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MENSAGEM - Fernando Pessoa

Título: MENSAGEM

Autor: Fernando Pessoa
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neolivros.com
Imagens de capa: Pormenor estilizado do Padrão dos Descobrimentos em Lisboa
Edição nº: 2008/1-RNL

Benedictus Dominus Deus noster qui dedit nobis signum

NOTA PRELIMINAR 

O entendimento dos símbolos  e dos rituais  (simbólicos)  exige do intérprete  que possua  cinco 
qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para 
eles. 
A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e 
cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe 
interpretar. 
A segunda  é a  intuição.  A simpatia  pode  auxiliá-la,  se  ela já  existe,  porém não criá-la.  Por 
intuição  se  entende  aquela espécie  de entendimento  com que se  sente  o que  está  além do 
símbolo, sem que se veja. 
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe,  reconstrói  noutro nível o símbolo; 
tem,  porém,  que fazê-lo  depois  que,  no fundo,  é tudo  o mesmo. Não direi  erudição,  como 
poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação 
que está embaixo. Não poderá fazer  isto se a simpatia não tiver  lembrado essa relação,  se a 
intuição  a não tiver  estabelecido.  Então  a inteligência, de discursiva  que naturalmente  é,  se 
tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado. 
A quarta  é a compreensão,  entendendo por  esta  palavra  o conhecimento de outras  matérias,  
que permitam que o símbolo  seja iluminado por  várias  luzes,  relacionado com vários  outros 
símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a 
erudição é uma soma; nem direi cultura,  pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma 
vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo 
tempo, o entendimento de símbolos diferentes. 
A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns,  que é a graça, falando a outros, que é a 
mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo  
Anjo da Guarda,  entendendo cada uma destas  coisas,  que são a mesma da maneira  como as 
entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.

PRIMEIRA PARTE: BRASÃO 

Bellum sine bello .

I. OS CAMPOS 

PRIMEIRO / O DOS CASTELOS 
A Europa jaz, posta nos cotovelos: 
De Oriente a Ocidente jaz, fitando, 
E toldam-lhe românticos cabelos 
Olhos gregos, lembrando. 
O cotovelo esquerdo é recuado; 
O direito é em ângulo disposto. 
Aquele diz Itália onde é pousado; 
Este diz Inglaterra onde, afastado, 
A mão sustenta, em que se apoia o rosto. 
Fita, com olhar 'sfíngico e fatal, 
O Ocidente, futuro do passado. 
O rosto com que fita é Portugal. 

SEGUNDO / O DAS QUINAS 
Os Deuses vendem quando dão. 
Compra-se a glória com desgraça. 
Ai dos felizes, porque são 
Só o que passa! 
Baste a quem baste o que Ihe basta 
O bastante de Ihe bastar! 
A vida é breve, a alma é vasta: 
Ter é tardar. 
Foi com desgraça e com vileza 
Que Deus ao Cristo definiu: 
Assim o opôs à Natureza 
E Filho o ungiu. 

II. OS CASTELOS 

PRIMEIRO / ULISSES 
O mito é o nada que é tudo. 
O mesmo sol que abre os céus 
É um mito brilhante e mudo —-
O corpo morto de Deus, 
Vivo e desnudo. 
Este, que aqui aportou, 
Foi por não ser existindo. 
Sem existir nos bastou. 
Por não ter vindo foi vindo 
E nos criou. 
Assim a lenda se escorre 
A entrar na realidade, 
E a fecundá-la decorre. 
Em baixo, a vida, metade 
De nada, morre. 

SEGUNDO / VIRIATO 
Se a alma que sente e faz conhece 
Só porque lembra o que esqueceu, 
Vivemos, raça, porque houvesse 
Memória em nós do instinto teu. 
Nação porque reencarnaste, 
Povo porque ressuscitou 
Ou tu, ou o de que eras a haste — 
Assim se Portugal formou. 
Teu ser é como aquela fria 
Luz que precede a madrugada, 
E é ja o ir a haver o dia 
Na antemanhã, confuso nada. 

TERCEIRO / O CONDE D. HENRIOUE 
Todo começo é involuntário. 
Deus é o agente. 
O herói a si assiste, vário 
E inconsciente. 
À espada em tuas mãos achada 
Teu olhar desce. 
«Que farei eu com esta espada?» 
Ergueste-a, e fez-se. 

