano, e não leis, mas isenções da lei. A expressão de uma lei é "Jubeo, Injungo", "Eu ordeno, e desfruto"; a expressão de uma carta régia é "Dedi, Concessi", "Eu dei, eu concedi"; mas o que é dado ou concedido a um homem não lhe é imposto por uma lei. Uma lei pode ser feita para obrigar todos os súditos de uma comunidade; uma liberdade, ou carta régia, é apenas para um homem, ou para uma parte do povo. Pois dizer que todo o povo de uma comunidade tem liberdade em qualquer caso é dizer que, nesse caso, nenhuma lei foi feita; ou, tendo sido feita, foi revogada.

CAPÍTULO XXVII.
DOS CRIMES, DESCULPAS E PRORROGAÇÕES

Pecado O quê

Um pecado não é apenas a transgressão de uma lei, mas também qualquer desprezo pelo legislador. Pois tal desprezo constitui uma violação de todas as suas leis simultaneamente. E, portanto, pode consistir não apenas na prática de um fato, ou na pronúncia de palavras proibidas pelas leis, ou na omissão do que a lei ordena, mas também na intenção ou propósito de transgredir. Pois o propósito de infringir a lei é, em certa medida, um desprezo por aquele a quem cabe ver sua execução. Deleitar-se apenas com a imaginação de possuir os bens, servos ou esposa de outro homem, sem qualquer intenção de tomá-los dele à força ou por fraude, não é uma violação da lei que diz: "Não cobiçarás"; nem o prazer que um homem possa ter em imaginar ou sonhar com a morte daquele de cuja vida ele não espera senão dano e desagrado é um pecado. Mas a resolução de pôr em prática algum ato tende a isso. Pois sentir prazer na ficção daquilo que agradaria a um homem se fosse real é uma paixão tão inerente à natureza tanto do homem quanto de qualquer outra criatura viva, que torná-la um pecado seria tornar o próprio ser humano um pecado. A consideração disso me fez achar que aqueles que sustentam que os primeiros impulsos da mente (embora refreados pelo temor a Deus) são pecados são severos demais, tanto para si mesmos quanto para os outros. Mas confesso que é mais seguro errar por um lado do que pelo outro.

Um crime? O quê?

Um crime é um pecado que consiste em cometer (por ato ou palavra) aquilo que a lei proíbe, ou omitir aquilo que ela ordena. Assim, todo crime é um pecado, mas nem todo pecado é um crime. Ter a intenção de roubar ou matar é um pecado, mesmo que isso nunca se manifeste em palavras ou fatos, pois Deus, que vê os pensamentos do homem, pode imputá-lo a ele. Mas só se manifestará por algum ato ou palavra que torne a intenção um crime. Os gregos observavam essa distinção nas palavras amartema e egklema ou aitia; a primeira (traduzida como pecado) significa qualquer transgressão da lei, enquanto as duas últimas (traduzidas como crime) significam apenas o pecado do qual um homem pode acusar outro. Mas das intenções que nunca se manifestam por nenhum ato externo, não há lugar para acusação humana. Da mesma forma, os latinos, por meio de "peccatum", que significa pecado, designam todo tipo de desvio da lei; mas por "crimen" (palavra que deriva de "cerno", que significa perceber), entendem apenas os pecados que podem ser levados à justiça; e, portanto, não são meras intenções.

Onde não há lei civil, não há crime.

Dessa relação entre Pecado e Lei, e entre Crime e Direito Civil, pode-se inferir, em primeiro lugar, que onde a Lei cessa, o Pecado cessa. Mas, como a Lei da Natureza é eterna, a violação de pactos, a ingratidão, a arrogância e todos os fatos contrários a qualquer virtude moral jamais deixarão de ser pecado. Em segundo lugar, que cessando o Direito Civil, os crimes cessam: pois não havendo outra lei senão a da Natureza, não há lugar para acusação; cada homem é seu próprio juiz, acusado unicamente por sua própria consciência e absolvido pela retidão de sua própria intenção. Quando, portanto, sua intenção é correta, seu ato não é pecado; caso contrário, seu ato é pecado, mas não crime. Em terceiro lugar, que quando o Poder Soberano cessa, o crime também cessa: pois onde não há tal Poder, não há proteção a ser obtida da Lei. e, portanto, cada um pode se proteger por seu próprio poder: pois nenhum homem na Instituição do Poder Soberano pode ser considerado como alguém que renuncia ao Direito de preservar seu próprio corpo; para a segurança do qual toda a Soberania foi ordenada. Mas isso deve ser entendido apenas em relação àqueles que não contribuíram para a usurpação do Poder que os protegia: pois isso foi um Crime desde o princípio.

A ignorância das leis da natureza não justifica ninguém.

A origem de todo crime reside em alguma falha de entendimento, algum erro de raciocínio ou alguma força repentina das paixões. A falha de entendimento é a ignorância; no raciocínio, a opinião errônea. Além disso, a ignorância é de três tipos: da lei, da soberania e da pena. A ignorância da lei da natureza não justifica ninguém, pois presume-se que todo homem que alcançou o uso da razão saiba que não deve fazer ao outro o que não faria a si mesmo. Portanto, em qualquer lugar que um homem chegue, se fizer algo contrário a essa lei, estará cometendo um crime. Se um homem vier das Índias para cá e persuadir os homens daqui a aceitarem uma nova religião, ou lhes ensinar algo que tenda à desobediência às leis deste país, ainda que esteja convicto da verdade do que ensina, comete um crime e pode ser justamente punido por isso, não só porque sua doutrina é falsa, mas também porque faz o que não aprovaria em outro lugar, ou seja, vindo daqui, tentar alterar a religião de lá. Mas a ignorância da lei civil desculpará um homem em um país estrangeiro, até que ela lhe seja declarada; pois, até então, nenhuma lei civil é vinculativa.

A ignorância do direito civil às vezes serve de desculpa.

Da mesma forma, se a lei civil do país de um homem não estiver suficientemente declarada, de modo que ele a conheça se assim o desejar; nem a ação contra a lei da natureza; a ignorância é uma boa desculpa: em outros casos, a ignorância da lei civil não serve de desculpa.

A ignorância do soberano não o desculpa.

A ignorância do Poder Soberano, no local da residência habitual de um homem, não o desculpa; pois ele deveria atentar para o Poder que o protege ali.

O desconhecimento da penalidade não a justifica.

A ignorância da penalidade, onde a lei é declarada, não desculpa ninguém: pois, ao infringir a lei, que, sem o temor da penalidade subsequente, não seria lei, mas vãs palavras, ele sofre a penalidade, mesmo que não a conheça; porque quem voluntariamente pratica qualquer ação aceita todas as consequências conhecidas dela; mas a punição é uma consequência conhecida da violação das leis, em toda comunidade; punição essa, se já determinada pela lei, ele está sujeito a ela; se não, então está sujeito a punição arbitrária. Pois é razão que aquele que causa dano, sem outra limitação além da de sua própria vontade, sofra punição sem outra limitação além da de sua vontade, cuja lei é violada.

As punições declaradas antes do fato servem de justificativa para punições maiores posteriormente.

Mas quando uma pena está prevista na própria lei que a tipifica como crime, ou é geralmente aplicada em casos semelhantes, o infrator fica isento de uma pena maior. Pois a punição prevista, se não for suficiente para dissuadir os homens da ação, é um convite a ela: porque quando os homens comparam o benefício de sua injustiça com o dano de sua punição, por necessidade da natureza, escolhem o que lhes parece melhor; e, portanto, quando são punidos mais severamente do que a lei havia determinado anteriormente, ou mais severamente do que outros foram punidos pelo mesmo crime, é a lei que os tentou e os enganou.

Nada pode ser criminalizado por uma lei criada posteriormente.

Nenhuma lei, feita após um fato consumado, pode torná-lo um crime: porque se o fato contraria a lei da natureza, a lei já existia antes do fato; e uma lei positiva não pode ser considerada antes de ser criada, e, portanto, não pode ser obrigatória. Mas quando a lei que proíbe um fato é criada antes que o fato seja praticado, aquele que pratica o fato está sujeito à pena determinada posteriormente, caso nenhuma pena menor tenha sido previamente comunicada, nem por escrito, nem por exemplo, pela razão imediatamente alegada.

Princípios falsos do certo e do errado: causas do crime

Devido a falhas de raciocínio (isto é, a erros), os homens são propensos a violar as leis de três maneiras. Primeiro, pela presunção de falsos princípios; como quando os homens, tendo observado como em todos os lugares e em todas as épocas, ações injustas foram autorizadas pela força e pelas vitórias daqueles que as cometeram; e que homens poderosos, rompendo com a complexa teia de leis de seu país, os mais fracos e aqueles que fracassaram em seus empreendimentos foram considerados os únicos criminosos; então, adotaram como princípios e fundamentos de seu raciocínio: “Que justiça não passa de uma palavra vã; Que tudo o que um homem pode obter por seu próprio trabalho e risco é seu; Que a prática de todas as nações não pode ser injusta; Que exemplos de tempos passados ​​são bons argumentos para fazer o mesmo novamente”; e muitos outros desse tipo: Admitindo-se que nenhum ato em si pode ser um crime, mas deve ser transformado em crime (não pela lei, mas) pelo sucesso daqueles que o cometem; e o mesmo fato pode ser virtuoso ou vicioso, conforme a Fortuna lhe aprouver; de modo que o que Mário torna crime, Sila torna meritório, e César (mantendo-se as mesmas leis) transforma novamente em crime, para a perpétua perturbação da paz da comunidade.

Falsos mestres interpretando erroneamente a lei da natureza. Em segundo lugar, por falsos

Professores que interpretam erroneamente a Lei da Natureza, tornando-a assim repugnante ao Direito Civil; ou que ensinam, em nome do Direito, doutrinas próprias ou tradições antigas que são incompatíveis com o dever de um súdito.

E inferências falsas a partir de princípios verdadeiros, por parte dos professores.

Em terceiro lugar, por inferências errôneas a partir de princípios verdadeiros; o que acontece comumente com homens que são precipitados e apressados ​​em concluir e resolver o que fazer; tais como aqueles que têm uma grande opinião de seu próprio entendimento e acreditam que assuntos dessa natureza não exigem tempo e estudo, mas apenas experiência comum e um bom raciocínio natural; do qual ninguém se considera desprovido: enquanto que o conhecimento do Certo e do Errado, que não é menos difícil, ninguém pretende possuir sem um estudo profundo e prolongado. E desses defeitos de raciocínio, nenhum pode desculpar (embora alguns possam atenuar) um crime em qualquer homem que pretenda administrar seus próprios negócios privados; muito menos naqueles que assumem um cargo público; porque eles pretendem ter a razão na qual fundamentariam sua desculpa.

Pelas suas paixões;

Dentre as paixões que mais frequentemente causam crimes, uma delas é a vaidade, ou uma supervalorização tola do próprio valor; como se a diferença de valor fosse um efeito da inteligência, da riqueza, do sangue ou de alguma outra qualidade natural, não dependendo da vontade daqueles que detêm a autoridade soberana. Daí procede a presunção de que as punições ordenadas pelas leis, e geralmente aplicadas a todos os súditos, não deveriam ser infligidas a eles com o mesmo rigor com que são infligidas aos homens pobres, obscuros e simples, englobados sob o nome de vulgares.

Presunção de Riquezas

Portanto, é comum que aqueles que se valorizam pela grandeza de suas riquezas se aventurem em crimes, na esperança de escapar da punição, corrompendo a justiça pública ou obtendo perdão por meio de dinheiro ou outras recompensas.

E amigos

E aqueles que têm muitos parentes poderosos; e homens populares, que ganharam reputação entre a multidão, se encorajam a violar as leis, na esperança de oprimir o poder a quem pertence a cumpri-las.

Wisedome

E aqueles que têm uma opinião grande e falsa da sua própria sabedoria, encarregam-se de repreender as ações e questionar a autoridade dos governantes, perturbando assim as leis com o seu discurso público, como se nada fosse crime, exceto o que os seus próprios desígnios assim o exigissem. Acontece também a esses mesmos homens serem propensos a todos os crimes que consistem em astúcia e em enganar os seus vizinhos, porque pensam que os seus desígnios são demasiado subtis para serem percebidos. Digo que estes são efeitos de uma falsa presunção da sua própria sabedoria. Pois, daqueles que são os primeiros a perturbar a ordem pública (o que nunca acontece sem uma guerra civil), muito poucos sobrevivem o suficiente para ver os seus novos desígnios estabelecidos; de modo que o benefício dos seus crimes reverte para a posteridade, e para aqueles que menos o desejariam, o que demonstra que não eram tão sábios quanto pensavam ser. E aqueles que enganam na esperança de não serem observados, geralmente enganam a si mesmos (a escuridão na qual acreditam estar escondidos nada mais é do que sua própria cegueira); e não são mais sábios do que crianças que pensam estar tudo oculto, por esconderem os próprios olhos.

E, em geral, todos os homens vaidosos (a menos que sejam, acima de tudo, medrosos) estão sujeitos à ira, por serem mais propensos do que outros a interpretar como desprezo a liberdade comum de conversa. E há poucos crimes que não possam ser provocados pela ira.

Ódio, Luxúria, Ambição, Cobiça, Causas do Crime

Quanto às paixões — ódio, luxúria, ambição e cobiça —, os crimes que elas tendem a produzir são tão óbvios à experiência e ao entendimento de todo homem que nada mais é necessário dizer a respeito, a não ser que são fraquezas tão inerentes à natureza, tanto do homem quanto de todos os outros seres vivos, que seus efeitos só podem ser impedidos pelo uso extraordinário da razão ou pela severidade constante em puni-las. Pois, naquilo que os homens odeiam, encontram um tormento contínuo e inevitável; por isso, ou a paciência do homem deve ser eterna, ou ele deve ser aliviado removendo-se o poder daquilo que o atormenta. O primeiro é difícil; o segundo, muitas vezes, é impossível sem alguma violação da lei. A ambição e a cobiça são paixões que também são perpetuamente presentes e prementes; enquanto a razão não está perpetuamente presente para resistir a elas; e, portanto, sempre que surge a esperança de impunidade, seus efeitos se manifestam. E quanto à Luxúria, o que lhe falta em permanência, sobra em veemência, o que basta para anular o receio de todas as punições fáceis ou incertas.

O medo às vezes é a causa do crime, como quando o perigo não está presente, nem é físico.

De todas as paixões, aquela que menos inclina os homens a infringir as leis é o medo. Aliás, (exceto em alguns casos de natureza generosa), é a única coisa (quando há a aparência de lucro ou prazer em infringir as leis) que faz com que os homens as cumpram. E, no entanto, em muitos casos, um crime pode ser cometido por medo.

Nem todo medo justifica a ação que produz, mas apenas o medo de dano físico, que chamamos de medo corporal, e do qual o homem não vê como se livrar senão pela ação. Um homem é agredido, teme a morte iminente, da qual não vê como escapar senão ferindo o agressor; se o fere até a morte, isso não é crime, pois não se supõe que um homem, na formação de uma comunidade, tenha abandonado a defesa de sua vida ou de seus membros, quando a lei não pode chegar a tempo de auxiliá-lo. Mas matar um homem porque, por suas ações ou ameaças, posso argumentar que ele me matará quando puder (visto que tenho tempo e meios para exigir proteção do Poder Soberano), é crime. Novamente, um homem recebe palavras de desonra ou pequenas injúrias (para as quais os criadores das leis não previram punição, nem consideraram digno de atenção de um homem dotado de razão) e teme que, a menos que se vingue, cairá em desprezo e, consequentemente, se tornará alvo de injúrias semelhantes por parte de outros; e, para evitar isso, infringe a lei e se protege para o futuro com o temor de sua vingança pessoal. Isso é um crime; pois o dano não é corporal, mas fantástico, e (embora neste canto do mundo tenha se tornado perceptível por um costume não muito recente entre homens jovens e vaidosos) tão leve que um homem galante e confiante em sua própria coragem não pode dar importância a ele. Além disso, um homem pode temer espíritos, seja por sua própria superstição, seja por dar muito crédito a outros homens que lhe falam de sonhos e visões estranhas; e assim ser levado a crer que lhe farão mal, por fazer ou omitir diversas coisas que, no entanto, fazer ou omitir é contrário às Leis; e aquilo que assim é feito ou omitido não deve ser desculpado por esse medo, mas é um crime. Pois (como mostrei anteriormente no segundo capítulo) os sonhos são naturalmente apenas as fantasias que permanecem durante o sono, após as impressões que nossos sentidos receberam ao acordar; e quando os homens, por algum acidente, não têm certeza de que dormiram, parecem ser visões reais; e, portanto, aquele que se atreve a infringir a Lei com base em seu próprio sonho, ou no sonho de outrem, ou em uma visão fingida, ou em outra fantasia do poder de espíritos invisíveis, além do que é permitido pela sociedade, abandona a Lei da Natureza, o que é uma ofensa certa, e segue as imagens de sua própria mente, ou da mente de outro indivíduo, das quais ele nunca poderá saber se significam algo ou nada, nem se aquele que conta seu sonho diz a verdade ou mente; o que, se cada indivíduo tivesse permissão para fazer (como devem fazer pela Lei da Natureza, se alguém a tiver), nenhuma lei poderia ser estabelecida.e assim toda a Comunidade Britânica seria dissolvida.

Crimes não são iguais

A partir dessas diferentes fontes de crimes, já se depreende que nem todos os crimes são (como afirmavam os estoicos da antiguidade) da mesma natureza. Há espaço não apenas para a DESCULPA, pela qual aquilo que parecia um crime se prova não o ser, mas também para a EXTENSAÇÃO, pela qual o crime que parecia grave se torna menor. Pois, embora todos os crimes mereçam igualmente o nome de injustiça, assim como todo desvio de uma linha reta é igualmente tortuoso, como os estoicos corretamente observaram, isso não significa que todos os crimes sejam igualmente injustos, assim como nem todas as linhas tortas são igualmente tortas; o que os estoicos, não observando, consideravam tão grave o crime de matar uma galinha, contra a lei, quanto o de matar o próprio pai.

Desculpas totais

Aquilo que exime totalmente um fato e lhe retira a natureza de crime não pode ser senão aquilo que, ao mesmo tempo, elimina a obrigação da lei. Pois o fato cometido uma vez contra a lei, se aquele que o cometeu estiver obrigado perante a lei, não pode ser senão um crime.

A falta de meios para conhecer a Lei, totalmente desculpa: pois a Lei da qual um homem não tem meios de se informar não é obrigatória. Mas a falta de diligência em indagar não deve ser considerada como falta de meios; nem se deve supor que qualquer homem que pretenda ter raciocínio suficiente para governar seus próprios assuntos não tenha meios para conhecer as Leis da Natureza; porque estas são conhecidas pela razão que ele alega possuir: somente crianças e loucos são desculpados de ofensas contra a Lei Natural.

Quando um homem está cativo ou sob o poder do inimigo (e ele está sob o poder do inimigo quando sua pessoa ou seus meios de subsistência se encontram nessa situação), se isso não for culpa sua, a obrigação da lei cessa; porque ele deve obedecer ao inimigo ou morrer; e, consequentemente, tal obediência não é crime: pois ninguém é obrigado (quando a proteção da lei falha) a não se proteger pelos melhores meios que puder.

Se um homem, pelo temor da morte iminente, for compelido a praticar um ato contrário à lei, estará totalmente desculpado, pois nenhuma lei pode obrigar um homem a abandonar sua própria preservação. E supondo que tal lei fosse obrigatória, o homem raciocinaria assim: "Se eu não o fizer, morrerei imediatamente; se o fizer, morrerei depois; portanto, fazendo-o, ganho tempo de vida". A natureza, portanto, o impele a esse ato.

Quando um homem está destituído de comida ou de outra coisa necessária à sua vida e não pode se preservar de outra forma senão por algum ato contrário à lei; como, por exemplo, se em uma grande fome ele toma o alimento à força ou às escondidas, que não pode obter por dinheiro nem por caridade; ou, em defesa da própria vida, arrebata a espada de outro homem, ele é totalmente desculpado, pela razão alegada a seguir.

Desculpas contra o autor

Novamente, atos praticados contra a lei, sob a autoridade de outrem, são justificados por essa autoridade contra o autor; pois ninguém deve acusar outro de seus próprios atos, que é apenas seu instrumento. Contudo, tais atos não são justificados contra um terceiro prejudicado, porque, na violação da lei, tanto o autor quanto o agente são criminosos. Daí se segue que, quando aquele homem ou assembleia que detém o poder soberano ordena a alguém que faça algo contrário a uma lei anterior, tal ato é totalmente justificado: pois ele próprio não deve condená-lo, visto que é o autor; e o que não pode ser justamente condenado pelo soberano, não pode ser justamente punido por ninguém. Além disso, quando o soberano ordena que algo seja feito contra sua própria lei anterior, a ordem, quanto a esse fato específico, constitui uma revogação da lei.

Se o homem ou a assembleia que detém o poder soberano negar qualquer direito essencial à soberania, de modo que o súdito obtenha qualquer liberdade incompatível com o poder soberano, ou seja, com a própria essência de uma comunidade, e se o súdito se recusar a obedecer a uma ordem em qualquer coisa contrária à liberdade concedida, isso é, não obstante, um pecado e contrário ao dever do súdito: pois ele deveria atentar para o que é incompatível com a soberania, visto que esta foi instituída por seu próprio consentimento e para sua própria defesa; e que tal liberdade incompatível com ela foi concedida por ignorância das consequências nefastas. Mas se ele não apenas desobedecer, mas também resistir a um ministro público no exercício de suas funções, então é um crime; pois ele poderia ter sido repreendido (sem qualquer perturbação da paz) mediante queixa.

Os graus de criminalidade são avaliados em diversas escalas e medidos, primeiro, pela malignidade da fonte ou causa; segundo, pelo contágio do exemplo; terceiro, pelo dano do efeito; e quarto, pela coincidência de tempo, lugar e pessoas.

Presunção de Poder, Agrava

O mesmo ato cometido contra a lei, se procede da presunção de força, riqueza ou amigos para resistir àqueles que devem executar a lei, é um crime maior do que se procede da esperança de não ser descoberto ou de escapar fugindo: pois a presunção de impunidade pela força é a raiz da qual brota, em todos os momentos e diante de todas as tentações, o desprezo por todas as leis; enquanto que, neste último caso, o receio do perigo que faz o homem fugir o torna mais obediente no futuro. Um crime que sabemos ser lícito é maior do que o mesmo crime que procede de uma falsa crença de que é lícito: pois aquele que o comete contra a sua própria consciência presume-se em sua força ou outro poder, o que o encoraja a cometê-lo novamente; mas aquele que o faz por engano, após o erro lhe ser revelado, está em conformidade com a lei.

Professores Malvados, Atenuar

Aquele cujo erro procede da autoridade de um professor ou intérprete da lei publicamente autorizado não é tão falho quanto aquele cujo erro procede da busca peremptória de seus próprios princípios e raciocínio: pois o que é ensinado por alguém que ensina por autoridade pública, a comunidade ensina e tem semelhança com a lei, até que a mesma autoridade a controle; e em todos os crimes que não contêm uma negação do poder soberano, nem são contrários a uma lei evidente, há total desculpa: enquanto aquele que fundamenta suas ações em seu julgamento particular deve, de acordo com a retidão ou erro deste, permanecer ou cair.

Exemplos de impunidade, atenuantes

O mesmo fato, se tiver sido constantemente punido em outros homens, é considerado um crime maior do que se houver muitos exemplos precedentes de impunidade. Pois esses exemplos são tantas as esperanças de impunidade dadas pelo próprio Soberano: e porque aquele que fornece a um homem tal esperança e presunção de misericórdia, que o encoraja a ofender, tem sua parcela de culpa na ofensa; não pode razoavelmente imputar ao ofensor a totalidade da culpa.

Preemeditação, agrava

Um crime resultante de uma paixão súbita não é tão grave quanto aquele que resulta de longa reflexão: pois, no primeiro caso, há espaço para atenuação na fraqueza comum da natureza humana; mas aquele que o comete com premeditação usou de circunspecção e contemplou a lei, a punição e as consequências para a sociedade; tudo isso, ao cometer o crime, ele desprezou e submeteu ao seu próprio apetite. Mas não há súbita paixão suficiente para uma desculpa total: pois todo o tempo entre o primeiro conhecimento da lei e a prática do ato deve ser considerado como tempo de deliberação, porque ele deve, meditando na lei, retificar a irregularidade de suas paixões.

Onde a lei é lida e interpretada publicamente e com assiduidade por todo o povo, um ato praticado contra ela é um crime maior do que quando os homens são deixados sem tal instrução, tendo que indagar sobre ela com dificuldade, incerteza e interrupção de suas profissões, e sendo informados por particulares: pois, neste caso, parte da culpa é atribuída à fraqueza comum; mas no primeiro caso há negligência evidente, o que não deixa de ser um certo desprezo pelo Poder Soberano.

A aprovação tácita do soberano atenua

Os fatos que a Lei condena expressamente, mas que o Legislador aprova tacitamente por outros sinais manifestos de sua vontade, são crimes menores do que os mesmos fatos condenados tanto pela Lei quanto pelo Legislador. Pois, como a vontade do Legislador é uma Lei, aparecem neste caso duas Leis contraditórias; o que seria totalmente justificável se os homens fossem obrigados a levar em conta a aprovação do Soberano por outros argumentos além dos expressos em seu decreto. Mas, como há punições consequentes não apenas à transgressão de sua Lei, mas também à sua observância, ele é em parte causa da transgressão e, portanto, não pode razoavelmente imputar todo o crime ao delinquente. Por exemplo, a Lei condena os duelos; a punição é capital. Por outro lado, aquele que se recusa a duelar está sujeito a desprezo e escárnio, sem remédio. E, às vezes, pelo próprio Soberano, considerado indigno de qualquer cargo ou posição na Guerra: se, então, aceitar o duelo, considerando que todos os homens legitimamente se esforçam para obter a boa opinião daqueles que detêm o Poder Soberano, não deveria, em sã consciência, ser rigorosamente punido; visto que parte da culpa pode recair sobre o punidor; o que digo, não como um desejo de liberdade para vinganças privadas ou qualquer outro tipo de desobediência, mas sim como um cuidado por parte dos Governantes para não tolerarem indiretamente nada que eles proíbam diretamente. Os exemplos dos Príncipes, para aqueles que os observam, são, e sempre foram, mais poderosos para guiar suas ações do que as próprias Leis. E embora seja nosso dever fazer não o que eles fazem, mas o que eles dizem, esse dever jamais será cumprido até que Deus conceda aos homens uma graça extraordinária e sobrenatural para seguir esse Preceito.

Comparação de crimes a partir de seus efeitos

Novamente, se compararmos os crimes pelo mal que causam, em primeiro lugar, o mesmo fato, quando resulta em prejuízo para muitos, é maior do que quando resulta em prejuízo para poucos. E, portanto, quando um fato causa dano não apenas no presente, mas também (por exemplo) no futuro, é um crime maior do que se causasse dano apenas no presente: pois o primeiro é um crime fértil e se multiplica, causando prejuízo a muitos; o segundo é estéril. Manter doutrinas contrárias à religião estabelecida na comunidade é uma falta maior em um pregador autorizado do que em um indivíduo comum: assim também o é viver profanamente, incontinentemente ou praticar qualquer ato irreligioso. Da mesma forma, para um professor de Direito, sustentar qualquer ponto de vista ou praticar qualquer ato que tenda a enfraquecer o Poder Soberano é um crime maior do que em qualquer outro homem. Da mesma forma, para um homem que goza de tal reputação de sabedoria, cujos conselhos são seguidos ou cujas ações são imitadas por muitos, seu ato contra a lei é um crime maior do que o mesmo ato em outro homem. Pois tais homens não apenas cometem crimes, mas também os ensinam como se fossem lei a todos os outros. E, em geral, todos os crimes são maiores pelo escândalo que causam; isto é, por se tornarem obstáculos para os fracos, que não se atentam tanto ao caminho que trilham, mas à luz que outros homens carregam à sua frente.

Laesae Majestas

Além disso, atos de hostilidade contra o estado atual da República são crimes maiores do que os mesmos atos cometidos contra indivíduos privados; pois o dano se estende a todos: tais são a traição das forças ou a revelação dos segredos da República a um inimigo; também todas as tentativas contra o representante da República, seja um monarca ou uma Assembleia; e todos os esforços, por palavras ou atos, para diminuir a autoridade da mesma, seja no presente ou em sucessão: crimes que os latinos entendem por Crimina Laesae Majestatis, e que consistem em desígnio ou ato contrário a uma lei fundamental.

Suborno e falso testemunho

Da mesma forma, os crimes que tornam os julgamentos ineficazes são crimes maiores do que os danos causados ​​a uma ou poucas pessoas; pois receber dinheiro para dar um falso julgamento ou testemunho é um crime maior do que enganar alguém com quantia igual ou maior, porque não apenas a pessoa prejudicada por tais julgamentos, mas todos os julgamentos se tornam inúteis e servem de pretexto para a força e vinganças privadas.

Despeculação

Além disso, o roubo e a desfalque do tesouro público ou das receitas são crimes maiores do que roubar ou fraudar um indivíduo privado, pois roubar o público é roubar muitos de uma só vez.

Autoridade de Combate à Falsificação

Também a usurpação falsificada do Ministério Público, a falsificação de selos públicos ou moedas públicas, é mais grave do que a falsificação da pessoa de um indivíduo ou de seu selo; porque a fraude daí decorre em prejuízo de muitos.

Crimes contra cidadãos comuns comparados

Dentre os atos ilícitos cometidos contra particulares, o crime mais grave é aquele em que o dano, na opinião pública, é mais evidente. E, portanto,

Matar, contrariando a lei, é um crime maior do que qualquer outro dano causado à vida preservada.

E matar com tormento é maior do que simplesmente matar.

E a mutilação de um membro é maior do que o roubo dos bens de um homem.

E o espoliamento dos bens de um homem, pelo terror da morte ou por ferimentos, é mais grave do que por meio de furtividade clandestina.

E por meio de subversão clandestina, em vez de consentimento obtido fraudulentamente.

E a violação da castidade pela força é maior do que pela bajulação.

E de uma mulher casada, do que de uma mulher solteira.

Pois todas essas coisas são geralmente assim valorizadas; embora alguns homens sejam mais e outros menos sensíveis à mesma ofensa. Mas a Lei não considera o particular, e sim a inclinação geral da humanidade.

E, portanto, a ofensa que os homens sentem pela injúria, seja em palavras ou gestos, quando estas não causam outro dano além da dor imediata daquele que é repreendido, foi negligenciada nas leis dos gregos, romanos e de outras comunidades, tanto antigas quanto modernas; supondo que a verdadeira causa de tal dor consista não na injúria (que não afeta os homens conscientes de sua própria virtude), mas na pusilanimidade daquele que é ofendido por ela.

Um crime contra um indivíduo privado também é muito agravado pela pessoa, pelo momento e pelo lugar. Pois matar um dos pais é um crime maior do que matar outra pessoa: porque o pai deveria ter a honra de um soberano (embora tenha renunciado ao seu poder perante a lei civil), pois a possuía originalmente por natureza. E roubar um homem pobre é um crime maior do que roubar um homem rico, porque para o pobre o dano é mais palpável.

E um crime cometido no tempo ou lugar designado para a devoção é maior do que se cometido em outro tempo ou lugar, pois procede de um maior desprezo pela lei.

Poderiam ser acrescentados muitos outros casos de agravamento e atenuação; mas, por estes que mencionei, é óbvio para todos que se deve considerar a gravidade de qualquer outro crime proposto.

Crimes Públicos O quê

Por fim, como em quase todos os crimes há um dano causado, não apenas a um indivíduo privado, mas também à comunidade, o mesmo crime, quando a acusação é feita em nome da comunidade, é chamado de crime público; e quando feita em nome de um indivíduo privado, é chamado de crime privado; e as alegações correspondentes são chamadas de alegações públicas, alegações da Coroa ou alegações privadas. Como em uma acusação de assassinato, se o acusador for um indivíduo privado, a alegação é privada; se o acusador for o soberano, a alegação é pública.

CAPÍTULO XXVIII.
DAS PUNIÇÕES E RECOMPENSAS

A Definição de Punição

“Uma PUNIÇÃO é um mal infligido pela autoridade pública àquele que fez ou omitiu aquilo que a mesma autoridade julga ser uma transgressão da lei, com o objetivo de que a vontade dos homens seja melhor disposta à obediência.”

Direito de punir, de onde deriva

Antes de inferir qualquer coisa desta definição, há uma questão de grande importância a ser respondida: por qual via se entrou o Direito, ou a Autoridade de Punir, em qualquer caso? Pois, pelo que foi dito anteriormente, nenhum homem é considerado obrigado por Pacto a não resistir à violência; e, consequentemente, não se pode inferir que ele tenha concedido a outrem o direito de usar violência contra ele. Na formação de uma comunidade, cada homem abre mão do direito de defender o outro, mas não de se defender. Ele também se obriga a auxiliar aquele que detém a Soberania na punição de outrem, mas não de si mesmo. Mas fazer um pacto para auxiliar o Soberano a causar dano a outrem, a menos que aquele que assim faz o pacto tenha o direito de fazê-lo ele mesmo, não é conceder-lhe o Direito de Punir. É manifesto, portanto, que o Direito que a Comunidade (isto é, ele, ou aqueles que a representam) tem de Punir não se fundamenta em qualquer concessão ou dádiva dos Súditos. Mas também já mostrei anteriormente que, antes da instituição da Comunidade, cada homem tinha direito a tudo e a fazer tudo o que julgasse necessário para a sua própria preservação; subjugando, ferindo ou matando qualquer homem para tal fim. E este é o fundamento do direito de Punir, que é exercido em toda Comunidade. Pois os Súditos não concederam esse direito ao Soberano; mas, ao abdicarem do seu, fortaleceram-no para usar o seu próprio, como bem entendesse, para a preservação de todos: de modo que não lhe foi dado, mas deixado a ele, e somente a ele; e (exceto pelos limites impostos pela lei natural) tão pleno quanto na condição da mera Natureza e da guerra de cada um contra o seu próximo.

Lesões pessoais e vinganças sem punições.

Pela definição de Punição, infiro, em primeiro lugar, que nem as vinganças privadas, nem as injúrias contra indivíduos privados, podem propriamente ser chamadas de Punição, porque não procedem de uma Autoridade pública.

Nem negação de preferência

Em segundo lugar, ser negligenciado e não ser favorecido pelo público não é um castigo, pois nenhum novo mal é infligido a ninguém; a pessoa simplesmente permanece no estado em que se encontrava antes.

Nem dor infligida sem audição pública

Em terceiro lugar, o mal infligido pela autoridade pública, sem condenação pública prévia, não deve ser chamado de punição, mas sim de ato hostil; porque o fato pelo qual um homem é punido deve, primeiramente, ser julgado pela autoridade pública como uma transgressão da lei.

Nem a dor infligida pelo poder usurpado

Em quarto lugar, o mal infligido pelo poder usurpado e por juízes sem autoridade do Soberano não é punição, mas um ato de hostilidade, pois os atos do poder usurpado não têm como autor a pessoa condenada e, portanto, não são atos de autoridade pública.

Nem a dor infligida sem respeito pelo bem futuro.

Em quinto lugar, todo mal infligido sem intenção ou possibilidade de levar o delinquente, ou (por seu exemplo) outros homens, a obedecer às leis, não é punição, mas um ato de hostilidade; pois, sem tal fim, nenhum dano causado se enquadra nessa denominação.

Consequências do Mal Natural, Sem Punições

Sexto, enquanto que a certas ações estão inerentemente associadas, pela Natureza, diversas consequências danosas; como quando um homem, ao agredir outro, é morto ou ferido; ou quando adoece por praticar algum ato ilícito; tal dano, embora em relação a Deus, que é o autor da Natureza, possa ser considerado infligido e, portanto, um castigo divino; contudo, não se enquadra na categoria de castigo em relação aos homens, porque não é infligido pela autoridade do homem.

O dano infligido, se menor que o benefício da transgressão, não é punição.

Sétimo, se o dano infligido for menor que o benefício ou a satisfação que naturalmente decorre do crime cometido, esse dano não se enquadra na definição; e é antes o preço ou a redenção, e não a punição de um crime: porque é da natureza da punição ter como fim dispor os homens a obedecerem à lei; fim esse que (se for menor que o benefício da transgressão) não alcança, mas produz um efeito contrário.

Onde a punição está anexada à lei, um dano maior não é a punição, mas a hostilidade.

Oitavo, se uma punição for determinada e prescrita na própria lei, e após o crime cometido, uma punição maior for infligida, o excesso não é punição, mas um ato de hostilidade. Pois, como a punição não é vingança, mas terror; e o terror de uma grande punição desconhecida é atenuado pela declaração de uma menor, o acréscimo inesperado não faz parte da punição. Mas onde não há punição alguma determinada pela lei, qualquer que seja a punição infligida, ela tem a natureza de punição. Pois aquele que se dedica à violação de uma lei na qual nenhuma penalidade é determinada, espera uma punição indeterminada, isto é, arbitrária.

Dano infligido por um fato cometido antes da lei, sem punição.

Em nono lugar, o dano infligido por um fato praticado antes da existência de uma lei que o proibisse não é punição, mas um ato de hostilidade: pois antes da lei não havia transgressão da lei; mas a punição pressupõe que um fato julgado tenha sido uma transgressão da lei; portanto, o dano infligido antes da promulgação da lei não é punição, mas um ato de hostilidade.

O Representante da Comunidade Inpunível

Em décimo lugar, o dano infligido ao Representante da Comunidade não é punição, mas um ato de hostilidade: pois é da natureza da punição ser infligida pela autoridade pública, que é a autoridade do próprio Representante.

Ferir súditos revoltados é um direito da guerra, não uma forma de punição.

Por fim, o dano infligido a um inimigo declarado não se disfarça de punição: pois, visto que ou nunca estiveram sujeitos à lei e, portanto, não podem transgredi-la, ou, tendo estado sujeitos a ela e professando não mais sê-lo, negam, por consequência, que possam transgredi-la, todos os danos que lhes podem ser infligidos devem ser considerados atos de hostilidade. Mas, em casos de hostilidade declarada, toda a prática do mal é lícita. Daí se segue que, se um súdito, por fato ou palavra, consciente e deliberadamente negar a autoridade do Representante da Comunidade (qualquer que seja a pena anteriormente ordenada para traição), ele poderá legalmente sofrer o que o Representante desejar: pois, ao negar a submissão, ele nega a punição que a lei ordenou; e, portanto, sofre como inimigo da Comunidade, isto é, de acordo com a vontade do Representante. Pois as punições estabelecidas na lei são para os súditos, não para os inimigos; tais como aqueles que, tendo sido súditos por seus próprios atos, revoltando-se deliberadamente, negam o Poder Soberano.

A primeira e mais geral classificação das punições é em divinas e humanas. Das primeiras, falarei em um momento mais oportuno adiante.

São consideradas humanas as punições que podem ser infligidas por mandamento divino; e podem ser corporais, pecuniárias, ignominiosas, de prisão, exílio ou uma combinação destas.

Punições Corporais

Castigo corporal é aquele infligido diretamente ao corpo, de acordo com a intenção de quem o inflige: como açoites, feridas ou privação de prazeres corporais que antes eram legalmente desfrutados.

Capital

E destas, algumas são capitais, outras menos que capitais. Capital é a pena de morte; seja ela simples ou com tormento. Menos que capitais são os açoites, feridas, correntes e qualquer outra dor corporal que não seja mortal por natureza. Pois se, ao infligir uma punição, a morte não for a intenção de quem a inflige, a punição não deve ser considerada capital, ainda que o dano se mostre mortal por um acidente imprevisível; nesse caso, a morte não é infligida, mas sim acelerada.

A punição pecuniária consiste não apenas na privação de uma quantia em dinheiro, mas também de terras ou quaisquer outros bens que sejam normalmente comprados e vendidos por dinheiro. E, caso a lei que ordena tal punição seja feita com o propósito de arrecadar dinheiro daqueles que a transgredirem, não se trata propriamente de uma punição, mas do preço de um privilégio e de uma isenção da lei, que não proíbe absolutamente o ato, mas apenas para aqueles que não podem pagar o dinheiro; exceto quando a lei é natural ou parte da religião; pois, nesse caso, não se trata de uma isenção da lei, mas de uma transgressão dela. Assim como quando uma lei exige um imposto pecuniário daqueles que tomam o nome de Deus em vão, o pagamento do imposto não é o preço de uma dispensa para jurar, mas a punição pela transgressão de uma lei indispensável. Da mesma forma, se a lei impuser uma quantia em dinheiro a ser paga àquele que foi lesado, isso não passa de uma reparação pelo dano sofrido, extinguindo a acusação da parte lesada, e não o crime do infrator.

Ignomínia

Ignomínia é a imposição de um mal tão desonroso quanto a privação de um bem tão honroso concedido pela comunidade. Pois há coisas honrosas por natureza, como os efeitos da coragem, magnanimidade, força, sabedoria e outras capacidades físicas e mentais; outras, honrosas pela comunidade, como distintivos, títulos, cargos ou qualquer outra marca singular do favor soberano. As primeiras (embora possam falhar por natureza ou acidente) não podem ser retiradas por lei; portanto, sua perda não é punição. Mas as últimas podem ser retiradas pela autoridade pública que as honrou, e constituem, propriamente, punições: tais punições degradam os homens, condenando-os à perda de seus distintivos, títulos e cargos, ou declarando-os incapazes de exercer tais feitos no futuro.

Prisão

Prisão é quando um homem é privado de sua liberdade por autoridade pública; e pode ocorrer por dois motivos distintos: um é a custódia segura de um acusado; o outro é a imposição de dor a um condenado. O primeiro não é punição, pois ninguém deve ser punido antes de ser julgado e declarado culpado. Portanto, qualquer dano que um homem seja obrigado a sofrer por meio de grilhões ou restrições antes que sua causa seja ouvida, além do necessário para garantir sua custódia, é contrário à lei natural. Mas o segundo é punição, porque é maligno e infligido por autoridade pública por algo que essa mesma autoridade julgou uma transgressão da lei. Sob a palavra prisão, compreendo toda restrição de movimento causada por um obstáculo externo, seja uma casa, que é chamada genericamente de prisão, ou uma ilha, como quando se diz que pessoas estão confinadas nela. ou um lugar onde os homens são postos para trabalhar, como antigamente os homens eram condenados a trabalhar em pedreiras, e nestes tempos em galinheiros; ou seja uma corrente, ou qualquer outro impedimento semelhante.

Exílio

O exílio (banimento) ocorre quando um homem, por um crime, é condenado a deixar o domínio da comunidade, ou de uma certa parte dela, e durante um período predeterminado, ou para sempre, sem poder retornar. Em sua própria natureza, sem outras circunstâncias, não parece ser uma punição, mas sim uma fuga, ou um mandamento público para evitar a punição por meio da fuga. Cícero afirma que nunca houve tal punição ordenada na cidade de Roma, mas a chama de refúgio para homens em perigo. Pois, se um homem banido, ainda assim, tem permissão para desfrutar de seus bens e da renda de suas terras, a mera mudança de residência não é uma punição; nem contribui para o benefício da comunidade, para o qual todas as punições são ordenadas (isto é, para a formação da vontade dos homens em observar a lei), mas muitas vezes para o prejuízo da comunidade. Um homem banido é considerado um inimigo legítimo da comunidade que o baniu, por não ser mais membro dela. Mas se ele for privado de suas terras ou bens, a punição não se limita ao exílio, mas deve ser considerada entre as punições pecuniárias.

A punição de inocentes é contrária à lei da natureza.

Todas as punições a súditos inocentes, sejam eles grandes ou pequenos, são contrárias à Lei da Natureza; pois a punição só ocorre quando há transgressão da lei, e, portanto, não pode haver punição para o inocente. É, portanto, uma violação, em primeiro lugar, daquela Lei da Natureza que proíbe a todos os homens, em suas vinganças, de considerarem qualquer coisa que não seja um bem futuro: pois nenhum bem pode chegar à comunidade punindo o inocente. Em segundo lugar, daquela que proíbe a ingratidão: pois, visto que todo o Poder Soberano é originalmente concedido pelo consentimento de cada um dos súditos, para que, enquanto obedientes, sejam protegidos por ele, a punição do inocente é uma retribuição do bem pelo mal. E, em terceiro lugar, da Lei que ordena a equidade; isto é, uma distribuição igualitária da justiça; que não é observada na punição do inocente.

Mas o mal causado aos inocentes na guerra, nem tanto.

Mas infligir qualquer mal, seja ele qual for, a um homem inocente, que não seja súdito, se for para o benefício da comunidade e sem violação de qualquer pacto anterior, não constitui transgressão da Lei da Natureza. Pois todos os homens que não são súditos são inimigos ou deixaram de sê-lo por algum pacto precedente. Mas contra inimigos que a comunidade julga capazes de lhes causar dano, é lícito, pelo direito original da natureza, fazer guerra; guerra na qual a espada não julga, nem o vencedor faz distinção entre inocentes e inocentes quanto ao passado; nem tem outro tipo de misericórdia senão aquela que contribui para o bem do seu próprio povo. E é por esse motivo que, também nos súditos que deliberadamente negam a autoridade da comunidade estabelecida, a vingança se estende legitimamente, não apenas aos patriarcas, mas também à terceira e quarta gerações ainda não nascidas e, consequentemente, inocentes do fato pelo qual são afligidas: porque a natureza dessa ofensa consiste na renúncia à submissão, o que é um retorno à condição de guerra, comumente chamada de rebelião; e aqueles que assim ofendem não sofrem como súditos, mas como inimigos. Pois a rebelião nada mais é do que a guerra renovada.

A recompensa pode ser salário ou graça.

A recompensa pode ser concedida por doação ou por contrato. Quando contratual, é chamada de salário ou remuneração, sendo o benefício devido por serviços prestados ou prometidos. Quando concedida por doação, é um benefício que provém da graça daqueles que a concedem, para encorajar ou capacitar os homens a prestarem-lhes serviços. Portanto, quando o soberano de uma comunidade política designa um salário para qualquer cargo público, aquele que o recebe é obrigado, por justiça, a desempenhar suas funções; caso contrário, está obrigado apenas por honra, ao reconhecimento e à busca de retribuição. Pois, embora os homens não tenham recurso legal quando são obrigados a abandonar seus negócios privados para servir ao público sem recompensa ou salário, não estão obrigados a isso pela lei da natureza, nem pela instituição da comunidade política, a menos que o serviço não possa ser prestado de outra forma. pois presume-se que o Soberano possa utilizar todos os seus meios, de modo que o soldado mais comum possa exigir o pagamento do seu salário de guerra como uma dívida.

Benefícios concedidos por medo não são recompensas.

Os benefícios que um soberano concede a um súdito, por medo de algum poder e capacidade que este possua para prejudicar a comunidade, não são propriamente recompensas, pois não são salários, visto que, neste caso, não há qualquer contrato, já que cada indivíduo está obrigado a não prejudicar a comunidade. Tampouco são graças, pois são extorquidas pelo medo, que não deveria ser inerente ao poder soberano. São, antes, sacrifícios que o soberano (considerado em sua pessoa natural, e não na pessoa da comunidade) faz para apaziguar o descontentamento daquele que julga mais poderoso do que ele próprio, incentivando não a obediência, mas, ao contrário, a continuidade e o aumento da extorsão.

Salários certos e ocasionais

E enquanto alguns salários são certos e provêm do tesouro público, e outros são incertos e ocasionais, provenientes do exercício da função para a qual o salário é destinado; estes últimos, em alguns casos, são prejudiciais à comunidade, como no caso da magistratura. Pois, onde o benefício dos juízes e ministros de um tribunal de justiça surge da multidão de causas que lhes são levadas ao conhecimento, inevitavelmente surgem dois inconvenientes: um é o acúmulo de processos, pois quanto mais processos, maior o benefício; e o outro depende da disputa sobre jurisdição, com cada tribunal atraindo para si o máximo de causas possível. Mas nos cargos de execução não existem esses inconvenientes, porque seu trabalho não pode ser aumentado por nenhum esforço próprio. E isso basta para descrever a natureza da punição e da recompensa. que são, por assim dizer, os nervos e tendões que movem os membros e articulações de uma comunidade.

Até aqui, descrevi a natureza do Homem (cujo Orgulho e outras Paixões o obrigaram a submeter-se ao Governo), juntamente com o grande poder de seu Governador, a quem comparei a Leviatã, extraindo essa comparação dos dois últimos versículos do capítulo um e do quadragésimo de Jó, onde Deus, tendo exposto o grande poder de Leviatã, o chamou de Rei dos Orgulhosos. "Não há nada", diz ele, "na terra que se compare a ele. Ele foi feito para não ter medo. Ele vê todas as coisas altas abaixo dele e é Rei de todos os filhos do orgulho." Mas, como ele é mortal e sujeito à decadência, como todas as outras criaturas terrenas, e como há algo no céu (embora não na terra) que ele deva temer e cujas Leis ele deva obedecer, nos próximos capítulos falarei de suas Doenças e das causas de sua Mortalidade, e das Leis da Natureza às quais ele é obrigado a obedecer.

CAPÍTULO XXIX.
DAS COISAS QUE FRAQUECEM OU TENDEM À DISSOLUÇÃO DE UMA COMUNIDADE

A dissolução das comunidades decorre de uma instituição imperfeita.

Embora nada que os mortais criem possa ser imortal, se os homens tivessem o uso da razão que alegam possuir, suas comunidades poderiam, ao menos, estar protegidas da destruição por doenças internas. Pois, pela natureza de sua instituição, elas são destinadas a viver enquanto houver humanidade, ou enquanto existirem as leis da natureza, ou a própria justiça que lhes dá vida. Portanto, quando se dissolvem, não por violência externa, mas por desordem interna, a culpa não está nos homens, enquanto matéria, mas sim enquanto criadores e organizadores. Pois os homens, ao se cansarem de disputas e intrigas e desejarem, de todo o coração, conformar-se a uma estrutura firme e duradoura; Assim, por falta tanto da arte de elaborar leis adequadas para regularizar suas ações, quanto da humildade e da paciência para permitir que os aspectos rudes e complicados de sua grandeza atual sejam eliminados, eles não podem, sem a ajuda de um arquiteto muito capaz, ser transformados em algo que não seja uma construção insensata, que mal sobreviverá ao seu próprio tempo e que certamente recairá sobre as cabeças de sua posteridade.

Dentre as enfermidades de uma comunidade, portanto, citarei em primeiro lugar aquelas que surgem de uma instituição imperfeita e se assemelham às doenças de um corpo natural, que procedem de uma procriação defeituosa.

Falta de poder absoluto

Dentre elas, esta é uma: “Que um homem, para obter um reino, às vezes se contenta com menos poder do que aquele que é necessário para a paz e a defesa da comunidade”. Daí se depreende que, quando o exercício do poder adiado visa à segurança pública, ele se assemelha a um ato injusto, o qual leva um grande número de homens (quando a ocasião se apresenta) a se rebelar; da mesma forma que os corpos de crianças, concebidas por pais doentes, estão sujeitos à morte prematura ou à purgação da má qualidade derivada de sua concepção viciosa, irrompendo em bile e crostas. E quando os reis se negam algum poder necessário, nem sempre (embora às vezes) o fazem por ignorância do que é necessário para o cargo que assumem, mas muitas vezes pela esperança de recuperá-lo posteriormente a seu bel-prazer. Nisso, raciocinam mal, pois aqueles que os cobrarem de suas promessas serão mantidos contra eles por comunidades estrangeiras. que, para o bem de seus próprios súditos, deixaram escapar poucas oportunidades para enfraquecer o poder de seus vizinhos. Assim foi Thomas Becket, Arcebispo de Cantuária, apoiado contra Henrique II pelo Papa; a submissão dos eclesiásticos à República foi dispensada por Guilherme, o Conquistador, em sua recepção, quando prestou juramento de não infringir a liberdade da Igreja. E assim foram os barões, cujo poder foi aumentado por Guilherme II (para obter sua ajuda na transferência da sucessão de seu irmão mais velho para si próprio) a um grau incompatível com o poder soberano, mantido em sua rebelião contra o Rei João pelos franceses. E isso não acontece apenas na monarquia. Pois, enquanto o estilo da antiga República Romana era "O Senado e o Povo de Roma", nem o Senado nem o Povo reivindicavam todo o poder; que primeiro causou as sedições de Tibério Graco, Caio Graco, Lúcio Saturno e outros; e depois as guerras entre o Senado e o Povo, sob Mário e Sila; e novamente sob Pompeu e César, até a extinção de sua democracia e o estabelecimento da monarquia.

O povo de Atenas comprometeu-se apenas com uma única ação: que nenhum homem, sob pena de morte, propusesse a renovação da guerra pela ilha de Salamina. No entanto, se Sólon não tivesse dado a entender que estava louco e, posteriormente, com gestos e hábitos de um louco, e em versos, propagado isso ao povo que se aglomerava ao seu redor, eles teriam tido um inimigo perpetuamente à espreita, mesmo às portas da cidade. Tais danos, ou mudanças, são a que todas as comunidades são forçadas a sofrer quando seu poder é limitado.

Julgamento particular do bem e do mal

Em segundo lugar, observo as doenças de uma comunidade que procedem do veneno de doutrinas sediciosas; uma delas é: “Que todo indivíduo é juiz das ações boas e más”. Isso é verdade no estado de mera natureza, onde não há leis civis; e também sob o governo civil, nos casos que não são determinados pela lei. Mas, de outra forma, é manifesto que a medida das ações boas e más é a lei civil; e o juiz é o legislador, que é sempre representante da comunidade. Por causa dessa falsa doutrina, os homens são levados a debater entre si e a contestar os mandamentos da comunidade; e, posteriormente, a obedecê-los ou desobedecê-los, conforme seus julgamentos particulares lhes parecerem convenientes. Com isso, a comunidade fica perturbada e enfraquecida.

Consciência Errada

Outra doutrina repugnante à sociedade civil é a de que "tudo o que um homem faz contra a sua consciência é pecado", e depende da presunção de se fazer juiz do bem e do mal. Pois a consciência e o juízo de um homem são a mesma coisa; e assim como o juízo, também a consciência pode ser errônea. Portanto, embora aquele que não está sujeito a nenhuma lei civil peque em tudo o que faz contra a sua consciência, porque não tem outra regra a seguir senão a sua própria razão, não é assim com aquele que vive em uma comunidade; porque a lei é a consciência pública, pela qual ele já se comprometeu a ser guiado. Do contrário, em tal diversidade de consciências privadas, que são apenas opiniões privadas, a comunidade seria inevitavelmente perturbada, e ninguém ousaria obedecer ao poder soberano, a menos que lhe parecesse bom.

Fingimento de Inspiração

Também é comum ensinar que “a fé e a santidade não se alcançam pelo estudo e pela razão, mas pela inspiração ou infusão sobrenatural”. Admitindo isso, não vejo por que alguém justificaria sua fé; ou por que todo cristão não seria também um profeta; ou por que alguém tomaria a lei de seu país, em vez de sua própria inspiração, como regra de suas ações. E assim, incorremos novamente na falha de nos arrogarmos o direito de julgar o bem e o mal; ou de eleger juízes como aqueles que se dizem inspirados sobrenaturalmente, para a dissolução de todo governo civil. A fé vem pelo ouvir, e o ouvir, por meio daqueles acidentes que nos guiam à presença daqueles que nos falam; acidentes esses todos orquestrados por Deus Todo-Poderoso; e, no entanto, não são sobrenaturais, mas apenas, pela grande quantidade que concorre para cada efeito, imperceptíveis. A fé e a santidade, de fato, não são muito frequentes; Mas, ainda assim, não são milagres, e sim fruto da educação, da disciplina, da correção e de outros meios naturais pelos quais Deus os opera em seus eleitos, no tempo que Ele julga conveniente. E essas três opiniões, perniciosas para a paz e o governo, têm se propagado nesta parte do mundo principalmente pelas línguas e penas de teólogos incultos; os quais, ao concatenarem as palavras das Sagradas Escrituras de maneira contrária à razão, fazem o que podem para levar os homens a crer que a santidade e a razão natural não podem coexistir.

Submeter o Poder Soberano às Leis Civis

Uma quarta opinião, repugnante à natureza de uma comunidade, é esta: “Que aquele que detém o Poder Soberano está sujeito às Leis Civis”. É verdade que todos os soberanos estão sujeitos às Leis da Natureza, porque tais leis são Divinas e não podem ser revogadas por nenhum homem ou comunidade. Mas às leis que o próprio soberano cria, isto é, que a comunidade estabelece, ele não está sujeito. Pois estar sujeito às leis é estar sujeito à comunidade, isto é, ao representante do soberano, isto é, a si mesmo; o que não é submissão, mas sim liberdade das leis. Esse erro, por colocar as leis acima do soberano, coloca também um juiz acima dele e um poder para puni-lo, o que significa criar um novo soberano e, novamente, pela mesma razão, um terceiro para punir o segundo. e assim continuamente, sem fim, para a Confusão e Dissolução da Comunidade.

Atribuição de propriedade absoluta aos sujeitos

Uma quinta doutrina, que tende à dissolução de uma comunidade, é a de que "todo indivíduo possui uma propriedade absoluta sobre seus bens, que exclui o direito do soberano". De fato, todo indivíduo possui uma propriedade que exclui o direito de qualquer outro súdito; e a possui somente do poder soberano; sem a proteção deste, qualquer outro indivíduo teria igual direito aos mesmos bens. Mas se o direito do soberano também for excluído, ele não poderá desempenhar a função para a qual foi incumbido, que é a de defendê-los tanto de inimigos estrangeiros quanto das injúrias uns dos outros; e, consequentemente, não haverá mais uma comunidade.

E se a propriedade dos súditos não exclui o direito do representante soberano aos seus bens, muito menos aos seus cargos de juiz ou de execução, nos quais representam o próprio soberano.

Divisão do Poder Soberano

Há uma sexta doutrina, clara e diretamente contrária à essência de uma comunidade; e é esta: “Que o Poder Soberano possa ser dividido”. Pois o que é dividir o Poder de uma comunidade senão dissolvê-la? Já que poderes divididos se destroem mutuamente. E por essas doutrinas, os homens se apegam principalmente àqueles que, professando as leis, procuram fazê-las depender de seu próprio conhecimento, e não do Poder Legislativo.

Imitação das Nações Vizinhas

Assim como a falsa doutrina, também o exemplo de um governo diferente em uma nação vizinha muitas vezes leva os homens a alterarem a forma já estabelecida. Assim, o povo judeu foi incitado a rejeitar a Deus e a invocar o profeta Samuel como rei, à semelhança dos povos indígenas; da mesma forma, as cidades menores da Grécia eram continuamente perturbadas por sedições entre facções aristocráticas e democráticas; uma parte de quase todas as repúblicas desejando imitar os lacedemônios, e a outra, os atenienses. E não duvido que muitos tenham se contentado em ver os recentes problemas na Inglaterra como uma imitação dos Países Baixos, supondo que ali bastava apenas mudar, como eles fizeram, a forma de seu governo para enriquecer. Pois a constituição da natureza humana está, por si só, sujeita ao desejo de novidade: quando, portanto, são instigados a isso, também pela convivência com aqueles que se enriqueceram com a novidade, é quase impossível para eles não se contentarem com aqueles que os incentivam à mudança; e amarem os primeiros começos, embora se aflijam com a persistência da desordem; como sangues quentes que, sentindo coceira, se dilaceram com as próprias unhas até não suportarem mais a dor.

Imitação dos gregos e romanos

E quanto à rebelião em particular contra a monarquia, uma das causas mais frequentes é a leitura dos livros de política e histórias dos antigos gregos e romanos. Através desses livros, jovens e todos os demais que não possuem o antídoto da razão sólida, ao receberem uma forte e agradável impressão das grandes façanhas de guerra realizadas pelos comandantes de seus exércitos, formam também uma ideia atraente de tudo o que eles fizeram além disso. Imaginam que sua grande prosperidade não provém da emulação de homens em particular, mas da virtude de sua forma popular de governo, sem considerar as frequentes sedições e guerras civis causadas pela imperfeição de sua política. Digo, por causa da leitura desses livros, homens se aventuraram a matar seus reis, porque os escritores gregos e latinos, em seus livros e discursos políticos, tornam isso lícito e louvável para qualquer homem, contanto que, antes de fazê-lo, se declare tirano. Pois eles não dizem que o regicídio, isto é, o assassinato de um rei, mas sim o tiranicídio, isto é, o assassinato de um tirano, é lícito. A partir desses mesmos livros, aqueles que vivem sob uma monarquia concebem a opinião de que os súditos em uma república popular gozam de liberdade, mas que em uma monarquia são todos escravos. Digo, concebem tal opinião aqueles que vivem sob uma monarquia, não aqueles que vivem sob um governo popular, pois estes não encontram tal coisa. Em suma, não consigo imaginar como algo possa ser mais prejudicial a uma monarquia do que permitir que tais livros sejam lidos publicamente sem que sejam aplicadas medidas corretivas discretas por parte dos mestres, adequadas para eliminar seu veneno; veneno esse que, sem dúvida, compararei à mordida de um cão raivoso, doença que os médicos chamam de hidrofobia, ou medo da água. Pois aquele que é mordido assim sofre um tormento contínuo de sede e, ainda assim, abomina a água. e se encontra em tal estado, como se o veneno tentasse transformá-lo em um cão: Assim, quando uma monarquia é mordida até o âmago por aqueles escritores democráticos que continuamente a criticam, ela não precisa de nada mais do que um monarca forte, que, no entanto, por uma certa tiranofobia, ou medo de ser governado com força, quando o têm, abominam.

Assim como houve doutores que sustentavam haver três almas em um homem, também há aqueles que pensam que pode haver mais almas (isto é, mais soberanos) do que uma em uma comunidade; e estabelecem uma supremacia contra a soberania; cânones contra as leis; e uma autoridade fantasmagórica contra o poder civil; manipulando as mentes dos homens com palavras e distinções que, por si só, nada significam, mas revelam (pela sua obscuridade) que ali caminha (como alguns pensam invisivelmente) outro reino, como que um reino de fadas, nas trevas. Ora, visto que é manifesto que o poder civil e o poder da comunidade são a mesma coisa; e que a supremacia, o poder de criar cânones e conceder faculdades implicam uma comunidade; segue-se que onde há um soberano, há outro supremo; onde há um que pode criar leis, há outro que pode criar cânones; É imprescindível que haja duas Comunidades, de um mesmo povo; o que constitui um Reino dividido em si mesmo e insustentável. Pois, apesar da insignificante distinção entre Temporal e Espiritual, ainda são dois Reinos, e cada Súdito está sujeito a dois Senhores. Visto que o Poder Espiritual desafia o Direito de declarar o que é Pecado, desafia, por consequência, o de declarar o que é Lei (sendo Pecado nada mais que a transgressão da Lei); e, ainda, o Poder Civil desafiando o de declarar o que é Lei, cada Súdito deve obedecer a dois Senhores, que ambos querem que seus Mandamentos sejam observados como Lei; o que é impossível. Ou, se houver apenas um Reino, ou o Civil, que é o Poder da Comunidade, deve ser subordinado ao Espiritual; ou o Espiritual deve ser subordinado ao Temporal, e então não há Supremacia senão a Temporal. Quando, portanto, esses dois Poderes se opõem, a Comunidade não pode deixar de correr grande perigo de guerra civil e dissolução. Pois a Autoridade Civil, sendo mais visível e estando sob a luz mais clara da razão natural, inevitavelmente atrai para si, em todos os momentos, uma parcela considerável do povo. E o Espiritual, embora permaneça na escuridão das distinções escolares e das palavras duras, como o medo das trevas e dos fantasmas é maior do que outros medos, não pode deixar de ter um grupo suficiente para perturbar e, às vezes, destruir uma comunidade. E esta é uma doença que pode ser comparada, não sem razão, à epilepsia ou à doença da queda (que os judeus consideravam uma espécie de possessão por espíritos) no corpo natural. Pois, assim como nesta doença, há um espírito ou vento antinatural na cabeça que obstrui as raízes dos nervos e, movendo-os violentamente, retira o movimento que naturalmente deveriam ter devido ao poder da alma no cérebro, causando, assim, movimentos violentos.e movimentos irregulares (que os homens chamam de convulsões) nas partes; de tal forma que aquele que é acometido por isso cai às vezes na água e às vezes no fogo, como um homem privado dos sentidos; assim também no corpo político, quando o poder espiritual move os membros de uma comunidade pelo terror das punições e pela esperança de recompensas (que são os seus nervos), de maneira diferente do que deveriam ser movidos pelo poder civil (que é a alma da comunidade); e por palavras estranhas e duras sufoca o povo, e ou subjuga a comunidade à opressão, ou a lança no fogo de uma guerra civil.

Governo Misto

Às vezes, mesmo em um governo puramente civil, há mais de uma alma: como quando o poder de arrecadar dinheiro (que é a faculdade nutritiva) depende de uma assembleia geral; o poder de conduzir e comandar (que é a faculdade motriz) depende de um homem; e o poder de fazer leis (que é a faculdade racional) depende do consentimento acidental, não apenas desses dois, mas também de um terceiro. Isso põe em risco a comunidade, às vezes por falta de consentimento para boas leis, mas na maioria das vezes por falta do alimento necessário à vida e ao movimento. Pois, embora poucos percebam que tal governo não é governo, mas a divisão da comunidade em três facções, chamando-o de monarquia mista, a verdade é que não se trata de uma comunidade independente, mas de três facções independentes; nem de uma única pessoa representante, mas de três. No Reino de Deus, pode haver três pessoas independentes, sem que isso comprometa a unidade em Deus que reina. Mas onde os homens reinam, sujeitos à diversidade de opiniões, isso não pode ser assim. Portanto, se o Rei representa o povo, e a Assembleia Geral também representa o povo, e outra assembleia representa uma parte do povo, eles não são uma só Pessoa, nem um só Soberano, mas três Pessoas e três Soberanos.

A que doença do corpo humano posso comparar exatamente esta irregularidade comum, eu não sei. Mas vi um homem que tinha outro homem crescendo em seu lado, com cabeça, braços, peito e estômago próprios: se ele tivesse tido outro homem crescendo do outro lado, a comparação poderia então ser exata.

Falta de dinheiro

Até aqui mencionei as doenças de uma comunidade que representam o maior e mais iminente perigo. Existem outras, não tão graves, que, no entanto, não são impróprias de serem observadas. Em primeiro lugar, a dificuldade de arrecadar dinheiro para as necessidades da comunidade, especialmente na iminência de uma guerra. Essa dificuldade surge da crença de que cada súdito possui um direito de propriedade sobre suas terras e bens, exclusivo do direito do soberano ao seu uso. Daí resulta que o Poder Soberano, que prevê as necessidades e os perigos da República (encontrando o fluxo de dinheiro para o Tesouro Público obstruído pela tenacidade do povo), quando deveria se empenhar para enfrentar e prevenir tais perigos em seu início, se retrai o máximo que pode, e quando não pode mais, luta com o povo por meio de estratagemas legais para obter pequenas somas, que, não sendo suficientes, o obrigam, por fim, a abrir caminho violentamente para o abastecimento imediato, ou perecer; e sendo levado frequentemente a esses extremos, acaba por reduzir o povo ao seu devido temperamento; ou então a República perecerá. Tanto que podemos comparar esta doença muito apropriadamente a uma febre, na qual as partes carnudas ficam congeladas ou obstruídas por matéria venenosa; As veias, que por seu curso natural desembocam no coração, não são (como deveriam ser) supridas pelas artérias, o que resulta, inicialmente, em uma contração fria e tremor dos membros; e, posteriormente, em um esforço intenso e vigoroso do coração para forçar a passagem do sangue; e, antes que consiga fazê-lo, contenta-se com pequenos refrescos de coisas que lhe são convenientes por um tempo, até que (se a natureza for forte o suficiente) finalmente rompa a obstrução das partes afetadas e dissipe o veneno em suor; ou (se a natureza for fraca demais) o paciente morra.

Monopólios e abusos dos taberneiros

Novamente, há, às vezes, em uma comunidade, uma doença que se assemelha à pleurisia; e isso ocorre quando o tesouro da comunidade, fluindo fora de seu curso normal, é acumulado em excesso em um ou poucos indivíduos, por meio de monopólios ou concessões de receitas públicas; da mesma forma que o sangue na pleurisia, ao entrar na membrana do peito, causa uma inflamação acompanhada de febre e pontadas dolorosas.

Homens populares

Além disso, a popularidade de um súdito poderoso (a menos que a comunidade tenha plena cautela quanto à sua fidelidade) é uma doença perigosa, pois o povo (que deveria receber suas ordens da autoridade do soberano), por meio da bajulação e da reputação de um homem ambicioso, é desviado de sua obediência às leis para seguir um homem cujas virtudes e intenções desconhece. E isso geralmente é mais perigoso em um governo popular do que em uma monarquia, pois pode-se facilmente levar a crer que o povo é quem manda. Foi assim que Júlio César, incitado pelo povo contra o Senado, tendo conquistado a afeição de seu exército, se tornou senhor tanto do Senado quanto do povo. E esse procedimento de homens populares e ambiciosos é pura rebelião e pode ser comparado aos efeitos da feitiçaria.

Grandeza excessiva de uma cidade, multidão de empresas

Outra fraqueza de uma Comunidade é a grandeza desmedida de uma cidade, quando esta é capaz de fornecer, dentro de seu próprio perímetro, o número e as despesas de um grande exército; assim como o grande número de corporações; que são, por assim dizer, muitas comunidades menores nas entranhas de uma maior, como vermes nas entranhas de um homem natural.

Liberdade de contestar o poder soberano

A isso se pode acrescentar a liberdade de contestar o poder absoluto, por parte de pretendentes à prudência política; que, embora criados em grande parte nas entranhas do povo, são animados por falsas doutrinas e estão perpetuamente a interferir nas leis fundamentais, para o prejuízo da comunidade; como os pequenos vermes que os médicos chamam de áscaris.

Podemos ainda acrescentar o apetite insaciável, ou bulimia, de expandir o domínio; com as feridas incuráveis ​​muitas vezes recebidas do inimigo; e as dores de conquistas desunidas, que muitas vezes são um fardo, e com menos perigo perdido do que mantido; assim como a letargia do conforto e o consumo da devassidão e das despesas vãs.

Dissolução da Comunidade

Por fim, quando em uma guerra (exterior ou interna) os inimigos obtêm uma vitória final, de modo que (as forças da Comunidade não mais mantenham o campo de batalha) não haja mais proteção aos súditos em sua lealdade, então a Comunidade é DISSOLVIDA, e cada homem fica livre para se proteger pelos meios que seu próprio discernimento lhe sugerir. Pois o Soberano é a Alma pública, que dá Vida e Movimento à Comunidade; expirando esta, os Membros não são mais governados por ela, assim como o cadáver de um homem não é governado por sua Alma falecida (embora imortal). Pois, embora o Direito de um Monarca Soberano não possa ser extinto pelo ato de outro, a Obrigação dos membros pode. Pois aquele que precisa de proteção pode buscá-la em qualquer lugar; e quando a tem, é obrigado (sem a falsa alegação de ter se submetido por medo) a proteger sua proteção enquanto puder. Mas quando o Poder de uma Assembleia é suprimido, o Direito da mesma perece completamente; porque a própria Assembleia se extingue; e, consequentemente, não há possibilidade de a Soberania retornar.

CAPÍTULO XXX.
DO GABINETE DO REPRESENTANTE SOBERANO

A Busca do Bem do Povo

O ofício do Soberano (seja ele um Monarca ou uma Assembleia) consiste, em última análise, naquilo para o qual lhe foi confiado o Poder Soberano, a saber, a zelar pela segurança do povo; à qual ele é obrigado pela Lei da Natureza, e a prestar contas disso a Deus, o Autor dessa Lei, e a ninguém mais. Mas por segurança, aqui, não se entende mera preservação, mas também todas as outras satisfaçãos da vida que cada homem, por meio de trabalho lícito, sem perigo ou prejuízo para o bem comum, poderá adquirir para si.

Por Instrução e Leis

E isto deve ser feito, não por meio de cuidados aplicados a indivíduos, além da sua proteção contra danos, quando estes se queixarem; mas por uma Providência geral, contida na Instrução pública, tanto de Doutrina quanto de Exemplo; e na elaboração e execução de boas Leis, às quais as pessoas individualmente possam aplicar seus próprios casos.

Contra o dever de um soberano de renunciar a qualquer direito essencial de soberania ou de não instruir o povo sobre os fundamentos desses direitos.

E porque, se os Direitos Essenciais da Soberania (especificados anteriormente no capítulo dezoito) forem retirados, a Comunidade se dissolve, e cada homem retorna à condição e à calamidade de uma guerra com todos os outros (que é o maior mal que pode acontecer nesta vida); é dever do Soberano manter esses Direitos íntegros; e, consequentemente, contraria seu dever, em primeiro lugar, transferir a outro ou renunciar a qualquer um deles. Pois aquele que abandona os Meios, abandona os Fins; e quem abandona os Meios, sendo o Soberano, reconhece-se sujeito às Leis Civis; e renuncia ao Poder de Suprema Corte; ou de fazer Guerra ou Paz por sua própria Autoridade; ou de julgar as necessidades da Comunidade; ou de arrecadar dinheiro e soldados, quando e quanto sua própria consciência julgar necessário; ou de nomear Oficiais e Ministros tanto da Guerra quanto da Paz; ou de nomear professores e examinar quais doutrinas são conformes ou contrárias à defesa, à paz e ao bem do povo. Em segundo lugar, é contrário ao seu dever deixar o povo ignorante ou mal informado sobre os fundamentos e as razões desses seus direitos essenciais; porque assim os homens são facilmente seduzidos e levados a resistir-lhe quando a comunidade exigir o seu uso e exercício.

E os fundamentos desses Direitos precisam ser ensinados com diligência e verdade, pois não podem ser sustentados por nenhuma Lei Civil ou ameaça de punição legal. Pois uma Lei Civil que proíba a Rebelião (e tal é toda resistência aos Direitos essenciais da Soberania) não é (como Lei Civil) uma obrigação, mas sim uma virtude da Lei da Natureza, que proíbe a violação da Fé; obrigação natural que os homens desconhecem, pois não podem conhecer o Direito de qualquer Lei que o Soberano promulgue. E quanto à punição, consideram-na apenas um ato de Hostilidade; que, quando julgam ter força suficiente, tentarão evitar por meio de atos de Hostilidade.

Objeção daqueles que dizem que não existem princípios de razão para a soberania absoluta.

Como já ouvi alguns dizerem, a Justiça não passa de uma palavra sem substância; e tudo o que um homem pode adquirir pela força ou pela astúcia (não apenas em condições de guerra, mas também em uma comunidade) é seu, o que já demonstrei ser falso. Da mesma forma, há quem sustente que não existem fundamentos nem princípios da razão para sustentar os direitos essenciais que tornam a soberania absoluta. Pois, se existissem, já teriam sido descobertos em algum lugar; enquanto vemos que até hoje não houve nenhuma comunidade onde esses direitos tenham sido reconhecidos ou contestados. Nesse argumento, são tão falaciosos quanto se o povo selvagem da América negasse a existência de fundamentos ou princípios da razão para construir uma casa que durasse tanto quanto os materiais, simplesmente porque nunca viram uma tão bem construída. O tempo e a indústria produzem, a cada dia, novos conhecimentos. E assim como a arte de construir bem deriva de princípios da razão, observados por homens diligentes que estudaram por muito tempo a natureza dos materiais e os diversos efeitos da forma e da proporção, muito depois de a humanidade ter começado (embora de forma precária) a construir, da mesma forma, muito tempo depois de os homens terem começado a constituir comunidades imperfeitas e propensas a recair na desordem, pode haver princípios da razão que possam ser descobertos por meio de meditação diligente. Fazer uso deles, ou ser negligenciado por eles, ou não, diz respeito muito pouco ao meu interesse particular, neste momento. Mas supondo que estes meus princípios não sejam tais princípios da razão, ainda assim estou certo de que são princípios com autoridade das Escrituras, como demonstrarei quando falar do Reino de Deus (administrado por Moisés) sobre os judeus, seu povo escolhido pela Aliança.

Objeção da Incapacidade do Vulgar

Mas eles afirmam ainda que, embora os princípios estejam corretos, o povo comum não possui capacidade suficiente para compreendê-los. Eu ficaria feliz se os ricos e poderosos súditos de um reino, ou aqueles considerados os mais eruditos, não fossem menos incapazes do que eles. Mas todos sabem que os obstáculos a esse tipo de doutrina não decorrem tanto da dificuldade da questão em si, mas do interesse daqueles que deveriam aprender. Os poderosos dificilmente assimilam algo que imponha um poder capaz de refrear suas afeições; e os eruditos, qualquer coisa que revele seus erros e, com isso, diminua sua autoridade. Já a mente do povo comum, a menos que esteja contaminada pela dependência dos poderosos ou marcada pelas opiniões de seus doutores, é como papel em branco, apta a receber tudo o que a autoridade pública lhe imprimir. Será que nações inteiras serão levadas a aceitar os grandes mistérios da religião cristã, que estão acima da razão? E milhões de homens serão levados a crer que o mesmo Corpo pode estar em inúmeros lugares, ao mesmo tempo, o que é contrário à Razão; e não serão os homens capazes, por meio de seus ensinamentos e pregações, protegidos pela Lei, de fazer com que aquilo que é tão consonante com a Razão seja aceito, de modo que qualquer homem imparcial não precise mais aprendê-lo do que ouvi-lo? Concluo, portanto, que na instrução do povo sobre os Direitos Essenciais (que são as Leis Naturais e Fundamentais) da Soberania, não há dificuldade (enquanto um Soberano detém todo o seu Poder) que não provenha de sua própria culpa ou da culpa daqueles em quem confia a administração da Comunidade; e, consequentemente, é seu Dever instruí-los dessa forma; e não apenas seu Dever, mas também seu Benefício e Segurança contra o perigo que possa advir a si mesmo, em sua pessoa natural, da Rebelião.

As matérias devem ser ensinadas, não influenciadas por mudanças de governo.

E (entrando em detalhes) o povo deve ser ensinado, em primeiro lugar, que não deve amar nenhuma forma de governo que veja em suas nações vizinhas mais do que a sua própria, nem (qualquer que seja a prosperidade presente que observe em nações governadas de maneira diferente da sua) desejar mudanças. Pois a prosperidade de um povo governado por uma assembleia aristocrática ou democrática não provém da aristocracia, nem da democracia, mas da obediência e da concórdia dos súditos; e o povo não prospera em uma monarquia porque um homem tem o direito de governá-lo, mas porque lhe obedece. Retire-se, em qualquer tipo de Estado, a obediência (e, consequentemente, a concórdia do povo) e ele não apenas deixará de prosperar, mas em pouco tempo se dissolverá. E aqueles que, por meio da desobediência, com a intenção de apenas reformar a comunidade, descobrirão que, com isso, a destroem; Assim como as filhas insensatas de Peleu (na fábula), que, desejando rejuvenescer seu pai decrépito, por conselho de Medeia, o cortaram em pedaços e o ferveram com ervas estranhas, mas não fizeram dele um novo homem. Esse desejo de mudança é como a transgressão do primeiro dos mandamentos de Deus: pois ali Deus diz: "Non Habebis Deos Alienos" (Não terás deuses além de Deus); e em outro lugar, a respeito dos reis, que eles são deuses.

Nem aderir (contra o soberano) a homens populares

Em segundo lugar, devem ser ensinados que não devem ser levados a admirar a virtude de nenhum de seus concidadãos, por mais elevada que seja sua posição, nem por mais que brilhe na comunidade; nem de qualquer assembleia (exceto a Assembleia Soberana), a ponto de lhes deferir qualquer obediência ou honra apropriada somente ao Soberano, a quem (em suas posições particulares) representam; nem a receber qualquer influência deles, a não ser aquela que lhes for transmitida pela Autoridade Soberana. Pois não se pode imaginar que um Soberano ame seu povo como deveria, se não tiver ciúmes dele, mas permitir que, pela bajulação de homens populares, seja seduzido e afaste sua lealdade, como muitas vezes aconteceu, não apenas secretamente, mas abertamente, a ponto de proclamarem o casamento com eles à luz da Igreja por meio de pregadores; e publicando-o em vias públicas: o que pode ser comparado à violação do segundo dos Dez Mandamentos.

Nem contestar o poder soberano.

Em terceiro lugar, em consequência disso, eles devem ser informados de quão grande é a falta de respeito por falar mal do Representante Soberano (seja um homem só ou uma assembleia de homens), ou por questionar e disputar seu poder, ou de qualquer forma usar seu nome de maneira irreverente, levando-o ao desprezo de seu povo e à sua obediência (da qual consiste a segurança da comunidade) enfraquecida. Doutrina essa que o terceiro Mandamento, por semelhança, aponta.

E para que sejam reservados dias para aprenderem o seu dever.

Em quarto lugar, as pessoas não podem aprender isso, nem, quando ensinado, lembrar-se disso, nem mesmo depois de uma geração, saber em quem reside o Poder Soberano, sem que separem de seu trabalho ordinário certos momentos para assistir àqueles que lhes forem designados para instruí-los; é necessário que tais momentos sejam determinados, nos quais possam se reunir e (após orações e louvores a Deus, o Soberano dos Soberanos) ouvir seus Deveres serem revelados, e as Leis Positivas, aquelas que lhes dizem respeito a todos, serem lidas e explicadas, e serem lembradas da Autoridade que as estabelece. Para esse fim, os judeus tinham o sétimo dia como um sábado, no qual a Lei era lida e explicada; e na solenidade do qual eram lembrados de que seu Rei era Deus; que, tendo criado o mundo em seis dias, Ele descansou no sétimo dia; E, ao se apoiarem nisso após o trabalho, perceberam que Deus era o seu Rei, que os redimiu do trabalho servil e doloroso no Egito e lhes deu tempo, depois de se alegrarem em Deus, para também se alegrarem em si mesmos, por meio de recreação lícita. Assim, a primeira Tábua dos Mandamentos se dedica inteiramente a descrever a totalidade do poder absoluto de Deus; não apenas como Deus, mas como Rei por pacto (em particular) com os judeus; e pode, portanto, esclarecer àqueles que receberam o poder soberano pelo consentimento dos homens qual doutrina devem ensinar aos seus súditos.

E para honrar seus pais

E como a primeira instrução das crianças depende dos cuidados de seus pais, é necessário que elas lhes sejam obedientes enquanto estiverem sob sua tutela; e não apenas isso, mas também que depois (como exige a gratidão), reconheçam o benefício de sua educação por meio de demonstrações externas de honra. Para tanto, devem ser ensinadas que, originalmente, o pai de cada homem era também seu Senhor Soberano, com poder sobre ele de vida e morte; e que os pais de família, ao instituírem uma comunidade, renunciaram a esse poder absoluto, jamais se pretendeu que perdessem a honra que lhes era devida por sua educação. Pois renunciar a tal direito não era necessário para a instituição do poder soberano; nem haveria razão para que alguém desejasse ter filhos ou se dedicasse a criá-los e instruí-los, se depois não lhes trouxesse outro benefício senão o de outros homens. E isso está de acordo com o quinto mandamento.

E para evitar causar danos:

Novamente, todo Soberano deve ensinar a Justiça, que (consistindo em não tomar de ninguém o que lhe pertence) equivale a dizer que os homens devem ser ensinados a não privar o seu próximo, por meio de violência ou fraude, de qualquer coisa que, pela Autoridade Soberana, lhes pertença. Das coisas consideradas de direito, as mais caras a um homem são a sua própria vida e membros; e, em segundo lugar (na maioria dos homens), aquelas que dizem respeito ao afeto conjugal; e, depois delas, as riquezas e os meios de subsistência. Portanto, o povo deve ser ensinado a abster-se da violência contra a pessoa alheia, por meio de vinganças privadas; da violação da honra conjugal; e da pilhagem forçada e da apropriação fraudulenta dos bens uns dos outros. Para isso também é necessário que lhes sejam mostradas as consequências nefastas do julgamento falso, causado pela corrupção tanto de juízes quanto de testemunhas, por meio da qual a distinção da legitimidade é eliminada e a justiça perde seu efeito: tudo isso está implícito no sexto, sétimo, oitavo e nono mandamentos.

E fazer tudo isso sinceramente, de coração.

Por fim, devem ser ensinados que não apenas os fatos injustos, mas também os desígnios e intenções de cometê-los (mesmo que impedidos acidentalmente) constituem injustiça; a qual consiste na presunção da vontade, bem como na irregularidade do ato. E esta é a intenção do décimo mandamento e o resumo da Segunda Tábua; que se reduz a este único mandamento de caridade mútua: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”; assim como o resumo da Primeira Tábua se reduz ao “amor a Deus”, a quem haviam recebido recentemente como seu Rei.

O uso das universidades

Quanto aos meios e canais pelos quais o povo pode receber esta instrução, devemos investigar por quais meios opiniões contrárias à paz da humanidade, baseadas em princípios fracos e falsos, foram tão profundamente enraizadas. Refiro-me àquelas que especifiquei no capítulo anterior: que os homens devem julgar o que é lícito e ilícito não pela própria lei, mas por seus próprios julgamentos privados; que os súditos pecam ao obedecer aos mandamentos da comunidade, a menos que eles próprios os tenham julgado lícitos; que sua propriedade sobre suas riquezas é tal que exclui o domínio que a comunidade exerce sobre elas; que é lícito aos súditos matar aqueles que chamam de tiranos; que o poder soberano pode ser dividido, e coisas semelhantes, que são incutidas no povo por esses meios. Aqueles que, por necessidade ou cobiça, se dedicam aos seus ofícios e trabalhos; e aqueles, por outro lado, que, por excesso ou preguiça, se entregam aos prazeres sensuais (estes dois tipos de homens constituem a maior parte da humanidade), desviados da profunda meditação que o aprendizado da verdade, não só em matéria de justiça natural, mas também de todas as outras ciências, necessariamente exige, recebem as noções de seu dever principalmente de clérigos no púlpito e, em parte, de seus vizinhos ou conhecidos íntimos que, tendo a faculdade de discursar com facilidade e plausibilidade, parecem mais sábios e eruditos em questões de direito e consciência do que eles próprios. E os clérigos e outros que ostentam conhecimento derivam sua sabedoria das universidades e das faculdades de direito, ou dos livros publicados por homens eminentes nessas instituições. É, portanto, evidente que a instrução do povo depende inteiramente do ensino correto da juventude nas universidades. Mas não estariam (alguns diriam) as universidades da Inglaterra já suficientemente instruídas para isso? Ou será que o senhor pretende ensinar as universidades? Questões difíceis. Contudo, à primeira, não tenho dúvidas em responder: até o final do reinado de Henrique VIII, o poder do Papa sempre se sobrepôs ao poder da República, principalmente por meio das universidades; e as doutrinas defendidas por tantos pregadores contra o poder soberano do rei, e por tantos juristas e outros que ali se formaram, são argumento suficiente para demonstrar que, embora as universidades não tenham sido as autoras dessas falsas doutrinas, não souberam incutir a verdade. Pois, em meio a tamanha contradição de opiniões, é certo que não receberam instrução suficiente; e não é de admirar.se ainda conservam o gosto por aquele licor sutil com o qual foram inicialmente temperados contra a Autoridade Civil. Mas quanto à última questão, não me convém, nem é necessário, dizer sim ou não: pois qualquer um que veja o que estou fazendo pode facilmente perceber o que penso.

A segurança do povo exige, ainda, daquele ou daqueles que detêm o poder soberano, que a justiça seja administrada igualmente a todas as classes sociais; isto é, que tanto os ricos e poderosos quanto os pobres e obscuros sejam reparados pelos danos que lhes são causados; de modo que os grandes não tenham maior esperança de impunidade quando praticam violência, desonra ou qualquer dano aos mais humildes, do que quando um destes pratica o mesmo contra um deles: pois nisto consiste a equidade; à qual, sendo um preceito da lei natural, um soberano está tão sujeito quanto qualquer um dos mais humildes de seu povo. Todas as violações da lei são ofensas contra a comunidade; mas há algumas que também são contra indivíduos. Aquelas que dizem respeito somente à comunidade podem ser perdoadas sem violar a equidade; pois cada homem pode perdoar o que lhe é feito, segundo seu próprio critério. Mas uma ofensa contra um indivíduo privado não pode ser perdoada em equidade sem o consentimento daquele que foi lesado; ou uma reparação razoável.

A desigualdade entre os súditos procede dos atos do poder soberano; e, portanto, não tem mais lugar na presença do soberano, isto é, em um tribunal de justiça, do que a desigualdade entre reis e seus súditos na presença do Rei dos Reis. A honra das grandes personalidades deve ser valorizada por sua benevolência e pela ajuda que prestam a homens de posição inferior, ou não a prestam de forma alguma. E as violências, opressões e injúrias que cometem não são atenuadas, mas agravadas pela grandeza de suas pessoas, porque são elas que menos precisam cometê-las. As consequências dessa parcialidade para com os grandes se manifestam da seguinte maneira: a impunidade gera insolência; a insolência, ódio; e o ódio, uma tentativa de derrubar toda grandeza opressora e insolente, mesmo que isso signifique a ruína da comunidade.

Impostos iguais

À justiça igualitária pertence também a imposição igualitária de impostos; cuja igualdade não depende da igualdade de riquezas, mas da igualdade da dívida que cada homem deve à comunidade para sua defesa. Não basta que um homem trabalhe para o sustento de sua vida; é preciso também lutar (se necessário) para garantir o fruto do seu trabalho. Devem ou fazer como os judeus fizeram após seu retorno do cativeiro, ao reconstruir o Templo, construindo com uma mão e segurando a espada com a outra; ou então contratar outros para lutar por eles. Pois os impostos que são colocados ao povo pelo Poder Soberano nada mais são do que o salário devido àqueles que empunham a espada pública para defender os cidadãos no exercício de seus diversos ofícios e profissões. Visto que o benefício que todos recebem com isso é o gozo da vida, que é igualmente preciosa para pobres e ricos; A dívida que um homem pobre tem para com aqueles que defendem sua vida é a mesma que um homem rico tem para com a defesa da sua; ressalvando-se que os ricos, que contam com o serviço dos pobres, podem ser devedores não apenas por si mesmos, mas por muitos outros. Considerando isso, a igualdade da imposição consiste mais na igualdade daquilo que é consumido do que na riqueza das pessoas que o consomem. Pois por que razão haveria aquele que trabalha muito e, poupando os frutos do seu trabalho, consome pouco, deveria pagar mais do que aquele que vive ociosamente, ganha pouco e gasta tudo o que ganha; visto que um não tem mais proteção do Estado do que o outro? Mas quando as imposições incidem sobre as coisas que os homens consomem, cada um paga igualmente pelo que usa; e o Estado não é lesado pelo desperdício luxuoso de indivíduos privados.

