Os Lusíadas

 

Luís Vaz de Camões

Canto Primeiro


1

As armas e os barões assinalados,

Que da ocidental praia Lusitana,

Por mares nunca antes navegados,

Passaram ainda além da Taprobana,

Em perigos e guerras esforçados,

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram;


2

E também as memórias gloriosas

Daqueles Reis, que foram dilatando

A Fé, o Império, e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando;

E aqueles, que por obras valerosas

Se vão da lei da morte libertando;

Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


3

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Neptuno e Marte obedeceram:

Cesse tudo o que a Musa antígua canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.


4

E vós, Tágides minhas, pois criado

Tendes em mim um novo engenho ardente,

Se sempre em verso humilde celebrado

Foi de mim vosso rio alegremente,

Dai-me agora um som alto e sublimado,

Um estilo grandíloquo e corrente,

Porque de vossas águas, Febo ordene

Que não tenham inveja às de Hipoerene.


5

Dai-me uma fúria grande e sonorosa,

E não de agreste avena ou frauta ruda,

Mais uma tuba cantante e beligerante,

Que o peito acende e a cor ao gesto muda;

Dai-me igual canto aos feitos da famosa

Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;

Que se espalhe e se cante no universo,

Se tão sublime preço cabe em verso.


6

E vós, ó bem nascida segurança

Da Lusitana antígua liberdade,

E não menos certíssima esperança

De aumento da pequena Cristandade;

Vós, ó novo temor da Maura lança,

Maravilha fatal da nossa idade,

Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,

Para do mundo a Deus dar parte grande;


7

Vós, tenro e novo ramo florescente

De uma árvore de Cristo mais amada

Que nenhuma nascida no Ocidente,

Cesárea ou Cristianíssima chamada;

(Vede-o no vosso escudo, que presente

Vos amostra a vitória já passada,

Na qual vos deu por armas, e deixou

As que Ele para si na Cruz tomou)


8

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império

O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando desce o deixa derradeiro;

Vós, que esperamos jugo e vitupério

Do torpe Ismaelita cavaleiro,

Do Turco oriental, e do Gentio,

Que inda bebe o licor do santo rio;


9

Inclinai por um pouco a majestade,

Que nesse tenro gesto vos contemplo,

Que já se mostra qual na inteira idade,

Quando subindo ireis ao eterno templo;

Os olhos da real benignidade

Ponde no chão: vereis um novo exemplo

Do amor, dois atos patrióticos valentes,

Em versos divulgado numerosos.


10

Vereis amor da pátria, não movido

De prêmio vil, mas alto e quase eterno:

Que não é prêmio vil ser conhecido

Por um pregão do ninho meu paterno.

Ouvi: vereis o nome engrandecido

Daqueles de quem sois senhor superno,

E julgareis qual é mais excelente,

Se ser do mundo Rei, se de til gente.


11

Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,

Fantásticas, fingidas, mentirosas,

Louvar os vossos, como nas estranhas

Musas, de engrandecer-se desejosas:

As verdadeiras vossas são tamanhas,

Que excedem as sonhadas, fabulosas;

Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,

E Orlando, inda que fora verdadeiro,


12

Por estes vos darei um Nuno fero,

Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,

Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero

A cítara para eles só cobiço.

Pois pelos doze Pares dar-vos quero

Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;

Dou-vos também aquele ilustre Gama,

Que para si de Eneias toma a fama.


13

Pois se a troco de Carlos, Rei de França,

Ou de César, quereis igual memória,

Vede o primeiro Afonso, cuja lança

Escura faz qualquer estranha glória;

E aquele que a seu Reino a segurança

Deixou com a grande e próspera vitória;

Outro Joane, cavaleiro invicto,

O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.


14

Nem deixarão meus versos esquecidos

Aqueles que nos Reinos lá da Aurora

Fizeram, só por armas tão subidos,

Vossa bandeira sempre vencedora:

Um Pacheco fortíssimo, e os temidos

Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;

Albuquerque terríbil, Castro forte,

E outros em quem poder não teve a morte.


15

E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,

Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,

Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

Comecem a sentir o peso grosso

(Que pelo mundo todo faça espanto)

De exércitos e feitos singulares,

De África as terras, e do Oriente os marços,


16

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

Em quem vê seu exício afigurado;

Só com vos ver o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;

Tethys todo o cerúleo senhorio

Tem para vós por dote aparelhado;

Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,

Deseja de comprar-vos para genro.


17

Em vós se vêm da olímpica morada

Dos dois avós as almas cá famosas,

Uma na paz angélica dourada,

Outra pelas batalhas sanguinosas;

Em vós esperam ver-se renovada

Sua memória e obras valerosas;

E lá vos tem lugar, no fim da idade,

No templo da suprema Eternidade.


18

Mas enquanto este tempo passa lento

De regerdes os povos, que o desejam,

Dai vós favor ao novo atrevimento,

Para que estes meus versos vossos sejam;

E vereis ir cortando o salso argento

Os vossos Argonautas, por que vejam

Que são vistos de vós no mar irado,

E costumai-vos já a ser invocado.


19

Já no largo Oceano navegavam,

À medida que as ondas inquietas se separam;

Os ventos brandamente respiravam,

Das naus as velas côncavas inchando;

Da branca escuma os mares se mostravam

Cobertos, onde as proas vão cortando

As marítimas águas consagradas,

Que do gado de Próteo são cortadas


20

Quando os Deuses no Olimpo luminoso,

Onde o governo está da humana gente,

Se ajuntam em concílio glorioso

Sobre o futuro do Oriente.

Pisando o cristalino Céu formoso,

Vêm pela Via-Láctea juntamente,

Convocados da parte do Tonante,

Pelo neto gentil do velho Atlante.


21

Deixam dos sete Céus o regimento,

Que do poder mais alto lhe foi dado,

Alto poder, que só co'o pensamento

Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.

Ali se acharam juntos em um momento

Aqueles que habitam o Arcturo congelado,

E os que o Austro tem, e as partes onde

A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.


22

Ó Pai, ali havia asas sublimes e divinas,

Isso faz vibrar os raios ferozes de Vulcano,

Num assento de estrelas cristalino,

Com gesto alto, severo e soberano.

Do rosto respirava um ar divino,

Que divino tornara um corpo humano;

Com uma coroa e cetro rutilante,

De outra pedra mais clara que diamante.


23

Em luzentes assentos, marchetados

De ouro e de perlas, mais abaixo estavam

Os outros Deuses todos assentados,

Como a razão e a ordem concertavam:

Precedem os antíguos mais honrados;

Mais abaixo os menores se assentavam;

Quando Júpiter alto, assim dizendo,

C'um tom de voz começa, grave e horrendo:


24

"Eternos moradores do luzente

Estelífero pólo, e claro assento,

Se do grande valor da forte gente

De Luso não perdeis o pensamento,

Deveis de ter sabido claramente,

Como é dos fados grandes certo intento,

Que por ela se esqueçam os humanos

De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.


25

"Já lhe foi (bem o vistes) concedido

C'um poder tão singelo e tão pequeno,

Tomar ao Mouro forte e guarnecido

Toda a terra, que rega o Tejo ameno:

Pois contra o Castelhano tão temido,

Sempre alcançou favor do Céu sereno.

Assim que sempre, enfim, com fama e glória,

Teve os troféus pendentes da vitória.


26

"Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,

Que coa gente de Rómulo alcançaram,

Quando com Viriato, na inimiga

Guerra romana tanto se afamaram;

Também deixo a memória, que os obriga

A grande nome, quando alevantaram

Um por seu capitão, que peregrino

Fingiu na cerva espírito divino.


27

"Agora vedes bem que, cometendo

O duvidoso mar num lenho leve,

Por vias nunca usadas, não temendo

De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:

Que havendo tanto já que as partes vendo

Onde o dia é comprido e onde breve,

Inclinam seu propósito e porfia

A ver os berços onde nasce o dia.


28

"Prometido lhe está do Fado eterno,

Cuja alta Lei não pode ser quebrada,

Que tenham longos tempos o governo

Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.

Nas águas têm passado o duro inverno;

A gente vem perdida e trabalhada;

Já parece bem feito que lhe seja

Mostrada a nova terra, que deseja.


29

"E porque, como vistes, têm passados

Na viagem tão ásperos perigos,

Tantos climas e céus experimentados,

Tanto furor de ventos inimigos,

Que sejam, determino, agasalhados

Nesta costa africana, como amigos.

E tendo guarnecida a lassa frota,

Tornarão a seguir sua longa rota."


30

Estas palavras Júpiter dizia,

Quando os Deuses por ordem respondendo,

Na sentença um do outro diferia,

Razões diversas dando e recebendo.

O padre Baco ali não consentia

No que Júpiter disse, conhecendo

Que esquecerão seus feitos no Oriente,

Se lá passar a Lusitana gente.


31

Ouvido tinha aos Fados que viria

Uma gente fortíssima de Espanha

Pelo mar alto, a qual sujeitaria

Da índia tudo quanto Dóris banha,

E com novas vitórias venceria

A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.

Altamente lhe dói perder a glória,

De que Nisa celebra inda a memória.


32

Vê que já teve o Indo sojugado,

E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,

Por vencedor da Índia ser cantado

De quantos bebem a água de Parnaso.

Teme agora que seja sepultado

Seu tão célebre nome em negro vaso

D'água do esquecimento, se lá chegam

Os fortes Portugueses, que navegam.


33

Sustentava contra ele Vénus bela,

Afeiçoada à gente Lusitana,

Por quantas qualidades via nela

Da antiga tão amada sua Romana;

Nos fortes corações, na grande estrela,

Que mostraram na terra Tingitana,

E na língua, na qual quando imagina,

Com pouca corrupção crê que é a Latina.


34

Estas causas moviam Citereia,

E mais, porque das Parcas claro entende

Que há de ser celebrada a clara Deia,

Onde a gente belígera se estende.

Assim que, um pela infâmia, que arreceia,

E o outro pelas honras, que pretende,

Debatem, e na porfia permanecem;

A qualquer seus amigos favorecem.


35

Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura

De silvestre arvoredo abastecida,

Rompendo os ramos vão da mata escura,

Com ímpeto e braveza desmedida;

Brama toda a montanha, o som murmura,

Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:

Tal andava o tumulto levantado,

Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.


36

Mas Marte, que da Deusa sustentava

Entre todos as partes em porfia,

Ou porque o amor antigo o obrigava,

Ou porque a gente forte o merecia,

De entre os Deuses em pé se levantava:

Merencório no gesto parecia;

O forte escudo ao colo pendurado

Deitando para trás, medonho e irado,


37

A viseira do capacete de diamante

Alevantando um pouco, mui seguro,

Por dar seu parecer, se pôs diante

De Júpiter, armado, forte e duro:

E dando uma pancada penetrante,

Com o conto do bastão no sólio puro,

O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,

Um pouco a luz perdeu, como enfiado.


38

E disse assim: "Ó Padre, a cujo império

Tudo aquilo obedece, que criaste,

Se esta gente, que busca outro hemisfério,

Cuja valia, e obras tanto amaste,

Não queres que padeçam vitupério,

Como há já tanto tempo que ordenaste,

Não onças mais, pois és juiz direito,

Razões de quem parece que é suspeito.


39

"Que, se aqui a razão não se mostrasse

Vencida do temor demasiado,

Bem fora que aqui Baco os sustentasse,

Pois que de Luso vem, seu tão privado;

Mas esta tenção sua agora passe,

Porque enfim vem de estâmago danado;

Que nunca tirará alheia inveja

O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.


40

E tu, Pai de grande força,

Da determinação, que tens tomada,

Não tornes por detrás, pois é fraqueza

Desistir-se da cousa começada.

Mercúrio, pois excede em ligeireza

Ao vento leve, e à seta bem talhada,

Lhe vá mostrar a terra, onde se informe

Da índia, e onde a gente se reforme."


41

Como isto disse, o Padre poderoso,

A cabeça inclinando, consentiu

O que disse Mavorte, valente?

E néctar sobre todos esparziu.