QUARTO / D. TAREJA 
As nações todas são mistérios. 
Cada uma é todo o mundo a sós. 
Ó mãe de reis e avó de impérios, 
Vela por nós!
Teu seio augusto amamentou 
Com bruta e natural certeza 
O que, imprevisto, Deus fadou. 
Por ele reza! 
Dê tua prece outro destino 
A quem fadou o instinto teu! 
O homem que foi o teu menino 
Envelheceu. 
Mas todo vivo é eterno infante 
Onde estás e não há o dia. 
No antigo seio, vigilante, 
De novo o cria! 

QUINTO / D. AFONSO HENRIQUES 
Pai, foste cavaleiro. 
Hoje a vigília é nossa. 
Dá-nos o exemplo inteiro 
E a tua inteira força! 
Dá, contra a hora em que, errada, 
Novos infiéis vençam, 
A bênção como espada, 
A espada como benção! 

SEXTO / D. DINIS 
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo 
O plantador de naus a haver, 
E ouve um silêncio múrmuro consigo: 
É o rumor dos pinhais que, como um trigo 
De Império, ondulam sem se poder ver. 
Arroio, esse cantar, jovem e puro, 
Busca o oceano por achar; 
E a fala dos pinhais, marulho obscuro, 
É o som presente desse mar futuro, 
É a voz da terra ansiando pelo mar. 

SÉTIMO (I) / D. JOÃO O PRIMEIRO 
O homem e a hora são um só 
Quando Deus faz e a história é feita. 
O mais é carne, cujo pó 
A terra espreita. 
Mestre, sem o saber, do Templo 
Que Portugal foi feito ser, 
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender. 
Teu nome, eleito em sua fama, 
É, na ara da nossa alma interna, 
A que repele, eterna chama, 
A sombra eterna. 

SÉTIMO (II) / D. FILIPA DE LENCASTRE 
Que enigma havia em teu seio 
Que só génios concebia? 
Que arcanjo teus sonhos veio 
Velar, maternos, um dia? 
Volve a nós teu rosto sério, 
Princesa do Santo Graal, 
Humano ventre do Império, 
Madrinha de Portugal! 

III. AS QUINAS 

PRIMEIRA / D. DUARTE, REI DE PORTUGAL 
Meu dever fez-me, como Deus ao mundo. 
A regra de ser Rei almou meu ser, 
Em dia e letra escrupuloso e fundo. 
Firme em minha tristeza, tal vivi. 
Cumpri contra o Destino o meu dever. 
Inutilmente? Não, porque o cumpri. 

SEGUNDA / D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL 
Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça 
A sua santa guerra. 
Sagrou-me seu em honra e em desgraça, 
Às horas em que um frio vento passa 
Por sobre a fria terra. 
Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me 
A fronte com o olhar; 
E esta febre de Além, que me consome, 
E este querer grandeza são seu nome 
Dentro em mim a vibrar. 
E eu vou, e a luz do gládio erguido dá 
Em minha face calma. 
Cheio de Deus, não temo o que virá, 
Pois venha o que vier, nunca será 
Maior do que a minha alma.

TERCEIRA / D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL 
Claro em pensar, e claro no sentir, 
É claro no querer; 
Indiferente ao que há em conseguir 
Que seja só obter; 
Dúplice dono, sem me dividir, 
De dever e de ser — 
Não me podia a Sorte dar guarida 
Por não ser eu dos seus. 
Assim vivi, assim morri, a vida, 
Calmo sob mudos céus, 
Fiel à palavra dada e à idéia tida. 
Tudo o mais é com Deus! 

QUARTA / D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL 
Não fui alguém. Minha alma estava estreita 
Entre tão grandes almas minhas pares, 
Inutilmente eleita, 
Virgemmente parada; 
Porque é do português, pai de amplos mares, 
Querer, poder só isto: 
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita — 
O todo, ou o seu nada. 

QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL 
Louco, sim, louco, porque quis grandeza 
Qual a Sorte a não dá. 
Não coube em mim minha certeza; 
Por isso onde o areal está 
Ficou meu ser que houve, não o que há. 
Minha loucura, outros que me a tomem 
Com o que nela ia. 
Sem a loucura que é o homem 
Mais que a besta sadia, 
Cadáver adiado que procria? 