Organização beneficente pública

E considerando que muitos homens, por circunstâncias inevitáveis, tornam-se incapazes de se sustentar pelo seu trabalho, não devem ser deixados à caridade de particulares, mas sim amparados (na medida em que as necessidades da natureza o exigirem) pelas leis da comunidade. Pois, assim como é falta de caridade da parte de qualquer homem negligenciar os incapacitados, também o é da parte do soberano de uma comunidade expô-los ao risco de uma caridade tão incerta.

Prevenção da Ociosidade

Mas para aqueles que têm corpos fortes, o caso é outro: devem ser forçados a trabalhar; e para evitar a desculpa de não encontrar emprego, devem existir leis que incentivem todo tipo de arte, como navegação, agricultura, pesca e toda forma de manufatura que exija trabalho. A multidão de pessoas pobres, porém fortes, continua a aumentar, e deve ser transplantada para países pouco habitados; onde, no entanto, não devem exterminar aqueles que encontrarem, mas sim obrigá-los a viver mais próximos uns dos outros, e não a percorrer grandes extensões de terra para apoderar-se do que encontrarem, mas sim a cultivar cada pequeno pedaço de terra com arte e trabalho, para lhes dar o sustento no tempo certo. E quando o mundo inteiro estiver superpovoado, o último remédio de todos será a guerra, que proverá para cada homem, pela vitória ou pela morte.

Boas Leis O quê

Ao cuidado do Soberano cabe a elaboração de boas leis. Mas o que é uma boa lei? Por boa lei, não me refiro a uma lei justa, pois nenhuma lei pode ser injusta. A lei é feita pelo Poder Soberano, e tudo o que é feito por tal Poder é garantido e reconhecido por todos os cidadãos; e aquilo que todos desejam, ninguém pode dizer que é injusto. O mesmo ocorre nas leis de uma comunidade política com as leis dos jogos de azar: qualquer que seja o acordo entre os jogadores, não é injustiça para nenhum deles. Uma boa lei é aquela que é necessária para o bem do povo e, acima de tudo, transparente.

Tais como forem necessários

O propósito das leis (que nada mais são do que regras autorizadas) não é impedir o povo de praticar todas as ações voluntárias, mas sim orientá-lo e mantê-lo em movimento, de modo que não se prejudique por seus próprios desejos impetuosos, temeridade ou indiscrição, assim como as cercas são erguidas não para deter os viajantes, mas para mantê-los em seu caminho. Portanto, uma lei desnecessária, que não cumpre o verdadeiro propósito de uma lei, não é boa. Uma lei pode ser considerada boa quando beneficia o soberano, mesmo que não seja necessária para o povo; mas não é assim. O bem do soberano e do povo são indissociáveis. Um soberano fraco tem súditos fracos, e um povo fraco tem um soberano que não tem poder para governá-lo segundo sua vontade. Leis desnecessárias não são boas leis, mas sim armadilhas para obter dinheiro; as quais, quando o direito do poder soberano é reconhecido, são supérfluas. E onde isso não for reconhecido, será insuficiente para defender o povo.

Tais como são perspicazes

A clareza da lei não reside tanto nas palavras da própria lei, mas sim na declaração das causas e motivos pelos quais ela foi criada. É isso que nos mostra a intenção do legislador, e, conhecendo-se a intenção do legislador, a lei é mais facilmente compreendida com poucas palavras do que com muitas. Pois todas as palavras estão sujeitas à ambiguidade; e, portanto, a multiplicação de palavras no corpo da lei é a multiplicação da ambiguidade. Além disso, parece implicar (por excesso de diligência) que quem consegue burlar as palavras está fora do alcance da lei. E isso é a causa de muitos processos desnecessários. Pois, quando considero quão curtas eram as leis dos tempos antigos e como elas foram se tornando gradualmente mais longas, penso que vejo uma contenda entre os defensores e os defensores da lei; os primeiros buscando restringir os últimos, e os últimos buscando burlar suas restrições; e que os defensores obtiveram a vitória. Cabe, portanto, ao ofício de um legislador (como é o caso em todas as comunidades o do representante supremo, seja ele um homem ou uma assembleia) tornar perspicaz a razão pela qual a lei foi feita; e o próprio corpo da lei, da forma mais concisa, porém em termos tão adequados e significativos quanto possível.

Punições

Cabe também ao Soberano aplicar corretamente as punições e recompensas. E, visto que o objetivo da punição não é a vingança e a descarga da ira, mas a correção, seja do infrator, seja de outros por meio de seu exemplo, as punições mais severas devem ser infligidas aos crimes que representam maior perigo para o público; tais como aqueles que procedem da malícia contra o governo estabelecido; aqueles que brotam do desprezo pela justiça; aqueles que provocam indignação na multidão; e aqueles que, impunes, parecem autorizados, como quando cometidos por filhos, servos ou favoritos de homens em posição de autoridade. Pois a indignação leva os homens não apenas contra os autores e agentes da injustiça, mas contra todo o poder que possa protegê-los; como no caso de Tarquínio, quando, pelo ato insolente de um de seus filhos, foi expulso de Roma e a própria monarquia foi dissolvida. Mas os crimes de fraqueza; Tais como aquelas que procedem de grande provocação, de grande medo, de grande necessidade ou de ignorância, seja o fato um grande crime ou não, muitas vezes há lugar para a clemência, sem prejuízo para o bem comum; e a clemência, quando há espaço para ela, é exigida pela Lei da Natureza. A punição dos líderes e mestres em uma comoção, e não do povo pobre e seduzido, quando este é punido, pode beneficiar o bem comum com seu exemplo. Ser severo com o povo é punir a ignorância, que em grande parte pode ser imputada ao soberano, cuja culpa foi não tê-los instruído melhor.

Recompensas

Da mesma forma, pertence ao ofício e ao dever do Soberano aplicar sempre as suas recompensas de modo que delas advenha benefício para o povo: é nisso que consiste o seu uso e fim; e isso se concretiza quando aqueles que bem serviram o povo são, com o mínimo de dispêndio possível do tesouro comum, tão bem recompensados ​​que outros sejam encorajados a servir com a maior fidelidade possível e a estudar as artes que lhes permitam fazê-lo melhor. Comprar com dinheiro ou privilégios de um súdito popular ambicioso o silêncio e a abstenção de causar más impressões na mente do povo não tem nada a ver com recompensa (que não é destinada ao desserviço, mas ao serviço prestado); nem é sinal de gratidão, mas de medo; e não tende ao benefício, mas ao prejuízo do público. É uma contenda com a ambição, como a de Hércules com a Hidra, o monstro que, tendo muitas cabeças, para cada uma vencida, surgiam três. Da mesma forma, quando a obstinação de um homem popular é vencida pela recompensa, surgem muitos outros (pelo exemplo) que praticam o mesmo mal, na esperança de benefício semelhante; e como toda espécie de manipulação, a malícia também aumenta por ser vendável. E embora às vezes uma guerra civil possa ser adiada por meios como esse, o perigo torna-se ainda maior e a ruína pública mais certa. Portanto, é contrário ao dever do soberano, a quem a segurança pública é confiada, recompensar aqueles que aspiram à grandeza perturbando a paz de seu país, e não se opor aos começos de tais homens, com um pouco de perigo, do que, mais tarde, com um perigo maior.

Conselheiros

Outra função do Soberano é escolher bons Conselheiros; refiro-me àqueles cujos conselhos ele deve acatar no governo da República. Pois esta palavra, Conselho, Consílio, corruptida de Consídio, tem um significado amplo e abrange todas as assembleias de homens que se reúnem, não apenas para deliberar sobre o que deve ser feito no futuro, mas também para julgar os fatos passados ​​e a lei presente. Aqui, considero-a apenas no primeiro sentido: e, neste sentido, não há escolha de Conselheiro, nem em uma Democracia, nem em uma Aristocracia, porque as pessoas que aconselham são membros da pessoa aconselhada. A escolha de Conselheiros, portanto, é uma prerrogativa da Monarquia; na qual o Soberano que se esforça para não escolher aqueles que, em cada aspecto, são os mais capazes, não desempenha seu ofício como deveria. Os conselheiros mais capazes são aqueles que menos esperam obter benefícios dando maus conselhos e que possuem maior conhecimento daquilo que contribui para a paz e a defesa da comunidade. É difícil saber quem espera se beneficiar dos problemas públicos; mas os sinais que levam a uma justa suspeita são o apaziguamento do povo em suas queixas irracionais ou irremediáveis ​​por homens cujos bens não são suficientes para cobrir suas despesas habituais, e isso pode ser facilmente observado por qualquer um que deva saber. Mas saber quem possui maior conhecimento dos assuntos públicos é ainda mais difícil; e aqueles que os conhecem, precisam muito menos deles. Pois saber quem conhece as regras de quase qualquer arte é um grande grau de conhecimento dessa mesma arte; porque ninguém pode ter certeza da veracidade das regras de outrem, a não ser aquele que primeiro aprende a compreendê-las. Mas os melhores sinais de conhecimento de qualquer arte são a prática constante nela e os bons resultados que ela proporciona. Bons conselhos não vêm por sorte, nem por herança; e, portanto, não há mais razão para esperar bons conselhos dos ricos ou nobres em assuntos de Estado do que para delinear as dimensões de uma fortaleza; a menos que pensemos que não é necessário método no estudo da Política (como não é no estudo da Geometria), bastando apenas observar; o que não é verdade. Pois a Política é o estudo mais árduo dos dois. Enquanto que nestas partes da Europa, considera-se um direito de certas pessoas ter lugar no mais alto Conselho de Estado por herança; isso deriva das conquistas dos antigos germânicos; em que muitos senhores absolutos, unindo-se para conquistar outras nações, não entravam na confederação sem tais privilégios que pudessem marcar, no futuro, a diferença entre a sua posteridade e a posteridade dos seus súditos; privilégios esses que, sendo incompatíveis com o poder soberano,Pelo favor do Soberano, eles podem parecer mantê-los; mas, lutando por eles como seu Direito, eles necessariamente terão que, aos poucos, deixá-los ir, e por fim não terão mais honra do que aquela que naturalmente se adequa às suas capacidades.

E por mais capazes que sejam os conselheiros em qualquer assunto, o benefício de seu conselho é maior quando eles dão a cada um seu conselho e suas razões separadamente, do que quando o fazem em uma assembleia, por meio de discursos; e quando o fazem previamente, do que quando falam de repente; ambos porque têm mais tempo para avaliar as consequências da ação, e estão menos sujeitos a serem levados à contradição por inveja, emulação ou outras paixões decorrentes da divergência de opiniões.

O melhor conselho, naquilo que não diz respeito a outras nações, mas apenas ao bem-estar e ao benefício que os súditos podem desfrutar por meio de leis que visam somente o âmbito interno, deve ser obtido a partir das informações e queixas gerais do povo de cada província, que melhor conhece as suas próprias necessidades e, portanto, quando não reivindica nada em detrimento dos direitos essenciais de soberania, deve ser levado em consideração com diligência. Pois sem esses direitos essenciais (como já disse muitas vezes), a Comunidade não pode subsistir.

Comandantes

Um comandante-em-chefe de um exército, se não for popular, não será amado nem temido como deveria por seu exército; e, consequentemente, não poderá desempenhar essa função com sucesso. Ele deve, portanto, ser diligente, valente, afável, liberal e afortunado, para que possa conquistar a opinião de sua competência e o amor de seus soldados. Isso é popularidade, e gera nos soldados tanto o desejo quanto a coragem de se recomendarem a seu favor; e protege a severidade do general ao punir (quando necessário) os soldados amotinados ou negligentes. Mas esse amor dos soldados (se não houver cautela quanto à fidelidade do comandante) é algo perigoso para o poder soberano; especialmente quando está nas mãos de uma assembleia impopular. É, portanto, para a segurança do povo que seus soldados sejam bons comandantes e súditos fiéis, aos quais o soberano confia seus exércitos.

Mas quando o próprio Soberano é Popular, isto é, reverenciado e amado por seu Povo, não há perigo algum da Popularidade de um Súdito. Pois os soldados nunca são tão geralmente injustos a ponto de se aliarem ao seu Capitão, mesmo que o amem, contra o seu Soberano, quando amam não apenas a sua Pessoa, mas também a sua Causa. E, portanto, aqueles que, pela violência, suprimiram o Poder do seu Soberano legítimo, antes que pudessem se estabelecer em seu lugar, sempre tiveram o trabalho de forjar seus Títulos, para poupar o Povo da vergonha de recebê-los. Ter um Direito reconhecido ao Poder Soberano é uma qualidade tão popular que aquele que o possui não precisa mais, por sua própria parte, conquistar o coração de seus Súditos, senão que o vejam capaz de governar absolutamente a sua própria Família; nem, por parte de seus inimigos, senão a dissolução de seus Exércitos. Pois a maior e mais ativa parte da Humanidade nunca esteve satisfeita com o presente.

Quanto às atribuições de um soberano para com outro, compreendidas na lei comumente chamada de Lei das Nações, não preciso dizer nada aqui, pois a Lei das Nações e a Lei da Natureza são a mesma coisa. E todo soberano tem o mesmo direito, ao garantir a segurança de seu povo, que qualquer indivíduo pode ter ao garantir a segurança de seu próprio corpo. E a mesma lei que dita aos homens que não possuem governo civil o que devem fazer e o que devem evitar em relação uns aos outros, dita o mesmo às comunidades, isto é, às consciências dos príncipes soberanos e das assembleias soberanas; não havendo tribunal de justiça natural senão na consciência, onde não reina o homem, mas Deus; cujas leis (aquelas que obrigam toda a humanidade), em relação a Deus, como autor da natureza, são naturais. E em relação ao mesmo Deus, como Rei dos Reis, estão as Leis. Mas do Reino de Deus, como Rei dos Reis, e como Rei também de um Povo peculiar, falarei no restante deste discurso.

CAPÍTULO XXXI.
DO REINO DE DEUS POR NATUREZA

O escopo dos capítulos seguintes

Que a condição da mera Natureza, isto é, da Liberdade absoluta, tal como a que lhes pertence, de não serem nem Soberanos nem Súditos, é Anarquia e a condição da Guerra; que os Preceitos pelos quais os homens são guiados a evitar essa condição são as Leis da Natureza; que uma Comunidade sem Poder Soberano não passa de uma palavra sem substância e não pode subsistir; que os Súditos devem aos Soberanos simples Obediência em todas as coisas, desde que essa obediência não seja repugnante às Leis de Deus, eu já provei suficientemente no que escrevi. Só falta, para o pleno conhecimento do dever cívico, saber quais são essas Leis de Deus. Pois, sem isso, o homem não sabe, quando lhe é ordenado algo pelo Poder Civil, se é contrário à Lei de Deus ou não; e assim, ou por excessiva obediência civil, ofende a Divina Majestade, ou por medo de ofender a Deus, transgride os mandamentos da sociedade. Para evitar esses dois perigos, é necessário conhecer as Leis Divinas. E, visto que o conhecimento de toda a Lei depende do conhecimento do Poder Soberano, falarei, a seguir, sobre o REINO DE DEUS.

Quem são os súditos no Reino de Deus?

“Deus é Rei, regozije-se a terra”, diz o Salmista (Salmo 96:1). E ainda: “Deus é Rei, ainda que as nações se irem; ele é aquele que se assenta sobre os querubins, ainda que a terra se abale” (Salmo 98:1). Quer queiram ou não, os homens devem sempre estar sujeitos ao Poder Divino. Ao negarem a Existência ou a Providência de Deus, os homens podem se livrar da sua comodidade, mas não do seu jugo. Mas chamar esse Poder de Deus, que se estende não só ao homem, mas também aos animais, às plantas e aos corpos inanimados, pelo nome de Reino, é apenas um uso metafórico da palavra. Pois somente Ele é propriamente chamado de Reino, que governa os seus súditos, pela Sua Palavra, pela promessa de recompensas àqueles que a obedecem e pela ameaça de castigo àqueles que a desobedecem. Portanto, os súditos no Reino de Deus não são corpos inanimados, nem criaturas irracionais, porque não reconhecem nenhum preceito como sendo Dele; nem ateus, nem aqueles que não creem que Deus se importa com as ações da humanidade, porque não reconhecem nenhuma palavra como sendo Sua, nem têm esperança em Suas recompensas, nem temem Suas ameaças. Aqueles que creem que existe um Deus que governa o mundo, que deu preceitos e propôs recompensas e punições à humanidade, são súditos de Deus; todos os demais devem ser considerados inimigos.

A Palavra de Deus em três partes: Razão, Revelação e Profecia.

Governar por meio de palavras exige que tais palavras sejam manifestamente conhecidas; caso contrário, não seriam leis. Pois à natureza das leis pertence uma promulgação suficiente e clara, capaz de eliminar a desculpa da ignorância; a qual, nas leis dos homens, é de apenas um tipo: a proclamação ou promulgação pela voz humana. Mas Deus declara suas leis de três maneiras: pelos ditames da razão natural, pela revelação e pela voz de algum homem, a quem, pela operação de milagres, Ele garante credibilidade perante os demais. Daí surge uma tríplice Palavra de Deus: racional, sensível e profética, à qual corresponde uma tríplice audição: reta razão, sentido sobrenatural e fé. Quanto ao sentido sobrenatural, que consiste em revelação ou inspiração, não foram dadas leis universais nesse sentido, porque Deus não fala dessa maneira, mas a pessoas particulares e a diferentes homens sobre diferentes assuntos.

Um Reino Duplo de Deus, Natural e Profético. Da diferença entre os outros dois tipos de Deus – a Palavra, Racional e Profética – pode-se atribuir a Deus um Reino duplo, o Natural e o Profético: o Natural, no qual Ele governa todos os que reconhecem a Sua Providência, pelos ditames naturais da reta razão; e o Profético, no qual, tendo escolhido uma nação específica (os judeus) para Seus súditos, Ele os governou, e somente a eles, não apenas pela razão natural, mas também por leis positivas, que lhes foram dadas pela boca de Seus santos profetas. É sobre o Reino Natural de Deus que pretendo falar neste capítulo.

O Direito de Soberania de Deus Deriva de Sua Onipotência. O Direito da Natureza, pelo qual Deus reina sobre os homens e pune aqueles que transgridem Suas Leis, deriva não de Sua Criação, como se Ele exigisse obediência em gratidão por Seus benefícios, mas de Seu Poder Irresistível. Já mostrei anteriormente como o Direito Soberano surge do Pacto: mostrar como o mesmo Direito pode surgir da Natureza não exige mais do que mostrar em que caso ele jamais é retirado. Visto que todos os homens, por Natureza, tinham Direito a Todas as coisas, cada um tinha o Direito de reinar sobre todos os demais. Mas, como esse Direito não podia ser obtido pela força, e era importante para a segurança de todos, estabelecer homens (com Autoridade Soberana) por consenso comum para governá-los e defendê-los, era fundamental; pois, se houvesse algum homem com Poder Irresistível, não haveria razão para que ele não governasse e defendesse a si mesmo e aos outros, segundo seu próprio critério. Àqueles cujo poder é irresistível, o domínio sobre todos os homens advém naturalmente da excelência de seu poder; e, consequentemente, é desse poder que o reino sobre os homens e o direito de afligi-los a seu bel-prazer pertencem naturalmente a Deus Todo-Poderoso; não como Criador e Gracioso, mas como Onipotente. E embora o castigo seja devido apenas pelo pecado, pois por essa palavra se entende aflição pelo pecado, o direito de afligir nem sempre deriva do pecado do homem, mas do poder de Deus.

O pecado não é a causa de toda a aflição.

Esta questão, “Por que os maus prosperam e os bons sofrem adversidades?”, foi muito debatida pelos antigos, e é semelhante à nossa: “Por que direito Deus distribui as prosperidades e as adversidades desta vida?”. É tão difícil que abalou a fé não só dos vulgos, mas também dos filósofos e, sobretudo, dos santos, a respeito da Divina Providência. “Como é bom”, disse Davi, “o Deus de Israel para os retos de coração! E, no entanto, meus pés quase se afundaram, meus passos quase escorregaram, pois me entristeci com os ímpios, quando vi os ímpios em tamanha prosperidade.” E Jó, com que veemência intercede junto a Deus pelas muitas aflições que sofreu, apesar de sua justiça? Esta questão, no caso de Jó, é decidida pelo próprio Deus, não por argumentos derivados do pecado de Jó, mas pelo seu próprio poder. Pois, enquanto os amigos de Jó baseavam seus argumentos em seu sofrimento e em seu pecado, e ele se defendia com a consciência de sua inocência, o próprio Deus aborda a questão e, tendo justificado o sofrimento com argumentos extraídos de seu poder, como este: "Onde estavas tu quando eu lancei os fundamentos da terra?", e outros semelhantes, tanto aprovou a inocência de Jó quanto repreendeu a doutrina errônea de seus amigos. Em conformidade com essa doutrina está a sentença de nosso Salvador a respeito do homem que nasceu cego, nestas palavras: "Nem este homem pecou, ​​nem seus pais; mas foi para que as obras de Deus se manifestassem nele". E embora se diga que "a morte entrou no mundo pelo pecado" (o que significa que, se Adão nunca tivesse pecado, nunca teria morrido, ou seja, nunca teria sofrido qualquer separação de sua alma de seu corpo), não se segue daí que Deus não pudesse justamente tê-lo afligido, mesmo que ele não tivesse pecado, assim como aflige outras criaturas vivas que não podem pecar.

Leis Divinas

Tendo falado do Direito da Soberania de Deus, fundamentado unicamente na Natureza, devemos considerar agora quais são as Leis Divinas, ou Ditados da Razão Natural; leis que dizem respeito aos deveres naturais de um homem para com outro, ou à honra naturalmente devida ao nosso Divino Soberano. As primeiras são as mesmas Leis da Natureza das quais já falei nos capítulos 14 e 15 deste Tratado; a saber, equidade, justiça, misericórdia, humildade e as demais virtudes morais. Resta-nos, portanto, considerar quais preceitos são ditados aos homens, unicamente pela sua Razão Natural, sem qualquer outra palavra de Deus, concernentes à honra e à adoração da Divina Majestade.

Honrar e Adorar o quê

A honra consiste no pensamento e na opinião interior sobre o Poder e a Bondade de outrem; portanto, honrar a Deus é pensar o mais elevadamente possível sobre o Seu Poder e Bondade. E dessa opinião, os sinais externos que aparecem nas palavras e ações dos homens são chamados de adoração; que é uma parte daquilo que os latinos entendem pela palavra Cultus: pois Cultus significa, propriamente e constantemente, o trabalho que um homem dedica a algo com o propósito de obter benefício por meio disso. Ora, as coisas das quais tiramos benefício ou estão sujeitas a nós, e o lucro que rendem decorre do trabalho que lhes dedicamos, como um efeito natural; ou não estão sujeitas a nós, mas respondem ao nosso trabalho segundo a sua própria vontade. No primeiro sentido, o trabalho dedicado à Terra é chamado de Cultura; e a educação das crianças, de Cultura de suas mentes. No segundo sentido, quando se busca que a vontade dos homens se adeque aos nossos propósitos, não pela força, mas pela complacência, significa tanto quanto cortejar, isto é, conquistar favores por meio de boas ações; por meio de elogios, reconhecendo seu poder e fazendo tudo o que lhes agrada, daqueles de quem esperamos algum benefício. E isso é propriamente adoração: nesse sentido, Publicola se refere a um adorador do povo e Cultus Dei à adoração de Deus.

Diversos sinais de honra

Da honra interior, que consiste na opinião sobre o Poder e a Bondade, surgem três paixões: o Amor, que se refere à Bondade; a Esperança e o Temor, que se relacionam ao Poder; e três partes da adoração exterior: o Louvor, a Magnificação e a Bênção. O tema do Louvor é a Bondade; o tema da Magnificação e da Bênção é o Poder, e o efeito disso é a Felicidade. O Louvor e a Magnificação são significativos tanto por palavras quanto por ações: por palavras, quando dizemos que um homem é bom ou grande; por ações, quando lhe agradecemos por sua generosidade e obedecemos ao seu Poder. A opinião sobre a felicidade de outrem só pode ser expressa por palavras.

Adoração Natural e Arbitrária

Existem alguns sinais de honra (tanto em atributos quanto em ações) que são naturais; como, entre os atributos, bondade, justiça, liberalidade e outros semelhantes; e entre as ações, orações, agradecimentos e obediência. Outros são assim por instituição ou costume dos homens; e em certos tempos e lugares são honrosos; em outros, desonrosos; em outros, indiferentes: como os gestos de saudação, oração e agradecimento, que em diferentes tempos e lugares são usados ​​de maneiras diferentes. O primeiro é natural; o segundo, culto arbitrário.

Adoração ordenada e gratuita

E quanto ao culto arbitrário, há duas diferenças: pois às vezes é um culto ordenado, às vezes voluntário: ordenado, quando é o que aquele que é adorado exige; livre, quando é o que o adorador julga conveniente. Quando é ordenado, não são as palavras ou os gestos, mas a obediência que constituem o culto. Mas quando é livre, o culto consiste na opinião de quem observa: pois se para eles as palavras ou ações pelas quais pretendemos honrar parecem ridículas e tendem à injúria, então não são culto; porque um sinal não é sinal para quem o dá, mas para quem é dado; isto é, para o espectador.

Culto Público e Privado

Novamente, existe um culto público e um culto privado. O culto público é aquele que uma comunidade pratica como uma só pessoa. O culto privado é aquele que uma pessoa individual demonstra. O culto público é livre em relação a toda a comunidade; mas não o é em relação a indivíduos em particular. O culto privado é livre em segredo; mas, à vista da multidão, nunca está livre de alguma restrição, seja pelas leis, seja pela opinião dos homens; o que é contrário à natureza da liberdade.

O Fim da Adoração

O objetivo da adoração entre os homens é o poder. Pois, quando um homem vê outro sendo adorado, presume que ele seja poderoso e está mais pronto a obedecê-lo, o que aumenta seu próprio poder. Mas Deus não tem fins: a adoração que lhe prestamos procede do nosso dever e é direcionada, de acordo com a nossa capacidade, pelas regras de honra que a razão dita que devem ser praticadas pelos mais fracos para com os mais poderosos, na esperança de benefício, por medo de dano ou em gratidão pelo bem já recebido deles.

Atributos da Honra Divina

Para que possamos compreender o que a luz da Natureza nos ensina sobre a adoração a Deus, começarei pelos Seus Atributos. Primeiramente, é evidente que devemos atribuir-Lhe Existência: pois nenhum homem pode ter a vontade de honrar aquilo que considera não possuir Ser.

Em segundo lugar, aqueles filósofos que disseram que o Mundo, ou a Alma do Mundo, era Deus, falaram indignamente dele e negaram a sua existência: pois por Deus entende-se a causa do Mundo; e dizer que o Mundo é Deus é dizer que não há causa para ele, isto é, que não há Deus.

Em terceiro lugar, dizer que o Mundo não foi Criado, mas é Eterno (visto que aquilo que é Eterno não tem causa), é negar a existência de Deus.

Em quarto lugar, aqueles que atribuem (como pensam) facilidade a Deus, tiram-lhe o cuidado da humanidade; tiram-lhe a honra: pois isso lhes rouba o amor e o temor que têm por Ele, que é a raiz da honra.

Em quinto lugar, naquilo que significa Grandeza e Poder, dizer que Ele é Finito não é honrá-Lo: pois não é sinal da Vontade de Honrar a Deus atribuir-Lhe menos do que podemos; e Finito é menos do que podemos, porque ao Finito é mais fácil acrescentar mais.

Portanto, atribuir-lhe uma figura não é uma honra, pois toda figura é finita.

Nem dizer que o concebemos, imaginamos ou temos uma ideia dele em nossa mente: pois tudo o que concebemos é finito:

Não atribuir-lhe partes ou totalidade, que são atributos exclusivos das coisas finitas.

Nem dizer que ele é este ou aquele Lugar: pois tudo o que está no Lugar é limitado e Finito:

Nem que ele seja movido, nem que descanse: pois ambos os atributos lhe atribuem um lugar:

Nem que haja mais de um Deus; porque isso implica que todos eles são finitos: pois não pode haver mais de um infinito: Nem atribuir-lhe (a menos que metaforicamente, significando não a paixão, mas o efeito) paixões que participam da dor; como o arrependimento, a ira, a misericórdia; ou da carência; como o apetite, a esperança, o desejo; ou de qualquer faculdade passiva: pois a paixão é um poder limitado por algo mais.

Portanto, quando atribuímos a Deus uma Vontade, não deve ser entendida como a do Homem, como um Apetite Racional, mas sim como o Poder pelo qual Ele realiza todas as coisas.

Da mesma forma, quando lhe atribuímos a Visão e outros atos sensoriais, assim como o Conhecimento e o Entendimento, que em nós nada mais são do que um tumulto da mente, provocado por coisas externas que pressionam as partes orgânicas do corpo humano: pois não existe tal coisa em Deus; e, sendo coisas que dependem de causas naturais, não podem ser atribuídas a ele.

Aquele que atribuir a Deus nada além do que é justificado pela razão natural, deverá usar atributos negativos, como infinito, eterno, incompreensível; ou superlativos, como altíssimo, grandíssimo e similares; ou indefinidos, como bom, justo, santo, criador; e de tal forma, como se não quisesse declarar o que Ele é (pois isso o circunscreveria aos limites da nossa imaginação), mas o quanto o admiramos e o quanto estamos dispostos a obedecê-lo; o que é um sinal de humildade e de uma vontade de honrá-lo o máximo possível: pois há apenas um nome para significar nossa concepção de sua natureza, e esse é EU SOU; e apenas um nome de sua relação conosco, e esse é Deus; no qual estão contidos Pai, Rei e Senhor.

Ações que são sinais de honra divina

No que diz respeito aos atos de culto divino, um preceito geral da razão é que eles sejam sinais da intenção de honrar a Deus; tais como, em primeiro lugar, as orações: pois não se pensava que os escultores, ao criarem imagens, as transformassem em deuses, mas sim o povo que orava a elas.

Em segundo lugar, a ação de graças; que difere da oração no culto divino, unicamente, pelo fato de que as orações precedem e as ações de graças sucedem o benefício; o fim de ambas, uma e outra, é reconhecer a Deus como Autor de todos os benefícios, tanto passados ​​quanto futuros.

Em terceiro lugar, as dádivas; isto é, os sacrifícios e as oblações (se forem das melhores) são sinais de honra, pois são ações de graças.

Em quarto lugar, jurar somente por Deus é, naturalmente, um sinal de honra, pois é uma confissão de que somente Deus conhece o coração e que nenhuma astúcia ou força humana pode proteger um homem da vingança de Deus sobre o perjuro.

Em quinto lugar, falar de Deus com consideração faz parte da adoração racional, pois demonstra temor a Ele, e o temor é uma confissão de Seu poder. Daí se segue que o nome de Deus não deve ser usado precipitadamente e sem propósito, pois isso é tão inútil quanto usá-lo em vão. E não tem propósito algum, a menos que seja por meio de juramento e por ordem da comunidade, para tornar os julgamentos certos, ou entre comunidades, para evitar a guerra. E que disputar a natureza de Deus é contrário à Sua honra, pois se supõe que, neste reino natural de Deus, não há outra maneira de conhecer qualquer coisa senão pela razão natural, isto é, pelos princípios da ciência natural, que estão tão longe de nos ensinar algo sobre a natureza de Deus quanto não podem nos ensinar nossa própria natureza, nem a natureza da menor criatura viva. Portanto, quando os homens, movidos pelos princípios da razão natural, disputam os atributos de Deus, apenas o desonram: pois nos atributos que atribuímos a Deus, não devemos considerar o significado da verdade filosófica, mas sim o significado da intenção piedosa de lhe prestar a maior honra possível. Da falta dessa consideração surgiram os inúmeros debates sobre a natureza de Deus, que não visam à sua honra, mas à honra de nossa própria inteligência e conhecimento; e nada mais são do que abusos vãos e desconsiderados de seu Sagrado Nome.

Em sexto lugar, nas orações, ações de graças, ofertas e sacrifícios, é um ditame da razão natural que cada um, à sua maneira, ofereça a melhor e mais significativa honra. Por exemplo, que as orações e ações de graças sejam feitas com palavras e frases não repentinas, nem levianas, nem plebeias, mas belas e bem compostas; pois, do contrário, não honramos a Deus tanto quanto podemos. E, portanto, os pagãos agiam de forma absurda ao adorar imagens como deuses; mas fazê-lo em versos e com música, tanto vocal quanto instrumental, era razoável. Também que os animais que ofereciam em sacrifício, as dádivas que apresentavam e suas ações na adoração fossem repletas de submissão e comemorativas dos benefícios recebidos, estava de acordo com a razão, pois procediam da intenção de honrá-lo.

Em sétimo lugar, a razão não orienta apenas a adorar a Deus em segredo, mas também, e especialmente, em público e à vista dos homens; pois sem isso (aquilo que é mais aceitável em honra), perde-se a capacidade de levar outros a honrá-lo.

Por fim, a obediência às Suas Leis (isto é, neste caso, às Leis da Natureza) é a maior forma de adoração de todas. Pois, assim como a obediência é mais aceitável a Deus do que o sacrifício, também desprezar os Seus Mandamentos é a maior de todas as afrontas. E estas são as Leis da adoração divina que a razão natural dita aos homens.

O culto público consiste na uniformidade.

Mas, visto que uma comunidade é apenas uma Pessoa, deve também prestar a Deus apenas um culto; o que de fato faz, quando ordena que seja prestado publicamente por indivíduos. E este é o culto público, cuja característica principal é a uniformidade: pois as ações realizadas de forma diferente por indivíduos diferentes não podem ser consideradas culto público. Portanto, onde se permitem muitos tipos de culto, provenientes das diferentes religiões de indivíduos, não se pode dizer que exista um culto público, nem que a comunidade pertença a alguma religião.

Todos os atributos dependem das leis civis.

E porque as palavras (e consequentemente os Atributos de Deus) têm seu significado por acordo e constituição dos homens, esses Atributos devem ser considerados significativos de Honra, conforme a intenção dos homens; e tudo o que pode ser feito pela vontade de indivíduos, onde não há Lei senão a Razão, pode ser feito pela vontade da Comunidade, pelas Leis Civis. E porque uma Comunidade não tem Vontade, nem cria Leis, a não ser aquelas que são feitas pela sua Vontade, ou por aqueles que detêm o Poder Soberano, segue-se que esses Atributos que o Soberano ordena, no Culto a Deus, como sinais de Honra, devem ser tomados e usados ​​para tais fins por indivíduos em seu Culto público.

Nem todas as ações

Mas, como nem todas as ações são sinais por constituição, algumas são naturalmente sinais de honra, outras de desprezo, estas últimas (aquelas que os homens se envergonham de praticar diante daquilo que reverenciam) não podem ser incorporadas ao culto divino pelo poder humano; nem as primeiras (como as que representam comportamento decente, modesto e humilde) podem jamais ser separadas dele. Contudo, enquanto existe um número infinito de ações e gestos de natureza indiferente, aqueles que a comunidade ordenar como de uso público e universal, como sinais de honra e parte do culto a Deus, deverão ser adotados e utilizados como tal pelos súditos. E aquilo que está dito nas Escrituras, "É melhor obedecer a Deus do que aos homens", encontra lugar no reino de Deus por pacto, e não por natureza.

Punições Naturais

Tendo assim falado brevemente sobre o Reino Natural de Deus e Suas Leis Naturais, acrescentarei a este capítulo apenas uma breve declaração de Seus Castigos Naturais. Não há ação humana nesta vida que não seja o início de uma cadeia de consequências tão longa quanto nenhuma Providência humana seja suficientemente elevada para dar ao homem uma perspectiva do fim. E nessa cadeia, estão ligados eventos agradáveis ​​e desagradáveis; de tal maneira que aquele que fizer algo por prazer deve se comprometer a sofrer todas as dores a ele inerentes; e essas dores são os Castigos Naturais daquelas ações que são o início de mais malefícios do que benefícios. E assim se conclui que a intemperança é naturalmente punida com doenças; a temeridade, com infortúnios; a injustiça, com a violência dos inimigos; o orgulho, com a ruína; a covardia, com a opressão; o governo negligente dos príncipes, com a rebelião; e Rebelião, com Massacre. Pois, como as punições são consequência da violação das leis, as punições naturais devem ser consequência natural da violação das leis da natureza; e, portanto, seguem-nas como seus efeitos naturais, e não arbitrários.

Conclusão da Segunda Parte

E assim foi com relação à Constituição, Natureza e Direito dos Soberanos; e com relação ao Dever dos Súditos, derivado dos Princípios da Razão Natural. E agora, considerando quão diferente esta Doutrina é da Prática da maior parte do mundo, especialmente destas partes ocidentais, que receberam seu aprendizado moral de Roma e Atenas; e quanta profundidade de Filosofia Moral é exigida daqueles que administram o Poder Soberano; estou a ponto de acreditar que este meu trabalho é inútil e se trata da opinião de Platão; pois ele também é da opinião de que é impossível eliminar os distúrbios de Estado e a mudança de governos por meio de guerras civis, enquanto os Soberanos não forem filósofos. Mas quando considero novamente que a Ciência da Justiça Natural é a única ciência necessária para os Soberanos e seus principais Ministros; e que não precisam ser incumbidos das Ciências Matemáticas (como Platão os incumbe), além de boas leis para encorajar os homens ao seu estudo; e que nem Platão, nem qualquer outro filósofo até agora, organizou e comprovou suficientemente, ou provavelmente de forma, todos os teoremas da doutrina moral, para que os homens possam aprender com eles tanto como governar quanto como obedecer; recupero alguma esperança de que, em algum momento, este meu escrito possa cair nas mãos de um soberano que o considere por si mesmo (pois é curto e, creio eu, claro), sem a ajuda de qualquer intérprete interessado ou invejoso; e que, exercendo sua soberania plena ao proteger o ensinamento público, converta esta verdade especulativa em utilidade prática.

PARTE III.
DE UMA COMUNIDADE CRISTÃ

CAPÍTULO XXXII.
DOS PRINCÍPIOS DA POLÍTICA CRISTÃ

A Palavra de Deus transmitida pelos profetas é o princípio fundamental.

Das políticas cristãs

Até o momento, derivei os Direitos do Poder Soberano e os deveres dos súditos unicamente dos Princípios da Natureza; aqueles que a Experiência comprovou como verdadeiros, ou que o Consentimento (quanto ao uso das palavras) assim o estabeleceu; isto é, da natureza dos Homens, conhecida por nós através da Experiência, e de Definições (de palavras essenciais a todo raciocínio político) universalmente aceitas. Mas no que abordarei a seguir, que é a Natureza e os Direitos de uma COMUNIDADE CRISTÃ, da qual depende muito as Revelações Sobrenaturais da Vontade de Deus, o fundamento do meu Discurso deve ser, não apenas a Palavra Natural de Deus, mas também a Profética.

Contudo, não devemos renunciar aos nossos sentidos e à experiência, nem (àquilo que é a inquestionável Palavra de Deus) à nossa razão natural. Pois são os talentos que Ele nos confiou para usarmos até a vinda do nosso bendito Salvador; e, portanto, não devem ser guardados no guardanapo de uma fé implícita, mas empregados na busca da justiça, da paz e da verdadeira religião. Pois, embora haja muitas coisas na Palavra de Deus que transcendem a razão, isto é, que não podem ser demonstradas nem refutadas pela razão natural, nada há em contrário a ela; mas quando parece haver, a falha reside em nossa interpretação inábil ou em nosso raciocínio errôneo.

Portanto, quando algo ali escrito for demasiado difícil para o nosso exame, somos instruídos a concentrar o nosso entendimento nas Palavras; e não a esforçarmo-nos por discernir uma verdade filosófica pela lógica, em mistérios que não nos são compreensíveis, nem se enquadram em qualquer regra da ciência natural. Pois é com os mistérios da nossa Religião como com os comprimidos saudáveis ​​para os doentes, que, engolidos inteiros, têm o poder de curar; mas, mastigados, são na maioria das vezes regurgitados sem efeito.

O que significa cativar a compreensão?

Mas por "cativeiro do nosso entendimento" não se entende a submissão da faculdade intelectual à opinião de qualquer outro homem, mas sim a submissão da vontade à obediência, quando esta se faz necessária. Pois os sentidos, a memória, o entendimento, a razão e a opinião não estão em nosso poder de mudança; são sempre, e necessariamente, como as coisas que vemos, ouvimos e consideramos nos sugerem; e, portanto, não são efeitos da nossa vontade, mas sim a nossa vontade sobre eles. Cativamos, então, o nosso entendimento e a nossa razão quando nos abstemos da contradição; quando falamos conforme (por autoridade legítima) somos ordenados; e quando vivemos de acordo com isso; o que, em suma, é a confiança e a fé depositadas naquele que fala, ainda que a mente seja incapaz de qualquer noção a partir das palavras proferidas.

Como Deus fala aos homens

Quando Deus fala ao homem, deve ser imediatamente ou por intermédio de outro homem a quem Ele próprio já tenha falado diretamente. A forma como Deus fala a um homem imediatamente pode ser compreendida por aqueles a quem Ele falou; mas como o mesmo deve ser compreendido por outro é difícil, senão impossível, de saber. Pois se um homem alegar que Deus lhe falou sobrenaturalmente e imediatamente, e eu duvidar disso, não consigo perceber facilmente que argumento ele poderá apresentar para me obrigar a crer. É verdade que, se ele for meu Soberano, poderá me obrigar à obediência, não por atos ou palavras, a declarar que não creio nele, mas a pensar de forma diferente daquela que minha razão me convence. Mas se alguém que não tem tal autoridade sobre mim alegar o mesmo, nada exigirá nem crença nem obediência.

Dizer que Deus lhe falou nas Sagradas Escrituras não significa que Deus lhe falou diretamente, mas sim por meio dos Profetas, dos Apóstolos ou da Igreja, da mesma forma que Ele fala com todos os outros cristãos. Dizer que Ele lhe falou em um sonho é o mesmo que dizer que Ele sonhou que Deus lhe falou; o que não convence ninguém que saiba que os sonhos são, em sua maioria, naturais e podem surgir de pensamentos anteriores; e tais sonhos são fruto de presunção, arrogância tola e falsa opinião sobre a própria piedade ou virtude, pela qual o homem pensa ter merecido o favor de uma Revelação extraordinária. Dizer que Ele teve uma Visão ou ouviu uma Voz é dizer que Ele sonhou entre o sono e a vigília: pois, dessa forma, muitas vezes o homem confunde seu sonho com uma visão, por não ter observado bem o próprio sono. Dizer que ele fala por inspiração sobrenatural é dizer que ele sente um desejo ardente de falar, ou alguma forte opinião sobre si mesmo, para a qual não pode alegar nenhuma razão natural e suficiente. Assim, embora Deus Todo-Poderoso possa falar com um homem por meio de sonhos, visões, voz e inspiração, ele não obriga ninguém a acreditar que o fez, pois quem alega isso (sendo homem) pode errar e (o que é pior) pode mentir.

Por quais marcas os profetas são conhecidos?

Como, então, pode aquele a quem Deus nunca revelou Sua Vontade imediatamente (exceto pelo caminho da razão natural) saber quando deve obedecer ou não à Sua Palavra, transmitida por aquele que se diz profeta? (1 Reis 22) Dos 400 profetas aos quais o rei de Israel pediu conselho a respeito da guerra que travou contra Ramote-Gileade, somente Micaías era verdadeiro. (1 Reis 13) O profeta enviado para profetizar contra o altar erguido por Jeroboão, embora verdadeiro, e que por dois milagres realizados em sua presença aparentava ser enviado por Deus, foi enganado por outro profeta mais velho, que o persuadiu, como se viesse da boca de Deus, a comer e beber com ele. Se um profeta engana outro, que certeza há de conhecer a vontade de Deus por outro meio que não o da razão? A isso respondo, com base nas Sagradas Escrituras, que existem duas marcas pelas quais, juntas e não separadas, um verdadeiro profeta deve ser reconhecido. Uma é a realização de milagres; a outra é não ensinar nenhuma outra religião além daquela que já está estabelecida. Separadamente (digo eu), nenhuma delas é suficiente. (Deuteronômio 13:1,2,3,4,5) “Se surgir entre vós um profeta ou um sonhador, e alegar realizar um milagre, e o milagre acontecer, e ele disser: ‘Vamos seguir deuses estranhos, que vocês não conhecem’, não lhe deem ouvidos. Mas esse profeta e sonhador será morto, porque vos incitou a rebelar-vos contra o Senhor vosso Deus.” Nessas palavras, duas coisas devem ser observadas: primeiro, que Deus não usará apenas milagres como argumentos para aprovar o chamado dos profetas, mas (como está no terceiro versículo) como um teste da constância de nossa adesão a Ele. Pois as obras dos feiticeiros egípcios, embora não tão grandiosas quanto as de Moisés, ainda assim foram grandes milagres. Em segundo lugar, por maior que seja o milagre, se ele tender a incitar revolta contra o Rei, ou contra aquele que governa sob a autoridade do Rei, quem realiza tal milagre não deve ser considerado senão como enviado para testar a lealdade deles. Pois estas palavras, “revolta contra o Senhor vosso Deus”, são neste contexto equivalentes a “revolta contra o vosso Rei”. Porque eles haviam feito de Deus seu Rei por pacto ao pé do Monte Sinai; Deus os governava somente por meio de Moisés; pois somente ele falava com Deus e, de tempos em tempos, declarava os Mandamentos de Deus ao povo. Da mesma forma, depois que nosso Salvador Cristo fez com que seus discípulos o reconhecessem como o Messias (isto é, como o ungido de Deus, a quem a nação judaica esperava diariamente como seu Rei, mas rejeitou quando ele veio), ele não deixou de alertá-los sobre o perigo dos milagres. “Surgirão”, (disse ele) “falsos Cristos e falsos Profetas, e farão grandes prodígios e milagres,até mesmo ao ponto de seduzir (se fosse possível) os próprios eleitos.” (Mateus 24:24) Com isso, fica evidente que falsos profetas podem ter o poder de realizar milagres; contudo, não devemos tomar suas doutrinas como a Palavra de Deus. São Paulo diz ainda aos Gálatas que “se ele mesmo, ou um anjo do céu, lhes anunciar um evangelho diferente daquele que já anunciou, seja anátema.” (Gálatas 1:8) Esse evangelho era o de que Cristo era Rei; portanto, toda pregação contra o poder do Rei, recebida em consequência dessas palavras, é amaldiçoada por São Paulo. Pois seu discurso se dirige àqueles que, por meio de sua pregação, já haviam recebido Jesus como o Cristo, isto é, como Rei dos Judeus.

As Marcas de um Profeta na Antiga Lei, Milagres e Doutrina Conforme à Lei

E assim como os milagres, sem a pregação da doutrina que Deus estabeleceu, pregar a verdadeira doutrina sem realizar milagres, é um argumento insuficiente para a revelação imediata. Pois se um homem que não ensina doutrinas falsas pretende ser um profeta sem realizar nenhum milagre, ele não deve ser considerado culpado por sua pretensão, como fica evidente em Deuteronômio 18:21-22: “Se disseres no teu coração: Como saberemos se a palavra (do profeta) não é a que o Senhor falou? Quando o profeta disser em nome do Senhor o que não se cumprirá, essa é a palavra que o Senhor não falou; mas o profeta a falou por orgulho do seu próprio coração, não o temas.” Mas alguém pode perguntar novamente: Quando o profeta prediz algo, como saberemos se isso se cumprirá ou não? Pois ele pode predizer algo que ocorrerá após um longo período, maior que a duração da vida humana; ou indefinidamente, que acontecerá em algum momento: nesse caso, essa marca de um Profeta é inútil; e, portanto, os milagres que nos obrigam a crer em um Profeta devem ser confirmados por um evento imediato ou não muito distante. Assim, fica evidente que o ensinamento da Religião que Deus estabeleceu e a manifestação de um Milagre presente, unidos, são as únicas marcas pelas quais as Escrituras reconheceriam um verdadeiro Profeta, isto é, uma Revelação imediata; nenhuma delas, isoladamente, é suficiente para obrigar qualquer outro homem a considerar o que ele diz.

Os milagres cessam, os profetas cessam, as Escrituras suprem o seu lugar.

Visto que os milagres cessaram, não nos resta nenhum sinal que nos permita reconhecer as pretensas revelações ou inspirações de qualquer indivíduo; nem a obrigação de dar ouvidos a qualquer doutrina que não esteja em conformidade com as Sagradas Escrituras, as quais, desde os tempos de nosso Salvador, suprem a falta de toda outra profecia; e das quais, por meio de raciocínio sábio e cuidadoso, todas as regras e preceitos necessários ao conhecimento de nosso dever para com Deus e o homem podem ser facilmente deduzidos, sem entusiasmo ou inspiração sobrenatural. E é desta Escritura que extrairei os princípios do meu discurso, concernentes aos direitos daqueles que são os governantes supremos na Terra, das comunidades cristãs; e ao dever dos súditos cristãos para com seus soberanos. E para esse fim, falarei no próximo capítulo, ou sobre os livros, autores, escopo e autoridade da Bíblia.

CAPÍTULO XXXIII.
DO NÚMERO, ANTIGUIDADE, ABRANGÊNCIA, AUTORIDADE E INTÉRPRETES DOS LIVROS DAS SAGRADAS ESCRITURAS

Dos livros das Sagradas Escrituras

Pelos livros das Sagradas Escrituras, entendem-se aqueles que devem ser o Cânon, isto é, as Regras da vida cristã. E como todas as Regras de vida que os homens são obrigados a observar em consciência são Leis, a questão das Escrituras é a questão de qual é a Lei em toda a Cristandade, tanto Natural quanto Civil. Pois, embora as Escrituras não determinem quais Leis cada Rei cristão deve instituir em seus próprios Domínios, determinam quais leis ele não deve instituir. Visto que já provei que os Soberanos em seus próprios Domínios são os únicos Legisladores, somente os Livros que são estabelecidos para tais nações pela Autoridade Soberana são Canônicos, isto é, Lei, em cada nação. É verdade que Deus é o Soberano de todos os Soberanos; e, portanto, quando Ele fala a qualquer Súdito, deve ser obedecido, independentemente do que qualquer Potentado terreno ordene em contrário. Mas a questão não é de obediência a Deus, mas de Quando e O Que Deus disse. O que, para os súditos que não possuem revelação sobrenatural, não pode ser conhecido senão pela razão natural que os guiou, na busca da paz e da justiça, a obedecer à autoridade de suas respectivas comunidades; isto é, de seus soberanos legítimos. De acordo com essa obrigação, não posso reconhecer outros livros do Antigo Testamento como Sagrada Escritura, a não ser aqueles que foram ordenados a serem reconhecidos como tal pela autoridade da Igreja da Inglaterra. Quais são esses livros é suficientemente conhecido, sem a necessidade de um catálogo aqui; e são os mesmos reconhecidos por São Jerônimo, que considera os demais, a saber, a Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Judite, Tobias, o primeiro e o segundo livros de Macabeus (embora ele tivesse visto o primeiro em hebraico) e o terceiro e o quarto livros de Esdras, como Apócrifos. Dos textos canônicos, Flávio Josefo, um judeu erudito que escreveu na época do imperador Domiciano, contabiliza vinte e dois, fazendo com que o número coincida com o alfabeto hebraico. São Jerônimo faz o mesmo, embora os contabilizem de maneira diferente. Josefo enumera cinco livros de Moisés, treze de profetas, que registraram a história de seus próprios tempos (e veremos adiante como isso coincide com os escritos dos profetas contidos na Bíblia), e quatro de hinos e preceitos morais. Já São Jerônimo contabiliza cinco livros de Moisés, oito de profetas e nove de outras escrituras sagradas, que ele chama de hagiógrafos. A Septuaginta, composta por setenta eruditos judeus enviados por Ptolomeu, rei do Egito, para traduzir a Lei Judaica do hebraico para o grego, não nos deixou outra versão das Sagradas Escrituras em língua grega senão a que é aceita na Igreja da Inglaterra.

Quanto aos livros do Novo Testamento, eles são igualmente reconhecidos como canônicos por todas as Igrejas Cristãs e por todas as seitas cristãs que admitem quaisquer livros como canônicos.

Sua Antiguidade

A autoria original dos diversos livros das Sagradas Escrituras não foi comprovada por nenhum testemunho suficiente da História (que é a única prova factual), nem pode ser evidenciada por argumentos da razão natural, pois a razão serve apenas para convencer da verdade (não factual, mas) da consequência. Portanto, a luz que deve nos guiar nesta questão é aquela que nos é apresentada pelos próprios livros. E essa luz, embora não nos mostre o autor de cada livro, é útil para nos dar conhecimento da época em que foram escritos.

O Pentateuco não foi escrito por Moisés

Primeiramente, no caso do Pentateuco, o simples fato de serem chamados de Cinco Livros de Moisés não é argumento suficiente de que foram escritos por Moisés; o fato de serem chamados de Cinco Livros de Moisés também não basta para provar que foram escritos por Josué, pelos Juízes, por Rute e pelos Reis. Pois nos títulos dos livros, o assunto é frequentemente indicado, assim como o autor. A História de Lívio denota o autor; mas a História de Skanderbeg é denominada pelo assunto. Lemos no último capítulo de Deuteronômio, versículo 6, a respeito do sepulcro de Moisés: “que ninguém sabe até hoje a respeito do seu sepulcro”, isto é, até o dia em que essas palavras foram escritas. Portanto, é evidente que essas palavras foram escritas após o seu sepultamento. Pois seria uma interpretação estranha dizer que Moisés falou de seu próprio sepulcro (ainda que por meio de profecia), que este não foi encontrado até aquele dia em que ele ainda vivia. Mas talvez se possa alegar que apenas o último capítulo, e não todo o Pentateuco, foi escrito por outro homem, mas não o restante. Consideremos, portanto, o que encontramos no livro de Gênesis, capítulo 12, versículo 6: “E Abraão atravessou a terra até o lugar de Siquém, até a planície de Moré; e os cananeus habitavam então a terra”; o que deve ser necessariamente as palavras de alguém que escreveu quando os cananeus ainda não habitavam a terra; e, consequentemente, não de Moisés, que morreu antes de chegar lá. Da mesma forma, em Números 21, versículo 14, o escritor cita outro livro mais antigo, intitulado Livro das Guerras do Senhor, no qual foram registrados os atos de Moisés no Mar Vermelho e no ribeiro de Arnom. É, portanto, suficientemente evidente que os cinco livros de Moisés foram escritos depois de sua época, embora não seja tão claro quanto tempo depois.

Mas, embora Moisés não tenha compilado esses livros inteiramente e na forma como os temos, ele escreveu tudo o que se diz que ele escreveu: como, por exemplo, o Volume da Lei, que está contido, ao que parece, no capítulo 11 de Deuteronômio, e nos capítulos seguintes até o 27, que também foi ordenado que fosse escrito em pedras, na entrada deles na terra de Canaã (Deuteronômio 31:9). E este foi o próprio Moisés que escreveu e entregou aos sacerdotes e anciãos de Israel, para ser lido a cada sete anos para todo o Israel, em sua reunião na Festa dos Tabernáculos. E esta é a Lei que Deus ordenou que seus reis (quando estabelecessem essa forma de governo) tomassem uma cópia dos sacerdotes e levitas para colocar ao lado da Arca. (Deuteronômio 31:26) e o mesmo que, tendo-se perdido, foi encontrado muito tempo depois por Hilquias, e enviado ao rei Josias, que, fazendo-o ser lido ao povo, renovou a aliança entre Deus e eles. (2 Reis 22:8 e 23:1,2,3)

O Livro de Josué foi escrito depois de sua época.

Que o Livro de Josué também foi escrito muito tempo depois da época de Josué pode ser inferido de várias passagens do próprio livro. Josué ergueu doze pedras no meio do Jordão, como monumento à sua passagem (Josué 4:9), das quais o escritor diz: “Elas estão lá até hoje” (Josué 5:9), pois “até hoje” é uma expressão que significa um tempo passado, além da memória humana. Da mesma forma, sobre a palavra do Senhor, de que ele havia removido do meio do povo a vergonha do Egito, o escritor diz: “O lugar é chamado Gilgal até hoje”, o que, para ter sido dito na época de Josué, seria impróprio. Assim também o nome do Vale de Acor, devido à confusão que Acã causou no acampamento (Josué 7:26), o escritor diz: “permanece até hoje”, o que necessariamente se refere a um período posterior à época de Josué. Argumentos desse tipo podem ser encontrados em muitos outros lugares, como Josué. 8. 29. 13. 13. 14. 14. 15. 63.

O Livro dos Juízes e Rute foi escrito muito tempo depois do cativeiro.

O mesmo se manifesta em argumentos semelhantes do Livro dos Juízes, capítulo 1. 21,26 6.24 10.4 15.19 17.6 e Rute 1. 1, mas especialmente Juízes 18. 30, onde se diz que Jônatas “e seus filhos foram sacerdotes da tribo de Dã, até o dia do cativeiro da terra”.

Semelhante aos livros de Samuel

Que os Livros de Samuel também foram escritos depois de sua época, existem argumentos semelhantes em 1 Samuel 5.5, 7.13,15, 27.6 e 30.25, onde, depois que Davi julgou partes iguais dos despojos para aqueles que guardavam as munições e para aqueles que lutaram, o Escritor diz: “Ele estabeleceu isso como um Estatuto e uma Ordenança para Israel até o dia de hoje” (2 Samuel 6.4). Novamente, quando Davi (descontente porque o Senhor havia matado Uzá por estender a mão para sustentar a Arca) chamou o lugar de Perez-Uzá, o Escritor diz que é chamado assim “até o dia de hoje”: o tempo, portanto, da escrita desse Livro deve ser muito posterior ao tempo do fato; isto é, muito depois da época de Davi.

Os Livros dos Reis e as Crônicas

Quanto aos dois Livros dos Reis e aos dois Livros das Crônicas, além das passagens que mencionam tais monumentos, como diz o Escritor, que permaneceram até os seus dias, como 1 Reis 9.13, 9.21, 10.12, 12.19; 2 Reis 2.22, 8.22, 10.27, 14.7, 16.6, 17.23, 17.34, 17.41; 1 Crônicas 4.41, 5.26, é argumento suficiente que foram escritos após o cativeiro na Babilônia, visto que a história deles continua até aquela época. Pois os fatos registrados são sempre mais antigos do que os livros que mencionam e citam o Registro. como estes livros fazem em diversos lugares, remetendo o leitor às Crônicas dos Reis de Judá, às Crônicas dos Reis de Israel, aos Livros do Profeta Samuel, ou do Profeta Natã, do Profeta Aías; à Visão de Jedô, aos Livros do Profeta Serveias e do Profeta Ado.

Esdras e Neemias

Os livros de Esdras e Neemias foram certamente escritos após o retorno deles do cativeiro, pois neles estão contidos o relato do retorno, a reconstrução dos muros e casas de Jerusalém, a renovação da Aliança e a definição de suas políticas.

Ester

A história da rainha Ester se passa na época do Cativeiro; portanto, o autor deve ter vivido na mesma época ou depois dela.

Trabalho

O Livro de Jó não traz nenhuma indicação da época em que foi escrito; e embora fique suficientemente claro (Exequiel 14.14 e Tiago 5.11) que ele não era uma pessoa fingida, o próprio livro parece não ser uma História, mas um Tratado sobre uma questão muito debatida na antiguidade: "por que os ímpios muitas vezes prosperaram neste mundo, enquanto os bons foram afligidos"? E isso é muito provável porque, do início até o terceiro versículo do terceiro capítulo, onde começa a queixa de Jó, o hebraico está (como testemunha São Jerônimo) em prosa; e daí até o sexto versículo do último capítulo em versos hexâmetros; e o restante desse capítulo novamente em prosa. Assim, toda a discussão está em versos; e a prosa é acrescentada, mas como um prefácio no início e um epílogo no final. Mas o verso não é um estilo usual para tais textos, visto que ambos estão sofrendo muito, como Jó. ou daqueles que vêm para confortá-los, como seus amigos; mas na Filosofia, especialmente na Filosofia moral, na antiguidade era frequente.

O Saltério

Os Salmos foram escritos, em sua maior parte, por Davi, para uso do coro. A estes foram acrescentados alguns cânticos de Moisés e de outros homens santos, e alguns deles posteriores ao retorno do cativeiro, como os Salmos 137 e 126. Assim, fica evidente que o Saltério foi compilado e colocado na forma que possui atualmente após o retorno dos judeus da Babilônia.

Os Provérbios

Os Provérbios, sendo uma coleção de ditos sábios e piedosos, em parte de Salomão, em parte de Agur, filho de Jaque, e em parte da mãe do rei Lemuel, provavelmente não podem ser considerados como tendo sido compilados por Salomão, mas sim por Agur ou pela mãe de Lemuel; e que, embora as frases sejam deles, a coleta ou compilação delas neste livro foi obra de algum outro homem piedoso que viveu depois de todos eles.

Eclesiastes e os Cânticos

Os livros de Eclesiastes e Cântico dos Cânticos não contêm nada que não seja de Salomão, exceto os títulos ou inscrições. Pois “As palavras do Pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém” e “O Cântico dos Cânticos, que é de Salomão” parecem ter sido criados para fins de distinção, quando os livros das Escrituras foram reunidos em um único corpo da Lei; com o objetivo de que não apenas a doutrina, mas também os autores, fossem preservados.

Os Profetas

Dos profetas, os mais antigos são Sofonias, Jonas, Amós, Oséias, Isaías e Micaías, que viveram na época de Amazias e Azarias, também conhecido como Ozias, reis de Judá. Mas o Livro de Jonas não é propriamente um registro de sua profecia (pois esta está contida nestas poucas palavras: “Quarenta dias e Nínive será destruída”), mas sim uma história ou narração de sua obstinação e contestação dos mandamentos de Deus; de modo que há pouca probabilidade de ele ser o autor, visto que é o tema do livro. Já o Livro de Amós é a sua profecia.

Jeremias, Abdias, Naum e Habacuque profetizaram na época de Josias.

Ezequiel, Daniel, Ageu e Zacarias, no cativeiro.

Não se sabe ao certo quando Joel e Malaquias profetizaram. Mas, considerando as inscrições ou títulos de seus livros, fica evidente que toda a Escritura do Antigo Testamento foi apresentada na forma que a temos hoje, após o retorno dos judeus do cativeiro na Babilônia e antes da época de Ptolomeu Filadelfo, que ordenou sua tradução para o grego por setenta homens enviados da Judeia para esse fim. E se os livros apócrifos (que nos são recomendados pela Igreja, não como canônicos, mas como livros úteis para nossa instrução) forem considerados neste ponto, a Escritura foi apresentada na forma que a temos hoje por Esdras, como se pode ver pelo que ele mesmo diz no segundo livro, capítulo 14, versículos 21, 22, etc. Onde, falando com Deus, ele diz assim: “A tua lei foi queimada; por isso ninguém sabe as coisas que tens feito, nem as obras que hão de começar. Mas, se achei graça diante de ti, envia o Espírito Santo sobre mim, e eu escreverei tudo quanto há de ser feito no mundo, desde o princípio, o que está escrito na tua lei, para que os homens encontrem o teu caminho, e para que os que viverem nos últimos dias, vivam.” E o versículo 45: “E aconteceu que, quando se cumpriram os quarenta dias, falou o Altíssimo, dizendo: ‘O primeiro que escreveste, publica-o, para que o digno e o indigno o leiam; mas guarda os setenta últimos, para os entregares somente aos sábios dentre o povo.’” E isso diz muito sobre a época da escrita dos livros do Antigo Testamento.

O Novo Testamento

Os autores do Novo Testamento viveram menos de uma era após a Ascensão de Cristo, e todos eles viram nosso Salvador ou foram seus discípulos, com exceção de São Paulo e São Lucas; consequentemente, tudo o que foi escrito por eles é tão antigo quanto a época dos Apóstolos. Mas o tempo em que os livros do Novo Testamento foram recebidos e reconhecidos pela Igreja como sendo de sua autoria não é tão antigo. Pois, assim como os livros do Antigo Testamento nos foram transmitidos em um tempo posterior ao de Esdras, que, pela direção do Espírito de Deus, os recuperou quando estavam perdidos, os do Novo Testamento, cujas cópias não eram muitas, nem poderiam facilmente estar todas na mão de um único indivíduo, não podem ser derivados de um tempo posterior ao em que os Governantes da Igreja os coletaram, aprovaram e nos recomendaram como escritos daqueles Apóstolos e Discípulos sob cujos nomes são registrados. A primeira enumeração de todos os livros, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, encontra-se nos Cânones dos Apóstolos, supostamente compilados por Clemente, o primeiro bispo de Roma (após São Pedro). Mas, como isso é apenas uma suposição, e por muitos questionado, o Concílio de Laodiceia é o primeiro que conhecemos a recomendar a Bíblia às igrejas cristãs da época, como os escritos dos profetas e apóstolos. Este concílio foi realizado no ano 364 d.C. Naquela época, a ambição havia prevalecido sobre os grandes doutores da Igreja, a ponto de não mais considerarem os imperadores, embora cristãos, como pastores do povo, mas como ovelhas; e os imperadores não cristãos, como lobos; e se esforçarem para impor sua doutrina não como conselho e informação, como pregadores, mas como leis, como governantes absolutos; e considerarem piedosas as fraudes que tendiam a tornar o povo mais obediente à doutrina cristã. Contudo, estou convencido de que eles não falsificaram as Escrituras, embora as cópias dos livros do Novo Testamento estivessem apenas nas mãos dos eclesiásticos; pois, se tivessem essa intenção, certamente as teriam tornado mais favoráveis ​​ao seu poder sobre os príncipes cristãos e a soberania civil. Não vejo, portanto, nenhum motivo para duvidar de que o Antigo e o Novo Testamento, como os temos agora, sejam os verdadeiros registros dos atos e palavras dos profetas e apóstolos. E talvez o sejam alguns dos livros chamados apócrifos, se excluídos do cânon, não por inconformidade doutrinária com o restante, mas apenas por não serem encontrados no hebraico. Pois, após a conquista da Ásia por Alexandre, o Grande, havia poucos judeus instruídos que não dominassem o grego.Pois os setenta intérpretes que converteram a Bíblia para o grego eram todos hebreus; e temos até hoje as obras de Filo e Josefo, ambos judeus, escritas por eles com eloquência em grego. Mas não é o escritor, e sim a autoridade da Igreja, que torna um livro canônico.

Seu escopo

E embora esses livros tenham sido escritos por diversos homens, é evidente que todos os autores foram imbuídos de um mesmo Espírito, pois conspiram para um mesmo fim: estabelecer os direitos do Reino de Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Pois o livro de Gênesis narra a genealogia do povo de Deus, desde a criação do mundo até a entrada no Egito; os outros quatro livros de Moisés contêm a eleição de Deus para rei e as leis que ele prescreveu para o seu governo; os livros de Josué, Juízes, Rute e Samuel, até o tempo de Saul, descrevem os atos do povo de Deus até o momento em que se libertaram do jugo divino e escolheram um rei, à semelhança das nações vizinhas. O restante da História do Antigo Testamento deriva da sucessão da linhagem de Davi até o Cativeiro, da qual descenderia o restaurador do Reino de Deus, o nosso bendito Salvador Deus Filho, cuja vinda foi predita nos Livros dos Profetas, sobre os quais os Evangelistas escreveram sua vida, seus feitos e sua reivindicação ao Reino, enquanto viveu na Terra. Por fim, os Atos dos Apóstolos e as Epístolas declaram a vinda de Deus, o Espírito Santo, e a Autoridade que Ele deixou com eles e seus sucessores, para a orientação dos judeus e para o convite dos gentios. Em suma, as Histórias e as Profecias do Antigo Testamento, assim como os Evangelhos e as Epístolas do Novo Testamento, tiveram um mesmo propósito: converter os homens à obediência a Deus; 1. em Moisés e nos sacerdotes; 2. no homem Cristo; e 3. nos Apóstolos e nos sucessores ao poder apostólico. Pois estes três, em diferentes momentos, representaram a pessoa de Deus: Moisés e seus sucessores, os Sumos Sacerdotes e Reis de Judá, no Antigo Testamento; o próprio Cristo, no tempo em que viveu na Terra; e os Apóstolos e seus sucessores, desde o dia de Pentecostes (quando o Espírito Santo desceu sobre eles) até os dias de hoje.

A questão da autoridade das Escrituras foi levantada.

É uma questão muito debatida entre as diversas seitas da religião cristã: de onde as Escrituras derivam sua autoridade? Essa questão também é formulada, às vezes, em outros termos, como: como sabemos que elas são a Palavra de Deus? Ou: por que acreditamos que o são? A dificuldade em resolvê-la surge principalmente da inadequação das palavras com que a própria pergunta é formulada. Pois todos acreditam que o primeiro e original Autor delas é Deus; e, consequentemente, a questão debatida não é essa. Além disso, é evidente que ninguém pode saber se elas são a Palavra de Deus (embora todos os verdadeiros cristãos acreditem nisso), a não ser aqueles a quem o próprio Deus as revelou sobrenaturalmente; portanto, a questão não se baseia propriamente no nosso conhecimento delas. Por fim, quando a questão é formulada sobre nossa crença, porque alguns são levados a crer por um motivo e outros por outros, não se pode dar uma resposta geral que abranja a todos. A verdadeira pergunta é: com que autoridade elas foram transformadas em lei?

Sua Autoridade e Interpretação

Na medida em que não diferem das Leis da Natureza, não há dúvida, mas são a Lei de Deus e trazem consigo a sua Autoridade, legível a todos os homens que têm o uso da razão natural: mas esta não é outra Autoridade senão a de toda a outra Doutrina Moral consonante com a Razão; cujos ditames são Leis, não criadas, mas eternas.

Se elas foram feitas Lei pelo próprio Deus, são da natureza da Lei escrita, que são Leis somente para aqueles a quem Deus as publicou de forma tão suficiente que ninguém pode se desculpar dizendo que não sabia que eram suas.

Portanto, aquele a quem Deus não revelou sobrenaturalmente que elas lhe pertencem, nem que aqueles que as publicaram foram enviados por Ele, não é obrigado a obedecê-las por nenhuma autoridade, senão a Sua, cujos mandamentos já têm força de lei; isto é, por nenhuma outra autoridade que não a da comunidade, que reside no Soberano, o único que detém o poder legislativo. Ademais, se não é a autoridade legislativa da comunidade que lhes confere a força de lei, deve ser alguma outra autoridade derivada de Deus, seja privada ou pública: se privada, obriga somente aquele a quem Deus, em particular, se dignou revelá-la. Pois, se cada homem fosse obrigado a tomar como Lei de Deus o que quer que homens particulares, sob pretexto de inspiração ou revelação privada, lhe impusessem (em tal número de homens que, por orgulho e ignorância, tomassem seus próprios sonhos, fantasias extravagantes e loucuras como testemunhos do Espírito de Deus; ou, por ambição, pretendessem tais testemunhos divinos falsamente e contrariamente à sua própria consciência), seria impossível que qualquer Lei Divina fosse reconhecida. Se pública, é a Autoridade da Comunidade ou da Igreja. Mas a Igreja, se for uma só pessoa, é o mesmo que uma Comunidade de cristãos; chamada Comunidade porque consiste em homens unidos em uma só pessoa, seu Soberano; e Igreja porque consiste em homens cristãos unidos em um só Soberano cristão. Mas se a Igreja não for uma só pessoa, então não tem autoridade alguma; não pode nem comandar nem realizar qualquer ação. Nem é capaz de ter qualquer poder ou direito a qualquer coisa; nem possui Vontade, Razão ou Voz; pois todas essas qualidades são pessoais. Ora, se o número total de cristãos não estiver contido em uma única Comunidade, eles não são uma só pessoa; nem existe uma Igreja Universal que tenha qualquer autoridade sobre eles; e, portanto, as Escrituras não são transformadas em Leis pela Igreja Universal: ou, se for uma única Comunidade, então todos os monarcas e Estados cristãos são pessoas privadas, sujeitas a serem julgadas, depostas e punidas por um Soberano Universal de toda a Cristandade. Assim, a questão da Autoridade das Escrituras se reduz a isto: “Se os Reis Cristãos e as Assembleias Soberanas nas Comunidades Cristãs são absolutos em seus próprios Territórios, imediatamente sob a autoridade de Deus; ou sujeitos a um Vigário de Cristo, constituído sobre a Igreja Universal; para serem julgados, condenados, depostos e mortos, conforme ele julgar conveniente ou necessário para o bem comum.”

Qual questão não pode ser resolvida sem uma consideração mais particular do Reino de Deus; de onde também devemos julgar a autoridade para interpretar as Escrituras. Pois, quem tem poder legítimo sobre qualquer Escrito, para torná-lo Lei, tem também o poder de aprovar ou desaprovar a sua interpretação.

CAPÍTULO XXXIV.
DO SIGNIFICADO DO ESPÍRITO, DO ANJO E DA INSPIRAÇÃO NOS LIVROS DAS SAGRADAS ESCRITURAS

Corpo e Espírito: Como São Considerados nas Escrituras

Considerando que o fundamento de todo verdadeiro raciocínio reside na constante significação das palavras, a qual, na doutrina que se segue, não depende (como nas ciências naturais) da vontade do autor, nem (como na conversa comum) do uso vulgar, mas do sentido que elas carregam nas Escrituras, é necessário, antes de prosseguir, determinar, a partir da Bíblia, o significado de palavras que, por sua ambiguidade, podem tornar obscuro ou discutível o que pretendo inferir delas. Começarei com as palavras CORPO e ESPÍRITO, que na linguagem das escolas são denominadas Substâncias, Corpóreo e Incorpóreo.

A palavra Corpo, em seu sentido mais geral, significa aquilo que preenche ou ocupa um determinado espaço ou lugar imaginário; e não depende da imaginação, mas é uma parte real daquilo que chamamos de Universo. Pois o Universo, sendo o Agregado de todos os Corpos, não há parte real dele que não seja também Corpo; nem qualquer coisa propriamente um Corpo que não seja também parte (desse Agregado de todos os Corpos) do Universo. O mesmo também, porque os Corpos estão sujeitos a mudanças, isto é, à variedade de aparência aos sentidos dos seres vivos, é chamado de Substância, isto é, sujeito a vários acidentes, como às vezes se mover, às vezes ficar parado; e parecer aos nossos sentidos às vezes quente, às vezes frio, às vezes de uma cor, cheiro, gosto ou som, às vezes de outro. E essa diversidade de aparência (produzida pela diversidade da operação dos corpos sobre os órgãos dos nossos sentidos) atribuímos a alterações dos corpos que operam, e as chamamos de acidentes desses corpos. E, segundo essa acepção da palavra, substância e corpo significam a mesma coisa; e, portanto, substância incorpórea são palavras que, quando unidas, se anulam mutuamente, como se alguém dissesse: um corpo incorpóreo.

Mas, no sentido comum, nem todo o Universo é chamado de Corpo, mas apenas as partes que podem ser discernidas pelo tato, resistindo à sua força, ou pela visão, impedindo-as de alcançar algo mais distante. Portanto, na linguagem comum dos homens, o Ar e as Substâncias Aéreas não costumam ser considerados Corpos, mas (sempre que os homens percebem seus efeitos) são chamados de Vento, Sopro ou (porque alguns são chamados em latim de Spiritus) Espíritos; assim como quando chamam aquela substância aérea que, no corpo de qualquer criatura viva, lhe dá vida e movimento, de Espíritos Vitais e Animais. Mas, para aqueles Ídolos da mente, que nos representam Corpos onde eles não existem, como em um espelho, em um sonho ou para uma mente perturbada em vigília, eles são (como o Apóstolo diz geralmente sobre todos os Ídolos) nada; Nada mesmo, eu digo, onde eles parecem estar. E no próprio cérebro, nada além de tumulto, procedente da ação dos objetos ou da agitação desordenada dos órgãos dos nossos sentidos. E os homens, que estão ocupados em investigar suas causas, não sabem por si mesmos como chamá-los; e podem, portanto, ser facilmente persuadidos por aqueles cujo conhecimento reverenciam, alguns a chamá-los de Corpos, e a considerá-los feitos de ar compactado por um poder sobrenatural, porque a visão os julga corpóreos; e outros a chamá-los de Espíritos, porque o sentido do tato nada percebe no lugar onde aparecem que ofereça resistência aos seus dedos. De modo que o significado próprio de Espírito na linguagem comum é um Corpo sutil, fluido e invisível, ou um Fantasma, ou outro Ídolo ou Fantasma da Imaginação. Mas para significados metafóricos, há muitos: pois às vezes é tomado como Disposição ou Inclinação da mente; como quando, para a disposição de refutar os ditos de outros homens, dizemos: Uma Contradição Espiritual. Para uma disposição à impureza, um espírito imundo; para a perversidade, um espírito perverso; para a melancolia, um espírito mudo; e para a inclinação à piedade e ao serviço de Deus, o Espírito de Deus; às vezes, para qualquer habilidade eminente, paixão extraordinária ou doença da mente, como quando a Grande Sabedoria é chamada de Espírito da Sabedoria; e diz-se que os loucos estão possuídos por um espírito.

Não encontro em lugar nenhum outro significado para Espírito; e onde nenhum deles consegue satisfazer o sentido dessa palavra nas Escrituras, o lugar não se enquadra na compreensão humana; e nossa fé, nesse caso, não consiste em nossa opinião, mas em nossa submissão; como em todos os lugares onde se diz que Deus é um Espírito; ou onde, pelo Espírito de Deus, entende-se o próprio Deus. Pois a natureza de Deus é incompreensível; isto é, não entendemos nada sobre o que Ele é, mas apenas que Ele é; e, portanto, os atributos que lhe damos não servem para dizer uns aos outros o que Ele é, nem para significar nossa opinião sobre sua natureza, mas sim nosso desejo de honrá-lo com os nomes que consideramos mais honrosos entre nós.

O Espírito de Deus é por vezes interpretado nas Escrituras como vento ou respiração.

Gênesis 1:2. “O Espírito de Deus pairava sobre a face das águas.” Aqui, se por Espírito de Deus se entende o próprio Deus, então o Movimento é atribuído a Deus e, consequentemente, o Lugar, que são inteligíveis apenas em Corpos, e não em substâncias incorpóreas; e assim o lugar está além da nossa compreensão, que não podemos conceber nada que se mova sem mudar de lugar, ou sem ter dimensão; e tudo o que tem dimensão é Corpo. Mas o significado dessas palavras é melhor compreendido pela passagem semelhante em Gênesis 8:1. Onde, quando a terra estava coberta de águas, como no princípio, Deus, pretendendo reduzi-las e novamente descobrir a terra seca, usa palavras semelhantes: “Trarei o meu Espírito sobre a terra, e as águas diminuirão”; nesta passagem, Espírito é entendido como Vento (isto é, um Ar ou Espírito Movido), que poderia ser chamado (como na passagem anterior) de Espírito de Deus, porque era Obra de Deus.

Em segundo lugar, para dons extraordinários do entendimento.

Gênesis 41:38. Faraó chama a sabedoria de José de Espírito de Deus. Pois José o aconselhou a procurar um homem sábio e prudente e a colocá-lo sobre a terra do Egito, e assim ele diz: “Poderemos encontrar um homem como este, em quem esteja o Espírito de Deus?” e Êxodo 28:3: “Falarás (diz Deus) a todos os sábios de coração, aos quais enchi do Espírito de Sabedoria, para que façam vestes a Arão e o consagrem.” Onde o entendimento extraordinário, ainda que apenas na confecção de vestes, sendo um dom de Deus, é chamado de Espírito de Deus. O mesmo se encontra novamente em Êxodo 31:3,4,5,6 e 35:31, e em Isaías 11:2,3. Onde o Profeta, falando do Messias, diz: “O Espírito do Senhor permanecerá sobre ele, o Espírito de sabedoria e entendimento, o Espírito de conselho e fortaleza; e o Espírito do temor do Senhor”. Onde manifestamente se refere não a tantos fantasmas, mas a tantas graças eminentes que Deus lhe concederia.

Terceiro, por afetos extraordinários

No Livro dos Juízes, um zelo e uma coragem extraordinários na defesa do povo de Deus são chamados de Espírito de Deus; como quando incitou Otoniel, Gideão, Jefté e Sansão a libertá-los da servidão (Juízes 3:10, 6:34, 11:29, 13:25, 14:6,19). E de Saul, ao saber da insolência dos amonitas para com os homens de Jabete-Gileade, está escrito (1 Samuel 11:6) que “o Espírito de Deus veio sobre Saul, e a sua ira (ou, como está em latim, a sua fúria) se acendeu grandemente”. Provavelmente, não se tratava de um fantasma, mas de um zelo extraordinário para punir a crueldade dos amonitas. Da mesma forma, pelo Espírito de Deus, que veio sobre Saul, quando ele estava entre os profetas que louvavam a Deus com cânticos e música (1 Samuel 19:20), deve-se entender não como um fantasma, mas como um zelo inesperado e repentino para se unir a eles em suas devoções.

Em quarto lugar, pelo dom da predição por meio de sonhos e visões.

O falso profeta Zedequias disse a Micaías (1 Reis 22:24): "Por onde passou o Espírito do Senhor, saindo de mim para falar contigo?" O que não pode ser entendido como sendo de um fantasma; pois Micaías declarou perante os reis de Israel e Judá o desfecho da batalha, como se tivesse tido uma visão, e não como se um espírito estivesse falando nele.

Da mesma forma, consta nos Livros dos Profetas que, embora eles falassem pelo Espírito de Deus, isto é, por uma graça especial de predição, seu conhecimento do futuro não provinha de um fantasma dentro deles, mas de algum sonho ou visão sobrenatural.

Cinquenta, para a vida toda

Em Gênesis 2:7, está escrito: “Deus fez o homem do pó da terra e soprou em suas narinas (spiraculum vitae) o fôlego da vida, e o homem se tornou alma vivente”. Ali, o Sopro da Vida inspirado por Deus não significa mais do que o fato de Deus ter lhe dado vida; e (Jó 27:3) “enquanto o Espírito de Deus estiver em minhas narinas” é o mesmo que dizer “enquanto eu viver”. Assim, em Ezequiel 1:20, “o Espírito da vida estava nas rodas” equivale a “as rodas estavam vivas”. E (Ezequiel 2:30) “o espírito entrou em mim e me pôs de pé”, isto é, “recuperei minha força vital”; não que algum fantasma ou substância incorpórea tenha entrado e possuído seu corpo.

Sexta vez, para uma subordinação à autoridade

No capítulo 11 de Números, versículo 17: “Tomarei (diz Deus) do Espírito que está sobre ti e o porei sobre eles, e eles levarão contigo o fardo do povo”; isto é, sobre os setenta anciãos. Dois desses setenta profetizaram no acampamento, dos quais alguns se queixaram, e Josué pediu a Moisés que os proibisse, o que Moisés não fez. Com isso, fica evidente que Josué não sabia que eles haviam recebido autoridade para tal e profetizaram segundo a vontade de Moisés, ou seja, por um Espírito ou autoridade subordinada à sua.

Nesse mesmo sentido, lemos (Deuteronômio 34:9) que “Josué estava cheio do Espírito de sabedoria”, porque Moisés havia imposto as mãos sobre ele: isto é, porque ele foi ordenado por Moisés para prosseguir com a obra que ele mesmo havia começado (a saber, levar o povo de Deus à terra prometida), mas que, impedido pela morte, não pôde terminar.

Nesse mesmo sentido, está escrito em Romanos 8:9: "Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele", não se referindo ao Espírito de Cristo, mas à submissão à sua doutrina. Assim como em 1 João 4:2: "Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus", o que significa o espírito do cristianismo genuíno, ou a submissão ao principal artigo da fé cristã, que é Jesus o Cristo; o que não pode ser interpretado como um espírito.

Da mesma forma, estas palavras (Lucas 4:1): “E Jesus, cheio do Espírito Santo” (isto é, como está expresso em Mateus 4:1 e Marcos 1:12, “do Espírito Santo”) podem ser entendidas como zelo para realizar a obra para a qual foi enviado por Deus Pai; mas interpretá-las como um espírito é dizer que o próprio Deus (pois assim era o nosso Salvador) estava cheio de Deus, o que é muito impróprio e sem significado. Como chegamos a traduzir “espíritos” pela palavra “fantasmas”, que não significa nada, nem no céu nem na terra, senão os habitantes imaginários do cérebro humano, não examino; mas digo isto: a palavra “espírito” no texto não significa tal coisa; mas, propriamente, uma substância real ou, metaforicamente, alguma capacidade ou afecção extraordinária da mente ou do corpo.

Sétimo, para corpos aéreos

Os discípulos de Cristo, ao vê-lo caminhando sobre o mar (Mateus 14:26 e Marcos 6:49), supuseram que ele fosse um espírito, entendendo-se assim um corpo aéreo, e não uma fantasia: pois está escrito que todos o viram; o que não pode ser entendido como ilusões da mente (que não são comuns a muitos ao mesmo tempo, como os corpos visíveis, mas singulares, devido às diferenças de imaginação), mas apenas como algo físico. Da mesma forma, quando ele foi considerado um espírito pelos mesmos apóstolos (Lucas 24:3,7), também (Atos 12:15) quando São Pedro foi libertado da prisão, não acreditaram; mas quando a jovem disse que ele estava à porta, disseram que era o seu anjo; o que deve significar uma substância corpórea, ou devemos dizer que os próprios discípulos seguiam a opinião comum tanto de judeus quanto de gentios, de que algumas dessas aparições não eram imaginárias, mas reais. E aqueles que não necessitavam da imaginação do homem para sua existência: a estes os judeus chamavam de Espíritos e Anjos, bons ou maus; assim como os gregos os chamavam de Demônios. E algumas dessas aparições podem ser reais e substanciais; isto é, Corpos sutis, que Deus pode formar pelo mesmo poder com que formou todas as coisas, e usar como Ministros e Mensageiros (isto é, Anjos) para declarar a Sua vontade e executá-la quando Lhe apraz, de maneira extraordinária e sobrenatural. Mas, uma vez que Ele os tenha formado, são Substâncias, dotadas de dimensões, ocupam espaço e podem ser movidas de um lugar para outro, o que é peculiar aos Corpos; e, portanto, não são Fantasmas Incorpóreos, isto é, Fantasmas que Não Estão em Lugar Nenhum; isto é, que, parecendo ser Algo, Não São Nada. Mas se "corpóreo" for entendido da maneira mais vulgar, como substâncias perceptíveis pelos nossos sentidos externos, então a substância incorpórea é algo não imaginário, mas real; ou seja, uma substância tênue e invisível, mas que possui as mesmas dimensões dos corpos mais densos.

Anjo O quê

Geralmente, a palavra ANJO significa um Mensageiro; e, mais frequentemente, um Mensageiro de Deus. E um Mensageiro de Deus significa qualquer coisa que revele a Sua Presença extraordinária; isto é, a manifestação extraordinária do Seu poder, especialmente por meio de um Sonho ou Visão.

A respeito da criação dos anjos, nada consta nas Escrituras. Que eles são espíritos é algo frequentemente repetido; porém, o termo "espírito" é usado tanto nas Escrituras quanto no uso comum, entre judeus e gentios, para se referir, às vezes, a corpos físicos, como o ar, o vento, os espíritos vitais e os animais das criaturas vivas; e, às vezes, às imagens que surgem na imaginação em sonhos e visões, que não são substâncias reais, mas acidentes da mente. Contudo, quando Deus os cria sobrenaturalmente para manifestar a Sua vontade, não é impróprio chamá-los de mensageiros de Deus, ou seja, de Seus anjos.

E assim como os gentios concebiam vulgarmente a imaginação do cérebro como algo que subsistia independentemente da imaginação, e não dependia dela, e a partir dela formulavam suas opiniões sobre demônios, bons e maus; os quais, por parecerem subsistir de fato, chamavam de substâncias; e, por não poderem senti-los com as mãos, de incorpóreos: assim também os judeus, com base no mesmo fundamento, sem nada no Antigo Testamento que os obrigasse a isso, tinham geralmente a opinião (exceto a seita dos saduceus) de que aquelas aparições (que Deus às vezes produzia na imaginação dos homens para seu próprio serviço, e por isso as chamava de anjos) eram substâncias, não dependentes da imaginação, mas criaturas permanentes de Deus; das quais aquelas que consideravam boas para eles, estimavam como anjos de Deus, e aquelas que consideravam prejudiciais, chamavam de anjos maus ou espíritos malignos; como o Espírito de Píton, e os Espíritos dos Loucos, dos Lunáticos e dos Epiléticos: pois consideravam demoníacos aqueles que sofriam de tais doenças.

Mas se considerarmos as passagens do Antigo Testamento onde os anjos são mencionados, descobriremos que, na maioria delas, a palavra "anjo" não pode ser entendida como outra imagem criada (sobrenaturalmente) pela imaginação, para significar a presença de Deus na execução de alguma obra sobrenatural; e, portanto, nos demais casos, onde sua natureza não é expressa, pode ser entendida da mesma maneira.

Pois lemos em Gênesis 16 que a mesma aparição é chamada, não apenas de Anjo, mas de Deus; onde aquele que (versículo 7) é chamado de Anjo do Senhor, no décimo versículo, diz a Agar: “Multiplicarei grandemente a tua descendência”; isto é, fala na pessoa de Deus. Esta aparição não foi uma figura de fantasia, mas uma Voz. Com isso, fica evidente que o Anjo ali significa nada menos que o próprio Deus, que fez Agar apreender sobrenaturalmente uma voz sobrenatural, testemunhando a presença especial de Deus ali. Por que, então, os Anjos que apareceram a Ló, e que são chamados de Homens em Gênesis 19:13, e aos quais, embora fossem apenas dois, Ló fala (versículo 18) como se fosse apenas um, e esse um, como Deus (pois as palavras são: “Disse-lhes Ló: Não, meu Senhor!”), não podem ser entendidos como imagens de homens, formadas sobrenaturalmente na fantasia; assim como antes se entendia por Anjo uma Voz imaginada? Quando o Anjo chamou Abraão do céu para impedi-lo (Gênesis 22:11) de matar Isaque, não houve aparição, mas uma voz; que, no entanto, foi apropriadamente chamada de Mensageiro ou Anjo de Deus, porque declarou a vontade de Deus sobrenaturalmente, evitando o esforço de supor fantasmas permanentes. Os Anjos que Jacó viu na Escada do Céu (Gênesis 28:12) foram uma visão de seu sono; portanto, apenas imaginação e um sonho; contudo, sendo sobrenaturais e sinais da presença especial de Deus, essas aparições não são imprópriamente chamadas de Anjos. O mesmo deve ser entendido em Gênesis 31:11, onde Jacó diz: “O Anjo do Senhor me apareceu em meu sono”. Pois uma aparição feita a um homem em seu sono é o que todos chamam de sonho, seja ele natural ou sobrenatural; e aquilo que Jacó chama de Anjo era o próprio Deus. pois o mesmo Anjo diz (versículo 13): “Eu sou o Deus de Betel”.

Além disso (Êxodo 14:9), o anjo que ia à frente do exército de Israel até o Mar Vermelho e depois vinha atrás dele (versículo 19) é o próprio Senhor; e ele apareceu não na forma de um belo homem, mas na forma (de dia) de uma coluna de nuvem e (de noite) na forma de uma coluna de fogo; e, no entanto, esta coluna era toda a aparição e o anjo prometido a Moisés (Êxodo 14:9) para guiar os exércitos: pois diz-se que esta coluna de nuvem desceu e parou à porta do Tabernáculo e falou com Moisés.