Pelo caminho Lácteo glorioso

Logo cada um dos Deuses se partiu,

Fazendo seus reais acatamentos,

Para os determinados aposentos.


42

Enquanto isso se passa na formosa

Casa etérea do Olimpo onipotente,

Cortava o mar a gente belicosa,

Já lá da banda do Austro e do Oriente,

Entre a costa Etiópica e a famosa

Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente

Queimava então os Deuses, que Tifeu

Com o temor grande em peixes converteu.



43

Tão brandamente os ventos os levavam,

Como quem o céu tinha por amigo:

Sereno o ar, e os tempos se mostravam

Sem nuvens, sem receio de perigo.

O promontório Prasso já passavam,

Na costa de Etiópia, nome antigo,

Quando o mar descobrindo lhe mostrava

Novas ilhas, que em torno cerca e lava.


44

Vasco da Gama, o forte capitão,

Que a tamanhas empresas se oferece,

De soberbo e de altivo coração,

A quem Fortuna sempre favorece,

Para se aqui deter não vê razão,

Que inabitada a terra lhe parece:

Por diante passar determinava;

Mas não lhe sucedeu como cuidava.


45

Eis aparecem logo em companhia

Uns pequenos batéis, que vêm daquela

Que mais chegada à terra parecia,

Cortando o longo mar com larga vela.

A gente se alvoroça, e de alegria

Não sabe mais que olhar a causa dela.

Que gente será esta, em si diziam,

Que costumes, que Lei, que Rei teriam?


46

As embarcações eram, na maneira,

Mui veloces, estreitas e compridas:

As velas, com que, vêm, eram de esteira

Dumas folhas de palma, bem tecidas;

A gente da cor era verdadeira,

Que Faeton, nas terras acendidas,

Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:

O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.


47

De panos de algodão vinham vestidos,

De várias cores, brancos e listrados:

Uns trazem derredor de si cingidos,

Outros em modo airoso sobraçados:

Da cinta para cima vêm despidos;

Por armas têm adargas o terçados;

Com toucas na cabeça; e navegando,

Anafis sonoros vão tocando.


48

Co'os panos e co'os braços acenavam

As gentes Lusitanas, que esperassem;

Mas já as proas ligeiras se inclinavam

Para que junto às ilhas amainassem.

A gente e marinheiros trabalhavam,

Como se aqui os trabalhos se acabassem;

Tomam velas; amaina-se a verga alta;

Da âncora, o mar ferido, em cima salta.


49

Não eram ancorados, quando a gente

Estranha pelas cordas já subia.

No gesto ledos vêm, e humanamente

O sublime Capitão os recebia:

As mesas manda pôr em continente;

Do licor que Lieo prantado havia

Enchem vasos de vidro, e do que deitam,

Os de Faeton queimados nada enjeitam.


50

Comendo alegremente perguntavam,

Pela Arábica língua, donde vinham,

Quem eram, de que terra, que buscavam,

Ou que partes do mar corrido eles tinham?

Os fortes Lusitanos lhe tornavam

As discretas respostas, que convinham:

"Os Portugueses somos do Ocidente,

Estamos em busca das terras do Oriente.


51

"Do mar temos corrido e navegado

Toda a parte do Antártico e Calisto,

Tudo rodeado pela costa africana,

Diversos céus e terras temos visto;

Dum Rei potente somos, tão amado,

Tão querido de todos, e benquisto,

Que não no largo mar, com leda fronte,

Mas nós não entraremos no lago de Aqueronte.


52

"E por mandado seu, buscando andamos

A terra Oriental que o Indo rega;

Por ele, o mar remoto navegamos,

Que só dos feios focas se navega.

Mas já razão parece que saibamos,

Se entre vós a verdade não se nega,

Quem sois, que terra é esta que habitais,

Ou se tendes da Índia alguns sinais?"


53

"Somos, um dos das ilhas lhe tornou,

Estrangeiros na terra, Lei e nação;

Que os próprios são aqueles, que criou

A natura sem Lei e sem razão.

Nós temos a Lei certa, que ensinou

O claro descendente de Abraão

Que agora tem do mundo o senhorio,

A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.

Informações. A Ilha de Moçambique.


54

"Esta ilha pequena, que habitamos,

em toda esta terra certa escala

De todos os que as ondas navegamos

De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;

E, por ser necessária, procuramos,

Como próprios da terra, de habitá-la;

E por que tudo enfim vos notifique,

Chama-se a pequena ilha Moçambique.


55

"E já que de tão longe navegais,

Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,

Piloto aqui tereis, por quem sejais

Guiados pelas ondas sabiamente.

Também será bem feito que tenhais

Da terra algum refresco, e que o Regente

Que esta terra governa, que vos veja,

E do mais necessário vos proveja."


56

Isto dizendo, o Mouro se tornou

A seus batéis com toda a companhia;

Do Capitão e gente se apartou

Com mostras de devida cortesia.

Nisto Febo nas águas encerrou,

Co'o carro de cristal, o claro dia,

Dando cargo à irmã, que alumiasse

O largo mundo, enquanto repousasse.


57

A noite se passou na lassa frota

Com estranha alegria, e não cuidada,

Por acharem da terra tão remota

Nova de tanto tempo desejada.

Qualquer então consigo cuida e nota

Na gente e na maneira desusada,

E como os que na errada Seita creram,

Tanto por todo o mundo se estenderam,


58

Da Lua os claros raios rutilavam

Pelas argênteas ondas Neptuninas,

As estrelas os Céus acompanhavam,

Qual campo revestido de boninas;

Os furiosos ventos repousavam

Pelas covas escuras peregrinas;

Porém da armada a gente vigiava,

Como por longo tempo costumava.


59

Mas assim como a Aurora marchetada

Os formosos cabelos espalhou

No Céu sereno, abrindo a roxa entrada

Ao claro Hiperiónio, que acordou,

Começa a embandeirar-se toda a armada,

E de toldos alegres se adornou,

Por receber com festas e alegria

O Regedor das ilhas, que partia.


60

Ele partiu feliz, navegando.

A ver as naus ligeiras Lusitanas,

Com refresco da terra, em si cuidando

Que são aquelas gentes inumanas,

Que, os aposentos cáspios habitando,

A conquistar as terras Asianas

Vieram; e por ordem do Destino,

O Império tomaram a Constantino.


61

Recebe o Capitão alegremente

O Mouro, e toda a sua companhia;

Dá-lhe de ricas peças um presente,

Que só para este efeito já trazia;

Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente

Não usado licor, que dá alegria.

Tudo o Mouro contente bem recebe;

E muito mais contente come e bebe.


62

Está a gente marítima de Luso

Subida pela enxárcia, de admirada,

Notando o estrangeiro modo e uso,

E a linguagem tão bárbara e enleada.

Também o Mouro astuto está confuso,

Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;

E perguntando tudo, lhe dizia

"Se por ventura vinham de Turquia?"


63

E mais lhe diz também, que ver deseja

Os livros de sua Lei, preceito eu fé,

Para ver se conforme à sua seja,

Ou se são dos de Cristo, como Crê.

E porque tudo note e tudo veja,

Ao Capitão pedia que lhe dê

Mostra das fortes armas de que usavam,

Quando co'os inimigos pelejavam.


64

Responde o valeroso Capitão

Por um, que a língua escura bem sabia:

"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação

De mim, da Lei, das armas que trazia.

Nem sou da terra, nem da geração

Aquela gente irritante da Turquia:

Mas sou da forte Europa belicosa,

Busco as terras da índia tão famosa.


65

A lei tenho daquele, a cujo império

Obedece o visíbil e ínvisíbil

Aquele que criou todo o Hemisfério,

Tudo o que sente, o todo o insensíbil;

Que padeceu desonra e vitupério,

Sofrendo morte injusta e insofríbil,

E que do Céu à Terra, enfim desceu,

Por subir os mortais da Terra ao Céu.


66

Deste Deus-Homem, alto e infinito,

Os livros, que tu pedes não trazia,

Que bem posso escusar trazer escrito

Em papel o que na alma andar devia.

Se as armas queres ver, como tens dito,

Cumprido esse desejo te seria;

Como amigo as verás; porque eu me obrigo,

Que nunca as queiras ver como inimigo."


67

Isto dizendo, manda os diligentes

Ministros amostrar as armaduras:

Vêm arneses, e peitos reluzentes,

Malhas finas, e lâminas seguras,

Brasões com cores de tinta diferentes,

Pelouros, espingardas de aço puras,

Arcos, e sagitíferas aljavas,

Partazanas agudas, chuças bravas:


68

As bombas vêm de fogo, e juntamente

As panelas sulfúreas, tão danosas;

Porém aos de Vulcano não consente

Que dêem fogo às bombardas temerosas;

Porque o generoso ânimo e valente,

Entre gentes tão poucas e medrosas,

Não mostra quanto pode, e com razão,

Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.


69

Porém disto, que o Mouro aqui notou,

E de tudo o que viu com olho atento

Um ódio certo na alma lhe ficou,

Uma vontade má de pensamento.

Nas mostras e no gesto o não mostrou;

Mas com risonho e ledo fingimento

Tratá-los brandamente determina,

Até que mostrar possa o que imagina.


70

Pilotos lhe pedia o Capitão,

Por quem pudesse à Índia ser levado;

Diz-lhe que o largo prêmio levarão

Do trabalho que nisso for tomado.

Promete-lhos o Mouro, com tenção

De peito venenoso, e tão danado,

Que a morte, se pudesse, neste dia,

Em lugar de pilotos lhe daria.



71

Tamanho o ódio foi, e a má vontade,

Que aos estrangeiros súbito tomou,

Sabendo ser sequazes da verdade,

Que o Filho de David nos ensinou.

ó segredos daquela Eternidade,

A quem juízo algum nunca alcançou!

Que nunca falte um pérfido inimigo

Aqueles de quem foste tanto amigo!


72

Partiu-se Disto enfim coa companhia,

Das naus o falso Mouro despedido,

Com enganosa e grande cortesia,

Com gesto ledo a todos, e fingido.

Cortaram os batéis a curta via

Das águas de Netuno, e recebido

Na terra do obsequente ajuntamento

Se foi o Mouro ao cógnito aposento.


73

Do claro assento etóreo o grão Tebano,

Que da paternal coxa foi nascido,

Olhando o ajuntamento Lusitano

Ao Mouro ser molesto e avorrecido,

No pensamento cuida um falso engano,

Com que seja de todo destruído.

E enquanto isto só na alma imaginava,

Consigo estas palavras praticava:


74

"Está do fado já determinado,

Que tamanhas vitórias, tão famosas,

Hajam os Portugueses alcançado

Das Indianas gentes belicosas.

E eu só, filho do Padre sublimado,

Com tantas qualidades generosas,

Hei de sofrer que o fado favoreça

Outrem, por quem meu nome se escureça?


75

"Já quiseram os Deuses que tivesse

O filho de Filipo nesta parte

Tanto poder, que tudo submetesse

Debaixo de seu jugo o fero Marte.

Mas há-se de sofrer que o fado desse

A tão poucos tamanho esforço e arte,

Que eu co'o grão macedônio, e o romano,

Demos lugar ao nome Lusitano?


76

"Não será assim, porque antes que chegado

Seja este Capitão, astutamente

Lhe será tanto engano fabricados

Que nunca veja as partes do Oriente.

Eu descerei à Terra, e o indignado

Peito revolverei da Maura gente;

Porque sempre por via irá direita

Quem do oportuno tempo se aproveita."


77

Isto dizendo, irado e quase insano,

Em terras africanas ele desceu,

Onde vestindo a forma e gesto humano,

Para o Prasso sabido se moveu.

E por melhor tecer o astuto engano,

No gesto natural se converteu

Dum Mouro, em Moçambique conhecido

Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.


78

E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas

A sua falsidade acomodadas,

Lhe diz como eram gentes roubadoras,

Estas que ora de novo são chegadas;

Que das nações na costa moradoras

Correndo a fama veio que roubadas

Foram por estes homens que passavam,

Que com pactos de paz sempre ancoravam.