IV. A COROA 
NUN'ÁLVARES PEREIRA 
Que auréola te cerca? 
É a espada que, volteando. 
Faz que o ar alto perca 
Seu azul negro e brando. 
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu? 
É Excalibur, a ungida, 
Que o Rei Artur te deu. 
'Sperança consumada, 
S. Portugal em ser, 
Ergue a luz da tua espada 
Para a estrada se ver! 

V. O TIMBRE 
A CABEÇA DO GRIFO / O INFANTE D. HENRIOUE 
Em seu trono entre o brilho das esferas, 
Com seu manto de noite e solidão, 
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras — 
O único imperador que tem, deveras, 
O globo mundo em sua mão. 

UMA ASA DO GRIFO / D. JOÃO O SEGUNDO 
Braços cruzados, fita além do mar. 
Parece em promontório uma alta serra — 
O limite da terra a dominar 
O mar que possa haver além da terra. 
Seu formidável vulto solitário 
Enche de estar presente o mar e o céu 
E parece temer o mundo vário 
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu. 

A OUTRA ASA DO GRIFO / AFONSO DE ALBUQUEROUE 
De pé, sobre os países conquistados 
Desce os olhos cansados 
De ver o mundo e a injustiça e a sorte. 
Não pensa em vida ou morte 
Tão poderoso que não quer o quanto 
Pode, que o querer tanto 
Calcara mais do que o submisso mundo 
Sob o seu passo fundo. 
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha. 
Criou-os como quem desdenha.

SEGUNDA PARTE: MAR PORTUGUÊS

Possessio maris. 
I. O INFANTE 
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. 
Deus quis que a terra fosse toda uma, 
Que o mar unisse, já não separasse. 
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma, 
E a orla branca foi de ilha em continente, 
Clareou, correndo, até ao fim do mundo, 
E viu-se a terra inteira, de repente, 
Surgir, redonda, do azul profundo. 
Quem te sagrou criou-te português.. 
Do mar e nós em ti nos deu sinal. 
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. 
Senhor, falta cumprir-se Portugal! 

II. HORIZONTE 
O mar anterior a nós, teus medos 
Tinham coral e praias e arvoredos. 
Desvendadas a noite e a cerração, 
As tormentas passadas e o mistério, 
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério 
'Splendia sobre as naus da iniciação. 
Linha severa da longínqua costa — 
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta 
Em árvores onde o Longe nada tinha; 
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores: 
E, no desembarcar, há aves, flores, 
Onde era só, de longe a abstracta linha 
O sonho é ver as formas invisíveis 
Da distância imprecisa, e, com sensíveis 
Movimentos da esp'rança e da vontade, 
Buscar na linha fria do horizonte 
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte — 
Os beijos merecidos da Verdade. 

III. PADRÃO 
O esforço é grande e o homem é pequeno. 
Eu, Diogo Cão, navegador, deixei 
Este padrão ao pé do areal moreno 
E para diante naveguei.
A alma é divina e a obra é imperfeita. 
Este padrão sinala ao vento e aos céus 
Que, da obra ousada, é minha a parte feita: 
O por-fazer é só com Deus. 
E ao imenso e possível oceano 
Ensinam estas Quinas, que aqui vês, 
Que o mar com fim será grego ou romano: 
O mar sem fim é português. 
E a Cruz ao alto diz que o que me há na alma 
E faz a febre em mim de navegar 
Só encontrará de Deus na eterna calma 
O porto sempre por achar. 

IV. O MOSTRENGO 
mostrengo que está no fim do mar 
Na noite de breu ergueu-se a voar; 
A roda da nau voou três vezes, 
Voou três vezes a chiar, 
E disse: «Quem é que ousou entrar 
Nas minhas cavernas que não desvendo, 
Meus tetos negros do fim do mundo?» 
E o homem do leme disse, tremendo: 
«El-Rei D. João Segundo!» 
«De quem são as velas onde me roço? 
De quem as quilhas que vejo e ouço?» 
Disse o mostrengo, e rodou três vezes, 
Três vezes rodou imundo e grosso. 
«Quem vem poder o que só eu posso, 
Que moro onde nunca ninguém me visse 
E escorro os medos do mar sem fundo?» 
E o homem do leme tremeu, e disse: 
«El-Rei D. João Segundo!» 
Três vezes do leme as mãos ergueu, 
Três vezes ao leme as reprendeu, 
E disse no fim de tremer três vezes: 
«Aqui ao leme sou mais do que eu: 
Sou um povo que quer o mar que é teu; 
E mais que o mostrengo, que me a alma teme 
E roda nas trevas do fim do mundo, 
Manda a vontade, que me ata ao leme, 
De El-Rei D. João Segundo!» 

V. EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS 
Jaz aqui, na pequena praia extrema, 
O Capitão do Fim.  Dobrado o Assombro, 
O mar é o mesmo:  já ninguém o tema!
Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro. 

Vl. OS COLOMBOS 
Outros haverão de ter 
O que houvermos de perder. 
Outros poderão achar 
O que, no nosso encontrar, 
Foi achado, ou não achado, 
Segundo o destino dado. 
Mas o que a eles não toca 
É a Magia que evoca 
O Longe e faz dele história. 
E por isso a sua glória 
É justa auréola dada 
Por uma luz emprestada. 

VII. OCIDENTE 
Com duas mãos — o Ato e o Destino — 
DesvendAmos. No mesmo gesto, ao céu 
Uma ergue o fecho trêmulo e divino 
E a outra afasta o véu. 
Fosse a hora que haver ou a que havia 
A mão que ao Ocidente o véu rasgou, 
Foi a alma a Ciência e corpo a Ousadia 
Da mão que desvendou. 
Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal 
A mão que ergueu o facho que luziu, 
Foi Deus a alma e o corpo Portugal 
Da mão que o conduziu. 

VIII. FERNÃO DE MAGALHÃES 
No vale clareia uma fogueira. 
Uma dança sacode a terra inteira. 
E sombras desformes e descompostas 
Em clarões negros do vale vão 
Subitamente pelas encostas, 
Indo perder-se na escuridão. 
De quem é a dança que a noite aterra? 
São os Titãs, os filhos da Terra, 
Que dançam na morte do marinheiro 
Que quis cingir o materno vulto 
— Cingiu-o, dos homens, o primeiro —, 
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada 
Do morto ainda comanda a armada, 
Pulso sem corpo ao leme a guiar 
As naus no resto do fim do espaço: 
Que até ausente soube cercar 
A terra inteira com seu abraço. 
Violou a Terra. Mas eles não 
O sabem, e dançam na solidão; 
E sombras disformes e descompostas, 
Indo perder-se nos horizontes, 
Galgam do vale pelas encostas 
Dos mudos montes. 

IX. ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA 
Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra 
Suspendem de repente o ódio da sua guerra 
E pasmam. Pelo vale onde se ascende aos céus 
Surge um silêncio, e vai, da névoa ondeando os véus, 
Primeiro um movimento e depois um assombro. 
Ladeiam-no, ao durar, os medos, ombro a ombro, 
E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões. 
Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta 
Cai-lhe, e em êxtase vê, à luz de mil trovões, 
O céu abrir o abismo à alma do Argonauta. 

X. MAR PORTUGUÊS 
Ó mar salgado, quanto do teu sal 
São lágrimas de Portugal! 
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, 
Quantos filhos em vão rezaram! 
Quantas noivas ficaram por casar 
Para que fosses nosso, ó mar! 
Valeu a pena? Tudo vale a pena 
Se a alma não é pequena. 
Quem quer passar além do Bojador 
Tem que passar além da dor. 
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, 
Mas nele é que espelhou o céu. 

XI. A ÚLTIMA NAU 
Levando a bordo El-Rei D. Sebastião, 
E erguendo, como um nome, alto o pendão 
Do Império, 
Foi-se a última nau, ao sol azíago 
Erma, e entre choros de ânsia e de presago
Mistério. 
Não voltou mais. A que ilha indescoberta 
Aportou? Voltará da sorte incerta 
Que teve? 
Deus guarda o corpo e a forma do futuro, 
Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro 
E breve. 
Ah, quanto mais ao povo a alma falta, 
Mais a minha alma atlântica se exalta 
E entorna, 
E em mim, num mar que não tem tempo ou 'spaço, 
Vejo entre a cerração teu vulto baço 
Que torna. 
Não sei a hora, mas sei que há a hora, 
Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora 
Mistério. 
Surges ao sol em mim, e a névoa finda: 
A mesma, e trazes o pendão ainda 
Do Império. 