Ali você vê Movimento e Fala, que são comumente atribuídos a Anjos, atribuídos a uma Nuvem, porque a Nuvem servia como um sinal da presença de Deus; e não era menos um Anjo do que se tivesse a forma de um Homem, ou de uma Criança de imensa beleza; ou Asas, como geralmente são pintadas, para a falsa instrução do povo comum. Pois não é a forma, mas sim o seu uso, que as torna Anjos. Mas o seu uso é o de significar a presença de Deus em operações sobrenaturais; como quando Moisés (Êxodo 33:14) pediu a Deus que acompanhasse o acampamento (como sempre fizera antes da confecção do Bezerro de Ouro), Deus não respondeu: "Eu irei", nem "Enviarei um Anjo em meu lugar", mas sim: "Minha presença irá contigo".

Mencionar todos os trechos do Antigo Testamento onde o nome Anjo é encontrado seria muito extenso. Portanto, para compreendê-los todos de uma vez, digo que não há nenhum texto naquela parte do Antigo Testamento, que a Igreja da Inglaterra considera canônica, a partir do qual possamos concluir que existe, ou foi criada, qualquer coisa permanente (entendida pelo nome de Espírito ou Anjo) que não tenha quantidade; e que não possa ser, pelo entendimento, dividida, isto é, considerada por partes; de modo que uma parte possa estar em um lugar e a parte seguinte no lugar seguinte; e, em suma, que não seja (tomando Corpo como aquilo que é de alguma forma, ou em algum lugar) corpóreo; mas em todo lugar, o sentido suportará a interpretação de Anjo, por Mensageiro; assim como João Batista é chamado de Anjo, e Cristo, o Anjo da Aliança; e assim como (de acordo com a mesma analogia) a Pomba e as Línguas de Fogo, por serem sinais da presença especial de Deus, também poderiam ser chamadas de Anjos. Embora encontremos em Daniel dois nomes de anjos, Gabriel e Miguel, fica claro pelo próprio texto (Daniel 12:1) que Miguel se refere a Cristo, não como um anjo, mas como um príncipe; e que Gabriel (como as aparições semelhantes feitas a outros homens santos em seus sonhos) não era senão uma fantasia sobrenatural, pela qual pareceu a Daniel, em seu sonho, que dois santos estavam conversando, e um deles disse ao outro: "Gabriel, vamos explicar a este homem a sua visão". Pois Deus não precisa distinguir seus servos celestiais por nomes, que são úteis apenas à memória efêmera dos mortais. Nem no Novo Testamento há qualquer passagem que possa provar que os anjos (exceto quando são usados ​​para se referir a homens como aqueles que Deus designou como mensageiros e ministros de sua palavra ou obras) sejam seres permanentes e incorpóreos. Que eles são permanentes pode ser inferido das próprias palavras do nosso Salvador (Mateus 25:41), onde ele diz: “No último dia, será dito aos ímpios: ‘Ide, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos’”. Essa passagem manifesta a permanência dos anjos malignos (a menos que consideremos que o nome “diabo e seus anjos” possa ser entendido como uma referência aos adversários da Igreja e seus ministros), mas isso seria repugnante à sua imaterialidade, pois o fogo eterno não é um castigo para substâncias impassíveis, como todas as coisas incorpóreas. Portanto, a incorpóreaidade dos anjos não é comprovada por essa passagem. Da mesma forma, São Paulo diz (1 Coríntios 6:3): “Não sabíeis que havemos de julgar os anjos?” e (2 Pedro 2:4): “Porque, se Deus não poupou os anjos que pecaram, mas os lançou no inferno”. E (Judas 1:6) “E os anjos que não guardaram o seu estado original, mas deixaram a sua própria habitação,Ele reservou em cadeias eternas, na escuridão, para o julgamento do último dia;” embora prove a permanência da natureza angelical, confirma também a sua materialidade. E (Mateus 22:30): “Na ressurreição, os homens não se casam nem se dão em casamento, mas são como os anjos de Deus no céu”; mas na ressurreição os homens serão permanentes e não incorpóreos; assim também o serão os anjos.

Existem diversos outros lugares de onde se pode chegar à mesma conclusão. Para aqueles que compreendem o significado das palavras "substância" e "incorpóreo", visto que "incorpóreo" não se refere a um corpo sutil, mas sim à ausência de corpo, elas implicam uma contradição: de tal forma que dizer que um anjo ou espírito é (nesse sentido) uma substância incorpórea, equivale a dizer, na prática, que não há anjo nem espírito algum. Considerando, portanto, o significado da palavra "anjo" no Antigo Testamento e a natureza dos sonhos e visões que ocorrem aos homens pelos caminhos ordinários da natureza, inclinei-me para a opinião de que os anjos nada mais eram do que aparições sobrenaturais da imaginação, criadas pela operação especial e extraordinária de Deus, para assim tornar conhecida a sua presença e os seus mandamentos à humanidade, principalmente ao seu povo. Mas as muitas passagens do Novo Testamento, as próprias palavras de nosso Salvador e textos em que não há suspeita de corrupção das Escrituras, arrancaram da minha frágil razão o reconhecimento e a crença de que também existem anjos substanciais e permanentes. Mas crer que eles não estão em lugar algum, ou seja, em lugar nenhum, ou seja, em nada, como dizem (embora indiretamente), que os considere incorpóreos, não pode ser comprovado pelas Escrituras.

Inspiração O quê

O significado da palavra Espírito depende do significado da palavra Inspiração; que deve ser entendida literalmente, ou seja, como soprar em um homem um ar tênue e sutil, ou vento, da mesma forma que um homem enche a bexiga com seu fôlego; ou, se os Espíritos não são corpóreos, mas existem apenas na imaginação, como soprar um Fantasma; o que é impróprio dizer e impossível, pois Fantasmas não são, mas apenas parecem ser. Portanto, essa palavra é usada nas Escrituras apenas metaforicamente: como em Gênesis 2:7, onde se diz que Deus inspirou no homem o fôlego da vida, não se quer dizer mais do que Deus lhe deu movimento vital. Pois não devemos pensar que Deus primeiro criou um fôlego de vida e depois o soprou em Adão depois que ele foi criado, se esse fôlego era real ou aparente; mas apenas como em Atos 17:25: “que ele lhe deu vida e fôlego”. Isto é, fez dele uma criatura vivente. E onde se diz (2 Timóteo 3:16) que “toda a Escritura é inspirada por Deus”, referindo-se às Escrituras do Antigo Testamento, é uma metáfora simples para significar que Deus inclinou o espírito ou a mente daqueles escritores a escreverem o que seria útil para ensinar, repreender, corrigir e instruir os homens no caminho da retidão. Mas onde São Pedro (2 Pedro 1:21) diz que “A profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo”, por Espírito Santo entende-se a voz de Deus em um sonho ou visão sobrenatural, o que não é inspiração; nem quando nosso Salvador soprou sobre seus discípulos e disse: “Recebam o Espírito Santo”, aquele sopro era o Espírito, mas um sinal das graças espirituais que ele lhes concedeu? E embora se diga de muitos, e do próprio Salvador, que ele era cheio do Espírito Santo, essa plenitude não deve ser entendida como infusão da substância de Deus, mas como acúmulo de seus dons, como o dom da santidade de vida, o dom de línguas e outros semelhantes, sejam eles adquiridos sobrenaturalmente ou por meio de estudo e diligência; pois em todos os casos são dons de Deus. Assim também, quando Deus diz (Joel 2:28): “Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, e vossos jovens terão visões”, não devemos entender isso no sentido próprio, como se o seu Espírito fosse como água, sujeito a efusão ou infusão, mas como se Deus tivesse prometido dar-lhes sonhos e visões proféticas. Pois o uso correto da palavra “infundido”, ao falar das graças de Deus, é um abuso dela. pois essas graças são virtudes, não corpos para serem carregados de um lado para o outro e transformados em homens, como em barris.

Da mesma forma, interpretar a Inspiração em seu sentido próprio, ou dizer que Espíritos Bons entraram nos homens para torná-los profetas, ou Espíritos Maus naqueles que se tornaram frenéticos, lunáticos ou epiléticos, não é interpretar a palavra no sentido das Escrituras; pois o Espírito ali é entendido como o poder de Deus, operando por causas que nos são desconhecidas. Assim também (Atos 2:2), o vento, que ali se diz ter enchido a casa onde os Apóstolos estavam reunidos no dia de Pentecostes, não deve ser entendido como o Espírito Santo, que é a própria Divindade; mas como um sinal externo da atuação especial de Deus em seus corações, para produzir neles as graças internas e as virtudes santas que Ele julgava necessárias para o desempenho de seu apostolado.

CAPÍTULO XXXV.
DO SIGNIFICADO NAS ESCRITURAS DO REINO DE DEUS, DO SANTO, DO SAGRADO E DO SACRAMENTO

O Reino de Deus é interpretado metaforicamente pelos teólogos, mas está presente nas Escrituras de forma adequada.

O Reino de Deus nos escritos dos teólogos, especialmente em sermões e tratados de devoção, é geralmente interpretado como a Felicidade Eterna, após esta vida, no Céu Mais Elevado, que também chamam de Reino da Glória; e às vezes como (a garantia dessa felicidade) Santificação, que denominam Reino da Graça, mas nunca como a Monarquia, isto é, o Poder Soberano de Deus sobre quaisquer súditos, adquirido por seu próprio consentimento, que é o significado próprio de Reino.

Ao contrário, considero que o REINO DE DEUS, na maioria das passagens das Escrituras, significa um Reino propriamente dito, constituído pelos votos do povo de Israel de maneira peculiar; no qual eles escolheram Deus para seu Rei por meio de uma aliança feita com Ele, com a promessa divina de que eles teriam a posse da terra de Canaã; e raramente de forma metafórica; e então é interpretado como Domínio sobre o Pecado (e somente no Novo Testamento); porque tal Domínio, todo súdito terá no Reino de Deus, sem prejuízo para o Soberano.

Desde a Criação, Deus não apenas reinou sobre todos os homens naturalmente por seu poder, mas também teve súditos peculiares, aos quais comandava por meio de uma voz, como um homem fala com outro. Dessa forma, reinou sobre Adão e lhe ordenou que se abstivesse do fruto da árvore do conhecimento do Bem e do Mal; e, como Adão não obedeceu, ao prová-lo, assumiu a responsabilidade de ser como Deus, julgando entre o Bem e o Mal, não por mandamento de seu Criador, mas por sua própria intuição. Seu castigo foi a privação da condição de vida eterna, na qual Deus o havia criado inicialmente. E, posteriormente, Deus puniu sua posteridade, por seus vícios, todos exceto oito pessoas, com um dilúvio universal; e nesses oito consistia o então Reino de Deus.

O Original do Reino de Deus

Depois disso, aprouve a Deus falar com Abraão e (Gênesis 17:7,8) fazer uma aliança com ele, com estas palavras: “Estabelecerei a minha aliança entre mim e ti, e a tua descendência depois de ti, em suas gerações, por aliança perpétua, para ser o teu Deus e o Deus da tua descendência depois de ti; e darei a ti e à tua descendência depois de ti a terra em que peregrinas, toda a terra de Canaã, por possessão perpétua”. E como memorial e sinal desta aliança, ele instituiu (versículo 11) o sacramento da circuncisão. Esta é a chamada Antiga Aliança, ou Testamento, que contém um contrato entre Deus e Abraão, pelo qual Abraão se obriga, e à sua posteridade, de maneira peculiar, a submeter-se à lei positiva de Deus; pois à lei moral ele já estava obrigado antes, como por um juramento de fidelidade. E embora o nome de Rei ainda não tenha sido dado a Deus, nem de Reino a Abraão e sua descendência, a essência é a mesma: uma instituição, por pacto, da soberania peculiar de Deus sobre a descendência de Abraão; a qual, na renovação da mesma Aliança por Moisés, no Monte Sinai, é expressamente chamada de um Reino peculiar de Deus sobre os judeus. E é de Abraão (não de Moisés) que São Paulo diz (Romanos 4:11) ser o “Pai dos Fiéis”, isto é, daqueles que são leais e não violam a fidelidade jurada a Deus, primeiro pela circuncisão e depois, na Nova Aliança, pelo batismo.

Que o Reino de Deus é propriamente a Sua Soberania Civil sobre um Povo Peculiar por Pacto

Esta Aliança, ao pé do Monte Sinai, foi renovada por Moisés (Êxodo 19:5), onde o Senhor ordena a Moisés que fale ao povo desta maneira: “Se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha Aliança, então sereis para mim um povo peculiar, porque toda a Terra é minha; e sereis para mim um Reino Sagrado e uma Nação santa”. Para “povo peculiar”, o latim vulgar traz: Peculium De Cunctis Populis; a tradução inglesa, feita no início do reinado do Rei Jaime, traz: “um tesouro peculiar para mim acima de todas as nações”; e o francês de Genebra: “a joia mais preciosa de todas as nações”. Mas a tradução mais verdadeira é a primeira, porque é confirmada pelo próprio São Paulo (Tito 2:14), onde ele diz, aludindo a essa passagem, que nosso bendito Salvador “se entregou por nós para nos purificar para si mesmo, povo peculiar (isto é, extraordinário)”. Pois a palavra em grego é periousios, que geralmente se opõe à palavra epiousios. Assim como esta significa ordinário, cotidiano ou (como na Oração do Senhor) de uso diário, a outra significa aquilo que é excedente, acumulado e desfrutado de maneira especial, o que os latinos chamam de pecurium. E esse significado da passagem é confirmado pela explicação que Deus dá, que se segue imediatamente, acrescentando: “Porque toda a terra é minha”, como se dissesse: “Todas as nações do mundo são minhas”. Mas não é que vocês sejam meus, mas de uma maneira especial: pois todos eles são meus, em razão do meu poder; mas vocês serão meus, por seu próprio consentimento e aliança; o que é um acréscimo ao seu título comum, a todas as nações.

O mesmo é novamente confirmado expressamente no mesmo texto: “Vós sereis para mim um Reino Sacerdotal e uma Nação santa”. A Vulgar Latina traz “Regnum Sacerdotale”, com o que concorda a tradução daquele trecho (1 Pedro 2:9): “Sacerdotium Regale”, um sacerdócio régio; assim como a própria instituição, pela qual ninguém podia entrar no Sanctum Sanctorum, isto é, ninguém podia consultar a vontade de Deus diretamente com o próprio Deus, senão somente o Sumo Sacerdote. A tradução inglesa mencionada anteriormente, seguindo a de Genebra, traz “um Reino de Sacerdotes”; o que ou significa a sucessão de um Sumo Sacerdote após o outro, ou então não está de acordo com São Pedro, nem com o exercício do Sumo Sacerdócio; pois nunca houve ninguém além do Sumo Sacerdote que informasse o povo da vontade de Deus; nem jamais foi permitida a entrada de qualquer convocação de sacerdotes no Sanctum Sanctorum.

Novamente, o título de Nação Santa confirma o mesmo: pois Santo significa aquilo que pertence a Deus por direito especial, não por direito geral. Toda a Terra (como se diz no texto) pertence a Deus; mas toda a Terra não é chamada de Santa, e sim apenas aquilo que é separado para o Seu serviço especial, como era a Nação dos Judeus. Portanto, fica bastante evidente por esta passagem que, por Reino de Deus, entende-se propriamente uma Comunidade, instituída (com o consentimento daqueles que a ela se submeteriam) para o seu governo civil e para a regulação do seu comportamento, não apenas para com Deus, seu Rei, mas também uns para com os outros em matéria de justiça, e para com outras nações, tanto em tempos de paz como de guerra; que era propriamente um Reino, no qual Deus era Rei, e o Sumo Sacerdote seria (após a morte de Moisés) o seu único Vice-Rei ou Tenente.

Mas há muitos outros lugares que comprovam claramente o mesmo. Como em 1 Samuel 8:7, quando os anciãos de Israel (entristecidos com a corrupção dos filhos de Samuel) exigiram um rei, Samuel, descontente com isso, orou ao Senhor; e o Senhor, respondendo, disse-lhe: “Atende à voz do povo, pois não te rejeitaram a ti, mas a mim, para que eu não reine sobre eles”. Disso se depreende que o próprio Deus era então o seu Rei; e Samuel não dava ordens ao povo, mas apenas lhes entregava o que Deus lhe designava de tempos em tempos.

Novamente, (1 Samuel 12:12), onde Samuel diz ao povo: “Quando vistes que Naás, rei dos amonitas, vinha contra vós, dissestes-me: Não, mas um rei reinará sobre nós, quando o Senhor vosso Deus era o vosso Rei.” É manifesto que Deus era o seu Rei e governava o Estado Civil da sua comunidade.

E depois que os israelitas rejeitaram a Deus, os profetas predisseram a sua restauração, como em Isaías 24:23: “Então a lua ficará envergonhada, e o sol, humilhado, quando o Senhor dos Exércitos reinar no monte Sião e em Jerusalém”, onde ele fala expressamente do seu reinado em Sião e Jerusalém, isto é, na Terra. E em Miquéias 4:7: “E o Senhor reinará sobre eles no monte Sião”. Este monte Sião fica em Jerusalém, na Terra. E em Ezequiel 20:33: “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, que com mão poderosa, e braço estendido, e com furor intenso, eu vos dominarei; e vos farei passar debaixo da vara, e vos introduzirei no vínculo da aliança”. Ou seja, eu reinarei sobre vocês e farei com que cumpram a Aliança que fizeram comigo por meio de Moisés, e que quebraram na rebelião contra mim nos dias de Samuel e na eleição de outro rei.

E no Novo Testamento, o anjo Gabriel diz de nosso Salvador (Lucas 1:32,33): “Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo; o Senhor lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim”. Este também é um reino na Terra; por causa disso, como inimigo de César, ele foi morto; o título de sua cruz era Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus; ele foi coroado em desprezo com uma coroa de espinhos. E quanto à sua proclamação, diz-se dos discípulos (Atos 17:7): “Eles faziam tudo contrariamente aos decretos de César, dizendo que havia outro Rei, Jesus”. O Reino de Deus, portanto, é um Reino real, não metafórico; e assim é entendido, não apenas no Antigo Testamento, mas também no Novo; quando dizemos: “Pois teu é o Reino, o Poder e a Glória”, deve-se entender o Reino de Deus, pela força da nossa Aliança, não pelo Direito do Poder de Deus; pois tal Reino Deus sempre possui; de modo que seria supérfluo dizer em nossa oração: “Venha o teu Reino”, a menos que se refira à Restauração daquele Reino de Deus por Cristo, que pela revolta dos israelitas havia sido interrompida na eleição de Saul. Nem seria apropriado dizer: “O Reino dos Céus está próximo”, ou orar: “Venha o teu Reino”, se ainda estivesse em vigor.

Há tantos outros lugares que confirmam essa interpretação, que seria de admirar que não lhe seja dada maior atenção, mas que ela dê demasiada luz aos reis cristãos, impedindo-os de reconhecer seu direito ao governo eclesiástico. Observaram que, em vez de um Reino Sacerdotal, traduzem como Reino dos Sacerdotes, pois poderiam igualmente traduzir Sacerdócio Real (como em São Pedro) como Sacerdócio dos Reis. E enquanto que, para um Povo Peculiar, usam uma Joia Preciosa ou um Tesouro, seria o mesmo que chamar o Regimento ou Companhia especial de um General de Joia Preciosa do General ou seu Tesouro.

Em resumo, o Reino de Deus é um Reino Civil; que consistia, primeiramente, na obrigação do povo de Israel de cumprir as Leis que Moisés lhes traria do Monte Sinai; e que, posteriormente, o Sumo Sacerdote da época lhes entregaria diante dos Querubins no Sanctum Sanctorum; e que, tendo sido rejeitado na eleição de Saul, conforme predito pelos Profetas, seria restaurado por Cristo; e cuja Restauração pedimos diariamente quando dizemos na Oração do Senhor: “Venha o teu Reino”; e cujo Direito reconhecemos quando acrescentamos: “Pois teu é o Reino, o Poder e a Glória, para sempre e sempre. Amém”; e cuja Proclamação foi a Pregação dos Apóstolos; e para a qual os homens são preparados pelos Mestres do Evangelho; Abraçar o Evangelho (isto é, prometer obediência ao governo de Deus) significa estar no Reino da Graça, pois Deus concedeu gratuitamente a tais pessoas o poder de serem súditos (isto é, filhos) de Deus no futuro, quando Cristo vier em Majestade para julgar o mundo e governar de fato o seu próprio povo, o que é chamado de Reino da Glória. Se o Reino de Deus (também chamado de Reino dos Céus, devido à glória e à admirável altura daquele trono) não fosse um Reino que Deus, por meio de seus representantes ou vigários, que entregam seus mandamentos ao povo, exerce na Terra, não haveria tanta contenda e guerra sobre quem é aquele por meio de quem Deus nos fala; nem tantos sacerdotes se preocupariam com a jurisdição espiritual, nem nenhum rei a negaria a eles.

Dessa interpretação literal do Reino de Deus surge também a verdadeira interpretação da palavra SANTO. Pois é uma palavra que, no Reino de Deus, corresponde àquela que os homens, em seus reinos, usam para chamar de Público ou Reis.

O Rei de qualquer país é a Pessoa Pública, ou Representante de todos os seus súditos. E Deus, o Rei de Israel, era o Santo de Israel. A nação que está sujeita a um soberano terreno é a nação desse soberano, isto é, da Pessoa Pública. Assim, os judeus, que eram a nação de Deus, foram chamados (Êxodo 19:6) de “nação santa”. Pois por Santo sempre se entende o próprio Deus ou aquilo que é de Deus em propriedade; assim como por Público sempre se entende a Pessoa da própria Comunidade ou algo que é tão próprio da Comunidade que nenhuma pessoa privada pode reivindicar qualquer propriedade sobre ela.

Portanto, o sábado (o dia de Deus) é um dia santo; o Templo (a casa de Deus), uma casa santa; sacrifícios, dízimos e ofertas (tributo a Deus), deveres santos; sacerdotes, profetas e reis ungidos, sob Cristo (ministros de Deus), homens santos; os espíritos celestiais (mensageiros de Deus), anjos santos; e assim por diante: e onde quer que a palavra "santo" seja usada propriamente, ainda há algo que significa propriedade, obtida por consentimento. Ao dizer "Santificado seja o teu nome", apenas oramos a Deus por graça para guardar o primeiro mandamento, de "não ter outros deuses além d'Ele". A humanidade é a nação de Deus em propriedade; mas somente os judeus eram uma nação santa. Por quê? Porque se tornaram sua propriedade por aliança.

Sagrado O quê

E a palavra Profano é geralmente usada nas Escrituras como sinônimo de Comum; e, consequentemente, seus opostos, Santo e Próprio, no Reino de Deus, também devem ser sinônimos. Mas, figurativamente, também são chamados de Santos aqueles que levaram vidas tão piedosas como se tivessem abandonado todos os desígnios mundanos e se dedicado inteiramente a Deus. No sentido próprio, aquilo que é santificado por Deus, por meio de sua apropriação ou separação para o Seu próprio uso, é dito ser Santificado por Deus, como o sétimo dia no quarto Mandamento; e como os eleitos no Novo Testamento foram santificados quando foram revestidos do Espírito de piedade. E aquilo que é santificado pela dedicação dos homens e dado a Deus, para ser usado unicamente em seu serviço público, também é chamado de SAGRADO e dito consagrado, como os templos e outras casas de oração pública, seus utensílios, sacerdotes e ministros, vítimas, oferendas e a matéria externa dos sacramentos.

Graus de Santidade

Há graus de santidade: pois, dentre as coisas separadas para o serviço de Deus, pode haver outras separadas para um serviço ainda mais específico. Toda a nação dos israelitas era um povo santo para Deus; contudo, a tribo de Levi era, entre os israelitas, uma tribo santa; e, entre os levitas, os sacerdotes eram ainda mais santos; e, entre os sacerdotes, o sumo sacerdote era o mais santo. Assim, a terra de Judeia era a terra santa; mas a cidade santa, onde Deus deveria ser adorado, era mais santa; e, ainda, os templos eram mais santos que a cidade; e o Sanctum Sanctorum era mais santo que o restante do templo.

Sacramento

Um sacramento é a separação de algo visível do uso comum e sua consagração ao serviço de Deus, como sinal de nossa admissão no Reino de Deus, para sermos parte do Seu povo escolhido, ou como comemoração desse mesmo evento. No Antigo Testamento, o sinal de admissão era a circuncisão; no Novo Testamento, o batismo. A comemoração, no Antigo Testamento, era a refeição (em um determinado momento, que era o aniversário) do cordeiro pascal, pela qual se lembrava da noite em que foram libertados da escravidão no Egito; e, no Novo Testamento, a celebração da Ceia do Senhor, pela qual nos lembramos da nossa libertação da escravidão do pecado pela morte do nosso Salvador na cruz. Os sacramentos de admissão devem ser usados ​​apenas uma vez, pois só é necessária uma admissão. Mas, como precisamos ser frequentemente lembrados de nossa libertação e de nossa fidelidade, os Sacramentos da Comemoração precisam ser reiterados. E estes são os principais Sacramentos, e, por assim dizer, os juramentos solenes que fazemos de nossa fidelidade. Há também outras consagrações que podem ser chamadas de Sacramentos, pois a palavra implica apenas a consagração ao serviço de Deus; mas, como implica um juramento ou promessa de fidelidade a Deus, não havia outros no Antigo Testamento além da Circuncisão e da Páscoa; nem há outros no Novo Testamento além do Batismo e da Ceia do Senhor.

CAPÍTULO XXXVI.
DA PALAVRA DE DEUS E DOS PROFETAS

Palavra O quê

Quando se menciona a Palavra de Deus ou do Homem, não se refere a uma parte da fala, como os gramáticos chamam de "nown", ou um verbo, ou qualquer voz simples, sem contexto com outras palavras para torná-la significativa; mas sim a uma fala ou discurso completo, pelo qual o orador afirma, nega, ordena, promete, ameaça, deseja ou questiona. Nesse sentido, não é "vocabulum" que significa uma palavra, mas sim "sermo" (em grego, "logos"), isto é, alguma fala, discurso ou dito.

As palavras ditas por Deus e concernentes a Deus são ambas chamadas de Palavra de Deus nas Escrituras.

Novamente, se dissermos a Palavra de Deus, ou do Homem, pode-se entender, às vezes, que se refere ao Orador (como as palavras que Deus falou, ou que um Homem falou): Nesse sentido, quando dizemos o Evangelho de São Mateus, entendemos que São Mateus é o seu Autor; e, às vezes, ao Sujeito: Nesse sentido, quando lemos na Bíblia: “As palavras dos dias dos Reis de Israel, ou Judá”, significa que os atos que foram realizados naqueles dias eram o Sujeito dessas Palavras; E no grego, que (nas Escrituras) conserva muitos hebraísmos, a Palavra de Deus muitas vezes se entende não aquilo que é falado por Deus, mas a respeito de Deus e do seu governo; isto é, a Doutrina da Religião: De tal forma que é tudo a mesma coisa dizer Logos Theou e Theologia; Ou seja, a doutrina que geralmente chamamos de Divindade, como se manifesta nas passagens seguintes (Atos 13:46): “Então Paulo e Barnabé, ousando, disseram: Era necessário que primeiro a palavra de Deus fosse pregada a vocês; mas, visto que vocês a rejeitam e se consideram indignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios”. Aquilo que aqui é chamado de Palavra de Deus era a doutrina da religião cristã, como fica evidente pelo que foi dito anteriormente. E (Atos 5:20), onde um anjo diz aos apóstolos: “Ide, apresentai-vos e pregai no templo todas as palavras desta vida”, por palavras desta vida entende-se a doutrina do Evangelho, como fica claro pelo que fizeram no templo e é expresso no último versículo do mesmo capítulo. “Diariamente, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar e pregar a Cristo Jesus.” Neste trecho, fica evidente que Jesus Cristo era o tema desta Palavra da Vida; ou (o que é tudo a mesma coisa) o tema das Palavras desta Vida Eterna que nosso Salvador as ofereceu. Assim (Atos 15:7), a Palavra de Deus é chamada de Palavra do Evangelho, porque contém a doutrina do Reino de Cristo; e a mesma Palavra (Romanos 10:8,9) é chamada de Palavra da Fé; isto é, como ali está expresso, a doutrina de Cristo que veio e ressuscitou dentre os mortos. Também (Mateus 13:19): “Quando alguém ouve a palavra do Reino”; isto é, a doutrina do Reino ensinada por Cristo. Novamente, a mesma Palavra é descrita (Atos 12:24): “para crescer e se multiplicar”; O que é fácil de entender da doutrina evangélica, mas da voz, ou fala de Deus, difícil e estranho. Da mesma forma, a doutrina dos demônios não significa as palavras de qualquer demônio, mas a doutrina dos pagãos concernente aos demônios e aos fantasmas que eles adoravam como deuses. (1 Timóteo 4:1)

Considerando esses dois significados da PALAVRA DE DEUS, conforme entendida nas Escrituras, fica evidente, neste último sentido (onde se refere à doutrina da religião cristã), que toda a Escritura é a Palavra de Deus; mas, no primeiro sentido, não. Por exemplo, embora estas palavras, “Eu sou o Senhor teu Deus, etc.”, até o final dos Dez Mandamentos, tenham sido ditas por Deus a Moisés, o prefácio “Deus falou estas palavras e disse” deve ser entendido como as palavras daquele que escreveu a história sagrada. A Palavra de Deus, entendida como aquilo que Ele falou, é compreendida às vezes literalmente, às vezes metaforicamente. Literalmente, como as palavras que Ele falou aos Seus profetas; metaforicamente, como Sua sabedoria, poder e decreto eterno na criação do mundo; nesse sentido, aqueles mandamentos, “Haja luz”, “Haja um firmamento”, “Façamos o homem”, etc. (Gênesis 1), são a Palavra de Deus. E no mesmo sentido está escrito (João 1:3): “Todas as coisas foram feitas por meio dela, e sem ela nada do que foi feito se fez”; e (Hebreus 1:3): “Ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder”; isto é, pelo poder da sua palavra; e (Hebreus 11:3): “O universo foi formado pela palavra de Deus”; e muitos outros lugares com o mesmo sentido. Assim como entre os latinos, o nome Destino, que significa propriamente A Palavra Falada, é tomado no mesmo sentido.

Em segundo lugar, pelo efeito de Sua palavra.

Em segundo lugar, pelo efeito da sua Palavra; isto é, pela coisa em si, que pela sua Palavra é Afirmada, Ordenada, Ameaçada ou Prometida; como (Salmo 105.19), onde se diz que José foi mantido na prisão, “até que se cumprisse a sua Palavra”; isto é, até que acontecesse aquilo que ele havia (Gênesis 40.13) predito ao mordomo do Faraó, concernente à sua restauração ao seu cargo: pois ali, por “cumpriu a sua Palavra”, entende-se que a coisa em si aconteceu. Assim também (1 Reis 18:36), Elias diz a Deus: “Eu fiz todas estas coisas conforme as tuas palavras”, em vez de “Eu fiz todas estas coisas por tua ordem”; e (Jeremias 17:15) “Onde está a palavra do Senhor?” é usado em vez de “Onde está o mal que ele ameaçou?”. E (Ezequiel 12:28) “Nenhuma das minhas palavras será prolongada”; por “palavras” entendem-se aquelas coisas que Deus prometeu ao seu povo. E no Novo Testamento (Mateus 24:35) “o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras jamais passarão”; isto é, não há nada do que eu prometi ou predisse que não se cumprirá. E é nesse sentido que São João Evangelista, e creio que somente São João, chama nosso Salvador, em carne, de “o Verbo de Deus” (como em João 1:14), “o Verbo se fez carne”; isto é, o Verbo, ou a Promessa, de que Cristo viria ao mundo, “o qual no princípio estava com Deus”; ou seja, era propósito de Deus Pai enviar Deus Filho ao mundo para iluminar os homens no caminho da vida eterna, mas isso só foi posto em prática e de fato encarnado; de modo que nosso Salvador é ali chamado de “o Verbo”, não porque ele era a promessa, mas a coisa prometida. Aqueles que, aproveitando-se dessa passagem, o chamam comumente de Verbo de Deus, apenas tornam o texto mais obscuro. Poderiam muito bem chamá-lo de Palavra de Deus: pois, assim como por Palavra, também por Verbo, os homens não entendem nada além de uma parte da fala, uma voz, um som, que não afirma, nem nega, nem ordena, nem promete, nem é substância corpórea ou espiritual; e, portanto, não se pode dizer que seja Deus ou Homem; enquanto que o nosso Salvador é ambos. E esta Palavra que São João, em seu Evangelho, diz estar com Deus, é (em sua 1ª Epístola, versículo 1) chamada de “a Palavra da Vida”; e (versículo 2) “a vida eterna, que estava com o Pai”: de modo que ele não pode ser chamado de Palavra em nenhum outro sentido senão naquele em que é chamado de Vida Eterna; isto é, “aquele que nos garantiu a vida eterna”, por sua vinda em carne. Assim também (Apocalipse 19:13), o Apóstolo, falando de Cristo, vestido com uma roupa tingida de sangue, diz: Seu nome é “a Palavra de Deus”; o que deve ser entendido como se ele tivesse dito que seu nome era: “Aquele que veio segundo o propósito de Deus desde o princípio,e segundo a sua Palavra e as promessas dadas pelos Profetas.” Portanto, não há aqui nada da Encarnação de uma Palavra, mas da Encarnação de Deus Filho, por isso chamado a Palavra, porque a sua Encarnação foi o cumprimento da Promessa; da mesma forma que o Espírito Santo é chamado de A Promessa. (Atos 1:4; Lucas 24:49.)

Terceiro, pelas palavras da razão e da equidade.

Há também passagens das Escrituras onde, pela Palavra de Deus, são indicadas palavras que são consonantes com a razão e a equidade, embora às vezes proferidas não por profeta nem por homem santo. Pois o faraó Neco era um idólatra; contudo, suas palavras ao bom rei Josias, nas quais o aconselhou por meio de mensageiros a não se opor a ele em sua marcha contra Carquemis, são ditas como tendo procedido da boca de Deus; e que Josias, não dando ouvidos a elas, foi morto na batalha, como se lê em 2 Crônicas 35, versículos 21, 22 e 23. É verdade que, conforme a mesma história é relatada no primeiro livro de Esdras, não foi o faraó, mas Jeremias, quem proferiu essas palavras a Josias, da boca do Senhor. Mas devemos dar crédito às Escrituras Canônicas, independentemente do que esteja escrito nos Apócrifos.

A Palavra de Deus deve, portanto, ser tomada também como ditames da razão e da equidade, quando se diz nas Escrituras que a mesma está escrita no coração do homem; como em Salmos 36:31, Jeremias 31:33, Deuteronômio 30:11, 14 e muitas outras passagens semelhantes.

Diversas interpretações da palavra profeta

O nome PROFETA, nas Escrituras, significa às vezes Prolocutor; isto é, aquele que fala de Deus para o Homem, ou do homem para Deus; e às vezes Preditor, ou um preditor de coisas futuras; e às vezes alguém que fala de forma incoerente, como homens que estão distraídos. É mais frequentemente usado no sentido de falar de Deus para o Povo. Assim, Moisés, Samuel, Elias, Isaías, Jeremias e outros foram Profetas. E, nesse sentido, o Sumo Sacerdote era um Profeta, pois somente ele entrava no Sanctum Sanctorum para consultar a Deus e declarar sua resposta ao povo. Portanto, quando Caifás disse que era conveniente que um homem morresse pelo povo, São João diz (cap. 11.51) que “Ele não falou isso de si mesmo, mas, sendo Sumo Sacerdote naquele ano, profetizou que um homem morreria pela nação”. Diz-se também que aqueles que ensinavam o povo nas congregações cristãs (1 Coríntios 14:3) profetizavam. Nesse mesmo sentido, Deus diz a Moisés (Êxodo 4:16) a respeito de Arão: “Ele será teu porta-voz perante o povo; ele te será a boca, e tu lhe serás o lugar de Deus”; o que aqui é porta-voz é interpretado (capítulo 7:1) como profeta: “Vê (diz Deus), eu te constituí Deus para Faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta”. No sentido de falar de homem para Deus, Abraão é chamado de profeta (Gênesis 20:7), onde Deus, em um sonho, fala a Abimeleque desta maneira: “Agora, pois, devolve a ele a sua mulher, porque ele é profeta e orará por ti”. Com isso, também se pode concluir que o título de Profeta pode ser atribuído, não indevidamente, àqueles que, nas Igrejas Cristãs, têm a vocação de proferir orações públicas pela congregação. No mesmo sentido, os profetas que desceram do lugar alto (ou Monte de Deus) com um saltério, um tamborim, uma flauta e uma harpa (1 Samuel 10:5,6) e Saul entre eles (versículo 10), são considerados profetisas, pois louvavam a Deus publicamente dessa maneira. No mesmo sentido, Miriam (Êxodo 15:20) é chamada de profetisa. Assim também deve ser interpretado (1 Coríntios 11:4,5) onde São Paulo diz: “Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta, etc., e toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta. Pois profecia, nesse contexto, não significa mais nada, mas sim louvar a Deus em Salmos e Cânticos Sagrados; o que as mulheres podiam fazer na Igreja, embora não lhes fosse lícito falar à congregação. E é nesse sentido que os poetas pagãos, que compunham hinos e outros tipos de poemas em honra de seus deuses, eram chamados de Vates (Profetas), como é bem conhecido por todos os versados ​​nos Evangelhos dos Gentios, e como fica evidente (Tito 1:12) onde São Paulo diz dos cretenses,que um profeta deles dissesse que eram mentirosos; não que São Paulo considerasse seus poetas profetas, mas reconhece que a palavra profeta era comumente usada para designar aqueles que celebravam a honra de Deus em versos.

Predição de Contingências Futuras, Não Profecia Sempre

Quando por profecia entende-se predição ou previsão de eventos futuros, não se trata apenas de profetas, que eram porta-vozes de Deus e prediziam aos outros as coisas que Deus lhes havia predito; mas também de todos os impostores que, com a ajuda de espíritos familiares ou por meio de adivinhação supersticiosa de eventos passados, pretendem prever eventos semelhantes no futuro. Dentre eles (como já declarei no capítulo 12 deste discurso), existem muitos tipos que, na opinião do homem comum, ganham maior reputação de profetas por um único evento fortuito que pode ser manipulado a seu favor do que podem perder por inúmeras falhas. A profecia não é uma arte, nem (quando entendida como predição) uma vocação constante; mas uma tarefa extraordinária e temporária dada por Deus, geralmente a homens bons, mas às vezes também a homens maus. A mulher de Endor, que se diz ter tido um espírito familiar e, por isso, ter invocado um Fantasma de Samuel e predito a morte de Saul, não era, portanto, uma profetisa; pois não possuía qualquer ciência que lhe permitisse invocar tal Fantasma; nem parece que Deus tenha ordenado a sua invocação, mas apenas guiado essa impostura para ser um meio de aterrorizar e desanimar Saul e, consequentemente, da derrota que o levou à queda. Quanto à fala incoerente, entre os gentios era considerada um tipo de profecia, porque os profetas de seus oráculos, embriagados por um espírito ou vapor da caverna do Oráculo Pítio em Delfos, ficavam, naquele momento, realmente loucos e falavam como loucos; cujas palavras desconexas podiam ser interpretadas de forma a se adequarem a qualquer evento, tal como se diz que todos os corpos são feitos de matéria primordial. Nas Escrituras, encontro também essa interpretação (1 Samuel 18:10) nestas palavras: "E o espírito maligno apoderou-se de Saul, e ele profetizou no meio da casa."

A maneira como Deus falou aos profetas

E embora haja muitos significados para a palavra Profeta nas Escrituras, o mais frequente é aquele em que se refere àquele a quem Deus fala diretamente, transmitindo aquilo que o Profeta deve dizer a outro homem ou ao povo. Surge então a questão: de que maneira Deus fala a tal Profeta? Pode-se dizer (alguns diriam) que Deus tem voz e linguagem, quando não se pode dizer que Ele tem língua ou outros órgãos como um homem? O Profeta Davi argumenta assim: “Aquele que fez o olho não vê? Ou aquele que fez o ouvido não ouve?” Mas isso pode ser dito não (como geralmente) para significar a natureza de Deus, mas sim nossa intenção de honrá-Lo. Pois Ver e Ouvir são Atributos Honrosos, e podem ser atribuídos a Deus para declarar (tanto quanto nossa capacidade de conceber) Seu poder Onipotente. Mas se fosse interpretado no sentido estrito e próprio, poderíamos argumentar, a partir da criação de todas as partes do corpo humano, que Ele também as utilizava da mesma forma que nós; o que resultaria em muitas partes tão disformes que seria a maior afronta do mundo atribuí-las a Ele. Portanto, devemos interpretar a fala de Deus aos homens de forma direta, da maneira (seja qual for) pela qual Deus os faz compreender a Sua vontade. E as maneiras pelas quais Ele faz isso são muitas, e devem ser buscadas somente nas Sagradas Escrituras. Embora muitas vezes se diga que Deus falou a esta ou àquela pessoa, sem declarar de que maneira, há também muitos trechos que apresentam os sinais pelos quais eles deveriam reconhecer a Sua presença e os Seus mandamentos; e por meio destes, pode-se entender como Ele falou a muitos outros.

Aos profetas extraordinários do Antigo Testamento, Ele falou por meio de sonhos ou visões.

Não é descrito de que maneira Deus falou com Adão, Eva, Caim e Noé; nem como falou com Abraão, até que este saiu de sua terra natal para Siquém, na terra de Canaã; e então (Gênesis 12:7) diz-se que Deus lhe apareceu. Portanto, há uma maneira pela qual Deus manifestou a Sua presença: por meio de uma aparição ou visão. E novamente (Gênesis 15:1), a Palavra do Senhor veio a Abraão em uma visão; isto é, como um sinal da presença de Deus, apareceu como Mensageiro de Deus para falar com ele. Novamente, o Senhor apareceu a Abraão (Gênesis 18:1) por meio da aparição de três anjos; e a Abimeleque (Gênesis 20:3) em sonho; a Ló (Gênesis 19:1) por meio da aparição de dois anjos; e a Agar (Gênesis 21:17) pela aparição de um anjo; e a Abraão novamente (Gênesis 22:11) pela aparição de uma voz do céu; e (Gênesis 26:24) a Isaque durante a noite (isto é, em seu sono, ou em sonho); e a Jacó (Gênesis 18:12) em sonho; ou seja (como dizem as palavras do texto): “Jacó sonhou que via uma escada, etc.” E (Gênesis 32:1) em uma visão de anjos; e a Moisés (Êxodo 3:2) na aparição de uma chama de fogo no meio de uma sarça; e depois da época de Moisés (onde se expressa a maneira como Deus falava diretamente ao homem no Antigo Testamento), ele sempre falou por meio de uma visão ou de um sonho, como a Gideão, Samuel, Elias, Eliseu, Isaías, Ezequiel e os demais profetas; e frequentemente no Novo Testamento, como a José, a São Pedro, a São Paulo e a São João Evangelista no Apocalipse.

Somente a Moisés falou de maneira mais extraordinária no Monte Sinai e no Tabernáculo; e ao Sumo Sacerdote no Tabernáculo e no Santuário do Templo. Mas Moisés, e depois dele os Sumos Sacerdotes, eram profetas de posição e grau mais eminentes no favor de Deus; e o próprio Deus declara expressamente que a outros profetas falou em sonhos e visões, mas ao seu servo Moisés, da mesma maneira que um homem fala ao seu amigo. As palavras são estas (Números 12:6,7,8): “Se houver entre vós um profeta, eu, o Senhor, me revelarei a ele em visão e lhe falarei em sonho. Não é assim o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa; com ele falarei boca a boca, claramente, não por enigmas; e ele verá a semelhança do Senhor.” E (Êxodo 33:11): “O Senhor falou com Moisés face a face, como um homem fala com seu amigo”. E, no entanto, essa comunicação de Deus com Moisés ocorreu por meio de um anjo, ou anjos, como se vê expressamente em Atos 7:35 e 53 e Gálatas 3:19, sendo, portanto, uma visão, embora uma visão mais clara do que as concedidas a outros profetas. E, em conformidade com isso, onde Deus diz (Deuteronômio 13:1): “Se surgir no meio de vós um profeta ou alguém que tenha sonhos”, a última palavra nada mais é do que a interpretação da primeira. E (Joel 2:28): “Vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terão sonhos, e vossos jovens terão visões”, onde, novamente, a palavra profecia é explicada por sonho e visão. E da mesma forma foi que Deus falou a Salomão, prometendo-lhe sabedoria, riquezas e honra; pois o texto diz (1 Reis 3:15): “E Salomão acordou, e eis que era um sonho”. De modo que, geralmente, os profetas extraordinários do Antigo Testamento tomavam conhecimento da Palavra de Deus apenas por meio de seus sonhos ou visões, isto é, por meio das imaginações que tinham durante o sono ou em êxtase; imaginações essas que, em todo profeta verdadeiro, eram sobrenaturais, mas que, nos falsos profetas, eram naturais ou fingidas.

Dizia-se, contudo, que os mesmos profetas falavam pelo Espírito, como em Zacarias 7:12, onde o profeta, falando dos judeus, diz: “Eles endureceram as suas casas como diamante, para que não ouvissem a lei e as palavras que o Senhor dos Exércitos enviou no seu Espírito por meio dos profetas anteriores”. Com isso, fica evidente que falar pelo Espírito, ou por inspiração, não era uma forma particular de Deus falar, diferente da visão, quando aqueles que supostamente falavam pelo Espírito eram profetas extraordinários, que para cada nova mensagem recebiam uma comissão específica, ou (o que é tudo a mesma coisa) um novo sonho ou visão.

Aos profetas de vocação perpétua e supremos, Deus falou no Antigo Testamento do Propiciatório, de uma maneira não expressa nas Escrituras. Dos profetas que eram assim por uma vocação perpétua no Antigo Testamento, alguns eram supremos e outros subordinados: os supremos foram primeiro Moisés; e depois dele, o Sumo Sacerdote, cada um por seu tempo, enquanto o sacerdócio foi real; e depois que o povo judeu rejeitou a Deus, para que ele não reinasse mais sobre eles, aqueles reis que se submeteram ao governo de Deus também foram seus principais profetas; e o ofício de Sumo Sacerdote tornou-se ministerial. E quando Deus precisava ser consultado, eles vestiam as vestes sagradas e consultavam o Senhor, como o rei lhes ordenava, e eram destituídos de seu ofício quando o rei achava conveniente. Pois o rei Saul (1 Samuel 13:9) ordenou que o holocausto fosse trazido, e (1 Samuel 14:18) ele ordena ao sacerdote que traga a arca perto dele; e (versículo 19) novamente para deixá-lo em paz, porque viu uma vantagem sobre seus inimigos. E no mesmo capítulo, Saul pede conselho a Deus. Da mesma forma, o rei Davi, após ser ungido, embora antes de tomar posse do reino, é dito que “consultou o Senhor” (1 Samuel 23:2) se deveria lutar contra os filisteus em Queila; e (versículo 10) Davi ordena ao sacerdote que lhe traga o éfode, para consultar se deveria permanecer em Queila ou não. E o rei Salomão (1 Reis 2:27) tomou o sacerdócio de Abiatar e o deu (versículo 35) a Zadoque. Portanto, Moisés, os sumos sacerdotes e os reis piedosos, que consultavam a Deus em todas as ocasiões extraordinárias sobre como deveriam se comportar ou que eventos deveriam ocorrer, eram todos profetas soberanos. Mas a maneira como Deus lhes falou não é evidente. Dizer que a subida de Moisés a Deus no Monte Sinai foi um sonho ou uma visão, como as que outros profetas tiveram, contraria a distinção que Deus fez entre Moisés e os outros profetas (Números 12:6,7,8). Dizer que Deus falou ou apareceu como Ele é em Sua própria natureza é negar Sua infinitude, invisibilidade e incompreensibilidade. Dizer que Ele falou por inspiração ou infusão do Espírito Santo, como o Espírito Santo significa a Divindade, é igualar Moisés a Cristo, em quem somente a Divindade (como São Paulo afirma em Colossenses 2:9) habita corporalmente. E, por fim, dizer que Ele falou pelo Espírito Santo, como significa as graças ou dons do Espírito Santo, é não lhe atribuir nada de sobrenatural. Pois Deus dispõe os homens à Piedade, Justiça, Misericórdia, Verdade, Fé e toda sorte de Virtude, tanto Moral quanto Intelectual, por meio da doutrina, do exemplo e de diversas ocasiões, naturais e ordinárias.

E assim como esses métodos não podem ser aplicados a Deus, quando falou com Moisés no Monte Sinai, também não podem ser aplicados a Ele quando falou com os Sumos Sacerdotes do Propiciatório. Portanto, a maneira como Deus falou com aqueles Profetas Soberanos do Antigo Testamento, cuja função era consultá-Lo, é incompreensível. No tempo do Novo Testamento, não havia Profeta Soberano, mas sim o nosso Salvador, que era tanto Deus quem falava quanto o Profeta a quem Ele falava.

Aos profetas de vocação perpétua, mas subordinados, Deus falou pelo Espírito. Aos profetas subordinados de vocação perpétua, não encontro nenhum lugar que prove que Deus lhes falou sobrenaturalmente; mas apenas da maneira como naturalmente inclina os homens à piedade, à fé, à justiça e a outras virtudes, como todos os outros cristãos. Embora essa inclinação consista em constituição, instrução, educação e nas ocasiões e convites que os homens têm às virtudes cristãs, ela é verdadeiramente atribuída à operação do Espírito de Deus, ou Espírito Santo (que em nossa língua chamamos de Espírito Santo): pois não há boa inclinação que não seja da operação de Deus. Mas essas operações nem sempre são sobrenaturais. Portanto, quando se diz que um profeta fala no Espírito, ou pelo Espírito de Deus, não devemos entender mais nada além de que ele fala de acordo com a vontade de Deus, declarada pelo profeta supremo. Pois a acepção mais comum da palavra Espírito é no sentido da intenção, mente ou disposição de um homem.

Nos dias de Moisés, havia setenta homens, além dele próprio, que profetizavam no acampamento dos israelitas. A maneira como Deus lhes falava é declarada em Números 11, versículo 25: “O Senhor desceu numa nuvem e falou a Moisés; e tomou do Espírito que estava sobre ele e o deu aos setenta anciãos. E sucedeu que, quando o Espírito repousou sobre eles, profetizaram e não cessaram”. Com isso, fica evidente, em primeiro lugar, que a profecia deles ao povo era subordinada à profecia de Moisés, pois Deus tomou do Espírito de Moisés para lhes dar, de modo que profetizavam como Moisés os havia instruído; caso contrário, não lhes teria sido permitido profetizar. Pois houve (versículo 27) uma queixa contra eles a Moisés; e Josué queria que Moisés os tivesse proibido, o que ele não fez, mas disse a Josué: “Não tenha ciúmes de mim”. Em segundo lugar, o Espírito de Deus, naquele lugar, significa nada mais do que a mente e a disposição para obedecer e auxiliar Moisés na administração do governo. Pois, se significasse que eles possuíam o Espírito substancial de Deus, isto é, a natureza divina inspirada neles, então o possuíam de maneira tão igual quanto o próprio Cristo, em quem somente o Espírito de Deus habitava corporalmente. Refere-se, portanto, ao dom e à graça de Deus que os guiou a cooperar com Moisés, de quem seu Espírito foi derivado. E parece (versículo 16) que eles eram aqueles que o próprio Moisés designou para serem anciãos e oficiais do povo: pois as palavras são: “Reúne-me setenta homens, que tu sabes serem anciãos e oficiais do povo”, onde “tu sabes” é o mesmo que “tu designas” ou “designas para serem tais”. Pois nos é dito anteriormente (Êxodo 18) que Moisés, seguindo o conselho de Jetro, seu sogro, nomeou juízes e oficiais sobre o povo, entre os que temiam a Deus; e dentre estes, estavam os setenta a quem Deus, ao infundir o Espírito de Moisés, inclinou para auxiliá-lo na administração do reino. E neste sentido, diz-se (1 Samuel 16:13,14) que o Espírito de Deus veio sobre Davi logo após a unção, e deixou Saul; Deus concedeu a ele a sua graça, pois este a escolheu para governar o seu povo, e a retirou dele, pois Saul a rejeitou. Portanto, por Espírito entende-se a inclinação para o serviço de Deus, e não qualquer revelação sobrenatural.

Deus às vezes também falava por meio de sortes.

Deus também falou muitas vezes por meio de sorteios, ordenados por aqueles que Ele havia colocado em autoridade sobre o Seu povo. Assim, lemos que Deus manifestou, pelos sorteios que Saul ordenou (1 Samuel 14:43), a falta que Jônatas havia cometido ao comer um favo de mel, contrariando o juramento feito pelo povo. E (Josué 18:10) Deus dividiu a terra de Canaã entre os israelitas, pelos “sortes que Josué lançou perante o Senhor em Siló”. Da mesma forma, parece que Deus descobriu (Josué 7:16, etc.) o crime de Acã. E essas são as maneiras pelas quais Deus declarou a Sua vontade no Antigo Testamento.

Todas essas formas ele usou também no Novo Testamento. À Virgem Maria, por meio de uma visão de um anjo; a José, em um sonho; novamente a Paulo, no caminho para Damasco, em uma visão de nosso Salvador; e a Pedro, na visão de um lençol que descia do céu, com diversos tipos de carne, pura e impura, animais; e na prisão, por meio de uma visão de um anjo; e a todos os apóstolos e escritores do Novo Testamento, pelas graças do seu Espírito; e aos apóstolos novamente (na escolha de Matias no lugar de Judas Iscariotes) por sorteio.

Todo homem deveria examinar a probabilidade de um falso profeta estar vocacionado.

Visto que toda profecia pressupõe visão ou sonho (sendo que ambos, quando naturais, são o mesmo), ou algum dom especial de Deus, tão raramente observado na humanidade, que deve ser admirado onde observado; e visto que tais dons, como os sonhos e visões mais extraordinários, podem proceder de Deus não apenas por sua operação sobrenatural e imediata, mas também por sua operação natural e pela mediação de causas secundárias; há necessidade de razão e discernimento para distinguir entre dons naturais e sobrenaturais, e entre visões ou sonhos naturais e sobrenaturais. E, consequentemente, os homens precisam ser muito circunspectos e cautelosos ao obedecer à voz do homem que, fingindo ser um profeta, exige que obedeçamos a Deus da maneira que ele, em nome de Deus, nos diz ser o caminho para a felicidade. Pois aquele que pretende ensinar aos homens o caminho de tão grande felicidade, pretende governá-los; isto é, governá-los e reinar sobre eles. o que é algo que todos os homens naturalmente desejam e, portanto, digno de suspeita de ambição e impostura; e, consequentemente, deve ser examinado e provado por cada homem antes de lhe prestar obediência, a menos que já o tenha prestado na instituição de uma comunidade, como quando o profeta é o soberano civil ou autorizado por ele. E se esse exame dos profetas e espíritos não fosse permitido a todos, não teria sido útil estabelecer os sinais pelos quais cada homem pudesse distinguir entre aqueles a quem deveria seguir e aqueles a quem não deveria. Visto que tais sinais são estabelecidos (Deuteronômio 13:1, etc.) para reconhecer um profeta e (1 João 4:1, etc.) para reconhecer um espírito; e visto que há tanta profecia no Antigo Testamento e tanta pregação contra os profetas no Novo Testamento; E, portanto, o número de falsos profetas é muito maior do que o de verdadeiros; cada um deve ter cuidado ao obedecer às suas instruções, sob pena de ser punido. E, em primeiro lugar, que havia muito mais falsos profetas do que verdadeiros, fica evidente pelo fato de que, quando Acabe (1 Reis 12) consultou quatrocentos profetas, todos eram falsos impostores, com exceção de um, Micaías. E pouco antes do período do Cativeiro, os profetas eram, em geral, mentirosos. “Os profetas” (diz o Senhor por meio de Jeremias, capítulo 14, versículo 14) “profetizam mentiras em meu nome. Eu não os enviei, nem lhes ordenei, nem lhes falei; eles vos profetizam uma visão falsa, algo sem valor; é o engano do seu coração.” Assim como Deus ordenou ao povo, pela boca do profeta Jeremias (capítulo 23, versículo 16), que não os obedecesse. Assim diz o Senhor dos Exércitos: Não deis ouvidos às palavras dos profetas que vos profetizam. Elas vos tornam vãs,Eles falam uma visão do próprio coração, e não da boca do Senhor.”

Toda profecia, exceto a do Profeta Soberano, deve ser examinada por todos os súditos.

Visto que, no tempo do Antigo Testamento, havia tais contendas entre os profetas visionários, uns disputando com os outros e perguntando: "Quando se retirou o Espírito de mim para ir a ti?", como entre Micaías e os outros quatrocentos; e tais mentiras sendo trocadas entre si (como em Jeremias 14:14), e tais controvérsias no Novo Testamento, hoje, entre os profetas espirituais: todo homem, então, era e agora obrigado a usar sua razão natural para aplicar a toda profecia as regras que Deus nos deu, a fim de discernir o verdadeiro do falso. Dessas regras, no Antigo Testamento, uma era a doutrina conforme ao que Moisés, o profeta soberano, lhes havia ensinado; e a outra, o poder miraculoso de predizer o que Deus faria acontecer, como já mostrei em Deuteronômio 13:1, etc., e no Novo Testamento havia apenas uma marca; E essa era a pregação desta doutrina, de que Jesus é o Cristo, isto é, o Rei dos Judeus, prometido no Antigo Testamento. Quem negasse esse artigo era um falso profeta, quaisquer que fossem os milagres que parecesse realizar; e quem o ensinasse era um verdadeiro profeta. Pois São João (1 Epístola 4.2, etc.), falando expressamente sobre os meios de examinar os espíritos, para saber se são de Deus ou não, depois de lhes ter dito que surgiriam falsos profetas, afirma o seguinte: “Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus”; isto é, é aprovado e admitido como profeta de Deus: não por ser um homem piedoso ou um dos eleitos, por confessar, professar ou pregar que Jesus é o Cristo; mas sim por ser um profeta reconhecido. Pois Deus às vezes fala por meio de profetas cujas pessoas Ele não aceitou, como fez por meio de Balaão. E como ele predisse a morte de Saul, pelas mãos da Feiticeira de En-Dor. Novamente, no versículo seguinte: “Todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Cristo. E este é o espírito do Anticristo.” Assim, a regra é perfeita em ambos os lados: um verdadeiro profeta prega o Messias já vindo, na pessoa de Jesus; e um falso profeta aquele que nega a sua vinda e o busca em algum futuro impostor, que assumirá falsamente essa honra, a quem o Apóstolo chama apropriadamente de Anticristo. Portanto, cada homem deve considerar quem é o Profeta Soberano; isto é, quem é o Vice-regente de Deus na Terra, e que, logo abaixo de Deus, possui a autoridade para governar os cristãos; e observar, como regra, a doutrina que, em nome de Deus, ele ordenou que fosse ensinada; e, por meio dela, examinar e testar a veracidade das doutrinas que pretensos profetas, com ou sem milagres, venham a propagar.E se considerarem isso contrário à regra, que façam como fizeram aqueles que foram até Moisés e reclamaram que havia alguns que profetizavam no acampamento, cuja autoridade para tal ação eles duvidavam; e que deixem ao Soberano, como fizeram com Moisés, aprová-los ou proibi-los, conforme ele julgar necessário; e se ele os rejeitar, que não obedeçam mais à sua voz; ou se os aprovar, que os obedeçam, como homens a quem Deus concedeu uma parte do Espírito de seu Soberano. Pois quando os cristãos não tomam seu Soberano cristão como Profeta de Deus, devem ou tomar seus próprios sonhos como a profecia pela qual pretendem ser guiados, e o tumor de seus próprios corações como o Espírito de Deus; ou devem se deixar levar por algum príncipe estranho, ou por alguns de seus concidadãos, que possam enfeitiçá-los, por meio da calúnia contra o governo, para a rebelião, sem que nenhum outro milagre confirme sua vocação, e às vezes com um sucesso extraordinário e impunidade. E por esse meio, destruindo todas as leis, tanto divinas quanto humanas, reduzindo toda a Ordem, Governo e Sociedade ao primeiro Caos da Violência e da Guerra Civil.

CAPÍTULO XXXVII.
DOS MILAGRES E SEU USO

Um milagre é uma obra que causa admiração.

Os milagres significam as obras admiráveis ​​de Deus; e, portanto, também são chamados de maravilhas. E porque, em sua maioria, são realizados para significar o Seu mandamento, em ocasiões em que, sem eles, os homens tendem a duvidar (seguindo seu raciocínio natural particular) do que Ele ordenou e do que não ordenou, são comumente chamados nas Sagradas Escrituras de sinais, no mesmo sentido em que são chamados pelos latinos de ostentação e prefiguração, por mostrarem e prenunciarem aquilo que o Todo-Poderoso está prestes a realizar.

E, portanto, deve ser rara, não havendo causa natural conhecida para tal.

Para entendermos, portanto, o que é um milagre, devemos primeiro compreender quais são as obras que causam admiração e encantamento. E há apenas duas coisas que levam os homens a se maravilhar com qualquer evento: uma é se ele for estranho, isto é, se algo semelhante nunca ou muito raramente tiver ocorrido; a outra é se, quando acontece, não conseguimos imaginar que tenha sido realizado por meios naturais, mas somente pela mão direta de Deus. Mas quando vemos alguma causa natural possível, por mais raro que algo semelhante tenha acontecido; ou, se algo semelhante tiver acontecido muitas vezes, por mais impossível que seja imaginar um meio natural para isso, não nos maravilhamos mais, nem o consideramos um milagre.

Portanto, se um cavalo ou uma vaca falassem, seria um milagre, pois o evento em si é estranho e a causa natural é difícil de imaginar. O mesmo se aplicaria a uma estranha anomalia da natureza, resultando na criação de uma nova forma em um ser vivo. Mas quando um homem ou outro animal gera seu semelhante, embora não saibamos como isso acontece, assim como não sabemos o contrário, por ser algo comum, não é um milagre. Da mesma forma, se um homem se metamorfoseia em pedra ou em uma coluna, é um milagre, pois é algo estranho; mas se um pedaço de madeira se transforma dessa maneira, por vermos isso com frequência, não é um milagre; e, no entanto, não sabemos por qual ação de Deus um evento ocorre, assim como não sabemos o contrário.

O primeiro arco-íris visto no mundo foi um milagre, por ser o primeiro e, consequentemente, estranho, servindo como um sinal de Deus, colocado no céu, para assegurar ao seu povo que não haveria mais destruição universal do mundo pela água. Mas hoje em dia, por serem frequentes, não são considerados milagres, nem para aqueles que conhecem suas causas naturais, nem para aqueles que as desconhecem. Além disso, existem muitas obras raras produzidas pela arte humana; contudo, quando sabemos como foram feitas, porque assim também conhecemos os meios pelos quais foram feitas, não as consideramos milagres, por não serem realizadas pela mão direta de Deus, mas pela mediação da indústria humana.

O que parece um milagre para um homem, pode parecer o contrário para outro.

Além disso, a admiração e o espanto são consequência do conhecimento e da experiência que os homens possuem, alguns mais, outros menos; segue-se que a mesma coisa pode ser um milagre para um e não para outro. E daí que os ignorantes e supersticiosos fazem grandes maravilhas de obras que outros homens, sabendo que procedem da Natureza (que não é a obra imediata, mas a obra ordinária de Deus), não admiram de forma alguma: como quando os eclipses do Sol e da Lua foram tomados como obras sobrenaturais pelo povo comum; quando, no entanto, havia outros que, por suas causas naturais, poderiam ter previsto a hora exata em que ocorreriam; ou como quando um homem, por meio de conluio e inteligência secreta, obtendo conhecimento das ações privadas de um homem ignorante e incauto, lhe conta o que ele fez no passado; isso lhe parece um milagre; mas entre homens sábios e cautelosos, tais milagres não são fáceis de realizar.

O Fim dos Milagres

Novamente, pertence à natureza de um milagre ser realizado para conferir crédito aos Mensageiros, Ministros e Profetas de Deus, para que os homens saibam que eles são chamados, enviados e empregados por Deus, e assim estejam mais inclinados a obedecê-los. Portanto, embora a criação do mundo e, posteriormente, a destruição de todas as criaturas vivas no dilúvio universal tenham sido obras admiráveis, como não foram feitas para conferir crédito a nenhum Profeta ou outro Ministro de Deus, não costumam ser chamadas de milagres. Pois, por mais admirável que seja uma obra, a admiração não consiste em que ela possa ser feita, porque os homens naturalmente acreditam que o Todo-Poderoso pode fazer todas as coisas, mas sim porque Ele o faz mediante a oração ou a palavra de um homem. Mas as obras de Deus no Egito, pelas mãos de Moisés, foram propriamente milagres, porque foram feitas com a intenção de fazer o povo de Israel crer que Moisés veio a eles não por qualquer desígnio de seu próprio interesse, mas como enviado por Deus. Portanto, depois que Deus lhe ordenou que libertasse os israelitas da escravidão egípcia, quando ele disse (Êxodo 4:1, etc.): “Eles não acreditarão em mim, mas dirão: O Senhor não me apareceu”, Deus lhe deu poder para transformar a vara que tinha na mão em uma serpente e, novamente, transformá-la em vara; e, colocando a mão em seu peito, torná-lo leproso; e, novamente, retirando-a, torná-lo curado, para fazer os filhos de Israel crerem (como está no versículo 5) que o Deus de seus pais lhe havia aparecido; e, como se não bastasse, deu-lhe poder para transformar suas águas em sangue. E quando ele realizou esses milagres diante do povo, está escrito (versículo 41) que “eles creram nele”. Contudo, por medo de Faraó, eles ainda não ousavam obedecê-lo. Portanto, as outras obras realizadas para afligir o Faraó e os egípcios visavam fazer com que os israelitas cressem em Moisés, e eram propriamente milagres. Da mesma forma, se considerarmos todos os milagres realizados por Moisés e pelos demais profetas até o cativeiro, e os de nosso Salvador e seus apóstolos posteriormente, veremos que seu propósito sempre foi gerar ou confirmar a crença de que não provinham de sua própria vontade, mas eram enviados por Deus. Podemos ainda observar nas Escrituras que o objetivo dos milagres era gerar fé, não universalmente em todos os homens, eleitos e réprobos, mas somente nos eleitos, ou seja, naqueles que Deus havia determinado que se tornariam seus súditos. Pois aquelas pragas milagrosas do Egito não tinham como objetivo a conversão do Faraó; Pois Deus havia dito a Moisés antes que endureceria o coração de Faraó, para que não deixasse o povo partir; e quando finalmente os deixou partir, não foram os milagres que o persuadiram.Mas as pragas o forçaram a isso. Assim também sobre o nosso Salvador, está escrito (Mateus 13:58), que ele não realizou muitos milagres em sua própria terra, por causa da incredulidade deles; e (em Marcos 6:5), em vez de "ele não realizou muitos", está escrito "ele não pôde realizar nenhum". Não foi porque lhe faltasse poder; dizer isso seria uma blasfêmia contra Deus; nem porque o objetivo dos milagres não fosse converter os incrédulos a Cristo; pois o objetivo de todos os milagres de Moisés, dos profetas, do nosso Salvador e dos seus apóstolos era acrescentar homens à Igreja; mas sim porque o objetivo dos seus milagres era acrescentar à Igreja (não todos os homens, mas) aqueles que seriam salvos; isto é, aqueles que Deus havia escolhido. Visto, portanto, que o nosso Salvador foi enviado por seu Pai, ele não pôde usar o seu poder na conversão daqueles que seu Pai havia rejeitado. Aqueles que interpretam essa passagem de São Marcos dizem que sua palavra "Ele não pôde" é usada para "Ele não quis", fazendo-o sem exemplo na língua grega (onde "Não quis" às vezes é usado para "Não pôde" em coisas inanimadas, que não têm vontade; mas "Não pôde" para "Não quis" nunca), e assim colocam um obstáculo diante dos cristãos fracos; como se Cristo não pudesse fazer milagres, exceto entre os crédulos.

A definição de um milagre

Com base no que aqui apresentei sobre a natureza e a utilidade de um milagre, podemos defini-lo assim: “Um milagre é uma obra de Deus (além de sua atuação por meio da Natureza, ordenada na Criação), realizada para manifestar aos seus eleitos a missão de um ministro extraordinário para a sua salvação.”

E a partir dessa definição, podemos inferir: Primeiro, que em todos os milagres, a obra realizada não é efeito de nenhuma virtude do Profeta, pois é efeito da mão direta de Deus; ou seja, Deus a realizou sem usar o Profeta como causa secundária.

Em segundo lugar, nenhum demônio, anjo ou outro espírito criado pode realizar um milagre. Pois isso deve ser feito por meio da virtude de alguma ciência natural ou por encantamento, isto é, pela virtude das palavras. Porque se os encantadores o fazem por seu próprio poder independente, há algum poder que não procede de Deus; o que todos negam; e se o fazem por um poder que lhes foi dado, então a obra não provém diretamente de Deus, mas é natural e, consequentemente, não é um milagre.

Existem alguns textos das Escrituras que parecem atribuir o poder de realizar maravilhas (equivalentes a alguns dos milagres imediatos realizados pelo próprio Deus) a certas artes de magia e encantamentos. Por exemplo, quando lemos que, depois que a vara de Moisés, lançada ao chão, se transformou em uma serpente (Êxodo 7:11), “os magos do Egito fizeram o mesmo com seus encantamentos”; e que, depois que Moisés transformou as águas dos rios, lagoas e charcos egípcios em sangue (Êxodo 7:22), “os magos do Egito fizeram o mesmo com seus encantamentos”; e que, depois que Moisés, pelo poder de Deus, trouxe rãs à terra (Êxodo 8:7), “os magos também fizeram o mesmo com seus encantamentos e trouxeram rãs à terra do Egito”; não seria natural atribuir milagres a encantamentos? Ou seja, quanto à eficácia do som das palavras; e pensa que isso está muito bem comprovado por este e outros lugares semelhantes? E, no entanto, não há nenhum lugar nas Escrituras que nos diga o que é encantamento. Se, portanto, o encantamento não é, como muitos pensam, a produção de efeitos estranhos por meio de feitiços e palavras, mas sim impostura e ilusão, realizadas por meios comuns; e tão longe do sobrenatural, a ponto de os impostores não precisarem tanto do estudo das causas naturais, mas da ignorância, estupidez e superstição comuns da humanidade para praticá-los; então, aqueles textos que parecem endossar o poder da magia, da bruxaria e do encantamento devem, necessariamente, ter um sentido diferente daquele que aparentam ter à primeira vista.

Que os homens são propensos a serem enganados por falsos milagres.

Pois é evidente que as palavras só têm efeito sobre aqueles que as compreendem; e mesmo assim, não têm outra função senão a de expressar as intenções ou paixões de quem as fala, produzindo, assim, esperança, medo ou outras paixões ou concepções no ouvinte. Portanto, quando uma vara parece uma serpente, ou a água sangra, ou qualquer outro milagre parece ser realizado por encantamento, se não for para a edificação do povo de Deus, nem a vara, nem a água, nem qualquer outra coisa está encantada; isto é, manipulada pelas palavras, mas sim o espectador. Assim, todo o milagre consiste nisto: o encantador enganou um homem, o que não é milagre, mas algo muito fácil de se fazer.

Pois tal é a ignorância e a propensão ao erro em geral de todos os homens, mas especialmente daqueles que não têm muito conhecimento das causas naturais, da natureza e dos interesses dos homens; como sendo tão suscetíveis a serem enganados por inúmeros e fáceis truques. Que opinião de poder miraculoso, antes de se saber da existência da Ciência do curso das Estrelas, poderia um homem ter conquistado se dissesse às pessoas: "Nesta hora ou neste dia, o Sol escurecerá"? Um ilusionista, ao manusear seus cálices e outras bugigangas, se isso não fosse uma prática comum hoje em dia, seria considerado como realizando seus milagres pelo poder, no mínimo, do Diabo. Um homem que pratica falar inspirando (esse tipo de homem era chamado antigamente de ventríloquo), fazendo com que a fraqueza de sua voz pareça provir não da fraca impulsão dos órgãos da fala, mas da distância, é capaz de fazer muitos acreditarem que se trata de uma voz do Céu, qualquer que seja o seu desejo. E para um homem astuto, que tenha investigado os segredos e as confissões que um homem costuma fazer a outro sobre suas ações e aventuras passadas, contá-las novamente não é difícil; e, no entanto, muitos obtêm, por meios como esse, a reputação de serem ilusionistas. Mas seria um assunto muito extenso enumerar os diversos tipos daqueles homens que os gregos chamavam de Taumaturgos, isto é, praticantes de coisas maravilhosas; e, no entanto, estes fazem tudo o que fazem por sua própria destreza. Mas se observarmos as imposturas perpetradas por conluio, não há nada, por mais impossível que seja, que seja impossível de acreditar. Pois dois homens conspirando, um fingindo-se de aleijado e o outro curando-o com um feitiço, enganarão muitos; mas muitos conspirando, um fingindo-se de aleijado, outro curando-o e todos os demais testemunhando, enganarão muito mais.

Advertências contra a impostura de milagres

Nessa tendência humana de acreditar precipitadamente em supostos milagres, não há melhor advertência, nem creio que haja outra, senão aquela que Deus prescreveu, primeiramente por meio de Moisés (como já mencionei no capítulo precedente), no início do capítulo 13 e no final do capítulo 18 de Deuteronômio: que não tomemos por profetas aqueles que ensinam qualquer religião que não seja aquela estabelecida pelo Tenente de Deus (que naquela época era Moisés); nem aqueles (mesmo que ensinem a mesma religião) cuja profecia não se cumpra. Portanto, Moisés em seu tempo, Arão e seus sucessores em seus tempos, e o Soberano Governador do povo de Deus, logo abaixo do próprio Deus, ou seja, o Chefe da Igreja em todos os tempos, devem ser consultados quanto à doutrina que estabeleceram, antes de darmos crédito a um suposto milagre ou profeta. E quando isso acontecer, o que eles alegam ser um milagre, devemos tanto vê-lo acontecer quanto usar todos os meios possíveis para verificar se realmente aconteceu; e não apenas se aconteceu, mas se foi algo que nenhum homem poderia fazer por seu poder natural, mas que requer a intervenção direta de Deus. E nisso também devemos recorrer ao Tenente de Deus, a quem, em todos os casos duvidosos, submetemos nossos julgamentos particulares. Por exemplo: se um homem alega que, após certas palavras proferidas sobre um pedaço de pão, Deus o transformou não em pão, mas em um Deus, ou em um homem, ou em ambos, e, no entanto, ele ainda parece pão como sempre pareceu, não há razão para ninguém pensar que isso realmente aconteceu; nem, consequentemente, para temê-lo, até que ele consulte a Deus, por meio de seu Vigário ou Tenente, para saber se aconteceu ou não. Se ele não disser, então segue-se o que Moisés disse (Deuteronômio 18:22): “Ele falou com presunção; não o temerás”. Se ele disser que está feito, então não deve contradizê-lo. Da mesma forma, se não vemos, mas apenas ouvimos falar de um milagre, devemos consultar a Igreja legítima, isto é, seu legítimo líder, sobre até que ponto devemos dar crédito aos que o relatam. E este é principalmente o caso dos homens que, nestes dias, vivem sob a soberania cristã. Pois, nestes tempos, não conheço um homem sequer que tenha visto uma obra tão maravilhosa, realizada por encanto, palavra ou oração, que um homem dotado de raciocínio medíocre consideraria sobrenatural. E a questão não é mais se o que vemos ser feito é um milagre; se o milagre que ouvimos ou lemos foi uma obra real e não o ato de uma língua ou pena. Mas, em termos claros, se o relato é verdadeiro ou mentira. Nessa questão, não cabe a cada um usar sua própria razão ou consciência particular, mas sim a razão pública, isto é, a razão do Supremo Senhor de Deus.Juiz; e, de fato, já o fizemos Juiz, se lhe conferimos um poder soberano para fazer tudo o que for necessário para a nossa paz e defesa. Um indivíduo tem sempre a liberdade (porque o pensamento é livre) de crer, ou não, em seu coração, nos atos que lhe foram atribuídos como milagres, conforme julgar o benefício que a crença humana pode trazer àqueles que os reivindicam ou apoiam, e, assim, conjecturam se são milagres ou mentiras. Mas, quando se trata da confissão dessa fé, a razão privada deve submeter-se à pública; isto é, ao representante de Deus. Mas quem é esse representante de Deus e chefe da Igreja será considerado em seu devido lugar mais adiante.

CAPÍTULO XXXVIII.
DO SIGNIFICADO NAS ESCRITURAS DA VIDA ETERNA, DO INFERNO, DA SALVAÇÃO, DO MUNDO VIVO E DA REDENÇÃO

A manutenção da sociedade civil depende da justiça; e a justiça, do poder da vida e da morte, e de outras recompensas e punições menores, que residem naqueles que detêm a soberania da comunidade; é impossível que uma comunidade se sustente onde qualquer outro, que não o soberano, tenha o poder de conceder recompensas maiores do que a vida e de infligir punições maiores do que a morte. Ora, visto que a vida eterna é uma recompensa maior do que a vida presente, e o tormento eterno uma punição maior do que a morte natural, é algo digno de ser bem considerado por todos os homens que desejam (obedecendo à autoridade) evitar as calamidades da confusão e da guerra civil, o que se entende nas Sagradas Escrituras por vida eterna e tormento eterno; e por quais ofensas, contra quem cometidas, os homens serão eternamente atormentados; e por quais ações eles obterão a vida eterna.

O lugar da eternidade de Adão, se ele não tivesse pecado, o paraíso terrestre.

E, em primeiro lugar, descobrimos que Adão foi criado em tal condição de vida que, se não tivesse transgredido o mandamento de Deus, teria desfrutado eternamente do Paraíso do Éden. Pois ali estava a Árvore da Vida, da qual lhe foi permitido comer enquanto se abstivesse de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que lhe foi proibido. E, portanto, assim que comeu dela, Deus o expulsou do Paraíso, “para que não estendesse a mão e tomasse também da árvore da vida, e vivesse para sempre” (Gênesis 3:22). Com isso, parece-me (com submissão, contudo, tanto nesta como em todas as questões cuja resolução depende das Escrituras, da interpretação da Bíblia autorizada pela Comunidade, da qual sou súdito) que Adão, se não tivesse pecado, teria tido uma Vida Eterna na Terra; e que a Mortalidade se impôs a ele e à sua posteridade pelo seu primeiro pecado. Não que a Morte propriamente dita tenha então se imposto; Pois Adão, naquela época, jamais poderia ter tido filhos; enquanto que viveu muito tempo depois e viu uma numerosa posteridade antes de morrer. Mas onde se diz: “No dia em que dele comeres, certamente morrerás”, isso deve necessariamente se referir à sua mortalidade e à certeza da morte. Visto que a vida eterna foi perdida pela transgressão de Adão, ao cometer pecado, aquele que anulasse essa transgressão recuperaria, por meio dela, essa vida novamente. Ora, Jesus Cristo satisfez os pecados de todos os que creem nele; e, portanto, recuperou para todos os crentes a vida eterna que foi perdida pelo pecado de Adão. E é nesse sentido que se fundamenta a comparação de São Paulo (Romanos 5:18, 19): “Assim como pela ofensa de um só veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também pela justiça de um só veio a graça sobre todos os homens para justificação de vida”. O que é novamente (1 Coríntios 15:21,22) expresso de forma mais clara nestas palavras: “Porque, assim como a morte veio por um homem, também a ressurreição dos mortos veio por um homem. Pois, assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados”.

Textos sobre o lugar da vida eterna para os crentes

Quanto ao lugar onde os homens desfrutarão da Vida Eterna que Cristo lhes conquistou, os textos citados a seguir parecem indicar que será na Terra. Pois, se, como em Adão, todos morrem, isto é, perdem o Paraíso e a Vida Eterna na Terra, assim também em Cristo todos serão vivificados; então todos os homens viverão na Terra, pois, do contrário, a comparação não seria apropriada. Nisso parece concordar o que disse o Salmista (Salmo 133:3): “Sobre Sião Deus ordenou a bênção, a vida para sempre”; pois Sião fica em Jerusalém, na Terra; assim como o que disse São João (Apocalipse 2:7): “Ao vencedor, darei a comer da árvore da vida, que está no meio do Paraíso de Deus”. Esta era a árvore da vida eterna de Adão; mas a sua vida deveria ter sido na Terra. O mesmo parece ser confirmado por São João. (Apocalipse 21:2) onde ele diz: “Eu, João, vi a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, descendo do céu, da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para o seu esposo”; e novamente no versículo 10, com o mesmo efeito: como se ele estivesse dizendo que a Nova Jerusalém, o Paraíso de Deus, na segunda vinda de Cristo, desceria do céu para o povo de Deus, e não que eles subiriam da Terra para lá. E isso não difere em nada do que os dois homens vestidos de branco (isto é, os dois anjos) disseram aos apóstolos, que observavam Cristo ascender (Atos 1:11): “Este mesmo Jesus, que dentre vós foi elevado ao céu, há de vir assim como para o céu o vistes subir”. O que soa como se tivessem dito que ele desceria para governá-los sob a autoridade de seu Pai, eternamente aqui; e não que os levaria para governar no céu; e está em conformidade com a Restauração do Reino de Deus, instituída sob Moisés; que era um governo político dos judeus na Terra. Novamente, aquela declaração do nosso Salvador (Mateus 22:30): “Na ressurreição, as pessoas não se casam nem são dadas em casamento, mas são como os anjos de Deus no céu”, é uma descrição de uma Vida Eterna, semelhante àquela que perdemos em Adão no que diz respeito ao casamento. Pois, se Adão e Eva não tivessem pecado e tivessem vivido na Terra eternamente, individualmente, é evidente que não teriam se reproduzido continuamente. Se os imortais tivessem se reproduzido como a humanidade faz agora, a Terra, em pouco tempo, não teria condições de sustentá-los. Os judeus que perguntaram ao nosso Salvador de quem seria a esposa da mulher que se casou com muitos irmãos na ressurreição, não sabiam quais seriam as consequências da imortalidade: que não haveria geração e, consequentemente, nenhum casamento, assim como não há casamento ou geração entre os anjos. A comparação entre aquela vida eterna que Adão perdeu,E o nosso Salvador, pela sua vitória sobre a morte, recuperou a vida eterna; sustenta também nisto: assim como Adão perdeu a vida eterna pelo seu pecado, e ainda assim viveu por um tempo, assim também o cristão fiel recuperou a vida eterna pela paixão de Cristo, embora morra de morte natural e permaneça morto por um tempo, a saber, até a ressurreição. Pois, assim como a morte é contada a partir da condenação de Adão, e não da sua execução, assim também a vida é contada a partir da absolvição, e não da ressurreição daqueles que são eleitos em Cristo.

Ascensão aos Céus

Que o lugar onde os homens viverão eternamente, após a Ressurreição, sejam os Céus, entendendo-se por Céus as partes do mundo mais distantes da Terra, como onde estão as estrelas, ou acima das estrelas, em um outro Céu Superior, chamado Caelum Empyreum (do qual não há menção nas Escrituras, nem fundamento na razão), não é algo que se possa facilmente inferir de qualquer texto que eu tenha encontrado. Por Reino dos Céus, entende-se o Reino do Rei que habita nos Céus; e o seu Reino era o povo de Israel, a quem ele governou por meio dos Profetas, seus tenentes, primeiro Moisés, e depois Eleazar, e os Sacerdotes Soberanos, até que nos dias de Samuel se rebelaram e quiseram ter um homem mortal como seu Rei, à semelhança de outras nações. E quando nosso Salvador Cristo, pela pregação de seus ministros, tiver persuadido os judeus a retornarem e chamado os gentios à sua obediência, então haverá um novo Reino dos Céus, porque nosso Rei será então Deus, cujo Trono é o Céu; sem que haja qualquer necessidade evidente nas Escrituras de que o homem ascenda à felicidade acima do Escabelo dos Pés de Deus, a Terra. Ao contrário, encontramos escrito (João 3:13) que “ninguém subiu ao céu, senão aquele que desceu do céu, o Filho do homem, que está no céu”. Observo, aliás, que estas palavras não são, como as que as precedem, palavras de nosso Salvador, mas do próprio São João; pois Cristo não estava então no Céu, mas na Terra. O mesmo se diz de Davi (Atos 2:34), onde São Pedro, para provar a Ascensão de Cristo, usando as palavras do Salmista (Salmo 16:10): “Não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja a corrupção”, diz que estas palavras foram ditas (não de Davi, mas) de Cristo; e para provar isso, acrescenta esta razão: “Porque Davi não ascendeu ao Céu”. Mas a isso alguém pode facilmente responder, dizendo que, embora seus corpos não ascendessem até o dia do Juízo Final, suas almas estavam no Céu assim que se separaram de seus corpos; o que também parece ser confirmado pelas palavras de nosso Salvador (Lucas 20:37,38), que, comprovando a Ressurreição pelas palavras de Moisés, diz o seguinte: “Que os mortos ressuscitam, como Moisés já havia mostrado na sarça ardente, quando invoca o Senhor, Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó. Pois ele não é Deus de mortos, mas de vivos; porque para ele todos vivem”. Mas se essas palavras forem entendidas apenas como referentes à imortalidade da alma, elas não comprovam de modo algum o que nosso Salvador pretendia comprovar, que era a ressurreição do corpo, isto é, a imortalidade do homem. Portanto, nosso Salvador quis dizer,Que aqueles Patriarcas eram imortais; não por uma propriedade consequente à essência e à natureza da humanidade, mas pela vontade de Deus, que se agradou em Sua pura graça de conceder a Vida Eterna aos fiéis. E embora naquela época os Patriarcas e muitos outros homens fiéis estivessem mortos, ainda assim, como está no texto, eles viveram para Deus; isto é, foram escritos no Livro da Vida com aqueles que foram absolvidos de seus pecados e ordenados à Vida eterna na Ressurreição. Que a alma do homem seja em sua própria natureza eterna e uma criatura vivente independente do corpo; ou que qualquer mero homem seja imortal, a não ser pela Ressurreição no último dia (exceto Enos e Elias), é uma doutrina não aparente nas Escrituras. Todo o capítulo 14 de Jó, que é o discurso não de seus amigos, mas dele mesmo, é uma queixa desta mortalidade da natureza; e, no entanto, não contradiz a imortalidade na Ressurreição. “Há esperança para uma árvore”, diz ele no versículo 7, “se for derrubada, ainda que a sua raiz envelheça e o seu tronco morra na terra, quando sentir o cheiro da água, brotará e dará ramos como uma planta. Mas o homem morre e se consome; sim, o homem expira, e onde está ele?” e (versículo 12) “o homem se deita e não se levanta, até que os céus não existam mais”. Mas quando será que os céus deixarão de existir? São Pedro nos diz que será na Ressurreição geral. Pois em sua 2ª Epístola, 3º Capítulo, 7º versículo, ele diz que “os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, para o dia do juízo e da destruição dos homens ímpios”, e (versículo 12) “aguardando e apressando a vinda de Deus, na qual os céus estarão em chamas e serão dissolvidos, e os elementos se derreterão com calor intenso. Contudo, nós, segundo a promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça”. Portanto, quando Jó diz que o homem não ressuscitará até que os céus deixem de existir, tudo é uma coisa só, como se ele tivesse dito que a Vida Imortal (e Alma e Vida, nas Escrituras, geralmente significam a mesma coisa) não começa no homem até a Ressurreição e o dia do juízo; e tem como causa não sua natureza e geração específicas, mas a Promessa. Pois São Pedro não diz: “Esperamos novos céus e uma nova terra (da Natureza), mas da Promessa”.Que a alma do homem seja eterna por natureza e uma criatura viva independente do corpo; ou que qualquer mero homem seja imortal, exceto pela ressurreição no último dia (com exceção de Enos e Elias), é uma doutrina não aparente nas Escrituras. Todo o capítulo 14 de Jó, que não é o discurso de seus amigos, mas dele próprio, é uma queixa dessa mortalidade da natureza; e, no entanto, não contradiz a imortalidade na ressurreição. “Há esperança para uma árvore”, diz ele no versículo 7, “se for derrubada, ainda que a sua raiz envelheça e o seu tronco morra na terra, quando sentir o cheiro da água, brotará e dará ramos como uma planta. Mas o homem morre e se consome; sim, o homem expira, e onde está ele?” e (versículo 12) “o homem se deita e não se levanta, até que os céus não existam mais”. Mas quando será que os céus deixarão de existir? São Pedro nos diz que isso ocorre na Ressurreição geral. Pois em sua 2ª Epístola, capítulo 3, versículo 7, ele afirma que “os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, para o dia do juízo e da destruição dos ímpios”, e (versículo 12) “aguardando e apressando a vinda de Deus, na qual os céus serão incendiados e se dissolverão, e os elementos se derreterão com intenso calor. Contudo, nós, segundo a promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça”. Portanto, quando Jó diz que o homem não ressuscitará até que os céus deixem de existir, tudo se resume a uma mesma coisa, como se ele tivesse dito que a Vida Imortal (e Alma e Vida, nas Escrituras, geralmente significam a mesma coisa) não começa no homem até a Ressurreição e o dia do juízo; e tem como causa não sua natureza e geração específicas, mas a Promessa. Pois São Pedro não diz: “Esperamos novos céus e uma nova terra (da Natureza), mas da Promessa”.Que a alma do homem seja eterna por natureza e uma criatura viva independente do corpo; ou que qualquer mero homem seja imortal, exceto pela ressurreição no último dia (com exceção de Enos e Elias), é uma doutrina não aparente nas Escrituras. Todo o capítulo 14 de Jó, que não é o discurso de seus amigos, mas dele próprio, é uma queixa dessa mortalidade da natureza; e, no entanto, não contradiz a imortalidade na ressurreição. “Há esperança para uma árvore”, diz ele no versículo 7, “se for derrubada, ainda que a sua raiz envelheça e o seu tronco morra na terra, quando sentir o cheiro da água, brotará e dará ramos como uma planta. Mas o homem morre e se consome; sim, o homem expira, e onde está ele?” e (versículo 12) “o homem se deita e não se levanta, até que os céus não existam mais”. Mas quando será que os céus deixarão de existir? São Pedro nos diz que isso ocorre na Ressurreição geral. Pois em sua 2ª Epístola, capítulo 3, versículo 7, ele afirma que “os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, para o dia do juízo e da destruição dos ímpios”, e (versículo 12) “aguardando e apressando a vinda de Deus, na qual os céus serão incendiados e se dissolverão, e os elementos se derreterão com intenso calor. Contudo, nós, segundo a promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça”. Portanto, quando Jó diz que o homem não ressuscitará até que os céus deixem de existir, tudo se resume a uma mesma coisa, como se ele tivesse dito que a Vida Imortal (e Alma e Vida, nas Escrituras, geralmente significam a mesma coisa) não começa no homem até a Ressurreição e o dia do juízo; e tem como causa não sua natureza e geração específicas, mas a Promessa. Pois São Pedro não diz: “Esperamos novos céus e uma nova terra (da Natureza), mas da Promessa”.que isso ocorre na Ressurreição geral. Pois em sua 2ª Epístola, 3º capítulo, versículo 7, ele diz que “os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, para o dia do juízo e da destruição dos homens ímpios”, e (versículo 12) “aguardando e apressando a vinda de Deus, na qual os céus estarão em chamas e serão dissolvidos, e os elementos se derreterão com calor intenso. Contudo, nós, segundo a promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça”. Portanto, quando Jó diz que o homem não ressuscitará até que os céus deixem de existir, tudo é a mesma coisa, como se ele tivesse dito que a Vida Imortal (e Alma e Vida, nas Escrituras, geralmente significam a mesma coisa) não começa no homem até a Ressurreição e o dia do juízo; e tem como causa não sua natureza e geração específicas, mas a Promessa. Pois São Pedro não diz: “Esperamos novos céus e uma nova terra (da Natureza), mas da Promessa”.que isso ocorre na Ressurreição geral. Pois em sua 2ª Epístola, 3º capítulo, versículo 7, ele diz que “os céus e a terra que agora existem estão reservados para o fogo, para o dia do juízo e da destruição dos homens ímpios”, e (versículo 12) “aguardando e apressando a vinda de Deus, na qual os céus estarão em chamas e serão dissolvidos, e os elementos se derreterão com calor intenso. Contudo, nós, segundo a promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra, nos quais habita a justiça”. Portanto, quando Jó diz que o homem não ressuscitará até que os céus deixem de existir, tudo é a mesma coisa, como se ele tivesse dito que a Vida Imortal (e Alma e Vida, nas Escrituras, geralmente significam a mesma coisa) não começa no homem até a Ressurreição e o dia do juízo; e tem como causa não sua natureza e geração específicas, mas a Promessa. Pois São Pedro não diz: “Esperamos novos céus e uma nova terra (da Natureza), mas da Promessa”.