79

E sabe mais, lhe diz, como entendido

Tenho destes cristãos sanguinolentos,

Que quase todo o mar têm destruído

Com roubos, com incêndios violentos;

E trazem já de longe engano urdido

Contra nós; e que todos seus intentos

São para nos matarem e roubarem,

E mulheres e filhos cativarem.


80

"E também sei que tem determinado

De vir por água a terra muito cedo

O Capitão dos seus acompanhado,

Que da tensão danada nasce o medo.

Tu deves de ir também co'os teus armado

Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;

Porque, saindo a gente descuidada,

Cairão facilmente na cilada.


81

"E se inda não ficarem desse jeito

Destruídos, ou mortos totalmente

Eu tenho imaginado no conceito

Outra manha e ardil, que te contente:

Manda-lhe dar piloto, que de jeito

Seja astuto no engano, e tão prudente,

Que os leve aonde sejam destruídos,

Desbaratados, mortos, ou perdidos."


82

Tanto que essas palavras acabou,

O Mouro, nos tais casos sábio e velho,

Os braços pelo colo lhe lançou,

Agradecendo muito o tal conselho;

E logo nesse instante concertou

Para a guerra o belígero aparelho,

Para que ao Português se lhe tornasse

Em roxo sangue a água, que buscasse.


83

E busca mais, para o cuidado engano,

Mouro, que por piloto à nau lhe mande,

Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,

De quem fiar-se possa um feito grande.

Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,

Por tais costas e mares com ele ande,

Que, se daqui escapar, que lá diante

Vá cair onde nunca se alevante.


84

Já o raio Apolíneo visitava

As montanhas nabateias se iluminaram,

Quando o Gama, colos seus determinava

De vir por água a terra apercebido.

A gente nos batéis se concertava,

Como se fosse o engano já sabido:

Mas pode suspeitar-se facilmente,

Que o coração pressago nunca mente.


85

E mais também mandado tinha a terra,

De antes, pelo piloto necessário,

E foi-lhe respondido em som de guerra,

Caso do que cuidava mui contrário;

Por isto, e porque sabe quanto erra

Quem se crê de seu pérfido adversário,

Apercebido vai como podia,

Em três batéis somente que trazia.


86

Mas os Mouros que andavam pela praia,

Por lhe defender a água desejada,

Um de escudo embraçado e de azagaia,

Outro de arco encurvado e seta ervada,

Esperam que a guerreira gente saia,

Outros muitos já postos em cilada.

E, porque o caso leve se lhe faça,

Põem uns poucos diante por negaça,


87

Andam pela ribeira alva, arenosa,

Os mouros guerreiros jantando

Com a adarga e co'a hástia perigosa,

Os fortes Portugueses incitando.

Não sofre muito a gente generosa

Andar-lhe os cães os dentes amostrando.

Qualquer em terra salta tão ligeiro,

Que nenhum dizer pode que é primeiro.


88

Qual não corro sanguino o ledo amante,

Vendo a formosa dama desejada,

O touro busca, e pondo-se diante,

Salta, corre, sibila, acena, e brada,

Mas o animal atroce, nesse instante,

Com a fronte cornígera inclinada,

Bramando duro corre, e os olhos cerra,

Derriba, fere e mata, e põe por terra:


89

Eis nos batéis o fogo se levanta

Na furiosa e dura artilharia,

O prumo para o arbusto, o galho assustado,

Ferido o ar retumba e assovia:

O coração dos mouros se quebranta,

O temor grande o sangue lhe resfria.

Já foge o escondido de medroso,

E morre o descoberto aventuroso.


90

Não se contenta a gente Portuguesa,

Mas seguindo a vitória estrui e mata;

A povoação, sem muro e sem defesa,

Esbombardeia, acenda e desbarata.

Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,

Que bem cuidou comprá-la mais barata;

Já blasfema da guerra, e maldizia,

O velho inerte, e a mãe que o filho cria.


91

Fugindo, a seta o Mouro vai tirando

Sem força, de covarde e de apressado,

A pedra, o pau, e o canto arremessando;

Dê a ele armas de fúria desenfreada.

Já a ilha e todo o mais desemparando,

A terra firme foge amedrontado;

Passa e corta do mar o estreito braço,

Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço


92

Uns vão nas almadias carregadas,

Um corta o mar a nado diligente,

Quem se afoga nas ondas encurvadas,

Quem bebe o mar, e o deita juntamente.

Arrombam as miúdas bombardadas

Os pangaios subtis da bruta gente:

Dessa arte o Português enfim castiga

A vil malícia, pérfida, inimiga.


93

Tornam vitoriosos para a armada,

Co'o despojo da guerra e rica presa,

E vão a seu prazer fazer aguada,

Sem achar resistência, nem defesa.

Ficava a Maura gente magoada,

No ódio antigo mais que nunca acesa;

E vendo sem vingança tanto dano,

Somente estriba no segundo engano.


94

Pazes cometer manda arrependido

O Regedor daquela terra iníqua,

Sem ser dos Lusitanos entendido,

Que em figura de paz lhe manda guerra;

Porque o piloto falso prometido,

Que toda má tenção no peito encerra,

Para os guiar à morte lhe mandava,

Como em sinal das pazes que tratava.


95

O Capitão, que já lhe então convinha

Tornar a seu caminho acostumado,

Que tempo concertado e ventos tinha

Para ir buscar o Indo desejado,

Recebendo o piloto, que lhe vinha,

Foi dele alegremente agasalhado;

E respondendo ao mensageiro a tento,

As velas manda dar ao largo vento.


96

Desta arte despedida a forte armada,

As ondas de Anfitrite dividia,

Das filhas de Nereu acompanhada,

Fiel, alegre e doce companhia.

O Capitão, que não caía em nada

Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,

Dele mui largamente se informava

Da Índia toda, e costas que passava.


97

Mas o Mouro, instruído nos enganos

Que o malévolo Baco lhe ensinara,

De morte ou cativeiro novos danos,

Antes que à Índia chegue, lhe prepara:

Dando razões dos portos Indianos,

Também tudo o que pede lhe declara,

Que, havendo por verdade o que dizia,

De nada a forte gente se temia.


98

E diz-lhe mais, com o falso pensamento

Com que Sinon os Frígios enganou:

Que perto está uma ilha, cujo assento

Povo antigo cristão sempre habitou.

O Capitão, que a tudo estava a tento,

Tanto com estas novas se alegrou,

Que com dádivas grandes lhe rogava,

Que o leve à terra onde esta gente estava.


99

O mesmo o falso Mouro determina,

Que o seguro Cristão lhe manda e pede;

Que a ilha é possuída da malina

Gente que segue o torpe Mahamede.

Aqui o engano e morte lhe imagina,

Porque em poder e forças muito excede

A Moçambique esta ilha, que se chama

Quíloa, mui conhecida pela fama.


100

Para lá se inclinava a leda frota;

Mas a Deusa em Citere celebrada,

Vendo como deixava a certa rota

Por ir buscar a morte não cuidada,

Não consente que em terra tão remota

Se perca a gente dela tanto amada.

E com ventos contrários a desvia

Donde o piloto falso a leva e guia.


101

Mas o malvado Mouro, não podendo

Tal determinação levar avante,

Outra maldade iníqua cometendo,

Ainda em seu propósito constante,

Lhe diz que, pois as águas discorrendo

Os levaram por força por diante,

Que outra ilha tem perto, cuja gente

Eram Cristãos com Mouros juntamente.


102

Também nestas palavras lhe mentia,

Como por regimento enfim levava,

Que aqui gente de Cristo não havia,

Mais do que Mahamede foi celebrado.

O Capitão, que em tudo o Mouro cria,

Virando as velas, a ilha demandava;

Mas, não querendo a Deusa guardadora,

Não entra pela barra, e surge fora.


103

Estava a ilha à terra tão chegada,

Que um estreito pequeno a dividia;

Uma cidade nela situada,

Que na fronte do mar aparecia,

De nobres edifícios fabricada,

Como por fora ao longe descobria,

Regida por um Rei de antiga idade:

Mombaça é o nome da ilha e da cidade.


104

E sendo a ela o Capitão chegado,

Estranhamente ledo, porque espera

De poder ver o povo batizado,

Como o falso piloto lhe dissera,

Eis vêm batéis da terra com recado

Do Rei, que já sabia a gente que era:

Que Baco muito de antes o avisara,

Na forma de outro mouro, que ele havia capturado.


105

O recado que trazem é de amigos,

Mas debaixo o veneno vem coberto;

Que os pensamentos eram de inimigos,

Segundo foi o engano descoberto.

Ó grandes e gravíssimos perigos!

Ó caminho de vida nunca certo:

Que aonde a gente põe sua esperança,

Tenha a vida tão pouca segurança!


106

Nenhum mar trouxe tanto tormento e tanta destruição.

Tantas vezes a morte apercebida!

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade avorrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme, e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?



Canto Segundo


1

Já neste tempo o lúcido Planeta,

Que as horas vai do dia distinguindo,

Chegava à desejada e lenta meta,

A luz celeste às gentes encobrindo,

E da casa marítima secreta

Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,

Quando as infidas gentes se chegaram

As naus, que pouco havia que ancoraram.


2

Dentre eles um, que traz encomendado

O mortífero engano, assim dizia:

"Capitão valeroso, que cortado

Tens de Netuno o reino e salsa via,

O Rei que manda esta ilha, alvoroçado

Da vinda tua, tem tanta alegria,

Que não deseja mais que agasalhar-te,

Ver-te, e do necessário reformar-te.


3

"E porque está em extremo desejoso

De te ver, como cousa nomeada,

Te roga que, de nada receoso,

Entres a barra, tu com toda armada:

E porque do caminho trabalhoso

Você trará pessoas fracas e cansadas,

Diz que na terra você pode reformá-la,

Que a natureza obriga a desejá-la.


4

"E se buscando vás mercadoria

Que produze o aurífero Levante,

Canela, cravo, ardente especiaria,

Ou droga salutífera e prestante;

Ou se queres luzente pedraria,

O rubi fino, o rígido diamante,

Daqui levarás tudo tão sobejo

Com que faças o fim a teu desejo."


5

Ao mensageiro o Capitão responde

As palavras do Rei agradecendo:

E diz que, porque o Sol no mar se esconde,

Não entra para dentro, obedecendo;

Porém que, como a luz mostrar por onde

Vá sem perigo a frota, não temendo,

Cumprirá sem receio seu mandado,

Que a mais por tal senhor está obrigado.


6

Pergunta-lhe depois, se estão na terra

Cristãos, como o piloto lhe dizia;

O mensageiro astuto, que não erra,

Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.

Desta sorte do peito lhe desterra

Toda a suspeita e cauta fantasia;

Por onde o Capitão seguramente

Se fia da infiel e falsa gente.


7

E de alguns que trazia condenados

Por culpas e por feitos vergonhosos,

Por que pudessem ser aventurados

Em casos desta sorte duvidosos,

Manda dous mais sagazes, ensaiados,

Por que notem dos Mouros enganosos

A cidade e poder, e por que vejam

Os Cristãos, que só tanto ver desejam.


8

E por estes ao Rei presentes manda,

Por que a boa vontade, que mostrava,

Tenha firme, segura, limpa e branda;

A qual bem ao contrário em tudo estava.

Já a companhia pérfida e nefanda

Das naus se despedia e o mar cortava:

Foram com gestos ledos e fingidos,

Os dous da frota em terra recebidos.


9

E depois que ao Rei apresentaram,

Co'o recado, os presentes que traziam,

A cidade correram, e notaram

Muito menos daquilo que queriam;

Que os Mouros cautelosos se guardaras

De lhes mostrarem tudo o que pediam:

Que onde reina a malícia, está o temor,

Que a faz imaginar no peito alheio.


10

Mas aquele que sempre a mocidade

Tem no rosto perpétua, e foi nascido

De duas mães, que urdia a falsidade

Por ver o navegante destruído,

Estava numa casa da cidade,

Com rosto humano e hábito fingido,

Mostrando-se Cristão, e fabricava

Um altar sumptuoso, que adorava.