XII. PRECE 
Senhor, a noite veio e a alma é vil. 
Tanta foi a tormenta e a vontade! 
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 
O mar universal e a saudade. 
Mas a chama, que a vida em nós criou, 
Se ainda há vida ainda não é finda. 
O frio morto em cinzas a ocultou: 
A mão do vento pode erguê-la ainda. 
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia — 
Com que a chama do esforço se remoça, 
E outra vez conquistaremos a Distância — 
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

TERCEIRA PARTE: O ENCOBERTO

Pax in excelsis .

I. OS SÍMBOLOS 


PRIMEIRO / D. SEBASTIÃO 
'Sperai! Cai no areal e na hora adversa 
Que Deus concede aos seus 
Para o intervalo em que esteja a alma imersa 
Em sonhos que são Deus. 
Que importa o areal e a morte e a desventura 
Se com Deus me guardei? 
É O que eu me sonhei que eterno dura 
É Esse que regressarei. 

SEGUNDO / O QUINTO IMPÉRIO 
Triste de quem vive em casa, 
Contente com o seu lar, 
Sem que um sonho, no erguer de asa 
Faça até mais rubra a brasa 
Da lareira a abandonar! 
Triste de quem é feliz! 
Vive porque a vida dura. 
Nada na alma lhe diz 
Mais que a lição da raiz 
Ter por vida a sepultura. 
Eras sobre eras se somem 
No tempo que em eras vem. 
Ser descontente é ser homem. 
Que as forças cegas se domem 
Pela visão que a alma tem! 
E assim, passados os quatro 
Tempos do ser que sonhou, 
A terra será teatro 
Do dia claro, que no atro 
Da erma noite começou. 
Grécia, Roma, Cristandade, 
Europa — os quatro se vão 
Para onde vai toda idade. 
Quem vem viver a verdade 
Que morreu D. Sebastião?

TERCEIRO / O DESEJADO 
Onde quer que, entre sombras e dizeres, 
Jazas, remoto, sente-te sonhado, 
E ergue-te do fundo de não-seres 
Para teu novo fado! 
Vem, Galaaz com pátria, erguer de novo, 
Mas já no auge da suprema prova, 
A alma penitente do teu povo 
À Eucaristia Nova. 
Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido, 
Excalibur do Fim, em jeito tal 
Que sua Luz ao mundo dividido 
Revele o Santo Graal! 

QUARTO / AS ILHAS AFORTUNADAS 
Que voz vem no som das ondas 
Que não é a voz do mar? 
E a voz de alguém que nos fala, 
Mas que, se escutarmos, cala, 
Por ter havido escutar. 
E só se, meio dormindo, 
Sem saber de ouvir ouvimos 
Que ela nos diz a esperança 
A que, como uma criança 
Dormente, a dormir sorrimos. 
São ilhas afortunadas 
São terras sem ter lugar, 
Onde o Rei mora esperando. 
Mas, se vamos despertando 
Cala a voz. e há só o mar. 

QUINTO / O ENCOBERTO 
Que símbolo fecundo 
Vem na aurora ansiosa? 
Na Cruz Morta do Mundo 
A Vida, que é a Rosa. 
Que símbolo divino 
Traz o dia já visto? 
Na Cruz, que é o Destino, 
A Rosa que é o Cristo. 
Que símbolo final 
Mostra o sol já desperto?
Na Cruz morta e fatal 
A Rosa do Encoberto. 

II. OS AVISOS 


PRIMEIRO / O BANDARRA 
Sonhava, anónimo e disperso, 
O Império por Deus mesmo visto, 
Confuso como o Universo 
E plebeu como Jesus Cristo. 
Não foi nem santo nem herói, 
Mas Deus sagrou com Seu sinal 
Este, cujo coração foi 
Não português, mas Portugal. 

SEGUNDO / ANTÓNIO VIEIRA 
O céu 'strela o azul e tem grandeza. 
Este, que teve a fama e à glória tem, 
Imperador da língua portuguesa, 
Foi-nos um céu também. 
No imenso espaço seu de meditar, 
Constelado de forma e de visão, 
Surge, prenúncio claro do luar, 
El-Rei D. Sebastião. 
Mas não, não é luar: é luz do etéreo. 
É um dia, e, no céu amplo de desejo, 
A madrugada irreal do Quinto Império 
Doira as margens do Tejo. 