Por fim, visto que já foi comprovado em diversas passagens evidentes das Escrituras, no capítulo 35 deste livro, que o Reino de Deus é uma comunidade civil, onde o próprio Deus é soberano, por virtude, primeiro na Antiga Aliança e depois na Nova Aliança, na qual Ele reina por meio de Seu Vigário ou Tenente; as mesmas passagens comprovam, portanto, que após a vinda de nosso Salvador em Sua Majestade e glória, para reinar de fato e eternamente, o Reino de Deus estará na Terra. Mas, como esta doutrina (embora comprovada em diversas passagens das Escrituras, nem obscuras) parecerá novidade para a maioria dos homens, eu apenas a apresento, não defendendo nada neste ou em qualquer outro paradoxo da religião, mas aguardando o fim daquela disputa da espada concernente à Autoridade (ainda não decidida entre meus compatriotas) pela qual todos os tipos de doutrina devem ser aprovados ou rejeitados. e cujos mandamentos, tanto em fala quanto por escrito (quaisquer que sejam as opiniões de indivíduos), devem ser obedecidos por todos aqueles que pretendem ser protegidos por suas leis. Pois os pontos da doutrina concernentes ao Reino de Deus têm tamanha influência sobre o Reino do Homem, que não podem ser determinados senão por aqueles que, sob Deus, detêm o Poder Soberano.

O lugar após o julgamento, daqueles que nunca estiveram no reino de Deus, ou que, tendo estado nele, são expulsos.

Assim como o Reino de Deus e a Vida Eterna, também os Inimigos de Deus e seus Tormentos após o Juízo Final, segundo as Escrituras, têm seu lugar na Terra. O nome do lugar onde todos os homens permanecem até a Ressurreição, aqueles que foram sepultados ou engolidos pela Terra, é geralmente mencionado nas Escrituras por palavras que significam "sob a terra"; os latinos leem geralmente como Infernus e Inferni, e os gregos como Hades; ou seja, um lugar onde os homens não podem ver e que contém tanto a sepultura quanto qualquer outro lugar mais profundo. Mas o lugar dos condenados após a Ressurreição não é determinado, nem no Antigo nem no Novo Testamento, por qualquer indicação de localização, mas apenas pela companhia: como se fosse onde estavam os homens ímpios que Deus, em tempos passados, destruiu de maneira extraordinária e milagrosa da face da Terra; por exemplo, que eles estão no Inferno, no Tártaro ou no abismo sem fundo. porque Corá, Datã e Abirom foram engolidos vivos pela terra. Não que os Escritores das Escrituras queiram que acreditemos que possa haver no globo terrestre, que não só é finito, mas também (comparado à altura das estrelas) de magnitude insignificante, um poço sem fundo; isto é, um buraco de profundidade infinita, como os gregos em sua Daemonologie (isto é, em sua doutrina sobre os demônios), e depois deles, os romanos, chamavam de Tártaro; do qual Virgílio diz,

Bis patet in præceps, tantem tendítque sub umbras,
Quantus ad æthereum cœli suspeitos Olympum:

pois isso é algo que a proporção entre a Terra e o Céu não pode suportar: mas devemos crer que eles estão lá, indefinidamente, onde estão aqueles homens sobre os quais Deus infligiu esse castigo exemplar.

A Congregação dos Gigantes

Novamente, porque aqueles homens poderosos da Terra, que viveram na época de Noé, antes do dilúvio (os quais os gregos chamavam de Heróis e as Escrituras de Gigantes, e ambos dizem que foram gerados pela cópula dos filhos de Deus com os filhos dos homens), foram destruídos pelo dilúvio geral por causa de sua vida perversa; o lugar dos Condenados, portanto, também é às vezes marcado pela companhia desses Gigantes falecidos; como em Provérbios 21:16: “O homem que se desvia do caminho do entendimento permanecerá na congregação dos Gigantes”, e Jó 26:5: “Eis que os Gigantes gemem debaixo d'água, e os que habitam com eles”. Aqui, o lugar dos Condenados é debaixo d'água. E em Isaías 14:9: “O inferno está perturbado em como te encontrar” (isto é, o Rei da Babilônia) “e deslocará os Gigantes por tua causa”; e aqui novamente, o lugar dos Condenados (se o sentido for literal) é debaixo d'água.

Lago de Fogo

Em terceiro lugar, porque as cidades de Sodoma e Gomorra, pela extraordinária ira de Deus, foram consumidas por sua maldade com fogo e enxofre, e juntamente com elas a região circundante formou um lago fétido e betuminoso; o lugar dos condenados é às vezes expresso por fogo e um lago de fogo: como em Apocalipse, capítulo 21, versículo 8: “Mas os medrosos, os incrédulos, os abomináveis, os assassinos, os impuros, os feiticeiros, os idólatras e todos os mentirosos terão a sua parte no lago que arde com fogo e enxofre, que é a segunda morte”. Assim, fica evidente que o fogo do inferno, aqui expresso por metáfora, a partir do fogo real de Sodoma, não significa um tipo ou lugar específico de tormento, mas deve ser entendido indefinidamente como destruição, como no capítulo 20, versículo 14. onde se diz que “a Morte e o Inferno foram lançados no Lago de Fogo”; isto é, foram abolidos e destruídos; como se, após o Dia do Juízo Final, não houvesse mais morte, nem ida ao Inferno; ou seja, não se pudesse mais ir para o Hades (palavra da qual talvez derive a nossa palavra Inferno), o que é o mesmo que não haver mais morte.

Escuridão total

Em quarto lugar, a partir da Praga das Trevas infligida aos egípcios, da qual está escrito (Êxodo 10:23): “Eles não se viam uns aos outros, nem ninguém se levantou do seu lugar por três dias; mas todos os filhos de Israel tinham luz nas suas tendas”, o lugar dos ímpios após o Juízo é chamado de Trevas Totais, ou (como no original) Trevas Exteriores. E assim é expresso (Mateus 22:13), onde o Rei ordena aos seus servos: “Amarrem de pés e mãos o homem que não estava vestido com a sua veste nupcial e o lancem fora”, Eis To Skotos To Exoteron, Trevas Exteriores, ou Trevas Exteriores: que, embora traduzido como Trevas Totais, não significa quão grande, mas onde essa escuridão deve estar; ou seja, fora da habitação dos eleitos de Deus.

Geena e Tofete

Por fim, havia um lugar perto de Jerusalém, chamado Vale dos Filhos de Hinom; numa parte do qual, chamada Tofete, os judeus cometeram a mais grave idolatria, sacrificando seus filhos ao ídolo Moloque; e onde Deus afligiu seus inimigos com os mais graves castigos; e onde Josias queimou os sacerdotes de Moloque em seus próprios altares, como se vê detalhadamente em 2 Reis, capítulo 23. O lugar serviu, posteriormente, para receber a imundície e o lixo que ali eram trazidos para fora da cidade; e ali eram feitas fogueiras de tempos em tempos para purificar o ar e eliminar o fedor da carniça. Desse lugar abominável, os judeus passaram a chamar o lugar dos condenados de Geena, ou Vale de Hinom. E esta Geena é a palavra que geralmente é traduzida hoje como INFERNO. E dos incêndios que ali queimam de tempos em tempos, temos a noção de um fogo eterno e inextinguível.

Do sentido literal das Escrituras concernente ao inferno

Visto que não há ninguém que interprete as Escrituras como se, após o Dia do Juízo Final, os ímpios fossem todos punidos eternamente no Vale de Hinom; ou que ressuscitariam de tal forma que permaneceriam para sempre debaixo da terra ou debaixo d'água; ou que, após a Ressurreição, não se veriam mais uns aos outros, nem se moveriam de um lugar para outro; segue-se, a meu ver, necessariamente, que o que foi dito a respeito do Fogo do Inferno é dito metaforicamente; e que, portanto, há um sentido próprio a ser investigado (pois de todas as metáforas há algum fundamento real que pode ser expresso em palavras próprias), tanto do Lugar do Inferno quanto da natureza do Tormento Infernal e dos Torturadores.

Satanás, Diabo, não são nomes próprios, mas sim apelidos.

E, em primeiro lugar, quanto aos Atormentadores, temos sua natureza e propriedades descritas de forma exata e apropriada pelos nomes de O Inimigo, ou Satanás; O Acusador, ou Diabo; O Destruidor, ou Abaddon. Esses nomes significativos, Satanás, Diabo, Abaddon, não nos apresentam uma pessoa individual, como costumam fazer os nomes próprios, mas apenas um ofício ou qualidade; e são, portanto, apelativos; que não deveriam ter sido deixados sem tradução, como estão, nas Bíblias latinas e modernas; porque, dessa forma, parecem ser os nomes próprios de demônios; e os homens são mais facilmente seduzidos a acreditar na doutrina dos demônios; que, naquela época, era a religião dos gentios e contrária à de Moisés e de Cristo.

E porque por Inimigo, Acusador e Destruidor se entende o Inimigo daqueles que estarão no Reino de Deus; portanto, se o Reino de Deus, após a Ressurreição, estiver na Terra (como mostrei no capítulo anterior, com base nas Escrituras), o Inimigo e seu Reino também devem estar na Terra. Pois assim também era no tempo anterior à deposição de Deus pelos judeus. O Reino de Deus estava na Palestina, e as nações ao redor eram os Reinos do Inimigo; e, consequentemente, por Satanás se entende qualquer Inimigo terreno da Igreja.

Tormentos do Inferno

Os tormentos do inferno são expressos, às vezes, por "choro e ranger de dentes", como em Mateus 8:12; outras vezes, pelo "verme da consciência", como em Isaías 66:24 e Marcos 9:44, 46, 48; outras ainda, pelo fogo, como na passagem citada: "onde o verme não morre, e o fogo não se apaga", e em muitas outras passagens; e outras ainda por "vergonha e desprezo", como em Daniel 12:2: "E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno". Todas essas passagens representam metaforicamente uma tristeza e um descontentamento mental diante da felicidade eterna nos outros, felicidade essa que eles próprios perderam por sua incredulidade e desobediência. E porque essa felicidade nos outros só é perceptível por comparação com suas próprias misérias reais. Segue-se que eles sofrerão dores corporais e calamidades como as que são inerentes àqueles que não apenas vivem sob governantes maus e cruéis, mas também têm como inimigo o Rei Eterno dos Santos, Deus Todo-Poderoso. E entre essas dores corporais, deve-se contar também a cada um dos ímpios uma segunda morte. Pois, embora as Escrituras sejam claras quanto a uma ressurreição universal, não lemos que a qualquer dos réprobos seja prometida a vida eterna. Já que São Paulo (1 Coríntios 15:42, 43), ao responder à pergunta sobre com que corpos os homens ressuscitarão, diz que “o corpo é semeado em corrupção e ressuscita em incorrupção; é semeado em desonra e ressuscita em glória; é semeado em fraqueza e ressuscita em poder;” Glória e poder não podem ser aplicados aos corpos dos ímpios; nem o nome de Segunda Morte pode ser aplicado àqueles que jamais morrerão senão uma vez. E embora, em linguagem metafórica, uma vida calamitosa eterna possa ser chamada de Morte Eterna, não pode ser bem compreendida como uma Segunda Morte. O fogo preparado para os ímpios é um Fogo Eterno: isto é, o estado em que nenhum homem pode estar sem tortura, tanto física quanto mental, após a Ressurreição, perdurará para sempre; e nesse sentido o Fogo será inextinguível e os tormentos eternos. Mas não se pode inferir daí que aquele que for lançado nesse fogo, ou atormentado por esses tormentos, perdurará e resistirá a eles a ponto de ser eternamente queimado e torturado, sem jamais ser destruído ou morrer. E embora haja muitos lugares que afirmem o Fogo Eterno e os Tormentos (nos quais os homens podem ser lançados sucessivamente, um após o outro, para sempre), não encontro nenhum que afirme que haverá uma Vida Eterna para qualquer pessoa individual; mas, ao contrário, uma Morte Eterna, que é a Segunda Morte: (Apocalipse 20:13,14). “Pois depois da Morte,E a sepultura entregará os mortos que nela havia, e cada um será julgado segundo as suas obras; a morte e a sepultura serão lançadas no lago de fogo. Esta é a segunda morte.” Com isso, fica evidente que haverá uma segunda morte para todo aquele que for condenado no dia do juízo, após a qual não morrerá mais.

As alegrias da vida eterna e a salvação são a mesma coisa: salvação do pecado e da miséria, tudo uma só.

As alegrias da Vida Eterna são compreendidas nas Escrituras sob o nome de SALVAÇÃO, ou Ser Salvo. Ser salvo é estar seguro, seja contra males específicos, seja contra todo o mal, incluindo a miséria, a doença e a própria morte. E porque o homem foi criado em uma condição imortal, não sujeito à corrupção e, consequentemente, a nada que tenda à dissolução de sua natureza; e caiu dessa felicidade pelo pecado de Adão; segue-se que ser salvo do pecado é ser salvo de todo o mal e das calamidades que o pecado nos trouxe. Portanto, nas Sagradas Escrituras, a remissão do pecado e a salvação da morte e da miséria são a mesma coisa, como se vê pelas palavras de nosso Salvador, que, tendo curado um paralítico, disse (Mateus 9:2): “Filho, tenha bom ânimo, os teus pecados te são perdoados”. E sabendo que os escribas consideravam blasfêmia que um homem pretendesse perdoar pecados, perguntou-lhes (v. 5): “Seria mais fácil dizer: ‘Teus pecados te são perdoados’ ou: ‘Levanta-te e anda’”, significando com isso que, quanto à salvação dos enfermos, era a mesma coisa dizer “Teus pecados te são perdoados” e “Levanta-te e anda”; e que usava essa forma de expressão apenas para mostrar que tinha poder para perdoar pecados. E é evidente, além disso, que, visto que a morte e a miséria eram os castigos do pecado, a expiação do pecado também deveria ser a expiação da morte e da miséria; isto é, a salvação absoluta, da qual os fiéis desfrutarão após o dia do juízo, pelo poder e favor de Jesus Cristo, que por essa razão é chamado nosso Salvador.

No que diz respeito a salvações particulares, como as que se entendem em 1 Samuel 14:39: “Tão certo como vive o Senhor, que salva a Israel”, isto é, de seus inimigos temporários; em 2 Samuel 22:4: “Tu és o meu Salvador; tu me livras da violência”; e em 2 Reis 13:5: “Deus deu aos israelitas um Salvador, e assim foram libertados das mãos dos assírios”, e similares, nada preciso dizer, pois não há dificuldade nem interesse em corromper a interpretação de textos desse tipo.

O Lugar da Salvação Eterna

Mas, quanto à Salvação Geral, visto que ela deve ocorrer no Reino dos Céus, há grande dificuldade em relação ao Lugar. Por um lado, por Reino (que é um estado ordenado pelos homens para sua segurança perpétua contra inimigos e necessidades), parece que essa Salvação deveria ser na Terra. Pois a Salvação nos é apresentada como um reinado glorioso do nosso Rei, por meio da Conquista; não uma segurança por meio da Fuga: e, portanto, onde buscamos a Salvação, devemos também buscar o Triunfo; e antes do Triunfo, a Vitória; e antes da Vitória, a Batalha; o que não se pode supor que ocorrerá no Céu. Mas, por melhor que seja essa razão, não confiarei nela sem passagens muito evidentes das Escrituras. O estado de Salvação é descrito detalhadamente em Isaías 33, versículos 20, 21, 22, 23 e 24.

“Contempla Sião, a Cidade das nossas solenidades; teus olhos verão Jerusalém, morada tranquila, tabernáculo que não será desmontado; nenhuma das suas estacas jamais será removida, nem nenhuma das suas cordas será quebrada.”

Mas ali o glorioso Senhor será para nós um lugar de rios largos e ribeiros; por onde não passará galera a remos, nem navio valente.

Pois o Senhor é o nosso Juiz, o Senhor é o nosso Legislador, o Senhor é o nosso Rei; ele nos salvará.

Teus equipamentos estão soltos; não conseguiram reforçar bem o mastro; não conseguiram desfraldar a vela: então o despojo de uma grande presa é dividido; os coxos ficam com a presa.

E o habitante não dirá: Estou doente; ao povo que ali habitar será perdoada a sua iniquidade.

Nessas palavras encontramos o lugar de onde procederá a Salvação: “Jerusalém, uma morada tranquila”; a sua Eternidade: “um tabernáculo que não será desmontado”, etc.; o seu Salvador: “o Senhor, seu Juiz, seu Legislador, seu Rei, ele nos salvará”; a Salvação: “o Senhor será para eles como um rastro largo de águas rápidas”, etc.; a condição dos seus Inimigos: “suas amarras estão frouxas, seus mastros fracos, os coxos tomarão os despojos deles”; a condição dos Salvos: “Os habitantes não dirão: Estou doente”; e, por fim, tudo isso está compreendido no Perdão dos pecados: “Aos que nela habitam serão perdoados os seus pecados”. Com isso, fica evidente que a Salvação estará na Terra, então, quando Deus reinar (na segunda vinda de Cristo) em Jerusalém. E de Jerusalém procederá a Salvação dos Gentios que serão recebidos no Reino de Deus; como também é declarado mais expressamente pelo mesmo Profeta, no capítulo 66, versículos 20 e 21: “E eles” (isto é, os gentios que tinham algum judeu em cativeiro) “trarão todos os seus irmãos, para oferta ao Senhor, de todas as nações, sobre cavalos, e em carros, e em liteiras, e sobre mulas, e sobre animais velozes, ao meu santo monte, Jerusalém, diz o Senhor, como os filhos de Israel trazem uma oferta em vaso limpo à Casa do Senhor. E também os tomarei para sacerdotes e para levitas, diz o Senhor.” Com isso, fica manifesto que a sede principal do Reino de Deus (que é o Lugar de onde procederá a Salvação de nós, que éramos gentios) será Jerusalém; e o mesmo é também confirmado pelo nosso Salvador, em seu discurso com a mulher samaritana, a respeito do lugar de adoração a Deus. A quem ele diz, em João 4:22, que os samaritanos adoravam algo que não sabiam, mas os judeus adoravam algo que conheciam: “Porque a salvação vem dos judeus (Ex Judais, isto é, começa nos judeus)”, como se ele dissesse: “Vocês adoram a Deus, mas não sabem por quem ele os salvará”, como nós sabemos, pois sabemos que será alguém da tribo de Judá, um judeu, não um samaritano. E, portanto, a mulher, não impertinentemente, respondeu-lhe novamente: “Sabemos que o Messias há de vir”. Assim, o que o nosso Salvador diz: “A salvação vem dos judeus”, é o mesmo que Paulo diz (Romanos 1:16,17): “O evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego. Porque nele se revela a justiça de Deus, de fé em fé”. da fé do judeu para a fé do gentio. Nesse mesmo sentido, o profeta Joel descreve o dia do Juízo (cap. 2.30,31), dizendo que Deus “mostraria prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça. O sol se converteria em trevas, e a lua em sangue,“Antes que venha o grande e terrível dia do Senhor”, acrescenta ele no versículo 32, “e acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Porque no monte Sião e em Jerusalém haverá salvação.” E Obadias, versículo 17, diz o mesmo: “No monte Sião haverá livramento; ali haverá santidade, e a casa de Jacó possuirá as suas possessões”, isto é, as possessões dos gentios, possessões que ele descreve mais detalhadamente nos versículos seguintes: “no monte de Esaú, na terra dos filisteus, nos campos de Efraim, em Samaria, Gileade e nas cidades do sul”, e conclui com estas palavras: “o reino será do Senhor”. Todos esses lugares são para a Salvação e o Reino de Deus (após o Dia do Juízo) na Terra. Por outro lado, não encontrei nenhum texto que possa ser interpretado como prova da Ascensão dos Santos ao Céu; isto é, a qualquer Céu Empíreo ou outra região etérea; a não ser pelo fato de ser chamado de Reino dos Céus; nome que pode ter porque Deus, que era Rei dos Judeus, os governou por meio de Seus mandamentos, enviados a Moisés por anjos do Céu, para levá-los à obediência; e o enviará de lá novamente para governá-los, e a todos os outros homens fiéis, desde o Dia do Juízo, eternamente; ou porque o Trono deste nosso Grande Rei está no Céu, enquanto a Terra é apenas o Seu Escabelo. Mas que os súditos de Deus ocupem um lugar tão elevado quanto o Seu trono, ou mais elevado que o Seu Escabelo, não parece condizer com a dignidade de um Rei, nem encontro qualquer texto evidente para isso nas Sagradas Escrituras.Ele os governou por meio de seus mandamentos, enviados a Moisés por anjos do céu, para reduzi-los à obediência; e o enviará de lá novamente para governar tanto eles quanto todos os outros homens fiéis, desde o dia do Juízo Final, para sempre: ou seja, o trono deste nosso Grande Rei está no céu, enquanto a Terra é apenas o seu escabelo. Mas que os súditos de Deus ocupem um lugar tão elevado quanto o seu trono, ou mais elevado do que o seu escabelo, não parece condizer com a dignidade de um rei, e não encontro nenhum texto evidente para isso nas Sagradas Escrituras.Ele os governou por meio de seus mandamentos, enviados a Moisés por anjos do céu, para reduzi-los à obediência; e o enviará de lá novamente para governar tanto eles quanto todos os outros homens fiéis, desde o dia do Juízo Final, para sempre: ou seja, o trono deste nosso Grande Rei está no céu, enquanto a Terra é apenas o seu escabelo. Mas que os súditos de Deus ocupem um lugar tão elevado quanto o seu trono, ou mais elevado do que o seu escabelo, não parece condizer com a dignidade de um rei, e não encontro nenhum texto evidente para isso nas Sagradas Escrituras.

A partir do que foi dito sobre o Reino de Deus e a Salvação, não é difícil interpretar o que se entende por MUNDO VIGENTE. Há três mundos mencionados nas Escrituras: o Mundo Antigo, o Mundo Presente e o Mundo Vindouro. Sobre o primeiro, São Pedro diz (2 Pedro 2:5): “Se Deus não poupou o Mundo Antigo, mas preservou Noé, o oitavo, pregador da justiça, trazendo o dilúvio sobre o mundo dos ímpios”, etc. Assim, o Primeiro Mundo foi de Adão até o Dilúvio geral. Sobre o Mundo Presente, nosso Salvador diz (João 18:36): “O meu Reino não é deste mundo”. Pois Ele veio somente para ensinar aos homens o caminho da Salvação e renovar o Reino de Seu Pai, por meio de Sua doutrina. Sobre o Mundo Vindouro, São Pedro diz (2 Pedro 3:13): “Entretanto, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e uma nova terra”. Este é o MUNDO em que Cristo, descendo do Céu nas nuvens com grande poder e glória, enviará seus Anjos e reunirá seus eleitos dos quatro ventos e dos confins da Terra, e dali reinará sobre eles (sob a proteção de seu Pai) para sempre.

Redenção

A salvação de um pecador pressupõe uma REDENÇÃO prévia; pois aquele que uma vez é culpado de pecado é indignado da pena correspondente e deve pagar (ou algo semelhante em seu lugar) o resgate que aquele que foi ofendido e o tem em Seu poder exigir. E, considerando que a pessoa ofendida é o Deus Todo-Poderoso, em cujo poder estão todas as coisas, tal resgate deve ser pago antes que a salvação possa ser alcançada, conforme Deus se agradou em exigir. Por este resgate, não se pretende uma satisfação pelo pecado equivalente à ofensa, que nenhum pecador por si mesmo, nem homem justo jamais poderá fazer por outro; o dano que um homem causa a outro pode ser reparado por restituição ou compensação, mas o pecado não pode ser removido por compensação; pois isso tornaria a liberdade de pecar algo vendável. Mas os pecados podem ser perdoados ao arrependido, gratuitamente ou mediante a penalidade que Deus se agrada em aceitar. O que Deus geralmente aceitava no Antigo Testamento era algum tipo de sacrifício ou oblação. Perdoar pecados não é um ato de injustiça, mesmo que a punição tenha sido ameaçada. Mesmo entre os homens, embora a promessa do bem obrigue quem a faz, as ameaças, ou seja, as promessas do mal, não os obrigam; muito menos obrigarão a Deus, que é infinitamente mais misericordioso do que os homens. Nosso Salvador Cristo, portanto, para nos redimir, não satisfez os pecados dos homens nesse sentido, pois sua morte, por si só, não tornaria injusto da parte de Deus punir os pecadores com a morte eterna; mas fez o sacrifício e a oblação de si mesmo em sua primeira vinda, o que Deus quis exigir para a salvação em sua segunda vinda daqueles que, nesse ínterim, se arrependessem e cressem nele. E embora este ato de nossa Redenção nem sempre seja chamado nas Escrituras de Sacrifício e Oblação, mas às vezes de Preço, por Preço não devemos entender nada pelo valor do qual Ele pudesse reivindicar o direito ao perdão para nós de Seu Pai ofendido, mas sim o Preço que Deus Pai, em Sua misericórdia, se dignou exigir.

CAPÍTULO XXXIX.
DO SIGNIFICADO DA PALAVRA IGREJA NAS ESCRITURAS

Igreja A Casa dos Lordes

A palavra Igreja (Ecclesia) significa diversas coisas nos Livros das Sagradas Escrituras. Às vezes (embora não frequentemente) é usada para se referir à Casa de Deus, ou seja, a um Templo onde os cristãos se reúnem para realizar deveres sagrados publicamente; como em 1 Coríntios 14:34: “Que as vossas mulheres se calem nas igrejas”. Mas isso é uma metáfora para a congregação ali reunida; e passou a ser usado também para o próprio edifício, para distinguir entre os templos dos cristãos e dos idólatras. O Templo de Jerusalém era a Casa de Deus e a Casa de Oração; e assim é qualquer edifício dedicado pelos cristãos à adoração de Cristo, a Casa de Cristo: e por isso os Padres da Igreja grega o chamavam de Kuriake, a Casa do Senhor; e daí, em nossa língua, passou a ser chamado de Kyrke, ou Igreja.

Ecclesia propriamente dita O quê

Igreja (quando não entendida como Casa) significa o mesmo que Ecclesia significava nas repúblicas gregas; isto é, uma congregação ou assembleia de cidadãos, convocada para ouvir o magistrado falar; e que na república de Roma era chamada de Concio, assim como aquele que falava era chamado de Ecclesiastes e Concionator. E quando eram convocados por autoridade legítima (Atos 19:39), era Ecclesia Legitima, uma Igreja legítima, Ennomos Ecclesia. Mas quando eram incitados por tumultos e clamores sediciosos, então era uma Igreja confusa, Ecclesia Sugkechumene.

Às vezes, o termo também é usado para se referir aos homens que têm o direito de pertencer à Congregação, embora não estejam efetivamente reunidos; ou seja, a toda a multidão de cristãos, por mais dispersos que estejam, como em Atos 8:3, onde se diz que “Saulo devastou a Igreja”. E, nesse sentido, Cristo é considerado o Cabeça da Igreja. Às vezes, refere-se a uma certa parte dos cristãos, como em Colossenses 4:15: “Saúdem a Igreja que está reunida em sua casa”. Às vezes, também se refere somente aos eleitos, como em Efésios 5:27: “Igreja gloriosa, sem mácula nem ruga, santa e irrepreensível”, que se refere à Igreja Triunfante ou à Igreja que há de vir. Às vezes, refere-se a uma congregação reunida de professos do cristianismo, sejam eles verdadeiros ou falsos, como se entende em Mateus 18:17. onde se diz: “Diga isso à Igreja, e se ele se recusar a ouvir a Igreja, seja ele para você como um gentio ou um publicano.”

Em que sentido a Igreja é uma só pessoa? Definição de Igreja

E somente neste último sentido é que a Igreja pode ser considerada uma só Pessoa; isto é, que se pode dizer que ela tem poder para querer, pronunciar-se, ordenar, ser obedecida, fazer leis ou praticar qualquer outra ação; pois sem a autoridade de uma Congregação legítima, qualquer ato praticado em uma assembleia de pessoas é o ato particular de cada um dos presentes que contribuíram para a sua realização, e não o ato de todos em conjunto, como de um só corpo; muito menos o ato daqueles que estavam ausentes ou que, estando presentes, não desejavam que fosse praticado. De acordo com este sentido, defino uma IGREJA como: “Um grupo de homens que professam a Religião Cristã, unidos na pessoa de um Soberano; sob cujo comando devem se reunir e sem cuja autoridade não devem se reunir”. E porque em todas as Comunidades, a Assembleia que não possui autorização do Soberano Civil é ilegal; Essa Igreja, que se reúne em qualquer comunidade que a tenha proibido de se reunir, também é uma assembleia ilegal.

Uma comunidade cristã e uma igreja, todas una

Segue-se também que não existe na Terra uma Igreja universal à qual todos os cristãos sejam obrigados a obedecer, porque não há poder na Terra ao qual todas as outras comunidades estejam sujeitas. Existem cristãos nos domínios de vários príncipes e estados, mas cada um deles está sujeito à comunidade da qual ele próprio é membro e, consequentemente, não pode estar sujeito aos comandos de nenhuma outra pessoa. Portanto, uma Igreja, como aquela capaz de ordenar, julgar, absolver, condenar ou praticar qualquer outro ato, é o mesmo que uma comunidade civil, composta por homens cristãos; e é chamada de Estado civil porque seus súditos são homens; e de Igreja porque seus súditos são cristãos. Governo temporal e espiritual são apenas duas palavras trazidas ao mundo para fazer os homens verem em duplicidade e confundirem seu soberano legítimo. É verdade que os corpos dos fiéis, após a ressurreição, não serão apenas espirituais, mas eternos. Mas nesta vida eles são grosseiros e corruptíveis. Portanto, não há outro governo nesta vida, nem de Estado, nem de religião, senão o temporal; nem ensinamento de qualquer doutrina, lícita a qualquer súdito, que o Governante, tanto do Estado quanto da religião, proíba que seja ensinada: e esse Governante deve ser um só; ou então haverá inevitavelmente facções e guerra civil na comunidade, entre a Igreja e o Estado; entre espiritualistas e temporalistas; entre a espada da justiça e o escudo da fé; e (o que é mais importante) no próprio peito de cada cristão, entre o cristão e o homem. Os doutores da Igreja são chamados de pastores; assim também o são os soberanos civis: mas se os pastores não forem subordinados uns aos outros, de modo que haja um pastor principal, os homens serão ensinados doutrinas contrárias, das quais ambas podem ser falsas, e uma delas certamente será. Quem é esse pastor principal, segundo a lei da natureza, já foi mostrado; Ou seja, que é o Soberano Civil; e a quem as Escrituras atribuíram esse ofício, veremos nos capítulos seguintes.

CAPÍTULO XL.
DOS DIREITOS DO REINO DE DEUS, EM ABRAÃO, MOISÉS, SUMOS SACERDOTES E OS REIS DE JUDÁ

Os Direitos Soberanos de Abraão

O Pai dos Fiéis, e o primeiro no Reino de Deus por Aliança, foi Abraão. Pois com ele foi feita a primeira Aliança, na qual ele se obrigou, e à sua descendência depois dele, a reconhecer e obedecer aos mandamentos de Deus; não apenas aqueles que ele pudesse perceber (como Leis Morais) à luz da Natureza, mas também aqueles que Deus lhe revelaria de maneira especial por meio de Sonhos e Visões. Pois, quanto à lei moral, eles já estavam obrigados e não precisavam ter firmado um contrato com ela, pela promessa da Terra de Canaã. Nem havia qualquer Contrato que pudesse acrescentar ou fortalecer a obrigação pela qual tanto eles quanto todos os outros homens estavam naturalmente obrigados a obedecer a Deus Todo-Poderoso. Portanto, a Aliança que Abraão fez com Deus consistia em tomar como Mandamento de Deus aquilo que, em nome de Deus, lhe fosse ordenado em um Sonho ou Visão, e transmiti-lo à sua família, fazendo com que o observassem.

Abraão tinha o poder exclusivo de ordenar a religião de seu próprio povo.

Neste pacto de Deus com Abraão, podemos observar três pontos de importante consequência para o governo do povo de Deus. Primeiro, que ao fazer esta aliança, Deus falou somente com Abraão; e, portanto, não fez pacto com nenhum membro de sua família ou descendência, a não ser porque suas vontades (que constituem a essência de todas as alianças) estavam, antes do pacto, envolvidas na vontade de Abraão; que, portanto, supostamente tinha poder legítimo para fazê-los cumprir tudo o que ele havia pactuado por eles. De acordo com isso (Gênesis 18:18, 19), Deus diz: “Todas as nações da terra serão benditas nele, porque eu o conheço, e sei que ele dará ordens a seus filhos e à sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor”. Daí se pode concluir este primeiro ponto, que aqueles a quem Deus não falou diretamente devem receber os mandamentos diretos de Deus de seu Soberano; assim como a família e a descendência de Abraão receberam de Abraão, seu Pai, Senhor e Soberano Civil. E, consequentemente, em toda comunidade, aqueles que não têm revelação sobrenatural em contrário devem obedecer às leis de seu próprio soberano, nos atos externos e na profissão de religião. Quanto ao pensamento íntimo e à crença dos homens, dos quais os governantes humanitários não podem levar em consideração (pois só Deus conhece o coração), eles não são voluntários, nem efeito das leis, mas da vontade não revelada e do poder de Deus; e, consequentemente, não estão sujeitos a obrigação.

Nenhuma pretensão de espírito privado contra a religião de Abraão.

Daí decorre outro ponto: que não era ilícito para Abraão punir qualquer um de seus súditos que alegasse ter visão particular, ou espírito, ou outra revelação de Deus, para endossar qualquer doutrina que Abraão proibisse, ou quando seguiam ou aderiam a tal pretenso; e, consequentemente, que agora é lícito ao Soberano punir qualquer homem que oponha seu espírito particular às leis: pois ele ocupa o mesmo lugar na comunidade que Abraão ocupava em sua própria família.

Abraão, o único juiz e intérprete da palavra de Deus.

Da mesma forma, surge um terceiro ponto: assim como ninguém além de Abraão em sua família, também ninguém além do Soberano em uma comunidade cristã pode discernir o que é ou não a Palavra de Deus. Pois Deus falou somente a Abraão; e somente ele era capaz de saber o que Deus disse e de interpretá-lo para sua família. Portanto, aqueles que ocupam o lugar de Abraão em uma comunidade são os únicos intérpretes do que Deus falou.

A Autoridade de Moisés Fundamentada

A mesma Aliança foi renovada com Isaque; e depois com Jacó; mas depois disso não mais, até que os israelitas foram libertados dos egípcios e chegaram ao sopé do Monte Sinai: e então foi renovada por Moisés (como eu disse antes, cap. 35) de tal maneira que eles se tornaram, a partir daquele momento, o Reino Peculiar de Deus; cujo Tenente foi Moisés, por seu próprio tempo; e a sucessão para esse ofício foi estabelecida sobre Arão e seus herdeiros depois dele, para serem para Deus um Reino Sacerdotal para sempre.

Por meio dessa constituição, um Reino é adquirido por Deus. Mas, visto que Moisés não tinha autoridade para governar os israelitas como sucessor do direito de Abraão, pois não podia reivindicá-lo por herança, não parece, até o momento, que o povo fosse obrigado a aceitá-lo como representante de Deus enquanto acreditassem que Deus lhe falava. Portanto, sua autoridade (apesar da Aliança que fizeram com Deus) dependia apenas da opinião que tinham de sua santidade, da realidade de suas conversas com Deus e da veracidade de seus milagres; opinião essa que, mudando, os obrigava a aceitar qualquer coisa que ele lhes propusesse em nome de Deus como lei de Deus. Devemos, portanto, considerar qual outro fundamento havia para sua obrigação de obedecê-lo. Pois não poderia ser o mandamento de Deus que os obrigava, visto que Deus não lhes falava diretamente, mas por intermédio do próprio Moisés. E o nosso Salvador diz de si mesmo (João 5:31): “Se eu testifico de mim mesmo, o meu testemunho não é verdadeiro”, muito menos se Moisés testifica de si mesmo (especialmente numa reivindicação de poder real sobre o povo de Deus), como o seu testemunho deveria ser aceito. A sua autoridade, portanto, como a autoridade de todos os outros príncipes, deve estar fundamentada no consentimento do povo e na sua promessa de obedecê-lo. E assim foi: pois “o povo” (Êxodo 20:18), “quando viram os trovões, os relâmpagos, o som da trombeta e o monte fumegando, afastaram-se e pararam à distância. E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e nós ouviremos; mas não fale Deus conosco, para que não morramos”. Aqui estava a sua promessa de obediência; e por meio dela, eles se obrigaram a obedecer a tudo o que ele lhes entregasse como mandamento de Deus.

Moisés era (sob a proteção de Deus) soberano dos judeus durante todo o seu tempo, embora Arão tivesse o sacerdócio.

E não obstante a Aliança ter constituído um Reino Sacerdotal, isto é, um Reino hereditário para Arão, isso deve ser entendido como a sucessão após a morte de Moisés. Pois quem quer que ordene e estabeleça a Política, como primeiro fundador de uma Comunidade (seja Monarquia, Aristocracia ou Democracia), necessariamente terá Poder Soberano sobre o povo durante todo o tempo em que o fizer. E que Moisés teve esse poder durante todo o seu tempo é evidentemente afirmado nas Escrituras. Primeiro, no texto citado anteriormente, porque o povo prometeu obediência, não a Arão, mas a ele. Segundo, (Êxodo 24:1, 2): “E Deus disse a Moisés: Sobe ao Senhor, tu, e Arão, Nadabe, e Abiú, e setenta dos anciãos de Israel. E só Moisés se aproximará ao Senhor; eles não se aproximarão, nem o povo subirá com ele.” Com isso fica claro que Moisés, o único chamado à presença de Deus (e não Arão, nem os outros sacerdotes, nem os setenta anciãos, nem o povo, a quem foi proibido subir), foi o único que representou aos israelitas a Pessoa de Deus; isto é, foi o seu único soberano sob Deus. E embora mais tarde se diga (versículo 9): “Então subiram Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e setenta dos anciãos de Israel, e viram o Deus de Israel, e havia debaixo dos seus pés algo como um pavimento de pedra de safira”, etc., isso só aconteceu depois de Moisés ter estado com Deus anteriormente e ter transmitido ao povo as palavras que Deus lhe havia dito. Ele foi somente para tratar dos assuntos do povo; os outros, como os nobres de sua comitiva, foram admitidos por honra àquela graça especial, que não foi concedida ao povo; que era (como se vê no versículo seguinte) ver a Deus e viver. “Deus não lhes estendeu a mão; eles viram a Deus, comeram e beberam” (isto é, viveram), mas não transmitiram nenhum mandamento dele ao povo. Novamente, está escrito em todos os lugares: “O Senhor falou a Moisés”, como em todas as outras ocasiões de governo; assim também na ordenação das cerimônias religiosas, contidas nos capítulos 25, 26, 27, 28, 29, 30 e 31 de Êxodo, e em todo o Levítico: a Arão raramente. O bezerro que Arão fez, Moisés lançou ao fogo. Por fim, a questão da autoridade de Arão, por ocasião de seu motim e de Miriã contra Moisés, foi (Números 12) julgada pelo próprio Deus a favor de Moisés. Assim também na questão entre Moisés e o povo, quando Corá, Datã, Abirão e duzentos e cinquenta príncipes da assembleia “se reuniram” (Números 16:3) “contra Moisés e contra Arão, e lhes disseram: ‘Vocês estão se sobrecarregando, pois toda a congregação é santa, cada um deles, e o Senhor está no meio deles,Por que vos exaltais acima da congregação do Senhor?” Deus fez com que a Terra engolisse Corá, Datã e Abirão com suas esposas e filhos vivos, e consumiu aqueles duzentos e cinquenta príncipes com fogo. Portanto, nem Arão, nem o povo, nem qualquer aristocracia dos principais príncipes do povo, mas somente Moisés, tinha a soberania sobre os israelitas, logo abaixo de Deus: e isso não apenas em questões de política civil, mas também de religião; pois somente Moisés falava com Deus e, portanto, somente ele podia dizer ao povo o que Deus exigia deles. Nenhum homem, sob pena de morte, poderia ser tão presunçoso a ponto de se aproximar do monte onde Deus falava com Moisés. “Estabelecerás limites” (diz o Senhor, Êxodo 19:12) “ao povo ao redor, e dirás: Guardai-vos de subir ao monte, nem de tocar no seu limite; qualquer que tocar no monte certamente morrerá.” E novamente (versículo 21): “Desce, ordena ao povo, para que não ultrapassem os limites e olhem para o Senhor.” Disso podemos concluir que, em uma comunidade cristã, quem ocupa o lugar de Moisés é o único Mensageiro de Deus e Intérprete de Seus Mandamentos. E, de acordo com isso, ninguém deve, na interpretação das Escrituras, ir além dos limites estabelecidos por seus respectivos soberanos. Pois as Escrituras, visto que Deus agora fala nelas, são o Monte Sinai; cujos limites são as Leis daqueles que representam a Pessoa de Deus na Terra. Contemplá-las e nelas observar as obras maravilhosas de Deus, e aprender a temê-Lo, é permitido; mas interpretá-las, isto é, bisbilhotar o que Deus diz àquele a quem designa para governar sob Seu comando, e se fazerem juízes sobre se ele governa como Deus lhe ordena ou não, é transgredir os limites que Deus nos impôs e olhar para Deus com irreverência.ou tocar na sua borda; quem tocar no monte certamente será morto.” E novamente (versículo 21): “Desçam, ordenem ao povo, para que não ultrapassem o caminho até o Senhor para contemplá-lo.” Disso podemos concluir que, em uma comunidade cristã, quem ocupa o lugar de Moisés é o único Mensageiro de Deus e Intérprete de Seus Mandamentos. E, segundo isso, ninguém deve, na interpretação das Escrituras, ir além dos limites estabelecidos por seus respectivos soberanos. Pois as Escrituras, visto que Deus agora fala nelas, são o Monte Sinai; cujos limites são as Leis daqueles que representam a Pessoa de Deus na Terra. Contemplá-las e nelas observar as maravilhas de Deus, e aprender a temê-Lo, é permitido; mas interpretá-las, isto é, bisbilhotar o que Deus diz àquele a quem designa para governar sob Seu comando, e se autoproclamar juiz se ele governa conforme Deus lhe ordena ou não, é transgredir os limites que Deus nos impôs e olhar para Deus com irreverência.ou tocar na sua borda; quem tocar no monte certamente será morto.” E novamente (versículo 21): “Desçam, ordenem ao povo, para que não ultrapassem o caminho até o Senhor para contemplá-lo.” Disso podemos concluir que, em uma comunidade cristã, quem ocupa o lugar de Moisés é o único Mensageiro de Deus e Intérprete de Seus Mandamentos. E, segundo isso, ninguém deve, na interpretação das Escrituras, ir além dos limites estabelecidos por seus respectivos soberanos. Pois as Escrituras, visto que Deus agora fala nelas, são o Monte Sinai; cujos limites são as Leis daqueles que representam a Pessoa de Deus na Terra. Contemplá-las e nelas observar as maravilhas de Deus, e aprender a temê-Lo, é permitido; mas interpretá-las, isto é, bisbilhotar o que Deus diz àquele a quem designa para governar sob Seu comando, e se autoproclamar juiz se ele governa conforme Deus lhe ordena ou não, é transgredir os limites que Deus nos impôs e olhar para Deus com irreverência.

Todos os espíritos estavam subordinados ao espírito de Moisés.

Não havia profeta na época de Moisés, nem pretendente ao Espírito de Deus, senão aqueles que Moisés havia aprovado e autorizado. Pois havia em sua época apenas setenta homens que se diziam profetizar pelo Espírito de Deus, e estes eram dentre os escolhidos por Moisés; a respeito deles Deus disse a Moisés (Números 11:16): “Reúne-me setenta dos anciãos de Israel, que tu sabes serem os anciãos do povo”. A estes Deus concedeu o seu Espírito; mas não era um Espírito diferente daquele de Moisés; pois está escrito (versículo 25): “Deus desceu numa nuvem, e tomou do Espírito que estava sobre Moisés, e o deu aos setenta anciãos”. Mas, como já mostrei antes (capítulo 36), por Espírito entende-se a Mente; Assim, o sentido do lugar não é outro senão este: Deus os dotou de uma mente conforme e subordinada à de Moisés, para que pudessem profetizar, isto é, falar ao povo em nome de Deus, de tal maneira que apresentassem (como ministros de Moisés e por sua autoridade) a doutrina que fosse de acordo com a doutrina de Moisés. Pois eles eram apenas ministros; e quando dois deles profetizaram no acampamento, isso foi considerado algo novo e ilícito; e, como consta nos versículos 27 e 28 do mesmo capítulo, eles foram acusados ​​disso, e Josué aconselhou Moisés a proibi-los, por não saberem que era pelo Espírito de Moisés que eles profetizavam. Com isso, fica evidente que nenhum súdito deve pretender profetizar ou usar o Espírito em oposição à doutrina estabelecida por aquele que Deus colocou no lugar de Moisés.

Após Moisés, a soberania passou para o sumo sacerdote.

Após a morte de Arão, e depois dele também de Moisés, o Reino, sendo um Reino Sacerdotal, passou por virtude da Aliança para o filho de Arão, Eleazar, o Sumo Sacerdote. E Deus o declarou (logo abaixo de si) Soberano, ao mesmo tempo em que nomeou Josué como General do seu Exército. Pois assim Deus diz expressamente (Números 27:21) a respeito de Josué: “Ele se apresentará perante Eleazar, o Sacerdote, que lhe pedirá conselho perante o Senhor; à sua palavra sairão, e à sua palavra entrarão, tanto ele como todos os filhos de Israel com ele.” Portanto, o Poder Supremo de fazer Guerra e Paz estava no Sacerdote. O Poder Supremo de Judicatura também pertencia ao Sumo Sacerdote, pois o Livro da Lei estava sob sua guarda; e somente os Sacerdotes e Levitas eram os Juízes subordinados em causas civis, como se vê em Deuteronômio. 17.8, 9, 10. E quanto à maneira de adoração a Deus, nunca houve dúvida de que o Sumo Sacerdote, até o tempo de Saul, possuía a Suprema Autoridade. Portanto, o Poder Civil e o Poder Eclesiástico estavam ambos unidos em uma mesma pessoa, o Sumo Sacerdote; e assim deveria ser em todo aquele que governa por Direito Divino; isto é, por Autoridade direta de Deus.

Do poder soberano entre os tempos de Josué e de Saul

Após a morte de Josué, até o tempo de Saul, o período intermediário é frequentemente mencionado no Livro de Juízes, com a afirmação de que “naqueles dias não havia rei em Israel”; e às vezes com o acréscimo de que “cada um fazia o que lhe parecia reto”. Com isso, entende-se que, quando se diz “não havia rei”, significa “não havia poder soberano” em Israel. E assim era, se considerarmos os atos e o exercício de tal poder. Pois, após a morte de Josué e Eleazar, “surgiu outra geração” (Juízes 2:10) “que não conhecia o Senhor, nem as obras que ele tinha feito por Israel, mas fazia o que era mau aos olhos do Senhor e servia aos baalins”. E os judeus tinham essa característica que São Paulo menciona, “esperar um sinal”, não apenas antes de se submeterem ao governo de Moisés, mas também depois de se obrigarem por sua submissão. Enquanto os sinais e milagres tinham como objetivo obter fé, e não impedir que os homens a violassem, uma vez concedida; pois a isso os homens são obrigados pela lei da natureza. Mas se considerarmos não o exercício, mas o direito de governar, o poder soberano ainda residia no sumo sacerdote. Portanto, qualquer obediência prestada a qualquer um dos juízes (homens escolhidos extraordinariamente por Deus para salvar seus súditos rebeldes das mãos do inimigo) não pode ser usada como argumento contra o direito que o sumo sacerdote tinha ao poder soberano em todos os assuntos, tanto de política quanto de religião. E nem os juízes, nem o próprio Samuel, tinham uma vocação comum, mas extraordinária para o governo; e eram obedecidos pelos israelitas não por dever, mas por reverência ao favor que recebiam de Deus, manifestado em sua sabedoria, coragem ou felicidade. Até então, portanto, o direito de regular tanto a política quanto a religião eram inseparáveis.

Dos direitos dos reis de Israel

Aos juízes, sucederam-se os reis; e enquanto antes toda a autoridade, tanto em religião quanto em política, residia no sumo sacerdote, agora tudo estava nas mãos do rei. Pois a soberania sobre o povo, que antes não era apenas pela virtude do poder divino, mas também por um pacto particular dos israelitas com Deus, e logo abaixo dele, com o sumo sacerdote, como seu vice-regente na terra, foi rejeitada pelo povo, com o consentimento do próprio Deus. Pois quando disseram a Samuel (1 Samuel 8:5): “Constitua-nos um rei para nos governar, como todas as nações”, eles significaram que não seriam mais governados pelos mandamentos que lhes seriam dados pelo sacerdote, em nome de Deus, mas por alguém que os comandasse da mesma maneira que todas as outras nações eram comandadas; e, consequentemente, ao deporem o sumo sacerdote de autoridade real, depuseram esse governo peculiar de Deus. E, no entanto, Deus consentiu, dizendo a Samuel (versículo 7): “Atende à voz do povo em tudo o que te disserem, pois não te rejeitaram a ti, mas a mim, para que eu não reine sobre eles”. Tendo, portanto, rejeitado a Deus, em cujo direito os sacerdotes governavam, não restou autoridade alguma aos sacerdotes, a não ser aquela que o rei lhes concedesse; sendo essa autoridade maior ou menor, conforme o rei fosse bom ou mau. E quanto ao governo dos assuntos civis, é evidente que tudo estava nas mãos do rei. Pois, no mesmo capítulo, versículo 20, eles dizem que serão como todas as nações; que o seu rei será o seu juiz, irá à sua frente e lutará as suas batalhas; isto é, ele terá toda a autoridade, tanto em tempos de paz como de guerra. Nisto está contida também a ordenação da religião; pois não havia outra Palavra de Deus naquele tempo para regular a religião, senão a Lei de Moisés, que era a sua lei civil. Além disso, lemos (1 Reis 2:27) que Salomão “expulsou Abiatar do sacerdócio diante do Senhor”. Ele tinha, portanto, autoridade sobre o Sumo Sacerdote, assim como sobre qualquer outro súdito, o que é uma grande marca de supremacia na religião. E lemos também (1 Reis 8) que ele dedicou o Templo, abençoou o povo e fez pessoalmente aquela excelente oração, usada nas consagrações de todas as igrejas e casas de oração, o que é outra grande marca de supremacia na religião. Novamente, lemos (2 Reis 22) que, quando houve dúvida a respeito do Livro da Lei encontrado no Templo, a questão não foi decidida pelo Sumo Sacerdote, mas Josias enviou-o, juntamente com outros, para consultar Hulda, a profetisa, o que é outra marca de supremacia na religião. Por fim, lemos (1 Crônicas 26:30) que Davi nomeou Hasabias e seus irmãos, hebronitas, oficiais de Israel entre eles, no Ocidente.“Em todos os negócios do Senhor e no serviço do Rei.” Da mesma forma (versículo 32), ele nomeou outros hebronitas, “governantes sobre os rubenitas, os gaditas e a meia tribo de Manassés” (estes eram o restante de Israel que habitava além do Jordão) “para todos os assuntos pertinentes a Deus e aos negócios do Rei”. Não é este o pleno Poder, tanto Temporal quanto Espiritual, como eles o chamam, que o dividiria? Para concluir: desde a primeira instituição do Reino de Deus até o Cativeiro, a Supremacia da Religião esteve nas mesmas mãos que a Soberania Civil; e o ofício de sacerdote, após a eleição de Saul, não era magistral, mas ministerial.

A prática da supremacia religiosa não existia na época dos reis, segundo o seu direito.

Apesar de o governo, tanto em termos de política quanto de religião, estar unido, primeiro nos sumos sacerdotes e depois nos reis, no que dizia respeito ao direito, a própria história sagrada demonstra que o povo não o compreendia. Contudo, havendo entre eles uma grande parte, provavelmente a maior, que, desde que testemunhassem grandes milagres, ou (o que equivale a um milagre) grandes habilidades ou grande sucesso nas ações de seus governantes, não davam crédito suficiente à fama de Moisés, nem aos diálogos entre Deus e os sacerdotes; aproveitavam-se sempre que seus governantes os desagradavam, culpando ora a política, ora a religião, para mudar o governo ou se revoltar contra a obediência a seu bel-prazer. E daí surgiram, de tempos em tempos, os problemas civis, as divisões e as calamidades da nação. Por exemplo, após a morte de Eleazar e Josué, a geração seguinte, que não havia testemunhado as maravilhas de Deus, mas fora entregue à sua própria razão frágil, desconhecendo-se da obrigação imposta pela Aliança de um Reino Sacerdotal, não mais se importava com os mandamentos dos sacerdotes, nem com qualquer lei de Moisés, mas fazia cada um o que lhe parecia correto; e obedecia, em assuntos civis, àqueles que, de tempos em tempos, julgavam capazes de livrá-los das nações vizinhas que os oprimiam; e não consultavam a Deus (como deveriam), mas sim homens ou mulheres que supunham ser profetas por suas previsões do futuro; e pensavam ter um ídolo em sua capela, embora, se tivessem um levita como capelão, considerassem que adoravam o Deus de Israel.

E depois, quando exigiram um rei, à semelhança das nações, não o fizeram com a intenção de se afastarem da adoração a Deus, seu Rei; mas, desesperando-se da justiça dos filhos de Samuel, desejavam um rei para julgá-los em questões civis; porém, não permitiriam que seu rei mudasse a religião que consideravam ter sido recomendada por Moisés. Assim, sempre guardavam um pretexto, seja de justiça ou de religião, para se eximirem da obediência, sempre que tivessem esperança de prevalecer. Samuel estava descontente com o povo por desejarem um rei (pois Deus já era o seu Rei, e Samuel tinha apenas autoridade sob a sua autoridade); contudo, quando Saul ignorou seu conselho ao destruir Agague, como Deus havia ordenado, Samuel ungiu outro rei, Davi, para suceder seus herdeiros. Roboão não era idólatra; mas quando o povo o considerou um opressor, essa pretensão civil fez com que dez tribos fossem transferidas para Jeroboão, um idólatra. E, de modo geral, ao longo de toda a História dos Reis, tanto de Judá quanto de Israel, sempre houve profetas que controlavam os reis por transgredirem a religião; e, às vezes, também por erros de Estado (2 Crônicas 19:2), como Josafá, que foi repreendido pelo profeta Jeú por ajudar o rei de Israel contra os sírios; e Ezequias, por Isaías, por mostrar seus tesouros aos embaixadores da Babilônia. Por tudo isso, fica evidente que, embora o poder tanto do Estado quanto da religião estivesse nas mãos dos reis, nenhum deles era descontrolado no uso desse poder, exceto aqueles que o utilizavam com benevolência, de acordo com suas próprias habilidades ou inclinações naturais. Portanto, com base na prática daquela época, não se pode argumentar que o direito de supremacia na religião não pertencia aos reis, a menos que o atribuamos aos profetas. E concluo que, pelo fato de Ezequias ter orado ao Senhor diante dos querubins e não ter recebido resposta dali, nem então, mas posteriormente do profeta Isaías, Isaías era, portanto, o chefe supremo da Igreja; ou, pelo fato de Josias ter consultado a profetisa Hulda sobre o Livro da Lei, nem ele, nem o sumo sacerdote, mas sim a profetisa Hulda, possuía a autoridade suprema em matéria de religião; o que, creio eu, não é a opinião de nenhum doutor.

Após o cativeiro, os judeus não tinham uma comunidade estabelecida.

Durante o Cativeiro, os judeus não possuíam qualquer tipo de comunidade. E após seu retorno, embora tenham renovado sua Aliança com Deus, não houve promessa de obediência, nem a Esdras, nem a qualquer outro. Logo em seguida, tornaram-se súditos dos gregos (cujos costumes, demonologia e doutrinas cabalistas corromperam muito sua religião), de tal forma que nada se pode depreender de sua confusão, tanto em termos de Estado quanto de religião, a respeito da supremacia em qualquer uma delas. Portanto, no que diz respeito ao Antigo Testamento, podemos concluir que quem quer que tivesse a soberania sobre a comunidade judaica, também detinha a suprema autoridade em matéria de culto externo a Deus e representava a Pessoa de Deus, isto é, a pessoa de Deus Pai, embora não fosse chamado de Pai até o momento em que enviou seu Filho Jesus Cristo ao mundo para redimir a humanidade de seus pecados e conduzi-la ao seu Reino Eterno, para ser salva para sempre. Sobre o qual falaremos no capítulo seguinte.

CAPÍTULO XLI.
DO OFÍCIO DE NOSSO SANTÍSSIMO SALVADOR

Três partes do ofício de Cristo

Encontramos nas Sagradas Escrituras três partes do Ofício do Messias: a primeira, a de Redentor ou Salvador; a segunda, a de Pastor, Conselheiro ou Mestre, isto é, a de Profeta enviado por Deus para converter à Salvação aqueles que Deus elegeu; a terceira, a de Rei, Rei Eterno, mas sob a autoridade de Seu Pai, assim como Moisés e os Sumos Sacerdotes o foram em seus respectivos tempos. E a essas três partes correspondem três épocas. Ele realizou nossa Redenção em Sua primeira vinda, pelo Sacrifício no qual se ofereceu a Si mesmo pelos nossos pecados na Cruz; nossa conversão, em parte, Ele realizou então em Sua própria Pessoa; e em parte realiza agora por meio de Seus Ministros; e continuará a realizar até a Sua segunda vinda. E após a Sua segunda vinda, começará o Seu glorioso Reinado sobre os Seus eleitos, que durará eternamente.

Seu ofício como redentor

Ao ofício de Redentor, isto é, daquele que paga o resgate do pecado (sendo esse resgate a morte), pertence o sacrifício, que por meio dele levou sobre a própria cabeça e removeu de nós as nossas iniquidades, da maneira que Deus exigiu. Não que a morte de um homem, mesmo sem pecado, possa satisfazer pelas ofensas de todos os homens, no rigor da justiça, mas sim na misericórdia de Deus, que ordenou tais sacrifícios pelo pecado, conforme a sua misericórdia lhe agradou aceitar. Na antiga Lei (como podemos ler em Levítico 16), o Senhor exigia que, anualmente, fosse feita uma expiação pelos pecados de todo o Israel, tanto sacerdotes quanto demais; para tal, somente Arão deveria sacrificar um novilho por si e pelos sacerdotes; e, pelo restante do povo, deveria receber dois cabritos, dos quais deveria sacrificar um. Mas quanto ao outro, que era o Bode Expiatório, ele deveria impor as mãos sobre a cabeça do animal e, confessando as iniquidades do povo, depositá-las todas sobre aquela cabeça. Então, por meio de algum homem oportuno, o bode deveria ser levado para o deserto, onde escaparia e levaria consigo as iniquidades do povo. Assim como o sacrifício de um bode foi um preço suficiente (porque era aceitável) para o resgate de todo o Israel, a morte do Messias é um preço suficiente pelos pecados de toda a humanidade, pois nada mais era exigido. Os sofrimentos de nosso Salvador Cristo parecem estar aqui figurados tão claramente quanto na oblação de Isaac ou em qualquer outra representação dele no Antigo Testamento: Ele era tanto o bode sacrificado quanto o bode expiatório. “Ele foi oprimido e afligido (Isaías 53:7); não abriu a sua boca; como um cordeiro foi levado ao matadouro, e como a ovelha muda perante o tosquiador, assim ele não abriu a sua boca.” Aqui ele é o Bode Sacrificial. “Ele tomou sobre si as nossas dores (versículo 4) e carregou as nossas enfermidades.” E novamente (versículo 6): “O Senhor fez cair sobre ele as iniquidades de todos nós.” E assim ele é o Bode Expiatório. “Ele foi cortado da terra dos viventes (versículo 8) por causa da transgressão do meu povo.” Aí novamente ele é o Bode Sacrificial. E novamente (versículo 11): “Ele levará sobre si os seus pecados.” Ele é o Bode Expiatório. Assim, o Cordeiro de Deus é equivalente a ambos os bodes; sacrificado, por ter morrido; e escapando, em sua ressurreição. tendo sido criado oportunamente por seu Pai e removido da habitação dos homens em sua Ascensão.

O Reino de Cristo não é deste mundo.

Portanto, visto que aquele que redime não possui título algum sobre o que foi redimido antes da redenção e do pagamento do resgate, e esse resgate foi a morte do Redentor, é evidente que nosso Salvador (como homem) não era rei daqueles que redimiu antes de sofrer a morte; isto é, durante o tempo em que viveu corporalmente na Terra. Digo, ele não era rei no presente, em virtude do pacto que os fiéis fazem com ele no batismo. Contudo, pela renovação de seu pacto com Deus no batismo, eles eram obrigados a obedecê-lo como rei (sob a autoridade de seu Pai) sempre que ele quisesse assumir o reino. De acordo com isso, o próprio Salvador diz expressamente (João 18:36): "O meu reino não é deste mundo". Ora, visto que as Escrituras mencionam apenas dois mundos; Isto que é agora, e permanecerá até o dia do Juízo Final (que por isso também é chamado de Último Dia), e aquilo que será um novo Céu e uma nova Terra; o Reino de Cristo não começará antes da Ressurreição geral. E é isso que o nosso Salvador diz (Mateus 16:27): “O Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos; e então recompensará a cada um segundo as suas obras”. Recompensar a cada um segundo as suas obras é exercer o ofício de um Rei; e isso não acontecerá até que Ele venha na glória de Seu Pai, com os Seus anjos. Quando o nosso Salvador diz (Mateus 23:2): “Os escribas e fariseus se assentam na cadeira de Moisés; portanto, tudo o que eles vos disserem, observai e fazei”, Ele declara claramente que atribui o Poder Real, naquele tempo, não a si mesmo, mas a eles. E assim também ele diz, em Lucas 12:14: “Quem me constituiu juiz ou separador entre vós?” E em João 12:47: “Eu não vim para julgar o mundo, mas para salvá-lo.” E, no entanto, nosso Salvador veio a este mundo para ser Rei e Juiz no mundo vindouro: pois ele era o Messias, isto é, o Cristo, isto é, o Sacerdote Ungido e o Profeta Soberano de Deus; ou seja, ele deveria ter todo o poder que havia em Moisés, o profeta, nos Sumos Sacerdotes que sucederam Moisés e nos Reis que sucederam os Sacerdotes. E São João diz expressamente (cap. 5, versículo 22): “O Pai a ninguém julga, mas confiou todo o julgamento ao Filho.” E isso não contradiz a outra passagem: “Eu não vim para julgar o mundo”, pois esta se refere ao mundo presente, a outra ao mundo vindouro. como também onde se diz que na segunda vinda de Cristo (Mateus 19:28): “Vós que me seguistes na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vós vos assentareis em doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel”.

O propósito da vinda de Cristo foi renovar a aliança do Reino de Deus e persuadir os eleitos a abraçá-la, o que constitui a segunda parte de seu ministério.

Se Cristo, enquanto esteve na Terra, não tinha um Reino neste mundo, qual foi o propósito de sua primeira vinda? Foi restaurar a Deus, por meio de uma nova Aliança, o Reino que, sendo seu pela Antiga Aliança, havia sido perdido pela rebelião dos israelitas na eleição de Saul. Para isso, ele deveria pregar-lhes que era o Messias, isto é, o Rei prometido pelos profetas; e oferecer-se em sacrifício pelos pecados daqueles que, pela fé, se submetessem a ele; e, caso a nação em geral o rejeitasse, chamar à sua obediência aqueles que cressem nele dentre os gentios. Assim, há duas partes no ofício de nosso Salvador durante sua estadia na Terra: uma para proclamar a si mesmo o Cristo; E outro, através do ensino e da realização de milagres, para persuadir e preparar os homens a viverem de modo a serem dignos da imortalidade que os crentes iriam desfrutar, no tempo em que Ele viesse em majestade para tomar posse do Reino de Seu Pai. E, portanto, o tempo de Sua pregação é frequentemente chamado por Ele mesmo de Regeneração; que não é propriamente um Reino, e, portanto, uma justificativa para negar obediência aos magistrados da época (pois Ele ordenou que obedecessem aos que então ocupavam o trono de Moisés e pagassem tributo a César); mas apenas uma garantia do Reino de Deus que estava por vir, para aqueles a quem Deus concedeu a graça de serem Seus discípulos e de crerem nEle; por essa razão, diz-se que os piedosos já estão no Reino da Graça, por estarem naturalizados naquele Reino celestial.

A pregação de Cristo não era contrária à lei dos judeus da época, nem à de César.

Até o momento, portanto, nada foi feito ou ensinado por Cristo que tenda à diminuição do direito civil dos judeus ou de César. Pois, quanto à comunidade judaica da época, tanto os que governavam quanto os governados esperavam o Messias e o Reino de Deus; o que não poderiam ter feito se suas leis o tivessem proibido (quando veio) de se manifestar e se declarar. Visto que ele nada fez além de, por meio da pregação e de milagres, provar ser o Messias, nada fez contra as leis deles. O Reino que ele afirmava estar em outro mundo; ensinou a todos os homens a obedecerem, enquanto isso, aos que ocupavam o lugar de Moisés; permitiu que pagassem tributo a César e recusou-se a assumir o papel de juiz. Como, então, poderiam suas palavras ou ações ser sediciosas ou tender à derrubada do governo civil da época? Mas Deus, tendo determinado o seu sacrifício para reduzir os seus eleitos à obediência à aliança anterior, e tendo sido ele o meio pelo qual concretizaria esse sacrifício, valeu-se da malícia e da ingratidão deles. E isso não era contrário às leis de César. Pois, embora o próprio Pilatos (para agradar aos judeus) o tenha entregado para ser crucificado, antes de o fazer, declarou abertamente que não encontrava nele culpa alguma. E intitulou a sua condenação não como os judeus exigiam, "que ele se fez passar por rei", mas simplesmente, "que ele era o rei dos judeus", e, apesar do clamor deles, recusou-se a alterá-la, dizendo: "O que escrevi, escrevi".

A terceira parte de seu ofício era ser rei (sob o comando de seu pai) dos eleitos.

Quanto à terceira parte de seu ofício, que era ser Rei, já mostrei que seu Reino não começaria antes da Ressurreição. Mas então ele será Rei, não apenas como Deus, sentido em que já é Rei e sempre será de toda a Terra, em virtude de sua onipotência; mas também peculiarmente de seus eleitos, em virtude do pacto que fazem com ele no batismo. E por isso nosso Salvador diz (Mateus 19:28) que seus apóstolos se assentariam em doze tronos, julgando as doze tribos de Israel, “quando o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória”; com isso, ele significava que então reinaria em sua natureza humana; e (Mateus 16:27) “O Filho do Homem virá na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então recompensará a cada um segundo as suas obras”. O mesmo podemos ler em Marcos 13:26. e 14.26. e mais expressamente para o tempo, Lucas 22.29, 30. “Eu vos designo um Reino, como meu Pai me designou, para que comais e bebais à minha mesa no meu Reino, e vos senteis em tronos, julgando as doze tribos de Israel.” Com isso, fica evidente que o Reino de Cristo, designado a ele por seu Pai, não existirá antes da vinda do Filho do Homem em Glória, que fará de seus Apóstolos juízes das doze tribos de Israel. Mas alguém pode perguntar aqui, visto que não há casamento no Reino dos Céus, se então os homens comerão e beberão; a que se refere o ato de comer neste lugar? Isso é explicado por nosso Salvador (João 6.27), onde ele diz: “Trabalhem, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do Homem lhes dará.” Portanto, comer à mesa de Cristo significa comer da Árvore da Vida; Ou seja, o gozo da Imortalidade no Reino do Filho do Homem. Por meio desses e de muitos outros lugares, fica evidente que o Reino de nosso Salvador deve ser exercido por Ele em Sua natureza humana.

A autoridade de Cristo no Reino de Deus é subordinada ao Seu Pai.

Novamente, ele será Rei, então, não de outra forma senão como subordinado ou Vice-regente de Deus Pai, como Moisés foi no deserto; e como os Sumos Sacerdotes foram antes do reinado de Saul; e como os Reis foram depois. Pois é uma das profecias concernentes a Cristo, que ele seria semelhante (em ofício) a Moisés: “Levantarei para eles um Profeta (diz o Senhor, Deuteronômio 18:18) do meio de seus irmãos, semelhante a ti, e porei as minhas palavras na sua boca”, e essa semelhança com Moisés também é aparente nas ações do próprio Salvador, enquanto ele estava na Terra. Pois assim como Moisés escolheu doze Príncipes das tribos para governarem sob seu comando, assim também o nosso Salvador escolheu doze Apóstolos, que se assentarão em doze tronos e julgarão as doze tribos de Israel; e assim como Moisés autorizou setenta Anciãos a receberem o Espírito de Deus e a profetizarem ao povo, isto é, (como eu disse antes), a falarem com eles em nome de Deus; Assim também o nosso Salvador ordenou setenta discípulos para pregarem o seu Reino e a Salvação a todas as nações. E assim como quando Moisés foi alvo de uma queixa contra os setenta que profetizavam no acampamento de Israel, ele os justificou, alegando que estavam submissos ao seu governo, assim também o nosso Salvador, quando São João lhe queixou de um certo homem que expulsava demônios em seu nome, o justificou, dizendo (Lucas 9:50): “Não o impeçais, pois quem não é contra nós é por nós”.

Novamente, nosso Salvador assemelhou-se a Moisés na instituição dos Sacramentos, tanto de Admissão ao Reino de Deus quanto de Comemoração da libertação de seus eleitos de sua condição miserável. Assim como os filhos de Israel tinham, como Sacramento de sua Recepção no Reino de Deus, antes da época de Moisés, o rito da Circuncisão, rito esse que, tendo sido omitido no deserto, foi restaurado assim que chegaram à terra prometida; da mesma forma, os judeus, antes da vinda de nosso Salvador, tinham um rito de Batismo, isto é, de lavar com água todos aqueles que, sendo gentios, abraçavam o Deus de Israel. Este rito foi usado por São João Batista na recepção de todos os que entregavam seus nomes a Cristo, a quem ele pregava já ter vindo ao mundo; e nosso Salvador o instituiu como Sacramento a ser recebido por todos os que creem nele. A origem do rito do Batismo não é expressa formalmente nas Escrituras; Mas é provável que seja uma imitação da lei de Moisés, referente à lepra; na qual o leproso era ordenado a ser mantido fora do acampamento de Israel por um certo tempo; após o qual, sendo julgado limpo pelo sacerdote, era admitido no acampamento após uma solene lavagem. E isso pode, portanto, ser um tipo da lavagem no batismo; em que aqueles que são purificados da lepra do pecado pela fé são recebidos na Igreja com a solenidade do batismo. Há outra conjectura extraída das cerimônias dos gentios, em um certo caso que raramente ocorre; e isso é, quando um homem que era considerado morto por acaso se recuperava, outros homens hesitavam em conversar com ele, como se estivessem conversando com um fantasma, a menos que ele fosse recebido novamente entre os homens pela lavagem, assim como as crianças recém-nascidas eram lavadas da impureza de seu nascimento, o que era uma espécie de novo nascimento. Esta cerimônia dos gregos, na época em que a Judeia estava sob o domínio de Alexandre e dos gregos seus sucessores, pode muito bem ter se infiltrado na religião dos judeus. Mas, visto que é improvável que nosso Salvador aprovasse um rito pagão, é muito provável que tenha se originado da cerimônia legal de purificação após a lepra. E quanto aos outros sacramentos, como o da Ceia Pascal, há uma clara imitação no sacramento da Ceia do Senhor; na qual a partilha do pão e o derramamento do vinho mantêm viva a memória de nossa libertação da miséria do pecado pela Paixão de Cristo, assim como a refeição do Cordeiro Pascal mantinha viva a memória da libertação dos judeus da escravidão no Egito. Visto, portanto, que a autoridade de Moisés era apenas subordinada, e ele apenas um tenente de Deus, segue-se que Cristo, cuja autoridade,Assim como o homem deveria ser como Moisés, não era mais senão subordinado à autoridade de seu Pai. Isso é mais expressamente indicado pelo fato de que Ele nos ensina a orar: “Pai nosso, venha o teu Reino”; e “Pois teu é o Reino, o poder e a glória”; e pelo fato de que “Ele virá na glória de seu Pai”; e pelo que São Paulo diz (1 Coríntios 15:24): “Então virá o fim, quando ele entregar o Reino a Deus, o Pai”; e por muitas outras passagens muito expressivas.

Um só e o mesmo Deus é a pessoa representada por Moisés e por Cristo.

Nosso Salvador, portanto, tanto no ensino quanto no reinado, representa (como Moisés) a Pessoa de Deus; Deus esse que, a partir daquele momento, mas não antes, é chamado de Pai; e sendo ainda uma só e a mesma substância, é uma Pessoa, representada por Moisés, e outra Pessoa, representada por seu Filho, o Cristo. Pois, sendo Pessoa relativa a um Representante, é consequência da pluralidade de Representantes que haja uma pluralidade de Pessoas, embora de uma só e a mesma substância.

CAPÍTULO XLII.
DO PODER ECLESIÁSTICO

Para compreendermos o PODER ECLESIÁSTICO, o que ele é e em quem reside, devemos dividir o período desde a Ascensão de nosso Salvador em duas partes: uma antes da conversão dos reis e dos homens investidos de poder civil soberano; a outra depois de sua conversão. Pois muito tempo se passou desde a Ascensão até que qualquer rei ou soberano civil abraçasse e permitisse publicamente o ensino da religião cristã.

Do Espírito Santo que desceu sobre os apóstolos

E, no período intermediário, é evidente que o Poder Eclesiástico estava nos Apóstolos; e, depois deles, naqueles que foram ordenados por eles para pregar o Evangelho, converter homens ao Cristianismo e guiar os convertidos no caminho da Salvação; e, após estes, o Poder foi novamente entregue a outros por esses ordenados, e isso foi feito pela Imposição de mãos sobre os ordenados; por meio da qual se significava a concessão do Espírito Santo, ou Espírito de Deus, àqueles que eles ordenaram Ministros de Deus, para promover o Seu Reino. Assim, a Imposição de mãos nada mais era do que o Selo da sua Comissão para pregar Cristo e ensinar a Sua Doutrina; e a concessão do Espírito Santo por meio dessa cerimônia de Imposição de mãos era uma imitação do que Moisés fez. Pois Moisés usou a mesma cerimônia com o seu ministro Josué, como lemos em Deuteronômio 34, versículo 10. 9. “E Josué, filho de Num, estava cheio do Espírito de Sabedoria, porque Moisés lhe havia imposto as mãos.” Nosso Salvador, portanto, entre a Sua Ressurreição e a Sua Ascensão, deu o Seu Espírito aos Apóstolos; primeiro, “soprando sobre eles e dizendo” (João 20:22): “Recebei o Espírito Santo”; e depois da Sua Ascensão (Atos 2:2, 3), enviando sobre eles um “vento impetuoso e línguas de fogo repartidas”; e não pela imposição de mãos, assim como Deus também não impôs as mãos sobre Moisés; e os Seus Apóstolos, posteriormente, transmitiram o mesmo Espírito pela imposição de mãos, como Moisés fez com Josué. De modo que fica manifesto, por meio disso, em quem o Poder Eclesiástico permaneceu continuamente, naqueles primeiros tempos, onde não havia nenhuma comunidade cristã; isto é, naqueles que o receberam dos Apóstolos, por sucessivas imposições de mãos.

Da Trindade

Aqui temos a Pessoa de Deus nascida agora pela terceira vez. Pois, assim como Moisés e os Sumos Sacerdotes foram representantes de Deus no Antigo Testamento, e o próprio Salvador como homem durante sua permanência na Terra, assim também o Espírito Santo, isto é, os Apóstolos e seus sucessores, no ofício da pregação e do ensino, que receberam o Espírito Santo, o representam desde então. Mas uma Pessoa (como mostrei antes [cap. 16]) é aquele que é representado, quantas vezes for representado; e, portanto, Deus, que foi representado (isto é, personificado) três vezes, pode-se dizer, com propriedade, que é três Pessoas, embora nem a palavra Pessoa nem Trindade lhe sejam atribuídas na Bíblia. São João, de fato (1 Epístola 5.7), diz: “Há três que dão testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo; e estes três são um”. Mas isso não contradiz, e sim se harmoniza perfeitamente com a ideia de três Pessoas, no próprio sentido de Pessoas; ou seja, aquilo que é representado por outro. Pois Deus Pai, representado por Moisés, é uma Pessoa; e representado por seu Filho, outra Pessoa; e representado pelos Apóstolos e pelos Doutores que ensinaram por autoridade derivada deles, é uma terceira Pessoa; e, no entanto, cada Pessoa aqui é a Pessoa de um mesmo Deus. Mas alguém pode perguntar aqui, do que esses três deram testemunho. São João, portanto, nos diz (versículo 11) que eles testemunham que “Deus nos deu a vida eterna em seu Filho”. Novamente, se perguntarem onde esse testemunho se manifesta, a resposta é fácil; pois Ele o testemunhou pelos milagres que realizou, primeiro por meio de Moisés; segundo, por meio de Seu próprio Filho; e, por último, por meio de Seus Apóstolos, que receberam o Espírito Santo; todos os quais, em seus tempos, representaram a Pessoa de Deus e profetizaram ou pregaram sobre Jesus Cristo. E quanto aos Apóstolos, era característica do Apostolado, nos doze primeiros e grandes Apóstolos, dar testemunho de Sua Ressurreição; como se vê expressamente (Atos 1, versículos 21 e 22), onde São Pedro, quando um novo Apóstolo deveria ser escolhido no lugar de Judas Iscariotes, usa estas palavras: “Desses homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós, desde o Batismo de João até o dia em que dentre nós foi elevado ao céu, é necessário que um seja constituído conosco testemunha da sua ressurreição”; palavras que interpretam o testemunho mencionado por São João. No mesmo lugar, é mencionada outra Trindade de Testemunhas na Terra. Pois (versículo 8) ele diz: “há três que dão testemunho na Terra: o Espírito, a Água e o Sangue; e estes três concordam em um”: isto é, as graças do Espírito de Deus e os dois Sacramentos, o Batismo,e a Ceia do Senhor, que concordam em um só testemunho, para assegurar à consciência dos crentes a vida eterna; testemunho do qual ele diz (versículo 10): “Quem crê no Filho do Homem tem em si mesmo o testemunho”. Nesta Trindade na Terra, a Unidade não é da coisa; pois o Espírito, a Água e o Sangue não são da mesma substância, embora deem o mesmo testemunho. Mas na Trindade do Céu, as Pessoas são as pessoas de um só Deus, embora representadas em três tempos e ocasiões diferentes. Para concluir, a doutrina da Trindade, tanto quanto se pode depreender diretamente das Escrituras, é essencialmente esta: que Deus, que é sempre um só, foi a Pessoa representada por Moisés; a Pessoa representada por seu Filho encarnado; e a Pessoa representada pelos Apóstolos. Como representado pelos Apóstolos, o Espírito Santo, pelo qual eles falaram, é Deus; Representado por seu Filho (que era Deus e Homem), o Filho é esse Deus; representado por Moisés e pelos Sumos Sacerdotes, o Pai, isto é, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, é esse Deus: Daí podemos deduzir a razão pela qual esses nomes Pai, Filho e Espírito Santo, na significação da Divindade, nunca são usados ​​no Antigo Testamento: Pois são Pessoas, isto é, seus nomes derivam de Representação; o que não seria possível se diversos homens não tivessem representado a Pessoa de Deus governando ou dirigindo sob seu comando.até que diversos homens representassem a Pessoa de Deus, governando ou dirigindo sob seu comando.até que diversos homens representassem a Pessoa de Deus, governando ou dirigindo sob seu comando.

Assim, vemos como o Poder Eclesiástico foi deixado por nosso Salvador aos Apóstolos; e como eles foram (para que pudessem exercer melhor esse Poder) dotados do Espírito Santo, que por isso é chamado às vezes no Novo Testamento de Paráclito, que significa um Auxiliador, ou alguém chamado para ajudar, embora seja comumente traduzido como Consolador. Consideremos agora o próprio Poder, o que era e sobre quem.

O poder eclesiástico nada mais é do que o poder de ensinar.

O Cardeal Belarmino, em sua Terceira Controvérsia Geral, abordou muitas questões concernentes ao poder eclesiástico do Papa de Roma, começando por esta: se deveria ser monárquico, aristocrático ou democrático. Todos esses tipos de poder são soberanos e coercitivos. Se agora se comprovasse que não lhes foi deixado nenhum poder coercitivo por nosso Salvador, mas apenas o poder de proclamar o Reino de Cristo e persuadir os homens a submeterem-se a ele, e por meio de preceitos e bons conselhos, ensinar aos que se submeteram o que devem fazer para serem recebidos no Reino de Deus quando este vier; e que os Apóstolos e outros ministros do Evangelho são nossos mestres, e não nossos comandantes, e seus preceitos não são leis, mas conselhos salutares, então toda essa disputa seria em vão.

Um argumento a respeito, o próprio poder de Cristo

Já mostrei (no capítulo anterior) que o Reino de Cristo não é deste mundo; portanto, seus ministros (a menos que sejam reis) não podem exigir obediência em seu nome. Pois, se o Rei Supremo não tem poder real neste mundo, com que autoridade se pode exigir obediência de seus oficiais? Assim como meu Pai me enviou (assim diz nosso Salvador), eu os envio. Mas nosso Salvador foi enviado para persuadir os judeus a retornarem e convidar os gentios a receberem o Reino de seu Pai, e não para reinar em majestade, não, como vassalo de seu Pai, até o dia do Juízo.

Do nome da regeneração

O período entre a Ascensão e a Ressurreição geral é chamado, não de Reinado, mas de Regeneração; isto é, uma Preparação dos homens para a segunda e gloriosa vinda de Cristo, no dia do Juízo Final; como se vê nas palavras do nosso Salvador em Mateus 19:28: “Vós que me seguistes na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vós vos assentareis sobre doze tronos”. E de São Paulo (Efésios 6:15): “Tendo os vossos pés calçados com a preparação do Evangelho da paz”.

Da comparação com a pesca, o fermento e a semente.

E é comparado pelo nosso Salvador à pesca; isto é, a conquistar homens para a obediência, não por coerção e punição, mas por persuasão. Por isso, Ele não disse aos Seus Apóstolos que os tornaria caçadores de homens, mas sim pescadores de homens. É comparado também ao fermento, à semeadura e à multiplicação de um grão de mostarda; em tudo isso, a coerção é excluída; e, consequentemente, não pode haver reinado efetivo naquele tempo. A obra dos ministros de Cristo é a evangelização; isto é, a proclamação de Cristo e a preparação para a Sua segunda vinda, assim como a evangelização de João Batista foi uma preparação para a Sua primeira vinda.

Da obra "A Natureza da Fé":

Novamente, o ofício dos ministros de Cristo neste mundo é fazer com que os homens creiam e tenham fé em Cristo. Mas a fé não tem relação alguma com compulsão ou mandamento, nem depende deles, mas apenas da certeza ou probabilidade de argumentos extraídos da razão ou de algo em que os homens já creem. Portanto, os ministros de Cristo neste mundo não têm poder, por esse título, para punir alguém por não crer ou por contradizer o que eles dizem; eles não têm poder, por esse título de ministros de Cristo, para punir tais pessoas. Mas se eles têm poder civil soberano, por meio de instituições políticas, então podem, de fato, punir legalmente qualquer contradição às suas leis. E São Paulo, sobre si mesmo e outros pregadores do Evangelho, diz expressamente (2 Coríntios 1:24): "Não temos domínio sobre a vossa fé, mas somos cooperadores da vossa alegria".

Da autoridade que Cristo deixou aos príncipes civis

Outro argumento, de que os ministros de Cristo neste mundo presente não têm direito de comandar, pode ser extraído da autoridade legítima que Cristo deixou a todos os príncipes, tanto cristãos quanto infiéis. São Paulo diz (Colossenses 3:20): “Filhos, obedeçam a seus pais em tudo, pois isso agrada ao Senhor”. E no versículo 22: “Servos, obedeçam em tudo a seus senhores terrenos, não servindo apenas quando eles estão olhando, para agradá-los, mas com sinceridade de coração, como quem teme ao Senhor”. Isso é dito àqueles cujos senhores eram infiéis; e, no entanto, eles são instruídos a obedecê-los em todas as coisas. E novamente, a respeito da obediência aos príncipes (Romanos 13:6), exortando a “sujeitar-se às autoridades superiores”, ele diz: “pois todo o poder vem de Deus”. e “que devemos nos sujeitar a eles, não apenas por medo de incorrer em sua ira, mas também por causa da consciência”. E São Pedro (1 Epístola, capítulo 2, versículos 13, 14 e 15): “Sujeitem-se a toda autoridade constituída entre os homens, por amor ao Senhor, seja ao Rei, como soberano, seja aos governadores, como enviados por ele para punir os malfeitores e enaltecer os que praticam o bem; pois esta é a vontade de Deus”. E novamente São Paulo (Tito 3:1): “Lembre-se de que os homens devem sujeitar-se aos principados e potestades e obedecer aos magistrados”. Esses príncipes e potestades, dos quais São Pedro e São Paulo falam aqui, eram todos infiéis; muito mais, portanto, devemos obedecer aos cristãos que Deus ordenou para terem poder soberano sobre nós. Como, então, podemos ser obrigados a fazer algo contrário ao mandamento do Rei, ou de outro Representante Soberano da Comunidade, da qual somos membros e por quem esperamos ser protegidos? É, portanto, evidente que Cristo não deixou aos seus ministros neste mundo, a menos que também sejam investidos de Autoridade Civil, qualquer autoridade para comandar outros homens.

O que os cristãos podem fazer para evitar a perseguição

Mas o que aconteceria (alguns poderiam objetar) se um Rei, um Senado ou outra Pessoa Soberana nos proibisse de crer em Cristo? A isso respondo que tal proibição não tem efeito, porque a crença e a descrença jamais seguem ordens humanas. A fé é um dom de Deus, que o homem não pode dar nem tirar por meio de promessas de recompensas ou ameaças de tortura. E se perguntarem ainda: "E se o nosso legítimo Príncipe nos ordenar a dizer com a nossa língua: 'Não cremos', devemos obedecer a tal ordem?", a profissão de fé com a língua é apenas algo externo, nada mais do que qualquer outro gesto pelo qual manifestamos nossa obediência; e, nesse sentido, o cristão, mantendo firmemente em seu coração a fé em Cristo, tem a mesma liberdade que o profeta Eliseu concedeu a Naamã, o sírio. Naamã se converteu em seu coração ao Deus de Israel; Pois ele diz (2 Reis 5:17): “Teu servo não oferecerá mais holocausto nem sacrifício a outros deuses, mas ao Senhor. Que o Senhor perdoe o teu servo por isso, pois quando meu senhor entra na casa de Rimom para adorar ali, e se apoia na minha mão, e eu me prostro na casa de Rimom, que o Senhor perdoe o teu servo por isso.” O profeta aprovou isso e lhe disse: “Vai em paz.” Aqui, Naamã acreditava em seu coração; mas, ao se prostrar diante do ídolo de Rimom, ele negou o verdadeiro Deus na prática, tanto quanto se o tivesse feito com os lábios. Mas então, o que responderemos ao nosso Salvador, que diz: “Aquele que me negar diante dos homens, eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus?” Podemos afirmar que, qualquer ato que um súdito, como Naamã, seja compelido a fazer em obediência ao seu soberano, e o faça não por sua própria vontade, mas em conformidade com as leis de seu país, essa ação não é sua, mas de seu soberano; e não é ele que, neste caso, nega a Cristo perante os homens, mas sim seu governador e a lei de seu país. Se alguém acusar essa doutrina de ser repugnante ao verdadeiro e genuíno cristianismo, pergunto-lhe: caso haja um súdito em qualquer comunidade cristã que, no íntimo de seu coração, seja da religião muçulmana, se, por ordem de seu soberano, este lhe ordenar que esteja presente no culto divino da Igreja Cristã, sob pena de morte, considerará esse muçulmano obrigado em consciência a sofrer a morte por essa causa, em vez de obedecer à ordem de seu legítimo príncipe. Se ele disser que prefere sofrer a morte, então autoriza todos os homens a desobedecerem a seus príncipes em defesa de sua religião, verdadeira ou falsa; se ele disser que deve ser obediente, então permite a si mesmo o que nega a outro, contrariando as palavras de nosso Salvador: “Tudo o que vocês querem que os outros lhes façam, não lhes façam mal algum.”que fazeis a eles;” e contrário à Lei da Natureza (que é a indubitável e eterna Lei de Deus): “Não façais aos outros o que não quereis que eles vos façam.”