11

Ali tinha em retrato afigurada

Do alto e Santo Espírito a pintura:

A cândida pombinha debuxada

Sobre a única Fénix, Virgem pura;

A companhia santa está pintada

Dos doze, tão torvados na figura,

Como os que, só das línguas que caíram,

De fogo, várias línguas referiram.


12

Aqui os dous companheiros conduzidos

Onde com este engano Baco estava,

Põem em terra os giolhos, e os sentidos

Naquele Deus que o mundo governava.

Os cheiros excelentes, produzidos

Na Pancaia odorífera, queimava

O Tioneu, e assim por derradeiro

O falso Deus adora o verdadeiro.


13

Aqui foram de noite agasalhados,

Com todo o bom e honesto tratamento,

Os dous Cristãos, não vendo que enganados

Os tinha o falso e santo fingimento.

Mas assim como os raios espalhados

Do Sol foram no mundo, e num momento

Apareceu no rúbido horizonte

Da moça de Titão a roxa fronte,


14

Tornam da terra os Mouros co'o recado

Do Rei, para que entrassem, e consigo

Os dous que o Capitão tinha mandado,

A quem se o Rei mostrou sincero amigo;

E sendo o Português certificado

De não haver receio de perigo,

E que gente de Cristo em terra havia,

Dentro no salso rio entrar queria.


15

Dizem-lhe os que mandou, que em terra

Sacras aras e sacerdote sinto; viram

Que ali se agasalharam o dormiram,

Enquanto a luz cobriu o escuro manto;

E que no Rei e gentes não sentiram

Senão contentamento e gosto tanto,

Que não podia certo haver suspeita

Numa mostra tão clara e tão perfeita.


16

Com isto o nobre Gama recebia

Alegremente os mouros que subiam;

Que levemente um ânimo se fia

De mostras, que tão certas pareciam.

A nau da gente pérfida se enchia,

Deixando a bordo os barcos que traziam.

Alegres vinham todos, porque crêm

Que a presa desejada certa têm.


17

Na terra, cautelosamente aparelhavam

Armas e munições que, como vissem

Que no rio os navios ancoravam,

Neles ousadamente se subissem;

E, nesta treição determinavam

Que os de Luso de todo destruíssem,

E que incautos pagassem deste jeito

O mal que em Moçambique tinham feito.


18

As âncoras tenaces vão levando

Com a náutica grita costumada;

Da proa as velas sós ao vento dando

Inclinam para a barra abalizada.

Mais para a bela Ericina, que mantém

Andava sempre a gente assinalada,

Vendo a cilada grande, e tão secreta,

Voa do Céu ao mar como uma seta.


19

Convoca as alvas filhas de Nereu,

Com toda a mais cerúlea companhia,

Que, porque no salgado mar nasceu,

Das águas o poder lhe obedecia.

E propondo-lhe a causa a que desceu,

Com todas juntamente se partia,

Para estorvar que a armada não chegasse

Aonde para sempre se acabasse.


20

Já na água erguendo vão, com grande pressa,

Com as argênteas caudas branca escuma;

Cloto eo'o peito corta e atravessa

Com mais furor o mar do que costuma.

Salta Nise, Nerine se arremessa

Por cima da água crespa, em força suma.

Abrem caminho as ondas encurvadas

De temor das Nereidas apressadas.


21

Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,

Vá limpar a furiosa Dione;

Não sente quem a leva o doce peso,

De soberbo com carga tão formosa.

Já chegam perto donde o vento teso

Enche as velas da frota belicosa;

Repartem-se e rodeiam nesse instante

As naus ligeiras, que iam por diante.


22

Põe-se a Deusa com outras em direito

Da proa capitaina, e ali fechando

O caminho da barra, estão de jeito,

Que em vão assopra o vento, a vela inchando.

Põem no madeiro duro o brando peito,

Para detrás a forte nau forçando;

Outras em derredor levando-a estavam,

E da barra inimiga a desviavam.


23

Quais para a cova as próvidas formigas,

Levando o peso grande acomodado,

As forças exercitam, de inimigas

Do inimigo inverno congelado;

Ali são seus trabalhos e fadigas,

Ali mostram vigor nunca esperado:

Tais andavam as Ninfas estorvando

A gente Portuguesa o fim nefando.


24

Torna para detrás a nau forçada,

Apesar dos que leva, que gritando

Mareiam velas; ferve a gente irada,

O leme a um bordo e a outro atravessando;

O mestre astuto em vão da popa brada,

Vendo como diante ameaçando

Os estava um marítimo penedo,

Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.


25

A celeuma medonha se alevanta

No rudo marinheiro que trabalha;

O grande estrondo a Maura gente espanta,

Como se vissem hórrida batalha;

Não sabem a razão de fúria tanta,

Não sabem nesta pressa quem lhe valha;

Cuidam que seus enganos são sabidos,

E que hão de ser por isso aqui punidos.


26

Ei-los subitamente se lançavam

A seus batéis velozes que traziam;

Outros em cima o mar alevantavam,

Saltando n'água, a nado se acolhiam;

De um bordo e doutro súbito saltavam,

Que o medo os compelia do que viam;

Que antes querem ao mar se aventurar

Que nas mãos inimigas entregar-se.


27

Assim como em selvática alagoa

As rãs, no tempo antigo Lícia gente,

Se sentem por ventura vir pessoa,

Estando fora da água incautamente,

Daqui e dali saltando, o charco soa,

Por fugir do perigo que se sente,

E acolhendo-se ao couto que conhecem,

Sós as cabeças na água lhe aparecem:


28

Assim fogem os Mouros; e o piloto,

Que ao perigo grande as naus guiara,

Crendo que seu engano estava noto,

Também foge, saltando na água amara.

Mas, por não darem no penedo imoto,

Onde percam a vida doce e cara,

A âncora solta logo a capitaina,

Qualquer das outras junto dela amaina.


29

Vendo o Gama, atentado, a estranheza

Dos Mouros, não cuidada, e juntamente

O piloto fugir-lhe com presteza,

Entende o que ordenava a bruta gente;

E vendo, sem contraste e sem braveza

Dos ventos, ou das águas sem corrente,

Que a nau passar adiante não podia,

Havendo-o por milagre, assim dizia:


30

"Ó caso grande, estranho e não cuidado,

Ó milagre claríssimo e evidente,

Ó descoberto engano inopinado,

Ó pérfida, inimiga e falsa gente!

Quem poderá do mal aparelhado

Livrar-se sem perigo sabiamente,

Se lá de cima a Guarda soberana

Não acudir à fraca força humana?


31

"Bem nos mostra a divina Providência

Desses portos a pouca segurança;

Bem claro temos visto na aparência,

Que era enganada a nossa confiança.

Mas pois saber humano nem prudência

Enganos tão fingidos não alcança,

Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado

De quem sem você não pode ser guardado!


32

"E se te move tanto a piedade

Desta mísera gente peregrina,

Que somente por tua altíssima bondade,

Da gente a salvas pérfida e malina,

Nalgum porto seguro de verdade

Conduzir-nos já agora determina,

Ou nos amostra a terra que buscamos,

Pois só por teu serviço navegamos."


33

Ouviu-lhe essas palavras piedosas

A formosa Dione, e comovida,

Dentre as Ninfas se vai, que saudosas

Ficaram desta súbita partida.

Já penetra as Estrelas luminosas,

Já na terceira Esfera recebida

Avante passa, e lá no sexto Céu,

Para onde estava o Padre, se moveu.


34

E como ia afrontada do caminho,

Tão formosa no gesto se mostrava,

Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,

E tudo quanto a via namorava.

Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,

Uns espíritos vivos inspirava,

Com que os Pólos gelados acendia,

E tornava do Fogo a esfera fria.


35

E por mais namorar o soberano

Padre, de quem foi sempre amada e eriça,

Se lhe apresenta assim como ao Troiano,

Na selva Idea, já se apresentara.

Se a vira o caçador, que o vulto humano

Perdeu, vendo Diana na água clara,

Nunca os famintos galgos o mataram,

Que primeiro desejos o acabaram.


36

Os crespos fios d'ouro se esparziam

Pelo colo, que a neve escurecia;

Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,

Com quem Amor brincava, e não se via;

De Alva Petrina saíram chamas em sua direção,

Onde o Menino as almas acendia;

Pelas lisas colunas lhe trepavam

Desejos, que como hera se enrolavam.


37

C'um delgado sendal as partes cobre,

De quem vergonha é natural reparo,

Porém nem tudo esconde, nem descobre,

O véu, dos roxos lírios pouco avaro;

Mas, para que o desejo acenda o dobre,

Lhe põe diante aquele objeto raro.

Já se sentem no Céu, por toda a parte,

Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.


38

E mostrando no angélico semblante

Co'o riso uma tristeza misturada,

Como dama que foi do incauto amante

Em brincos amorosos mal tratada,

Que se aqueixa e ri num mesmo instante,

E se torna entre alegre magoada,

Dessa arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,

Mais mimosa que triste ao Padre fala:


39

"Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,

Isso, pelas coisas que amei de todo o meu coração,

Te achasse brando, afábil e amoroso,

Posto que a algum contrário lhe pesasse;

Mas, pois que contra mim te vejo iroso,

Sem que to merecesse, nem te errasse,

Faça-se como Baco determina;

Assentarei enfim que fui mofina.


40

"Este povo que é meu, por quem derramo

As lágrimas que em vão caídas vejo,

Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,

Sendo tu tanto contra meu desejo!

Por ele a ti rogando choro e bramo,

E contra minha dita enfim pelejo.

Ora pois, porque o amo é mal tratado,

Quero-lhe querer mal, será guardado.


41

"Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,

Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,

O rosto banha em lágrimas ardentes,

Como co'o orvalho fica a fresca rosa.

Calada um pouco, como se entre os dentes

Se lhe impedira a fala piedosa,

Torna a segui-la; e indo por diante,

Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.


42

E destas brandas mostras comovido,

Que moveram de um tigre o peito duro,

Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,

Torna sereno e claro o ar escuro,

As lágrimas lhe alimpa, e acendido

Na face a beija, e abraça o colo puro;

De modo que dali, se só se achara,

Outro novo Cupido se gerara.


43

E co'o seu apertando o rosto amado,

Que os soluços e lágrimas aumenta,

Como menino da ama castigado,

Que quem no afaga o choro lhe acrescente,

Por lhe pôr em sossego o peito irado,

Muitos casos futuros lhe apresenta.

Dos fados as entranhas revolvendo,

Desta maneira enfim lhe está dizendo:


44

"Formosa filha minha, não temais

Perigo algum nos vossos Lusitanos,

Nem que ninguém comigo possa mais,

Que esses chorosos olhos soberanos;

Que eu vos prometo, filha, que vejais

Esquecerem-se Gregos e Romanos,

Pelos ilustres feitos que esta gente

Há-de fazer nas partes do Oriente.


45

"Que se o facundo Ulisses escapou

De ser na Ogígia ilha eterno escravo,

E se Antenor os seios penetrou

Ilíricos e a fonte de Timavo;

E se o piedoso Eneias navegou

De Cila e Caribdis, o mar valente,

Os vossos, mores cousas atentando,

Novos mundos ao mundo irão mostrando.


46

"Fortalezas, cidades e altos muros,

Por eles vereis, filha, edificados;

Os Turcos belacíssimos e duros,

Eles sempre precisam ser interrompidos.

Os Reis da índia, livres e seguros,

Vereis ao Rei potente sojugados;

E por eles, de tudo enfim senhores,

Serão dadas na terra leis melhores.


47

"Vereis este, que agora pressuroso

Por tantos medos o Indo vai buscando,

Tremer dele Neptuno, de medroso

Sem vento suas águas encrespando.

Ó caso nunca visto e milagroso,

Que trema e ferva o mar, em calma estando!

Ó gente forte e de altos pensamentos,

Que também dela hão medo os Elementos!