TERCEIRO 
'Screvo meu livro à beiramágoa. 
Meu coração não tem que ter. 
Tenho meus olhos quentes de água. 
Só tu, Senhor, me dás viver. 
Só te sentir e te pensar 
Meus dias vácuos enche e doura. 
Mas quando quererás voltar? 
Quando é o Rei? Quando é a Hora? 
Quando virás a ser o Cristo 
De a quem morreu o falso Deus, 
E a despertar do mal que existo 
A Nova Terra e os Novos Céus?
Quando virás, ó Encoberto, 
Sonho das eras português, 
Tornar-me mais que o sopro incerto 
De um grande anseio que Deus fez? 
Ah, quando quererás voltando, 
Fazer minha esperança amor? 
Da névoa e da saudade quando? 
Quando, meu Sonho e meu Senhor? 

III. OS TEMPOS 


PRIMEIRO / NOITE 
A nau de um deles tinha-se perdido 
No mar indefinido. 
O segundo pediu licença ao Rei 
De, na fé e na lei 
Da descoberta, ir em procura 
Do irmão no mar sem fim e a névoa escura. 
Tempo foi. Nem primeiro nem segundo 
Volveu do fim profundo 
Do mar ignoto à pátria por quem dera 
O enigma que fizera. 
Então o terceiro a El-Rei rogou 
Licença de os buscar, e El-Rei negou. 
Como a um cativo, o ouvem a passar 
Os servos do solar. 
E, quando o vêem, vêem a figura 
Da febre e da amargura, 
Com fixos olhos rasos de ânsia 
Fitando a proibida azul distância. 
Senhor, os dois irmãos do nosso Nome 
— O Poder e o Renome — 
Ambos se foram pelo mar da idade 
À tua eternidade; 
E com eles de nós se foi 
O que faz a alma poder ser de herói. 
Queremos ir buscá-los, desta vil 
Nossa prisão servil: 
É a busca de quem somos, na distância 
De nós; e, em febre de ânsia, 
A Deus as mãos alçamos. 
Mas Deus não dá licença que partamos. 

SEGUNDO / TORMENTA
Que jaz no abismo sob o mar que se ergue? 
Nós, Portugal, o poder ser. 
Que inquietação do fundo nos soergue? 
O desejar poder querer. 
Isto, e o mistério de que a noite é o fausto... 
Mas súbito, onde o vento ruge, 
O relâmpago, farol de Deus, um hausto 
Brilha e o mar 'scuro 'struge. 

TERCEIRO / CALMA 
Que costa é que as ondas contam 
E se não pode encontrar 
Por mais naus que haja no mar? 
O que é que as ondas encontram 
E nunca se vê surgindo? 
Este som de o mar praiar 
Onde é que está existindo? 
lha próxima e remota, 
Que nos ouvidos persiste, 
Para a vista não existe. 
Que nau, que armada, que frota 
Pode encontrar o caminho 
A praia onde o mar insiste, 
Se à vista o mar é sozinho? 
Haverá rasgões no espaço 
Que dêem para outro lado, 
E que, um deles encontrado, 
Aqui, onde há só sargaço, 
O país afortunado 
Surja uma ilha velada, 
Que guarda o Rei desterrado 
Em sua vida encantada? 

QUARTO / ANTEMANHà
O mostrengo que está no fim do mar 
Veio das trevas a procurar 
A madrugada do novo dia 
Do novo dia sem acabar 
E disse: Quem é que dorme a lembrar 
Que desvendou o Segundo Mundo 
Nem o Terceiro quere desvendar? 
E o som na treva de ele rodar 
Faz mau o sono, triste o sonhar, 
Rodou e foi-se o mostrengo servo 
Que seu senhor veio aqui buscar.
Que veio aqui seu senhor chamar — 
Chamar Aquele que está dormindo 
E foi outrora Senhor do Mar. 

QUINTO / NEVOEIRO 
Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, 
Define com perfil e ser 
Este fulgor baço da terra 
Que é Portugal a entristecer — 
Brilho sem luz e sem arder, 
Como o que o fogo-fátuo encerra. 
Ninguém sabe que coisa quer. 
Ninguém conhece que alma tem, 
Nem o que é mal nem o que é bem. 
(Que ânsia distante perto chora?) 
Tudo é incerto e derradeiro. 
Tudo é disperso, nada é inteiro. 
Ó Portugal, hoje és nevoeiro... 
É a Hora! 
Valete, Frates.