Dos mártires

Mas o que diremos, então, de todos aqueles mártires de quem lemos na História da Igreja, que desperdiçaram suas vidas desnecessariamente? Para responder a essa questão, devemos distinguir as pessoas que foram mortas por essa causa; algumas receberam um chamado para pregar e professar abertamente o Reino de Cristo; outras não receberam tal chamado, nem lhes foi exigido mais do que a sua própria fé. Os primeiros, se foram mortos por testemunharem que Jesus Cristo ressuscitou dos mortos, foram verdadeiros mártires; pois um mártir é (para dar a verdadeira definição da palavra) uma testemunha da ressurreição de Jesus, o Messias; e ninguém pode ser mártir senão aqueles que conviveram com Ele na Terra e O viram depois de Sua ressurreição: pois uma testemunha deve ter visto o que testemunha, ou então seu testemunho não é válido. E que somente esses podem ser propriamente chamados de mártires de Cristo fica evidente nas palavras de São Pedro, em Atos. 1.21, 22. “Portanto, dentre esses homens que estiveram conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós, desde o Batismo de João até o dia em que foi elevado ao céu, um deles deve ser ordenado para ser um mártir (isto é, uma testemunha) conosco de sua ressurreição.” Podemos observar que aquele que deve ser testemunha da verdade da ressurreição de Cristo, ou seja, da verdade deste artigo fundamental da religião cristã, de que Jesus era o Cristo, deve ser algum discípulo que conversou com ele e o viu antes e depois de sua ressurreição; e, consequentemente, deve ser um de seus discípulos originais. Já aqueles que não o foram não podem testemunhar mais nada além do que seus antecessores disseram, sendo, portanto, apenas testemunhas do testemunho de outros homens; e são apenas segundos mártires, ou mártires das testemunhas de Cristo.

Aquele que, ao defender cada doutrina que extrai da história da vida de nosso Salvador, dos Atos dos Apóstolos ou das Epístolas dos Apóstolos, ou na qual acredita com base na autoridade de um indivíduo, se opõe às leis e à autoridade do Estado Civil, está muito longe de ser um mártir de Cristo ou um mártir de seus mártires. Há apenas um artigo pelo qual morrer merece um nome tão honroso: Jesus é o Cristo, ou seja, aquele que nos redimiu e que há de voltar para nos dar a salvação e a vida eterna em seu glorioso Reino. Morrer por cada princípio que serve à ambição ou ao proveito do clero não é necessário; nem é a morte da testemunha, mas o próprio testemunho que faz o mártir, pois a palavra não significa outra coisa senão o homem que dá testemunho, seja ele morto por seu testemunho ou não.

Também aquele que não é enviado para pregar este artigo fundamental, mas o assume por sua autoridade privada, embora seja uma Testemunha e, consequentemente, um Mártir, seja primário de Cristo, seja secundário de seus Apóstolos, Discípulos ou seus Sucessores; ainda assim, não é obrigado a sofrer a morte por essa causa; porque, não sendo chamado para tal, não lhe é exigido; nem deve reclamar se perder a recompensa que espera daqueles que nunca o incumbiram de tal tarefa. Portanto, ninguém pode ser um Mártir, nem de primeiro nem de segundo grau, que não tenha autorização para pregar Cristo encarnado; isto é, ninguém, exceto aqueles que são enviados para a conversão dos infiéis. Pois ninguém é Testemunha para aquele que já crê e, portanto, não precisa de Testemunha; mas sim para aqueles que negam, duvidam ou não ouviram. Cristo enviou seus Apóstolos e seus Setenta Discípulos com autoridade para pregar; não enviou todos os que creem: e os enviou aos incrédulos; “Eu vos envio (disse ele) como ovelhas no meio de lobos;” não como ovelhas para outras ovelhas.

Argumento a partir dos pontos de vista da sua comissão

Por fim, os pontos da sua Comissão, tal como estão expressamente definidos no Evangelho, não conferem qualquer autoridade sobre a Congregação.

Pregar

Temos primeiro (Mateus 10) que os doze apóstolos foram enviados “às ovelhas perdidas da casa de Israel” e incumbidos de pregar “que o Reino de Deus estava próximo”. Ora, pregar, no original, é o ato que um arauto, mensageiro ou outro oficial costumava realizar publicamente ao proclamar um rei. Mas um arauto não tem o direito de dar ordens a ninguém. E (Lucas 10:2) os setenta discípulos são enviados “como trabalhadores, não como senhores da colheita”; e são instruídos (versículo 9) a dizer: “O Reino de Deus está próximo de vós”; e por Reino aqui se entende, não o Reino da Graça, mas o Reino da Glória; pois são instruídos a denunciá-lo (versículo 11) àquelas cidades que não os receberem, como uma ameaça, de que naquele dia será mais tolerável para Sodoma do que para tal cidade. E (Mateus 20:28) nosso Salvador diz aos seus discípulos, que buscavam prioridade de lugar, que seu ofício era ministrar, assim como o Filho do Homem veio, não para ser ministrado, mas para servir. Os pregadores, portanto, não têm poder magistral, mas ministerial: “Não vos façais chamar mestres (diz nosso Salvador, Mateus 23:10), pois um só é o vosso Mestre, a saber, Cristo”.

E ensinar

Outro ponto da sua missão é ensinar todas as nações, como está em Mateus 28:19 ou em Marcos 16:15: "Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura". Ensinar, portanto, e pregar é a mesma coisa. Pois aqueles que proclamam a vinda de um Rei devem, acima de tudo, deixar claro por qual direito ele vem, se quiserem que os homens se submetam a ele. Como fez São Paulo aos judeus de Tessalônica, quando "durante três sábados, argumentou com eles a partir das Escrituras, explicando e alegando que Cristo devia padecer e ressuscitar dentre os mortos, e que este Jesus é o Cristo". Mas ensinar, com base no Antigo Testamento, que Jesus era o Cristo (isto é, o Rei) e ressuscitou dos mortos não significa que os homens, depois de crerem nisso, sejam obrigados a obedecer àqueles que lhes dizem isso, contrariando as leis e os mandamentos de seus soberanos. mas que ajam com sabedoria, aguardando a vinda de Cristo no futuro, com paciência, fé e obediência aos seus atuais magistrados.

Batizar;

Outro ponto da sua missão é batizar “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. O que é o batismo? Mergulhar na água. Mas o que significa mergulhar alguém na água em nome de algo? O significado dessas palavras sobre o batismo é este: aquele que é batizado é mergulhado ou lavado como sinal de se tornar um novo homem e um súdito leal àquele Deus, cuja Pessoa foi representada nos tempos antigos por Moisés e pelos sumos sacerdotes, quando reinava sobre os judeus; e a Jesus Cristo, seu Filho, Deus e Homem, que nos redimiu e que, em sua natureza humana, representará a Pessoa do Pai em seu Reino eterno após a Ressurreição; e para reconhecer a doutrina dos apóstolos, que, auxiliados pelo Espírito do Pai e do Filho, foram deixados como guias para nos conduzir a esse Reino, sendo este o único e seguro caminho para ele. Esta é a nossa promessa no batismo. E como a autoridade dos soberanos terrenos não deve ser abolida até o dia do Juízo Final (pois isso é expressamente afirmado por São Paulo em 1 Coríntios 15:22-24, onde ele diz: “Assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados. Mas cada um por sua vez: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. Então virá o fim, quando ele entregar o Reino de Deus, o Pai, depois de haver destruído todo domínio, e toda autoridade e todo poder”), é evidente que, no batismo, não constituímos sobre nós outra autoridade pela qual nossas ações externas devam ser governadas nesta vida; mas prometemos tomar a doutrina dos apóstolos como nossa direção no caminho para a vida eterna.

E perdoar e reter pecados

O poder de remissão e retenção dos pecados, também chamado de poder de ligar e desligar, e às vezes de chaves do Reino dos Céus, é uma consequência da autoridade para batizar ou recusar o batismo. Pois o batismo é o sacramento da adesão daqueles que serão recebidos no Reino de Deus; isto é, na vida eterna; isto é, na remissão dos pecados: pois assim como a vida eterna foi perdida pelo pecado, ela é recuperada pela remissão dos pecados dos homens. O fim do batismo é a remissão dos pecados; e, portanto, São Pedro, quando aqueles que foram convertidos por seu sermão no dia de Pentecostes perguntaram o que deveriam fazer, aconselhou-os a “arrepender-se e ser batizados em nome de Jesus para a remissão dos pecados”. E, portanto, batizar é declarar a recepção dos homens no Reino de Deus; e recusar o batismo é declarar sua exclusão. Segue-se, portanto, que o poder de declará-los expulsos ou retidos na fé foi dado aos mesmos apóstolos, seus substitutos e sucessores. E, portanto, depois que nosso Salvador soprou sobre eles, dizendo (João 20:22): “Recebei o Espírito Santo”, ele acrescenta no versículo seguinte: “A quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos”. Com essas palavras, não é concedida a autoridade para perdoar ou reter pecados de forma simples e absoluta, como Deus os perdoa ou os retém, pois Ele conhece o coração do homem e a verdade de seu arrependimento e conversão. mas condicionalmente, ao Penitente: E este Perdão, ou Absolvição, caso o absolvido tenha apenas um arrependimento fingido, é por isso, sem qualquer outro ato ou sentença do Absolvente, tornado nulo, e não tem efeito algum para a Salvação, mas, ao contrário, para o agravamento do seu Pecado. Portanto, os Apóstolos e seus Sucessores devem seguir apenas os sinais exteriores do Arrependimento; se aparecerem, não têm Autoridade para negar a Absolvição; e se não aparecerem, não têm autoridade para Absolver. O mesmo deve ser observado no Batismo: pois a um judeu ou gentio convertido, os Apóstolos não tinham o Poder de negar o Batismo; nem de concedê-lo ao Impenitente. Mas, visto que ninguém é capaz de discernir a verdade do Arrependimento de outro homem, senão por sinais externos, tomados de suas palavras e ações, que estão sujeitas à hipocrisia; surge outra questão: Quem é constituído Juiz desses sinais? E esta questão é decidida pelo próprio Salvador (Mateus 18:15, 16, 17): “Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só; se ele te ouvir, ganhaste teu irmão. Mas, se ele não te ouvir, leva contigo mais um ou dois. E, se ele se recusar a ouvi-los,“Diga isso à Igreja, seja ele para você como um pagão e um publicano.” Com isso, fica evidente que o julgamento concernente à verdade do arrependimento não pertencia a um só homem, mas à Igreja, isto é, à Assembleia dos Fiéis, ou àqueles que têm autoridade para representá-los. Mas, além do julgamento, é necessária também a pronúncia da sentença: e esta sempre pertenceu ao apóstolo, ou a algum pastor da Igreja, como prolocutor; e disso nosso Salvador fala no versículo 18: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.” E em conformidade com isso estava a prática de São Paulo (1 Coríntios 5:3, 4 e 5), onde ele diz: “Porque eu, na verdade, embora ausente no corpo, mas presente em espírito, já determinei, como se estivesse presente, acerca daquele que praticou tal ato, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, quando estiverdes reunidos, e no meu espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, entregar tal pessoa a Satanás;” isto é, expulsá-lo da Igreja, como um homem cujos pecados não são perdoados. Paulo aqui pronuncia a sentença; mas a Assembleia foi a primeira a ouvir a causa (pois São Paulo estava ausente) e, por consequência, a condená-lo. Mas no mesmo capítulo (versículos 11 e 12), o julgamento em tal caso é atribuído mais expressamente à Assembleia: “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, é imoral, etc.” Com tal pessoa, não se deve comer. Pois que me importa julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro?” A sentença, portanto, pela qual um homem era expulso da Igreja, era pronunciada pelo Apóstolo ou Pastor; mas o julgamento a respeito do mérito da causa era feito na Igreja; isto é, (como eram os tempos antes da conversão dos Reis e dos homens que tinham Autoridade Soberana na Comunidade), a Assembleia dos Cristãos que habitavam a mesma Cidade; como em Corinto, na Assembleia dos Cristãos de Corinto.Paulo (1 Coríntios 5:3, 4 e 5) diz: “Porque eu, na verdade, embora ausente no corpo, mas presente em espírito, já determinei, como se estivesse presente, acerca daquele que praticou tal ato, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, quando estiverdes reunidos, e no meu Espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, entregar tal pessoa a Satanás;” isto é, expulsá-lo da Igreja, como um homem cujos pecados não são perdoados. Paulo aqui pronuncia a sentença; mas a Assembleia primeiro ouviu a causa (pois São Paulo estava ausente) e, por consequência, o condenou. Mas, no mesmo capítulo (versículos 11 e 12), o julgamento, em tal caso, é atribuído mais expressamente à Assembleia: “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, seja imoral, etc., e com esse tal nem sequer comais. Pois que me importa julgar os de fora? Não julgais vós os que estão de dentro?” A sentença, portanto, pela qual um homem era expulso da Igreja, era pronunciada pelo Apóstolo ou Pastor; mas o julgamento a respeito do mérito da causa era feito na Igreja; isto é, (como eram os tempos antes da conversão dos Reis e dos homens que tinham Autoridade Soberana na Comunidade), a Assembleia dos cristãos que habitavam a mesma cidade; como em Corinto, na Assembleia dos cristãos de Corinto.Paulo (1 Coríntios 5:3, 4 e 5) diz: “Porque eu, na verdade, embora ausente no corpo, mas presente em espírito, já determinei, como se estivesse presente, acerca daquele que praticou tal ato, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, quando estiverdes reunidos, e no meu Espírito, com o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, entregar tal pessoa a Satanás;” isto é, expulsá-lo da Igreja, como um homem cujos pecados não são perdoados. Paulo aqui pronuncia a sentença; mas a Assembleia primeiro ouviu a causa (pois São Paulo estava ausente) e, por consequência, o condenou. Mas, no mesmo capítulo (versículos 11 e 12), o julgamento, em tal caso, é atribuído mais expressamente à Assembleia: “Mas agora vos escrevi que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, seja imoral, etc., e com esse tal nem sequer comais. Pois que me importa julgar os de fora? Não julgais vós os que estão de dentro?” A sentença, portanto, pela qual um homem era expulso da Igreja, era pronunciada pelo Apóstolo ou Pastor; mas o julgamento a respeito do mérito da causa era feito na Igreja; isto é, (como eram os tempos antes da conversão dos Reis e dos homens que tinham Autoridade Soberana na Comunidade), a Assembleia dos cristãos que habitavam a mesma cidade; como em Corinto, na Assembleia dos cristãos de Corinto.

Da excomunhão

Esta parte do Poder das Chaves, pela qual os homens eram expulsos do Reino de Deus, é o que se chama Excomunhão; e excomungar, no original, significa "Expulsar da Sinagoga"; isto é, do local do culto divino; uma palavra extraída do costume dos judeus de expulsar de suas sinagogas aqueles que consideravam contagiosos em seus costumes ou doutrinas, assim como os leprosos eram separados da congregação de Israel pela Lei de Moisés, até que fossem declarados puros pelo sacerdote.

O uso da excomunhão sem poder civil.

O uso e o efeito da excomunhão, enquanto ainda não havia sido fortalecido pelo poder civil, não passavam do fato de que aqueles que não estavam excomungados deviam evitar a companhia dos que estavam. Não bastava considerá-los pagãos, aqueles que nunca haviam sido cristãos; pois com tais podiam comer e beber, o que não podiam fazer com os excomungados, como se vê nas palavras de São Paulo (1 Coríntios 5, versículos 9, 10, etc.), onde ele lhes diz que antes os havia proibido de "associar-se com fornicadores"; mas (porque isso não poderia ser feito sem sair do mundo), ele restringe a proibição a tais fornicadores e outras pessoas viciosas que fossem irmãos; "com tal pessoa", diz ele, "não devem manter companhia, nem mesmo comer". E isto nada mais é do que o nosso Salvador diz (Mateus 18:17): “Trate-o como um gentio e como um publicano”. Pois os publicanos (que significam lavradores e recebedores dos impostos da comunidade) eram tão odiados e detestados pelos judeus que pagavam por eles, que publicano e pecador eram considerados a mesma coisa: de tal forma que, quando o nosso Salvador aceitou o convite de Zaqueu, um publicano, embora fosse para convertê-lo, isso lhe foi objetado como um crime. E, portanto, quando o nosso Salvador, além de gentio, acrescentou publicano, proibiu-os de comer com um homem excomungado.

Quanto a impedi-los de entrar em suas sinagogas ou locais de reunião, eles não tinham poder para fazê-lo, a não ser o do dono do local, fosse ele cristão ou pagão. E como todos os lugares estão, por direito, sob o domínio da comunidade, tanto aquele que foi excomungado quanto aquele que nunca foi batizado podiam entrar neles por ordem do magistrado civil; assim como Paulo, antes de sua conversão, entrou nas sinagogas de Damasco (Atos 9:2) para prender cristãos, homens e mulheres, e levá-los presos para Jerusalém, por ordem do sumo sacerdote.

Sem efeito sobre um apóstata

Com isso, fica evidente que, para um cristão que se tornasse apóstata em um lugar onde o poder civil perseguia ou não auxiliava a Igreja, o efeito da excomunhão não tinha efeito algum, nem de dano neste mundo, nem de terror: não de terror por causa de sua incredulidade, nem de dano porque, com isso, retornava ao favor do mundo; e, no mundo vindouro, não estaria em pior estado do que aqueles que nunca creram. O dano, ao contrário, revertia para a Igreja, que, provocada por aqueles que expulsavam, podia executar sua malícia com mais liberdade.

Mas somente sobre os fiéis

A excomunhão, portanto, tinha efeito apenas sobre aqueles que acreditavam que Jesus Cristo voltaria em glória para reinar e julgar os vivos e os mortos, e, por isso, negava a entrada em seu Reino àqueles cujos pecados eram retidos; isto é, àqueles que eram excomungados pela Igreja. Daí o fato de São Paulo chamar a excomunhão de entrega da pessoa excomungada a Satanás. Pois, sem o Reino de Cristo, todos os outros reinos, após o juízo, estão compreendidos no reino de Satanás. Era disso que os fiéis temiam enquanto permaneciam excomungados, ou seja, em um estado no qual seus pecados não eram perdoados. Com isso, podemos entender que a excomunhão, na época em que a religião cristã não era autorizada pelo poder civil, era usada apenas para corrigir costumes, não erros de opinião: pois era um castigo do qual ninguém poderia ser sensível, exceto aqueles que acreditavam e esperavam a volta de nosso Salvador para julgar o mundo. E aqueles que assim acreditavam não precisavam de outra opinião, senão de uma vida reta, para serem salvos.

Qual é a culpa da excomunhão?

Aí reside a excomunhão por injustiça, como em Mateus 18: "Se teu irmão te escandalizar, dize-lhe em particular; depois, na presença de testemunhas; por fim, dize-lhe à igreja; e, se ele não obedecer, trata-o como um gentio e um publicano". E aí reside a excomunhão por uma vida escandalosa, como em 1 Coríntios 5:11: "Se alguém, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou bêbado, ou roubador, com esse tal não comereis". Mas excomungar um homem que sustentava este fundamento, que Jesus era o Cristo, por divergência de opinião em outros pontos, pelos quais esse fundamento não foi destruído, não encontra autoridade nas Escrituras, nem exemplo nos Apóstolos. Há, de fato, em São Paulo (Tito 3:10) um texto que parece indicar o contrário. “Aquele que é heerético, depois da primeira e da segunda admoestação, rejeita-o.” Pois um heerético é aquele que, sendo membro da Igreja, ensina, no entanto, alguma opinião particular que a Igreja proibiu; e a tal pessoa, São Paulo aconselha Tito, depois da primeira e da segunda admoestação, a rejeitá-la. Mas rejeitar (neste contexto) não é excomungar o homem; mas sim deixar de admoestá-lo, deixá-lo em paz, cessar a discussão com ele, como alguém que deve ser convencido apenas por si mesmo. O mesmo apóstolo diz (2 Timóteo 2:23): “Evita as questões tolas e sem instrução”. A palavra “evitar” neste contexto, e “rejeitar” no anterior, é a mesma no original: mas as questões tolas podem ser rejeitadas sem excomunhão. E novamente, (Tito 3:93) “Evite questões tolas”, onde o original, periistaso (deixe-as de lado), é equivalente à palavra anterior, rejeitar. Não há outro lugar que possa ser considerado plausível para justificar a expulsão da Igreja de homens fiéis, tais como aqueles que acreditavam que o fundamento era unicamente uma superestrutura singular própria, talvez procedendo de uma boa e piedosa consciência. Mas, ao contrário, todas as passagens que ordenam evitar tais disputas foram escritas como uma lição para os pastores (como Timóteo e Tito), para que não criem novos artigos de fé resolvendo cada pequena controvérsia que obriga os homens a um fardo desnecessário de consciência ou os incite a romper a união da Igreja. Lição que os próprios apóstolos observaram bem. São Pedro e São Paulo, embora sua controvérsia fosse grande (como podemos ler em Gálatas 2:11), não se expulsaram mutuamente da Igreja. Contudo, durante o tempo dos Apóstolos, houve outros pastores que não observaram isso; como Diótrefes (3 João 9, etc.), que expulsou da Igreja aqueles que o próprio São João considerou dignos de serem recebidos nela, por orgulho de sua preeminência; tão cedo foi que a vaidade,E a ambição havia encontrado um caminho para entrar na Igreja de Cristo.

Das pessoas sujeitas à excomunhão

Para que um homem seja passível de excomunhão, muitas condições devem ser atendidas; primeiro, que ele seja membro de alguma comunidade, isto é, de alguma assembleia legítima, ou seja, de alguma igreja cristã, que tenha poder para julgar a causa pela qual ele deve ser excomungado. Pois onde não há comunidade, não pode haver excomunhão; nem onde não há poder para julgar, pode haver poder para sentenciar. Daí se segue que uma igreja não pode ser excomungada por outra: pois ou elas têm igual poder para se excomungarem mutuamente, caso em que a excomunhão não é disciplina, nem um ato de autoridade, mas cisma e dissolução da caridade; ou uma é tão subordinada à outra que ambas têm apenas uma voz, e então são apenas uma igreja; e a parte excomungada não é mais uma igreja, mas um número dissoluto de indivíduos.

E como a sentença de excomunhão implica um conselho para não manter companhia, nem mesmo comer com aquele que está excomungado, se um príncipe soberano ou uma assembleia for excomungado, a sentença não tem efeito. Pois todos os súditos são obrigados a estar na companhia e na presença de seu próprio soberano (quando ele o exigir) pela lei da natureza; e não podem legalmente expulsá-lo de qualquer lugar de seu domínio, seja profano ou sagrado; nem sair de seu domínio sem sua permissão; muito menos (se ele os chamar para essa honra) recusar-se a comer com ele. E quanto a outros príncipes e estados, como não fazem parte de uma mesma congregação, não precisam de nenhuma outra sentença para impedi-los de manter companhia com o estado excomungado: pois a própria instituição, assim como une muitos homens em uma comunidade, também dissocia uma comunidade da outra: de modo que a excomunhão não é necessária para manter reis e estados separados. nem tem qualquer outro efeito além daquele inerente à própria política; a menos que seja o de instigar príncipes a guerrearem uns contra os outros.

A excomunhão de um cristão que obedece às leis de seu próprio soberano, seja ele cristão ou pagão, não tem qualquer efeito. Pois, se ele crê que “Jesus é o Cristo, ele tem o Espírito de Deus” (1 João 4:1) e “Deus habita nele, e ele em Deus” (1 João 4:15), aquele que tem o Espírito de Deus, aquele que habita em Deus, aquele em quem Deus habita, não pode sofrer nenhum dano com a excomunhão. Portanto, aquele que crê que Jesus é o Cristo está livre de todos os perigos que ameaçam as pessoas excomungadas. Aquele que não crê não é cristão. Portanto, um cristão verdadeiro e sincero não está sujeito à excomunhão. Nem mesmo aquele que se declara cristão, até que sua hipocrisia se manifeste em seus costumes, isto é, até que seu comportamento seja contrário à lei de seu Soberano, que é a regra dos costumes, e à qual Cristo e seus Apóstolos nos ordenaram submeter. Pois a Igreja não pode julgar os costumes senão por meio de ações externas, as quais nunca podem ser ilegais, a não ser quando contrariam a lei da comunidade.

Se o pai, a mãe ou o mestre de um homem forem excomungados, não é proibido aos filhos conviverem com eles nem comerem com eles; pois isso (na maioria dos casos) os obrigaria a não comer de todo, por falta de meios para obter alimento, e os autorizaria a desobedecer a seus pais e mestres, contrariando os preceitos dos apóstolos.

Em suma, o poder da excomunhão não pode ser estendido além do propósito para o qual os Apóstolos e Pastores da Igreja receberam sua comissão de nosso Salvador; que não é governar por comando e cooperação, mas por meio do ensino e da direção dos homens no caminho da salvação no mundo vindouro. E assim como um mestre em qualquer ciência pode abandonar seu aluno quando este obstinadamente negligencia a prática de suas regras, mas não pode acusá-lo de injustiça, porque ele nunca foi obrigado a obedecê-lo; da mesma forma, um mestre da doutrina cristã pode abandonar seus discípulos que obstinadamente continuam em uma vida não cristã; mas ele não pode dizer que eles o prejudicam, porque não são obrigados a obedecê-lo. Pois a um mestre que assim se queixa, pode-se aplicar a resposta de Deus a Samuel no mesmo trecho (1 Samuel 8): "Não te rejeitaram a ti, mas a mim". A excomunhão, portanto, quando carece do auxílio do Poder Civil, como ocorre quando um Estado cristão ou um príncipe é excomungado por uma autoridade estrangeira, é ineficaz; e, consequentemente, não deveria ser motivo de terror. O nome Fulmen Excommunicationis (isto é, o Raio da Excomunhão) surgiu da imaginação do Bispo de Roma, que o utilizou pela primeira vez, ao afirmar ser o Rei dos Reis, assim como os pagãos fizeram de Júpiter o Rei dos Deuses; e o representaram, em seus poemas e pinturas, como um raio, com o qual subjugaria e puniria os gigantes que ousassem negar seu poder. Tal imaginação baseava-se em dois erros: primeiro, que o Reino de Cristo é deste mundo, contrariando as próprias palavras de nosso Salvador: "O meu Reino não é deste mundo"; segundo, que ele é o Vigário de Cristo, não apenas sobre seus próprios súditos, mas sobre todos os cristãos do mundo. do qual não há fundamento nas Escrituras, e o contrário será provado em seu devido lugar.

Do intérprete das Escrituras antes que os soberanos civis se tornassem cristãos.

São Paulo, chegando a Tessalônica, onde havia uma sinagoga judaica (Atos 17:2, 3), “entrou na sinagoga e, por três sábados, debateu com eles a partir das Escrituras, explicando e argumentando que era necessário que o Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos, e que este Jesus, a quem ele anunciava, era o Cristo”. As Escrituras mencionadas eram as Escrituras dos judeus, ou seja, o Antigo Testamento. Os homens a quem ele deveria provar que Jesus era o Cristo e havia ressuscitado dentre os mortos também eram judeus e já acreditavam que as Escrituras eram a Palavra de Deus. Assim (como no versículo 4), alguns creram e (como no versículo 5) outros não creram. Qual foi a razão, visto que todos creram nas Escrituras, para que não cressem da mesma forma? Alguns aprovaram e outros desaprovaram a interpretação de São Paulo que as citava. E cada um interpretava as coisas para si mesmo? Era o seguinte: São Paulo veio até eles sem nenhuma comissão legal, e da maneira de alguém que não ordena, mas persuade; o que ele necessariamente precisava fazer, seja por meio de milagres, como Moisés fez aos israelitas no Egito, para que vissem sua autoridade nas obras de Deus; seja raciocinando a partir das Escrituras já recebidas, para que vissem a verdade de sua doutrina na Palavra de Deus. Mas quem persuade raciocinando a partir de princípios escritos, faz com que aquele a quem fala julgue tanto o significado desses princípios quanto a força de suas inferências sobre eles. Se esses judeus de Tessalônica não eram juízes, quem mais seria o juiz do que São Paulo alegava com base nas Escrituras? Se era São Paulo, por que precisava citar trechos para provar sua doutrina? Bastava ter dito: "Encontro isso nas Escrituras", isto é, em suas leis, das quais sou intérprete, enviado por Cristo. Portanto, o intérprete das Escrituras, a cuja interpretação os judeus de Tessalônica eram obrigados a se submeter, não poderia ser ninguém: cada um podia crer ou não, conforme as alegações lhe parecessem concordantes ou não com o significado das passagens citadas. E, em geral, em todos os casos do mundo, aquele que pretende apresentar alguma prova, faz dela juiz aquele a quem dirige sua fala. E quanto ao caso dos judeus em particular, eles eram obrigados por palavras expressas (Deuteronômio 17) a receber a resolução de todas as questões difíceis dos sacerdotes e juízes de Israel da época. Mas isso deve ser entendido em relação aos judeus que ainda não haviam se convertido.

Para a conversão dos gentios, não adiantava citar as Escrituras, nas quais eles não acreditavam. Os apóstolos, portanto, esforçaram-se pela razão para refutar a idolatria deles; e, feitos isso, persuadiram-nos à fé em Cristo, por meio do testemunho de sua vida e ressurreição. Assim, não poderia haver controvérsia alguma quanto à autoridade para interpretar as Escrituras, visto que ninguém era obrigado, durante sua infidelidade, a seguir a interpretação de qualquer pessoa sobre as Escrituras, exceto a interpretação das leis de seu soberano.

Consideremos agora a própria conversão e vejamos o que havia nela que pudesse ser causa de tal obrigação. Os homens não se convertiam a nada além da crença naquilo que os Apóstolos pregavam: e os Apóstolos não pregavam nada além de que Jesus era o Cristo, isto é, o Rei que os salvaria e reinaria sobre eles eternamente no mundo vindouro; e, consequentemente, que Ele não estava morto, mas ressuscitado dentre os mortos, ascendido aos Céus e que um dia voltaria para julgar o mundo (que também ressuscitaria para ser julgado) e recompensar cada um segundo as suas obras. Nenhum deles pregava que ele próprio, ou qualquer outro Apóstolo, fosse um intérprete das Escrituras a ponto de todos os que se tornassem cristãos devessem tomar sua interpretação como lei. Pois interpretar as leis faz parte da administração de um Reino presente; o qual os Apóstolos não possuíam. Eles oravam então, e todos os outros pastores desde então, “Venha o teu Reino”; e exortavam seus convertidos a obedecerem aos seus respectivos príncipes étnicos. O Novo Testamento ainda não havia sido publicado em um único corpo. Cada um dos Evangelistas era intérprete do seu próprio Evangelho; e cada Apóstolo, da sua própria Epístola. E sobre o Antigo Testamento, o próprio Salvador disse aos judeus (João 5:39): “Examinai as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam”. Se ele não quisesse que as interpretassem, não lhes teria ordenado que tirassem dali a prova de que ele era o Cristo; ele mesmo as teria interpretado ou os teria encaminhado à interpretação dos sacerdotes.

Quando surgia uma dificuldade, os Apóstolos e Anciãos da Igreja se reuniam e determinavam o que deveria ser pregado e ensinado, e como deveriam interpretar as Escrituras para o povo; mas não lhes tiravam a liberdade de lê-las e interpretá-las por si mesmos. Os Apóstolos enviaram diversas cartas às igrejas e outros escritos para sua instrução; o que teria sido em vão se não lhes tivessem permitido interpretar, isto é, considerar o seu significado. E assim como era nos tempos dos Apóstolos, assim também seria até que houvesse pastores que pudessem autorizar um intérprete, cuja interpretação fosse geralmente aceita: mas isso não poderia acontecer até que os reis fossem pastores, ou os pastores reis.

Do poder de transformar as Escrituras em lei

Há dois sentidos em que um texto pode ser considerado canônico; pois cânone significa regra; e uma regra é um preceito pelo qual o homem é guiado e orientado em qualquer ação. Tais preceitos, embora dados por um mestre a seu discípulo, ou por um conselheiro a seu amigo, sem poder para obrigá-lo a observá-los, são, não obstante, cânones, porque são regras. Mas quando são dados por alguém a quem aquele que os recebe é obrigado a obedecer, então esses cânones não são apenas regras, mas leis. A questão, portanto, aqui é sobre o poder de tornar as Escrituras (que são as regras da fé cristã) leis.

Dos Dez Mandamentos

A parte das Escrituras que constituiu a primeira Lei foram os Dez Mandamentos, escritos em duas Tábuas de Pedra e entregues pelo próprio Deus a Moisés, que os revelou ao povo. Antes disso, não havia nenhuma Lei escrita de Deus, pois Ele, não tendo ainda escolhido nenhum povo para ser o Seu reino particular, não havia dado nenhuma lei aos homens, mas sim a Lei da Natureza, ou seja, os Preceitos da Razão Natural, inscritos no coração de cada um. Dessas duas Tábuas, a primeira contém a lei da Soberania: 1. Que não deveriam obedecer nem honrar os deuses de outras nações, nestas palavras: “Non habebis Deos alienos coram me”, isto é, “Não terás por deuses os deuses que outras nações adoram, mas somente a mim”; por meio das quais lhes era proibido obedecer ou honrar, como seu Rei e Governador, qualquer outro Deus que não aquele que lhes falava então por meio de Moisés e, posteriormente, pelo Sumo Sacerdote. 2. Que eles “não fizessem nenhuma imagem para representá-lo”; isto é, que não escolhessem para si, nem no céu nem na terra, nenhum representante de sua própria escolha, mas obedecessem a Moisés e Arão, a quem ele havia designado para esse ofício. 3. Que eles “não tomassem o nome de Deus em vão”; isto é, que não falassem precipitadamente de seu Rei, nem questionassem seu direito, nem as comissões de Moisés e Arão, seus tenentes. 4. Que eles “se abstivessem de seu trabalho habitual a cada sétimo dia” e empregassem esse tempo em honrá-lo publicamente. A segunda Tábua contém os deveres de um homem para com o outro, como “Honrar os pais; Não matar; Não cometer adultério; Não roubar; Não corromper o juízo com falso testemunho”; e, finalmente, “Nem sequer planejar em seus corações causar dano uns aos outros”. A questão agora é: quem conferiu a essas Tábuas escritas a força obrigatória de leis? Não há dúvida de que foram leis feitas pelo próprio Deus. Mas, como uma lei não obriga ninguém, nem é lei para ninguém, senão para aqueles que a reconhecem como ato do Soberano, como poderiam os israelitas, a quem foi proibido aproximar-se do monte para ouvir o que Deus disse a Moisés, ser obrigados a obedecer a todas as leis que Moisés lhes propôs? Algumas delas eram, de fato, leis da natureza, como todas as da Segunda Tábua; e, portanto, deveriam ser reconhecidas como leis de Deus, não apenas para os israelitas, mas para todos os povos. Mas, quanto àquelas que eram peculiares aos israelitas, como as da Primeira Tábua, a questão permanece; salvo que eles se obrigaram, logo após a sua apresentação, a obedecer a Moisés, nestas palavras (Êxodo 20:19): “Fala-as tu, e nós te ouviremos; mas que Deus não nos fale, para que não morramos”. Portanto, somente Moisés, então, e depois dele o Sumo Sacerdote,Aquele a quem Deus declarou (por meio de Moisés) que deveria administrar este Seu Reino peculiar, aquele que tinha na Terra o poder de tornar esta breve Escritura do Decálogo Lei na Comunidade de Israel. Mas Moisés, Arão e os Sumos Sacerdotes subsequentes eram os Soberanos Civis. Portanto, até então, a canonização, ou seja, a transformação das Escrituras em Lei, pertencia ao Soberano Civil.

Da lei judicial e levítica

A Lei Judicial, isto é, as leis que Deus prescreveu aos magistrados de Israel para reger a administração da justiça e as sentenças ou julgamentos que deveriam proferir em litígios entre homens; e a Lei Levítica, isto é, as regras que Deus prescreveu referentes aos ritos e cerimônias dos sacerdotes e levitas, foram todas entregues a eles somente por Moisés; e, portanto, também se tornaram leis, em virtude da promessa de obediência a Moisés. Se essas leis foram escritas ou ditadas ao povo por Moisés (após seus quarenta dias com Deus no monte) oralmente, não está expresso no texto; mas todas eram leis positivas, equivalentes às Sagradas Escrituras, e canonizadas por Moisés, o soberano civil.

A Segunda Lei

Depois que os israelitas chegaram às planícies de Moabe, em frente a Jericó, e estavam prontos para entrar na terra prometida, Moisés acrescentou às leis anteriores diversas outras; que, portanto, são chamadas de Deuteronômio: isto é, Segundas Leis. E são (como está escrito em Deuteronômio 29:1): “As palavras de uma aliança que o Senhor ordenou a Moisés que fizesse com os filhos de Israel, além da aliança que ele fez com eles em Horebe”. Pois, tendo explicado essas leis anteriores no início do livro de Deuteronômio, ele acrescenta outras, que começam no capítulo 12 e continuam até o final do capítulo 26 do mesmo livro. Esta lei (Deuteronômio 27:1) eles foram ordenados a escrever em grandes pedras colocadas sobre elas, ao atravessarem o Jordão. Esta lei também foi escrita pelo próprio Moisés em um livro. e entregue nas mãos dos “Sacerdotes e dos Anciãos de Israel” (Deuteronômio 31:9) e ordenado (v. 26) “para serem colocados na lateral da Arca”; pois na própria Arca não havia nada além dos Dez Mandamentos. Esta era a Lei, da qual Moisés (Deuteronômio 17:18) ordenou aos Reis de Israel que guardassem uma cópia: E esta é a Lei que, tendo estado perdida por muito tempo, foi encontrada novamente no Templo no tempo de Josias, e por sua autoridade recebida como Lei de Deus. Mas tanto Moisés, ao escrevê-la, quanto Josias, ao recuperá-la, detinham a Soberania Civil. Até então, portanto, o Poder de tornar as Escrituras Canônicas estava nas mãos do Soberano Civil.

Além deste Livro da Lei, não houve nenhum outro livro, desde a época de Moisés até depois do Cativeiro, aceito entre os judeus como a Lei de Deus. Pois os profetas (com exceção de alguns) viveram durante o próprio Cativeiro; e os demais viveram pouco antes; e estavam tão longe de ter suas profecias geralmente aceitas como leis, que suas pessoas foram perseguidas, em parte por falsos profetas e em parte pelos reis que foram seduzidos por eles. E este próprio Livro, que foi confirmado por Josias como a Lei de Deus, e com ele toda a História das Obras de Deus, foi perdido no Cativeiro e no saque da cidade de Jerusalém, como se vê em 2 Esdras 14.21: “A tua lei foi queimada; por isso ninguém sabe as coisas que são feitas por ti, nem as obras que há de começar”. E antes do Cativeiro, entre o tempo em que a Lei foi perdida (o que não é mencionado nas Escrituras, mas provavelmente pode ser considerado como sendo o tempo de Roboão, quando Sisaque, rei do Egito, tomou os despojos do Templo (1 Reis 14:26)) e o tempo de Josias, quando ela foi encontrada novamente, eles não tinham a Palavra de Deus escrita, mas governavam segundo seu próprio critério, ou sob a direção daqueles que cada um deles considerava profetas.

O Antigo Testamento, quando canonizado

Daí podemos inferir que as Escrituras do Antigo Testamento, que temos hoje, não eram canônicas nem lei para os judeus até a renovação de sua aliança com Deus, após seu retorno do cativeiro e a restauração de sua comunidade sob o reinado de Esdras. Mas, a partir desse momento, elas foram consideradas a lei dos judeus e, por isso, traduzidas para o grego por setenta anciãos da Judeia, colocadas na Biblioteca de Ptolomeu em Alexandria e aprovadas como a Palavra de Deus. Ora, visto que Esdras era o sumo sacerdote, e o sumo sacerdote era o soberano civil, fica evidente que as Escrituras nunca foram transformadas em leis senão pelo poder soberano civil.

O Novo Testamento começou a ser canônico sob os soberanos cristãos. Pelos escritos dos Padres da Igreja que viveram antes da recepção e autorização da religião cristã por Constantino, o Imperador, podemos constatar que os livros que hoje possuímos do Novo Testamento eram considerados pelos cristãos daquela época (com exceção de alguns, em razão dos quais os demais eram chamados de Igreja Católica e outros de Igreja Herática) como ditames do Espírito Santo; e, consequentemente, como o cânone ou regra de fé. Tal era a reverência e a opinião que tinham de seus mestres, assim como a reverência que os discípulos demonstram por seus primeiros mestres em toda doutrina que recebem deles não é pequena. Portanto, não há dúvida de que, quando São Paulo escreveu às igrejas que converteu, ou qualquer outro apóstolo ou discípulo de Cristo àqueles que já haviam abraçado a Cristo, estes receberam seus escritos como a verdadeira doutrina cristã. Mas naquela época, quando não era o poder e a autoridade do Mestre, mas a fé do ouvinte que os levava a receber a mensagem, não eram os apóstolos que tornavam seus próprios escritos canônicos, mas cada convertido os tornava assim para si mesmo.

Mas a questão aqui não é o que um cristão fez lei ou cânone para si mesmo (que ele poderia rejeitar, pelo mesmo direito que o recebeu), mas sim o que foi feito cânone para eles de tal forma que, sem injustiça, não pudessem fazer nada em contrário. Que o Novo Testamento seja canônico nesse sentido, isto é, uma lei em qualquer lugar onde a lei da comunidade não o tenha estabelecido como tal, é contrário à natureza de uma lei. Pois uma lei (como já foi demonstrado) é o mandamento daquele homem ou assembleia a quem conferimos autoridade soberana, para estabelecer as regras que julgar convenientes para a condução de nossas ações e para nos punir quando fizermos algo contrário a elas. Portanto, quando qualquer outro homem nos oferecer outras regras que o Soberano não tenha prescrito, elas não passam de conselhos e sugestões. que, seja bom ou mau, aquele que é aconselhado pode, sem injustiça, recusar-se a observar, e quando contrário às Leis já estabelecidas, não pode, sem injustiça, observar, por melhor que o considere. Digo, ele não pode, neste caso, observar o mesmo em suas ações, nem em seu discurso com outros homens; embora possa, sem culpa, acreditar em seus Mestres particulares e desejar ter a liberdade de praticar seus conselhos; e que estes fossem publicamente aceitos como Lei. Pois a fé interior é, por sua própria natureza, invisível e, consequentemente, isenta de toda jurisdição humana; enquanto que as palavras e ações que dela procedem, como transgressões de nossa obediência civil, são injustiça tanto perante Deus quanto perante os homens. Visto que nosso Salvador negou que seu Reino estivesse neste mundo, visto que disse que não veio para julgar, mas para salvar o mundo, não nos sujeitou a outras Leis senão as da Comunidade; Isto é, os judeus à Lei de Moisés (que ele diz (Mateus 5) não veio para destruir, mas para cumprir), e outras nações às leis de seus respectivos soberanos, e todos os homens às leis da natureza; cuja observância, tanto ele próprio quanto seus apóstolos nos recomendaram em seus ensinamentos como condição necessária para sermos admitidos por ele no último dia em seu reino eterno, onde haverá proteção e vida eterna. Visto que nosso Salvador e seus apóstolos não deixaram novas leis para nos obrigar neste mundo, mas uma nova doutrina para nos preparar para o próximo; Os livros do Novo Testamento, que contêm essa doutrina, até que a obediência a eles fosse ordenada por aqueles a quem Deus deu poder na Terra para serem legisladores, não eram cânones obrigatórios, isto é, leis, mas apenas conselhos bons e seguros para a orientação dos pecadores no caminho da salvação, que cada um podia aceitar e rejeitar por sua própria conta e risco, sem injustiça.

Novamente, a comissão de nosso Salvador Cristo aos seus Apóstolos e Discípulos era proclamar o seu Reino (não o presente, mas o vindouro); ensinar todas as nações; batizar os que cressem; entrar nas casas daqueles que os recebessem; e, onde não fossem recebidos, sacudir a poeira dos seus pés contra eles; mas não invocar fogo do céu para destruí-los, nem obrigá-los à obediência pela espada. Em tudo isso não há poder, mas persuasão. Ele os enviou como ovelhas para lobos, não como reis para seus súditos. Eles não tinham a comissão de criar leis, mas de obedecer e ensinar a obediência às leis criadas; e, consequentemente, não podiam tornar seus escritos cânones obrigatórios sem o auxílio do poder civil soberano. Portanto, as Escrituras do Novo Testamento são lei apenas onde o poder civil legítimo as estabeleceu. E ali também o rei, ou soberano, as torna lei para si mesmo. por meio da qual ele se submete, não ao Doutor ou Apóstolo que o converteu, mas ao próprio Deus e a seu Filho Jesus Cristo, tão imediatamente quanto os próprios Apóstolos.

Do poder dos conselhos para fazer valer a lei das Escrituras

O que pode parecer conferir ao Novo Testamento, em relação àqueles que abraçaram a doutrina cristã, a força de leis nos tempos e lugares de perseguição, são os decretos que eles mesmos promulgaram em seus sínodos. Pois lemos (Atos 15:28) o estilo do Conselho dos Apóstolos, dos Presbíteros e de toda a Igreja, desta maneira: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor nenhum fardo maior do que estas coisas necessárias, etc.”, o que é um estilo que significa um poder para impor um fardo àqueles que haviam recebido sua doutrina. Ora, “impor um fardo a outro” parece ser o mesmo que “obrigar”; e, portanto, os Atos daquele Conselho eram leis para os cristãos da época. Contudo, não eram mais leis do que estes outros preceitos: “Arrepende-te, batiza-te; guarda os mandamentos; crê no Evangelho; vem a mim; vende tudo o que tens; dá aos pobres” e “segue-me”; que não são mandamentos, mas convites e chamados dos homens ao cristianismo, como o de Esaú 55:1: “Ó, todo aquele que estás com sede, vem às águas, vem e compra vinho e leite sem dinheiro”. Pois, em primeiro lugar, o poder dos apóstolos não era outro senão o do nosso Salvador, convidar os homens a abraçarem o Reino de Deus; que eles próprios reconheciam como um Reino (não presente, mas) vindouro; e aqueles que não têm Reino não podem criar leis. E, em segundo lugar, se os seus Atos de Aconselhamento fossem leis, não poderiam ser desobedecidos sem pecado. Mas não lemos em lugar nenhum que aqueles que não receberam a doutrina de Cristo pecaram por ela; mas que morreram em seus pecados. Ou seja, seus pecados contra as Leis às quais deviam obediência não eram perdoados. E essas Leis eram as Leis da Natureza e as Leis Civis do Estado, às quais todo cristão se submetia por pacto. Portanto, o fardo que os Apóstolos podiam impor àqueles que convertiam não deve ser entendido como Leis, mas como Condições propostas àqueles que buscavam a Salvação; as quais podiam aceitar ou recusar por sua própria conta e risco, sem cometer um novo pecado, embora não sem o risco de serem condenados e excluídos do Reino de Deus por seus pecados passados. E, portanto, dos infiéis, São João não diz que a ira de Deus "virá" sobre eles, mas sim que "a ira de Deus permanece sobre eles"; e não que serão condenados. mas que “eles já estão condenados” (João 3.36, 3.18). Nem se pode conceber que o benefício da fé “seja a remissão dos pecados”, a menos que compreendamos também que o dano da infidelidade é “a retenção dos mesmos pecados”.

Mas qual seria o propósito (alguém poderia perguntar) de que os Apóstolos e outros Pastores da Igreja, após o seu tempo, se reunissem para concordar sobre qual doutrina deveria ser ensinada, tanto em termos de fé quanto de conduta, se ninguém fosse obrigado a observar seus decretos? A isso pode-se responder que os Apóstolos e os Anciãos daquele Concílio eram obrigados, desde o início de suas atividades, a ensinar a doutrina ali concluída e decretada, na medida em que nenhuma lei precedente, à qual eram obrigados a obedecer, fosse contrária; mas não que todos os outros cristãos fossem obrigados a observar o que eles ensinavam. Pois, embora pudessem deliberar sobre o que cada um deles deveria ensinar, não poderiam deliberar sobre o que os outros deveriam fazer, a menos que sua Assembleia tivesse um Poder Legislativo; o que ninguém poderia ter, exceto os Soberanos Civis. Pois, embora Deus seja o Soberano de todo o mundo, não somos obrigados a tomar como Sua Lei tudo o que é proposto por qualquer homem em Seu nome; nem nada contrário à Lei Civil, que Deus expressamente nos ordenou a obedecer.

Visto que os Atos do Conselho dos Apóstolos não eram leis, mas conselhos, muito menos leis são os Atos de quaisquer outros doutores ou conselhos posteriores, se reunidos sem a autoridade do soberano civil. Consequentemente, os livros do Novo Testamento, embora sejam regras perfeitas da doutrina cristã, não poderiam ser transformados em leis por nenhuma outra autoridade senão a dos reis ou das assembleias soberanas.

O primeiro Concílio que estabeleceu as Escrituras que hoje temos como Canônicas não existe mais: pois a coletânea feita pelo primeiro bispo de Roma depois de São Pedro é questionável, visto que, embora os livros canônicos estejam ali enumerados, as palavras “Sint vobis omnibus Clericis & Laicis Libris venerandi, &c.” contêm uma distinção entre clero e leigos que não era tão comum antes da época de São Pedro. O primeiro Concílio para estabelecer as Escrituras Canônicas que chegou até nós é o de Laodiceia, Cânon 59, que proíbe a leitura de outros livros além dos das Igrejas; um mandamento que não se dirige a todos os cristãos, mas apenas àqueles que tinham autoridade para ler publicamente na Igreja, ou seja, somente aos eclesiásticos.

Do direito de constituir oficiais eclesiásticos na época dos apóstolos.

Entre os oficiais eclesiásticos da época dos Apóstolos, alguns eram magistrais, outros ministeriais. Os magistrais eram responsáveis ​​pela pregação do Evangelho do Reino de Deus aos infiéis; pela administração dos Sacramentos e do Culto Divino; e pelo ensino das Regras de Fé e dos Costumes aos convertidos. O ofício ministerial era o dos diáconos, ou seja, daqueles que eram designados para a administração das necessidades seculares da Igreja, vivendo, na época, de um fundo comum, proveniente das contribuições voluntárias dos fiéis.

Entre os Oficiais Magistrais, os primeiros e principais eram os Apóstolos; dos quais havia inicialmente apenas doze; e estes foram escolhidos e constituídos pelo próprio Salvador; e seu ofício não era apenas pregar, ensinar e batizar, mas também serem mártires (testemunhas da ressurreição do Salvador). Este testemunho era a marca específica e essencial pela qual o apostolado se distinguia de outros magistérios eclesiásticos; pois era necessário que um Apóstolo tivesse visto o Salvador após a sua ressurreição, ou tivesse conversado com ele antes, e visto as suas obras e outros argumentos da sua divindade, pelos quais pudessem ser considerados testemunhas suficientes. Portanto, na eleição de um novo Apóstolo no lugar de Judas Iscariotes, São Pedro diz (Atos 1:21,22): “Desses homens que estiveram conosco durante todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós, desde o batismo de João até o dia em que foi elevado ao céu, é necessário que um seja constituído testemunha conosco da sua ressurreição.” Onde, por esta palavra “é necessário”, está implícita uma propriedade indispensável de um Apóstolo: ter convivido com os primeiros e principais Apóstolos no tempo em que nosso Salvador se manifestou na carne.

Matias foi nomeado apóstolo pela congregação.

O primeiro Apóstolo, dentre aqueles que não foram constituídos por Cristo durante o tempo em que esteve na Terra, foi Matias, escolhido desta maneira: Estavam reunidos em Jerusalém cerca de 120 cristãos (Atos 1:15). Estes designaram dois, José, o Justo, e Matias (v. 23), e lançaram sortes; “e (v. 26) a sorte caiu sobre Matias, e ele foi inscrito com os Apóstolos”. Assim, vemos aqui que a ordenação deste Apóstolo foi um ato da Congregação, e não de São Pedro, nem dos onze, exceto como membros da Assembleia.

Paulo e Barnabé foram feitos apóstolos pela Igreja de Antioquia.

Depois dele, nenhum outro apóstolo foi ordenado, exceto Paulo e Barnabé, o que aconteceu (como lemos em Atos 13:1,2,3) desta maneira: “Na igreja em Antioquia havia alguns profetas e mestres, como Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene e Manaém, que haviam sido criados com Herodes, o tetrarca, e Saulo. Enquanto ministravam ao Senhor e jejuavam, o Espírito Santo disse: ‘Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado’. Então, depois de jejuarem e orarem, impuseram as mãos sobre eles e os enviaram.”

Com isso, fica evidente que, embora tenham sido chamados pelo Espírito Santo, seu chamado lhes foi declarado e sua missão autorizada pela Igreja de Antioquia. E que esse chamado era para o apostolado fica claro pelo fato de ambos serem chamados (Atos 14:14) de apóstolos. E que foi em virtude desse ato da Igreja de Antioquia que eles se tornaram apóstolos, São Paulo declara claramente (Romanos 1:1) ao usar a palavra que o Espírito Santo usou em seu chamado: pois ele se intitula “apóstolo separado para o evangelho de Deus”, aludindo às palavras do Espírito Santo: “Separa-me Barnabé e Saulo, etc.”. Mas, considerando que a obra de um apóstolo era ser testemunha da ressurreição de Cristo, pode-se perguntar aqui como São Paulo, que não conversou com nosso Salvador antes de sua paixão, poderia saber que ele havia ressuscitado. A isso responde-se facilmente que o próprio Salvador lhe apareceu no caminho para Damasco, vindo do Céu, após a Sua Ascensão; “e o escolheu para ser um vaso para levar o Seu nome perante os gentios, e os reis, e os filhos de Israel”; e, consequentemente (tendo visto o Senhor após a Sua paixão), foi uma testemunha competente da Sua ressurreição. Quanto a Barnabé, ele era um discípulo antes da Paixão. É, portanto, evidente que Paulo e Barnabé eram apóstolos; e, no entanto, foram escolhidos e autorizados (não apenas pelos primeiros apóstolos, mas) pela Igreja de Antioquia; assim como Matias foi escolhido e autorizado pela Igreja de Jerusalém.

Quais são os ofícios magistrais na Igreja?

Bispo, palavra formada em nossa língua a partir do grego Episcopus, significa um supervisor ou superintendente de qualquer assunto, e particularmente um pastor; e daí, por metáfora, foi adotada, não apenas entre os judeus, que eram originalmente pastores, mas também entre os pagãos, para significar o ofício de um rei, ou qualquer outro governante ou guia de um povo, quer governasse por leis ou doutrinas. Assim, os apóstolos foram os primeiros bispos cristãos, instituídos pelo próprio Cristo: nesse sentido, o apostolado de Judas é chamado (Atos 1:20) de seu bispado. E posteriormente, quando foram constituídos presbíteros nas igrejas cristãs, com a incumbência de guiar o rebanho de Cristo por meio de sua doutrina e conselhos, esses presbíteros também foram chamados de bispos. Timóteo era um presbítero (palavra que, no Novo Testamento, designa tanto um ofício quanto uma idade); contudo, ele também era um bispo. E os bispos, então, contentavam-se com o título de presbíteros. O próprio São João, o Apóstolo amado de nosso Senhor, inicia sua Segunda Epístola com estas palavras: “O Ancião à Senhora Eleita”. Com isso, fica evidente que Bispo, Pastor, Ancião, Doutor, ou seja, Mestre, eram apenas nomes diversos para o mesmo ofício na época dos Apóstolos. Pois então não havia governo por coerção, mas apenas por doutrina e persuasão. O Reino de Deus ainda estava por vir, em um novo mundo; de modo que não poderia haver autoridade para coagir em nenhuma Igreja até que a comunidade tivesse abraçado a fé cristã; e, consequentemente, não havia diversidade de autoridade, embora houvesse diversidade de funções.

Além dessas funções magistrais na Igreja, a saber, Apóstolos, Bispos, Presbíteros, Pastores e Doutores, cuja vocação era proclamar Cristo aos judeus e infiéis, e dirigir e ensinar os crentes, não lemos no Novo Testamento sobre nenhuma outra. Pois pelos nomes de Evangelistas e Profetas não se significa um ofício específico, mas diversos dons pelos quais vários homens foram úteis à Igreja: como Evangelistas, ao escreverem sobre a vida e os feitos de nosso Salvador; como foram os Apóstolos São Mateus e São João, e os Discípulos São Marcos e São Lucas, e todos os demais que escreveram sobre esse assunto (como se diz que fizeram São Tomé e São Barnabé, embora a Igreja não tenha recebido os livros que foram atribuídos a eles); e como Profetas, pelo dom de interpretar o Antigo Testamento; e, às vezes, ao declararem suas revelações especiais à Igreja. Pois nem esses dons, nem os dons de línguas, nem o dom de expulsar demônios, ou de curar outras doenças, nem qualquer outra coisa, constituíam um oficial na Igreja, a não ser o devido chamado e a eleição para o ofício de ensinar.

Ordenação de Professores

Assim como os apóstolos Matias, Paulo e Barnabé não foram escolhidos pelo próprio Salvador, mas eleitos pela Igreja, isto é, pela assembleia dos cristãos; a saber, Matias pela Igreja de Jerusalém, e Paulo e Barnabé pela Igreja de Antioquia; da mesma forma, os presbíteros e pastores em outras cidades foram eleitos pelas igrejas dessas cidades. Para comprovar isso, consideremos, em primeiro lugar, como São Paulo procedeu na ordenação de presbíteros nas cidades onde converteu homens à fé cristã, imediatamente após ele e Barnabé terem recebido o apostolado. Lemos (Atos 14:23) que “em cada igreja constituíram presbíteros”, o que à primeira vista pode ser interpretado como um argumento de que eles próprios os escolheram e lhes conferiram autoridade. Mas, se considerarmos o texto original, ficará evidente que eles foram autorizados e escolhidos pela assembleia dos cristãos de cada cidade. Pois as palavras ali presentes são: “cheirotonesantes autoispresbuterous kat ekklesian”, isto é, “Quando os ordenaram anciãos levantando as mãos em cada congregação”. Ora, é bem sabido que, em todas essas cidades, a maneira de escolher magistrados e oficiais era por maioria simples; e (como a forma comum de distinguir os votos afirmativos dos negativos era levantando as mãos) ordenar um oficial em qualquer uma das cidades não era mais do que reunir o povo para elegê-lo por maioria simples, fosse por maioria simples levantando as mãos, por maioria simples de vozes, por maioria simples de bolas, feijões ou pequenas pedras, das quais cada homem lançava uma em um recipiente marcado para o voto afirmativo ou negativo; pois diferentes cidades tinham diferentes costumes nesse ponto. Era, portanto, a Assembleia que elegia seus próprios Anciãos: os Apóstolos eram os únicos Presidentes da Assembleia, responsáveis ​​por convocá-los para tal eleição, proclamá-los eleitos e dar-lhes a bênção, que hoje é chamada de Consagração. E por essa razão, aqueles que eram Presidentes das Assembleias, como (na ausência dos Apóstolos) os Anciãos, eram chamados de proestotes, e em latim, Antistities; palavras que significam a Pessoa Principal da Assembleia, cuja função era contar os votos e declarar, por meio deles, quem havia sido escolhido; e, em caso de empate, decidir a questão em debate, somando o seu próprio voto; que é a função de um Presidente em Conselho. E (porque todas as Igrejas tinham seus Presbíteros ordenados da mesma maneira), onde a palavra é Constituir (como em Tito 1.5), “ina katasteses kata polin presbuterous”, “Por esta causa te deixei em Creta, para que constituísses presbíteros em cada cidade”, devemos entender a mesma coisa; ou seja, que ele convocasse os fiéis,e ordená-los presbíteros por maioria simples. Seria estranho se, numa cidade onde talvez nunca se tivesse visto um magistrado ser escolhido de outra forma que não por uma assembleia, os habitantes daquela cidade, ao se converterem ao cristianismo, sequer cogitassem outra maneira de eleger seus mestres e guias, isto é, seus presbíteros (também chamados bispos), senão por maioria simples, como mencionado por São Paulo (Atos 14:23) na palavra "cheirotonesantes". E nunca houve, senão, a eleição de bispos (antes que os imperadores considerassem necessário regulamentá-los para manter a paz entre eles), senão pelas assembleias dos cristãos em cada cidade.

O mesmo se confirma pela prática contínua, até os dias de hoje, na eleição dos bispos de Roma. Pois, se o bispo de um lugar tinha o direito de escolher outro para a sucessão do ofício pastoral em qualquer cidade, assim que partisse dali para implantá-lo em outro lugar, muito mais teria ele o direito de nomear seu sucessor naquele lugar onde residiu e morreu por último. E não encontramos nenhum caso em que um bispo de Roma tenha nomeado seu sucessor. Pois eles eram escolhidos pelo povo, como podemos ver pela sedição levantada em torno da eleição entre Damasco e Ursínio; a qual, segundo Amiano Marcelino, foi tão grande que Juvêncio, o prefeito, incapaz de manter a paz entre eles, foi forçado a sair da cidade; e que mais de cem homens foram encontrados mortos naquela ocasião na própria igreja. E embora posteriormente tenham sido escolhidos, primeiro, por todo o clero de Roma e, depois, pelos cardeais; Contudo, jamais alguém foi nomeado para a sucessão por seu antecessor. Se, portanto, eles alegavam não ter o direito de nomear seus sucessores, creio que posso razoavelmente concluir que não tinham o direito de nomear o novo poder; poder esse que ninguém poderia tomar da Igreja para lhes conferir, a não ser aqueles que possuíam autoridade legítima, não apenas para ensinar, mas também para comandar a Igreja; o que ninguém poderia fazer, senão o Soberano Civil.

Ministros da Igreja O quê

A palavra Ministro no Diakonos original significa aquele que voluntariamente exerce as funções de outro homem; e difere de Servo apenas no fato de que os Servos são obrigados, por sua condição, a fazer o que lhes é ordenado; enquanto os Ministros são obrigados apenas por seu compromisso, e, portanto, vinculados apenas ao que assumiram: De modo que tanto aqueles que ensinam a Palavra de Deus quanto aqueles que administram os assuntos seculares da Igreja são ambos Ministros, mas são Ministros de Pessoas diferentes. Pois os Pastores da Igreja, chamados (Atos 6:4) de “Ministros da Palavra”, são Ministros de Cristo, cuja Palavra é: Mas o Ministério de um Diácono, que é chamado (versículo 2 do mesmo capítulo) de “Servir das Mesas”, é um serviço prestado à Igreja ou Congregação: De modo que nem um único homem, nem toda a Igreja, jamais poderia dizer de seu Pastor que ele era seu Ministro; Mas de um diácono, quer a sua função fosse servir às mesas, ou distribuir sustento aos cristãos, quando estes viviam em cada cidade com um fundo comum, ou mediante coletas, como nos primeiros tempos, ou cuidar da Casa de Oração, ou das receitas, ou outros assuntos mundanos da Igreja, toda a congregação poderia, com propriedade, chamá-lo de seu ministro.

Pois sua função, como diáconos, era servir à congregação; embora, em algumas ocasiões, deixassem de pregar o Evangelho e manter a doutrina de Cristo, cada um segundo seus dons, como fez Santo Estêvão; e de pregar e batizar, como fez Filipe: pois aquele Filipe que (Atos 8:5) pregou o Evangelho em Samaria e (versículo 38) batizou o eunuco era Filipe, o diácono, e não Filipe, o apóstolo. Pois é evidente (versículo 1) que, quando Filipe pregou em Samaria, os apóstolos estavam em Jerusalém e (versículo 14) “tendo ouvido que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhes Pedro e João”; por imposição de suas mãos, os que foram batizados (versículo 15) receberam (o que antes não haviam recebido pelo batismo de Filipe) o Espírito Santo. Pois era necessário, para a concessão do Espírito Santo, que o Batismo fosse administrado, ou confirmado, por um Ministro da Palavra, e não por um Ministro da Igreja. Portanto, para confirmar o Batismo daqueles que Filipe, o diácono, havia batizado, os Apóstolos enviaram de Jerusalém para Samaria Pedro e João, dentre os seus, que conferiram àqueles que antes eram apenas batizados, as graças que eram sinais do Espírito Santo, os quais, naquele tempo, acompanhavam todos os verdadeiros crentes; e o que eram esses sinais pode ser compreendido pelo que São Marcos diz (cap. 16.17): “Estes sinais acompanham os que creem no meu nome: expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; imporão as mãos sobre os enfermos, e estes ficarão curados”. Isso era o que Filipe não podia fazer; Mas os Apóstolos podiam, e (como se vê por este trecho) efetivamente o fizeram a todo homem que verdadeiramente cresse e fosse batizado por um Ministro do próprio Cristo: poder esse que ou os Ministros de Cristo nesta época não podem conferir, ou então há muito poucos verdadeiros crentes, ou Cristo tem muito poucos Ministros.

E como escolhido o quê

Que os primeiros diáconos foram escolhidos não pelos apóstolos, mas por uma congregação de discípulos, isto é, de cristãos de todas as origens, fica evidente em Atos 6, onde lemos que os Doze, depois que o número de discípulos aumentou, os reuniram e, tendo-lhes dito que não era apropriado que os apóstolos deixassem a Palavra de Deus para servir às mesas, disseram-lhes (versículo 3): “Irmãos, escolham dentre vocês sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço”. Aqui fica claro que, embora os apóstolos os tivessem declarado eleitos, foi a congregação quem os escolheu; o que também (versículo 5) é dito mais expressamente onde está escrito: “A proposta agradou à multidão, e eles escolheram sete, etc.”

Da Receita Eclesiástica, sob a Lei de Moisés

Sob o Antigo Testamento, somente a Tribo de Levi era capaz de exercer o Sacerdócio e outros Ofícios inferiores da Igreja. A terra foi dividida entre as outras Tribos (com exceção de Levi), que, com a subdivisão da Tribo de José em Efraim e Manassés, ainda somavam doze. À Tribo de Levi foram designadas certas cidades para sua habitação, com os arredores para seu gado; mas, quanto à sua porção, deveriam receber o dízimo dos frutos da terra de seus irmãos. Além disso, os sacerdotes, para seu sustento, recebiam o dízimo desse dízimo, juntamente com parte das ofertas e sacrifícios. Pois Deus havia dito a Arão (Números 18:20): “Não terás herança na terra deles, nem parte alguma entre eles; eu sou a tua parte e a tua herança entre os filhos de Israel”. Pois Deus, sendo então Rei, e tendo constituído a Tribo de Levi como seus Ministros Públicos, permitiu-lhes, para seu sustento, a renda pública, isto é, a parte que Deus havia reservado para si mesmo; que eram os dízimos e as ofertas: e é a isso que se refere a frase de Deus: "Eu sou a tua herança". Portanto, aos levitas não poderia ser atribuído indevidamente o nome de Clero, derivado de Cleros, que significa Ló, ou Herança; não que fossem herdeiros do Reino de Deus mais do que outros, mas sim que a herança de Deus era o seu sustento. Ora, visto que, naquele tempo, o próprio Deus era o seu Rei, e Moisés, Arão e os sucessivos Sumos Sacerdotes eram seus tenentes, fica evidente que o direito aos dízimos e às ofertas foi constituído pelo poder civil.

Após rejeitarem a Deus em nome de um rei, eles ainda desfrutavam da mesma renda; mas o direito a ela derivava do fato de que os reis nunca a haviam tomado deles: pois a renda pública estava à disposição daquele que era o cidadão comum; e esse (até o cativeiro) era o rei. E novamente, após o retorno do cativeiro, eles pagaram seus dízimos como antes ao sacerdote. Até então, portanto, os benefícios eclesiásticos eram determinados pelo soberano civil.

Nos tempos de nossos Salvadores e depois deles.

Sobre o sustento de nosso Salvador e seus Apóstolos, lemos apenas que eles possuíam uma bolsa (que era carregada por Judas Iscariotes) e que, entre os Apóstolos, aqueles que eram pescadores às vezes exerciam seu ofício; e que, quando nosso Salvador enviou os Doze Apóstolos para pregar, proibiu-os de levar “ouro, prata e bronze em suas bolsas, porque o trabalhador é digno do seu salário” (Mateus 10:9,10). Com isso, é provável que seu sustento comum não fosse inadequado para sua ocupação, pois sua ocupação era (versículo 8) “dar de graça, porque de graça haviam recebido”; e seu sustento era a dádiva gratuita daqueles que creram na boa nova que traziam da vinda do Messias, seu Salvador. A isso podemos acrescentar a contribuição em gratidão daqueles que nosso Salvador havia curado de doenças. das quais são mencionadas “certas mulheres (Lucas 8. 2,3.) que tinham sido curadas de espíritos malignos e enfermidades; Maria Madalena, da qual saíram sete demônios; e Joana, esposa de Cuza, administrador de Herodes; e Susana, e muitas outras, que o serviam com seus bens.

Após a Ascensão de nosso Salvador, os cristãos de todas as cidades viviam em comunidade (Atos 4:34), com o dinheiro arrecadado com a venda de suas terras e bens, depositado aos pés dos Apóstolos por boa vontade, não por obrigação; pois “enquanto a terra permaneceu (diz São Pedro a Ananias em Atos 5:4), não era tua? E, depois de vendida, não estava em teu poder?”, o que demonstra que ele não precisava ter economizado sua terra nem seu dinheiro mentindo, pois não era obrigado a contribuir com nada, a menos que assim o desejasse. E assim como nos tempos dos Apóstolos, também ao longo de toda a história, até depois de Constantino, o Grande, veremos que a manutenção dos bispos e pastores da Igreja Cristã nada mais era do que a contribuição voluntária daqueles que abraçaram sua doutrina. Ainda não se mencionava o dízimo; mas tal era, na época de Constantino e seus filhos, o afeto dos cristãos por seus pastores, como diz Amiano Marcelino (descrevendo a sedição de Dâmaso e Ursínico sobre o bispado), que valia a pena a contenda, visto que os bispos daquela época, pela liberalidade de seu rebanho, e especialmente das matronas, viviam esplendidamente, eram transportados em carruagens e ostentavam banquetes e vestimentas suntuosas.

Os ministros do Evangelho viviam da benevolência de seus rebanhos. Mas aqui alguns podem perguntar se o pastor era obrigado a viver de contribuições voluntárias, como de esmolas: “Pois quem (diz São Paulo em 1 Coríntios 9:7) vai à guerra por conta própria? Ou quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho?” E ainda (1 Coríntios 9:13): “Não sabeis vós que os que ministram nas coisas sagradas vivem das coisas do templo, e os que servem no altar participam do altar?”, isto é, recebem parte do que é oferecido no altar para seu sustento? E então ele conclui: “Assim também o Senhor determinou que os que pregam o Evangelho vivam do Evangelho”. Disso se pode inferir que os pastores da igreja deveriam ser sustentados por seus rebanhos; mas não que os pastores devessem determinar a quantidade ou o tipo de sua própria mesada, e serem (por assim dizer) seus próprios administradores. Sua mesada, portanto, precisava ser determinada pela gratidão e liberalidade de cada membro de seu rebanho, ou por toda a congregação. Não poderia ser por toda a congregação, porque seus atos não eram leis naquela época. Portanto, o sustento dos pastores, antes que imperadores e soberanos civis criassem leis para regulamentá-lo, nada mais era do que benevolência. Aqueles que serviam no altar viviam do que era oferecido. Em qual tribunal deveriam pleitear o sustento, se não havia tribunais? Ou, se tivessem árbitros entre si, quem executaria seus julgamentos, se não tinham poder para armar seus oficiais? Resta, portanto, que não havia... Não deve haver qualquer obrigação de sustento atribuída a pastores da Igreja, mas sim a toda a congregação; e somente quando seus decretos tiverem a força (não apenas de cânones, mas também) de leis; leis essas que não poderiam ser feitas senão por imperadores, reis ou outros soberanos civis. O direito aos dízimos na Lei de Moisés não poderia ser aplicado aos ministros do Evangelho da época, porque Moisés e os sumos sacerdotes eram os soberanos civis do povo sob Deus, cujo reino entre os judeus já estava presente; enquanto o reino de Deus por meio de Cristo ainda está por vir.

Até aqui foi demonstrado o que são os Pastores da Igreja; quais são os pontos de sua Comissão (pregar, ensinar, batizar e presidir suas respectivas congregações); o que é a Censura Eclesiástica, ou seja, a Excomunhão, isto é, nos lugares onde o Cristianismo era proibido pelas Leis Civis, o afastamento do convívio com os excomungados, e onde o Cristianismo era ordenado pela Lei Civil, o afastamento dos excomungados das congregações cristãs; quem elegia os Pastores e Ministros da Igreja (a Congregação); quem os consagrava e abençoava (o Pastor); qual era sua renda devida (senão seus próprios bens, seu próprio trabalho e as contribuições voluntárias de cristãos devotos e gratos). Agora, devemos considerar qual o ofício daqueles que, sendo Soberanos Civis, também abraçaram a Fé Cristã.

O soberano civil, sendo cristão, tem o direito de nomear pastores.

E, em primeiro lugar, devemos lembrar que o direito de julgar quais doutrinas são adequadas para a paz e devem ser ensinadas aos súditos está, em todas as comunidades, indissoluvelmente ligado (como já foi provado no capítulo 18) ao Poder Soberano Civil, seja ele exercido por um só homem ou por uma assembleia de homens. Pois é evidente, até para a pessoa mais humilde, que as ações dos homens derivam das opiniões que eles têm do Bem ou do Mal, as quais, por sua vez, recaem sobre eles mesmos; e, consequentemente, os homens que, uma vez convencidos de que sua obediência ao Poder Soberano lhes será mais prejudicial do que sua desobediência, desobedecerão às leis e, assim, derrubarão a comunidade, introduzindo confusão e guerra civil; para evitar as quais todo governo civil foi instituído. E, portanto, em todas as comunidades pagãs, os soberanos tinham o nome de Pastores do Povo, porque não havia súdito que pudesse ensinar o povo legalmente, a não ser com a permissão e autoridade deles.

Este direito dos reis pagãos não pode ser considerado retirado deles por sua conversão à fé em Cristo; que jamais ordenou que reis, por crerem nele, fossem depostos, isto é, submetidos a qualquer outro além dele, ou (o que é a mesma coisa) privados do poder necessário para a manutenção da paz entre seus súditos e para sua defesa contra inimigos estrangeiros. Portanto, os reis cristãos ainda são os pastores supremos de seu povo e têm o poder de ordenar os pastores que desejarem para ensinar a Igreja, isto é, para ensinar o povo confiado aos seus cuidados.

Novamente, que o direito de escolhê-los seja (como antes da conversão dos Reis) na Igreja, pois assim era no tempo dos próprios Apóstolos (como já foi mostrado neste capítulo); da mesma forma, o Direito será no Soberano Civil, Cristão. Pois, por ser cristão, ele permite o Ensinamento; e por ser o Soberano (o que equivale a dizer, a Igreja por Representação), os Mestres que ele elege são eleitos pela Igreja. E quando uma Assembleia de Cristãos escolhe seu Pastor em uma Comunidade Cristã, é o Soberano quem o elege, porque isso é feito por sua Autoridade; da mesma forma que quando uma Cidade escolhe seu Prefeito, é um ato daquele que detém o Poder Soberano: pois todo ato praticado é ato daquele sem cujo consentimento é inválido. Portanto, quaisquer exemplos que possam ser extraídos da História, referentes à eleição de pastores pelo povo ou pelo clero, não constituem argumentos contra o direito de qualquer soberano civil, pois aqueles que os elegeram o fizeram por sua autoridade.

Visto que, em toda comunidade cristã, o Soberano Civil é o Pastor Supremo, a quem é confiada toda a sua comunidade de súditos, e consequentemente que é por sua autoridade que todos os outros pastores são constituídos e têm poder para ensinar e exercer todos os demais ofícios pastorais; segue-se também que é do Soberano Civil que todos os outros pastores derivam seu direito de ensinar, pregar e exercer outras funções inerentes a esse ofício; e que eles são apenas seus ministros; da mesma forma que os magistrados das cidades, os juízes dos tribunais de justiça e os comandantes dos exércitos são todos ministros daquele que é o magistrado de toda a comunidade, juiz de todas as causas e comandante de toda a milícia, que é sempre o Soberano Civil. E a razão disso não é porque aqueles que ensinam, mas porque aqueles que devem aprender são seus súditos. Pois suponhamos que um rei cristão delegue a autoridade de ordenar pastores em seus domínios a outro rei (como diversos reis cristãos concedem esse poder ao Papa); ele não se constitui, com isso, um pastor sobre si mesmo, nem um pastor soberano sobre seu povo, pois isso seria privá-lo do poder civil, que, dependendo da opinião que os homens têm de seu dever para com ele e do temor que nutrem de punição em outro mundo, dependeria também da habilidade e da lealdade dos doutores, que não são menos sujeitos, não apenas à ambição, mas também à ignorância, do que qualquer outro tipo de homem. Assim, quando um estrangeiro tem autoridade para nomear professores, essa autoridade lhe é concedida pelo soberano em cujos domínios ele ensina. Os doutores cristãos são nossos mestres na educação cristã; mas os reis são pais de família e podem receber mestres para seus súditos por recomendação de um estrangeiro, mas não por ordem. especialmente quando o mau ensino deles resultar em grande e evidente proveito para aquele que os recomenda; nem podem ser obrigados a retê-los por mais tempo do que o necessário para o bem público, cuidado este que lhes é confiado pelo mesmo período em que retêm qualquer outro direito essencial da soberania.

A autoridade pastoral dos soberanos é exclusivamente de jure divino, enquanto a dos demais pastores é de jure civil.

Se, portanto, um homem perguntasse a um pastor, no exercício de seu ofício, como os principais sacerdotes e anciãos do povo (Mateus 21:23) perguntaram ao nosso Salvador: “Com que autoridade fazes estas coisas e quem te deu esta autoridade?”, ele não poderia dar outra resposta justa senão que o faz pela autoridade da comunidade, dada a ele pelo rei ou pela assembleia que a representa. Todos os pastores, exceto o supremo, exercem suas funções por direito, isto é, pela autoridade do soberano civil, ou seja, por direito civil. Mas o rei, e todos os outros soberanos, exercem seu ofício de pastor supremo por autoridade direta de Deus, ou seja, por direito divino. E, portanto, somente os reis podem incluir em seus títulos (uma marca de sua submissão somente a Deus) Dei Gratia Rex, etc. Os bispos deveriam dizer no início de seus mandatos: “Por favor de Sua Majestade o Rei, bispo de tal diocese”; ou, como ministros civis, “Em nome de Sua Majestade”. Pois, ao dizerem “Divina Providência”, que é o mesmo que “Dei Gratia”, embora disfarçado, negam ter recebido sua autoridade do Estado Civil; e astutamente se desvencilham do colarinho de sua submissão civil, contrariando a unidade e a defesa da comunidade.

Os reis cristãos têm poder para exercer toda sorte de funções pastorais.

Mas se cada soberano cristão é o pastor supremo de seus súditos, parece que ele também tem a autoridade não só para pregar (o que talvez ninguém negue), mas também para batizar e administrar o sacramento da Ceia do Senhor; e para consagrar templos e pastores ao serviço de Deus; o que a maioria nega; em parte porque não o fazem com frequência; e em parte porque a administração dos sacramentos e a consagração de pessoas e lugares para fins sagrados exigem a imposição das mãos de homens que, por meio da mesma imposição, sucessivamente desde os apóstolos, foram ordenados para o mesmo ministério. Para provar, portanto, que os reis cristãos têm poder para batizar e consagrar, apresentarei uma razão pela qual não o fazem com frequência e como, sem a cerimônia ordinária da imposição de mãos, tornam-se capazes de fazê-lo quando desejam.

Não há dúvida de que qualquer rei, caso fosse versado nas ciências, poderia, pelo direito inerente ao seu cargo, ministrar aulas sobre elas, autorizando outros a fazê-lo nas universidades. Contudo, como o cuidado com os assuntos da república ocupava todo o seu tempo, não lhe seria conveniente dedicar-se pessoalmente a essa questão. Um rei também pode, se assim o desejar, julgar e decidir sobre toda sorte de causas, bem como delegar autoridade a outros para fazê-lo em seu nome; mas a responsabilidade que lhe cabe de comandar e governar o obriga a estar continuamente no comando e a delegar as funções ministeriais a outros sob seu comando. Da mesma forma, nosso Salvador (que certamente tinha poder para batizar) não batizou ninguém pessoalmente, mas enviou seus apóstolos e discípulos para batizar. (João 4.2.) Assim também São Paulo, pela necessidade de pregar em lugares diversos e distantes, batizou poucos: dentre todos os coríntios, batizou apenas Crispo, Cajus e Estéfano (1 Coríntios 1.14,16); e a razão era porque sua principal incumbência era pregar (1 Coríntios 1.17). Com isso, fica evidente que a incumbência maior (como o governo da Igreja) é uma dispensa para a menor. A razão, portanto, pela qual os reis cristãos não costumavam batizar é evidente, e a mesma pela qual, hoje em dia, poucos são batizados por bispos e menos ainda pelo Papa.

E quanto à Imposição das Mãos, se ela é necessária para autorizar um Rei a Batizar e Consagrar, podemos considerar o seguinte:

A imposição das mãos era uma antiga cerimônia pública entre os judeus, pela qual se indicava e confirmava a pessoa ou coisa a quem se destinava a oração, bênção, sacrifício, consagração, condenação ou outra palavra. Assim, Jacó, ao abençoar os filhos de José (Gênesis 48:14), “pôs a sua mão direita sobre Efraim, o mais novo, e a sua mão esquerda sobre Manassés, o primogênito”; e fez isso conscientemente (embora José o tivesse apresentado dessa forma, obrigando-o a estender os braços) para indicar a quem destinava a maior bênção. Da mesma forma, no sacrifício do holocausto, Arão recebe a ordem (Êxodo 29:10) de “impor as mãos sobre a cabeça do novilho” e (versículo 15) de “impor as mãos sobre a cabeça do carneiro”. O mesmo se repete em Levítico 1:4 e 8:14. Da mesma forma, Moisés, quando nomeou Josué capitão dos israelitas, ou seja, o consagrou ao serviço de Deus (Números 27:23), “impôs as mãos sobre ele e lhe deu as suas ordens”, designando e deixando claro a quem deveriam obedecer na guerra. E na consagração dos levitas (Números 8:10), Deus ordenou que “os filhos de Israel impusessem as mãos sobre os levitas”. E na condenação daquele que blasfemara contra o Senhor (Levítico 24:14), Deus ordenou que “todos os que o ouvissem impusessem as mãos sobre a sua cabeça, e toda a congregação o apedrejasse”. E por que deveriam apenas os que o ouvissem impor as mãos sobre ele, e não um sacerdote, levita ou outro ministro da justiça, para que ninguém mais pudesse determinar e demonstrar aos olhos da congregação quem havia blasfemado e merecia morrer? E desenhar um homem, ou qualquer outra coisa, pela mão para o olho é menos sujeito a erros do que quando se desenha pelo ouvido através de um nome.

E tal era a observância desta cerimónia que, ao abençoar toda a congregação de uma só vez, o que não se pode fazer pela imposição de mãos, “Aarão (Levítico 9:22) ergueu a mão em direção ao povo quando os abençoou”. E lemos também sobre uma cerimónia semelhante de consagração de templos entre os pagãos, em que o sacerdote impunha as mãos sobre algum pilar do templo, enquanto proferia as palavras da consagração. Assim, é natural designar qualquer coisa individualmente, mais pela mão, para assegurar os olhos, do que por palavras para informar os ouvidos em assuntos do serviço público de Deus.

Portanto, essa cerimônia não era novidade nos tempos do nosso Salvador. Pois Jairo (Marcos 5:23), cuja filha estava doente, suplicou ao nosso Salvador (não para que a curasse, mas) que “impusesse as mãos sobre ela para que fosse curada”. E (Mateus 19:13): “trouxeram-lhe crianças para que lhes impusesse as mãos e orasse”.

Segundo este antigo rito, os Apóstolos, os Presbíteros e o próprio Presbitério impunham as mãos sobre aqueles que ordenavam pastores e oravam por eles para que recebessem o Espírito Santo; e isso não apenas uma vez, mas às vezes com mais frequência, quando uma nova ocasião se apresentava. O objetivo, porém, era sempre o mesmo: uma designação pontual e religiosa da pessoa ordenada, seja para o ofício pastoral em geral, seja para uma missão específica. Assim, (Atos 6:6): “Os Apóstolos oraram e impuseram as mãos” sobre os sete diáconos; o que foi feito não para lhes dar o Espírito Santo (pois eles já estavam cheios do Espírito Santo antes de serem escolhidos, como se vê imediatamente antes, no versículo 3), mas para designá-los para esse ofício. E depois que Filipe, o diácono, converteu algumas pessoas em Samaria, Pedro e João desceram (Atos 8:17) e lhes impuseram as mãos, e eles receberam o Espírito Santo. E não apenas um Apóstolo, mas também um Presbítero tinha esse poder: pois São Paulo aconselha Timóteo (1 Timóteo 5:22): “Não imponhas as mãos precipitadamente sobre ninguém”; isto é, não designes ninguém precipitadamente para o ofício de pastor. Todo o Presbitério impôs as mãos sobre Timóteo, como lemos em 1 Timóteo 4:14, mas isso deve ser entendido como se alguns o tivessem feito por designação do Presbitério, e muito provavelmente por seu Proestos, ou Prolocutor, que pode ter sido o próprio São Paulo. Pois em sua 2ª Epístola a Timóteo, versículo 6, ele lhe diz: “Desperta o dom de Deus que há em ti pela imposição das minhas mãos”; observe, aliás, que por Espírito Santo não se entende a terceira Pessoa da Trindade, mas os dons necessários ao ofício pastoral. Lemos também que São Paulo recebeu a Imposição das Mãos duas vezes; Uma vez por Ananias em Damasco (Atos 9:17,18), na época de seu batismo; e novamente (Atos 13:3) em Antioquia, quando foi enviado pela primeira vez para pregar. O uso dessa cerimônia, considerada na ordenação de pastores, era designar a pessoa a quem tal poder era concedido. Mas se já existisse algum cristão que tivesse o poder de ensinar antes, o batismo, ou seja, a conversão dele ao cristianismo, não lhe conferiria um novo poder, mas apenas o levaria a pregar a verdadeira doutrina, isto é, a usar seu poder corretamente; e, portanto, a imposição de mãos seria desnecessária; o batismo em si seria suficiente. Mas todo soberano, antes do cristianismo, tinha o poder de ensinar e ordenar mestres; e, portanto, o cristianismo não lhes conferia um novo direito, mas apenas os orientava no caminho do ensino da verdade. e, consequentemente, não necessitavam de Imposição de Mãos (além da realizada no Batismo) para serem autorizados a exercer qualquer parte da Função Pastoral, a saber, Batizar e Consagrar. E no Antigo Testamento,Embora o sacerdote só tivesse o direito de consagrar enquanto a soberania estivesse nas mãos do sumo sacerdote, o mesmo não se aplicava quando a soberania estava nas mãos do rei. Pois lemos em 1 Reis 8 que Salomão abençoou o povo, consagrou o templo e pronunciou a oração pública, que serve de modelo para a consagração de todas as igrejas e capelas cristãs. Com isso, fica evidente que ele não só detinha o direito de governar eclesiásticamente, mas também de exercer funções eclesiásticas.

O Soberano Civil, se cristão, é o chefe da Igreja em seus próprios domínios.

Dessa consolidação do Direito Político e Eclesiástico nos soberanos cristãos, fica evidente que eles detêm todo tipo de poder sobre seus súditos, poder esse que pode ser concedido ao homem para governar suas ações externas, tanto na política quanto na religião; e podem criar as leis que julgarem mais adequadas para governar seus próprios súditos, tanto como cidadãos comuns quanto como membros da Igreja: pois Estado e Igreja são os mesmos homens.

Portanto, se assim o desejarem, podem (como muitos reis cristãos fazem atualmente) confiar o governo de seus súditos em matéria de religião ao Papa; mas, nesse ponto, o Papa lhes é subordinado e exerce essa responsabilidade em domínio alheio, por direito civil, e não por direito divino; podendo, portanto, ser exonerado desse ofício quando o soberano, para o bem de seus súditos, assim o julgar necessário. Podem também, se assim o desejarem, confiar o cuidado da religião a um Pastor Supremo ou a uma Assembleia de Pastores, conferindo-lhes o poder sobre a Igreja, ou uns sobre os outros, que considerarem mais conveniente, e os títulos de honra que desejarem, como bispos, arcebispos, sacerdotes ou presbíteros, e elaborar leis para sua manutenção, seja por meio de dízimos ou de outra forma, conforme lhes aprouver, desde que o façam por sincera consciência, da qual somente Deus é o juiz. É o Soberano Civil quem nomeia os juízes e intérpretes das Escrituras Canônicas, pois é ele quem as transforma em leis. É ele também quem dá força às excomunhões, que, não fosse por tais leis e punições que podem humilhar os libertinos obstinados e reduzi-los à união com o resto da Igreja, seriam desprezadas. Em suma, ele detém o poder supremo em todas as causas, tanto eclesiásticas quanto civis, no que diz respeito a ações e palavras, pois somente estas são conhecidas e podem ser acusadas; e daquilo que não pode ser acusado, não há juiz algum, senão Deus, que conhece o coração. E esses direitos são inerentes a todos os soberanos, sejam monarcas ou assembleias, pois aqueles que são representantes de um povo cristão são representantes da Igreja, visto que uma Igreja e uma comunidade de cristãos são a mesma coisa.

Cardeal Bellarmines Books De Summo Pontifice considerado

Embora o que eu disse aqui, e em outras partes deste livro, pareça bastante claro para a afirmação do Supremo Poder Eclesiástico aos Soberanos Cristãos, como o desafio universal a esse Poder por parte do Papa de Roma foi defendido principalmente, e creio que com a maior veemência possível, pelo Cardeal Belarmino, em sua Controversie De Summo Pontifice, julguei necessário examinar, da forma mais concisa possível, os fundamentos e a força de seu discurso.

O Primeiro Livro

Dos cinco livros que ele escreveu sobre este assunto, o primeiro contém três questões: a primeira, qual é o melhor governo, a monarquia, a aristocracia ou a democracia? Ele conclui que não há nenhum, mas sim um governo misto. A segunda, qual destes é o melhor governo para a Igreja? Ele conclui que há um governo misto, mas que este deve ter maior participação na monarquia. A terceira, se nesta monarquia mista, São Pedro ocupava o lugar de monarca. Quanto à sua primeira conclusão, já demonstrei suficientemente (cap. 18) que todos os governos aos quais os homens são obrigados a obedecer são simples e absolutos. Na monarquia, há apenas um homem supremo; e todos os outros homens que detêm algum tipo de poder no Estado o têm por sua comissão, durante sua vontade, e o exercem em seu nome. Já na aristocracia e na democracia, há apenas uma assembleia suprema, com o mesmo poder que na monarquia pertence ao monarca, que não é uma mistura, mas uma soberania absoluta. E dentre os três tipos, qual é o melhor não deve ser discutido, visto que qualquer um deles já esteja estabelecido; mas o atual deve sempre ser preferido, mantido e considerado o melhor; porque é contrário tanto à Lei da Natureza quanto à Lei Divina positiva fazer qualquer coisa que tenda à sua subversão. Além disso, não importa ao poder de qualquer pastor (a menos que ele tenha a soberania civil) qual tipo de governo é o melhor; porque sua vocação não é governar os homens por mandamentos, mas ensiná-los e persuadi-los por argumentos, deixando-lhes a decisão de abraçar ou rejeitar a doutrina ensinada. Pois monarquia, aristocracia e democracia nos indicam três tipos de soberanos, não de pastores; ou, como podemos dizer, três tipos de chefes de família, não três tipos de professores para seus filhos.