48

"Vereis a terra, que a água lhe tolhia,

Que inda há-de ser um porto mui decente,

Em que vão descansar da longa via

As naus que navegarem do Ocidente.

Toda esta costa enfim, que agora urdia

O mortífero engano, obediente

Lhe pagará tributos, conhecendo

Não poder resistir ao Luso horrendo.


49

"E vereis o mar Roxo, tão famoso,

Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;

Vereis de Ormuz o Reino poderoso

Duas vezes tomado e sojugado.

Ali exige o furioso Mouro.

De suas mesmas setas traspassado:

Que quem vai contra os vossos, claro veja

Aquilo que resiste é aquilo contra o que luta.


50

"Requer um Deus forte inexpugnável,

Que dous cercos terá, dos vossos sendo.

Ali se mostrará seu preço e sorte,

Feitos de armas grandíssimos fazendo.

Invejoso vereis o grão Mavorte

Do peito Lusitano fero e horrendo:

Do Mouro ali verão que a voz extrema

Do falso Mahamede ao Céu blasfema.


51

"Goa vereis aos mouros ser tomada,

A qual virá depois a ser senhora

De todo o Oriente, e sublimada

Co'os triunfos da gente vencedora.

Ali soberba, altiva, e exalçada,

Ao Gentio, que os ídolos adora,

Duro freio porá, e a toda a terra

Que cuidar de fazer aos vossos guerra.


52

"Vereis a fortaleza sustentar-se

De Cananor, com pouca força e gente;

E exige que Calecu seja destruído,

Cidade populosa e tão potente:

E vereis em Cochim assinalar-se

Tanto um peito soberbo e insolente,

Que cítara jamais cantou vitória,

Que assim mereça eterno nome e glória.


53

"Nunca com Marte", instruído e furioso,

Se viu ferver Leucate, quando Augusto

Nas civis Actias guerras animoso,

O Capitão venceu Romano injusto,

Que dos povos da Aurora, e do famoso

Nilo, e de Bactra Cytico e robusto

A vitória trazia, e presa rica,

Preso na Egípcia linda e nego pudica.


54

Como vereis o mar fervendo aceso

Colos incêndios dos vossos pelejando,

Fazendo prisioneiros o idólatra e o mouro,

De nações diferentes triunfando.

E sujeita a rica Áurea Quersoneso,

Até ao longínquo China navegando,

E as ilhas mais remotas do Oriente,

Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.


55

"De modo, filha minha, que de jeito

Amostrarão esforço mais que humano,

Que nunca se verá tão forte peito,

Do Gangético mar ao Gaditano,

Nem das Boreais ondas ao Estreito,

Que mostrou o agravado Lusitano,

Posto que em todo o mundo, de afrontados,

Ressuscitassem todos os passados."


56

Como isto disse, manda o consagrado

Filho de Maia à Terra, por que tenha

Um pacífico porto o sossegado,

Para onde sem receio a frota venha;

F, para que em Mombaça, aventurado,

O forte Capitão se não detenha,

Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra

A terra, onde quieto repousasse.


57

Já pelo ar Cileneu voava;

Com as asas nos pés à Terra desce;

Sua vara fatal na mão levava,

Com que os olhos cansados adormece:

Com esta, as tristes almas revocava

Do Inferno, e o vento lhe obedece.

Na cabeça o galero costumado.

E desta arte a Melinde foi chegado.


58

Eu entendo Fama leva, porque eu digo

Do Lusitano o preço grande e raro,

Que o nome ilustre a um certo amor obriga

E faz, a quem o tem, amado e caro.

Desta arte vai fazendo a gente amiga,

Co rumor famosíssimo, e perclaro.

Já Melinde em desejos arde todo

De ver da gente forte o gesto e modo.


59

Dali para Mombaça logo parte,

Aonde as naus estavam temerosas,

Para que ele possa ordenar que as pessoas se afastem.

Da barra amiga e terras suspeitosas:

Porque mui pouco val esforço e arte,

Contra infernais vontades enganosas;

Pouco val coração, astúcia e siso,

Se lá dos Céus não vem celeste aviso.


60

No feio caminho a noite tinha anelado,

E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,

Tinham o largo Mundo alumiado;

E só co'o sono a gente se recreia.

O Capitão ilustre, já cansado

De vigiar a noite que arreceia,

Breve repouso então aos olhos dava,

A outra gente a quartos vigiava;


61

Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,

Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,

Da cilada que o Rei malvado tece,

Por te trazer ao fim, e extremo dano;

Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;

Sereno o tempo tens e o Oceano,

E outro Rei mais amigo, noutra parte,

Onde podes seguro agasalhar-te.


62

"Não tens aqui senão aparelhado

O hospício que o cru Diomedes dava,

Fazendo ser manjar acostumado

De cavalos a gente que hospedava;

Como altares do infame Busíris,

Onde os hóspedes tristes imolava,

Terás certas aqui, se muito esperas.

Fuge das gentes pérfidas e feras.


63

"Vai-te ao longo da costa discorrendo,

E outra terra acharás de mais verdade,

Lá quase junto donde o Sol ardendo

Iguala o dia e noite em quantidade;

Ali tua frota alegre recebendo

Um Rei, com muitas obras de amizade,

Gasalhado seguro te daria,

E, para a índia, certa e sábia guia."


64

Isto Mercúrio disse, e o sono leva

Ao Capitão, que com mui grande espanto

Acorda, e vê ferida a escura treva

De uma súbita luz e raio santo.

E vendo claro quanto lhe releva

Não se deter na terra iníqua tanto,

Com novo espírito ao mestre seu mandava

Que as velas desse ao vento que assopravam.


65

"Dai velas", disse ele, "dai ao largo vento,

Que o Céu nos favorece e Deus o manda;

Que um mensageiro vi do claro assento

Que só em favor de nossos passos anda."

Alevanta-se nisto o movimento

Dos marinheiros, de uma e de outra banda;

Levam gritando as âncoras acima,

Mostrando a ruda força, que se estima.


66

Neste tempo, que as âncoras levavam,

Na sombra escura os Mouros escondidos

Mansamente as amarras lhe cortavam,

Por serem, dando à costa, destruídos;

Mas com vista de linces vigiavam

Os Portugueses, sempre apercebidos.

Eles, como acordados os sentiram,

Voando, e não remando, lhe fugiram.


67

Mas já as agudas proas apartando

Iam as vias húmidas de argento;

Assopra-lhe galerno o vento, e brando,

Com suave e seguro movimento.

Nos perigos passados vão falando,

Que mal se perderão do pensamento

Os casos grandes, donde em tanto aperto

A vida em salvo escapa por acerto.


68

Tinha uma volta dado o Sol ardente

E noutro começava, quando viram

Ao longe deus navios, brandamente

Co'os ventos navegando, que respiram:

Porque haviam de ser da Maura gente,

Para eles arribando, as velas viram:

Um, de temor do mal que arreceava,

Por se salvar a gente à costa dava.


69

Não é o outro que fica tão manhoso;

Mas nas mãos vai cair do Lusitano,

Sem o rigor de Marte furioso,

E sem a fúria horrenda de Vulcano;

Que como fosse débil e medroso

Da pouca gente o fraco peito humano,

Não teve resistência; e se a tivera,

Mais dano resistindo recebera.


70

E como o Gama muito desejasse

Piloto para a Índia que buscava,

Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;

Mas não lhe sucedeu como cuidava,

Que nenhum deles há que lhe ensinasse

A que parte dos céus a Índia estava;

Porém dizem-lhe todos, que tem perto

Melinde, onde achará piloto certo.


71

Louvam do Rei os mouros a bondade,

Condição liberal, sincero peito,

Magnificência grande e humanidade,

Com partes de grandíssimo respeito.

O Capitão o assela por verdade,

Porque já lhe dissera, desse jeito,

Cileneu em sonhos; e partia

Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.


72

Era no tempo alegre, quando entrava

No roubador de Europa a luz Febeia,

Quando um e outro corno lhe aquentava,

E Flora derramava o de Amalteia:

A memória do dia renovava

O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,

Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,

O selo pôs a quanto tinha feito;


73

Quando chegava a frota àquela parte,

Onde o Reino Melinde já se via,

De toldos adornada, e leda de arte

Que bem mostra estimar o santo dia.

Treme a bandeira, voa o estandarte,

A cor purpúrea ao longe aparecia;

Soam os atambores o pandeiros,

E assim entravam ledos e guerreiros.


74

Enche-se toda a praia Melindana

Da gente que vem ver a leda armada,

Gente mais verdadeira, e mais humana,

Toda aquela outra terra que ficou para trás.

Surge diante a frota Lusitana,

Pega no fundo a âncora pesada;

Mandam fora um dos Mouros que tomaram,

Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.


75

O Rei, que já sabia da nobreza

Que tanto os Portugueses engrandece,

Tomarem o seu porto tanto preza,

Quanto a gente fortíssima merece:

E com verdadeiro ânimo e pureza,

Que os peitos generosos enobrece,

Lhe manda rogar muito que saíssem,

Para que de seus reinos se servissem.


76

São oferecimentos verdadeiros,

E palavras sinceras, não dobradas,

As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,

Que tanto mar e terras tem passadas.

Manda-lhe mais lanígeros carneiros,

E galinhas domésticas cevadas,

Com as frutas, que então na terra havia;

E a vontade à dádiva excedia.


77

Recebe o Capitão alegremente

O mensageiro ledo e seu recado;

E logo manda ao Rei outro presente,

Que de longe trazia aparelhado:

Escarlata purpúrea, cor ardente,

O ramoso coral, fino e prezado,

Que debaixo das águas mole cresce,

E como é fora delas se endurece.


78

Manda mais um, na prática elegante,

Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,

E que de não sair naquele instante

De suas naus em terra o desculpasse.

Partido assim o embaixador prestante,

Como na terra ao Rei se apresentasse,

Com estilo que Palas lhe ensinava,

Estas palavras tais falando orava:


79

"Sublime Rei, a quem do Olimpo puro

Foi da suma Justiça concedido

Refrear o soberbo povo duro,

Não menos dele amado, que temido:

Como porto mui forte e mui seguro,

De todo o Oriente conhecido,

Viemos à sua procura para que pudéssemos...

Em ti o remédio certo que queremos.


80

"Não somos roubadores, que passando

Pelas fracas cidades descuidadas,

A ferro e a fogo as gentes vão matando,

Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;

Mas da soberba Europa navegando,

Imos buscando as terras apartadas

Da Índia grande e rica, por mandado

De um Rei que temos, alto e sublimado.


81

"Que geração tão dura há hi de gente,

Que bárbaro costume e usança feia,

Que não vedem os portos tão somente,

Mas inda o hospício da deserta areia?

Que má tenção, que peito em nós se sente,

Que de tão pouca gente se arreceia?

Que com laços armados, tão fingidos,

Nos ordenassem ver-nos destruídos?


82

"Mas tu, e quem mui certo confiamos

Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,

E aquela certa ajuda em ti esperamos,

Que teve o perdido Ítaco em Alcino,

A teu porto seguro navegamos,

Conduzidos do intérprete divino;

Que, pois a ti nos manda, está mui claro,

Que és de peito sincero, humano e raro.


83

"E não cuides, ó Rei, que não saísse

O nosso Capitão esclarecido

A ver-te, ou a servir-te, porque visse

Ou suspeitasse em ti peito fingido:

Mas saberás que o fez, porque cumprisse

O regimento, em tudo obedecido,

De seu Rei, que lhe manda que não saia,

Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.


84

"E porque é, de vassalos o exercício,

Que os membros tem regidos da cabeça,

Não quererás, pois tens de Rei o ofício,

Que ninguém a seu Rei desobedeça;

Mas as mercês e o grande benefício,

Que ora acha em ti, promete que conheça

Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,

Enquanto os rios para o mar correrem."


85

Assim dizia; e todos juntamente,

Uns com outros em prática falando,

Louvavam muito o estâmago da gente,

Que tantos céus e mares vai passando.

E o Rei ilustre, o peito obediente

Dos Portugueses na alma imaginando,

Tinha por valor grande e mui subido

O do Rei que é tão longe obedecido.


86

E com risonha vista e ledo aspeito,

Responde ao embaixador, que tanto estima:

"Toda a suspeita má tirai do peito,

Nenhum frio temor em vós se imprima;

Que vosso preço e obras são de jeito

Para vos ter o mundo em muita estima;

E quem vos fez molesto tratamento,

Não pode ter subido pensamento.


87

"De não sair em terra toda a gente,

Por observar a usada preminência,

Ainda que me pese estranhamente,

Em muito tenho a muita obediência;

Mas, se lho o regimento não consente,

Nem eu consentirei que a excelência

De peitos tão leais em si desfaça,

Só porque a meu desejo satisfaça.


88

"Porém, como a luz crástina chegada

Ao mundo for, em minhas almadias

Eu irei visitar a forte armada,

Que ver tanto desejo, há tantos dias;

E se vier do mar desbaratada,

Do furioso vento e longas vias,

Aqui terá, de limpos pensamentos,

Piloto, munições e mantimentos."


89

Isto disse; e nas águas se escondia

O filho de Latona; e o mensageiro

Coa embaixada alegre se partia

Para a frota, no seu batel ligeiro.

Enchem-se os peitos todos de alegria.

Por terem o remédio verdadeiro

Para acharem a terra que buscavam;

E assim ledos a noite festejavam.


90

Não faltam ali os raios de artifício,

Os trêmulos cometas imitando;

Fazem os bombardeiros seu ofício,

O céu, a terra e as ondas atroando.

Mostra-se dos Ciclopas o exercício

Nas bombas que de fogo estão queimando;

Outros com vozes, com que o céu feriam,

Instrumentos altíssonos tangiam.


91

Respondem-lhe da terra juntamente,

Co'o raio volteando, com zunido;

Anda em giros no ar a roda ardente,

Estoura o pó sulfúreo escondido.

A grita se alevanta ao céu, da gente;

O mar estava em chamas,

E não menos a terra; e assim festeja

Um ao outro, a maneira de peleja.


92

Mas já o Céu inquieto revolvendo,

As gentes incitava a seu trabalho,

E já a mãe de Menon a luz trazendo,

Ao sono longo punha certo atalho;

Iam-se as sombras lentas desfazendo,

Sobre as flores da terra em frio orvalho,

Quando o Rei Melindano se embarcava

A ver a frota, que no mar estava.


93

Viam-se em derredor ferver as praias

Da gente, que a ver só concorre leda;

Luzem da fina púrpura as cabaias,

Lustram os panos da tecida seda;

Em lugar das guerreiras azagaias

E do arco, que os cornos arremeda

Da Lua, trazem ramos de palmeira,

Dos que vencem, coroa verdadeira.


94

Um batel grande e comprido, que tinha toldo

Vinha de sedas de diversas cores,

Traz o Rei de Melinde, acompanhado

De nobres e seu Reino e de senhores:

Vem de ricos vestidos adornado,

De acordo com seus costumes e tradições;

Na cabeça uma fota guarnecida

De ouro, e de seda e de algodão tecida.


95

Cabaia de Damasco rico e dino,

Da Tíria cor, entre eles estimada,

Um colar ao pescoço, de ouro fino,

Onde a matéria da obra é superada,

C'um resplendor reluze adamantino;

Na cinta, a rica bem lavrada;

Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,

Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.


96

Com um redondo emparo alto de seda,

Numa alta e dourada hástia enxerido,

Um ministro à solar quentura veda.

Que não ofenda e queime o Rei subido.

Música traz na proa, estranha e leda,

De áspero som, horríssono ao ouvido,

De trombetas arcadas em redondo,

Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.


97

Não menos guarnecido o Lusitano

Nos seus batéis, da frota se partia

A receber no mar o Melindano,

Com lustrosa e lograda companhia.

Vestido o Gama vem ao modo Hispano,

Mas Francesa era a roupa que vestia,

De cetim da Adriática Veneza

Carmesim, o coração que as pessoas tanto valorizam:


98

De botões douro as mangas vêm tomadas,

Onde o Sol reluzindo a vista cega;

As calças soldadescas recamadas

Faça metal, algo que a Fortune nega a tantos,

E com pontas do mesmo delicadas

Os golpes do gibão ajunta e achega;

Ao Itálico modo a áurea espada;

Pluma na gorra, um pouco declinada.


99

Nos de sua companhia se mostrava

Da tinta, que dá o múrice excelente,

A vária cor, que os olhos alegrava,

E a maneira do trajo diferente.

Tal o formoso esmalte se notava

Dos vestidos, olhados juntamente,

Qual aparece o arco rutilante

Da bela Ninfa, filha de Taumante.


100

Sonorosas trombetas incitavam

Os ânimos alegres, ressoando;

Dos mouros os batéis, o mar coalhavam,

Os toldos pelas águas arrojando;

Os bombardeios horríveis rugiram,

Com as nuvens de fumo o Sol tomando;

Amiúdam-se os brados acendidos,

Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.


101

Já no batel entrou do Capitão

O Rei, que nos seus braços o levava;

Ele coa cortesia, que a razão

(Por ser Rei) requeria, lhe falava.

C'umas mostras de espanto e admiração,

O Mouro o gesto e o modo lhe notava,

Como quem em mui grande estima tinha

Gente que de tão longe à índia vinha.


102

E com grandes palavras lhe oferece

Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,

E que, se mantimento lhe falece,

Como se próprio fosse, lho pedisse.

Diz-lhe mais, que por fama bem conhece

A gente Lusitana, sem que a visse;

Que já ouviu dizer, que noutra terra

Com gente de sua Lei tivesse guerra.


103

E como por toda África se soa,

Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,

Quando nela ganharam a coroa

Do Reino, onde as Hespéridas viveram;

E com muitas palavras apregoa

O menos que os de Luso mereceram,

E o mais que pela fama o Rei sabia.

Mas desta sorte o Gama respondia:


104

"Ó tu, que só tiveste piedade,

Rei benigno, da gente Lusitana,

Que com tanta miséria e adversidade

Dos mares experimenta a fúria insana;

Aquela alta e divina Eternidade,

Que o Céu revolve e rege a gente humana,

Pois que de ti tais obras recebemos,

Te pague o que nós outros não podemos.


105

"Tu só, de todos quantos queima Apolo,

Nos recebes em paz, cio mar profundo;

Em ti dos ventos hórridos de Eolo

Refúgio achamos bom, fido e jocundo.

Enquanto apascentar o largo Pólo

As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,

Onde quer que eu viver, com fama e glória

Viverão teus louvores em memória."


106

Isto dizendo, os barcos vão remando

Para a frota, que o Mouro ver deseja;

Vão as naus uma e uma rodeando,

Porque de todas tudo note e veja.

Mas para o céu Vulcano fuzilando,

A frota foi bombardeada ou celebrada,

E as trombetas canoras lhe tangiam;

Co'os anafis os Mouros respondiam.


107

Mas depois de ser tudo já notado

Do generoso Mouro, que pasmava

Ouvindo o instrumento inusitado,

Que tamanho terror em si mostrava,

Mandava estar quieto e ancorado

N'água o batel ligeiro que os levava,

Por falar de vagar co'o forte Gama,

Nas coisas sobre as quais você tem notícias e faz.


108

Em práticas o Mouro diferentes

Se deleitava, perguntando agora

Pelas guerras famosas e excelentes

Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;

Agora lhe pergunta pelas gentes

De toda a Hespéria última, onde mora;

Agora pelos povos seus vizinhos,

Agora pelos úmidos caminhos.


109

"Mas antes, valeroso Capitão,

Nos conta, lhe dizia, diligente,

Da terra tua o clima, e região

Do mundo onde morais distintamente;

E assim de vossa antiga geração,

E o princípio do Reino tão potente,

Co'os sucessos das guerras do começo,

Que, sem sabê-las, sei que são de preço.


110

"E assim também nos conta dos rodeios

Longos, em que te traz o mar irado,

Vendo os costumes bárbaros alheios.

Que a nossa África ruda tem criado.

Conta: que agora vêm co'os áureos freios

Os cavalos que o carro marchetado

Do novo Sol, da fria Aurora trazem,

O vento dorme, o mar e as ondas jazem.


111

"E não menos co'o tempo se parece

O desejo de ouvir-te o que contares;

Que quem há, que por fama não conhece

As obras Portuguesas singulares?

Não tanto desviado resplandece

De nós o claro Sol, para julgares

Que os Melindanos têm tão rudo peito,

Que não estimem muito um grande feito.


112

"Cometeram soberbos os Gigantes,

Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;

Pirítoo e Teseu, embora ignorantes, tentaram,

O Reino de Plutão horrendo e escuro.

Se houve feitos no mundo tão possantes,

Não menos é trabalho ilustre e duro,

Quanto foi cometer Inferno o Céu,

Que outrem cometa a fúria de Nereu.


113

"Queimou o sagrado templo de Diana,

Do sutil Tesifônio fabricado,

Heróstrato, por ser da gente humana

Conhecido no mundo e nomeado:

Se também com tais obras nos engana

O desejo de um nome avantajado,

Mais razão há que queira eterna glória

Quem faz obras tão dignas de memória."


Canto Terceiro


1

Agora tu, Calíope, me ensina

O que contou ao Rei o ilustre Gama:

Inspira imortal canto e voz divina

Neste peito mortal, que tanto te ama.

Assim o claro inventor da Medicina,

De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,

Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,

Te negue o amor devido, como soe.


2

Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,

Como merece a gente Lusitana;

Que veja e saiba o mundo que do Tejo

O licor de Aganipe corre e mana.

Deixa as flores de Pindo, que já vejo

Banhar-me Apolo na água soberana;

Senão direi que tens algum receio,

Que se escureça o teu querido Orfeio.


3

Prontos estavam todos escutando

O que o sublime Gama contaria,

Quando, depois de um pouco estar cuidando,

Alevantando o rosto, assim dizia:

"Mandas-me, ó Rei, que conte declarando

De minha gente a grão genealogia:

Não me mandas contar estranha história,

Mas mandas-me louvar dos meus a glória.


4

"Que outrem possa louvar esforço alheio,

Cousa é que se costuma e se deseja;

Mas louvar os meus próprios, arreceio

Que louvor tão suspeito mal me esteja;

E para dizer tudo, temo e creio,

Que qualquer longo tempo curto seja:

Mas, pois o mandas, tudo se te deve,

Irei contra o que devo, e serei breve.


5

"Além disso, o que a tudo enfim me obriga,

É não poder mentir no que disser,

Porque de feitos tais, por mais que diga,

Mais me há-de ficar inda por dizer.

Mas, porque nisto a ordens leve e siga,

Segundo o que desejas de saber,

Primeiro tratarei da larga terra,

Depois direi da sanguinosa guerra.


6

"Entre a Zona que o Câncer senhoreia,

Meta setentrional do Sol luzente,

E aquela que por f ria se arreceia

Tanto, como a do meio por ardente,

Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,

Pela parte do Areturo, e do Ocidente,

Com suas salsas ondas o Oceano,

E pela Austral o mar Mediterrano.


7

"Da parte donde o dia vem nascendo,

Com Ásia se avizinha; mas o rio

Que dos montes Rifeios vai correndo,

Na alagoa Meotis, curvo o frio,

As divide: e o mar que, fero e horrendo,

Viu dos Gregos o irado senhorio,

Onde agora de Tróia triunfante

Não vê mais que a memória o navegante.


8

"Lá onde mais debaixo está do Pólo,

Os montes Hiperbóreos aparecem,

E aqueles onde sempre sopra Eolo,

E co'o nome, dos sopros se enobrecem.

Aqui tão pouca força tem de Apolo

Os raios que no mundo resplandecem,

Que a neve está contido pelos montes,

Gelado o mar, geladas sempre as fontes.


9

"Aqui dos Citas grande quantidade

Vivem, que antigamente grande guerra

Tiveram, sobre a humana antiguidade,

Co'os que tinham então a Egípcia terra;

Mas quem tão fora estava da verdade,

(Já que o juízo humano tanto erra)

Para que do mais certo se informara,

Ao campo Damasceno o perguntara.