Portanto, a segunda conclusão, referente à melhor forma de governo da Igreja, nada diz sobre a questão do poder do Papa fora de seus próprios domínios: pois em todas as outras comunidades, seu poder (se é que ele o tem) é apenas o de um professor, e não o de um chefe de família.

Para a terceira conclusão, que é a de que São Pedro era o Monarca da Igreja, ele apresenta como argumento principal a passagem de São Mateus (cap. 16, versículos 18 e 19): “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e darei a ti as chaves do céu; tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu”. Essa passagem, bem considerada, não prova mais nada além de que a Igreja de Cristo tem como fundamento um único Artigo; a saber, aquele que Pedro, professando em nome de todos os Apóstolos, deu ocasião ao nosso Salvador de proferir as palavras aqui citadas; o qual, para que possamos compreender claramente, devemos considerar que o nosso Salvador pregou, por si mesmo, por João Batista e pelos seus Apóstolos, nada além deste Artigo de Fé: “que ele era o Cristo”; todos os outros Artigos exigem fé apenas por estarem fundamentados neste. João começou pregando (Mateus 3:2) apenas isto: “O Reino de Deus está próximo”. Depois, o próprio Salvador (Mateus 4:17) pregou o mesmo. E aos seus doze apóstolos, quando lhes deu a missão (Mateus 10:7), não há menção de pregarem qualquer outro artigo além deste. Este era o artigo fundamental, isto é, o fundamento da fé da Igreja. Depois, quando os apóstolos voltaram para ele, perguntou a todos (Mateus 16:13), não apenas a Pedro: “Quem os homens diziam que ele era?”. E eles responderam: “Alguns diziam que era João Batista, outros Elias, e outros Jeremias, ou um dos profetas”. Então (versículo 15), perguntou a todos novamente (não apenas a Pedro): “Quem vocês dizem que eu sou?”. Pedro respondeu (em nome de todos): “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. que eu disse ser o fundamento da fé de toda a Igreja; a partir do qual nosso Salvador aproveita a ocasião para dizer: “Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”; com o que fica manifesto que, pela Pedra Fundamental da Igreja, se entendia o Artigo Fundamental da fé da Igreja. Mas por que então (alguns objetarão) nosso Salvador intercala estas palavras: “Tu és Pedro”? Se o original deste texto tivesse sido traduzido rigorosamente, a razão teria surgido facilmente: devemos, portanto, considerar que o apóstolo Simão era cognominado Pedra (que é o significado da palavra siríaca Cefas e da palavra grega Petrus). Nosso Salvador, portanto, após a confissão desse Artigo Fundamental, aludindo ao seu nome, disse (como se estivesse em inglês): "Tu és a Pedra, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja"; o que equivale a dizer que este Artigo, "Eu sou o Cristo", é o fundamento de toda a fé que exijo daqueles que serão membros da minha Igreja. E essa alusão a um nome não é algo incomum na linguagem comum.Mas teria sido um discurso estranho e obscuro se o nosso Salvador, pretendendo construir a sua Igreja sobre a Pessoa de São Pedro, tivesse dito: "Tu és uma Pedra, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja", quando era tão óbvio, sem qualquer ambiguidade, ter dito: "Edificarei a minha Igreja sobre ti"; e, no entanto, ainda haveria a mesma alusão ao seu nome.

E quanto às palavras seguintes, “Eu te darei as chaves do céu, etc.”, não é nada mais do que o que o nosso Salvador também deu a todos os seus discípulos (Mateus 18:18): “Tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. Mas, seja qual for a interpretação, não há dúvida de que o poder aqui concedido pertence a todos os Pastores Supremos; tais como todos os Soberanos Civis Cristãos em seus próprios domínios. De tal forma que, mesmo que São Pedro, ou o próprio Salvador, tivesse convertido algum deles a crer nele e a reconhecer o seu Reino, como o seu Reino não é deste mundo, ele teria deixado a responsabilidade suprema de converter os seus súditos a ninguém mais do que a si mesmo; ou então teria se privado da soberania à qual o direito de ensinar está indissoluvelmente ligado. E assim termina a refutação de seu primeiro livro, no qual ele pretendia provar que São Pedro era o Monarca Universal da Igreja, ou seja, de todos os cristãos do mundo.

O Segundo Livro

O segundo livro apresenta duas conclusões: uma, que São Pedro foi Bispo de Roma e lá morreu; a outra, que os Papas de Roma são seus sucessores. Ambas foram contestadas por outros. Mas, supondo que sejam verdadeiras, se por Bispo de Roma entendermos tanto o Monarca da Igreja quanto o seu Pastor Supremo, não foi Silvestre, mas Constantino (que foi o primeiro Imperador cristão) quem ocupou esse cargo; e assim como Constantino, todos os outros Imperadores cristãos foram, por direito, Bispos Supremos do Império Romano; digo do Império Romano, não de toda a Cristandade, pois outros soberanos cristãos tinham o mesmo direito, em seus respectivos territórios, a um ofício essencialmente aderente à sua soberania. Isso servirá de resposta ao seu segundo livro.

O Terceiro Livro

No terceiro livro, ele aborda a questão de saber se o Papa é o Anticristo. Por minha parte, não vejo nenhum argumento que prove que ele o seja, no sentido em que as Escrituras usam o nome; nem tomarei qualquer argumento da qualidade de Anticristo para contradizer a autoridade que ele exerce, ou exerceu anteriormente, nos domínios de qualquer outro príncipe ou Estado.

É evidente que os profetas do Antigo Testamento predisseram, e os judeus esperavam, um Messias, isto é, um Cristo, que restabeleceria entre eles o reino de Deus, o qual lhes fora rejeitado na época de Samuel, quando buscavam um rei à semelhança de outras nações. Essa expectativa os tornava indignados com a impostura de todos aqueles que ambicionavam alcançar o Reino e tinham a habilidade de enganar o povo com falsos milagres, vida hipócrita ou discursos e doutrinas plausíveis. Nosso Salvador, portanto, e seus apóstolos alertaram os homens sobre os falsos profetas e os falsos Cristos. Os falsos Cristos são aqueles que fingem ser o Cristo, mas não o são, e são chamados propriamente de Anticristos, no sentido em que, quando ocorre um cisma na Igreja pela eleição de dois Papas, um chama o outro de Antipapa, ou falso Papa. Portanto, o Anticristo, em seu sentido próprio, possui duas características essenciais; Uma delas é que ele nega que Jesus seja o Cristo; a outra é que ele se declara o próprio Cristo. A primeira característica é apresentada por São João em sua 1ª Epístola, capítulo 4, versículo 3: “Todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; e este é o espírito do anticristo”. A outra característica é expressa nas palavras de nosso Salvador (Mateus 24:5): “Muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo”; e novamente: “Se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo, ali está o Cristo, não acrediteis”. Portanto, o Anticristo deve ser um falso Cristo, isto é, alguém que se fará passar por Cristo. E dessas duas características, “negar que Jesus seja o Cristo” e “afirmar-se ser o Cristo”, conclui-se que ele também deve ser um “adversário do verdadeiro Cristo”, que é outro significado comum da palavra Anticristo. Mas dentre esses muitos Anticristos, há um especial, ó Anticristo, o Anticristo, ou Anticristo definitivamente, como uma pessoa específica; não indefinidamente um Anticristo. Ora, vendo que o Papa de Roma não se apresenta como o próprio, nem nega que Jesus seja o Cristo, não entendo como ele pode ser chamado de Anticristo; palavra que não se refere a alguém que falsamente finge ser Seu Tenente ou Vigário Geral, mas sim a Ele mesmo. Há também uma indicação do tempo deste Anticristo especial, como em Mateus 24:15, quando aquele destruidor abominável, mencionado por Daniel (Daniel 9:27), se levantará no lugar santo, e haverá uma tribulação como nunca houve desde o princípio do mundo, nem jamais haverá, visto que, se fosse para durar muito tempo (versículo 22), “nenhuma carne poderia ser salva; mas, por causa dos escolhidos, aqueles dias serão abreviados” (reduzidos).Mas essa tribulação ainda não chegou; pois será seguida imediatamente (v. 29) pelo escurecimento do Sol e da Lua, pela queda das estrelas, por uma concussão dos céus e pela gloriosa vinda de nosso Salvador nas nuvens. Portanto, o Anticristo ainda não veio; enquanto muitos Papas já vieram e se foram. É verdade que o Papa, ao assumir a responsabilidade de dar leis a todos os reis e nações cristãs, usurpa um reino neste mundo que Cristo não assumiu: mas ele o faz não como Cristo, mas para Cristo, e nisso não há nada do Anticristo.

O Quarto Livro

No quarto livro, para provar que o Papa é o Juiz supremo em todas as questões de Fé e Costumes (o que equivale a ser o Monarca absoluto de todos os cristãos do mundo), ele apresenta três proposições: A primeira, que seus julgamentos são infalíveis; a segunda, que ele pode criar leis e punir aqueles que não as observam; a terceira, que nosso Salvador conferiu toda a jurisdição eclesiástica ao Papa de Roma.

Textos sobre a infalibilidade do juízo papal em questões de fé.

Quanto à infalibilidade de seus julgamentos, ele alega as Escrituras, e primeiro, Lucas 22:31: “Simão, Simão, Satanás vos pediu que vos peneirasse como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, fortalece os teus irmãos”. Segundo a interpretação de Belarmino, Cristo concedeu a Simão Pedro dois privilégios: primeiro, que sua fé não falhasse, e que ele, nem qualquer um de seus sucessores, jamais definisse erroneamente qualquer ponto concernente à fé ou aos costumes, ou contrariamente à definição de um Papa anterior. Essa é uma interpretação estranha e forçada. Mas quem ler esse capítulo com atenção encontrará em toda a Escritura nenhum trecho que se oponha mais à autoridade papal do que este. Os sacerdotes e escribas procuravam matar nosso Salvador na Páscoa, e Judas estava decidido a traí-lo. Chegando o dia da Páscoa, nosso Salvador a celebrou com seus apóstolos, dizendo que até a chegada do Reino de Deus não faria mais nada; e disse-lhes que um deles o trairia. Então, eles questionaram qual deles deveria ser; e todos (vendo que a próxima Páscoa que seu Mestre celebraria seria quando ele fosse rei) entraram em contenda sobre quem seria o maior homem. Nosso Salvador, portanto, disse-lhes que os reis das nações tinham domínio sobre seus súditos e eram chamados por um nome (em hebraico) que significa generoso; mas eu não posso ser assim para vocês, vocês devem se esforçar para servir uns aos outros; eu vos ordeno um Reino, mas é tal como meu Pai me ordenou; um Reino que agora comprarei com meu sangue e que não possuireis até a minha segunda vinda; então comereis e bebereis à minha Mesa e vos sentareis em tronos, julgando as doze tribos de Israel. E então, dirigindo-se a São Pedro, disse: Simão, Simão, Satanás procura, sugerindo um domínio presente, enfraquecer a tua fé futura; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça. Tu, pois (notem isto), estando convertido e compreendendo o meu Reino como sendo de outro mundo, confirma a mesma fé em teus irmãos. Ao que São Pedro respondeu (como alguém que já não esperava qualquer autoridade neste mundo): “Senhor, estou pronto para ir contigo, não só para a prisão, mas também para a morte”. Com isso, fica evidente que São Pedro não só não tinha jurisdição neste mundo, como também a incumbência de ensinar a todos os outros Apóstolos que eles também não a tivessem. E quanto à infalibilidade da sentença definitiva de São Pedro em matéria de fé, nada mais se pode atribuir a ela a partir deste texto, senão que Pedro persistisse na crença deste ponto, a saber,que Cristo voltaria e possuiria o Reino no dia do Juízo Final; o qual não foi concedido pelo Texto a todos os seus Sucessores; pois vemos que eles o reivindicam no mundo atual.

O segundo lugar é o de Mateus 16: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Com isso (como já mostrei neste capítulo) não se prova nada além de que as portas do inferno não prevalecerão contra a confissão de Pedro, que deu origem a esse discurso; ou seja, que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus.

O terceiro texto é João 21, versículos 16 e 17: “Apascenta as minhas ovelhas”, que contém nada mais do que uma comissão de ensino. E se admitirmos que o restante dos apóstolos esteja contido nesse nome de ovelhas, então trata-se do poder supremo de ensinar. Mas isso se aplicava apenas ao tempo em que não havia soberanos cristãos que já possuíssem essa supremacia. Contudo, já provei que os soberanos cristãos são, em seus próprios domínios, os pastores supremos, instituídos para tal pelo mérito de serem batizados, embora sem qualquer outra imposição de mãos. Pois tal imposição, sendo uma cerimônia para designar a pessoa, é desnecessária quando ela já está designada ao poder de ensinar a doutrina que desejar, por sua instituição a um poder absoluto sobre seus súditos. Pois, como já provei antes, os soberanos são mestres supremos (em geral) por seu ofício e, portanto, obrigam-se (pelo batismo) a ensinar a doutrina de Cristo. E quando permitem que outros ensinem seu povo, fazem-no por sua própria conta e risco; pois é pelas mãos dos chefes de família que Deus exigirá a prestação de contas da instrução de seus filhos e servos. É do próprio Abraão, não de um mercenário, que Deus diz (Gênesis 18:19): “Eu o conheço, pois ele ordenará a seus filhos e à sua casa depois dele que guardem o caminho do Senhor, e pratiquem a justiça e o juízo”.

O quarto lugar é o de Êxodo 28:30: “Porás no peitoral do juízo o Urim e o Tumim”, que, segundo ele, é interpretado pela Septuaginta como delosin kai aletheian, isto é, Evidência e Verdade. E daí conclui-se que Deus deu Evidência e Verdade (que é quase infalibilidade) ao Sumo Sacerdote. Mas, seja a própria Evidência e Verdade que foi dada, ou seja apenas uma admoestação ao sacerdote para que se esforçasse para se informar com clareza e proferir julgamento com retidão, ainda assim, pelo fato de ter sido dada ao Sumo Sacerdote, foi dada ao Soberano Civil. Pois, logo abaixo de Deus estava o Sumo Sacerdote na comunidade de Israel; e isso é um argumento a favor da Evidência e da Verdade, isto é, a favor da supremacia eclesiástica dos soberanos civis sobre seus próprios súditos, contra o pretenso poder do Papa. Esses são todos os textos que ele apresenta para a infalibilidade do julgamento do Papa, em matéria de fé.

Textos para o mesmo em termos de costumes

Para comprovar a infalibilidade de seu julgamento quanto aos costumes, ele cita um único texto, João 16:13: “Quando vier o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade”, onde (diz ele) por “Toda a Verdade” entende-se, pelo menos, Toda a Verdade Necessária para a Salvação. Mas, com essa ressalva, ele não atribui mais infalibilidade ao Papa do que a qualquer homem que professe o cristianismo e não deva ser condenado: pois se alguém errar em algum ponto em que não errar é necessário para a Salvação, é impossível que seja salvo; pois somente isso é necessário para a Salvação, sem o qual ser salvo é impossível. Quais são esses pontos, eu os explicarei com base nas Escrituras no capítulo seguinte. Neste ponto, não direi mais nada, mas, mesmo que lhe fosse concedido, o Papa não poderia ensinar nenhum erro, não lhe confere isso qualquer jurisdição nos domínios de outro príncipe, a menos que também digamos que um homem é obrigado, em consciência, a contratar sempre o melhor profissional, mesmo quando já prometeu o seu trabalho a outrem.

Além do Texto, ele argumenta pela Razão, da seguinte forma: se o Papa pudesse errar no necessário, então Cristo não teria providenciado suficientemente para a Salvação da Igreja, pois Ele a teria ordenado a seguir as instruções do Papa. Mas essa Razão é inválida, a menos que ele mostre quando e onde Cristo ordenou isso, ou sequer considerou a existência de um Papa. Aliás, mesmo admitindo que tudo o que foi dado a São Pedro também foi dado ao Papa, visto que não há nas Escrituras nenhuma ordem para que alguém obedeça a São Pedro, ninguém pode ser justo se o obedece, quando seus mandamentos são contrários aos de seu legítimo Soberano.

Por fim, a Igreja, nem o próprio Papa, não declarou ser o Soberano Civil de todos os cristãos do mundo; portanto, nem todos os cristãos são obrigados a reconhecer sua jurisdição em matéria de costumes. Pois a Soberania Civil e a Suprema Corte em controvérsias de costumes são a mesma coisa: e os legisladores não são apenas declaradores, mas também determinam a justiça e a injustiça das ações; não havendo nada nos costumes dos homens que os torne justos ou injustos, senão sua conformidade com a lei do Soberano. E, portanto, quando o Papa questiona a supremacia em controvérsias de costumes, ele ensina os homens a desobedecerem ao Soberano Civil; o que é uma doutrina errônea, contrária aos muitos preceitos de nosso Salvador e seus apóstolos, transmitidos a nós nas Escrituras.

Para provar que o Papa tem poder para criar leis, ele cita vários trechos; como, por exemplo, Deuteronômio 17:12: “O homem que se atrever a desobedecer ao sacerdote (que está ali para ministrar perante o Senhor teu Deus, ou ao juiz), esse morrerá; e eliminarás o mal de Israel”. Para responder a isso, devemos lembrar que o Sumo Sacerdote (o próximo e imediatamente abaixo de Deus) era o Soberano Civil; e todos os juízes seriam constituídos por ele. As palavras citadas, portanto, soam assim: “O homem que ousar desobedecer ao Soberano Civil em exercício, ou a qualquer um de seus oficiais no exercício de suas funções, esse morrerá, etc.”, o que claramente defende a soberania civil contra o poder universal do Papa.

Em segundo lugar, ele alega que Mateus 16 se refere a "Tudo o que ligardes, etc." e interpreta isso como uma forma de ligar, como a que é atribuída (Mateus 23:4) aos escribas e fariseus: "Eles atam fardos pesados ​​e difíceis de carregar, e os põem sobre os ombros dos homens", o que significa (segundo ele) a criação de leis; e conclui, portanto, que o Papa pode criar leis. Mas isso também se aplica apenas ao poder legislativo dos soberanos civis: pois os escribas e fariseus ocupavam o lugar de Moisés, mas Moisés, logo abaixo de Deus, era o soberano do povo de Israel; e, portanto, nosso Salvador ordenou que fizessem tudo o que diziam, mas não tudo o que faziam. Ou seja, que obedecessem às suas leis, mas não seguissem o seu exemplo.

O terceiro lugar é João 21:16: “Apascenta as minhas ovelhas”; o que não se refere ao poder de criar leis, mas sim a uma ordem para ensinar. Criar leis pertence ao Senhor da Família, que, por sua própria discrição, escolhe o seu capelão, assim como o professor para ensinar os seus filhos.

O quarto ponto em João 20:21 é contra ele. As palavras são: “Assim como o Pai me enviou, eu os envio”. Mas o nosso Salvador foi enviado para redimir (pela sua morte) aqueles que creem; e pela sua própria pregação e a dos seus apóstolos, para prepará-los para a entrada no seu Reino; o qual ele mesmo diz que não é deste mundo, e nos ensinou a orar pela sua vinda no além, embora tenha se recusado (Atos 1:6,7) a dizer aos seus apóstolos quando ele viria; e no qual, quando vier, os doze apóstolos se sentarão em doze tronos (cada um talvez tão alto quanto o de São Pedro) para julgar as doze tribos de Israel. Visto que Deus Pai não enviou o nosso Salvador para fazer leis neste mundo presente, podemos concluir do texto que o nosso Salvador também não enviou São Pedro para fazer leis aqui, mas para persuadir os homens a esperarem a sua segunda vinda com uma fé inabalável. E, enquanto isso, se forem súditos, que obedeçam a seus príncipes; e se forem príncipes, que acreditem nisso e façam o possível para que seus súditos façam o mesmo; o que é o ofício de um bispo. Portanto, este trecho defende fortemente a união da supremacia eclesiástica à soberania civil, ao contrário do que alega o Cardeal Belarmino.

O quinto lugar é Atos 15:28: “Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor nenhum fardo maior do que estas coisas necessárias: que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne de animais estrangulados e da fornicação.” Aqui, ele observa a expressão “impor fardos” para o poder legislativo. Mas quem, lendo este texto, pode dizer que este estilo dos apóstolos não pode ser usado tão apropriadamente para aconselhar quanto para criar leis? O estilo de uma lei é: “Ordenamos”; mas “Achamos bom” é o estilo comum daqueles que apenas aconselham; e impõem um fardo aqueles que aconselham, ainda que condicional, isto é, se aqueles a quem o conselho é dado alcançarem seus objetivos. E tal é o fardo de se abster da carne de animais estrangulados e do sangue; não absoluto, mas para que não errem. Já mostrei anteriormente (cap. 25) que a Lei se distingue do Conselho pelo fato de que a razão de uma Lei deriva do propósito e do benefício daquele que a prescreve; já a razão de um Conselho deriva do propósito e do benefício daquele a quem o Conselho é dado. Mas aqui, os Apóstolos visam unicamente ao benefício dos gentios convertidos, ou seja, à sua Salvação; não ao seu próprio benefício, pois, tendo cumprido seu propósito, receberão sua recompensa, quer sejam obedecidos, quer não. Portanto, os Atos deste Conselho não eram Leis, mas Conselhos.

O sexto lugar é o de Romanos 13: “Que toda alma se sujeite às autoridades superiores, porque não há autoridade que não venha de Deus”; o que significa, ele diz, não apenas dos príncipes seculares, mas também dos príncipes eclesiásticos. Ao que respondo, em primeiro lugar, que não há príncipes eclesiásticos que não sejam também soberanos civis; e seus principados não excedem o alcance de sua soberania civil; sem esses limites, embora possam ser aceitos como doutores, não podem ser reconhecidos como príncipes. Pois se o Apóstolo quisesse dizer que deveríamos nos submeter tanto aos nossos próprios príncipes quanto ao Papa, ele nos teria ensinado uma doutrina que o próprio Cristo nos disse ser impossível, a saber, “servir a dois senhores”. E embora o Apóstolo diga em outro lugar: “Escrevo estas coisas estando ausente, para que, estando presente, não use de aspereza segundo o poder que o Senhor me deu”; Não se trata de desafiar um Poder para condenar à morte, prisão, exílio, açoite ou multa, o que são punições; mas apenas para excomungar, o que (sem o Poder Civil) nada mais é do que abandonar sua companhia e não ter mais nada a ver com eles do que com um pagão ou um taberneiro; o que, em muitas ocasiões, poderia ser uma dor maior para o excomungado do que para o excomungado.

O sétimo lugar é 1 Coríntios 4:21: “Acaso irei a vós com vara, ou com amor e espírito de clemência?” Mas aqui, novamente, não é o poder de um magistrado de punir os transgressores que é o significado da vara, mas apenas o poder de excomunhão, que não é, em sua própria natureza, uma punição, mas apenas uma denúncia da punição que Cristo infligirá quando estiver na posse do seu Reino, no dia do Juízo. Nem então será propriamente uma punição, como sobre um súdito que transgrediu a lei, mas uma vingança, como sobre um inimigo ou rebelde que nega o direito do nosso Salvador ao Reino. Portanto, isso não prova o poder legislativo de nenhum bispo que não possua também o poder civil.

O oitavo lugar é em Timóteo 3:2: “É necessário que o bispo seja marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, etc.”, o que ele diz ser uma lei. Eu pensava que ninguém poderia criar uma lei na Igreja, senão o Monarca da Igreja, São Pedro. Mas suponhamos que este preceito tenha sido feito pela autoridade de São Pedro; ainda assim, não vejo razão para chamá-lo de lei, em vez de conselho, visto que Timóteo não era um súdito, mas um discípulo de São Paulo; nem o rebanho sob a responsabilidade de Timóteo, seus súditos no Reino, mas seus discípulos na Escola de Cristo. Se todos os preceitos que ele dá a Timóteo são leis, por que este não seria também uma lei: “Não bebas mais água, mas usa um pouco de vinho para a tua saúde”? E por que os preceitos dos bons médicos não são também leis? Mas não é o modo imperativo de falar, e sim a submissão absoluta a uma pessoa, que torna seus preceitos leis.

Da mesma forma, o nono versículo, 1 Timóteo 5:19: "Contra um presbítero não aceites acusação, senão na presença de duas ou três testemunhas", é um preceito sábio, mas não uma lei.

O décimo lugar é Lucas 10:16: “Quem vos ouve, a mim me ouve; quem vos despreza, a mim me despreza”. E não há dúvida de que quem despreza o conselho daqueles que são enviados por Cristo, despreza o próprio conselho de Cristo. Mas quem são aqueles que são enviados por Cristo, senão aqueles que são pastores ordenados por autoridade legítima? E quem é ordenado legitimamente, que não seja ordenado pelo Pastor Soberano? E quem é ordenado pelo Pastor Soberano em uma comunidade cristã, que não seja ordenado pela autoridade do Soberano dessa comunidade? Portanto, conclui-se que aquele que ouve o seu Soberano, sendo cristão, ouve a Cristo. E aquele que despreza a doutrina que seu rei, sendo cristão, autoriza, despreza a doutrina de Cristo (o que não é o que Belarmino pretende provar aqui, mas o contrário). Mas tudo isso não é nada comparado a uma lei. Aliás, um rei cristão, como pastor e mestre de seus súditos, não transforma suas doutrinas em leis por meio delas. Ele não pode obrigar os homens a crerem; embora, como soberano civil, possa criar leis adequadas à sua doutrina, que podem obrigar os homens a certas ações, e às vezes a outras que eles não fariam de outra forma, e que ele não deveria ordenar; contudo, quando são ordenadas, tornam-se leis; e as ações externas realizadas em obediência a elas, sem a aprovação interior, são ações do soberano, e não do súdito, que, nesse caso, é apenas um instrumento, sem qualquer movimento próprio; porque Deus ordenou que as obedecessem.

O décimo primeiro ponto refere-se a todo lugar onde o Apóstolo, ao aconselhar, usa alguma palavra que as pessoas costumam usar para significar Mandamento; ou chama o seguimento de seu Conselho pelo nome de Obediência. E, portanto, são citados em 1 Coríntios 11:2: “Eu vos louvo por guardardes os meus preceitos, conforme os transmiti a vós”. O grego diz: “Eu vos louvo por guardardes as coisas que vos entreguei, conforme as entreguei”. O que está longe de significar que eram Leis ou qualquer outra coisa, mas sim bons conselhos. E também em 1 Tessalonicenses 4:2: “Vocês sabem quais mandamentos vos demos”, onde a palavra grega é paraggelias edokamen, equivalente a paredokamen, o que vos entregamos, como no trecho citado anteriormente, o que não prova que as Tradições dos Apóstolos sejam mais do que conselhos. Embora, como se diz no versículo 8, "aquele que os despreza, não despreza o homem, mas a Deus": pois o nosso Salvador não veio para julgar, isto é, para ser rei neste mundo, mas para se sacrificar pelos pecadores e deixar doutores em sua Igreja para guiar, não para forçar os homens a Cristo, que nunca aceita ações forçadas (que é tudo o que a Lei produz), mas a conversão interior do coração; que não é obra das leis, mas do conselho e da doutrina.

E quanto a 2 Tessalonicenses 3:14: “Se alguém não obedecer à nossa palavra por meio desta Epístola, marquem-no e não se associem com ele, para que seja envergonhado”: ​​de onde, pela palavra “obedecer”, ele inferiria que esta Epístola era uma Lei para os tessalonicenses. As Epístolas dos Imperadores eram, de fato, Leis. Se, portanto, a Epístola de São Paulo também fosse uma Lei, eles deveriam obedecer a dois Senhores. Mas a palavra “obedecer”, como está no grego upakouei, significa “dar ouvidos” ou “pôr em prática”, não apenas o que é ordenado por aquele que tem o direito de punir, mas também o que é transmitido como conselho para o nosso bem; e, portanto, São Paulo não ordena que se mate aquele que desobedece, nem que se espanque, nem que se prenda, nem que se aplique multa, o que os legisladores podem fazer; mas evitem a sua companhia, para que ele se envergonhe: com isso fica evidente que não era o Império de um Apóstolo, mas a sua Reputação entre os Fiéis, que os cristãos temiam.

O último ponto é o de Hebreus 13:17: “Obedeçam aos seus líderes e submetam-se à autoridade deles, pois eles zelam por vocês como quem deve prestar contas”. E aqui também se entende por obediência o seguimento de seus conselhos: pois a razão da nossa obediência não deriva da vontade e do mandamento de nossos pastores, mas do nosso próprio benefício, visto que a salvação de nossas almas é o que eles zelam, e não a exaltação de seu próprio poder e autoridade. Se o significado aqui fosse que tudo o que eles ensinam são leis, então não apenas o Papa, mas cada pastor em sua paróquia deveria ter poder legislativo. Além disso, aqueles que são obrigados a obedecer, seus pastores, não têm poder para examinar seus mandamentos. O que diremos então a São João, que nos exorta (1ª Epístola, capítulo 4, versículo 1): “Não acreditemos em qualquer espírito, mas provemos se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo”? É, portanto, evidente que podemos questionar a doutrina de nossos pastores, mas ninguém pode questionar uma lei. Os mandamentos dos soberanos civis são considerados leis por todos os lados: se alguém além de si mesmo pudesse criar uma lei, toda a comunhão, e consequentemente toda a paz e a justiça, cessariam; o que é contrário a todas as leis, tanto divinas quanto humanas. Nada, portanto, pode ser extraído dessas ou de quaisquer outras passagens das Escrituras para provar que os decretos do Papa, onde ele não detém também a soberania civil, sejam leis.

A Questão da Superioridade entre o Papa e os Outros Bispos. O último ponto que ele pretende provar é este: “Que nosso Salvador Cristo confiou a jurisdição eclesiástica diretamente somente ao Papa”. Com isso, ele não aborda a questão da supremacia entre o Papa e os reis cristãos, mas entre o Papa e os outros bispos. E, em primeiro lugar, ele afirma que é consenso que a jurisdição dos bispos está, pelo menos, no âmbito geral do direito divino, isto é, no direito de Deus; para isso, ele cita São Paulo em Efésios 4:11, onde diz que Cristo, após sua ascensão ao céu, “deu dons aos homens: uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, outros para pastores e outros para mestres”. E daí infere que eles, de fato, têm sua jurisdição no direito de Deus; mas não admite que a tenham recebido diretamente de Deus, mas sim por meio do Papa. Mas se um homem pode ser considerado detentor de Jurisdição De Jure Divino, e ainda assim não imediatamente, que Jurisdição legítima, embora apenas Civil, existe numa comunidade cristã que não seja também De Jure Divino? Pois os reis cristãos têm seu Poder Civil vindo de Deus imediatamente; e os magistrados sob seu comando exercem suas respectivas funções em virtude de sua comissão; sendo que o que eles fazem não é menos De Jure Divino Mediato do que o que os bispos fazem, em virtude da ordenação papal. Todo o Poder legítimo vem de Deus, imediatamente no Governador Supremo e mediatamente naqueles que têm Autoridade sob ele: de modo que ou ele deve conceder a cada policial no Estado o direito de exercer seu cargo em nome de Deus; ou ele não deve considerar que qualquer bispo o exerça dessa forma, além do próprio Papa.

Mas toda esta disputa, sobre se Cristo deixou a jurisdição apenas para o Papa, ou também para outros bispos, se considerada fora desses lugares onde o Papa tem a soberania civil, é uma contenda de Lana Caprina: pois nenhum deles (onde não são soberanos) tem jurisdição alguma. Pois jurisdição é o poder de ouvir e determinar causas entre homem e homem; e não pode pertencer a ninguém, senão àquele que tem o poder de prescrever as regras do certo e do errado; isto é, de fazer leis; e com a espada da justiça compelir os homens a obedecerem às suas decisões, pronunciadas por ele mesmo ou pelos juízes que ele ordena; o que ninguém pode fazer legitimamente, senão o soberano civil.

Portanto, quando ele alega, com base no capítulo 6 de Lucas, que nosso Salvador reuniu seus discípulos e escolheu doze deles, aos quais chamou de apóstolos, ele prova que os elegeu (todos, exceto Matias, Paulo e Barnabé) e lhes deu poder e ordem para pregar, mas não para julgar causas entre os homens; pois esse é um poder que ele recusou assumir, dizendo: “Quem me constituiu juiz ou árbitro entre vocês?” e, em outro lugar, “O meu reino não é deste mundo”. Mas aquele que não tem o poder de ouvir e decidir causas entre os homens não pode ser considerado como tendo jurisdição alguma. E, no entanto, isso não impede que nosso Salvador lhes tenha dado poder para pregar e batizar em todas as partes do mundo, supondo que não lhes fosse proibido por seu próprio soberano legítimo: pois aos nossos soberanos, o próprio Cristo e seus apóstolos, em diversos lugares, nos ordenaram expressamente que sejamos obedientes em todas as coisas.

Os argumentos pelos quais ele pretende provar que os bispos recebem sua jurisdição do Papa (visto que o Papa, nos domínios de outros príncipes, não tem jurisdição própria) são todos vãos. Contudo, como provam, ao contrário, que todos os bispos recebem jurisdição quando a têm de seus soberanos civis, não omitirei a sua enumeração.

A primeira passagem encontra-se em Números 11, onde Moisés, não sendo capaz sozinho de suportar todo o fardo de administrar os assuntos do povo de Israel, Deus ordenou-lhe que escolhesse setenta anciãos e tomou parte do espírito de Moisés para o transmitir a esses setenta anciãos. Com isso, entende-se que Deus não enfraqueceu o espírito de Moisés, pois isso não o aliviou em nada, mas sim que todos eles receberam sua autoridade dele; e é aí que ele interpreta esse trecho de forma verdadeira e genuína. Mas, visto que Moisés detinha toda a soberania sobre a comunidade judaica, fica evidente que isso significa que eles recebiam sua autoridade do soberano civil. Portanto, esse trecho prova que os bispos em toda comunidade cristã recebem sua autoridade do soberano civil e do Papa apenas em seus próprios territórios, e não nos territórios de qualquer outro Estado.

O segundo argumento deriva da natureza da Monarquia, na qual toda a Autoridade reside em um só homem, e em outros por derivação dele. Mas o governo da Igreja, diz ele, é monárquico. Isso também justifica a existência de monarcas cristãos. Pois eles são, na verdade, monarcas de seu próprio povo, isto é, de sua própria Igreja (pois a Igreja é a mesma coisa que um povo cristão); enquanto o poder do Papa, mesmo que fosse São Pedro, não é monárquico, nem tem nada de arquial ou cratista, mas apenas de didático; pois Deus não aceita obediência forçada, mas sim a obediência voluntária.

A terceira razão é que o Mar de São Pedro é chamado por São Cipriano de Cabeça, Fonte, Raiz, Sol, de onde deriva a autoridade dos bispos. Mas, pela Lei da Natureza (que é um princípio melhor do certo e do errado do que a palavra de qualquer doutor, que não passa de um homem), o Soberano Civil em cada Comunidade é a Cabeça, a Fonte, a Raiz e o Sol, de onde deriva toda a jurisdição. E, portanto, a jurisdição dos bispos deriva do Soberano Civil.

O quarto argumento decorre da desigualdade de suas jurisdições: pois se Deus (diz ele) lhes tivesse dado imediatamente, teria lhes dado também igualdade de jurisdição, assim como de ordem. Mas vemos que alguns são bispos apenas de sua própria cidade, outros de cem cidades, e outros de muitas províncias inteiras; diferenças essas que não foram determinadas pelo mandamento de Deus; sua jurisdição, portanto, não é de Deus, mas do homem; e um tem uma jurisdição maior, outro uma menor, conforme aprouve ao Príncipe da Igreja. Esse argumento, se ele já tivesse provado antes que o Papa tinha jurisdição universal sobre todos os cristãos, teria sido para seu propósito. Mas, visto que isso não foi comprovado, e que é notoriamente conhecido que a ampla jurisdição do Papa lhe foi concedida por aqueles que a detinham, isto é, pelos Imperadores de Roma (pois o Patriarca de Constantinopla, com o mesmo título, ou seja, de Bispo da Capital do Império e Sede do Imperador, reivindicava ser igual a ele), segue-se que todos os outros bispos têm sua jurisdição dos soberanos do local onde a exercem. E, por essa razão, eles não têm sua autoridade de jure divino; assim também o Papa não tem a sua de jure divino, exceto quando ele também é o soberano civil.

Seu quinto argumento é este: “Se os bispos têm sua jurisdição diretamente de Deus, o Papa não poderia tirá-la deles, pois ele não pode fazer nada contrário à ordenação de Deus;” E essa consequência é boa e bem comprovada. “Mas (diz ele), o Papa pode fazer isso e já o fez.” Isso também é admitido, contanto que ele o faça em seus próprios domínios, ou nos domínios de qualquer outro príncipe que lhe tenha dado esse poder; mas não universalmente, por direito papal: pois esse poder pertence a todo soberano cristão, dentro dos limites de seu próprio império, e é inseparável da soberania. Antes que o povo de Israel tivesse (por mandamento de Deus a Samuel) estabelecido sobre si um rei, à semelhança de outras nações, o sumo sacerdote detinha o governo civil; e ninguém além dele podia nomear ou depor um sacerdote inferior: mas esse poder passou para o rei, como pode ser comprovado por este mesmo argumento de Belarmino; Pois se o sacerdote (seja ele o sumo sacerdote ou qualquer outro) tivesse sua jurisdição diretamente de Deus, então o rei não poderia tirá-la dele; “pois ele não poderia fazer nada contrário à ordenança de Deus”. Mas é certo que o rei Salomão (1 Reis 2:26) destituiu Abiatar, o sumo sacerdote, de seu ofício e colocou Zadoque (versículo 35) em seu lugar. Os reis, portanto, podem da mesma maneira ordenar e destituir bispos, como bem entenderem, para o bom governo de seus súditos.

Seu sexto argumento é este: se os bispos têm jurisdição de jure divino (isto é, diretamente de Deus), aqueles que a defendem deveriam apresentar alguma palavra de Deus para prová-la; mas não podem apresentar nenhuma. O argumento é bom; portanto, não tenho nada a dizer contra ele. Mas não é menos válido, porém, provar que o próprio Papa não tem jurisdição no domínio de nenhum outro príncipe.

Por fim, ele apresenta como argumento o testemunho de dois Papas, Inocêncio e Leão; e não duvido que ele poderia ter alegado, com igual razão, os testemunhos de quase todos os Papas desde São Pedro: pois, considerando o amor ao poder naturalmente implantado na humanidade, qualquer um que fosse eleito Papa, ele seria tentado a sustentar a mesma opinião. Contudo, eles deveriam, assim como Inocêncio e Leão, dar testemunho de si mesmos, e, portanto, seu testemunho não seria válido.

Do Poder Temporal do Papa

No quinto livro, ele apresenta quatro conclusões. A primeira é: “Que o Papa não é Senhor de todo o mundo”; a segunda: “Que o Papa não é Senhor de todo o mundo cristão”; a terceira: “Que o Papa (fora de seu próprio território) não possui jurisdição temporal direta”. Essas três conclusões são facilmente aceitas. A quarta é: “Que o Papa possui (nos domínios de outros príncipes) o Supremo Poder Temporal indireto”; o que é negado, a menos que ele queira dizer, por indireto, que o obteve por meios indiretos; nesse caso, isso também é aceito. Mas entendo que, quando ele diz que o possui indiretamente, quer dizer que tal jurisdição temporal lhe pertence por direito, mas que esse direito é apenas uma consequência de sua autoridade pastoral, a qual ele não poderia exercer sem a outra. Portanto, ao poder pastoral (que ele chama de espiritual) está necessariamente anexado o Supremo Poder Civil. e que, por meio disso, ele tem o direito de mudar de reino, entregando-os a um e tomando-os de outro, quando julgar que isso contribui para a salvação das almas.

Antes de analisar os argumentos pelos quais ele pretende provar essa doutrina, convém expor as suas consequências; para que os príncipes e os estados que detêm a soberania civil nas suas respectivas comunidades possam refletir se lhes é conveniente e benéfico para os seus súditos, dos quais terão de prestar contas no dia do julgamento, aceitar tal doutrina.

Quando se diz que o Papa não detém (nos territórios de outros Estados) o Poder Civil Supremo Direto, devemos entender que ele não o contesta, como fazem outros soberanos civis, a partir da submissão original daqueles que serão governados. Pois é evidente, e já foi suficientemente demonstrado neste Tratado, que o Direito de todos os soberanos deriva originalmente do consentimento de cada um daqueles que serão governados; quer o façam para a sua defesa comum contra um inimigo, como quando concordam entre si em nomear um homem ou uma assembleia de homens para os proteger; quer o façam para salvar as suas vidas, submetendo-se a um inimigo conquistador. O Papa, portanto, quando nega o Poder Civil Supremo sobre outros Estados Direto, nada mais nega senão que o seu Direito lhe advém dessa forma; não cessa, por isso, de o reivindicar de outra maneira. E isto é, (sem o consentimento daqueles que serão governados) por um Direito que lhe foi dado por Deus (o qual ele chama indiretamente) em sua Assunção ao Papado. Mas, seja qual for a forma que ele alegue, o Poder é o mesmo; e ele pode (se lhe for concedido o Direito) depor Príncipes e Estados, quantas vezes for necessário para a Salvação das Almas, isto é, quantas vezes quiser; pois ele reivindica também o Poder Exclusivo de Julgar, seja para a salvação das almas dos homens ou não. E esta é a Doutrina, não apenas aquela que Belarmino aqui, e muitos outros Doutores, ensinam em seus Sermões e Livros, mas também aquela que alguns Concílios decretaram, e os Papas decretaram, e os Papas, consequentemente, quando a ocasião lhes foi conveniente, puseram em prática. Pois o quarto Concílio de Latrão, realizado sob o Papa Inocêncio III (no terceiro capítulo de De Haereticis), contém este cânone. “Se um rei, sob a admoestação do Papa, não expurgar seu reino dos heeréticos e, sendo excomungado por isso, não se retratar dentro de um ano, seus súditos serão absolvidos de sua obediência.” E essa prática foi vista em diversas ocasiões, como na deposição de Chilperique, rei da França; na transferência do Império Romano para Carlos Magno; na opressão de João, rei da Inglaterra; na transferência do reino de Navarra; e, nos últimos anos, na liga contra Henrique III da França, e em muitos outros casos. Creio que poucos príncipes não considerem isso injusto e inconveniente; mas gostaria que todos resolvessem ser reis ou súditos. Os homens não podem servir a dois senhores: devem, portanto, aliviar o fardo, seja detendo as rédeas do governo inteiramente em suas próprias mãos, seja entregando-as completamente nas mãos do Papa, para que aqueles que desejam obedecer sejam protegidos em sua obediência.Pois essa distinção entre Poder Temporal e Poder Espiritual não passa de palavras. O poder é tão realmente dividido, e tão perigosamente para todos os efeitos, ao ser compartilhado com outro Poder Indireto quanto com um Poder Direto. Mas passemos agora aos seus argumentos.

A primeira é esta: “O Poder Civil está sujeito ao Espiritual: Portanto, aquele que possui o Poder Supremo Espiritual tem o direito de comandar os Príncipes Temporais e dispor de seus Temporais em conformidade com o Espiritual. Quanto à distinção entre Temporal e Espiritual, consideremos em que sentido se pode dizer, de forma inteligível, que o Poder Temporal, ou Civil, está sujeito ao Espiritual. Há apenas duas maneiras de interpretar essas palavras. Pois, quando dizemos que um Poder está sujeito a outro, o significado é que aquele que possui um está sujeito àquele que possui o outro; ou que um Poder é para o outro, como o meio para um fim. Pois não podemos entender que um Poder tenha Poder sobre outro Poder; e que um Poder possa ter Direito ou Comando sobre outro: pois Submissão, Comando, Direito e Poder são acidentes, não de Poderes, mas de Pessoas: Um Poder pode ser subordinado a outro, como a arte de um seleiro à arte de um cavaleiro. Se então for Admitindo-se que o Governo Civil seja ordenado como um meio de nos conduzir à felicidade espiritual, não se segue que, se um Rei detém o Poder Civil e o Papa o Poder Espiritual, o Rei esteja obrigado a obedecer ao Papa, assim como todo seleiro não está obrigado a obedecer a todo cavaleiro. Portanto, assim como da subordinação de uma arte não se pode inferir a submissão do professor, da subordinação de um governo não se pode inferir a submissão do governador. Quando ele afirma que o Poder Civil está sujeito ao Espiritual, seu significado é que o Soberano Civil está sujeito ao Soberano Espiritual. E o argumento se apresenta da seguinte forma: “O Soberano Civil está sujeito ao Espiritual; portanto, o Príncipe Espiritual pode comandar Príncipes Temporais”. A conclusão é a mesma que a que ele deveria ter provado. Mas, para prová-la, ele alega primeiro esta razão: “Reis e Papas, Clero e Leigos formam uma só comunidade; Ou seja, apenas uma Igreja: E em todos os Corpos, os Membros dependem uns dos outros: Mas as coisas Espirituais não dependem das coisas Temporais: Portanto, o Temporal depende do Espiritual. E, portanto, estão sujeitos a ele.” Nesta argumentação há dois erros grosseiros: um é que todos os Reis Cristãos, Papas, Clero e todos os outros homens cristãos formam apenas uma Comunidade: Pois é evidente que a França é uma Comunidade, a Espanha outra, Veneza uma terceira, etc. E estas são compostas de cristãos; e, portanto, também são vários Corpos de cristãos; isto é, várias Igrejas: E seus diversos Soberanos as representam, por meio dos quais são capazes de comandar e obedecer, de agir e sofrer, como um homem natural; o que nenhuma Igreja Geral ou Universal é.até que tenha um Representante; o que não tem na Terra: pois se tivesse, não há dúvida de que toda a Cristandade seria uma só Comunidade, cujo Soberano seria esse Representante, tanto em assuntos Espirituais quanto Temporais. E o Papa, para se tornar esse Representante, carece de três coisas que nosso Salvador não lhe deu: Ordenar, Julgar e Punir, a não ser (por meio da Excomunhão) fugir daqueles que não querem aprender com Ele. Pois, embora o Papa fosse o único Vigário de Cristo, ele não pode exercer seu governo até a segunda vinda de nosso Salvador. E então também não será o Papa, mas o próprio São Pedro, com os outros Apóstolos, que serão os Juízes do mundo.

O outro erro em seu primeiro argumento é que ele afirma que os membros de toda comunidade, como de um corpo natural, dependem uns dos outros: é verdade que eles coabitam; mas dependem unicamente do Soberano, que é a alma da comunidade; e, na falta desta, a comunidade se dissolve em uma guerra civil, sem que um homem coabite com o outro, por falta de uma dependência comum de um Soberano conhecido; assim como os membros do corpo natural se dissolvem na Terra, por falta de uma alma que os mantenha unidos. Portanto, não há nada nessa analogia que permita inferir uma dependência dos leigos em relação ao clero, ou dos oficiais temporais em relação aos espirituais; mas sim que ambos dependem do Soberano Civil; que, de fato, deveria direcionar seus comandos civis para a salvação das almas; mas, por isso, não está sujeito a ninguém além do próprio Deus. Assim, percebe-se a falácia elaborada do primeiro argumento, que visa enganar aqueles que não distinguem entre a subordinação das ações no caminho para o fim e a sujeição das pessoas umas às outras na administração dos meios. Pois, para cada fim, os meios são determinados pela natureza ou pelo próprio Deus, sobrenaturalmente; mas o poder de fazer com que os homens usem os meios é, em cada nação, delegado (pela lei da natureza, que proíbe os homens de violarem a fé que lhes foi dada) ao soberano civil.

Seu segundo argumento é este: “Toda comunidade (porque se supõe ser perfeita e autossuficiente) pode ordenar a qualquer outra comunidade que não lhe seja subordinada e obrigá-la a mudar a administração do governo, podendo até mesmo depor o príncipe e instituir outro em seu lugar, caso não consiga se defender dos danos que ele pretende causar; muito mais uma comunidade espiritual pode ordenar a uma comunidade temporal que mude a administração de seu governo, e pode depor príncipes e instituir outros, quando não puderem defender o bem espiritual.”

Que uma comunidade, para se defender de injúrias, possa legitimamente fazer tudo o que foi aqui dito, é bem verdade; e já foi suficientemente demonstrado no que foi dito anteriormente. E se também fosse verdade que existe neste mundo uma comunidade espiritual, distinta de uma comunidade civil, então o príncipe desta poderia, ao sofrer uma injúria, ou por falta de cautela para que não lhe fosse sofrida no futuro, reparar-se e proteger-se pela guerra; que consiste, em suma, em depor, matar, subjugar ou praticar qualquer ato de hostilidade. Mas, pela mesma razão, não seria menos lícito para um soberano civil, diante de injúrias semelhantes, ou temidas por elas, guerrear contra o soberano espiritual; o que creio ser mais do que o Cardeal Belarmino teria inferido de sua própria proposição.

Mas não há comunhão espiritual neste mundo, pois o mesmo se aplica ao Reino de Cristo, que, como ele mesmo diz, não é deste mundo, mas existirá no mundo vindouro, na Ressurreição, quando aqueles que viveram com justiça e creram que ele era o Cristo (embora tenham morrido em corpos naturais) ressuscitarão em corpos espirituais. Então, nosso Salvador julgará o mundo, vencerá seus adversários e estabelecerá uma comunhão espiritual. Enquanto isso, como não há homens na Terra cujos corpos sejam espirituais, não pode haver comunhão espiritual entre os homens que ainda estão na carne, a menos que chamemos de comunhão os pregadores que têm a missão de ensinar e preparar os homens para sua entrada no Reino de Cristo na Ressurreição; o que, como provei, não existe.

O terceiro argumento é este: “Não é lícito aos cristãos tolerar um infiel, ou rei herege, caso ele tente arrastá-los para a sua heresia, ou infidelidade. Mas julgar se um rei arrasta seus súditos para a heresia, ou não, pertence ao Papa. Portanto, tem o direito ao Papa de determinar se o príncipe deve ou não ser deposto.”

A isso respondo que ambas as afirmações são falsas. Pois os cristãos (ou homens de qualquer religião), se não toleram seu rei, qualquer lei que ele promulgue, mesmo que seja relativa à religião, viola sua fé, contrariando a Lei Divina, tanto Natural quanto Positiva. E não há juiz de heresia entre os súditos, senão seu próprio soberano civil; pois "heresia nada mais é do que uma opinião privada, obstinadamente mantida, contrária à opinião que o Povo Público (isto é, o Representante da Comunidade) ordenou que fosse ensinada". Com isso, fica evidente que uma opinião publicamente designada para ser ensinada não pode ser heresia; nem os príncipes soberanos que a autorizam, hereges. Pois hereges nada mais são do que homens privados que defendem obstinadamente alguma doutrina proibida por seus soberanos legítimos.

Mas, para provar que os cristãos não devem tolerar reis infiéis ou hereicos, ele cita um trecho em Deuteronômio 17, onde Deus proíbe os judeus de escolherem um rei estrangeiro quando o escolherem; e daí infere que é ilícito para um cristão escolher um rei que não seja cristão. E é verdade que aquele que é cristão, isto é, aquele que já se comprometeu a receber nosso Salvador quando Ele vier como seu Rei, estará tentando a Deus demais ao escolher para Rei neste mundo alguém que ele sabe que se esforçará, tanto pelo terror quanto pela persuasão, para fazê-lo violar sua fé. Mas, diz ele, o perigo é o mesmo em escolher alguém que não seja cristão para Rei e não depô-lo quando escolhido. A isso eu digo que a questão não é o perigo de não depô-lo, mas a justiça de depô-lo. Escolher alguém pode, em alguns casos, ser injusto; mas depô-lo, quando escolhido, jamais será justo. Pois é sempre uma violação da fé e, consequentemente, contrária à Lei da Natureza, que é a eterna Lei de Deus. Tampouco encontramos indícios de que tal doutrina fosse considerada cristã na época dos Apóstolos, nem na época dos Imperadores Romanos, até que os Papas detivessem a soberania civil de Roma. Mas a isso ele respondeu que os cristãos da antiguidade não depuseram Nero, nem Diocleciano, nem Juliano, nem Valente e Arriano, unicamente porque lhes faltavam forças temporais. Talvez. Mas será que nosso Salvador, que, por sua vez, poderia ter tido doze legiões de anjos imortais e invulneráveis ​​para auxiliá-lo, não tinha forças para depor César, ou ao menos Pilatos, que injustamente, sem encontrar nele culpa, o entregou aos judeus para ser crucificado? Ou, se os Apóstolos desejavam que as forças temporais depusessem Nero, seria necessário, então, que em suas epístolas aos novos cristãos, ensinassem-lhes (como fizeram) a obedecer aos poderes constituídos sobre eles (dos quais Nero era um, naquela época), e que deveriam obedecê-los não por medo de sua ira, mas por consciência? Diremos que não apenas obedeceram, mas também ensinaram o que não queriam dizer, por falta de força? Não é, portanto, por falta de força, mas por consciência, que os cristãos devem tolerar seus príncipes pagãos, ou príncipes (pois não posso chamar de heerético alguém cuja doutrina é a Doutrina Pública) que autorizam o ensino de um erro. E quanto ao poder temporal do Papa, ele alega ainda que São Paulo (1 Coríntios 6) nomeou juízes sob os príncipes pagãos daquela época, que não foram ordenados por esses príncipes; isso não é verdade. Pois São Paulo apenas os aconselha a escolher alguns de seus irmãos como árbitros para agravar suas diferenças.em vez de recorrerem uns contra os outros perante os juízes pagãos; o que é um preceito salutar e cheio de caridade, adequado para ser praticado também nas melhores comunidades cristãs. E quanto ao perigo que pode surgir para a religião, pela tolerância dos súditos a um pagão ou a um príncipe errante, é uma questão da qual um súdito não é juiz competente; ou, se o for, os súditos temporais do Papa também podem julgar a doutrina papal. Pois todo príncipe cristão, como já provei anteriormente, não é menos pastor supremo de seus próprios súditos do que o Papa dos seus.

O quarto argumento é extraído do Batismo dos Reis, no qual, para se tornarem cristãos, submetem seus cetros a Cristo e prometem guardar e defender a fé cristã. Isso é verdade, pois os reis cristãos não são mais do que súditos de Cristo; contudo, podem ser companheiros do Papa, pois este é o supremo pastor de seus súditos; e o Papa não é mais do que rei e pastor, mesmo em Roma.

O quinto argumento é extraído das palavras proferidas por nosso Salvador: "Apascenta as minhas ovelhas", pelas quais foi dado todo o poder necessário a um pastor; como o poder de afugentar lobos, como os heeréticos; o poder de calar carneiros, se estiverem descontrolados, ou de empurrar outras ovelhas com seus chifres, como os reis maus (embora cristãos); e o poder de dar ao rebanho alimento adequado. Daí ele infere que São Pedro recebeu esses três poderes de Cristo. Ao que respondo que o último desses poderes nada mais é do que o poder, ou melhor, a ordem de ensinar. Quanto ao primeiro, que é afugentar lobos, isto é, os heeréticos, a passagem que ele cita é Mateus 7:15: "Cuidado com os falsos profetas, que vêm a vocês disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos devoradores". Mas os Heeréticos não são falsos profetas, nem profetas de todo; nem (admitindo-se que os Heeréticos se refiram aos lobos ali mencionados) foi ordenado aos Apóstolos que os matassem, ou, se fossem reis, que os depusessem; mas sim que se acautelassem deles, fugissem deles e os evitassem; e não foi a São Pedro, nem a nenhum dos Apóstolos, mas à multidão de judeus que o seguiu até o monte, homens em sua maioria ainda não convertidos, que ele deu este conselho: acautelar-se dos falsos profetas; portanto, se conferia o poder de afugentar reis, foi dado não apenas a homens comuns, mas a homens que não eram cristãos. E quanto ao poder de separar e silenciar os furiosos Rammes (com o qual ele se refere aos reis cristãos que se recusam a submeter-se ao Pastor Romano), nosso Salvador recusou-se a assumir esse poder neste mundo, mas aconselhou a deixar o trigo e o joio crescerem juntos até o dia do Juízo Final: muito menos o concedeu a São Pedro, ou pode São Pedro concedê-lo aos Papas. São Pedro, e todos os outros Pastores, são instruídos a considerar aqueles cristãos que desobedecem à Igreja, isto é, (que desobedecem ao Soberano Cristão), como pagãos e publicanos. Visto que os homens não desafiam a autoridade do Papa sobre príncipes pagãos, não deveriam desafiá-la sobre aqueles que devem ser considerados pagãos.

Mas, a partir do poder de ensinar, ele infere também um poder coercitivo do Papa sobre os reis. O pastor (diz ele) deve dar alimento adequado ao seu rebanho: portanto, o Papa pode e deve compelir os reis a cumprirem seu dever. Disso se segue que o Papa, como pastor dos cristãos, é rei dos reis: o que todos os reis cristãos deveriam, de fato, ou confessar, ou então assumir a suprema responsabilidade pastoral, cada um em seu próprio domínio.

Seu sexto e último argumento se baseia em exemplos. Aos quais respondo, em primeiro lugar, que exemplos não provam nada; em segundo lugar, que os exemplos que ele alega não representam sequer uma probabilidade de acerto. O fato de Joaida ter matado Atalia (2 Reis 11) ocorreu ou sob a autoridade do Rei Joás, ou foi um crime hediondo cometido pelo Sumo Sacerdote, que (mesmo após a eleição do Rei Saul) era um mero súdito. O fato de Santo Ambrósio ter excomungado Teodósio, o Imperador (se de fato o fez), foi um crime capital. E quanto aos Papas Gregório I, Gregório II, Zacarias e Leão III, seus julgamentos são nulos, conforme proferidos em sua própria causa; e os atos por eles praticados em conformidade com essa doutrina são os maiores crimes (especialmente o de Zacarias) inerentes à natureza humana. E assim se demonstra muito do poder eclesiástico. onde fui mais breve, abstendo-me de examinar esses argumentos de Belarmino, se de fato o fossem, como um homem comum, e não como o defensor do papado, contra todos os outros príncipes e estados cristãos.

CAPÍTULO XLIII.
DO QUE É NECESSÁRIO PARA A RECEPÇÃO DE UM HOMEM NO REINO DOS CÉUS

A dificuldade de obedecer a Deus e aos homens simultaneamente.

O pretexto mais frequente de sedição e guerra civil nas comunidades cristãs há muito tempo procede de uma dificuldade, ainda não suficientemente resolvida, de obedecer simultaneamente a Deus e aos homens quando seus mandamentos são contrários um ao outro. É bastante evidente que, quando um homem recebe dois mandamentos contrários e sabe que um deles vem de Deus, ele deve obedecer a esse e não ao outro, mesmo que seja o mandamento de seu soberano legítimo (seja um monarca ou uma assembleia soberana) ou o mandamento de seu Pai. A dificuldade, portanto, consiste no fato de que os homens, quando recebem ordens em nome de Deus, não sabem, em diversos casos, se a ordem vem de Deus ou se aquele que ordena está apenas abusando do nome de Deus para algum fim particular. Pois, assim como havia na Igreja dos Judeus muitos falsos profetas que buscavam reputação entre o povo por meio de sonhos e visões fingidos; Assim, em todos os tempos, sempre houve na Igreja de Cristo falsos mestres que buscam reputação junto ao povo por meio de doutrinas fantasiosas e falsas; e por meio dessa reputação (como é da natureza da ambição), governam-nos para seu benefício pessoal.

Para aqueles que fazem distinção entre o que é e o que não é necessário para a salvação, nada disso importa.

Mas essa dificuldade de obedecer tanto a Deus quanto ao Soberano Civil na Terra, para aqueles que conseguem discernir entre o que é necessário e o que não é para sua entrada no Reino de Deus, não tem importância. Pois se o mandamento do Soberano Civil for tal que possa ser obedecido sem a perda da vida eterna, desobedecê-lo é injusto; e o preceito do Apóstolo se aplica: “Servos, obedeçam a seus senhores em tudo”; e “Filhos, obedeçam a seus pais em tudo”; e o preceito de nosso Salvador: “Os escribas e fariseus se assentam na cadeira de Moisés. Portanto, todos eles dirão, observarão e farão”. Mas se o mandamento for tal que não possa ser obedecido sem condenação à morte eterna, então seria loucura obedecê-lo, e o conselho de nosso Salvador se aplica (Mateus 10:28): “Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. Portanto, todos os homens que desejam evitar tanto os castigos que serão infligidos neste mundo pela desobediência ao seu soberano terreno, quanto aqueles que serão infligidos no mundo vindouro pela desobediência a Deus, precisam ser ensinados a discernir bem entre o que é e o que não é necessário para a salvação eterna.

Tudo o que é necessário para a salvação está contido na fé e na obediência.

Tudo o que é NECESSÁRIO para a Salvação está contido em duas virtudes: a fé em Cristo e a obediência às leis. Esta última, se fosse perfeita, nos bastaria. Mas, como todos somos culpados de desobediência à Lei de Deus, não apenas originalmente em Adão, mas também por nossas próprias transgressões, exige-se de nós agora não apenas obediência pelo resto de nossa vida, mas também a remissão dos pecados passados; remissão essa que é a recompensa de nossa fé em Cristo. Que nada mais é necessário para a Salvação fica evidente pelo fato de que o Reino dos Céus não está fechado a ninguém, exceto aos pecadores; isto é, aos desobedientes ou transgressores da lei; e nem a estes, caso se arrependam e creiam em todos os artigos da fé cristã necessários à salvação.

Que obediência é necessária;

A obediência que Deus nos exige, que aceita em todas as nossas ações a Vontade por trás da ação, é um esforço sério para obedecê-Lo; e é chamada também por todos os nomes que significam esse esforço. Portanto, a obediência é às vezes chamada de caridade e amor, porque implicam uma vontade de obedecer; e o próprio Salvador faz do nosso amor a Deus e uns aos outros o cumprimento de toda a Lei; e às vezes de justiça, pois justiça nada mais é do que a vontade de dar a cada um o que lhe é próprio, isto é, a vontade de obedecer às leis; e às vezes de arrependimento, porque arrepender-se implica afastar-se do pecado, o que é o mesmo que retornar a vontade à obediência. Portanto, todo aquele que sinceramente deseja cumprir os mandamentos de Deus, ou se arrepende sinceramente de suas transgressões, ou ama a Deus de todo o coração e ao seu próximo como a si mesmo, possui toda a obediência necessária para ser recebido no Reino de Deus; pois se Deus exigisse inocência perfeita, nenhuma carne poderia ser salva.

E a que leis?

Mas quais são os mandamentos que Deus nos deu? Todas as leis dadas aos judeus por Moisés são mandamentos de Deus? Se forem, por que os cristãos não são ensinados a obedecê-las? Se não forem, quais outros o seriam, além das leis da natureza? Pois nosso Salvador Cristo não nos deu novas leis, mas nos aconselhou a observar aquelas às quais já estávamos sujeitos; isto é, as leis da natureza e as leis de nossos respectivos soberanos. Ele também não criou nenhuma nova lei para os judeus em seu Sermão da Montanha, mas apenas expôs as leis de Moisés, às quais eles já estavam sujeitos. As leis de Deus, portanto, não são senão as leis da natureza, cujo princípio principal é que não violemos nossa fé, ou seja, o mandamento de obedecer aos nossos soberanos civis, que constituímos sobre nós por pacto mútuo. E esta Lei de Deus, que ordena a Obediência à Lei Civil, ordena por consequência a Obediência a todos os Preceitos da Bíblia, que (como provei no capítulo anterior) é Lei apenas onde o Soberano Civil assim o estabeleceu; e em outros lugares apenas Conselho; ao qual o homem, por sua própria conta e risco, pode recusar-se injustamente.

Na fé cristã, quem é a pessoa em quem se acredita?

Sabendo agora qual é a Obediência Necessária para a Salvação e a quem ela se aplica, devemos considerar a seguir a respeito da Fé, em quem e por que cremos; e quais são os Artigos ou Pontos que necessariamente devem ser cridos por aqueles que serão salvos. E, em primeiro lugar, quanto à Pessoa em quem cremos, pois é impossível crer em qualquer Pessoa antes de sabermos o que ela diz, é necessário que seja alguém que tenhamos ouvido falar. A Pessoa, portanto, em quem Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e os Profetas creram foi o próprio Deus, que lhes falou sobrenaturalmente. E a Pessoa em quem os Apóstolos e Discípulos que conversaram com Cristo creram foi o nosso próprio Salvador. Mas daqueles a quem nem Deus Pai, nem o nosso Salvador jamais falaram, não se pode dizer que a Pessoa em quem creram era Deus. Eles acreditavam nos Apóstolos e, depois deles, nos Pastores e Doutores da Igreja, que recomendaram à sua fé a História do Antigo e do Novo Testamento; de modo que a fé dos cristãos, desde os tempos do nosso Salvador, teve como fundamento, primeiro, a reputação dos seus Pastores e, depois, a autoridade daqueles que fizeram com que o Antigo e o Novo Testamento fossem recebidos como Regra de Fé; o que ninguém poderia fazer senão os Soberanos Cristãos; que são, portanto, os Pastores Supremos e as únicas Pessoas a quem os cristãos ouvem falar de Deus, exceto aqueles a quem Deus fala sobrenaturalmente nestes dias. Mas, como há muitos falsos profetas "saídos pelo mundo", outros homens devem examinar tais Espíritos (como São João nos aconselhou na 1ª Epístola, capítulo 4, versículo 1) "para ver se são de Deus ou não". E, portanto, visto que o exame das doutrinas pertence ao Pastor Supremo, a Pessoa em quem todos aqueles que não têm revelação especial devem crer é (em toda Comunidade) o Pastor Supremo, isto é, o Soberano Civil.

As Causas da Fé Cristã

As razões pelas quais os homens creem em qualquer doutrina cristã são diversas; pois a fé é um dom de Deus, e Ele a opera em cada um individualmente, da maneira que lhe parece melhor. A causa imediata mais comum de nossa crença em qualquer ponto da fé cristã é que cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus. Mas o motivo pelo qual cremos que a Bíblia é a Palavra de Deus é muito debatido, como acontece com todas as questões que não são bem formuladas. Pois eles não questionam "Por que cremos nisso?", mas "Como sabemos disso?", como se crer e saber fossem a mesma coisa. E assim, enquanto um lado fundamenta seu conhecimento na infalibilidade da Igreja e o outro no testemunho do espírito particular, nenhum dos lados chega à conclusão que pretende. Pois como alguém pode conhecer a infalibilidade da Igreja, senão conhecendo primeiro a infalibilidade das Escrituras? Ou como poderá um homem saber se seu próprio espírito particular é algo além de uma crença, fundamentada na autoridade e nos argumentos de seus mestres, ou na presunção de seus próprios dons? Além disso, não há nada nas Escrituras de onde se possa inferir a infalibilidade da Igreja, muito menos de qualquer Igreja em particular, e menos ainda a infalibilidade de qualquer homem em particular.

A fé vem pelo ouvir.

É evidente, portanto, que os cristãos não conhecem, mas apenas creem que as Escrituras são a Palavra de Deus; e que o meio que Deus lhes concede para crer é o que vem da natureza, ou seja, por meio de seus mestres. É a doutrina de São Paulo sobre a fé cristã em geral (Romanos 10:17): “A fé vem por ouvir”, isto é, por ouvir nossos legítimos pastores. Ele também diz (versículos 14 e 15 do mesmo capítulo): “Como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados?” Com isso, fica evidente que a causa comum de crer que as Escrituras são a Palavra de Deus é a mesma que a causa de crer em todos os outros artigos da nossa fé, a saber, ouvir aqueles que, pela lei, são autorizados e designados para nos ensinar, como nossos pais em suas casas e nossos pastores nas igrejas: o que também se torna mais evidente pela experiência. Pois que outra causa pode ser atribuída para que, nas comunidades cristãs, todos os homens creiam, ou pelo menos professem, que as Escrituras são a Palavra de Deus, enquanto em outras comunidades quase ninguém o faz? Mas que nas comunidades cristãs isso lhes é ensinado desde a infância, enquanto em outros lugares lhes é ensinado o contrário.

Mas se o Ensino é a causa da Fé, por que nem todos creem? É certo, portanto, que a Fé é um dom de Deus, e Ele a concede a quem Ele quer. Contudo, por causa daqueles a quem Ele a concede, Ele a concede por meio dos Mestres; a causa imediata da Fé é o Ouvir. Numa escola onde muitos são ensinados, e alguns aproveitam, outros não, a causa do aprendizado naqueles que aproveitam é o Mestre; contudo, não se pode inferir daí que o aprendizado não seja um dom de Deus. Todas as coisas boas procedem de Deus; contudo, nem todos os que as possuem podem dizer que são Inspiradas; pois isso implica um dom sobrenatural e a intervenção direta de Deus; e quem o alega, pretende ser um Profeta e está sujeito ao exame da Igreja.

Mas, quer os homens saibam, acreditem ou reconheçam que as Escrituras são a Palavra de Deus, se, a partir de trechos delas, que não deixam dúvidas, eu demonstrar quais artigos de fé são necessários, e somente necessários, para a salvação, esses homens necessariamente precisarão saber, acreditar ou reconhecer esses mesmos artigos.

O único artigo necessário da fé cristã, o único artigo de fé (Unum Necessarium) que as Escrituras simplesmente tornam necessário para a salvação, é este: que JESUS ​​É O CRISTO. Pelo nome de Cristo, entende-se o Rei que Deus havia prometido antes, por meio dos profetas do Antigo Testamento, enviar ao mundo para reinar (sobre os judeus e sobre aqueles de outras nações que cressem nele) sob o seu domínio eternamente; e para lhes dar a vida eterna, que foi perdida pelo pecado de Adão. Depois de provar isso com base nas Escrituras, mostrarei ainda quando e em que sentido outros artigos também podem ser chamados de necessários.

Comprovado pelo alcance dos evangelistas

Para provar que a crença deste artigo, "Jesus é o Cristo", é toda a fé necessária para a salvação, meu primeiro argumento será baseado no escopo dos Evangelistas, que, por meio da descrição da vida de nosso Salvador, estabeleceu este único artigo: "Jesus é o Cristo". O resumo do Evangelho de São Mateus é este: que Jesus era da linhagem de Davi; nascido de uma virgem, que são as marcas do verdadeiro Cristo; que os Magos vieram adorá-lo como Rei dos Judeus; que Herodes, pelo mesmo motivo, procurou matá-lo; que João Batista o proclamou; que ele pregou, por si mesmo e por seus apóstolos, que ele era esse Rei. Que ele ensinava a Lei, não como um escriba, mas como um homem de autoridade; que curava doenças somente com a sua palavra e realizava muitos outros milagres, que foram preditos que o Cristo faria; que foi saudado como rei ao entrar em Jerusalém; que os advertiu para que se acautelassem de todos os outros que fingissem ser o Cristo; que foi preso, acusado e morto por dizer que era rei; que a causa de sua condenação, escrita na cruz, foi JESUS ​​DE NAZARÉ, O REI DOS JUDEUS. Tudo isso não leva a outro fim senão este: que os homens creiam que Jesus é o Cristo. Tal era, portanto, o objetivo do Evangelho de São Mateus. Mas o objetivo de todos os evangelistas (como se pode ver pela leitura deles) era o mesmo. Portanto, o objetivo de todo o Evangelho era estabelecer esse único ponto. E São João expressamente conclui isso em João 20:31: "Estas coisas foram escritas para que vocês saibam que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo."

Dos Sermões dos Apóstolos:

Meu segundo argumento se baseia no tema dos sermões dos Apóstolos, tanto durante a vida de nosso Salvador na Terra quanto após a Sua Ascensão. Os Apóstolos, na época de nosso Salvador, foram enviados (Lucas 9:2) para pregar o Reino de Deus: pois nem ali, nem em Mateus 10:7, Ele lhes dá outra comissão além desta: “Indo, pregai, dizendo: O Reino dos Céus está próximo”; isto é, que Jesus é o Messias, o Cristo, o Rei que havia de vir. Que a pregação deles após a Sua ascensão também foi a mesma, fica evidente em Atos 17:6: “Arrastaram (diz São Lucas) Jasom e alguns irmãos aos governantes da cidade, clamando: Estes que têm perturbado o mundo chegaram também aqui, os quais Jasom acolheu. E todos estes fazem contrariamente aos decretos de César, dizendo que há outro Rei, que é Jesus.” E a partir do 2º e 3º versículos, a mensagem é que... versículos do mesmo capítulo, onde se diz que São Paulo, “como era seu costume, entrou na casa deles e, por três sábados, debateu com eles a partir das Escrituras, explicando e argumentando que era necessário que Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos, e que este Jesus (a quem ele pregava) era o Cristo”.

Da Facilidade da Doutrina:

O terceiro argumento se baseia nas passagens das Escrituras que declaram que toda a fé necessária para a salvação é fácil. Pois, se a aceitação interior de todas as doutrinas concernentes à fé cristã atualmente ensinadas (das quais a maior parte é contestada) fosse necessária para a salvação, não haveria nada no mundo tão difícil quanto ser cristão. O ladrão na cruz, embora arrependido, não poderia ter sido salvo por dizer: "Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu reino", com o que ele não testemunhou a crença em nenhum outro artigo, senão este: que Jesus era o Rei. Nem se poderia dizer (como está em Mateus 11:30) que "o jugo de Cristo é suave e o seu fardo é leve", nem que "as criancinhas creem nele", como está em Mateus 18:6. Nem mesmo São Paulo poderia ter dito (1 Coríntios 1:21): "Aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação". Nem mesmo o próprio São Paulo poderia ter sido salvo, muito menos ter se tornado um Doutor da Igreja tão grande tão repentinamente, sem talvez jamais ter pensado na Transubstanciação, no Purgatório ou em muitos outros artigos agora mencionados.

De textos formais e claros

O quarto argumento é extraído de passagens expressas e que não admitem controvérsia de interpretação, como, por exemplo, João 5:39: “Examinai as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que testificam a meu respeito”. Nosso Salvador aqui se refere apenas às Escrituras do Antigo Testamento, pois os judeus daquela época não podiam examinar as Escrituras do Novo Testamento, que ainda não haviam sido escritas. Mas o Antigo Testamento nada contém sobre Cristo, a não ser os sinais pelos quais os homens poderiam reconhecê-lo quando ele veio: que descenderia de Davi, nascera em Belém e de uma virgem, realizaria grandes milagres e coisas semelhantes. Portanto, crer que este Jesus era Ele era suficiente para a vida eterna; mas mais do que suficiente não é necessário; e, consequentemente, nenhum outro artigo é exigido. Novamente, João 11:26: “Todo aquele que vive e crê em mim não morrerá eternamente”. Portanto, crer em Cristo é fé suficiente para a vida eterna; e, consequentemente, nenhuma fé além dessa é necessária. Mas crer em Jesus e crer que Jesus é o Cristo é a mesma coisa, como se vê nos versículos seguintes. Pois quando nosso Salvador (versículo 26) disse a Marta: “Crestes nisto?”, ela respondeu (versículo 27): “Sim, Senhor, eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao mundo”. Portanto, somente este versículo é fé suficiente para a vida eterna; e mais do que suficiente não é necessário. Terceiro, João 20:31: “Estes fatos foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome”. Ali, crer que Jesus é o Cristo é fé suficiente para obter a vida; portanto, nenhum outro artigo é necessário. Em quarto lugar, 1 João 4:2: “Todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus”. E 1 João 5:1: “Todo aquele que crê que Jesus é o Cristo é nascido de Deus”. E o versículo 5: “Quem é que vence o mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?”. Em quinto lugar, Atos 8:36-37: “Eis aqui água; o que impede que eu seja batizado?”, disse o eunuco. “Se crês de todo o teu coração, podes.” E ele, respondendo, disse: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus”. Portanto, este artigo, que crê que Jesus é o Cristo, é suficiente para o Batismo, isto é, para a nossa recepção no Reino de Deus, e, por consequência, o único necessário. E, geralmente, em todos os lugares onde o nosso Salvador diz a alguém: "A tua fé te salvou", a razão pela qual ele diz isso é alguma Confissão que, direta ou indiretamente, implica a crença de que Jesus é o Cristo.

A partir disso, surge a base de todos os outros artigos.

O último argumento se baseia nos trechos onde este Artigo é estabelecido como o Fundamento da Fé: Pois aquele que se apega ao fundamento será salvo. O primeiro trecho é Mateus 24:23: “Se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ali! Não acrediteis, porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão grandes sinais e prodígios, etc.” Aqui vemos que este Artigo, “Jesus é o Cristo”, deve ser mantido, mesmo que aquele que ensinar o contrário realize grandes milagres. O segundo trecho é Gálatas 1:8: “Ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos anunciamos, seja anátema!” Mas o Evangelho que Paulo e os outros apóstolos pregaram era unicamente este Artigo, que Jesus é o Cristo; portanto, para crer neste Artigo, devemos rejeitar a autoridade de um anjo do céu, muito menos a de qualquer mortal, se ele ensinar o contrário. Este é, portanto, o Artigo Fundamental da Fé Cristã. Um terceiro lugar é 1 João 4:1: “Amados, não acreditem em todo espírito. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus”. Com isso, fica evidente que este Artigo é a medida e a regra pela qual se deve avaliar e examinar todos os outros Artigos; sendo, portanto, o único Fundamental. Um quarto lugar é Mateus 16:18, onde, depois de São Pedro ter professado este Artigo, dizendo ao nosso Salvador: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”, o nosso Salvador respondeu: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Daí infiro que este Artigo é aquele sobre o qual todas as outras doutrinas da Igreja são edificadas, como sobre o seu fundamento. Um quinto é (1 Coríntios 3, versículos 11, 12, etc.): “Ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto: Jesus é o Cristo. Ora, se alguém edificar sobre este fundamento com ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, a obra de cada um se tornará manifesta; pois o Dia a demonstrará, porque será revelada pelo fogo, e o fogo provará qual seja a obra de cada um. Se a obra que alguém edificou sobre o fundamento permanecer, esse receberá recompensa; se a obra de alguém se queimar, esse sofrerá prejuízo; contudo, ele mesmo será salvo, mas como que através do fogo.” Essas palavras, sendo em parte claras e fáceis de entender, e em parte alegóricas e difíceis, daquilo que é claro, pode-se inferir que os pastores que ensinam este fundamento, que Jesus é o Cristo, embora tirem dele falsas consequências (às quais todos os homens estão sujeitos às vezes), podem, no entanto, ser salvos. muito mais para que sejam salvos, os quais, não sendo pastores, mas ouvintes, creem naquilo que lhes foi ensinado por seus legítimos pastores.Portanto, a crença neste Artigo é suficiente; e, por consequência, não há nenhum outro Artigo de Fé Necessariamente Exigido para a Salvação.

Agora, quanto à parte alegórica, como "Que o fogo provará a obra de cada homem" e "Eles serão salvos, mas como que pelo fogo" ou "através do fogo" (pois o original é dia puros), isso não contradiz a conclusão que tirei das outras palavras, que são claras. Contudo, como neste trecho já se argumentou para provar o fogo do Purgatório, também lhes apresentarei aqui minha conjectura a respeito do significado desta provação das doutrinas e da salvação dos homens como que pelo fogo. O apóstolo parece aqui aludir às palavras do profeta Zacarias, capítulo 13, versículos 8 e 9, que, falando da restauração do Reino de Deus, diz o seguinte: "Duas partes serão cortadas e morrerão, mas a terceira permanecerá; e eu farei passar a terceira parte pelo fogo, e a refinarei como se refina a prata, e a provarei como se prova o ouro; invocarão o nome do Senhor, e eu a ouvirei." O Dia do Juízo Final é o dia da Restauração do Reino de Deus; e nesse dia, como nos diz São Pedro (2 Pedro 3:7, 10, 12), haverá a Conflagração do mundo, na qual os ímpios perecerão; mas o remanescente, que Deus salvará, passará por esse Fogo ileso e será nele (como a prata e o ouro são refinados pelo fogo, removendo suas impurezas) provado e purificado de sua idolatria, e será levado a invocar o nome do verdadeiro Deus. Aludindo a isso, São Paulo diz aqui que o Dia (isto é, o Dia do Juízo Final, o Grande Dia da vinda de nossos Salvadores para restaurar o Reino de Deus em Israel) provará a doutrina de cada homem, julgando o que é ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha; e então aqueles que construíram falsas consequências sobre o verdadeiro fundamento verão suas doutrinas condenadas. Contudo, eles próprios serão salvos e passarão ilesos por este Fogo universal, vivendo eternamente para invocar o nome do Deus verdadeiro e único. Nesse sentido, não há nada que não esteja de acordo com o restante das Sagradas Escrituras, nem qualquer vislumbre do fogo do Purgatório.

Em que sentido outros artigos podem ser considerados necessários?

Mas alguém pode perguntar aqui se não é tão necessário para a Salvação crer que Deus é Onipotente, Criador do mundo, que Jesus Cristo ressuscitou e que todos os outros homens ressuscitarão dos mortos no último dia, quanto crer que Jesus É o Cristo. Ao que respondo que sim, ambos são necessários; e o mesmo se aplica a muitos outros artigos, mas são aqueles contidos neste, e podem ser deduzidos dele com maior ou menor dificuldade. Pois quem não vê que aqueles que creem que Jesus é o Filho do Deus de Israel, e que os israelitas tinham por Deus o Criador Onipotente de todas as coisas, creem também que Deus é o Criador Onipotente de todas as coisas? Ou como pode alguém crer que Jesus é o Rei que reinará eternamente, a menos que também creia que Ele ressuscitou dos mortos? Pois um morto não pode exercer o ofício de rei. Em suma, aquele que se apega a este fundamento, Jesus é o Cristo, apega expressamente a tudo o que vê corretamente deduzido dele, e implicitamente a tudo o que daí decorre, mesmo que não tenha discernimento suficiente para compreender as consequências. Portanto, continua válido que a crença neste único artigo é fé suficiente para obter a remissão dos pecados ao penitente e, consequentemente, conduzi-lo ao Reino dos Céus.

Que a fé e a obediência são ambas necessárias para a salvação.

Agora que demonstrei que toda a obediência necessária para a salvação consiste na vontade de obedecer à Lei de Deus, ou seja, no arrependimento, e que toda a fé necessária para isso está compreendida na crença de que Jesus é o Cristo, apresentarei ainda passagens do Evangelho que comprovam que tudo o que é necessário para a salvação está contido na união de ambos. Os homens a quem São Pedro pregou no dia de Pentecostes, logo após a ascensão de nosso Salvador, perguntaram a ele e aos demais apóstolos (Atos 2:37): “Irmãos, que faremos?”. Ao que São Pedro respondeu (no versículo seguinte): “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado para o perdão dos seus pecados, e vocês receberão o dom do Espírito Santo”. Portanto, o arrependimento e o batismo, ou seja, crer que Jesus é o Cristo, é tudo o que é necessário para a salvação. Novamente, nosso Salvador, ao ser questionado por um certo governante (Lucas 18:18): “Que devo fazer para herdar a vida eterna?”, respondeu (versículo 20): “Tu sabes os mandamentos: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe”. Quando o governante disse que os havia observado, nosso Salvador acrescentou: “Vende tudo o que tens, dá aos pobres, e vem e segue-me”. Isso equivale a dizer: Confia em mim, que sou o Rei. Portanto, cumprir a Lei e crer que Jesus é o Rei é tudo o que é necessário para levar um homem à vida eterna. Em terceiro lugar, São Paulo diz (Romanos 1:17): “O justo viverá pela fé”; não todos, mas os justos; portanto, fé e justiça (isto é, a vontade de ser justo, ou arrependimento) são tudo o que é necessário para a vida eterna. E (Marcos 1:15) nosso Salvador pregou, dizendo: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam no Evangelho”, isto é, a Boa Nova de que o Cristo veio. Portanto, arrepender-se e crer que Jesus é o Cristo é tudo o que é necessário para a salvação.

O que cada um deles contribui para isso

Visto que é necessário que a fé e a obediência (implícita na palavra arrependimento) contribuam para a nossa salvação, a questão de por qual das duas somos justificados é impertinentemente debatida. Não obstante, não será impertinente manifestar de que maneira cada uma delas contribui para isso; e em que sentido se diz que somos justificados por uma e pela outra. E, em primeiro lugar, se por justiça entendermos a justiça das próprias obras, não há homem que possa ser salvo, pois não há ninguém que não tenha transgredido a lei de Deus. E, portanto, quando se diz que somos justificados pelas obras, deve-se entender a vontade que Deus sempre aceita pela própria obra, tanto nos homens bons como nos maus. E é somente nesse sentido que um homem é chamado justo ou injusto. E que a sua Justiça o Justifica, isto é, lhe confere o título, na acepção de Deus, de Justo; e o torna capaz de Viver Pela Sua Fé, o que antes não o era. De modo que a Justiça Justifica nesse sentido, em que Justificar é o mesmo que Denominar um Homem Justo; e não no sentido de cumprir a Lei, pelo qual a punição pelos seus pecados seria injusta.

Mas diz-se também que um homem é justificado quando sua alegação, embora em si mesma insuficiente, é aceita; como quando alegamos nossa vontade, nosso esforço para cumprir a lei e nos arrependemos de nossas falhas, e Deus a aceita como o próprio cumprimento da lei. E porque Deus não aceita a vontade como o ato, mas somente nos fiéis, é a fé que torna válida nossa alegação; e é nesse sentido que somente a fé justifica. Assim, tanto a fé quanto a obediência são necessárias para a salvação; contudo, em diferentes sentidos, cada uma delas justifica.

Obediência a Deus e ao Soberano Civil não são inconsistentes.

Seja cristão ou não, tendo assim demonstrado o que é necessário para a salvação, não é difícil conciliar nossa obediência ao soberano civil, seja ele cristão ou infiel. Se for cristão, ele admite a crença neste artigo, de que Jesus é o Cristo, e em todos os artigos que nele estão contidos ou que dele decorrem como consequência evidente: o que constitui toda a fé necessária para a salvação. E, por ser soberano, exige obediência a todas as suas próprias leis, isto é, a todas as leis civis; nas quais também estão contidas todas as leis da natureza, ou seja, todas as leis de Deus: pois, além das leis da natureza e das leis da Igreja, que fazem parte da lei civil (pois a Igreja, que pode legislar, é a comunidade), não há outras leis divinas. Portanto, quem obedece ao seu soberano cristão não é impedido por isso de crer nem de obedecer a Deus. Mas suponhamos que um rei cristão, partindo deste fundamento, Jesus é o Cristo, extraia algumas consequências falsas, isto é, faça algumas interpretações equivocadas e ordene o ensino das mesmas; contudo, visto que São Paulo diz: "Aquele que ensina segundo o seu mandamento será salvo, muito mais será salvo aquele que o ensina, e muito mais aquele que não ensina, mas crê apenas no seu legítimo Mestre". E, caso um súdito seja proibido pelo soberano civil de professar algumas dessas opiniões, com que fundamento poderá desobedecer? Os reis cristãos podem errar ao deduzir uma consequência, mas quem deve julgar? Pode um indivíduo comum julgar, quando a questão é a sua própria obediência? Ou pode alguém julgar, senão aquele que é designado para tal pela Igreja, isto é, pelo soberano civil que a representa? Ou, se o Papa ou um apóstolo julgar, não poderá ele errar ao deduzir uma consequência? Porventura um dos dois, São Pedro ou São Paulo, não errou num ponto crucial quando São Paulo confrontou São Pedro pessoalmente? Portanto, não pode haver contradição entre as Leis de Deus e as Leis de uma comunidade cristã.

Ou Infiel

E quando o Soberano Civil é um Infiel, cada um de seus súditos que lhe resiste peca contra as Leis de Deus (pois são as Leis da Natureza) e rejeita o conselho dos Apóstolos, que admoesta todos os cristãos a obedecerem a seus Príncipes, e todos os filhos e servos a obedecerem a seus Pais e Mestres, em todas as coisas. E quanto à sua Fé, ela é interna e invisível; eles têm a licença que Naamã tinha e não precisam se colocar em perigo por ela. Mas se o fizerem, devem esperar sua recompensa no Céu e não se queixar de seu Soberano Legítimo; muito menos guerrear contra ele. Pois aquele que não se alegra com qualquer justa ocasião de Martírio, não possui a fé que professa, mas apenas a finge, para dar alguma aparência à sua própria contumácia. Mas que rei infiel é tão irracional a ponto de, sabendo que tem um súdito que aguarda a segunda vinda de Cristo, após a destruição do mundo presente, e que pretende obedecê-lo (que é a intenção de crer que Jesus é o Cristo), enquanto, nesse ínterim, se considera obrigado a obedecer às leis desse rei infiel (o que todos os cristãos são obrigados em consciência a fazer), matar ou perseguir tal súdito?

E isto bastará no que concerne ao Reino de Deus e à Política Eclesiástica. Nele, não pretendo defender nenhuma posição própria, mas apenas mostrar as consequências que me parecem deduzíveis dos princípios da política cristã (que são as Sagradas Escrituras), em confirmação do poder dos soberanos civis e do dever de seus súditos. E na alegação das Escrituras, procurei evitar textos de interpretação obscura ou controversa, e não alegar nenhum que não seja de sentido claro e condizente com a harmonia e o escopo de toda a Bíblia, que foi escrita para o restabelecimento do Reino de Deus em Cristo. Pois não são as palavras isoladas, mas o propósito do autor que lança a verdadeira luz pela qual qualquer escrito deve ser interpretado; e aqueles que insistem em textos isolados, sem considerar o desígnio principal, nada podem extrair deles de forma clara. mas, ao contrário, lançando átomos das Escrituras como pó diante dos olhos dos homens, tornam tudo mais obscuro do que é; um artifício comum daqueles que não buscam a verdade, mas sua própria vantagem.

PARTE IV.
DO REINO DAS TREVAS

CAPÍTULO XLIV.
DA ESCURIDÃO ESPIRITUAL DECORRENTE DA INTERPRETAÇÃO ERRADA DAS ESCRITURAS

O Reino das Trevas

Além desses Poderes Soberanos, Divinos e Humanos, dos quais já falei, há menção nas Escrituras de outro Poder, a saber, (Efésios 6:12) o dos “Dominadores das Trevas deste mundo” (Mateus 12:26), “o Reino de Satanás” e (Mateus 9:34) “o Principado de Belzebu sobre os Demônios”, isto é, sobre as criaturas fantasmagóricas que aparecem no ar. Por essa razão, Satanás também é chamado (Efésios 2:2) de “Príncipe da Potestade do Ar” e (porque reina nas trevas deste mundo) (João 16:11) de “Príncipe deste mundo”. E, em consequência disso, aqueles que estão sob seu domínio, em oposição aos fiéis (que são os Filhos da Luz), são chamados de Filhos das Trevas. Pois, ao ver Belzebu como Príncipe dos Fantasmas, Habitantes de seu Domínio do Ar e das Trevas, os Filhos das Trevas, e esses Demônios, Fantasmas ou Espíritos da Ilusão, significam alegoricamente a mesma coisa, o Reino das Trevas, como descrito nestas e em outras passagens das Escrituras, nada mais é do que uma “Confederação de Enganadores que, para obter domínio sobre os homens neste mundo presente, se esforçam, por meio de doutrinas obscuras e errôneas, para extinguir neles a Luz, tanto da Natureza quanto do Evangelho, e assim desprepará-los para o Reino de Deus vindouro”.

A Igreja ainda não está totalmente livre das trevas.

Assim como os homens que são completamente privados, desde o seu nascimento, da luz dos olhos corporais, não têm ideia alguma de tal luz; e nenhum homem concebe em sua imaginação uma luz maior do que aquela que em algum momento percebeu por seus sentidos externos, o mesmo ocorre com a luz do Evangelho e com a luz do Entendimento: nenhum homem pode conceber que exista um grau maior do que aquele que já alcançou. E daí resulta que os homens não têm outro meio de reconhecer suas próprias trevas senão raciocinando a partir dos infortúnios imprevistos que lhes sobrevêm em seus caminhos. A parte mais escura do reino de Satanás é aquela que está fora da Igreja de Deus; isto é, entre aqueles que não creem em Jesus Cristo. Mas não podemos dizer que, por isso, a Igreja desfruta (como a terra de Gósen) de toda a luz necessária para a realização da obra que Deus nos confiou. De onde vem o fato de que na cristandade, quase desde a época dos Apóstolos, tem havido tanta injustiça entre as pessoas, tanto por guerras estrangeiras quanto por guerras civis? De que vem tanto tropeçar em cada pequena aspereza da própria sorte e em cada pequena proeminência da sorte alheia? E de que há tanta diversidade de caminhos para alcançar o mesmo objetivo, a Felicidade, se não é a Noite entre nós, ou ao menos uma Névoa? Portanto, ainda estamos nas Trevas.

Quatro Causas da Escuridão Espiritual

O Inimigo esteve aqui na noite da nossa ignorância natural e semeou o joio dos erros espirituais; e isso, em primeiro lugar, abusando e extinguindo a luz das Escrituras: pois erramos por não as conhecermos. Em segundo lugar, introduzindo a demonologia dos poetas pagãos, isto é, a sua doutrina fabulosa concernente aos demônios, que não passam de ídolos ou fantasmas da mente, sem qualquer natureza real própria, distintos da fantasia humana; como os fantasmas dos mortos, as fadas e outras coisas do folclore popular. Em terceiro lugar, misturando com as Escrituras diversas relíquias da religião e grande parte da vã e errônea filosofia dos gregos, especialmente de Aristóteles. Em quarto lugar, misturando com ambas, tradições falsas ou incertas e história inventada ou incerta. E assim erramos, “dando ouvidos a espíritos enganadores” e à demonologia daqueles “que falam mentiras em hipocrisia” (ou, como está no original, 1 Timóteo 4:1,2, “daqueles que representam o papel de mentirosos”), “com a consciência cauterizada”, isto é, contrariamente ao seu próprio conhecimento. A respeito do primeiro desses erros, que é a sedução dos homens pelo abuso das Escrituras, pretendo falar brevemente neste capítulo.

Erros decorrentes da má interpretação das Escrituras, concernentes ao Reino de Deus.

O maior e principal abuso das Escrituras, do qual quase todos os outros são consequência ou subordinados, é a sua deturpação para provar que o Reino de Deus, tão frequentemente mencionado nas Escrituras, é a Igreja atual, ou a multidão de cristãos que vivem hoje, ou que, estando mortos, ressuscitarão no último dia. O Reino de Deus foi instituído primeiramente pelo ministério de Moisés, exclusivamente sobre os judeus, que por isso eram chamados de seu povo peculiar, e cessou posteriormente com a eleição de Saul, quando estes se recusaram a ser governados por Deus e exigiram um rei à semelhança das nações, ao qual o próprio Deus consentiu, como já demonstrei mais detalhadamente no capítulo 35. Depois disso, não houve outro Reino de Deus no mundo, por qualquer pacto ou de qualquer outra forma, além daquele que Ele sempre foi, é e será Rei de todos os homens e de todas as criaturas, governando segundo a sua vontade, pelo seu poder infinito. Contudo, Ele prometeu por meio de Seus Profetas restaurar-lhes o Seu Governo quando o tempo que Ele designou em Seu conselho secreto para tal chegasse plenamente, e quando eles se convertessem a Ele por meio do arrependimento e da mudança de vida; e não apenas isso, mas Ele também convidou os gentios a virem e desfrutarem da felicidade do Seu Reino, sob as mesmas condições de conversão e arrependimento; e Ele prometeu também enviar Seu Filho ao mundo para expiar os pecados de todos por Sua morte e prepará-los, por meio de Sua Doutrina, para recebê-Lo em Sua segunda vinda: Como essa segunda vinda ainda não ocorreu, o Reino de Deus ainda não chegou, e não estamos agora sob nenhum outro Rei por Pacto, mas sim sob nossos Soberanos Civis; salvo que os cristãos já estão no Reino da Graça, na medida em que já têm a Promessa de serem recebidos em Sua segunda vinda.

Assim como o Reino de Deus é a Igreja presente

Em consequência desse erro, de que a Igreja atual é o Reino de Cristo, deveria haver um único Homem, ou Assembleia, por cuja boca nosso Salvador (agora no céu) falasse, desse a lei e que representasse sua pessoa a todos os cristãos, ou diversos Homens, ou diversas Assembleias que fizessem o mesmo em diversas partes da Cristandade. Esse poder Real sob Cristo, sendo desafiado universalmente por esse Papa, e em particular pelas Assembleias dos Pastores locais (quando as Escrituras o conferem somente aos Soberanos Civis), torna-se tão apaixonadamente disputado que ofusca a Luz da Natureza e causa tamanha escuridão no entendimento dos homens, que eles não enxergam a quem devem obediência.

E que o Papa é seu Vigário Geral.

Em consequência dessa reivindicação do Papa de ser Vigário Geral de Cristo na Igreja atual (supostamente aquele Reino ao qual somos dirigidos no Evangelho), surge a doutrina de que é necessário que um rei cristão receba sua coroa de um bispo; como se fosse dessa cerimônia que ele derivasse a cláusula da Graça Divina em seu título; e que somente então ele se torna rei pela graça de Deus, quando é coroado pela autoridade do Vice-regente universal de Deus na Terra; E que todo Bispo, seja quem for seu Soberano, preste, em sua Consagração, um juramento de obediência absoluta ao Papa. Consequentemente, a doutrina do Quarto Concílio de Latrão, realizado sob o Papa Inocêncio III (Cap. 3, De Haereticis), afirma: “Que se um Rei, sob a admoestação do Papa, não expurgar seu Reino das heresias e, sendo excomungado por isso, não der satisfação dentro de um ano, seus súditos serão absolvidos do vínculo de sua obediência”. Onde, por heresias, entendem-se todas as opiniões que a Igreja de Roma proibiu de serem mantidas. E por esse meio, sempre que houver alguma repugnância entre os desígnios políticos do Papa e de outros Príncipes cristãos, como acontece com muita frequência, surge uma névoa tão grande entre seus súditos que eles não reconhecem um estrangeiro que se impõe no trono de seu legítimo Príncipe, daquele que eles mesmos haviam colocado lá. E nessa escuridão da mente, são levados a lutar uns contra os outros, sem discernir seus inimigos de seus amigos, sob a influência da ambição alheia.

E que os pastores são o clero.

Partindo da mesma opinião, de que a Igreja atual é o Reino de Deus, conclui-se que pastores, diáconos e todos os demais ministros da Igreja se denominam Clero, atribuindo aos demais cristãos o nome de Leigos, ou seja, simplesmente Povo. Pois Clero significa aqueles cuja subsistência é a renda que Deus, tendo reservado para si durante o Seu reinado sobre os israelitas, destinou à tribo de Levi (que seriam Seus ministros públicos e não receberam porção de terra para viver, como seus irmãos) como herança. O Papa, portanto, (pretendendo que a Igreja atual fosse, como o Reino de Israel, o Reino de Deus), reivindicando para si e para seus ministros subordinados a mesma renda como Herança de Deus, o nome de Clero era adequado a essa reivindicação. E daí resulta que os dízimos, ou outros tributos pagos aos levitas, como direito de Deus entre os israelitas, há muito tempo são exigidos e cobrados dos cristãos por direito divino (Ecclesiastiques, Jure Divino). Por esse meio, o povo em todos os lugares era obrigado a pagar um tributo duplo: um ao Estado e outro ao clero; sendo que o tributo ao clero, correspondendo à décima parte de sua renda, é o dobro do que um rei de Atenas (considerado um tirano) exigia de seus súditos para o pagamento de todas as despesas públicas. Pois ele não exigia mais do que a vigésima parte, e ainda assim sustentava abundantemente a comunidade com esse valor. E no reino dos judeus, durante o reinado sacerdotal de Deus, os dízimos e as ofertas constituíam toda a renda pública.

Da mesma confusão entre a Igreja atual e o Reino de Deus surgiu a distinção entre o Direito Civil e o Direito Canônico: o Direito Civil sendo os atos dos soberanos em seus próprios domínios, e o Direito Canônico sendo os atos do Papa nos mesmos domínios. Os quais, embora fossem apenas cânones, isto é, regras propostas e aceitas voluntariamente pelos príncipes cristãos até a transferência do Império para Carlos Magno, posteriormente, com o aumento do poder do Papa, tornaram-se regras ordenadas, e os próprios imperadores (para evitar maiores males aos quais o povo, cego, poderia ser levado) foram forçados a deixá-los passar por leis.

Daí resulta que, em todos os domínios onde o poder eclesiástico do Papa é plenamente aceito, judeus, turcos e gentios são tolerados na Igreja Romana em sua religião, contanto que, no exercício e na profissão da mesma, não ofendam o poder civil. Já para um cristão, mesmo que estrangeiro, não professar a religião romana é imperdoável, pois o Papa alega que todos os cristãos são seus súditos. Do contrário, seria tão contrário ao direito internacional perseguir um cristão estrangeiro por professar a religião de seu próprio país quanto um infiel; ou melhor, ainda mais, visto que aqueles que não são contra Cristo estão com ele.

Da mesma forma decorre o fato de que, em todo Estado cristão, existem certos homens que são isentos, por liberdade eclesiástica, dos tributos e dos tribunais do Estado civil; pois o mesmo se aplica ao clero secular, além de monges e frades, que em muitos lugares representam uma proporção tão grande do povo comum que, se necessário, somente deles se poderia formar um exército suficiente para qualquer guerra em que a Igreja militante os empregasse contra seus próprios príncipes ou contra outros.

Erro por confundir consagração com conjuração

Um segundo abuso generalizado das Escrituras é transformar a Consagração em Conjuração ou Encantamento. Consagrar, nas Escrituras, significa oferecer, dar ou dedicar, em linguagem e gestos piedosos e decentes, um homem ou qualquer outra coisa a Deus, separando-a do uso comum; isto é, santificá-la ou torná-la divina, para ser usada somente por aqueles que Deus designou como Seus ministros públicos (como já demonstrei amplamente no capítulo 35); e, com isso, mudar não a coisa consagrada, mas apenas o seu uso, de profano e comum para santo e peculiar ao serviço de Deus. Mas quando, por meio de tais palavras, pretende-se mudar a natureza ou a qualidade da própria coisa, não se trata de Consagração, mas sim de uma obra extraordinária de Deus ou de uma Conjuração vã e ímpia. Mas, considerando (pela frequência com que se fingem mudanças da Natureza em suas Consagrações), não se pode considerar isso uma obra extraordinária; não é senão uma Conjuração ou Encantamento, pelo qual querem fazer os homens acreditarem numa alteração da Natureza que não existe, contrariamente ao testemunho da Visão do homem e de todos os seus outros Sentidos. Como, por exemplo, quando o Sacerdote, em vez de Consagrar o Pão e o Vinho ao serviço peculiar de Deus no Sacramento da Ceia do Senhor (o que nada mais é do que uma separação do uso comum, para significar, isto é, para lembrar aos homens a sua Redenção pela Paixão de Cristo, cujo corpo foi partido e sangue derramado na Cruz pelas nossas transgressões), finge, ao dizer as palavras do nosso Salvador: "Este é o meu Corpo" e "Este é o meu Sangue", que a natureza do Pão já não está presente, mas sim a do seu próprio Corpo; Não obstante, nada parecia à vista ou aos sentidos do receptor que não aparecesse antes da consagração. Os conjuradores egípcios, que supostamente transformavam seus bastões em serpentes e a água em sangue, eram considerados apenas iludidores dos espectadores com uma falsa demonstração, embora fossem considerados encantadores. Mas o que pensaríamos deles se nada parecesse uma serpente em seus bastões, e nada parecesse sangue na água encantada, nem nada além de água, senão que eles desafiaram o rei, que eram serpentes que pareciam bastões e que era sangue que parecia água? Isso teria sido tanto encantamento quanto mentira. E, no entanto, neste ato diário do sacerdote, eles fazem exatamente a mesma coisa, transformando as palavras sagradas em um feitiço que nada produz agora aos sentidos; mas nos desafiam, dizendo que transformaram o pão em um homem; aliás, em um deus. e exigem que os homens o adorem como se fosse o próprio Salvador, Deus e Homem presente, cometendo assim a mais grosseira idolatria.Pois, se bastasse para justificar a acusação de idolatria dizer que não se trata mais de pão, mas de Deus, por que não serviria a mesma desculpa aos egípcios, caso tivessem a audácia de dizer que os alhos-porós e cebolas que adoravam não eram realmente alhos-porós e cebolas, mas uma divindade sob sua forma ou semelhança? As palavras "Este é o meu corpo" são equivalentes a "Isto significa ou representa o meu corpo", e trata-se de uma figura de linguagem comum; mas interpretá-la literalmente é um abuso; e mesmo assim, não pode se estender além do pão que o próprio Cristo consagrou com suas próprias mãos. Pois ele nunca disse que, de qualquer pão que qualquer sacerdote dissesse "Este é o meu corpo" ou "Este é o corpo de Cristo", o mesmo seria imediatamente transubstanciado. Nem a Igreja de Roma jamais estabeleceu essa transubstanciação até a época de Inocêncio III. o que não ocorreu há mais de 500 anos, quando o poder dos Papas estava no auge e as trevas da época eram tão grandes que os homens não discerniam o pão que lhes era dado para comer, especialmente quando estava estampado com a figura de Cristo na cruz, como se quisessem que os homens acreditassem que ele havia sido transubstanciado, não apenas no corpo de Cristo, mas também na madeira de sua cruz, e que eles comiam ambos juntos no sacramento.

Encantamento nas cerimônias de batismo

A mesma invocação, em vez de Consagração, é usada também no Sacramento do Batismo: onde o uso do nome de Deus em cada Pessoa e em toda a Trindade, com o sinal da Cruz em cada nome, compõe o Encantamento: como, por exemplo, quando preparam a água benta, o sacerdote diz: “Eu te conjuro, criatura de água, em nome de Deus Pai Todo-Poderoso, e em nome de Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, e na virtude do Espírito Santo, que te tornes água conjurada, para afastar todos os poderes do Inimigo, e para erradicar e suplantar o Inimigo, etc.” E o mesmo na bênção do sal a ser misturado com ela; “Que te tornes Sal Conjurado, para que todos os Fantasmas e a Malícia da fraude do Diabo fujam e partam do lugar onde fores aspergido; e todo Espírito imundo seja Conjurado por Aquele que há de vir julgar os vivos e os mortos.” O mesmo na Bênção do Óleo. “Para que todo o Poder do Inimigo, toda a Hoste do Diabo, todos os Ataques e Fantasmas de Satanás, sejam expulsos por esta Criatura de Óleo.” E para a Criança que vai ser Batizada, ela é submetida a muitos Encantamentos; Primeiro, na porta da Igreja, o Sacerdote sopra três vezes no rosto da Criança e diz: “Saia dele, Espírito imundo, e dê lugar ao Espírito Santo, o Consolador.” Como se todas as crianças, até serem sopradas pelo sacerdote, fossem demônios: Novamente, antes de sua entrada na igreja, ele diz como antes: “Eu te conjuro, etc., a sair e se afastar deste servo de Deus”: E novamente o mesmo exorcismo é repetido mais uma vez antes de ele ser batizado. Estas, e algumas outras invocações e consagrações, na administração dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor; em que tudo o que serve a esses homens santos (exceto a saliva profana do sacerdote) tem alguma forma definida de exorcismo.

No casamento, na visita aos enfermos e na consagração de lugares.

Nem os outros ritos, como o do casamento, da extrema-unção, da visitação aos enfermos, da consagração de igrejas e cemitérios, e similares, estão isentos de encantamentos; visto que neles há o uso de óleo e água encantados, com o abuso da cruz e da palavra sagrada de Davi, "Asperges me Domine Hyssopo", como coisas eficazes para afastar fantasmas e espíritos imaginários.

Erros decorrentes da confusão entre a vida eterna e a morte eterna.

Outro erro comum decorre da má interpretação das expressões "Vida Eterna", "Morte Eterna" e "Segunda Morte". Pois, embora leiamos claramente nas Sagradas Escrituras que Deus criou Adão em um estado de vida eterna, condicional à sua desobediência ao Seu mandamento; o qual não era essencial à natureza humana, mas consequência da virtude da Árvore da Vida, da qual ele tinha liberdade para comer enquanto não pecasse; e que ele foi expulso do Paraíso após pecar, para que não comesse da Árvore da Vida e vivesse para sempre; e que a Paixão de Cristo é uma expiação dos pecados para todos os que creem nele e, por consequência, uma restauração da Vida Eterna a todos os fiéis, e somente a eles; contudo, a doutrina atual, e há muito tempo, é bem diferente. Ou seja, que todo homem possui a Eternidade da Vida por Natureza, na medida em que sua Alma é Imortal: de modo que a Espada flamejante na entrada do Paraíso, embora impeça um homem de chegar à Árvore da Vida, não o impede da Imortalidade que Deus lhe tirou por causa do seu Pecado; nem o torna necessitado do sacrifício de Cristo para recuperá-la; e, consequentemente, não apenas os fiéis e justos, mas também os ímpios e os pagãos, desfrutarão da Vida Eterna, sem qualquer Morte; muito menos uma Segunda Morte, e Eterna. Para amenizar isso, diz-se que por Segunda Morte, e Eterna, entende-se uma Segunda Vida, e Eterna, mas em tormentos; uma figura nunca usada senão neste caso específico.

Toda essa doutrina se fundamenta unicamente em algumas passagens obscuras do Novo Testamento; as quais, contudo, considerando-se o escopo total das Escrituras, são suficientemente claras em um sentido diferente e desnecessárias para a fé cristã. Pois, supondo que, quando um homem morre, nada resta dele além de seu cadáver, não poderia Deus, que elevou pó e barro inanimados a uma criatura vivente por meio de Sua Palavra, igualmente ressuscitar um cadáver e mantê-lo vivo para sempre, ou fazê-lo morrer novamente por meio de outra Palavra? A Alma, nas Escrituras, sempre significa tanto a Vida quanto a Criatura Vivente; e o Corpo e a Alma, conjuntamente, o Corpo Vivo. No quinto dia da Criação, Deus disse: "Produza a água réptil viva, criatura rastejante que tenha alma vivente"; a tradução literal seria "que tenha vida". E novamente, Deus criou as baleias: "& omnem animam viventem" (todas as criaturas rastejantes que têm alma vivente). que em inglês é “toda criatura viva”: E da mesma forma, Deus fez o homem do pó da terra e soprou em seu rosto o fôlego da vida, “& factus est Homo in animam viventem”, isto é, “e o homem se tornou uma criatura vivente”; E depois que Noé saiu da arca, Deus disse que não feriria mais “omnem animam viventem”, isto é, “toda criatura vivente”; E Deuteronômio 12:23: “Não comam o sangue, porque o sangue é a alma”; isto é, “a vida”. A partir desses trechos, se por alma se entendesse uma substância incorpórea, com existência separada do corpo, isso poderia ser inferido de qualquer outra criatura viva, assim como do homem. Mas que as almas dos fiéis não são, por sua própria natureza, mas pela graça especial de Deus, para permanecerem em seus corpos, desde a ressurreição por toda a eternidade, eu já provei suficientemente nas Escrituras, no capítulo 38. E quanto às passagens do Novo Testamento onde se diz que qualquer pessoa será lançada em corpo e alma no fogo do inferno, não se trata mais do que corpo e vida; isto é, serão lançadas vivas no fogo perpétuo da Geena.

Como a doutrina do Purgatório, e os exorcismos, e a invocação dos santos

É esta janela que dá acesso à Doutrina Obscura, primeiro, dos Tormentos Eternos; e depois do Purgatório, e consequentemente à peregrinação, especialmente em lugares Consagrados, Solitários ou Escuros, dos Fantasmas dos homens falecidos; e assim às pretensões de Exorcismo e Conjuração de Fantasmas; bem como à Invocação de homens mortos; e à Doutrina das Indulgências; isto é, da isenção por um tempo, ou para sempre, do fogo do Purgatório, onde essas Substâncias Incorpóreas pretendem ser purificadas pela queima e tornadas aptas para o Céu. Como os homens geralmente eram possuídos, antes da época de nosso Salvador, pela influência da demonologia grega, da opinião de que as almas dos homens eram substâncias distintas de seus corpos e, portanto, que quando o corpo morria, a alma de cada homem, piedoso ou ímpio, deveria subsistir em algum lugar por virtude de sua própria natureza, sem reconhecer nela qualquer dom sobrenatural de Deus, os doutores da Igreja duvidaram por muito tempo sobre qual seria o lugar onde elas deveriam permanecer até serem reunidas aos seus corpos na ressurreição; supondo, por um tempo, que repousassem sob os altares. Mas, posteriormente, a Igreja de Roma achou mais proveitoso construir para elas este lugar do Purgatório, que foi demolido por algumas outras igrejas nesta época posterior.

Os textos alegados para as doutrinas mencionadas já foram respondidos anteriormente.

Consideremos agora quais textos das Escrituras parecem confirmar melhor esses três erros gerais que mencionei aqui. Quanto aos que o Cardeal Belarmino alegou sobre o atual Reino de Deus administrado pelo Papa (dos quais não há provas melhores), eu já os respondi e deixei claro que o Reino de Deus, instituído por Moisés, terminou com a eleição de Saul. Depois disso, o sacerdote, por sua própria autoridade, jamais depôs qualquer rei. O que o sumo sacerdote fez a Atalia não foi feito por direito próprio, mas por direito do jovem rei Joás, seu filho. Mas Salomão, por direito próprio, depôs o sumo sacerdote Abiatar e estabeleceu outro em seu lugar. O argumento mais difícil de refutar, dentre todos os que podem ser apresentados para provar que o Reino de Deus por Cristo já está neste mundo, não é o alegado por Belarmino, nem por nenhum outro membro da Igreja de Roma, mas por Beza, que defende que ele começa com a ressurreição de Cristo. Mas se ele pretende, com isso, conferir ao Presbitério o poder supremo eclesiástico na Comunidade de Genebra (e, consequentemente, a todos os Presbitérios em todas as outras Comunidades), ou aos Príncipes e outros Soberanos Civis, eu não sei. Pois o Presbitério desafiou o poder de excomungar seus próprios reis e de ser o moderador supremo em matéria de religião, nos lugares onde existe essa forma de governo eclesiástico, não menos do que o Papa o desafia universalmente.

Resposta ao texto em que Beza infere

Que o Reino de Cristo começou com a Ressurreição. As palavras são (Marcos 9:1): “Em verdade vos digo que alguns dos que aqui estão não provarão a morte até que vejam o Reino de Deus chegar com poder”. Essas palavras, se interpretadas gramaticalmente, tornam certo que ou alguns daqueles homens que estavam com Cristo naquele momento ainda estão vivos; ou então, que o Reino de Deus já está presente neste mundo. E então há outro ponto ainda mais difícil: Pois quando os Apóstolos, após a Ressurreição de nosso Salvador e imediatamente antes de sua Ascensão, perguntaram ao nosso Salvador (Atos 1:6): “Restaurarás tu agora o Reino a Israel?”, ele respondeu: “Não vos compete saber os tempos ou as épocas que o Pai reservou para si mesmo; mas recebereis poder pela vinda do Espírito Santo sobre vós, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra”. O que equivale a dizer: Meu Reino ainda não chegou, nem podeis prever quando virá, pois virá como um ladrão na noite; Mas eu vos enviarei o Espírito Santo, e por meio dele tereis poder para dar testemunho a todo o mundo (pela vossa pregação) da minha Ressurreição, das obras que realizei e da doutrina que ensinei, para que creiam em mim e esperem a vida eterna na minha vinda. Como isso se harmoniza com a vinda do Reino de Cristo na Ressurreição? E com o que São Paulo diz (1 Tessalonicenses 1:9, 10): “Que se converteram dos ídolos, para servir ao Deus vivo e verdadeiro, e esperar o seu Filho que virá do céu”. Ora, esperar o seu Filho que virá do céu significa esperar a sua vinda para ser Rei com poder; o que não seria necessário se este Reino já estivesse presente. Além disso, se o Reino de Deus começou (como Beza afirma naquele trecho (Marcos 9:1)) na Ressurreição; Que razão há para os cristãos, desde a Ressurreição, dizerem em suas orações: “Venha o teu Reino”? É evidente, portanto, que as palavras de São Marcos não devem ser interpretadas dessa forma. Há alguns dos que aqui estão (diz o nosso Salvador) que não provarão a morte até que vejam o Reino de Deus chegar com poder. Se esse Reino viesse com a Ressurreição de Cristo, por que se diz “alguns deles” em vez de todos? Pois todos viveram até depois da ressurreição de Cristo.

Explicação do local em Marcos 9.1

Mas aqueles que exigem uma interpretação exata deste texto, que interpretem primeiro as palavras semelhantes de nosso Salvador a São Pedro a respeito de São João (cap. 21.22): “Se eu quiser que ele fique até que eu venha, que te importa?”, sobre as quais se baseava um relato de que ele não morreria. Contudo, a veracidade desse relato não foi confirmada, por ser bem fundamentado, nem refutada, por ser mal fundamentado, com base nessas palavras; mas deixada como um dito não compreendido. A mesma dificuldade também se encontra no lugar de São Marcos. E se for lícito conjecturar sobre o seu significado, com base no que se segue imediatamente, tanto aqui como em São Lucas, onde o mesmo é repetido, não é improvável dizer que se relacionam com a Transfiguração, que é descrita nos versículos imediatamente seguintes. onde se diz que “Seis dias depois, Jesus levou consigo Pedro, Tiago e João (não todos, mas alguns dos seus discípulos) e os conduziu a um alto monte, a sós, e foi transfigurado diante deles. E as suas vestes tornaram-se resplandecentes, extremamente brancas como a neve; de ​​tal forma que nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar. E apareceram-lhes Elias com Moisés, e eles conversavam com Jesus, etc.” De modo que viram Cristo em Glória e Majestade, como há de vir; tanto que “ficaram com muito medo”. E assim a promessa do nosso Salvador se cumpriu por meio de uma Visão: pois foi uma Visão, como provavelmente se pode inferir de São Lucas, que relata a mesma história (cap. 9, versículo 28) e diz que Pedro e os que estavam com ele estavam com sono pesado; mas certamente de acordo com Mateus 17:9. (onde o mesmo é relatado novamente;) pois nosso Salvador os ordenou, dizendo: “Não contem a ninguém a visão até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos”. Seja como for, não se pode extrair daí nenhum argumento para provar que o Reino de Deus só começa no dia do Juízo.

Abuso de alguns outros textos em defesa do poder do Papa

Quanto a outros textos que visam provar o poder do Papa sobre os soberanos civis (além dos de Belarmino), como o de que as duas espadas que Cristo e seus apóstolos possuíam eram a espada espiritual e a temporal, que dizem que São Pedro lhe teria dado por intermédio de Cristo; e o de que, entre as duas luminárias, a maior representa o Papa e a menor o Rei. Poder-se-ia inferir do primeiro versículo da Bíblia que por Céu se entende o Papa e por Terra o Rei. Isso não é um argumento baseado nas Escrituras, mas um insulto gratuito aos príncipes, prática que se popularizou depois que os Papas se tornaram tão seguros de sua grandeza a ponto de desprezarem todos os reis cristãos; e de zombar dos imperadores, tanto a eles quanto às Escrituras, como diz o Salmo 91: "Pisarás o leão e a víbora; calcarás aos pés o leãozinho e o dragão".

A maneira de realizar as consagrações nas Escrituras era sem exorcismos.

Quanto aos ritos de Consagração, embora dependam em grande parte da discrição e do julgamento dos líderes da Igreja, e não das Escrituras, esses líderes são obrigados a seguir as orientações que a própria natureza da ação exige; que as cerimônias, palavras e gestos sejam decentes e significativos, ou pelo menos conformes à ação. Quando Moisés consagrou o Tabernáculo, o Altar e os Vasos a eles pertencentes (Êxodo 40), ele os ungiu com o óleo que Deus havia ordenado que fosse feito para esse propósito; e eles eram santos. Não havia nenhum exorcismo para afastar fantasmas. O mesmo Moisés (o soberano civil de Israel), quando consagrou Arão (o Sumo Sacerdote) e seus filhos, lavou-os com água (não água exorcizada), vestiu-os com suas vestes e os ungiu com óleo. E eles foram santificados para ministrar ao Senhor no ofício sacerdotal; o que consistia em uma purificação simples e decente, e em adorná-los antes de apresentá-los a Deus como seus servos. Quando o Rei Salomão (o soberano civil de Israel) consagrou o Templo que havia construído (2 Reis 8), ele se apresentou diante de toda a congregação de Israel; e, tendo-os abençoado, deu graças a Deus por ter colocado no coração de seu pai a inspiração para construí-lo; e por ter concedido a si mesmo a graça de realizá-lo; e então orou a Ele, primeiro, para que aceitasse aquela Casa, embora não fosse adequada à sua infinita grandeza; e para que ouvisse as orações de seus servos que orassem ali, ou (se estivessem ausentes) em direção a ela; e, por fim, ofereceu um sacrifício de oferta de paz, e a Casa foi dedicada. Não houve procissão; o Rei permaneceu imóvel em seu lugar; nenhuma água exorcizada; nenhum Asperge-me, nem qualquer outra aplicação impertinente de palavras ditas em outra ocasião; Mas um discurso decente e racional, como aquele que oferecia a Deus a sua nova Casa, era o mais adequado à ocasião. Não lemos que São João tenha exorcizado as águas do Jordão; nem Filipe as águas do rio onde batizou o eunuco; nem que algum pastor, na época dos apóstolos, tenha pegado sua saliva e a tenha pingado no nariz da pessoa a ser batizada, dizendo: “In odorem suavitatis”, isto é, “para um aroma agradável ao Senhor”; portanto, nem a cerimônia da saliva para purificação da impureza, nem a aplicação dessa passagem bíblica para justificar a leviandade, podem ser justificadas por qualquer autoridade humana.

A imortalidade da alma humana, não comprovada pelas Escrituras como sendo da natureza, mas sim da graça.

Para provar que a Alma separada do Corpo vive eternamente, não apenas as Almas dos Eleitos, por graça especial e restauração da Vida Eterna que Adão perdeu pelo Pecado, e nosso Salvador restaurou pelo Sacrifício de Si mesmo aos Fiéis, mas também as Almas dos Reprovados, como uma propriedade naturalmente consequente à essência da humanidade, sem outra graça de Deus além daquela que é universalmente dada a toda a humanidade; existem diversas passagens que, à primeira vista, parecem suficientes para ilustrar o ponto; mas tais passagens, quando comparadas com o que aleguei anteriormente (Capítulo 38) a partir do versículo 14 de Jó, parecem-me muito mais sujeitas a diversas interpretações do que as próprias palavras de Jó.

E, em primeiro lugar, temos as palavras de Salomão (Eclesiastes 12:7): “Então o pó voltará ao pó, como era, e o espírito voltará a Deus, que o deu”. O que pode sustentar bem (se não houver outro texto diretamente contrário) esta interpretação: que somente Deus sabe (mas o homem não) o que acontece com o espírito do homem quando ele expira; e o mesmo Salomão, no mesmo livro (capítulo 3, versículos 20 e 21), expressa isso na mesma frase, no sentido que lhe apresentei: Suas palavras são: “Todos vão (o homem e os animais) para o mesmo lugar; todos são pó e todos voltam ao pó; quem sabe se o espírito do homem sobe e o espírito do animal desce para a terra?”. Ou seja, ninguém sabe senão Deus; e não é incomum dizer, sobre coisas que não entendemos, “Deus sabe o quê” e “Deus sabe onde”. Isso se refere a Gênesis 5:24. “Enoque andou com Deus, e não foi encontrado, porque Deus o levou”; o que é explicado em Hebreus 13:5. “Ele foi trasladado para que não morresse; e não foi achado, porque Deus o trasladara. Pois antes da sua trasladação, ele alcançou este testemunho de que agradara a Deus” — referindo-se tanto à imortalidade do corpo quanto da alma — prova que essa sua trasladação foi peculiar àqueles que agradam a Deus, não sendo comum aos ímpios, e dependendo da graça, não da natureza. Mas, ao contrário, que interpretação daríamos, além do sentido literal das palavras de Salomão (Eclesiastes 3:19): “O que acontece aos filhos dos homens acontece também aos animais; a mesma coisa lhes acontece: como morre um, assim morre o outro; sim, todos têm o mesmo fôlego (o mesmo espírito), de modo que o homem não tem preeminência sobre o animal, porque tudo é vaidade”? Pelo sentido literal, aqui não há imortalidade natural da alma; nem qualquer repugnância com a Vida Eterna, que os Eleitos desfrutarão pela Graça. E (cap. 4, versículo 3): “Melhor é aquele que ainda não foi do que ambos”; isto é, do que aqueles que vivem ou viveram; o que, se a Alma de todos os que viveram fosse imortal, seria uma afirmação difícil; pois então ter uma Alma imortal seria pior do que não ter alma alguma. E novamente (cap. 9, versículo 5): “Os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa alguma”; isto é, naturalmente, e antes da ressurreição do corpo.

Outro ponto que parece indicar uma imortalidade natural da alma é quando nosso Salvador diz que Abraão, Isaque e Jacó estão vivos. Mas isso se refere à promessa de Deus e à certeza de sua ressurreição, não a uma vida real naquele momento. Da mesma forma que Deus disse a Adão que, no dia em que comesse do fruto proibido, certamente morreria, a partir daquele momento ele estava condenado à morte, mas não à execução, até quase mil anos depois. Assim, Abraão, Isaque e Jacó estavam vivos pela promessa quando Cristo falou, mas não viveram de fato até a Ressurreição. E a história de Dives e Lázaro não contradiz isso, se a considerarmos (como é) uma parábola.

Mas há outras passagens do Novo Testamento onde a imortalidade parece ser diretamente atribuída aos ímpios. Pois é evidente que todos eles ressuscitarão para o julgamento. E, além disso, em muitos lugares, diz-se que irão para o “fogo eterno, tormentos eternos, castigos eternos; e que o verme da consciência jamais morrerá”; e tudo isso está compreendido na expressão Morte Eterna, que geralmente é interpretada como Vida Eterna em Tormentos. Contudo, não encontro em lugar algum a menção de que alguém viverá em tormentos eternamente. Também me parece difícil dizer que Deus, que é o Pai das Misericórdias, que faz nos Céus e na Terra tudo o que quer; que dispõe sobre o coração de todos os homens; que opera nos homens tanto o fazer quanto o querer; e sem cuja graça o homem não tem inclinação para o bem nem arrependimento para o mal, castigaria as transgressões dos homens sem fim de tempo, e com toda a extrema tortura que os homens possam imaginar, e até mais. Devemos, portanto, considerar qual é o significado de "Fogo Eterno" e outras expressões semelhantes nas Escrituras.

Já mostrei que o Reino de Deus por meio de Cristo começa no dia do Juízo: que naquele dia, os fiéis ressuscitarão com corpos gloriosos e espirituais e serão seus súditos naquele seu Reino, que será eterno; que não se casarão, nem serão dados em casamento, nem comerão nem beberão como faziam em seus corpos naturais, mas viverão para sempre em suas pessoas individuais, sem a eternidade específica da geração; e que os réprobos também ressuscitarão para receber o castigo por seus pecados; assim como os eleitos que estiverem vivos em seus corpos terrenos naquele dia terão seus corpos subitamente transformados e tornados espirituais e imortais. Mas que os corpos dos réprobos, que formam o Reino de Satanás, também serão corpos gloriosos ou espirituais, ou que serão como os anjos de Deus, não comendo, não bebendo, nem gerando filhos. Ou que a vida deles será eterna em suas pessoas individuais, como a vida de todo homem fiel é, ou como a vida de Adão teria sido se ele não tivesse pecado, não há nenhuma passagem das Escrituras que prove isso; exceto apenas estas passagens referentes aos tormentos eternos, que podem ser interpretadas de outra forma.

Daí se pode inferir que, assim como os eleitos, após a ressurreição, serão restaurados ao estado em que Adão se encontrava antes de pecar, os réprobos estarão no estado em que Adão e sua posteridade se encontravam após o pecado cometido; ressalvando-se que Deus prometeu um Redentor a Adão e àqueles de sua descendência que nele confiassem e se arrependessem, mas não àqueles que morressem em seus pecados, como os réprobos.

Tormentos Eternos O quê

Considerando esses aspectos, os textos que mencionam o Fogo Eterno, os Tormentos Eternos ou a Palavra que Jamais Morre não contradizem a doutrina de uma segunda morte, eterna, no sentido próprio e natural da palavra "morte". O fogo, ou os tormentos preparados para os ímpios no Geena, no Tofete ou em qualquer outro lugar, podem continuar para sempre; e pode nunca faltar ímpios para serem atormentados neles; embora não todos, nem ninguém, eternamente. Pois os ímpios, permanecendo no estado em que se encontravam após o pecado de Adão, podem, na Ressurreição, viver como viviam, casar-se e dar à luz, e ter corpos grosseiros e corruptíveis, como toda a humanidade agora possui; e, consequentemente, podem gerar perpetuamente, após a Ressurreição, como faziam antes: pois não há nenhuma passagem das Escrituras em contrário. Pois São Paulo, ao falar da Ressurreição (1 Coríntios 15), entende-a apenas como a ressurreição para a vida eterna; e não como a ressurreição para o castigo. E sobre o primeiro, ele diz que o Corpo é “Semeado em Corrupção, ressuscitado em Incorrupção; semeado em Desonra, ressuscitado em Honra; semeado em Fraqueza, ressuscitado em Poder; semeado um corpo Natural, ressuscitado um corpo Espiritual”. Não se pode dizer o mesmo dos corpos daqueles que ressuscitam para o Castigo. O texto é Lucas 20, versículos 34, 35 e 36, um texto fértil. “Os filhos deste mundo casam-se e são dados em casamento; mas aqueles que forem considerados dignos de alcançar o mundo vindouro e a ressurreição dentre os mortos não casam nem são dados em casamento; nem podem mais morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição”. Os filhos deste mundo, que estão no estado em que Adão os deixou, casarão e serão dados em casamento; isto é, corruptos, e se renovarão sucessivamente. que é uma imortalidade da espécie, mas não da pessoa dos homens: eles não são dignos de serem contados entre aqueles que alcançarão o outro mundo e uma ressurreição absoluta dentre os mortos; mas apenas um breve período como habitantes desse mundo; e, para o fim, apenas receberem o castigo merecido por sua contumácia. Os eleitos são os únicos filhos da ressurreição; isto é, os únicos herdeiros da vida eterna: somente eles não podem mais morrer; são eles que são iguais aos anjos e que são filhos de Deus; e não os réprobos. Aos réprobos resta, após a ressurreição, uma segunda morte, a eterna: entre a ressurreição e a segunda morte, a eterna, há apenas um tempo de castigo e tormento; e que durará por sucessão de pecadores, enquanto a espécie humana, por propagação, perdurar, o que é eterno.

Resposta dos textos alegados para o Purgatório

Sobre esta doutrina da eternidade natural das almas separadas, fundamenta-se (como eu disse) a doutrina do Purgatório. Pois, supondo-se a vida eterna somente pela graça, não há vida senão a vida do corpo; e nenhuma imortalidade até a ressurreição. Os textos sobre o Purgatório, alegados por Belarmino a partir das Escrituras canônicas do Antigo Testamento, são, em primeiro lugar, o jejum de Davi por Saul e Jônatas, mencionado em 2 Reis 1:12; e novamente em 2 Samuel 3:35, pela morte de Abner. Este jejum de Davi, diz ele, visava obter algo para eles das mãos de Deus, após a morte; pois, depois de jejuar para obter a ressurreição de seu próprio filho, assim que soube que este havia falecido, pediu comida. Visto que a Alma possui uma existência separada do Corpo, e nada se pode obter com o jejum pelas almas que já estão no Céu ou no Inferno, segue-se que existem almas de homens mortos que não estão nem no Céu nem no Inferno; portanto, devem estar em um terceiro lugar, que deve ser o Purgatório. E assim, com grande esforço, ele forçou esses lugares à prova de um Purgatório; enquanto que é manifesto que as cerimônias de Luto e Jejum, quando usadas pela morte de homens cuja vida não foi proveitosa para os enlutados, são usadas para honrar suas pessoas; e quando são feitas pela morte daqueles cuja vida beneficiou os enlutados, procedem de seu dano particular. E assim Davi honrou Saul e Abner com seu jejum; e na morte de seu próprio filho, consolou-se recebendo sua comida habitual.

Nos outros trechos que ele alega serem do Antigo Testamento, não há sequer uma demonstração ou indício de prova. Ele cita todos os textos em que há a palavra Ira, Fogo, Queima, Purificação ou Limpeza, caso algum dos Padres da Igreja a tenha aplicado retoricamente, ainda que em um sermão, à doutrina do Purgatório já aceita. O primeiro versículo do Salmo 37: “Senhor, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor.” O que seria isso para o Purgatório, se Agostinho não tivesse aplicado a Ira ao fogo do Inferno e o Furacão ao fogo do Purgatório? E o que é para o Purgatório o Salmo 66:12: “Passamos pelo fogo e pela água, e tu nos trouxeste a um lugar úmido?” e outros textos semelhantes (com os quais os doutores daquela época pretendiam adornar ou ampliar seus sermões ou comentários), levados aos seus propósitos pela força do espírito?

Lugares do Novo Testamento relacionados ao Purgatório (Respondido)

Mas ele alega outras passagens do Novo Testamento que não são tão fáceis de responder: Primeiro, a de Mateus 12:32: “Aquele que disser alguma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; mas aquele que falar contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado, nem neste mundo nem no vindouro”. Nesse ponto, ele considera o Purgatório como o Mundo vindouro, onde alguns pecados podem ser perdoados, pecados que não foram perdoados neste mundo. Contudo, é evidente que existem apenas três mundos: um desde a Criação até o Dilúvio, que foi destruído pela água e é chamado nas Escrituras de Velho Mundo; outro desde o Dilúvio até o dia do Juízo Final, que é o Mundo Presente e será destruído pelo fogo; e o terceiro, que será eterno a partir do dia do Juízo Final, chamado de Mundo Vindouro; e no qual todos concordam que não haverá Purgatório. Portanto, o Mundo Vindouro e o Purgatório são inconsistentes. Mas qual seria, então, o significado das palavras do nosso Salvador? Confesso que são muito difíceis de conciliar com todas as doutrinas agora unanimemente aceitas; e não é vergonhoso, confessar, que a profundidade das Escrituras é grande demais para ser compreendida pela brevidade do entendimento humano. Não obstante, posso apresentar tais questões à consideração de teólogos mais eruditos, conforme o próprio texto sugere. E, em primeiro lugar, ver que falar contra o Espírito Santo, como sendo a terceira Pessoa da Trindade, é falar contra a Igreja, na qual o Espírito Santo reside; parece que a comparação é feita entre a facilidade com que nosso Salvador suportou as ofensas cometidas enquanto esteve na Terra e a severidade dos pastores que o sucederam contra aqueles que negavam a autoridade que lhes era concedida pelo Espírito Santo: como se ele dissesse: Vós que negais o meu poder; Não, vós que me crucificardes, sereis perdoados por mim, sempre que vos converterdes a mim em arrependimento. Mas, se negardes o poder daqueles que vos ensinam no além, pela virtude do Espírito Santo, eles serão inexoráveis ​​e não vos perdoarão, mas vos perseguirão neste mundo e vos deixarão sem absolvição (ainda que vos convertais a mim, a menos que vos convertais também a eles), para os castigos (tanto quanto lhes cabem) do mundo vindouro. Assim, as palavras podem ser tomadas como uma profecia ou predição concernente aos tempos, como tem sido ao longo do tempo na Igreja Cristã. Ou, se este não for o significado (pois não sou peremptório em passagens tão difíceis), talvez haja espaço, após a ressurreição, para o arrependimento de alguns pecadores. E há também outra passagem que parece concordar com isso. Pois, considerando as palavras de São Paulo (1 Coríntios 15:29),“Que farão os que se batizam pelos mortos, se os mortos não ressuscitam? Por que se batizam também pelos mortos?” Alguém poderia inferir, como alguns já fizeram, que na época de São Paulo havia o costume de, ao receber o batismo pelos mortos (já que os que creem hoje são fiadores e intercessores da fé de crianças que não são capazes de crer), comprometerem-se, em nome de seus amigos falecidos, a estarem prontos para obedecer e receber nosso Salvador como seu Rei em sua segunda vinda; e então o perdão dos pecados no mundo vindouro não necessitaria de um purgatório. Mas em ambas as interpretações há tanto paradoxo que não confio nelas, mas as apresento àqueles que são profundamente versados ​​nas Escrituras, para que verifiquem se não há passagem mais clara que as contradiga. Só por isso, vejo evidente nas Escrituras que não há menção nem à palavra nem à coisa do Purgatório, nem neste nem em qualquer outro texto; nem nada que possa provar a necessidade de um lugar para a Alma fora do Corpo; nem para a Alma de Lázaro durante os quatro dias em que esteve morto; nem para as Almas daqueles que a Igreja Romana alega estarem agora atormentados no Purgatório. Pois Deus, que pôde dar vida a um pedaço de barro, tem o mesmo poder de dar vida novamente a um morto e renovar sua carcaça inanimada e apodrecida em um Corpo glorioso, espiritual e imortal.e carcaça podre, em um corpo glorioso, espiritual e imortal.e carcaça podre, em um corpo glorioso, espiritual e imortal.

Outro trecho é 1 Coríntios 3, onde se diz que aqueles que construíram com palha, feno, etc., sobre o verdadeiro fundamento, terão suas obras destruídas; mas “eles mesmos serão salvos, como que através do fogo”. Este fogo, ele terá que descrever como o fogo do Purgatório. As palavras, como já mencionei, são uma alusão às de Zacarias 13:9, onde ele diz: “Farei passar a terceira parte pelo fogo, e a refinarei como se refina a prata, e a provarei como se prova o ouro”. Isso se refere à vinda do Messias em poder e glória; isto é, no dia do juízo e da destruição do mundo presente; no qual os eleitos não serão consumidos, mas refinados; ou seja, deporão suas doutrinas e tradições errôneas, e as terão, por assim dizer, queimadas; e depois invocarão o nome do verdadeiro Deus. Da mesma forma, o Apóstolo diz deles que, mantendo este fundamento — Jesus é o Cristo —, edificarão sobre ele outras doutrinas errôneas, de modo que não serão consumidos pelo fogo que renova o mundo, mas passarão por ele para a salvação; contudo, poderão ver e abandonar seus erros anteriores. Os construtores são os pastores; o fundamento, que Jesus é o Cristo; a palha e o feno, as falsas consequências extraídas dele por ignorância ou fraqueza; o ouro, a prata e as pedras preciosas são suas verdadeiras doutrinas; e seu refinamento ou purificação, o abandono de seus erros. Em tudo isso, não há qualquer justificativa para a queima de almas incorpóreas, isto é, impacientes.

Batismo pelos mortos, como é entendido

Um terceiro ponto é o de 1 Coríntios 15, mencionado anteriormente, referente ao Batismo pelos Mortos: dele ele conclui, em primeiro lugar, que as orações pelos mortos não são inúteis; e disso, que existe um Fogo do Purgatório: mas nenhuma das duas conclusões está correta. Pois, dentre as muitas interpretações da palavra Batismo, ele aprova, em primeiro lugar, esta: que por Batismo se entende (metaforicamente) um Batismo de Penitência; e que os homens são, nesse sentido, batizados quando jejuam, oram e praticam a caridade: e assim, o Batismo pelos Mortos e a Oração pelos Mortos são a mesma coisa. Mas esta é uma metáfora, da qual não há exemplo, nem nas Escrituras, nem em qualquer outro uso da linguagem; e que também é dissonante com a harmonia e o alcance das Escrituras. A palavra Batismo é usada (Marcos 10:38 e Lucas 12:59) para o ato de ser mergulhado no próprio sangue, como Cristo foi na cruz e como a maioria dos apóstolos foi, ao dar testemunho dele. Mas é difícil dizer que a oração, o jejum e a esmola tenham alguma semelhança com o ato de mergulhar. O mesmo termo é usado também em Mateus 3:11 (que parece se referir ao Purgatório) para uma purificação com fogo. Mas é evidente que o fogo e a purificação aqui mencionados são os mesmos de que o profeta Zacarias fala (capítulo 13, versículo 9): “Farei passar a terceira parte pelo fogo e os purificarei, etc.” E São Pedro, depois dele (1 Epístola 1:7): ​​“Para que a prova da vossa fé, que é muito mais preciosa do que o ouro que perece, embora provada pelo fogo, redunde em louvor, glória e honra na manifestação de Jesus Cristo.” E São Paulo (1 Coríntios 3:13): “O fogo provará a obra de cada um, seja qual for.” Mas São Pedro e São Paulo falam do fogo que haverá na Segunda Vinda de Cristo; e o profeta Zacarias, do Dia do Juízo. Portanto, esta passagem de São Mateus pode ser interpretada como sendo a mesma; e então não haverá necessidade do fogo do Purgatório.

Outra interpretação do Batismo pelos Mortos é aquela que mencionei anteriormente, a qual ele prefere à segunda opção mais provável; e daí também ele infere a utilidade da oração pelos mortos. Pois, se após a Ressurreição, aqueles que não ouviram falar de Cristo, ou não creram nele, podem ser recebidos no Reino de Cristo, não é em vão que, após a morte deles, seus amigos orem por eles até que ressuscitem. Mas, admitindo que Deus, pelas orações dos fiéis, possa converter a Ele alguns daqueles que não ouviram a pregação de Cristo e, consequentemente, não podem tê-lo rejeitado, e que a caridade dos homens nesse ponto não pode ser censurada, isso nada conclui sobre o Purgatório, porque ressuscitar da morte para a vida é uma coisa; ressuscitar do Purgatório para a vida é outra; e sendo uma ressurreição de vida para vida, de uma vida de tormentos para uma vida de alegria.

Um quarto lugar é o de Mateus 5:25: “Entra em acordo depressa com o teu adversário, enquanto estás a caminho com ele, para que ele não te entregue ao oficial e sejas lançado na prisão. Em verdade te digo que de modo nenhum sairás dali enquanto não pagares o último centavo.” Nessa alegoria, o ofensor é o pecador; tanto o adversário quanto o juiz são Deus; o caminho é esta vida; a prisão é a sepultura; o oficial, a morte; da qual o pecador não ressuscitará para a vida eterna, mas para uma segunda morte, até que pague o último centavo, ou Cristo o pague por ele por sua Paixão, que é um resgate completo para toda sorte de pecado, tanto pecados menores quanto crimes maiores; ambos sendo tornados igualmente veniais pela paixão de Cristo.

O quinto lugar é o de Mateus 5:22: “Quem se irar contra seu irmão sem motivo, será réu perante o juízo. E quem disser a seu irmão: ‘Racha!’, será réu perante o conselho. Mas quem lhe disser: ‘Louco!’, será réu do fogo do inferno.” Dessas palavras, ele infere três tipos de pecados e três tipos de punições; e que nenhum desses pecados, exceto o último, será punido com o fogo do inferno; e, consequentemente, que após esta vida, há punição para pecados menores no Purgatório. Dessa inferência, não há qualquer fundamento em nenhuma interpretação que lhes tenha sido dada até o momento: Haverá, após esta vida, uma distinção entre tribunais de justiça, como havia entre os judeus na época de nosso Salvador, para ouvir e julgar diversos tipos de crimes, como os juízes e o conselho? Não pertencerá toda a jurisdição a Cristo e aos seus apóstolos? Para compreendermos, portanto, este texto, não devemos considerá-lo isoladamente, mas em conjunto com as palavras precedente e subsequente. Nosso Salvador, neste capítulo, interpreta a Lei de Moisés, que os judeus acreditavam estar cumprida, visto que não haviam transgredido o seu sentido gramatical, embora tivessem transgredido a sentença ou o significado do Legislador. Portanto, enquanto pensavam que o Sexto Mandamento só era quebrado matando um homem, e o Sétimo, quando um homem se deitava com uma mulher que não era sua esposa, nosso Salvador lhes diz que a ira interior de um homem contra seu irmão, se não for justa causa, é homicídio: "Ouvistes (diz ele) a Lei de Moisés: 'Não matarás', e que 'Quem matar será condenado perante os Juízes', ou perante a Sessão dos Setenta. Mas eu vos digo que irar-se contra o próprio irmão sem motivo é crime." Ou dizer-lhe que Racha, ou Tolo, é Homicídio e será punido no dia do Juízo Final, perante Cristo e Seus Apóstolos, com o fogo do Inferno: de modo que essas palavras não foram usadas para distinguir entre diversos Crimes, diversos Tribunais de Justiça e diversas Punições; mas para evidenciar a distinção entre pecado e pecado, que os judeus extraíam não da diferença de Vontade em Obedecer a Deus, mas da diferença de seus Tribunais Temporais de Justiça; e para mostrar-lhes que aquele que tivesse a Vontade de prejudicar seu Irmão, mesmo que o efeito se manifestasse apenas em Injúria, ou não em nenhum efeito, seria lançado no fogo do Inferno pelos Juízes e pela Sessão, que serão os mesmos, e não Tribunais diferentes, no dia do Juízo Final. Considerando isso, o que se pode extrair deste texto para sustentar o Purgatório, eu não consigo imaginar.

O sexto lugar é Lucas 16:9: “Fazei amigos das riquezas injustas, para que, quando vos faltarem, elas vos recebam nos Tabernáculos Eternos”. Ele alega que isso prova a invocação dos santos falecidos. Mas o sentido é claro: devemos fazer amizade com os pobres, mesmo que ricos, e assim obter suas orações enquanto vivem. “Quem dá aos pobres, empresta ao Senhor”. O sétimo lugar é Lucas 23:42: “Lembra-te de mim, Senhor, quando entrares no teu Reino”. Portanto, diz ele, há remissão dos pecados após esta vida. Mas a consequência não é boa. Nosso Salvador o perdoou; e em sua vinda em glória, lembrará de ressuscitá-lo para a vida eterna.

O oitavo versículo refere-se a Atos 2:24, onde São Pedro diz de Cristo: “Deus o ressuscitou e rompeu os laços da morte, porque não era possível que ela o retivesse”. Ele interpreta isso como uma descida de Cristo ao Purgatório para libertar algumas almas de seus tormentos, quando, na verdade, é evidente que foi Cristo quem foi libertado, quem não podia ser retido pela morte ou pela sepultura, e não as almas do Purgatório. Mas se observarmos bem o que Beza diz em suas notas sobre essa passagem, ninguém deixará de perceber que, em vez de “laços”, deveriam ser “laços”; e então não há mais motivo para buscar o Purgatório neste texto.

CAPÍTULO XLV.
DA DEMONOLOGIA E OUTRAS RELÍQUIAS DA RELIGIÃO DOS GENTIOS

O Original da Demonologia

A impressão causada nos órgãos da visão por corpos lúcidos, seja em uma linha direta ou em várias linhas, refletida por corpos opacos ou refratada na passagem por corpos diáfanos, produz nos seres vivos, nos quais Deus colocou tais órgãos, uma imaginação do objeto de onde procede a impressão; essa imaginação é chamada de visão; e parece não ser uma mera imaginação, mas o próprio corpo fora de nós; da mesma maneira que, quando um homem pressiona violentamente o olho, aparece-lhe uma luz externa e à sua frente, que ninguém percebe senão ele mesmo; porque, na verdade, não há tal coisa fora dele, mas apenas um movimento nos órgãos internos, pressionando para fora por resistência, que o faz pensar assim. E o movimento produzido por essa pressão, que continua mesmo após a remoção do objeto que a causou, é o que chamamos de Imaginação, Memória e (no sono, e às vezes em casos de grande enfermidade dos órgãos por Doença ou Violência) Sonho: sobre o qual já falei brevemente nos capítulos dois e três.

Essa natureza da Visão, tendo jamais sido descoberta pelos antigos pretendentes ao Conhecimento Natural, muito menos por aqueles que não consideram as coisas tão remotas (como esse Conhecimento) de seu uso atual, era difícil para os homens conceberem essas Imagens na Imaginação e nos Sentidos de outra forma que não como coisas realmente fora de nós: as quais alguns (porque desaparecem, não sabem para onde nem como) terão que ser absolutamente Incorpóreas, isto é, Imateriais, de Formas sem Matéria; Cor e Figura, sem qualquer Corpo colorido ou figurado; e que podem assumir corpos aéreos (como uma vestimenta) para torná-las Visíveis quando quiserem aos nossos Olhos corporais; e outros dizem que são Corpos e Criaturas vivas, mas feitas de Ar, ou outra Matéria mais sutil e etérea, que, então, quando forem vistas, estará condensada. Mas ambos concordam em uma denominação geral para elas: DEMÔNIOS. Como se os mortos com quem sonhavam não fossem habitantes de seus próprios cérebros, mas do ar, do céu ou do inferno; não fantasmas, mas espíritos; com tanta razão quanto se alguém dissesse que viu seu próprio fantasma em um espelho, ou os fantasmas das estrelas em um rio; ou chamasse a aparição comum do Sol, de cerca de um pé de tamanho, de demônio, ou fantasma daquele grande Sol que ilumina todo o mundo visível: e por isso os temiam, como coisas de um desconhecido, isto é, de um poder ilimitado para lhes fazer o bem ou o mal; e, consequentemente, deram ocasião aos governantes das comunidades pagãs de regular esse seu medo, estabelecendo a demonologia (na qual os poetas, como principais sacerdotes da religião pagã, eram especialmente empregados ou reverenciados) para a paz pública e para a obediência dos súditos necessária a ela; e para transformar alguns deles em Bons Demônios, e outros em Maus; uns como um estímulo à Observância, outros, como Rédeas para impedi-los de Violar as Leis.

O que eram os demônios dos antigos?

Que tipo de criaturas eram essas, às quais atribuíam o nome de Demônios, aparece em parte na Genealogia de seus Deuses, escrita por Hesíodo, um dos mais antigos poetas gregos; e em parte em outras Histórias; das quais já mencionei algumas anteriormente, no Capítulo 12 deste discurso.

Como essa doutrina foi disseminada

Os gregos, por meio de suas colônias e conquistas, disseminaram sua língua e seus escritos na Ásia, no Egito e na Itália; e ali, por consequência necessária, sua demonologia, ou (como São Paulo a chama) “suas doutrinas de demônios”. E por esse meio, o contágio também se espalhou para os judeus, tanto da Judeia quanto de Alexandria, e outras regiões para onde estavam dispersos. Mas o nome de demônio eles não atribuíam (como os gregos) a espíritos bons e maus, mas apenas aos maus. E aos demônios bons davam o nome de Espírito de Deus; e consideravam profetas aqueles em cujos corpos entravam. Em suma, toda singularidade, se boa, atribuíam ao Espírito de Deus; e se má, a algum demônio, mas um kakodaimen, um demônio maligno, isto é, um diabo. E, portanto, chamavam de Daemoniaques, isto é, possuídos pelo Diabo, como nós chamamos de loucos ou lunáticos; ou aqueles que tinham a doença da queda; ou que falavam qualquer coisa que, por falta de entendimento, consideravam absurda. Da mesma forma, de uma pessoa impura em grau notório, diziam que tinha um espírito imundo; de um mudo, que tinha um demônio mudo; e de João Batista (Mateus 11:18), pela singularidade de seu jejum, que tinha um demônio; e de nosso Salvador, porque disse que aquele que guarda as suas palavras não verá a morte eterna (João 8:52): “Agora sabemos que tens um demônio; Abraão morreu, e os profetas também morreram”. E novamente, porque disse (João 7:20): “Procuraram matá-lo”, o povo respondeu: “Tens um demônio, que procura matar-te?”. Com isso, fica evidente que os judeus tinham as mesmas opiniões a respeito dos Fantasmas, ou seja, que eles não eram Fantasmas, isto é, ídolos da mente, mas coisas reais e independentes da imaginação.

Por que nosso Salvador não o controlou?

Se essa doutrina não for verdadeira, por que (alguns podem dizer) nosso Salvador não a contradisse e ensinou o contrário? Aliás, por que ele usa, em diversas ocasiões, formas de expressão que parecem confirmá-la? A isso respondo que, em primeiro lugar, quando Cristo diz: "Um espírito não tem carne nem osso", embora mostre que existem espíritos, ele não nega que sejam corpos. E quando São Paulo diz: "Ressuscitaremos com corpos espirituais", ele reconhece a natureza dos espíritos, mas que são espíritos corpóreos; o que não é difícil de entender. Pois o ar e muitas outras coisas são corpos, embora não sejam carne e osso, nem qualquer outro corpo grosseiro, discernível aos olhos. Mas quando nosso Salvador fala com o diabo e lhe ordena que saia de um homem, se por diabo se entende uma doença, como frenesi, loucura ou um espírito corpóreo, não é a linguagem imprópria? Podem as doenças ouvir? Ou pode haver um Espírito corpóreo num Corpo de Carne e Osso, já repleto de Espíritos vitais e animais? Não existem, portanto, Espíritos que não têm Corpos, nem são meras Imaginações? À primeira pergunta, respondo que dirigir a ordem do nosso Salvador à Loucura, ou à Inconsciência que Ele cura, não é mais impróprio do que o foi a Sua repreensão à Febre, ao Vento e ao Mar; pois estes não ouvem; ou do que o foi a ordem de Deus à Luz, ao Firmamento, ao Sol e às Estrelas, quando lhes ordenou que existissem; pois não podiam ouvir antes de existirem. Mas essas palavras não são impróprias porque significam o poder da Palavra de Deus: não é, portanto, mais impróprio ordenar à Loucura, ou à Inconsciência (sob a designação de Demônios, como eram então comumente entendidas), que saia do corpo de um homem. Em relação ao segundo ponto, sobre serem incorpóreos, ainda não observei nenhuma passagem das Escrituras de onde se possa inferir que algum homem jamais tenha sido possuído por um espírito corpóreo diferente daquele que lhe é próprio, pelo qual seu corpo é naturalmente movido.

As Escrituras não ensinam que os espíritos são incorpóreos.

Nosso Salvador, imediatamente após o Espírito Santo ter descido sobre Ele em forma de pomba, é descrito por São Mateus (Cap. 4.1) como tendo sido “levado pelo Espírito ao deserto”; e o mesmo é relatado (Lucas 4.1) nestas palavras: “Jesus, cheio do Espírito Santo, foi levado pelo Espírito ao deserto”. Com isso, fica evidente que, ali, “Espírito” se refere ao Espírito Santo. Isso não pode ser interpretado como possessão, pois Cristo e o Espírito Santo são uma só e mesma substância; não se trata de possessão de uma substância ou corpo por outro. E, considerando que nos versículos seguintes, Ele é descrito como tendo sido “levado pelo diabo à Cidade Santa e colocado sobre o pináculo do Templo”, devemos concluir daí que Ele estava possuído pelo diabo ou levado para lá à violência? E novamente: “levado dali pelo Diabo a uma montanha muito alta, que lhe mostrou dali todos os reinos do mundo”: aqui, não devemos acreditar que ele estava possuído ou forçado pelo Diabo; nem que qualquer montanha seja alta o suficiente (no sentido literal) para lhe mostrar um hemisfério inteiro. Qual seria, então, o significado deste trecho, senão que ele foi por vontade própria ao deserto; e que esse transporte para cima e para baixo, do deserto à cidade, e dali para uma montanha, foi uma visão? Em conformidade com isso, está também a frase de São Lucas, de que ele foi conduzido ao deserto, não pelo Espírito, mas no Espírito: enquanto que, quanto ao fato de Ele ter sido levado à montanha e ao pináculo do Templo, ele fala como São Mateus. O que se adequa à natureza de uma visão.

Novamente, quando São Lucas diz de Judas Iscariotes que “Satanás entrou nele, e então ele foi falar com os principais sacerdotes e capitães, planejando como lhes trairia Cristo”, pode-se responder que a entrada de Satanás (isto é, o inimigo) nele significa a intenção hostil e traiçoeira de vender seu Senhor e Mestre. Pois, assim como o Espírito Santo é frequentemente entendido nas Escrituras como as graças e boas inclinações concedidas pelo Espírito Santo, a entrada de Satanás pode ser entendida como as cogitações e os desígnios malignos dos adversários de Cristo e de seus discípulos. Pois, assim como é difícil dizer que o diabo entrou em Judas antes que ele tivesse qualquer desígnio hostil, também é impertinente dizer que ele era primeiro inimigo de Cristo em seu coração e que o diabo entrou nele depois. Portanto, a entrada de Satanás e seu propósito maligno eram uma e a mesma coisa.

Mas se não existe um Espírito Imaterial, nem qualquer possessão dos corpos dos homens por um Espírito Corpóreo, pode-se perguntar novamente por que nosso Salvador e seus Apóstolos não ensinaram isso ao povo; e com palavras tão claras que não restassem dúvidas. Mas tais questões são mais curiosas do que necessárias para a salvação de um cristão. Pode-se igualmente perguntar por que Cristo, que poderia ter dado a todos os homens Fé, Piedade e toda sorte de virtudes morais, as deu a alguns e não a todos; e por que deixou a busca das causas e ciências naturais à razão e à diligência dos homens, e não as revelou a todos, ou a qualquer homem sobrenaturalmente; e muitas outras questões semelhantes. Para as quais, no entanto, podem existir razões prováveis ​​e piedosas. Pois, assim como Deus, quando conduziu os israelitas à Terra Prometida, não os assegurou ali subjugando todas as nações vizinhas; mas deixou muitas delas, como espinhos em seus flancos, para despertar de tempos em tempos sua Piedade e Diligência: assim também nosso Salvador, ao nos conduzir ao seu Reino celestial, não destruiu todas as dificuldades das Questões Naturais; mas as deixou para exercitar nossa Diligência e Razão; o objetivo de sua pregação era apenas nos mostrar este caminho claro e direto para a Salvação, a saber, a crença deste Artigo, “que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo, enviado ao mundo para se sacrificar por nossos Pecados, e em sua vinda, reinar gloriosamente sobre seus Eleitos e salvá-los eternamente de seus Inimigos:” Para o qual, a opinião de Possessão por Espíritos ou Fantasmas não é um impedimento no caminho; embora para alguns seja uma ocasião para se desviarem e seguirem suas próprias invenções. Se exigirmos das Escrituras uma resposta para todas as questões que possam surgir para nos perturbar no cumprimento dos mandamentos de Deus; Podemos igualmente reclamar de Moisés por não ter registrado o tempo da criação de tais Espíritos, assim como da Criação da Terra, do Mar, dos Homens e dos Animais. Para concluir, encontro nas Escrituras que existem Anjos e Espíritos, bons e maus; mas não que sejam incorpóreos, como as aparições que os homens veem no escuro, em sonhos ou visões, que os latinos chamam de espectros e consideravam demônios. E encontro que existem Espíritos corpóreos (embora sutis e invisíveis), mas não que o corpo de qualquer homem tenha sido possuído ou habitado por eles; e que os corpos dos Santos serão tais, ou seja, corpos espirituais, como São Paulo os chama.

O poder de expulsar demônios não é o mesmo que era na Igreja primitiva.

Não obstante, a doutrina contrária, ou seja, a de que existem espíritos incorpóreos, prevaleceu até agora na Igreja de tal forma que o uso do exorcismo (isto é, da expulsão de demônios por conjuração) se fundamenta nela; e (embora raramente e timidamente praticado) ainda não foi totalmente abandonado. O fato de haver muitos demônios na Igreja primitiva e poucos loucos e outras doenças singulares semelhantes; enquanto que hoje em dia ouvimos falar e vemos muitos loucos e poucos demônios, não decorre da mudança de natureza, mas de nomes. Mas como se explica que, enquanto antes os apóstolos, e depois deles por um tempo os pastores da Igreja, curavam essas doenças singulares, agora não se vê mais que o façam? Da mesma forma, por que não está ao alcance de todo verdadeiro crente, hoje, fazer tudo o que os fiéis faziam naquela época, ou seja, como lemos em Marcos 16:17: “Em nome de Cristo, expulsar demônios, falar novas línguas, pegar em serpentes, beber veneno mortal sem sofrer dano e curar os enfermos pela imposição das mãos”, e tudo isso sem outras palavras, apenas “em nome de Jesus”, é outra questão. E é provável que esses dons extraordinários tenham sido dados à Igreja apenas enquanto os homens confiavam totalmente em Cristo e esperavam sua felicidade somente em seu Reino vindouro; e, consequentemente, quando buscaram autoridade e riquezas, e confiaram em sua própria astúcia para um Reino deste mundo, esses dons sobrenaturais de Deus lhes foram novamente retirados.

Outra relíquia do gentilismo, imagens de adoração, deixadas na igreja, não trazidas para dentro dela.

Outro resquício do gentilismo é a adoração de imagens, não instituída por Moisés no Antigo Testamento, nem por Cristo no Novo Testamento; nem trazida dos gentios, mas deixada entre eles depois que deram seus nomes a Cristo. Antes da pregação de nosso Salvador, a religião geral dos gentios era adorar como deuses aquelas aparências que permanecem no cérebro pela impressão de corpos externos sobre os órgãos dos sentidos, comumente chamadas de ideias, ídolos, fantasmas, concepções, por serem representações desses corpos externos que as causam, e que nada têm de real, assim como não há nada de real nas coisas que parecem estar diante de nós em um sonho. E esta é a razão pela qual São Paulo diz: "Sabemos que um ídolo não é nada". Não que ele pensasse que uma imagem de metal, pedra ou madeira não fosse nada; Mas aquilo que eles honravam ou temiam na Imagem, e consideravam um Deus, era uma mera invenção, sem lugar, morada, movimento ou existência, senão nos movimentos da mente. E a adoração dessas imagens com honra divina é o que as Escrituras chamam de idolatria e rebelião contra Deus. Pois Deus, sendo Rei dos Judeus, e seu primeiro representante sendo Moisés e, posteriormente, o Sumo Sacerdote, se o povo tivesse permissão para adorar e orar a imagens (que são representações de suas próprias fantasias), não teria mais nenhuma dependência do verdadeiro Deus, de quem não pode haver semelhança; nem de seus principais ministros, Moisés e os Sumos Sacerdotes; mas cada um governaria a si mesmo segundo seus próprios apetites, para a completa perversão da comunidade e sua própria destruição por falta de união. Portanto, a primeira Lei de Deus foi: “Não tomem por deuses ALIENOS DEOS, isto é, os deuses de outras nações, mas o único Deus verdadeiro, que se dignou a comunicar-se com Moisés e, por meio dele, dar-lhes leis e instruções para a sua paz e para a sua salvação dos seus inimigos”. E a segunda foi: “Não façam para si imagem alguma para adorar, de sua própria invenção”. Pois é o mesmo que depor um rei submeter-se a outro rei, seja ele estabelecido por uma nação vizinha ou por nós mesmos.

Resposta a certos textos aparentemente falsos para imagens

As passagens das Escrituras que supostamente permitem a instalação de imagens, a adoração delas ou mesmo a sua instalação nos locais de culto a Deus, são, em primeiro lugar, dois exemplos: os querubins sobre a Arca da Aliança e a serpente de bronze. Em segundo lugar, alguns textos que nos ordenam a adorar certas criaturas por sua relação com Deus, como, por exemplo, adorar o seu estrado. E, por fim, outros textos que autorizam a veneração religiosa de coisas sagradas. Mas, antes de examinar a força dessas passagens para provar o que se alega, devo primeiro explicar o que se entende por adoração e o que se entende por imagens e ídolos.

O que é adoração?

Já demonstrei no capítulo 20 deste Discurso que honrar é valorizar muito o poder de qualquer pessoa; e que tal valor é medido pela comparação dessa pessoa com as outras. Mas, como não há nada comparável a Deus em poder, não o honramos, mas o desonramos por qualquer valor inferior ao infinito. Assim, a honra é propriamente de natureza secreta e interna, no coração. Mas os pensamentos íntimos dos homens, que se manifestam exteriormente em suas palavras e ações, são os sinais de nossa honra, e estes são chamados de culto, em latim, culto. Portanto, orar, jurar por, obedecer, ser diligente e oficioso no serviço: em suma, todas as palavras e ações que denotam temor de ofender ou desejo de agradar são culto, sejam elas sinceras ou fingidas; e, por se manifestarem como sinais de honra, são geralmente chamadas de honra.

Distinção entre culto divino e culto civil

A adoração que prestamos àqueles que consideramos apenas homens, como reis e homens em posição de autoridade, é adoração civil; mas a adoração que prestamos àquilo que consideramos Deus, quaisquer que sejam as palavras, cerimônias, gestos ou outras ações, é adoração divina. Prostrar-se diante de um rei, para aquele que o considera apenas um homem, é apenas adoração civil; e aquele que simplesmente tira o chapéu na igreja, por considerá-la a Casa de Deus, adora com adoração divina. Aqueles que buscam a distinção entre adoração divina e civil não na intenção do adorador, mas nas palavras *douleia* e *latreia*, enganam-se a si mesmos. Pois, embora existam dois tipos de servos; Aquele tipo, que é composto por aqueles que estão absolutamente sob o poder de seus Senhores, como Escravos capturados na guerra, e seus descendentes, cujos corpos não estão em seu próprio poder (suas vidas dependendo da Vontade de seus Senhores, de tal forma que os perdem na menor desobediência), e que são comprados e vendidos como Animais, eram chamados de Douloi, isto é, propriamente, Escravos, e seu Serviço, Douleia. O outro tipo, que é composto por aqueles que servem (por remuneração ou na esperança de benefício de seus Senhores) voluntariamente, são chamados de Thetes, isto é, Servos Domésticos; sobre cujo serviço os Senhores não têm mais direito do que o contido nos Pactos feitos entre eles. Esses dois tipos de servos têm algo em comum: seu trabalho lhes é designado por outro, seja como escravo ou como servo voluntário. A palavra "latris" é o nome geral de ambos, significando aquele que trabalha para outro, seja como escravo ou como servo voluntário. Assim, "latreia" significa geralmente todo serviço; já "douleia" refere-se apenas ao serviço de escravos e à condição de escravidão. Ambos os termos são usados ​​nas Escrituras (para significar nosso serviço a Deus) de forma indiscriminada: "douleia", porque somos escravos de Deus; "latreia", porque o servimos. E em todos os tipos de serviço está contida não apenas a obediência, mas também a adoração, ou seja, ações, gestos e palavras que significam honra.

Uma Imagem Que Fantasmas

Uma IMAGEM (no sentido mais estrito da palavra) é a semelhança de algo visível: nesse sentido, as formas fantásticas, aparições ou aparências de corpos visíveis à vista são apenas imagens; tais como a imagem de um homem ou outra coisa na água, por reflexão ou refração; ou do Sol ou das estrelas pela visão direta no ar; que nada são reais nas coisas vistas, nem no lugar onde parecem estar; nem suas magnitudes e figuras são as mesmas do objeto; mas mutáveis, pela variação dos órgãos da visão ou por meio de lentes; e estão frequentemente presentes em nossa imaginação e em nossos sonhos, quando o objeto está ausente; ou transformadas em outras cores e formas, como coisas que dependem unicamente da fantasia. E essas são as imagens que são originalmente e mais propriamente chamadas de ideias e ídolos, e derivadas da língua dos gregos, para os quais a palavra Eido significa ver. Também são chamadas de FANTASMAS, que na mesma língua significa Aparições. E é a partir dessas Imagens que uma das faculdades da natureza humana é chamada de Imaginação. E daí se manifesta que não existe, nem pode existir, qualquer Imagem feita de uma coisa Invisível.

É evidente também que não pode haver Imagem de uma coisa Infinita: pois todas as Imagens e Fantasmas que são criados pela Impressão de coisas visíveis são figuradas; mas Figura é uma quantidade determinada em todos os sentidos: E, portanto, não pode haver Imagem de Deus, nem da Alma do Homem, nem de Espíritos, mas apenas de Corpos Visíveis, isto é, Corpos que têm luz em si mesmos, ou que são iluminados por ela.

Ficções; Imagens Materiais

E assim como um homem pode imaginar formas que nunca viu, criando uma figura a partir de partes de diversas criaturas, como os poetas criam seus centauros, quimeras e outros monstros nunca vistos, também ele pode dar matéria a essas formas e fazê-las em madeira, argila ou metal. E estas também são chamadas de imagens, não pela semelhança com qualquer coisa corpórea, mas pela semelhança com alguns habitantes fantásticos do cérebro do criador. Mas nesses ídolos, como eles são originalmente no cérebro, e como são pintados, esculpidos, moldados ou fundidos em matéria, há uma semelhança entre eles, pela qual o corpo material feito pela arte pode ser considerado a imagem do ídolo fantástico feito pela natureza.

Mas, num sentido mais amplo, a palavra "imagem" também engloba qualquer representação de uma coisa por outra. Assim, um soberano terreno pode ser chamado de "imagem de Deus", e um magistrado inferior, de "imagem de um soberano terreno". E muitas vezes, na idolatria dos gentios, pouco se dava importância à semelhança do ídolo material com o ídolo que eles idealizavam, e ainda assim o ídolo era chamado de sua imagem. Pois uma pedra bruta foi erguida para Netuno, e diversas outras formas muito diferentes das formas que eles concebiam para seus deuses. E hoje vemos muitas imagens da Virgem Maria e de outros santos, diferentes entre si e sem correspondência com a imaginação de qualquer pessoa; e ainda assim, servem bem ao propósito para o qual foram erguidas, que era nada mais do que representar, apenas pelos nomes, as pessoas mencionadas na história; às quais cada um aplica uma imagem mental de sua própria criação, ou nenhuma. Assim, uma imagem, no sentido mais amplo, é a semelhança ou a representação de algo visível; ou ambas simultaneamente, como ocorre na maioria dos casos.

Mas o nome Ídolo é ainda mais abrangente nas Escrituras, para significar também o Sol, ou uma Estrela, ou qualquer outra Criatura, visível ou invisível, quando são adoradas como Deuses.

Idolatria O quê?

Tendo mostrado o que é adoração e o que é uma imagem, irei agora juntá-los e examinar o que é a idolatria, que é proibida no segundo mandamento e em outras passagens das Escrituras.

Adorar uma Imagem é praticar voluntariamente atos externos que são sinais de honra à matéria da Imagem, seja ela madeira, pedra ou metal, ou alguma outra criatura visível; ou ao Fantasma do cérebro, cuja semelhança ou representação deu origem à matéria; ou a ambos em conjunto, como um único Corpo animado, composto da Matéria e do Fantasma, como um Corpo e uma Alma.

Estar descoberto diante de um homem de poder e autoridade, ou diante do trono de um príncipe, ou em outros lugares que ele designar para esse fim em sua ausência, é adorar esse homem ou príncipe com culto civil; sendo um sinal não de honrar o trono ou o lugar, mas a pessoa; e não é idolatria. Mas se aquele que o faz supor que a alma do príncipe esteja no trono, ou apresentar uma petição ao trono, isso seria culto divino e idolatria.

Orar a um rei por coisas que ele pode fazer por nós, mesmo que nos prostremos diante dele, é apenas culto civil, pois não reconhecemos nele nenhum outro poder além do humano. Mas orar voluntariamente a ele por bom tempo ou por qualquer coisa que só Deus pode fazer por nós é culto divino e idolatria. Por outro lado, se um rei obriga um homem a isso pelo terror da morte ou por outra grande punição corporal, não é idolatria. Pois o culto que o soberano ordena que seja feito a ele pelo terror de suas leis não é sinal de que aquele que o obedece o honra interiormente como um Deus, mas sim de que deseja salvar-se da morte ou de uma vida miserável; e aquilo que não é sinal de honra interior não é culto e, portanto, não é idolatria. Nem se pode dizer que aquele que o faz escandaliza ou coloca qualquer obstáculo diante de seu Irmão; porque, por mais sábio ou instruído que seja aquele que adora dessa maneira, ninguém pode argumentar, a partir disso, que ele o aprova; mas sim que o faz por medo; e que não é um ato seu, mas sim um ato do Soberano.

Adorar a Deus em um lugar peculiar, ou voltar o rosto para uma imagem ou um lugar determinado, não é adorar ou honrar o lugar ou a imagem em si, mas reconhecê-lo como sagrado, ou seja, reconhecer que a imagem ou o lugar são separados do uso comum. Esse é o significado da palavra "santo", que não implica nenhuma nova qualidade no lugar ou na imagem, mas apenas uma nova relação com Deus por apropriação. Portanto, não é idolatria, assim como não era idolatria adorar a Deus diante da serpente de bronze, ou para os judeus, quando estavam fora de sua terra, voltarem seus rostos (ao orar) para o Templo de Jerusalém, ou para Moisés tirar as sandálias quando estava diante da sarça ardente, o terreno pertencente ao Monte Sinai. Esse lugar Deus escolheu para aparecer e dar suas leis ao povo de Israel, e, portanto, era terra sagrada, não por santidade inerente, mas por separação para o uso de Deus. ou para os cristãos adorarem nas igrejas, que são solenemente dedicadas a Deus para esse propósito, pela autoridade do Rei ou outro verdadeiro representante da Igreja. Mas adorar a Deus inanimando ou inibindo tal imagem ou lugar; isto é, uma substância infinita em um lugar finito, é idolatria: pois tais deuses finitos são apenas ídolos da mente, nada de real; e são comumente chamados nas Escrituras pelos nomes de Vaidade, Mentira e Nada. Também adorar a Deus não como inanimado ou presente no lugar ou na imagem; mas com o objetivo de ser lembrado dele, ou de alguma de suas obras, caso o lugar ou a imagem sejam dedicados ou erguidos por autoridade privada, e não pela autoridade daqueles que são nossos Pastores Soberanos, é idolatria. Pois o mandamento é: “Não farás para ti imagem esculpida”. Deus ordenou a Moisés que erguesse a Serpente de Bronze; ele não a fez para si mesmo; Portanto, não era contrário ao Mandamento. Mas a confecção do Bezerro de Ouro por Arão e pelo povo, por ter sido feita sem a autoridade de Deus, era idolatria; não apenas porque o consideravam como um símbolo de Deus, mas também porque o fizeram para uso religioso, sem autorização nem de Deus, seu Soberano, nem de Moisés, que era seu escudeiro.

Os gentios adoravam como deuses Júpiter e outros; aqueles que, vivos, talvez tivessem realizado grandes e gloriosos feitos; e como filhos de Deus, diversos homens e mulheres, supondo que se colocassem entre uma divindade imortal e um homem mortal. Isso era idolatria, porque eles os criaram assim para si mesmos, sem nenhuma autoridade de Deus, nem em Sua eterna Lei da Razão, nem em Sua Vontade positiva e revelada. Mas, embora nosso Salvador tenha sido um homem, a quem também cremos ser Deus imortal e Filho de Deus, isso não é idolatria, porque não fundamentamos essa crença em nossa própria fantasia ou julgamento, mas na Palavra de Deus revelada nas Escrituras. E quanto à adoração da Eucaristia, se as palavras de Cristo, "Este é o meu Corpo", significam "que ele próprio, e o aparente pão em sua mão; e não apenas isso, mas que todos os aparentes pedaços de pão que já foram, e que jamais serão, consagrados por sacerdotes, são corpos de Cristo, e ainda assim todos eles um só corpo", então não é idolatria, porque é autorizada por nosso Salvador; mas se esse texto não significa isso (pois não há outro que possa ser alegado em seu lugar), então, por ser uma adoração de uma instituição humana, é idolatria. Pois não basta dizer que Deus pode transubstanciar o pão no Corpo de Cristo: os gentios também consideravam Deus onipotente; e, com base nisso, não menos justificavam sua idolatria, alegando, assim como outros, a transubstanciação de sua madeira e pedra em Deus Todo-Poderoso.

Considerando que há quem pretenda que a Inspiração Divina seja uma entrada sobrenatural do Espírito Santo no homem, e não uma aquisição da graça de Deus por meio da doutrina e do estudo, creio que se encontram num dilema muito perigoso. Pois, se não adorarem os homens que acreditam ser inspirados por Deus, cairão na impiedade, por não adorarem a presença sobrenatural de Deus. E, ainda, se os adorarem, cometerão idolatria, pois os Apóstolos jamais permitiriam ser adorados dessa forma. Portanto, o caminho mais seguro é crer que, pela descida da pomba sobre os Apóstolos, pelo sopro de Cristo sobre eles, quando lhes deu o Espírito Santo, e pela imposição das mãos, compreendem-se os sinais que Deus se dignou usar, ou ordenar que fossem usados, de Sua promessa de auxiliar essas pessoas em seu estudo para pregar o Seu Reino e em sua conduta, para que não seja escandalosa, mas edificante para os outros.

Adoração escandalosa de imagens

Além da adoração idólatra de imagens, existe também a adoração escandalosa delas, que também é um pecado, mas não idolatria. Pois idolatria é adorar por meio de sinais de uma honra interna e real; já a adoração escandalosa é apenas uma adoração aparente, podendo, por vezes, vir acompanhada de uma profunda e sincera aversão tanto à imagem quanto ao demônio fantástico ou ídolo ao qual é dedicada, e procede unicamente do medo da morte ou de outro castigo severo. Contudo, é pecado para aqueles que assim adoram, caso sejam homens cujas ações sejam vistas por outros como faróis a serem guiados, pois, seguindo seus caminhos, inevitavelmente tropeçarão e cairão no caminho da religião. Ao passo que o exemplo daqueles que não consideramos não nos influencia em nada, mas nos deixa à nossa própria diligência e cautela, e, consequentemente, não são causas de nossa queda.

Portanto, se um pastor legitimamente chamado para ensinar e orientar outros, ou qualquer outra pessoa cujo conhecimento seja amplamente reconhecido, prestar homenagem externa a um ídolo por medo, a menos que torne seu medo e sua relutância tão evidentes quanto a própria adoração, ele escandaliza seu irmão, aparentando aprovar a idolatria. Pois seu irmão, argumentando a partir da ação de seu mestre, ou daquele cujo conhecimento ele estima ser grande, conclui que tal ato é lícito em si mesmo. E esse escândalo é pecado, e um escândalo é cometido. Mas se alguém, não sendo pastor nem possuindo eminente reputação por seu conhecimento da doutrina cristã, fizer o mesmo, e outro o seguir, isso não constitui escândalo. pois ele não tinha motivo para seguir tal exemplo; trata-se, porém, de uma pretensão de escândalo que ele usa como desculpa perante os homens. Um homem sem instrução, sob o poder de um rei ou Estado idólatra, se obrigado sob pena de morte a adorar um ídolo, e o detesta em seu coração, age corretamente; contudo, se tivesse a fortaleza de preferir a morte à adoração, agiria melhor. Mas se um pastor, que como mensageiro de Cristo se comprometeu a ensinar a doutrina de Cristo a todas as nações, fizesse o mesmo, não seria apenas um escândalo pecaminoso em relação à consciência de outros cristãos, mas também um abandono pérfido de sua missão.

Em resumo, o que eu disse até agora sobre a adoração de imagens é o seguinte: aquele que adora uma imagem, ou qualquer criatura, seja a sua essência, seja qualquer fantasia própria que ele pense habitar nela, ou ambas juntas; ou que acredita que tais coisas ouvem suas orações ou veem suas devoções sem ouvidos ou olhos, comete idolatria. E aquele que falsifica tal adoração por medo de punição, se for um homem cujo exemplo tem poder entre seus irmãos, comete um pecado. Mas aquele que adora o Criador do mundo diante de tal imagem, ou em tal lugar que ele não fez ou escolheu por si mesmo, mas tomou do mandamento da Palavra de Deus, como os judeus faziam ao adorar a Deus diante dos querubins e diante da serpente de bronze por um tempo, e no Templo de Jerusalém ou em direção a ele, o que também foi apenas por um tempo, não comete idolatria.

Agora, quanto à adoração de santos, imagens, relíquias e outras coisas praticadas hoje na Igreja de Roma, digo que não são permitidas pela Palavra de Deus, não foram introduzidas na Igreja de Roma a partir da doutrina ali ensinada; mas foram parcialmente mantidas nela na primeira conversão dos gentios; e posteriormente toleradas, confirmadas e ampliadas pelos bispos de Roma.

Resposta ao argumento dos querubins e da serpente de bronze

Quanto às provas alegadas nas Escrituras, ou seja, os exemplos de imagens designadas por Deus para serem erguidas, elas não foram erguidas para o povo ou qualquer outro homem adorar, mas sim para que adorassem o próprio Deus diante delas, como diante dos querubins sobre a Arca e da Serpente de Bronze. Pois não lemos que o sacerdote ou qualquer outro tenha adorado os querubins; pelo contrário, lemos (2 Reis 18:4) que Ezequias quebrou em pedaços a Serpente de Bronze que Moisés havia erguido, porque o povo queimou incenso diante dela. Além disso, esses exemplos não são dados para nossa imitação, para que também ergamos imagens sob o pretexto de adorar a Deus diante delas, porque as palavras do segundo mandamento, "Não farás para ti imagem esculpida, etc.", distinguem entre as imagens que Deus ordenou que fossem erguidas e aquelas que erguimos para nós mesmos. Portanto, dos querubins ou da Serpente de Bronze às imagens criadas pelo homem; E, partindo da adoração ordenada por Deus para a adoração voluntária dos homens, o argumento não se sustenta. Deve-se considerar também que, assim como Ezequias quebrou em pedaços a Serpente de Bronze porque os judeus a adoravam, para que não o fizessem mais, da mesma forma os soberanos cristãos deveriam destruir as imagens que seus súditos costumavam adorar, para que não haja mais ocasião para tal idolatria. Pois, hoje em dia, as pessoas ignorantes, onde imagens são adoradas, realmente acreditam que há um poder divino nelas; e seus pastores lhes dizem que algumas delas falaram, sangraram e realizaram milagres, que eles atribuem ao santo, que eles pensam ser a própria imagem ou estar nela. Os israelitas, quando adoravam o bezerro, pensavam que adoravam o Deus que os libertou do Egito; contudo, era idolatria, porque acreditavam que o bezerro era esse Deus ou o continha em seu ventre. E embora alguém possa achar impossível que as pessoas sejam tão tolas a ponto de pensar que a Imagem seja Deus ou um Santo, ou de adorá-la dessa forma, as Escrituras demonstram o contrário: quando o Bezerro de Ouro foi feito, o povo disse (Êxodo 32:2): "Estes são os teus deuses, ó Israel"; e as imagens de Labão (Gênesis 31:30) são chamadas de seus deuses. E vemos diariamente, pela experiência, em todos os tipos de pessoas, que aqueles que não se preocupam com nada além de sua comida e conforto se contentam em acreditar em qualquer absurdo, em vez de se darem ao trabalho de examiná-lo, considerando sua fé como se fosse inalienável por herança, exceto por uma lei expressa e nova.