10

"Agora nestas partes se nomeia

A Lápia fria, a inculta Noruega,

Escandinávia Ilha, que se arreia

Das vitórias que a Itália não lhe nega.

Aqui, enquanto as águas não refreia

O congelado inverno, se navega

Um braço do Sarmático Oceano

Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.


11

"Entre este mar e o Tánais vive estranha

Pessoas: rutenos, mosianos e livônios.

Sármatas outro tempo; e na montanha

Hircinia os Marcomanos são Polônios.

Sujeitos ao Império de Alemanha

São Saxones, Boêmios e Panónios,

E outras várias nações, que o Reno frio

Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.


12

"Entre o remoto Istro e o claro Estreito,

Aonde Hele deixou co'o nome a vida,

Estão os Traces de robusto peito,

Do fero Marte pátria tão querida,

Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito

Ao Otomano está, que submetida

Bizâncio tem a seu serviço indino:

Boa injúria do grande Constantino!


13

"Logo de Macedônia estão as pessoas,

A quem lava do Axio a água fria;

E vós também, ó terras excelentes

Nos costumes, engenhos e ousadia,

Que criastes os peitos eloquentes

E os juízos de alta fantasia,

Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,

E não menos por armas, que por letras.


14

"Logo os Dálmatas vivem; e no seio,

Onde Antenor já muros levantou,

A soberba Veneza está no meio

Das águas, que tão baixa começou.

Da terra um braço vem ao mar, que cheio

De esforço, nações várias sujeitou,

Braço forte, de gente sublimada,

Não menos nos engenhos, que na espada.


15

"Em torno o cerca o Reino Neptunino,

Co'os muros naturais por outra parte;

Pelo meio o divide o Apenino,

Que tão ilustre fez o pátrio Marte;

Mas depois que o Porteiro tem divino,

Perdendo o esforço veio, e bélica arte;

Pobre está já de antiga potestade:

Tanto Deus se contenta de humildade!


16

"Gália ali se verá que nomeada

Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,

Que do Séquana e Ródano é regada,

E do Giruna frio e Reno fundo.

Logo os montes da Ninfa sepultada

Pirene se alevantam, que segundo

Antiguidades contam, quando arderam,

Rios de ouro e de prata então correram.


17

"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,

Como cabeça ali de Europa toda,

Em cujo senhorio o glória estranha

Muitas voltas tem dado a fatal roda;

Mas nunca poderá, com força ou manha,

A fortuna inquieta pôr-lhe noda,

Que não lhe tire o esforço e ousadia

Dos belicosos peitos que em si cria.


18

"Com Tingitânia entesta, e ali parece

Que quer fechar o mar Mediterrano,

Onde o sabido Estreito se enobrece

Co'o extremo trabalhado Tebano.

Com nações diferentes se engrandece,

Cercadas com as ondas do Oceano;

Todas de tal nobreza e tal valor,

Que qualquer delas cuida que é melhor.


19

"Tem o Tarragonês, que se fez claro

Sujeitando Parténope inquieta;

O Navarro, as Astúrias, que reparo

Já foram contra a gente Mahometa;

Há o galego cauteloso e o grandioso e raro.

Castelhano, a quem fez o seu Planeta

Restituidor de Espanha e senhor dela,

Bétis, Lião, Granada, com Castela.


20

"Eis aqui, quase cume da cabeça

De Europa toda, o Reino Lusitano,

Onde a terra se acaba e o mar começa,

E onde Febo repousa no Oceano.

Este quis o Céu justo que floresça

Nas armas contra o torpedo Mauritano,

Deitando-o de si fora, e lá na ardente

África estar quieto o não consente.


22

"Esta é a ditosa pátria minha amada,

A qual se o Céu me dá que eu sem perigo

Torne, com esta empresa já acabada,

Acabe-se esta luz ali comigo.

Esta foi Lusitânia, derivada

De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo

Filhos foram, parece, ou companheiros,

E nela então os Íncolas primeiros.


22

"Desta o pastor nasceu, que no seu nome

Se vê que de homem forte os feitos teve;

Cuja fama ninguém virá que dome,

Pois a grande de Roma não se atreve.

Esta, o velho que os filhos próprios come

Por decreto do Céu, ligeiro e leve,

Veio a fazer no mundo tanta parte,

Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:


23

"Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,

Que fez aos Sarracenos tanta guerra,

Que por armas sanguinas, força e manha,

A muitos fez perder a vida o a terra;

Voando deste Rei a fama estranha

Do Herculano Calpe à Cáspia serra,

Muitos, para na guerra esclarecer-se,

Vinham a ele e à morte oferecer-se.


24

"E com um amor intrínseco acendidos

Da Fé, mais que das honras populares,

Eram de várias terras conduzidos,

Deixando a pátria amada e próprios lares.

Depois que em feitos altos e subidos

Se mostraram nas armas singulares,

Quis o famoso Afonso que obras tais

Levassem prêmio digno e dons iguais.


25

"Destes Anrique, dizem que segundo

Filho de um Rei de Ungria exprimentado,

Portugal houve em sorte, que no mundo

Então não era ilustre nem prezado;

E, para mais sinal d'amor profundo,

Quis o Rei Castelhano, que casado

Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;

E com ela das terras tornou posse.


26

"Este, depois que contra os descendentes

Da escrava Agar vitórias grandes teve,

Ganhando muitas terras adjacentes,

Fazendo o que a seu forte peito deve,

Em prêmio desses feitos excelentes,

Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,

Um filho, que ilustrasse o nome ufano

Do belicoso Reino Lusitano.


27

"Já tinha vindo Anrique da conquista

Da cidade Hierosólima sagrada,

E do Jordão a areia tinha vista,

Que viu de Deus a carne em si lavada;

Que não tendo Gotfredo a quem resista,

Depois de ter Judeia sojugada,

Muitos, que nestas guerras o ajudaram,

Para seus senhorios se tornaram;


28

"Quando chegado ao fim de sua idade,

O forte e famoso Úngaro estremado,

Forçado da fatal necessidade,

O espírito deu a quem lhe dera,

Ficava o filho em tenra mocidade,

Em quem o pai deixava seu traslado,

Que do mundo os mais fortes igualava;

Que de tal pai tal filho se esperava.


29

"Mas o velho rumor, não sei se errado,

Que em tanta antiguidade não há certeza,

Conta que a mãe, tomando todo o estado,

Do segundo himeneu não se despreza.

O filho órfão deixava deserdado,

Dizendo que nas terras a grandeza

Do senhorio todo só sua era,

Porque, para casar, seu pai lhes dera.


30

"Mas o Príncipe Afonso, que dessa arte

Se chamava, do avô tomando o nome,

Vendo-se em suas terras não ter parte,

Que a mãe, com seu marido, as manda e come,

Fervendo-lhe no peito o duro Marte,

Imagina consigo como as tome.

Revolvidas as causas no conceito,

Ao propósito firme segue o efeito.


31

"De Guimarães o campo se tingia

Co'o sangue próprio da intestina guerra,

Onde a mãe, que tão pouco o parecia,

A seu filho negava o amor e a terra.

Com ele posta em campo já se via;

E não vê a soberba o muito que erra

Contra Deus, contra o maternal amor;

Mas nela o sensual era maior.


32

"Ó Progne crua! ó mágica Medeia!

Se em vossos próprios filhos vos vingais

Da maldade dos pais, da culpa alheia,

Olhai que inda Teresa peca mais:

Incontinência má, cobiça feia,

São as causas deste erro principais:

Cila, por uma, mata o velho pai,

Esta, por ambas, contra o filho vai.


33

"Mas já o Príncipe claro o vencimento

Do padrasto e da iníqua mãe levava;

Já lhe obedece a terra num momento,

Que primeiro contra ele pelejava.

Porém, vencido de ira o entendimento,

A mãe em ferros ásperos atava;

Mas de Deus foi vingada em tempo breve:

Tanta veneração aos pais se deve!


34

"Eis se ajunta o soberbo Castelhano,

Para vingar a injúria de Teresa,

Contra o tão raro em gente Lusitano,

A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.

Em batalha cruel o peito humano,

Ajudado da angélica defesa,

Não só contra tal fúria se sustenta,

Mas o inimigo aspérrimo afugenta.


35

"Não passa muito tempo, quando o forte

Príncipe em Guimarães está cercado

De infinito poder; que desta sorte

Foi refazer-se o inimigo magoado;

Mas, com se oferecer à dura morte

O fiel Egas amo, foi livrado;

Que de outra arte pudera ser perdido,

Segundo estava mal apercebido.


36

"lulas o leal vassalo, conhecendo

Que seu senhor não tinha resistência,

Se vai ao Castelhano, prometendo

Que ele faria dar-lhe obediência.

Levanta o inimigo o cerco horrendo,

Fiado na promessa e consciência

De Egas Moniz; mas não consente o peito

Do moço ilustre a outrem ser sujeito.


37

"Chegado tinha o prazo prometido,

Em que o Rei Castelhano já aguardava

Que o Príncipe, a seu mando sometido,

Lhe desse a obediência que esperava.

Vendo Egas que ficava fementido,

O que dele Castela não cuidava,

Ele decide dar vida a doze

A troco da palavra mal cumprida.


38

"E com seus filhos e mulher se parte

A alevantar com eles a fiança,

Descalços e despidos, de tal arte,

Que mais move a piedade que a vingança.

—"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te

De minha temerária confiança,

Dizia, eis aqui venho oferecido

A te pagar, coa vida, o prometido.


39

"Vês aqui trago as vidas inocentes

Dos filhos sem pecado e da consorte;

Se a peitos generosos e excelentes,

Dos fracos satisfaz a fera morte.

Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:

Nelas sós exprimenta toda a sorte

De tormentos, de mortes, pelo estilo

De Cínis e do touro de Perilo"!—


40

"Qual diante do algoz o condenado,

Que já na vida a morte tem bebido,

Põe no cepo a garganta, e já entregado

Espera pelo golpe tão temido:

Tal diante do Príncipe indinado,

Egas estava a tudo oferecido.

Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,

Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.


41

"Ó grão fidelidade Portuguesa,

De vassalo, que a tanto se obrigava!

Que mais o Persa fez naquela empresa,

Onde rosto e narizes se cortava?

Do que ao grande Dario tanto pesa,

Que mil vezes dizendo suspirava,

Que mais o seu Zopiro são prezara,

Que vinte Babilónias que tomara.


42

Mas já o Príncipe Afonso aparelhava

O Lusitano exército ditoso,

Contra o Mouro que as terras habitava

D'além do claro Tejo deleitoso;

Já no campo de Ourique se assentava

O arraial soberbo e belicoso,

Defronte do inimigo Sarraceno,

Posto que em força e gente tão pequeno.


43

"Em nenhuma outra cousa confiado,

Senão no sumo Deus, que o Céu regia,

Que tão pouco era o povo batizado,

Que para um só cem Mouros haveria.

Julga qualquer juízo sossegado

Por mais temeridade que ousadia,

Cometer um tamanho ajuntamento,

Que para um cavaleiro houvesse cento.


44

"Cinco Reis Mouros são os inimigos,

Dos quais o principal Ismar se chama;

Todos exprimentados nos perigos

Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.

Seguem guerreiras damas seus amigos,

Imitando a formosa e forte Dama,

De quem tanto os Troianos se ajudaram,

E as que o Termodonte já gostou.


45

"A matutina luz serena e fria,

As estrelas do Pólo já apartava,

Quando na Cruz o Filho de Maria,

Amostrando-se a Afonso, o animava.

Ele, adorando quem lhe aparecia,

Na Fé todo inflamado assim gritava:

—"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,

E não a mim, que creio o que podeis!"


46

"Com tal milagre os ânimos da gente

Portuguesa inflamados, levantavam

Por seu Rei natural este excelente

Príncipe, que do peito tanto amavam;

E diante do exército potente

Dos imigos, gritando o céu tocavam,

Dizendo em alta voz:—"Real, real,

Por Afonso alto Rei de Portugal."