Pinturas de fantasias não são idolatria: usá-las para culto religioso é

Mas eles inferem de outros lugares que é lícito pintar anjos, e também o próprio Deus: como a imagem de Deus caminhando no Jardim; a visão de Jacó sobre Deus no topo da escada; e outras visões e sonhos. Mas visões e sonhos, sejam naturais ou sobrenaturais, são apenas fantasias; e aquele que pinta uma imagem de qualquer um deles não faz uma imagem de Deus, mas de sua própria fantasia, que é fazer um ídolo. Não digo que desenhar uma imagem segundo uma fantasia seja pecado; mas, quando desenhada, considerá-la uma representação de Deus é contrário ao segundo mandamento e não tem outra utilidade senão a adoração. E o mesmo pode ser dito das imagens de anjos e de homens mortos, a menos que sejam monumentos de amigos ou de homens dignos de lembrança: pois tal uso de uma imagem não é adoração da imagem. mas uma homenagem civil à Pessoa, não isto é, mas aquilo era: Mas quando isso é feito à Imagem que fazemos de um Santo, por nenhuma outra razão, senão porque pensamos que ele ouve nossas orações e se agrada da homenagem que lhe prestamos, quando morto e sem consciência, atribuímos a ele mais do que poder humano; e, portanto, é Idolatria.

Visto que não há autoridade, nem na Lei de Moisés, nem no Evangelho, para o culto religioso de imagens ou outras representações de Deus que os homens criam para si; ​​ou para o culto da imagem de qualquer criatura no céu, na terra ou debaixo da terra; e considerando que os reis cristãos, que são representantes vivos de Deus, não devem ser adorados por seus súditos por qualquer ato que signifique uma estima de seu poder maior do que a natureza do homem mortal é capaz de ter; não se pode imaginar que o culto religioso atualmente em uso tenha sido introduzido na Igreja por um mal-entendido das Escrituras. Conclui-se, portanto, que ele permaneceu na Igreja pela não destruição das próprias imagens e pela conversão dos gentios que as adoravam.

Como a idolatria foi deixada na Igreja

A causa disso foi a estima desmedida e os preços exorbitantes atribuídos à sua confecção, o que levou os proprietários (embora convertidos, deixando de venerá-las religiosamente como faziam para venerar demônios) a mantê-las em suas casas, sob o pretexto de fazê-lo em honra a Cristo, à Virgem Maria, aos Apóstolos e a outros pastores da Igreja Primitiva; pois era fácil, dando-lhes novos nomes, transformar aquela imagem que antes talvez fosse chamada de Vênus e Cupido em uma imagem da Virgem Maria e de seu Filho, nosso Salvador; e assim por diante, transformando uma imagem de Júpiter em Barnabé, uma de Mercúrio em Paulo, e assim por diante. E como a ambição mundana, infiltrando-se gradualmente nos pastores, os levou a tentar agradar aos novos cristãos; e também a uma predileção por esse tipo de honra, que eles também poderiam almejar após a morte, assim como aqueles que já a haviam conquistado: assim, a adoração das imagens de Cristo e seus apóstolos torna-se cada vez mais idólatra; exceto que, um pouco depois da época de Constantino, diversos imperadores, bispos e concílios gerais observaram e se opuseram à sua ilegalidade; mas tarde demais ou de forma muito tímida.

Canonização de Santos

A canonização de santos é outra relíquia do gentilismo: não se trata de um mal-entendido das Escrituras, nem de uma invenção recente da Igreja Romana, mas de um costume tão antigo quanto a própria República de Roma. O primeiro a ser canonizado em Roma foi Rômulo, e isso segundo o relato de Júlio Próculo, que jurou perante o Senado que conversou com ele após sua morte e foi assegurado por ele de que habitava o Céu, onde era chamado de Quirino, e que seria propício ao Estado da nova cidade. Em seguida, o Senado deu testemunho público de sua santidade. Júlio César e outros imperadores depois dele tiveram testemunho semelhante; isto é, foram canonizados como santos, conforme definido, e é o mesmo que a apoteose dos pagãos.

O Nome do Pontífice

Foi também dos pagãos romanos que os Papas receberam o nome e o poder de Pontífice Máximo. Este era o nome daquele que, na antiga República Romana, detinha a Suprema Autoridade perante o Senado e o Povo para regulamentar todas as cerimônias e doutrinas concernentes à sua religião. E quando Augusto César transformou o Estado em monarquia, assumiu para si apenas este cargo e o de Tribuno do Povo (ou seja, o Poder Supremo tanto no Estado quanto na religião), e os imperadores subsequentes desfrutaram do mesmo. Mas quando viveu o Imperador Constantino, o primeiro a professar e autorizar a religião cristã, era coerente com sua profissão que a religião fosse regulamentada (sob sua autoridade) pelo Bispo de Roma. Embora não pareça que tenham recebido o nome de Pontífice tão cedo, os bispos subsequentes o adotaram para reforçar o poder que exerciam sobre os bispos das províncias romanas. Pois não foi nenhum privilégio de São Pedro, mas sim o privilégio da cidade de Roma, que os imperadores sempre estiveram dispostos a defender, que lhes conferiu tal autoridade sobre outros bispos; como se pode ver claramente pelo fato de o bispo de Constantinopla, quando o imperador fez daquela cidade a sede do Império, ter pretendido ser igual ao bispo de Roma; embora, por fim, não sem contenda, o Papa tenha vencido e se tornado o Pontífice Máximo; mas apenas por direito do Imperador; e não fora dos limites do Império; nem em qualquer lugar, depois que o Imperador perdeu seu poder em Roma; embora tenha sido o próprio Papa quem lhe tomou o poder. Daí podemos observar, aliás, que não há lugar para a superioridade do Papa sobre outros bispos, exceto nos territórios dos quais ele próprio é o soberano civil; e onde o Imperador, tendo Poder Civil Soberano, escolheu expressamente o Papa como o principal Pastor, sob sua jurisdição, de seus súditos cristãos.

Procissão de Imagens

O transporte de imagens em procissão é outra relíquia da religião dos gregos e romanos: pois eles também carregavam seus ídolos de um lugar para outro em uma espécie de carruagem dedicada a esse fim, que os latinos chamavam de Thensa e Vehiculum Deorum; e a imagem era colocada em uma moldura ou relicário, que eles chamavam de Ferculum. E o que eles chamavam de Pompa é o mesmo que hoje é chamado de procissão. De acordo com isso, entre as honras divinas concedidas a Júlio César pelo Senado, uma delas era que, na Pompa (ou procissão) dos Jogos Circeanos, ele deveria ter Thensa e Ferculum, uma carruagem sagrada e um relicário, que era tão importante quanto ser carregado para cima e para baixo como um deus: assim como hoje os Papas são carregados pelos suíços sob um dossel.

Velas de cera e tochas acesas

A essas procissões pertencia também o porte de tochas e velas acesas diante das imagens dos deuses, tanto entre os gregos quanto entre os romanos. Pois, posteriormente, os imperadores de Roma receberam a mesma honra; como lemos sobre Calígula, que, ao ser recebido no Império, foi levado de Miseno para Roma, em meio a uma multidão de pessoas, com os caminhos repletos de altares, animais para sacrifício e tochas acesas; e sobre Caracala, que foi recebido em Alexandria com incenso, flores e dadouchiais, isto é, com tochas; pois os dadochoi eram aqueles que, entre os gregos, carregavam tochas acesas nas procissões de seus deuses. E, com o passar do tempo, o povo devoto, porém ignorante, muitas vezes honrou seus bispos com a mesma pompa de velas de cera e as imagens de nosso Salvador e dos santos, constantemente, na própria igreja. E assim surgiu o uso de velas de cera. e também foi estabelecida por alguns dos antigos conselheiros.

Os pagãos também tinham sua Água Lustral, ou seja, Água Benta. A Igreja de Roma os imita também em seus dias santos. Eles tinham suas Bacanais; e nós temos nossos Velórios, correspondentes a eles: eles suas Saturnálias, e nós nossos Carnavais e Terças-feiras Gordas, com a liberdade dos servos: eles sua Procissão de Príapo; nós nossa entrada, ereção e dança em torno do mastro de maio; e a dança é uma forma de culto: eles tinham sua Procissão chamada Ambarvalia; e nós nossa Procissão pelos campos na Semana das Rogações. Nem creio que essas sejam todas as cerimônias que restaram na Igreja desde a primeira conversão dos gentios; mas são todas as que consigo lembrar por ora. E se um homem observasse atentamente o que é relatado nas Histórias, a respeito dos ritos religiosos dos gregos e romanos, não duvido que encontraria muitos outros desses velhos odres vazios de gentilismo, que os doutores da Igreja Romana, seja por negligência ou ambição, encheram novamente com o novo vinho do cristianismo, que inevitavelmente acabará por se romper.

CAPÍTULO XLVI.
DA ESCURIDÃO DA FILOSOFIA VÃ E DAS TRADIÇÕES FABULOSAS

O que é filosofia?

Por Filosofia entende-se “o conhecimento adquirido pelo raciocínio, desde a maneira de geração de qualquer coisa até suas propriedades; ou das propriedades até alguma forma possível de geração da mesma; com o objetivo de ser capaz de produzir, na medida em que a matéria e a força humana o permitam, os efeitos que a vida humana exige”. Assim, o geômetra, a partir da construção de figuras, descobre muitas de suas propriedades; e a partir das propriedades, novas maneiras de sua construção, pelo raciocínio; com o objetivo de poder medir terra e água; e para infinitos outros usos. Assim, o astrônomo, a partir do nascer, pôr e movimento do Sol e das estrelas em diversas partes dos céus, descobre as causas do dia e da noite e das diferentes estações do ano; com isso, ele mantém um registro do tempo; e o mesmo ocorre com outras ciências.

A prudência não faz parte da filosofia.

Por esta definição, fica evidente que não devemos considerar como parte dela o conhecimento original chamado Experiência, no qual consiste a Prudência: porque ela não é alcançada pelo Raciocínio, mas encontrada tanto nos Animais quanto no Homem; e é apenas uma Memória de sucessões de eventos em tempos passados, em que a omissão de cada pequena circunstância que altera o efeito frustra a expectativa do mais Prudente: enquanto que nada é produzido pelo Raciocínio corretamente, senão a Verdade geral, eterna e imutável.

Nenhuma doutrina falsa faz parte da filosofia.

Portanto, não devemos dar esse nome a quaisquer conclusões falsas: pois quem raciocina corretamente com as palavras que compreende, jamais poderá chegar a uma conclusão errônea.

A Revelação Não é Mais Sobrenatural

Nem àquilo que qualquer homem conhece por Revelação sobrenatural; porque não se adquire pelo Raciocínio:

Nem o aprendizado é atribuído aos autores.

Nem aquilo que se obtém pelo raciocínio baseado na autoridade dos livros; porque não se obtém pelo raciocínio da causa para o efeito, nem do efeito para a causa; e não é conhecimento, mas fé.

Dos primórdios e do progresso da filosofia

Sendo a faculdade do raciocínio consequência do uso da fala, não era possível que não existissem algumas verdades gerais descobertas pelo raciocínio, quase tão antigas quanto a própria linguagem. Os povos indígenas da América não são desprovidos de bons provérbios morais; também possuem um pouco de aritmética, para somar e dividir em números não muito grandes; mas não são, por isso, filósofos. Pois assim como havia plantas de milho e uvas em pequena quantidade dispersas nos campos e bosques, antes que os homens conhecessem suas virtudes, ou as utilizassem para seu sustento, ou as plantassem separadamente em campos e vinhedos; época em que se alimentavam de espigas e bebiam água; assim também houve diversas especulações verdadeiras, gerais e proveitosas desde o princípio, como sendo as plantas naturais da razão humana. Mas, a princípio, eram poucas em número; os homens viviam da experiência grosseira; não havia método. Ou seja, não havia semeadura nem plantio do conhecimento em si, à parte das ervas daninhas e das plantas comuns do erro e da conjectura. E a causa disso era a falta de tempo para obter o necessário para a vida e se defender dos vizinhos; era impossível, até a criação de grandes comunidades, que fosse diferente. O ócio é a mãe da filosofia; e a comunidade, a mãe da paz e do ócio. Onde primeiro existiram grandes e prósperas cidades, ali primeiro surgiu o estudo da filosofia. Os gimnosofistas da Índia, os magos da Pérsia e os sacerdotes da Caldeia e do Egito são considerados os filósofos mais antigos; e esses países foram os reinos mais antigos. A filosofia não surgiu para os gregos e outros povos do Ocidente, cujas comunidades (talvez não maiores que Lucca ou Genebra) nunca tiveram paz, a não ser quando seus temores uns pelos outros eram iguais. nem o ócio de observar qualquer coisa além uns dos outros. Por fim, quando Warre uniu muitas dessas cidades gregas menores em um número menor de cidades maiores, sete homens, de diversas partes da Grécia, começaram a ganhar a reputação de sábios; alguns deles por seus ensinamentos morais e políticos, e outros pelo conhecimento dos caldeus e egípcios, que era a astronomia e a geometria. Mas ainda não ouvimos falar de nenhuma escola de filosofia.

Das escolas de filosofia entre os atenienses

Após os atenienses, com a derrota dos exércitos persas, terem conquistado o domínio do mar e, consequentemente, de todas as ilhas e cidades marítimas do arquipélago, bem como da Ásia e da Europa, e terem enriquecido, aqueles que não tinham emprego, nem em casa nem no estrangeiro, pouco mais tinham para fazer senão (como diz São Lucas em Atos 17:21) “contar e ouvir notícias” ou discursar publicamente sobre filosofia para os jovens da cidade. Cada mestre reservava um lugar para esse fim. Platão, em certos locais públicos chamados Academia, derivados de um certo Academus; Aristóteles, no caminho do Templo de Pã, chamado Liceu; outros, na Estoa, ou praça coberta, onde as mercadorias dos mercadores desembarcavam; outros, em outros lugares, onde passavam seu tempo livre ensinando ou debatendo suas opiniões; e alguns, em qualquer lugar onde pudessem reunir os jovens da cidade para ouvi-los falar. E foi isso que Carneades também fez em Roma, quando era embaixador: o que levou Catão a aconselhar o Senado a despachá-lo rapidamente, por medo de corromper os costumes dos jovens que se deliciavam em ouvi-lo falar (como eles pensavam) coisas belas.

Daí surgiu o nome que dava ao lugar onde ensinavam e debatiam: Schola, que em sua língua significa "Lazer"; e suas disputas, Diatribae, ou seja, "Passagem do Tempo". Os próprios filósofos também tinham o nome de suas seitas, alguns deles derivados de suas escolas: pois os que seguiam a doutrina de Platão eram chamados de Acadêmicos; os seguidores de Aristóteles, Peripatéticos, por causa do caminho onde ele ensinava; e os que ensinavam Zenão, Estoicos, por causa da Estoa: como se devêssemos denominar homens de Morefields, de Pauls-Church e da Bolsa de Valores, porque se encontravam ali frequentemente para tagarelar e vadiar.

Contudo, os homens ficaram tão encantados com esse costume que, com o tempo, ele se espalhou por toda a Europa e por boa parte da África; de modo que escolas foram erguidas e mantidas publicamente para palestras e debates em quase todas as repúblicas.

Das escolas dos judeus

Existiram também escolas, antigamente, tanto antes como depois da época do nosso Salvador, entre os judeus; mas eram escolas da sua Lei. Pois, embora fossem chamadas de Sinagogas, isto é, Congregações do Povo, na medida em que a Lei era nelas lida, explicada e debatida todos os sábados, não diferiam em natureza, mas apenas no nome, das escolas públicas; e não existiam apenas em Jerusalém, mas em todas as cidades gentias onde os judeus habitavam. Havia uma dessas escolas em Damasco, onde Paulo entrou para perseguir. Havia outras em Antioquia, Icônio e Tessalônica, onde ele entrou para debater. E tal era a Sinagoga dos Libertinos, Cireneus, Alexandrinos, Cilícios e dos da Ásia; isto é, a Escola dos Libertinos e dos Judeus que eram estrangeiros em Jerusalém. E era dessa escola que debateram com Santo Estêvão.

A Escola dos Gregos Infrutífera

Mas qual foi a utilidade dessas escolas? Que ciência adquirimos hoje por meio de suas leituras e debates? A geometria que possuímos, a mãe de todas as ciências naturais, não devemos a essas escolas. Platão, o maior filósofo grego, proibiu a entrada em sua escola a todos que não fossem, em alguma medida, geômetras. Muitos estudaram essa ciência para grande proveito da humanidade, mas não há menção de suas escolas; nem existia uma seita de geômetras; nem mesmo eram chamados de filósofos. A filosofia natural dessas escolas era mais um sonho do que ciência, e apresentada em linguagem insensata e insignificante, o que não pode ser evitado por aqueles que desejam ensinar filosofia sem antes terem adquirido grande conhecimento em geometria: pois a natureza opera por meio do movimento; os caminhos e graus desse movimento não podem ser conhecidos sem o conhecimento das proporções e propriedades das linhas e figuras. Sua filosofia moral nada mais é do que uma descrição de suas próprias paixões. Pois a regra dos costumes, sem governo civil, é a lei da natureza; e nela, a lei civil; que determina o que é honesto e desonesto; o que é justo e injusto; e, em geral, o que é bom e mau: enquanto que eles criam as regras do bem e do mal por seus próprios gostos e desgostos: por meio das quais, em tão grande diversidade de gostos, não há nada em que se concorde geralmente; mas cada um faz (tanto quanto ousa) o que lhe parece bom aos próprios olhos, para a subversão da sociedade. Sua lógica, que deveria ser o método de raciocínio, nada mais é do que títulos de palavras e invenções para confundir aqueles que se atrevem a formulá-los. Para concluir, não há nada tão absurdo que os antigos filósofos (como diz Cícero, que era um deles) não tenham defendido. E creio que dificilmente se pode dizer algo mais absurdo em filosofia natural do que aquilo que hoje se chama de Metafísica de Aristóteles, nem algo mais repugnante ao governo do que muito do que ele disse em sua Política; nem algo mais ignorante do que grande parte de sua Ética.

As escolas dos judeus são infrutíferas

A Escola dos Judeus era originalmente uma Escola da Lei de Moisés, que ordenou (Deuteronômio 31:10) que, ao final de cada sétimo ano, na Festa dos Tabernáculos, ela fosse lida para todo o povo, para que a ouvissem e aprendessem. Portanto, a leitura da Lei (que era praticada após o Cativeiro) a cada sábado não deveria ter outro propósito senão o de familiarizar o povo com os mandamentos que deveriam obedecer e explicar-lhes os escritos dos profetas. Mas é evidente, pelas muitas repreensões que nosso Salvador lhes dirigiu, que corromperam o texto da Lei com seus comentários falsos e vãs tradições; e compreenderam tão pouco os profetas que não reconheceram a Cristo nem as obras que Ele realizou, sobre as quais os profetas profetizaram. Assim, por meio de suas palestras e debates em suas sinagogas, transformaram a doutrina de sua lei em uma espécie de filosofia fantástica, concernente à natureza incompreensível de Deus e dos espíritos; filosofia essa que compuseram da vã filosofia e teologia dos gregos, misturada com suas próprias fantasias, extraídas das passagens mais obscuras das Escrituras, e que poderiam ser mais facilmente distorcidas para seus propósitos; e das tradições fabulosas de seus ancestrais.

Universidade: O que é?

O que hoje chamamos de Universidade é, na verdade, uma junção e incorporação, sob um único governo, de muitas escolas públicas, em uma mesma cidade. Nela, as principais escolas eram destinadas às três profissões, ou seja, à religião romana, ao direito romano e à medicina. E para o estudo da filosofia, não havia outro lugar senão como auxiliar da religião romana. E como a autoridade de Aristóteles era a única vigente ali, esse estudo não era propriamente filosofia (cuja natureza não depende de autores), mas sim aristotelismo. E para a geometria, até tempos muito recentes, não havia lugar algum, por ser subserviente apenas à verdade rígida. E se alguém, pela engenhosidade de sua própria natureza, atingisse algum grau de perfeição nesse campo, era comumente considerado um mágico, e sua arte, diabólica.

Erros introduzidos na religião a partir da Metafísica de Aristóteles

Agora, para abordar os preceitos particulares da vã filosofia, derivados nas universidades e daí na Igreja, em parte de Aristóteles, em parte da cegueira do entendimento, considerarei primeiro seus princípios. Há uma certa Philosophia Prima, da qual toda a outra filosofia deveria depender; e consiste principalmente na correta delimitação dos significados de tais denominações, ou nomes, que são, dentre todos os outros, os mais universais: tais limitações servem para evitar ambiguidade e equívoco no raciocínio; e são comumente chamadas de definições; tais como as definições de corpo, tempo, lugar, matéria, forma, essência, sujeito, substância, acidente, poder, ato, finito, infinito, quantidade, qualidade, movimento, ação, paixão e diversas outras, necessárias para a explicação das concepções de um homem a respeito da natureza e da geração dos corpos. A explicação (isto é, a definição do significado) destas e de termos semelhantes é comumente chamada nas escolas de metafísica; como sendo parte da Filosofia de Aristóteles, que tem esse título: mas tem outro sentido; pois ali significa tanto quanto “Livros escritos ou colocados após sua Filosofia Natural”. Mas as escolas os consideram como Livros de Filosofia Sobrenatural: pois a palavra Metafísica carrega ambos os sentidos. E, de fato, o que ali está escrito está, em sua maior parte, tão longe da possibilidade de ser compreendido e tão repugnante à Razão Natural, que quem quer que pense que haja algo a ser compreendido por meio disso, necessariamente o considerará sobrenatural.

Erros Relativos a Essências Abstratas

A partir dessas Metafísicas, que se misturam com as Escrituras para formar a Teologia Escolar, somos informados de que existem no mundo certas Essências separadas dos Corpos, às quais chamam de Essências Abstratas e Formas Substanciais: Para a interpretação desse jargão, é necessária uma atenção um pouco maior do que a usual neste ponto. Peço também perdão àqueles que não estão acostumados a esse tipo de discurso, por me dirigir àqueles que estão. O Mundo (não me refiro apenas à Terra, que denomina seus amantes de Homens Mundanos, mas ao Universo, isto é, a totalidade de todas as coisas que existem) é Corpóreo, ou seja, Corpo; e possui as dimensões de Magnitude, a saber, Comprimento, Largura e Profundidade: também cada parte do Corpo é igualmente Corpo e possui as mesmas dimensões; e, consequentemente, cada parte do Universo é Corpo, e aquilo que não é Corpo não faz parte do Universo: E porque o Universo é tudo, aquilo que não faz parte dele é Nada; e, consequentemente, Lugar Nenhum. Daí não se segue que os Espíritos sejam Nada: pois eles têm dimensões e, portanto, são realmente Corpos; embora esse nome, na linguagem comum, seja dado apenas aos Corpos visíveis ou palpáveis, isto é, aos que têm algum grau de opacidade. Mas, para os Espíritos, chamam-nos de Incorpóreos, nome que é mais honroso e, portanto, pode ser atribuído com mais piedade ao próprio Deus; em quem não consideramos qual Atributo melhor expressa a Sua Natureza, que é Incompreensível, mas sim o que melhor expressa o nosso desejo de honrá-Lo.

Para sabermos agora com base em que fundamentos se afirma a existência de Essências Abstratas ou Formas Substanciais, devemos considerar o que essas palavras propriamente significam. O uso das palavras serve para registrarmos para nós mesmos e manifestarmos aos outros os pensamentos e concepções de nossas mentes. Dessas palavras, algumas são os nomes das coisas concebidas; como os nomes de todos os tipos de corpos que atuam sobre os sentidos e deixam uma impressão na imaginação. Outras são os nomes das próprias imaginações; isto é, das ideias ou imagens mentais que temos de todas as coisas que vemos ou lembramos. E outras ainda são nomes de nomes; ou de diferentes tipos de discurso: como Universal, Plural, Singular, Negação, Verdadeiro, Falso, Silogismo, Interrogação, Promessa, Aliança, que são os nomes de certas formas de discurso. Outras servem para mostrar a consequência ou a repugnância de um nome para com outro. Assim como quando alguém diz: “Um homem é um corpo”, pretende-se que o nome Corpo seja necessariamente consequência do nome Homem; sendo apenas nomes diferentes da mesma coisa, Homem; e essa consequência é significada pela junção deles com a palavra É. E assim como usamos o verbo É, os latinos usam o verbo É, e os gregos o verbo É, com todas as suas declinações. Se todas as outras nações do mundo têm em seus respectivos idiomas uma palavra equivalente ou não, não posso afirmar; mas tenho certeza de que não precisam dela: pois a colocação de dois nomes em ordem pode servir para significar sua consequência, se esse for o costume (pois é o costume que dá força às palavras), assim como as palavras É, É, São e similares.

E se assim fosse, que existisse uma língua sem nenhum verbo equivalente a "est", "is" ou "bee", ainda assim os homens que a usassem não seriam nem um pouco menos capazes de inferir, concluir e raciocinar de qualquer tipo do que os gregos e latinos. Mas o que seria então desses termos, de "entidade", "essência", "essencialmente", "essencialmente", que dela derivam, e de muitos outros que dependem destes, aplicados como são mais comumente? Portanto, não são nomes de coisas; Mas os sinais, pelos quais manifestamos, indicam que concebemos a consequência de um nome ou atributo sobre outro: como quando dizemos: “um homem é um corpo vivente”, não queremos dizer que o homem é uma coisa, o corpo vivente outra, e o ser uma terceira; mas que o homem e o corpo vivente são a mesma coisa: porque a consequência “se ele é um homem, ele é um corpo vivente” é uma verdadeira consequência, significada pela palavra “é”. Portanto, ser um corpo, andar, falar, viver, ver e outros infinitivos semelhantes; também corporeidade, andar, falar, vida, visão e outros semelhantes, que significam exatamente a mesma coisa, são nomes do nada; como já expressei mais amplamente em outro lugar.

Mas qual o propósito (alguém poderia perguntar) de tanta sutileza numa obra desta natureza, onde não pretendo nada além do necessário à doutrina do Governo e da Obediência? É para que os homens não se deixem mais enganar por aqueles que, com esta doutrina das Essências Separadas, construída sobre a vã filosofia de Aristóteles, querem impedi-los de obedecer às leis de seu país com nomes vazios; como se espanta os pássaros do milharal com um gibão vazio, um chapéu e uma vara torta. Pois é por isso que, quando um homem morre e é sepultado, dizem que sua alma (isto é, sua vida) pode caminhar separada de seu corpo e ser vista à noite entre os túmulos. Com base no mesmo argumento, afirmam que a aparência, a cor e o sabor de um pedaço de pão existem onde dizem não haver pão. E, com base no mesmo argumento, afirmam que a fé, a sabedoria e outras virtudes são, por vezes, impostas ao homem, outras vezes, sopradas do céu; como se os virtuosos e suas virtudes pudessem ser separados; e muitas outras coisas que servem para diminuir a dependência dos súditos em relação ao poder soberano de seu país. Pois quem se esforçará para obedecer às leis se esperar que a obediência lhe seja imposta ou soprada? Ou quem não obedecerá a um sacerdote que pode fazer Deus, em vez de seu soberano, ou mesmo do próprio Deus? Ou quem, que teme fantasmas, não terá grande respeito por aqueles que podem fazer a água benta que os afasta? E isto bastará como exemplo dos erros que são introduzidos na Igreja a partir das Entidades e Essências de Aristóteles: que ele talvez soubesse serem falsa filosofia, mas escreveu como algo consonante e corroborativo de sua religião, temendo o destino de Sócrates.

Uma vez incorridos nesse Erro de Essências Separadas, envolvem-se necessariamente em muitos outros absurdos que dele decorrem. Pois, desejando que essas Formas sejam reais, são obrigados a atribuir-lhes algum lugar. Mas, como as consideram Incorpóreas, sem qualquer dimensão de Quantidade, e todos sabem que Lugar é Dimensão, e não deve ser preenchido senão por aquilo que é Corpóreo, são compelidos a sustentar sua credibilidade com a distinção de que não são, de fato, Circunscritivas em nenhum lugar, mas Definitivas: Termos que, sendo meras Palavras e, nesta ocasião, insignificantes, só são usados ​​em latim, para que sua vaidade seja ocultada. Pois a Circunscrição de uma coisa nada mais é do que a Determinação ou Definição de seu Lugar; e, portanto, ambos os Termos da Distinção são os mesmos. E, em particular, da Essência de um Homem, que (dizem) é a sua Alma, afirmam que está toda ela no seu dedo mínimo e toda ela em cada uma das outras partes (por menores que sejam) do seu Corpo; e, no entanto, não há mais Alma no Corpo inteiro do que em qualquer uma dessas partes. Pode alguém pensar que Deus se contenta com tais absurdos? E, no entanto, tudo isso é necessário para crer na existência de uma Alma incorpórea, separada do Corpo.

E quando chegam para prestar contas de como uma substância incorpórea pode ser capaz de sentir dor e ser atormentada no fogo do Inferno ou do Purgatório, não têm absolutamente nada a responder, a não ser que é impossível saber como o fogo pode queimar almas.

Novamente, enquanto o Movimento é mudança de Lugar, e as Substâncias Incorpóreas não são capazes de Lugar, eles se preocupam em fazer parecer possível como uma Alma pode ir daqui, sem o Corpo, para o Céu, Inferno ou Purgatório; e como os Fantasmas dos homens (e eu posso acrescentar, das roupas que vestem) podem andar à noite em Igrejas, cemitérios e outros locais de sepultamento. A isso, não sei o que eles podem responder, a menos que digam que caminham de forma Definitiva, não Circunscritiva, ou Espiritualmente, não Temporalmente: pois tais distinções gritantes são igualmente aplicáveis ​​a qualquer dificuldade.

Nunc-stans

Quanto ao significado da Eternidade, eles não a aceitam como uma Sucessão Infinita de Tempo; pois então não seriam capazes de explicar como a Vontade de Deus e a Preordenação das coisas vindouras não poderiam preceder Sua Preciência das mesmas, como a Causa Eficiente antes do Efeito, ou o Agente antes da Ação; nem muitas outras de suas ousadas opiniões a respeito da Natureza Incompreensível de Deus. Mas eles nos ensinam que a Eternidade é a Imobilidade do Tempo Presente, um Nuncstans (como as Escolas o chamam), que nem eles, nem ninguém mais entendem, assim como não entenderiam um Hicstans por uma Grandeza Infinita de Lugar.

Um corpo em muitos lugares, e muitos corpos em um só lugar ao mesmo tempo.

E enquanto os homens dividem um Corpo em seu pensamento, enumerando suas partes, e ao enumerar essas partes, também enumeram as partes do Lugar que elas ocupavam; não pode ser, senão, que ao criarmos muitas partes, criemos também muitos lugares para essas partes; de modo que não se pode conceber na mente de nenhum homem mais ou menos partes do que os lugares disponíveis: contudo, querem nos fazer crer que, pelo poder Todo-Poderoso de Deus, um corpo pode estar, ao mesmo tempo, em muitos lugares; e muitos corpos, ao mesmo tempo, em um só lugar; como se fosse um reconhecimento do Poder Divino dizer que aquilo que é, não é; ou que aquilo que foi, não foi. E estas são apenas algumas das incongruências às quais são forçados, por disputarem filosoficamente, em vez de admirarem e adorarem a Natureza Divina e Incompreensível; Cujos atributos não podem significar o que ele é, mas deveriam significar nosso desejo de honrá-lo com os melhores títulos que pudermos imaginar. Mas aqueles que se aventuram a raciocinar sobre sua natureza a partir desses atributos de honra, perdendo o entendimento logo na primeira tentativa, caem de um inconveniente para outro, sem fim e sem número; da mesma maneira que um homem ignorante das cerimônias da corte, ao entrar na presença de uma pessoa mais importante do que aquela com quem está acostumado a falar, e tropeçando em sua entrada, para não cair, deixa cair sua capa; para recuperá-la, deixa cair seu chapéu; e com uma desordem após a outra, revela seu espanto e rusticidade.

Absurdos na Filosofia Natural, como a gravidade como causa da sensação de peso.

Quanto à Física, isto é, ao conhecimento das causas subordinadas e secundárias dos eventos naturais, eles não oferecem nada além de palavras vazias. Se você deseja saber por que alguns tipos de corpos afundam naturalmente em direção à Terra, enquanto outros se afastam naturalmente dela, as escolas lhe dirão, com base em Aristóteles, que os corpos que afundam são pesados; e que essa densidade é o que os faz descer. Mas se você perguntar o que eles querem dizer com densidade, eles a definirão como um esforço para ir ao centro da Terra; de modo que a causa pela qual as coisas afundam é um esforço para estar abaixo; o que equivale a dizer que os corpos descem ou sobem simplesmente porque o fazem. Ou dirão que o centro da Terra é o lugar de repouso e conservação para as coisas pesadas; e, portanto, elas se esforçam para estar lá; como se pedras e metais tivessem um desejo ou pudessem discernir o lugar onde estariam, como o homem, ou amassem o repouso, como o homem não ama. ou que um pedaço de vidro estaria menos seguro na janela do que caindo na rua.

Quantidade colocada no corpo já produzido

Se soubéssemos por que o mesmo corpo parece maior (sem que lhe seja acrescentado algo) em um momento do que em outro, diríamos que, quando parece menor, está condensado; quando maior, rarefeito. O que é condensado e rarefeito? Condensado é quando há, na mesma matéria, menos quantidade do que antes; e rarefeito, quando há mais. Como se pudesse haver matéria que não tivesse uma quantidade determinada; quando quantidade nada mais é do que a determinação da matéria, ou seja, do corpo, pela qual dizemos que um corpo é maior ou menor do que outro, por esta ou esta medida. Ou como se um corpo fosse feito sem quantidade alguma, e que depois se lhe adicionasse mais ou menos, conforme se pretenda que o corpo seja mais ou menos denso.

Potência das Almas

Em defesa da Alma do Homem, dizem: Creatur Infundendo e Creando Infunditur: isto é, “Ela é Criada ao ser Infundida” e “Infundida pela Criação”.

Ubiquidade da Aparição

Para a causa dos sentidos, há uma ubiquidade das espécies; isto é, das aparências ou aparições dos objetos; que, quando são aparições para o olho, são a visão; quando para o ouvido, a audição; para o paladar, o paladar; para o nariz, o olfato; e para o resto do corpo, o tato.

Vontade, a causa da vontade

Para atribuir à vontade a causa de qualquer ação específica, chamada Volitio, utiliza-se a Faculdade, ou seja, a Capacidade geral que os homens têm de querer ora uma coisa, ora outra, chamada Voluntas; fazendo do Poder a causa do Ato: como se atribuíssemos como causa dos atos bons ou maus dos homens a sua Capacidade de os praticar.

Ignorância: Uma Causa Oculta

E em muitas ocasiões atribuem a causa dos eventos naturais à sua própria ignorância, disfarçada em outras palavras: como quando dizem que a fortuna é a causa das coisas contingentes; isto é, das coisas cuja causa desconhecem; e como quando atribuem muitos efeitos a qualidades ocultas; isto é, qualidades que lhes são desconhecidas; e, portanto (como pensam), também a ninguém mais. E à simpatia, antipatia, antiperistasia, qualidades específicas e outros termos semelhantes, que não significam nem o agente que as produz, nem a operação pela qual são produzidas.

Se tais Metafísicas e Físicas como esta não são Vã Filosofia, então nunca houve nenhuma; e nem foi necessário que São Paulo nos alertasse para evitá-la.

Uma pessoa cria a incongruência, outra cria a incongruência.

E quanto à sua filosofia moral e civil, apresenta os mesmos ou maiores absurdos. Se um homem pratica uma injustiça, isto é, uma ação contrária à lei, dizem que Deus é a causa primordial da lei, e também a causa primordial dessa e de todas as outras ações; mas não é causa alguma da injustiça, que é a inconformidade da ação com a lei. Isso é vã filosofia. Seria o mesmo que dizer que um homem faz uma linha reta e uma curva, e outro faz a incongruência entre elas. E tal é a filosofia de todos os homens que chegam a conclusões antes de conhecerem suas premissas; pretendendo compreender o incompreensível; e atribuindo atributos de honra à natureza; pois essa distinção foi feita para sustentar a doutrina do livre-arbítrio, isto é, de uma vontade do homem não sujeita à vontade de Deus.

Apetite Privado: A Regra do Bem Público:

Aristóteles e outros filósofos pagãos definem o Bem e o Mal pelo apetite dos homens; e com razão, desde que os consideremos governados, cada um, por sua própria lei: pois, na condição de homens que não têm outra lei senão seus próprios apetites, não pode haver uma regra geral para as ações boas e más. Mas, em uma sociedade, essa medida é falsa: não é o apetite dos homens, mas a lei, que é a vontade e o apetite do Estado, que serve de medida. E, no entanto, essa doutrina ainda é praticada; e os homens julgam a bondade ou a maldade de suas próprias ações, das ações dos outros e das ações da própria sociedade, por suas próprias paixões; e ninguém chama de Bem ou Mal aquilo que lhe parece bem, sem qualquer consideração pelas leis públicas. Exceto os monges e frades, que estão obrigados por voto àquela simples obediência ao seu superior, à qual todo súdito deveria se considerar obrigado pela lei natural ao soberano civil. E essa medida privada do bem é uma doutrina não apenas vã, mas também perniciosa para o Estado público.

E que o casamento legítimo é impuro.

É também vã e falsa filosofia dizer que o matrimônio é repugnante à castidade ou à continência e, por consequência, torná-los vícios morais; como fazem aqueles que alegam usar a castidade e a continência como justificativa para negar o matrimônio ao clero. Pois confessam que não é mais do que uma constituição da Igreja que exige, nas ordens sagradas que continuamente frequentam o altar e administram a Eucaristia, uma abstinência contínua de mulheres, sob o pretexto de castidade, continência e pureza contínuas. Portanto, chamam o uso lícito de esposas de falta de castidade e continência; e assim fazem do matrimônio um pecado, ou pelo menos algo tão impuro e imundo que torna um homem indigno do altar. Se a lei foi feita porque o uso de esposas é incontinência e contrário à castidade, então todo matrimônio é vício; se foi porque é algo impuro e imundo demais para um homem consagrado a Deus; Muito mais deveriam outras obras naturais, necessárias e diárias que todos os homens realizam tornar os homens indignos de serem sacerdotes, por serem mais impuros.

Mas o fundamento secreto desta proibição do casamento de sacerdotes não deve ter sido estabelecido tão levianamente quanto em tais erros de filosofia moral; nem na preferência pela vida de solteiro em detrimento do matrimônio, que provinha da sabedoria de São Paulo, que percebeu quão inconveniente era para aqueles que, naqueles tempos de perseguição, eram pregadores do Evangelho e forçados a fugir de um país para outro, ficarem sobrecarregados com o cuidado de esposa e filhos; mas sim no desígnio dos Papas e sacerdotes dos tempos posteriores de se tornarem o clero, isto é, os únicos herdeiros do Reino de Deus neste mundo; para o qual era necessário privá-los do uso do casamento, porque nosso Salvador diz que, na vinda do seu Reino, os filhos de Deus “nem se casarão, nem serão dados em casamento, mas serão como os anjos no céu”, isto é, espirituais. Visto que haviam assumido o nome de Espirituais, permitiram-se (quando não havia necessidade) o convívio com as esposas, o que foi uma incongruência.

E que todo governo, exceto o popular, é tirania.

Aprenderam, através da Filosofia Civil de Aristóteles, a chamar de tirania todos os tipos de comunidades, exceto a popular (como era o caso do Estado de Atenas na época). Chamavam de tiranos todos os reis; e a aristocracia dos trinta governadores ali estabelecidos pelos lacedemônios que os subjugaram, os trinta tiranos. Assim como a condição do povo sob a democracia, chamavam de liberdade. Originalmente, um tirano não significava nada mais do que um monarca. Mas quando, posteriormente, na maior parte da Grécia, esse tipo de governo foi abolido, o nome passou a significar não apenas o que significava antes, mas também o ódio que os Estados populares nutriam por ele. Da mesma forma, o nome de rei tornou-se odioso após a deposição dos reis em Roma, pois é natural a todos os homens conceber que qualquer atributo dado em desprezo e a um grande inimigo signifique uma grande falta. E quando esses mesmos homens se descontentarem com aqueles que administram a Democracia ou a Aristocracia, não deverão procurar nomes infames para expressar sua raiva; mas chamarão prontamente a primeira de Anarquia e a segunda de Oligarquia ou Tirania de Poucos. E o que ofende o povo não é outra coisa senão o fato de ser governado não como cada um deles desejaria, mas como o Representante Público, seja um homem ou uma assembleia de homens, achar conveniente; isto é, por um governo arbitrário: pelo qual atribuem nomes pejorativos aos seus superiores; sem jamais saber (talvez só um pouco depois de uma guerra civil) que, sem tal governo arbitrário, tal guerra seria perpétua; e que são os homens e as armas, não as palavras e as promessas, que conferem força e poder às leis.

Que não sejam os homens, mas a lei que governe.

E, portanto, este é outro erro da Política de Aristóteles: que, numa comunidade bem ordenada, não os homens deveriam governar, mas as leis. Que homem, que possui seus sentidos naturais, embora não saiba ler nem escrever, não se vê governado por aquilo que teme e acredita que pode matá-lo ou feri-lo quando desobedece? Ou que acredita que a lei pode feri-lo; isto é, palavras e papel, sem as mãos e espadas dos homens? E este é um dos inúmeros erros perniciosos, pois induzem os homens, sempre que não gostam de seus governantes, a aderir àqueles que os chamam de tiranos e a julgar lícito declarar guerra contra eles. E, no entanto, muitas vezes são defendidos pelos clérigos nos púlpitos.

Leis acima da consciência

Há outro erro em sua filosofia civil (que eles nunca aprenderam com Aristóteles, nem com Cícero, nem com nenhum outro pagão): estender o poder da lei, que é a regra apenas das ações, aos próprios pensamentos e consciências dos homens, por meio de exame e inquisição do que eles sustentam, apesar da conformidade de sua fala e ações. Com isso, os homens são punidos por responderem com a verdade de seus pensamentos ou compelidos a responder com uma inverdade por medo de punição. É verdade que o magistrado civil, pretendendo empregar um ministro para o ensino, pode perguntar-lhe se ele concorda em pregar tais e tais doutrinas; e, em caso de recusa, pode negar-lhe o emprego. Mas forçá-lo a acusar-se de opiniões, quando suas ações não são proibidas por lei, é contrário à lei da natureza. E especialmente naqueles que ensinam que um homem será condenado a tormentos eternos e extremos se morrer com uma opinião falsa sobre um artigo da fé cristã. Pois quem, sabendo do grande perigo inerente ao erro, não arriscaria sua alma pelo próprio julgamento, em vez do de qualquer outro homem alheio à sua condenação?

Interpretação privada da lei

Para um indivíduo comum, sem a autoridade da comunidade, isto é, sem a permissão de seu representante, interpretar a lei por seu próprio espírito é outro erro na política; mas não derivado de Aristóteles, nem de qualquer outro filósofo pagão. Pois nenhum deles nega que no poder de criar leis esteja compreendido também o poder de explicá-las quando necessário. E não são as Escrituras, em todos os lugares onde são lei, transformadas em lei pela autoridade da comunidade e, consequentemente, parte do direito civil?

Da mesma forma ocorre quando alguém, exceto o Soberano, restringe em qualquer homem o poder que a Comunidade não restringiu: como fazem aqueles que apropriam-se da pregação do Evangelho a uma determinada Ordem de homens, quando as Leis a deixaram livre. Se o Estado me der permissão para pregar ou ensinar; isto é, se não me proibir, ninguém poderá me proibir. Se eu me encontrar entre os idólatras da América, devo eu, sendo cristão, embora não ordenado, considerar pecado pregar sobre Jesus Cristo até receber as Ordens de Roma? Ou, depois de pregar, não devo responder às suas dúvidas e explicar-lhes as Escrituras; isto é, não devo ensinar? Mas alguns podem dizer que, por isso, assim como para administrar-lhes os Sacramentos, a necessidade será considerada uma missão suficiente; O que é verdade: Mas também é verdade que, para qualquer coisa que exija uma dispensa por necessidade, não há necessidade de dispensa quando não há lei que a proíba. Portanto, negar essas funções àqueles a quem o Soberano Civil não as negou é privar alguém de uma liberdade legítima, o que é contrário à doutrina do governo civil.

Linguagem das Escolas de Divindade

Poderiam ser apresentados mais exemplos de vã filosofia, introduzida na religião pelos doutores da teologia escolar; mas outros podem, se quiserem, observá-los por si mesmos. Acrescentarei apenas o seguinte: os escritos dos teólogos escolares, em sua maioria, não passam de insignificantes sequências de palavras estranhas e bárbaras, ou palavras usadas de maneira diferente do uso comum da língua latina; como as que Cícero, Varrão e todos os gramáticos da Roma antiga considerariam. Se alguém quiser ver isso comprovado, que veja (como já disse antes) se consegue traduzir algum escrito dos teólogos escolares para alguma língua moderna, como o francês, o inglês ou qualquer outra língua rica: pois o que não pode ser tornado inteligível na maioria delas, não o é em latim. Essa insignificância da linguagem, embora eu não a considere como uma falsa filosofia, tem a qualidade não só de ocultar a verdade, mas também de fazer com que os homens pensem que a possuem e desistam de procurá-la.

Erros da tradição

Por fim, quanto aos erros introduzidos por histórias falsas ou incertas, o que são todas as lendas de milagres fictícios na vida dos santos? E todas as histórias de aparições e fantasmas, alegadas pelos doutores da Igreja Romana para justificar suas doutrinas sobre o inferno e o purgatório, o poder do exorcismo e outras doutrinas sem qualquer fundamento na razão ou nas Escrituras? Assim como todas aquelas tradições que eles chamam de Palavra de Deus não escrita, mas meras fábulas de velhas? Embora encontrem algumas delas dispersas nos escritos dos antigos padres, estes eram homens que podiam acreditar facilmente em relatos falsos. E a produção de suas opiniões como testemunho da verdade daquilo em que acreditavam não tem outra força para eles além daquela (segundo o Conselho de São João, 1ª Epístola, capítulo 4, versículo 1) de examinar espíritos, senão em tudo o que diz respeito ao poder da Igreja Romana (cujo abuso ou eles não suspeitavam, ou se beneficiavam dele) de desacreditar seu testemunho, em relação à crença precipitada em relatos; à qual os homens mais sinceros, sem grande conhecimento das causas naturais (como os Padres da Igreja), são geralmente os mais sujeitos: pois, naturalmente, os melhores homens são os menos desconfiados de propósitos fraudulentos. Gregório, o Papa, e São Bernardo relataram aparições de fantasmas que diziam estar no Purgatório; e o mesmo aconteceu com nosso Beda: mas creio que apenas por meio de relatos de terceiros. Mas se eles, ou qualquer outro, relatarem tais histórias de seu próprio conhecimento, não confirmarão com isso relatos tão vãos, mas revelarão sua própria fraqueza ou fraude.

Supressão da Razão

Com a introdução do falso, podemos também constatar a supressão da verdadeira filosofia por homens que, por não possuírem autoridade legítima nem estudo suficiente, são juízes competentes da verdade. Nossas próprias navegações demonstram isso, e todos os homens versados ​​em ciências humanas reconhecem agora a existência de antípodas. E a cada dia fica mais evidente que os anos e os dias são determinados pelos movimentos da Terra. Não obstante, aqueles que em seus escritos apenas supuseram tal doutrina, como uma oportunidade para expor as razões a favor e contra ela, foram punidos por isso pela autoridade eclesiástica. Mas qual a razão para isso? Seria porque tais opiniões são contrárias à verdadeira religião? Isso não pode ser, se forem verdadeiras. Que a verdade seja, portanto, examinada primeiramente por juízes competentes, ou refutada por aqueles que pretendem conhecer o contrário. Seria porque são contrárias à religião estabelecida? Que sejam silenciadas pelas leis daqueles a quem seus mestres estão sujeitos. Isto é, pelas Leis Civis: pois a desobediência pode ser legalmente punida nelas, mesmo que ensinem contra as Leis a verdadeira Filosofia. Será porque tendem à desordem no Governo, como por exemplo, ao apoiar a Rebelião ou a Sedição? Então que sejam silenciados, e os Mestres punidos pela virtude do poder daquele a quem foi confiada a responsabilidade pela paz pública; que é a Autoridade Civil. Pois qualquer Poder Eclesiástico que os homens assumam (em qualquer lugar onde estejam sujeitos ao Estado) por direito próprio, ainda que o chamem de Direito de Deus, não passa de usurpação.

CAPÍTULO XLVII.
DO BENEFÍCIO QUE PROCEDE DE TAIS TREVAS E A QUEM ELA SE APROPRIA

Presume-se que aquele que se beneficia de um fato seja o autor.

Cícero faz menção honrosa a um dos Cássios, um juiz severo entre os romanos, por um costume que ele tinha, em causas criminais (quando o testemunho das testemunhas não era suficiente), de perguntar aos acusadores: "Cui Bono"; isto é, qual o lucro, honra ou outra satisfação que o acusado obtinha ou esperava com o fato. Pois, entre as presunções, nenhuma revela tão claramente o autor quanto o benefício da ação. Pela mesma regra, pretendo examinar aqui quem são aqueles que, por tanto tempo, têm dominado o povo nesta parte da cristandade com essas doutrinas contrárias às sociedades pacíficas da humanidade.

Que a Igreja Militante é o Reino de Deus foi ensinado primeiramente pela Igreja de Roma.

E, em primeiro lugar, a este erro, de que a Igreja atual, militante na Terra, é o Reino de Deus (isto é, o Reino da Glória ou a Terra Prometida; não o Reino da Graça, que é apenas uma promessa da Terra), acrescentam-se estes benefícios mundanos. Primeiro, que os pastores e mestres da Igreja têm, por conseguinte, o direito, como ministros públicos de Deus, de governar a Igreja; e, consequentemente (porque a Igreja e a Comunidade são a mesma entidade), de serem reitores e governadores da Comunidade. Foi por este título que o Papa convenceu os súditos de todos os príncipes cristãos a crerem que desobedecê-lo era desobedecer ao próprio Cristo; e, em todas as divergências entre ele e outros príncipes (encantados com a palavra "Poder Espiritual"), a abandonarem seus legítimos soberanos; o que, na prática, equivale a uma monarquia universal sobre toda a cristandade. Pois, embora inicialmente investidos no direito de serem os Supremos Mestres da Doutrina Cristã, por e sob os Imperadores Cristãos, dentro dos limites do Império Romano (como eles próprios reconhecem), com o título de Pontífice Máximo, que era um oficial sujeito ao Estado Civil, após a divisão e dissolução do Império, não foi difícil impor ao povo já submisso a eles outro título, a saber, o Direito de São Pedro; não apenas para preservar integralmente o seu pretenso poder, mas também para estendê-lo às mesmas províncias cristãs, embora já não mais unidas no Império Romano. Este benefício de uma monarquia universal (considerando o desejo dos homens de governar) é uma presunção suficiente de que os papas que a reivindicaram e por muito tempo a desfrutaram foram os autores da doutrina pela qual o obtiveram; ou seja, que a Igreja na Terra é o Reino de Cristo. Admitindo isso, é preciso entender que Cristo tem um Mensageiro entre nós, por meio de quem devemos aprender seus Mandamentos.

Após certas Igrejas terem renunciado a esse poder universal do Papa, seria de se esperar, em tese, que os soberanos civis em todas essas Igrejas tivessem recuperado a parcela desse poder que (antes de o terem deixado escapar imprudentemente) lhes pertencia por direito. E na Inglaterra, assim foi de fato; salvo que aqueles que eram governados pelos reis, ao manterem seu emprego como sendo por direito de Deus, pareciam usurpar, senão uma supremacia, ao menos uma independência do poder civil: e pareciam usurpá-la na medida em que reconheciam o direito do rei de privá-los do exercício de suas funções a seu bel-prazer.

E mantido também pelo Presbitério.

Mas, naqueles lugares onde o Presbitério assumiu esse ofício, embora muitas outras doutrinas da Igreja de Roma fossem proibidas de serem ensinadas, esta doutrina, de que o Reino de Cristo já chegou e que começou com a Ressurreição de nosso Salvador, ainda era mantida. Mas a quem beneficiavam? Que proveito esperavam disso? O mesmo que os Papas esperavam: ter um poder soberano sobre o povo. Pois o que significa excomungar seu rei legítimo, senão impedi-lo de servir a Deus em seu próprio reino? E resistir-lhe com força quando ele tenta corrigi-los com força? Ou o que significa, sem autoridade do soberano civil, excomungar alguém, senão tirar-lhe sua legítima liberdade, isto é, usurpar um poder ilegítimo sobre seus irmãos? Os autores, portanto, dessa escuridão na religião são o clero romano e presbiteriano.

Infalibilidade

A este ponto, refiro-me também a todas as doutrinas que lhes servem para manter a posse desta soberania espiritual depois de a terem conquistado. Em primeiro lugar, a de que o Papa, na sua capacidade pública, não pode errar. Pois quem, acreditando que isto é verdade, não lhe obedecerá prontamente em tudo o que ele ordenar?

Sujeição dos Bispos

Em segundo lugar, a doutrina de que todos os outros bispos, em qualquer comunidade cristã, não têm seu direito nem diretamente de Deus, nem mediatamente de seus soberanos civis, mas sim do Papa, é uma doutrina pela qual há, em toda comunidade cristã, muitos homens poderosos (pois os bispos também o são) que dependem do Papa e lhe devem obediência, embora ele seja um príncipe estrangeiro; por meio disso, ele é capaz (como já fez muitas vezes) de incitar uma guerra civil contra o Estado que não se submete a ser governado segundo seu prazer e interesse.

Isenções do Clero

Em terceiro lugar, a isenção destes, e de todos os outros sacerdotes, monges e frades, do poder das leis civis. Pois, por este meio, há uma grande parte de cada comunidade que goza do benefício das leis e é protegida pelo poder do Estado civil, mas que não paga nenhuma parte das despesas públicas; nem está sujeita às penalidades, como outros súditos, devidas aos seus crimes; e, consequentemente, não teme ninguém além do Papa; e a ele adere unicamente para defender a sua monarquia universal.

Os nomes dos Sacerdotes e os sacrifícios

Em quarto lugar, a atribuição aos seus sacerdotes (que já não constam no Novo Testamento, mas sim de presbíteros, isto é, anciãos) do nome de sacerdotes, ou seja, sacrificadores, que era o título do soberano civil e dos seus ministros públicos entre os judeus, enquanto Deus era o seu rei. Além disso, a transformação da Ceia do Senhor num sacrifício serve para fazer o povo acreditar que o Papa tem o mesmo poder sobre todos os cristãos que Moisés e Arão tinham sobre os judeus; ou seja, todo o poder, tanto civil como eclesiástico, que o sumo sacerdote detinha então.

A Sacramentoção do Matrimônio

Cinquenta, o ensinamento de que o Matrimônio é um Sacramento confere ao Clero o poder de julgar a legitimidade dos casamentos; e, por conseguinte, quais filhos são legítimos; e, consequentemente, o direito de sucessão aos reinos hereditários.

A Vida de Solteiro dos Padres

Sexto, a proibição do casamento aos sacerdotes serve para assegurar esse poder do papa sobre os reis. Pois, se um rei é sacerdote, não pode casar-se e transmitir seu reino à sua posteridade; se não o é, o papa reivindica essa autoridade eclesiástica sobre ele e sobre seu povo.

Confissão Auricular

Em sétimo lugar, através da Confissão Auricular, eles obtêm, para a garantia de seu Poder, melhor conhecimento dos desígnios dos Príncipes e das grandes personalidades do Estado Civil do que estes podem ter dos desígnios do Estado Eclesiástico.

Canonização de Santos e Declaração de Mártires

Em oitavo lugar, pela canonização dos santos e pela declaração de quem são os mártires, eles asseguram seu poder, induzindo homens simples à obstinação contra as leis e os mandamentos de seus soberanos civis, até mesmo à morte, se, pela excomunhão papal, forem declarados hereges ou inimigos da Igreja; isto é, (como eles interpretam) do Papa.

Transubstanciação, Penitência, Absolvição

Em nono lugar, eles asseguram o mesmo, pelo poder que atribuem a cada sacerdote, de fazer Cristo; e pelo poder de ordenar a penitência; e de remitir e reter pecados.

Purgatório, Indulgências, Obras Externas

Em décimo lugar, o clero é enriquecido pela doutrina do Purgatório, da justificação pelas obras externas e das indulgências.

Demonologia e Exorcismo

Décimo primeiro, por meio de sua demonologia, do uso de exorcismos e de outras práticas relacionadas, eles mantêm (ou pensam que mantêm) o povo cada vez mais apreensivo com seu poder.

Escola de Divindade

Por fim, a Metafísica, a Ética e a Política de Aristóteles, as distinções frívolas, os termos bárbaros e a linguagem obscura dos escolásticos, ensinados nas universidades (todas erigidas e regulamentadas pela autoridade papal), servem para impedir que esses erros sejam detectados e para fazer com que os homens confundam o fogo da vã filosofia com a luz do Evangelho.

Os Autores da Escuridão Espiritual, Quem São Eles?

A estas, se não bastassem, poderiam ser acrescentadas outras de suas doutrinas obscuras, cujo proveito redunda manifestamente no estabelecimento de um poder ilegítimo sobre os soberanos legítimos do povo cristão; ou para a sustentação do mesmo, uma vez estabelecido; ou para as riquezas, honra e autoridade mundanas daqueles que o sustentam. E, portanto, pela regra supracitada de Cui Bono, podemos justamente declarar, em favor dos autores de toda essa escuridão espiritual, o Papa e o clero romano, e todos aqueles que se esforçam para fixar na mente dos homens esta doutrina errônea, de que a Igreja agora na Terra é o Reino de Deus mencionado no Antigo e no Novo Testamento.

Mas os imperadores e outros soberanos cristãos, sob cujo governo esses erros e outras usurpações eclesiásticas de seus ofícios se infiltraram inicialmente, perturbando seus bens e a tranquilidade de seus súditos, embora os tenham sofrido por falta de previsão das consequências e de discernimento quanto aos desígnios de seus mestres, podem, no entanto, ser considerados cúmplices de seus próprios danos e dos danos públicos; pois sem sua autoridade nenhuma doutrina sediciosa poderia ter sido pregada publicamente. Digo que eles poderiam ter impedido isso no início: Mas, uma vez que o povo foi possuído por esses homens espirituais, não havia remédio humano que pudesse ser aplicado, que qualquer homem pudesse inventar: E quanto aos remédios que Deus providenciaria, que nunca falha em seu tempo perfeito para destruir todas as maquinações dos homens contra a Verdade, devemos aguardar sua boa vontade, que permite que a prosperidade de seus inimigos, juntamente com sua ambição, cresça a tal ponto que a violência disso abra os olhos que a cautela de seus predecessores havia selado, e faça com que os homens, por apego excessivo, soltem tudo, como a rede de Pedro se rompeu com a luta de uma multidão excessiva de peixes; enquanto a impaciência daqueles que se esforçaram para resistir a tal invasão, antes que os olhos de seus súditos fossem abertos, apenas aumentou o poder ao qual resistiram. Portanto, não culpo o Imperador Frederico por ter segurado o estribo de nosso compatriota, o Papa Adriano; pois tal era a disposição de seus súditos então, que se ele não o tivesse feito, provavelmente não teria tido sucesso no Império: Mas eu culpo aqueles que, no início, quando seu poder era total, ao permitirem que tais doutrinas fossem forjadas nas universidades de seus próprios domínios, sustentaram todos os papas subsequentes, enquanto eles próprios subiam aos tronos de todos os soberanos cristãos, para cavalgar e cansar, tanto eles quanto seu povo, a seu bel-prazer.

Mas assim como as invenções dos homens são tecidas, também são desfeitas; o caminho é o mesmo, mas a ordem é invertida: a trama começa nos primeiros elementos do poder, que são a sabedoria, a humildade, a sinceridade e outras virtudes dos apóstolos, aos quais o povo se converteu e obedeceu por reverência, não por obrigação: suas consciências eram livres, e suas palavras e ações não estavam sujeitas a ninguém além do poder civil. Posteriormente, os presbíteros (à medida que os rebanhos de Cristo aumentavam), reunindo-se para considerar o que deveriam ensinar e, assim, obrigando-se a não ensinar nada contra os decretos de suas assembleias, fizeram crer que o povo era obrigado a seguir sua doutrina, e quando se recusavam, recusavam-se a conviver com eles (isso era então chamado de excomunhão), não por serem infiéis, mas por serem desobedientes: e este foi o primeiro nó em sua liberdade. E com o aumento do número de presbíteros, os presbíteros da principal cidade ou província obtiveram autoridade sobre os presbíteros paroquiais e apropriaram-se dos títulos de bispos: e este foi o segundo nó na liberdade cristã. Por fim, o bispo de Roma, em relação à cidade imperial, assumiu uma autoridade (em parte pela vontade dos próprios imperadores, pelo título de Pontífice Máximo e, finalmente, quando os imperadores se enfraqueceram, pelos privilégios de São Pedro) sobre todos os outros bispos do Império: o que foi o terceiro e último nó, e toda a síntese e construção do poder pontifício.

Portanto, a análise, ou resolução, segue o mesmo caminho; mas começando pelo último nó que foi atado; como podemos ver na dissolução do governo eclesiástico pretorpolítico na Inglaterra.

Primeiro, o poder dos Papas foi totalmente dissolvido pela Rainha Elizabeth; e os Bispos, que antes exerciam suas funções por direito do Papa, passaram a exercê-las por direito da Rainha e seus sucessores; embora, ao manterem a expressão "jure divino", acreditasse-se que o reivindicavam por direito divino imediato: E assim foi desatado o primeiro nó. Depois disso, os presbiterianos na Inglaterra conseguiram a abolição do episcopado: e assim o segundo nó foi desfeito: e quase ao mesmo tempo, o poder também foi retirado dos presbiterianos: e assim fomos reduzidos à independência dos cristãos primitivos para seguir Paulo, ou Cefas, ou Apolo, cada um como bem entender: o que, se for sem contenda e sem medir a doutrina de Cristo pela nossa afeição à pessoa de seu ministro (a falha que o apóstolo repreendeu em Coríntios), talvez seja o melhor: primeiro, porque não deveria haver poder sobre a consciência dos homens, senão o da própria Palavra, que opera a fé em cada um, não sempre segundo o propósito daqueles que plantam e regam, mas o do próprio Deus, que dá o crescimento; e segundo, porque é irracional da parte daqueles que ensinam que há tanto perigo em cada pequeno erro exigir de um homem dotado de razão própria que siga a razão de qualquer outro homem, ou do mais vozes de muitos outros homens; o que é pouco melhor do que arriscar sua salvação na cruz e na fogueira. Nem deveriam esses mestres ficar descontentes com essa perda de sua antiga autoridade: pois ninguém deveria saber melhor do que eles que o poder é preservado pelas mesmas virtudes pelas quais é adquirido; isto é, pela sabedoria, humildade, clareza de doutrina e sinceridade de conversa; e não pela supressão das ciências naturais e da moralidade da razão natural; nem por linguagem obscura; nem por arrogar para si mais conhecimento do que demonstram; nem por fraudes piedosas; nem por outras faltas, como nos pastores da Igreja de Deus não são apenas faltas, mas também escândalos, que podem fazer os homens tropeçarem, uma vez ou outra, na supressão de sua autoridade.

Comparação do Papado com o Reino das Fadas

Mas, após a doutrina de que "a Igreja, agora militante, é o Reino de Deus mencionado no Antigo e no Novo Testamento" ter sido recebida no mundo, a ambição e a busca pelos cargos a ela inerentes, especialmente pelo grande cargo de ser o Tenente de Cristo, e a pompa daqueles que obtiveram os principais encargos públicos, tornaram-se gradualmente tão evidentes que perderam a reverência interior devida à função pastoral. A ponto de os homens mais sábios, dentre aqueles que detinham algum poder no Estado civil, não precisarem de nada além da autoridade de seus príncipes para lhes negar qualquer obediência. Pois, desde que o Bispo de Roma passou a ser reconhecido como Bispo Universal, sob a alegação de sucessão a São Pedro, toda a sua hierarquia, ou Reino das Trevas, pode ser comparada, não sem razão, ao Reino das Fadas; isto é, às antigas fábulas inglesas sobre fantasmas e espíritos, e as façanhas que realizam à noite. E se um homem considerar a origem deste grande Domínio Eclesiástico, perceberá facilmente que o Papado nada mais é do que o Fantasma do falecido Império Romano, coroado sobre seu túmulo: pois assim surgiu o Papado repentinamente das ruínas daquele poder pagão.

A língua que eles usam, tanto nas igrejas quanto em seus atos públicos, é o latim, que não é comumente usado por nenhuma nação no mundo atualmente; o que é senão o fantasma da antiga língua românica?

As fadas, seja qual for a nação em que vivam, têm apenas um Rei Universal, que alguns de nossos poetas chamam de Rei Oberon; mas as Escrituras chamam Belzebu de Príncipe dos Demônios. Os eclesiásticos, da mesma forma, em cujos domínios se encontram, reconhecem apenas um Rei Universal, o Papa.

Os Eclesiásticos são homens espirituais e Pais Fantasmagóricos. As Fadas são Espíritos e Fantasmas. Fadas e Fantasmas habitam a Escuridão, a Solidão e os Túmulos. Os Eclesiásticos caminham na Obscuridade da Doutrina, em Mosteiros, Igrejas e Cemitérios.

Os Eclesiásticos têm suas Catedrales; as quais, em qualquer cidade em que sejam erguidas, pela virtude da Água Benta e por certos Encantos chamados Exorcismos, têm o poder de transformar essas cidades em metrópoles, ou seja, sedes de impérios. As Fadas também têm seus Castelos encantados e certos Fantasmas Gigantescos que dominam as regiões ao seu redor.

As fadas não devem ser capturadas nem responsabilizadas pelo mal que causam. Assim também os eclesiásticos desaparecem dos tribunais de justiça civil.

Os eclesiásticos roubam dos jovens o uso da razão por meio de certos encantos compostos de metafísica, milagres, tradições e escrituras deturpadas, tornando-os indispensáveis ​​para qualquer outra coisa senão executar suas ordens. Diz-se também que as fadas arrancam crianças de seus berços e as transformam em tolos por natureza, que o povo comum chama de elfos, propensos a causar travessuras.

Em que loja ou consultório as fadas fazem seus encantamentos, as velhas mulheres não conseguiram determinar. Mas os consultórios do clero são conhecidos por serem as universidades que receberam sua disciplina da autoridade pontifícia.

Diz-se que, quando as fadas estão descontentes com alguém, enviam seus elfos para beliscá-lo. Os eclesiásticos, quando estão descontentes com algum Estado civil, também enviam seus elfos, isto é, súditos supersticiosos e enfeitiçados, para beliscar seus príncipes, pregando sedição; ou um príncipe, enfeitiçado com promessas, para beliscar outro.

As fadas não se casam; mas existem entre elas íncubos, que copulam com carne e sangue. Os sacerdotes também não se casam.

Os eclesiásticos tomam o creme da terra por meio de doações de homens ignorantes, que os temem, e por meio de dízimos: assim também na fábula das fadas, que elas entram nos laticínios e se banqueteiam com o creme que retiram do leite.

A história não menciona que tipo de moeda circula no Reino das Fadas. Mas os eclesiásticos, em seus recibos, aceitam a mesma moeda que nós; embora, quando efetuam algum pagamento, este se dê por meio de canonizações, indulgências e missas.

A isso, e a outras semelhanças semelhantes entre o Papado e o Reino das Fadas, pode-se acrescentar o seguinte: assim como as fadas não existem senão na imaginação de pessoas ignorantes, originada das tradições de velhas mulheres ou poetas antigos, o poder espiritual do Papa (fora dos limites de seu próprio domínio civil) consiste unicamente no medo que as pessoas seduzidas sentem de sua excomunhão, ao ouvirem falar de falsos milagres, falsas tradições e falsas interpretações das Escrituras.

Não foi, portanto, muito difícil para Henrique VIII, com seu exorcismo, nem para a Rainha Elizabeth, com o dela, expulsá-los. Mas quem sabe se este Espírito de Roma, agora ausente, percorrendo em missões os lugares áridos da China, do Japão e das Índias, que lhe renderam poucos frutos, não retornará, ou melhor, se uma assembleia de espíritos piores do que ele não entrará e habitará esta casa impecavelmente limpa, tornando seu fim pior do que o começo? Pois não é apenas o clero romano que pretende que o Reino de Deus seja deste mundo e, por isso, tenha um poder nele distinto do do Estado civil. E isso é tudo o que eu pretendia dizer a respeito da doutrina das políticas, que, após revisar, submeterei de bom grado à censura do meu país.

REVISÃO E CONCLUSÃO

A partir da contrariedade de algumas das faculdades naturais da mente, umas em relação às outras, assim como de uma paixão em relação a outra, e de sua relação com a conversação, argumentou-se que seria impossível um único homem estar suficientemente disposto a cumprir todos os tipos de deveres cívicos. Dizem que a severidade do julgamento torna os homens censores e incapazes de perdoar os erros e fraquezas alheias; e, por outro lado, a celeridade da imaginação torna os pensamentos menos firmes do que o necessário para discernir com exatidão entre o certo e o errado. Além disso, em todas as deliberações e em todas as argumentações, a faculdade do raciocínio sólido é necessária, pois sem ela as resoluções dos homens são precipitadas e suas sentenças injustas; e, no entanto, se não houver eloquência poderosa, que conquiste atenção e consentimento, o efeito da razão será pequeno. Mas essas são faculdades contrárias; a primeira fundamenta-se em princípios da verdade. uma baseada em opiniões já recebidas, verdadeiras ou falsas; e a outra nas paixões e interesses dos homens, que são diferentes e mutáveis.

E dentre as paixões, a coragem (que entendo como o desprezo pelas feridas e pela morte violenta) inclina os homens à vingança pessoal e, por vezes, a tentar perturbar a paz pública; e o temor, muitas vezes, os predispõe ao abandono da defesa pública. Dizem que ambas não podem coexistir na mesma pessoa.

E considerando a contrariedade das opiniões e costumes dos homens em geral, dizem que é impossível manter uma amizade civil constante com todos aqueles com quem os negócios do mundo nos obrigam a conversar: negócios esses que consistem quase que exclusivamente em uma contenda perpétua por honra, riquezas e autoridade.

Ao que respondo que estas são, de fato, grandes dificuldades, mas não impossibilidades: pois, por meio da educação e da disciplina, podem ser, e às vezes são, reconciliadas. O discernimento e a imaginação podem ter lugar no mesmo homem, alternadamente, conforme o objetivo que ele almeja. Assim como os israelitas no Egito, ora se dedicavam ao trabalho de fazer tijolos, ora se ocupavam em coletar palha, também o discernimento pode, por vezes, estar fixo em uma determinada consideração, enquanto a imaginação, em outro momento, vagueia pelo mundo. Da mesma forma, a razão e a eloquência (embora talvez não nas ciências naturais, certamente na moral) podem coexistir muito bem. Pois onde quer que haja lugar para adornar e privilegiar o erro, há muito mais lugar para adornar e privilegiar a verdade, se a tiverem para adornar. Nem há qualquer repugnância entre temer as leis e não temer um inimigo público; nem entre abster-se de causar dano e perdoá-lo nos outros. Portanto, não há tal inconsistência entre a natureza humana e os deveres civis, como alguns pensam. Conheci a clareza de julgamento e a amplitude de imaginação; a força da razão e a eloquência graciosa; a coragem para a guerra e o temor pelas leis, tudo isso eminentemente em um só homem: meu nobre e honrado amigo, o Sr. Sidney Godolphin, que, não odiando ninguém, nem sendo odiado por ninguém, foi infelizmente assassinado no início da recente Guerra Civil, na Querela Pública, por uma mão indiscreta e sem discernimento.

Às Leis da Natureza, declaradas no Capítulo 15, eu acrescentaria o seguinte: “Que todo homem está obrigado pela Natureza, na medida em que nele reside, a proteger, em tempos de guerra, a autoridade pela qual ele próprio é protegido em tempos de paz”. Pois aquele que alega ter o direito da Natureza de preservar seu próprio corpo não pode alegar ter o direito da Natureza de destruí-lo, por cuja força ele é preservado: isso é uma manifesta contradição consigo mesmo. E embora esta Lei possa ser extraída, por consequência, de algumas das que já foram mencionadas, os tempos exigem que ela seja inculcada e lembrada.

E porque constato, por meio de diversos livros ingleses recentemente impressos, que as guerras civis ainda não ensinaram suficientemente aos homens em que momento um súdito se torna obrigado a obedecer ao conquistador; nem o que é a conquista; nem como ela obriga os homens a obedecerem às suas leis; portanto, para maior satisfação dos homens a esse respeito, digo que o momento em que um homem se torna súdito de um conquistador é aquele em que, tendo a liberdade de se submeter a ele, consente, seja por palavras expressas, seja por outro sinal suficiente, em ser seu súdito. Quando um homem tem a liberdade de se submeter, já mostrei anteriormente no final do capítulo 21; ou seja, para aquele que não tem obrigação para com seu antigo soberano além da de um súdito comum, é então que seus meios de subsistência estão sob a guarda e as guarnições do inimigo; pois é então que ele não tem mais proteção contra ele, mas é protegido pela parte adversa por sua contribuição. Visto, portanto, que tal contribuição é em toda parte, como algo inevitável (apesar de ser uma ajuda ao inimigo), considerada lícita; assim como a submissão total, que nada mais é do que uma ajuda ao inimigo, não pode ser considerada ilícita. Além disso, se alguém considera que aqueles que se submetem auxiliam o inimigo apenas com parte de seus bens, enquanto aqueles que se recusam o auxiliam com a totalidade, não há razão para chamar sua submissão ou composição de ajuda, mas sim de prejuízo ao inimigo. Mas se um homem, além da obrigação de súdito, assumir uma nova obrigação como soldado, então ele não tem a liberdade de se submeter a um novo poder enquanto o antigo mantiver o controle e lhe fornecer meios de subsistência, seja em seus exércitos ou guarnições; pois, nesse caso, ele não pode reclamar de falta de proteção e tem meios de viver como soldado. Mas quando isso também falha, um soldado pode buscar sua proteção onde tiver mais esperança de encontrá-la e pode legalmente se submeter ao seu novo senhor. E isso quanto ao tempo em que ele pode fazê-lo legalmente, se assim o desejar. Se, portanto, ele o fizer, estará indubitavelmente obrigado a ser um verdadeiro súdito, pois um contrato legalmente feito não pode ser legalmente quebrado.

Por meio disso, também se pode compreender quando se pode dizer que os homens foram conquistados; e em que consiste a natureza da conquista e o direito de um conquistador: pois esta submissão implica em tudo isso. A conquista não é a vitória em si, mas a aquisição, pela vitória, de um direito sobre as pessoas. Portanto, aquele que é morto é vencido, mas não conquistado; aquele que é preso e acorrentado não é conquistado, embora vencido, pois ainda é um inimigo e pode se salvar se puder. Mas aquele que, sob promessa de obediência, tem sua vida e liberdade concedidas, então é conquistado e se torna um súdito; e não antes. Os romanos costumavam dizer que seu general havia pacificado tal província, ou seja, em português, a conquistado. E que o país foi pacificado pela vitória, quando seu povo prometeu Imperata Facere, isto é, fazer o que o povo romano lhes ordenava: ser conquistado. Mas essa promessa pode ser expressa ou tácita: expressa, por promessa; tácita, por outros sinais. Por exemplo, um homem que não foi chamado a fazer tal promessa expressa (porque talvez seu poder não seja considerável); ainda assim, se viver sob a proteção deles abertamente, entende-se que se submete ao governo; mas se viver lá secretamente, estará sujeito a qualquer coisa que possa ser feita a um espião e inimigo do Estado. Não digo que ele cometa alguma injustiça (pois atos de hostilidade aberta não merecem esse nome), mas que ele possa ser justamente morto. Da mesma forma, se um homem, quando seu país é conquistado, estiver fora dele, ele não é conquistado nem súdito; mas se, ao retornar, ele se submeter ao governo, estará obrigado a obedecê-lo. Assim, a conquista (para defini-la) é a aquisição do direito de soberania pela vitória. Direito esse que é adquirido na submissão dos povos, pela qual eles firmam um contrato com o vencedor, prometendo obediência em troca de vida e liberdade.

No capítulo 29, apresentei como uma das causas da dissolução das comunidades a sua geração imperfeita, que consiste na falta de um poder legislativo absoluto e arbitrário; por essa falta, o soberano civil tem dificuldade em manejar a espada da justiça de forma inconstante, como se estivesse quente demais para ele segurar. Uma das razões para isso (que não mencionei ali) é que todos eles querem justificar a guerra pela qual seu poder foi inicialmente conquistado e da qual (como eles pensam) depende seu direito, e não da posse. Como se, por exemplo, o direito dos reis da Inglaterra dependesse da justiça da causa de Guilherme, o Conquistador, e de sua descendência direta e linear dele. Dessa forma, talvez não houvesse hoje em dia nenhum vínculo de obediência dos súditos ao seu soberano em todo o mundo: enquanto eles, desnecessariamente, pensam em se justificar, justificam todas as rebeliões bem-sucedidas que a ambição possa levantar contra eles e seus sucessores. Portanto, considero uma das sementes mais eficazes da morte de qualquer Estado o fato de que os conquistadores exigem não apenas a submissão das ações dos homens a eles no futuro, mas também a aprovação de todas as suas ações passadas; quando dificilmente existe uma república no mundo cujos começos possam ser justificados em consciência.

E porque o nome Tirania não significa nada mais, nem menos, do que o nome Soberania, seja em um só homem ou em muitos, exceto pelo fato de que aqueles que usam a primeira palavra são entendidos como estando irados com aqueles a quem chamam de Tiranos; penso que a tolerância a um ódio professado à Tirania é uma tolerância ao ódio à República em geral, e outra semente do mal, não diferindo muito da anterior. Pois para a justificação da causa de um conquistador, a reprovação da causa do conquistado é, em grande parte, necessária; mas nenhuma delas é necessária para a obrigação do conquistado. E isso é tudo o que julguei conveniente dizer após a revisão da primeira e da segunda parte deste discurso.

No capítulo 35, declarei suficientemente, com base nas Escrituras, que na República dos Judeus, o próprio Deus se tornou Soberano por meio de um pacto com o povo; que, portanto, era chamado de Seu Povo Peculiar, para distingui-lo do resto do mundo, sobre o qual Deus reinava não por seu consentimento, mas por Seu próprio poder. E que, neste Reino, Moisés era o Tenente de Deus na Terra; e que foi ele quem lhes disse quais leis Deus havia estabelecido para serem executadas, especialmente em relação às penas capitais; não considerando então isso uma questão tão necessária quanto considero agora. Sabemos que, geralmente, em todas as Repúblicas, a execução de penas corporais era atribuída aos guardas ou outros soldados do poder soberano; ou dada àqueles em quem a falta de meios, o desprezo pela honra e a dureza de coração concorriam para levá-los a reivindicar tal ofício. Mas entre os israelitas era uma Lei Positiva de Deus, seu Soberano, que aquele que fosse condenado por um crime capital fosse apedrejado até a morte pelo povo; e que as testemunhas atirassem a primeira pedra, e depois as testemunhas, o resto do povo. Esta era uma lei que designava quem seriam os executores; mas não que alguém atirasse uma pedra nele antes da condenação e da sentença, onde a congregação era o juiz. As testemunhas, no entanto, deviam ser ouvidas antes de se proceder à execução, a menos que o fato fosse cometido na presença da própria congregação, ou à vista dos juízes legítimos; pois então não seriam necessárias outras testemunhas além dos próprios juízes. Contudo, como esta maneira de proceder não era totalmente compreendida, deu origem à perigosa opinião de que qualquer homem pode matar outro, em alguns casos, por um direito de zelo. como se as execuções feitas aos infratores no Reino de Deus nos tempos antigos não procedessem do comando soberano, mas da autoridade do zelo privado: o que, se considerarmos os textos que parecem favorecê-lo, é totalmente contrário.

Primeiro, quando os levitas atacaram o povo que havia feito e adorado o bezerro de ouro, matando três mil deles, foi por ordem de Moisés, da boca de Deus, como se vê em Êxodo 32:27. E quando o filho de uma mulher israelita blasfemou contra Deus, os que ouviram não o mataram, mas o levaram perante Moisés, que o pôs sob custódia até que Deus proferisse sentença contra ele, como se vê em Levítico 25:11, 12. Além disso (Números 25:6, 7), quando Fineias matou Zinri e Cosbi, não foi por zelo privado: o crime foi cometido à vista da assembleia; não havia necessidade de testemunhas; a lei era conhecida, e ele era o herdeiro aparente da soberania; e, o que é o ponto principal, a legalidade de seu ato dependia inteiramente de uma ratificação posterior por Moisés, da qual ele não tinha motivos para duvidar. E essa presunção de uma ratificação futura é, por vezes, necessária para a segurança de uma comunidade; como numa rebelião repentina, qualquer homem que a possa suprimir pelo seu próprio poder no país onde começa, pode fazê-lo legalmente e providenciar a sua ratificação ou perdão, enquanto estiver em curso ou depois de concluída. Também em Números 35:30, está expressamente dito: “Quem matar o homicida, mate-o mediante a palavra das testemunhas”; mas as testemunhas pressupõem um julgamento formal e, consequentemente, condenam essa pretensão de jus zelotarum. A lei de Moisés concernente àquele que incita à idolatria (isto é, no Reino de Deus, à renúncia da sua fidelidade) (Deuteronômio 13:8) proíbe o seu ocultamento e ordena ao acusador que o faça ser morto e que lhe atire a primeira pedra; mas não que o mate antes de ser condenado. E (Deuteronômio 17, versículos 4, 5 e 6) o processo contra a idolatria está exatamente descrito: Pois Deus fala ao povo, como Juiz, e lhes ordena que, quando um homem for acusado de idolatria, investiguem diligentemente o fato e, se o encontrarem verdadeiro, o apedrejem; mas ainda assim a mão da testemunha atira a primeira pedra. Isso não é zelo privado, mas condenação pública. Da mesma forma, quando um pai tem um filho rebelde, a lei é (Deuteronômio 21, versículo 18) que ele o leve perante os juízes da cidade, e todo o povo da cidade o apedreje. Por fim, foi sob o pretexto dessas leis que Santo Estêvão foi apedrejado, e não sob o pretexto de zelo privado: pois, antes de ser levado à execução, ele havia apresentado sua causa perante o Sumo Sacerdote. Não há nada nisso, nem em qualquer outra parte da Bíblia, que apoie execuções por zelo privado; que, sendo muitas vezes apenas uma junção de ignorância e paixão, são contrárias tanto à justiça quanto à paz de uma comunidade.

No capítulo 36, afirmei que não está declarado de que maneira Deus falou sobrenaturalmente a Moisés: não que Ele não lhe tenha falado por vezes por meio de sonhos e visões, e por uma voz sobrenatural, como a outros profetas; pois a maneira como Ele lhe falou do propiciatório está expressamente descrita (Números 7:89) nestas palavras: “Daquela hora em diante, sempre que Moisés entrava na tenda da congregação para falar com Deus, ouvia uma voz que lhe falava de sobre o propiciatório, que está sobre a arca do testemunho; do meio dos querubins, falava com ele”. Mas não está declarado em que consistia a preeminência da maneira como Deus falava a Moisés, acima da maneira como falava a outros profetas, como Samuel e Abraão, a quem também falou por voz (isto é, por visão), a menos que a diferença consistisse na clareza da visão. Pois o contato face a face e o contato boca a boca não podem ser compreendidos literalmente devido à infinitude e incompreensibilidade da natureza divina.

E quanto à doutrina como um todo, ainda não a vejo, mas seus princípios são verdadeiros e adequados; e o raciocínio, sólido. Pois fundamento o direito civil dos soberanos, e tanto o dever quanto a liberdade dos súditos, nas conhecidas inclinações naturais da humanidade e nos artigos da lei da natureza; dos quais nenhum homem que pretenda ter razão suficiente para governar sua família deveria ser ignorante. E quanto ao poder eclesiástico dos mesmos soberanos, fundamento-o em textos que são evidentes em si mesmos e consonantes com o escopo de toda a Escritura. E, portanto, estou persuadido de que aquele que a ler com o propósito unicamente de se informar, será informado por ela. Mas aqueles que, por escrito, discurso público ou por suas ações eminentes, já se comprometeram a manter opiniões contrárias, não se contentarão tão facilmente. Pois, em tais casos, é natural que os homens, ao mesmo tempo, prossigam na leitura e percam a atenção na busca de objeções ao que leram anteriormente: das quais, numa época em que os interesses dos homens mudam (visto que grande parte da doutrina que serve para o estabelecimento de um novo governo será necessariamente contrária àquela que levou à dissolução do antigo), não podem faltar muitas.

Naquela parte que trata de uma comunidade cristã, há algumas doutrinas novas que, talvez, num Estado onde o contrário já estivesse plenamente estabelecido, constituíssem uma falha para um súdito sem permissão para divulgá-las, por usurparem o lugar de um mestre. Mas, nesta época em que os homens clamam não só pela paz, mas também pela verdade, oferecer doutrinas como as que considero verdadeiras, e que manifestamente contribuem para a paz e a lealdade, à consideração daqueles que ainda estão em deliberação, não é mais do que oferecer vinho novo para ser colocado em odres novos, para que ambos se conservem juntos. E suponho que, então, quando a novidade não pode gerar problemas nem desordem num Estado, os homens geralmente não estão tão inclinados à reverência pela antiguidade a ponto de preferirem erros antigos à verdade nova e comprovada.

Não há nada em que eu desconfie mais do que da minha própria elocução; contudo, estou confiante (exceto pelos infortúnios da imprensa) de que ela não seja obscura. O fato de eu ter negligenciado o ornamento de citar poetas, oradores e filósofos antigos, contrariamente ao costume dos tempos recentes (quer eu tenha me saído bem ou mal nisso), decorre do meu julgamento, fundamentado em muitas razões. Primeiro, toda a verdade da doutrina depende da razão ou das Escrituras; ambas dão crédito a muitos, mas nunca o recebem de nenhum escritor. Segundo, as questões em pauta não são de fato, mas de direito, no qual não há lugar para testemunhas. Quase nenhum desses escritores antigos deixa de se contradizer, às vezes, a si mesmo e aos outros; o que torna seus testemunhos insuficientes. Quarto, as opiniões que são tomadas unicamente com base no crédito da antiguidade não são intrinsecamente o julgamento daqueles que as citam, mas palavras que passam (como sussurros) de boca em boca. Em quinto lugar, muitas vezes, com um desígnio fraudulento, os homens misturam suas doutrinas corruptas com a sabedoria alheia. Em sexto lugar, não creio que os antigos que citam tenham considerado um adorno fazer o mesmo com aqueles que escreveram antes deles. Em sétimo lugar, é um argumento de indigestão quando frases gregas e latinas, não digeridas, voltam à tona, como costumava acontecer, sem alterações. Por fim, embora eu reverencie os homens da Antiguidade que escreveram a Verdade com clareza ou nos colocaram em um caminho melhor para descobri-la por nós mesmos, não creio que deva nada à Antiguidade em si: pois, se quisermos reverenciar a época, o presente é o mais antigo. Se a antiguidade do escritor é um fator importante, não tenho certeza, pois geralmente aqueles a quem tal honra é concedida eram mais antigos quando escreveram do que eu, que estou escrevendo. Mas, se analisarmos bem, o louvor aos autores antigos não provém da reverência aos mortos, mas da competição e da inveja mútua dos vivos.

Em conclusão, não há nada neste discurso, nem naquele que escrevi anteriormente sobre o mesmo assunto em latim, que, tanto quanto posso perceber, seja contrário à Palavra de Deus, aos bons costumes ou à perturbação da tranquilidade pública. Portanto, creio que possa ser proveitosamente impresso e ainda mais proveitosamente ensinado nas universidades, caso também assim pensem, pois a elas pertence o discernimento. Visto que as universidades são as fontes da doutrina civil e moral, de onde os pregadores e a nobreza, bebendo a água que encontram, costumam aspergi-la (tanto do púlpito quanto em suas conversas) sobre o povo, certamente deve-se ter muito cuidado para que ela seja pura, tanto do veneno de políticos pagãos quanto do encantamento de espíritos enganadores. E por esse meio, a maioria dos homens, conhecendo seus deveres, estará menos sujeita a servir à ambição de alguns descontentes em seus propósitos contra o Estado. e que sejam menos prejudicados pelas contribuições necessárias para a sua paz e defesa; e que os próprios governadores tenham menos motivos para manter, às custas do povo, um exército maior do que o necessário para garantir a liberdade pública contra as invasões e investidas de inimigos estrangeiros.

E assim encerro meu Discurso sobre o Governo Civil e Eclesiástico, motivado pelos distúrbios do tempo presente, sem parcialidade, sem aplicação e sem outro propósito senão o de apresentar aos olhos dos homens a Relação mútua entre Proteção e Obediência; cuja observância é inviolável pela condição da Natureza Humana e pelas Leis Divinas (tanto Naturais quanto Positivas). E embora na revolução dos Estados não possa haver uma constelação muito boa para o surgimento de verdades dessa natureza (pois enfrentam a ira dos destituidores de um governo antigo e veem apenas as costas daqueles que erguem um novo), não creio que será condenada neste momento, nem pelo Juiz Público da Doutrina, nem por qualquer um que deseje a continuidade da Paz Pública. E nessa esperança, retorno à minha interrompida Especulação sobre os Corpos Naturais; onde (se Deus me der saúde para terminá-la), espero que a novidade agrade tanto quanto costuma ofender a doutrina deste corpo artificial. Pois tal verdade, que não se opõe ao proveito nem ao prazer de ninguém, é bem-vinda a todos.