47

"Qual co'os gritos e vozes incitado,

Pela montanha o rábido Moloso,

Contra o touro remete, que fiado

Na força está do corno temeroso:

Ora pega na orelha, ora no lado,

Latindo mais ligeiro que forçoso,

Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,

Do bravo a força horrenda se quebranta:


48

"Um rei tão jovem, com o estômago em chamas,

Por Deus e pelo povo juntamente,

O Bárbaro comete apercebido,

Com o exército corajoso rompendo as linhas.

Levantam nisto os perros o alarido

Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,

As lanças e arcos tomam, tubas soam,

Instrumentos de guerra tudo atroam.


49

"Bem como quando a flama, que ateada

Foi nos áridos campos (assoprando

O sibilante Bóreas) animada

Co'o vento, o seco mato vai queimando;

A pastoral companha, que deitada

Co'o doce sono estava, despertando

Ao estridor do fogo que se ateia,

Recolhe o fato, e foge para a aldeia:


50

"Diante disso, o mouro, surpreso e perplexo,

Toma sem tento as armas mui depressa;

Não foge; mas espera confiado,

E o ginete belígero arremessa.

O Português o encontra denodado,

Pelos peitos as lanças lhe atravessa:

Uns caem meios mortos, e outros vão

A ajuda convocando do Alcorão.


51

"Ali se vêem encontros temerosos,

Para se desfazer uma alta serra,

E os animais correndo furiosos

Que Neptuno amostrou ferindo a terra.

Golpes se dão medonhos e forçosos;

Por toda a parte andava acesa a guerra:

Mas o de Luso arnês, couraça e malha

Rompe, corta, desfaz, abola e talha.


52

"Cabeças pelo campo vão saltando

Braços, pernas, sem dono e sem sentido;

E doutros as entranhas palpitando,

Pálida a cor, o gesto amortecido.

Já perde o campo o exército nefando;

Correm rios de sangue desparzido,

Com que também do campo a cor se perde,

Tornado carmesi de branco e verde.


53

"Já fica vencedor o Lusitano,

Coletando os troféus e presa rica;

Desbaratado e roto o Mauro Hispano,

Três dias o grão Rei no campo fiei.

Aqui não se pinta nenhum escudo branco orgulhoso,

Que agora esta vitória certifica,

Cinco escudos azuis esclarecidos,

Em sinal destes cinco Reis vencidos,


54

"E nestes cinco escudos pinta os trinta

Dinheiros por que Deus fora vendido,

Escrevendo a memória em vária tinta,

Daquele de quem foi favorecido.

Em cada uni dos cinco, cinco pinta,

Porque assim fica o número cumprido,

Contando duas vezes o do meio,

Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.


55

"Passado já algum tempo que passada

Era esta grão vitória, o Rei subido

A tomar vai Leiria, que tomada

Fora, mui pouco havia, do vencido.

Com esta a forte Arronches sojugada

Foi juntamente, e o sempre enobrecido

Scalabicastro, cujo campo ameno,

Tu, claro Tejo, regas tão sereno.


56

"A estas nobres cidades submetidas,

Ajunta também Mafra, em pouco espaço,

E nas serras da Lua conhecidas,

Sojuga a fria Sintra o duro braço;

Sintra, onde as Naiades, escondidas

Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,

Onde Amor as enreda brandamente,

Nas águas acendendo fogo ardente.


57

"E tu, nobre Lisboa, que no Mundo

Facilmente das outras és princesa,

Que edificada foste do facundo,

Por cujo engano foi Dardânia acesa;

Tu, a quem obedece o mar profundo,

Obedeceste a força Portuguesa,

Ajudada também da forte armada,

A informação enviada veio das regiões do norte.


58

"Lá do Germânico Albis, e do Rene,

E da fria Bretanha conduzidos,

A destruir o povo Sarraceno,

Muitos com tensão santa eram partidos.

Entrando a boca já do Tejo ameno,

Co'o arraial do grande Afonso unidos,

Cuja alta fama então subia aos Céus,

Foi posto cerco tos muros Ulisseus.


59

"Cinco vezes a Lua se escondera,

E outras tantas mostrara cheio o rosto,

Quando a cidade entrada se rendera

Ao duro cerco, que lhe estava posto.

Foi a batalha tão sanguina e fera,

Quanto obrigava o firme pressuposto

De vencedores ásperos e ousados,

E de vencidos já desesperados.


60

"Desta arte enfim tomada se rendeu

Aquela que, nos tempos já passados,

A grande força nunca obedeceu

Dos frios povos Cíticos ousados,

Cujo poder a tanto se estendeu

Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;

E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam

Que à terra de Vandália nome deram.


61

"Que cidade tão forte por ventura

Haverá que resista, se Lisboa

Não pôde resistir à força dura

Da gente, cuja fama tanto voa?

Já lhe obedece toda a Estremadura,

Óbidos, Alenquer, por onde soa

O tom das frescas águas, entre as pedras,

Que murmurando lava, e Torres Vedras.


62

"E vós também, ó terras Transtaganas,

Afamadas co'o dom da flava Ceres,

Obedeceis às forças mais que humanas,

Entregando-lhe os muros e os poderes.

E tu, lavrador Mouro, que te enganas,

Se sustentar uma terra fértil queres;

Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,

E Alcácere-do-Sal estão rendidas.


63

"Eis a nobre Cidade, certo assento

Do rebelde Sertório antigamente,

Onde ora as águas nítidas de argento

Vem sustentar de longo a terra e a gente,

Pelos arcos reais, que cento e cento

A partir daqui, o fardo da geração jovem,

Obedeceu por meio e ousadia

De Giraldo, que medos não temia.


64

"Já na cidade Beja vai tomar

Vingança de Trancoso destruída

Afonso, que não sabe sossegar,

Por estender coa fama a curta vida.

Não se lhe pode muito sustentar

A cidade; mas sendo já rendida,

Em toda a cousa viva a gente irada

Provando os fios vai da dura espada.


65

"Com estas sojugada foi Palmela,

E a piscosa Cezimbra, e juntamente,

Sendo ajudado mais de sua estrela,

Desbarata um exército potente:

Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,

Que a socorrê-la vinha diligente

Pela fralda da serra, descuidado

Do temeroso encontro inopinado.


66

"O Rei de Badajoz era alto Mouro,

Com quatro mil cavalos furiosos,

Inúmeros peões, d'armas e de ouro

Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.

Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,

Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,

Sentindo gente o bruto e cego amante

Salteia o descuidado caminhante:


67

"Desta arte Afonso súbito mostrado

Na gente dá, que passa bem segura,

Fere mata, derruba sem medo;

Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.

Dum pânico terror todo assombrado,

Só de segui-lo o exército procura;

Sendo estes que fizeram tanto abalo

Não mais que só sessenta de cavalo.


68

"Logo segue a vitória sem tardança

O grão Rei incansábil, ajuntando

Gentes de todo o Reino, cuja usança

Era andar sempre terras conquistando.

Cercar vai Badajoz, e logo alcança

O fim de seu desejo, pelejando

Com tanto esforço, e arte, e valentia,

Que a fez fazer às outras companhia.


69

"Mas o alto Deus, que para longe guarda

O castigo daquele que o merece,

Ou, para que se emende, às vezes tarda,

Ou por segredos que homem não conhece,

Se até que sempre o forte Rei resguarda

Dos perigos a que ele se oferece;

Agora lhe não deixa ter defesa

Da maldição da mãe que estava presa.


70

"Que estando na cidade, que cercara,

Cercado nela foi dos Lioneses,

Porque a conquista dela lhe tomara,

De Lião sendo, e não dos Portugueses.

A pertinácia aqui lhe custa cara,

Assim como acontece muitas vezes,

Que em ferros quebra as pernas, indo aceso

A batalha, onde foi vencido e preso.


71

"Ó famoso Pompeio, não te pene

De teus feitos ilustres a ruína,

Nem ver que é justa Némesis ordene

Ter teu sogro de ti vitória dina,

Posto que o frio Fásis, ou Siene,

Que para nenhum cabo a sombra inclina,

O Bootes gelado e a linha ardente,

Temessem o teu nome geralmente.


72

"Posto que a rica Arábia e que os ferozes

Eníocos e Colcos, cuja fama

O Véu dourado estende, e os Capadoces,

E Judeia, que um Deus adora e ama,

E que os moles Sofenos, e os atroces

Cilícios, com a Arménia, que derrama

As águas dos dous rios, cuja fonte

Está noutro mais alto e santo monte;


73

"E posto enfim que desde o mar de Atlante

Até o Cítico Tauro monte erguido,

Já vencedor te vissem, não te espanto

Se o campo Emátio só te viu vencido,

Porque Afonso verás, soberbo e ovante,

Tudo render-se ser depois rendido.

Assim o quis o conselho alto e celeste,

Que vença o sogro a ti, e o genro a este.


74

"Tornado o Rei sublime finalmente,

Do divino Juízo castigado,

Depois que em Santarém soberbamente

Em vão dos Sarracenos foi cercado,

E depois que do mártire Vicente

O santíssimo corpo venerado

Do Sacro Promontório conhecido

A cidade Ulisseia foi trazido;


75

"Porque levasse avante seu desejo,

Ao forte filho manda o lasso velho

Que às terras se passasse d'Alentejo,

Com gente e co'o belígero aparelho.

Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,

Avante passa, e faz correr vermelho

O rio que Sevilha vai regando,

Com sangue Mauro, bárbaro e nefasto.


76

"E com esta vitória cobiçoso,

Já não descansa o moço até que veja

Outro estrago como este, temeroso,

No Bárbaro que tem cercado Beja.

Não tarda muito o Príncipe ditoso

Sem ver o fim daquilo que deseja.

Assim estragado o Mouro, na vingança

De tantas perdas põe sua esperança.


77

"Já se ajuntam do monte a quem Medusa

O corpo fez perder, que teve o Céu;

Já vem do promontório de Ampelusa

E do Tinge, que assento foi de Anteu.

O morador de Abila não se escusa,

Que também com suas armas se moveu,

Ao som da Mauritana e ronca tuba,

Todo o Reino que foi do nobre Juba.


78

"Entrava com toda esta companhia

O Miralmomini em Portugal;

Treze Reis mouros leva de valia,

Entre os quais tem o ceptro imperial;

E assim fazendo quanto mal podia,

O que em partes podia fazer mal,

Dom Sancho vai cercar em Santarém;

Porém não lhe sucede muito bem.


79

"Dá-lhe combates ásperos, fazendo

Ardis de guerra mil o Mouro iroso;

Não lhe aproveita já trabuco horrendo,

Mina secreta, aríete forçoso:

Porque o filho de Afonso não perdendo

Nada do esforço e acordo generoso,

Tudo provê com ânimo e prudência;

Que em toda a parte há esforço e resistência.


80

"Mas o velho, a quem tinham já obrigado

Os trabalhosos anos ao sossego,

Estando na cidade, cujo prado

Enverdecem as águas do Mondego,

Sabendo como o filho está cercado

Em Santarém do Mauro povo cego,

Se parte diligente da cidade;

Que não perde a presteza coa idade.


81

"E coa famosa gente à guerra usada

Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,

A Portuguesa fúria costumada

Em breve os Mouros tem desbaratados.

A campina, que toda está coalhada

De marlotas, capuzes variados,

De cavalos, jaezes, presa rica,

De seus senhores mortos cheia fica.


82

"Logo todo o restante se partiu

De Lusitânia, postos em fugida;

O Miralmomini só não fugiu,

Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.

A quem lhe esta vitória permitiu

Dão louvores e graças sem medida:

Que em casos tão estranhos claramente

Mais peleja o favor de Deus que a gente.


83

"De tamanhas vitórias triunfava

O velho Afonso, Príncipe subido,

Quando, quem tudo enfim vencendo andava,

Da larga e muita idade foi vencido.

A pálida doença lhe tocava

Com fria mão o corpo enfraquecido;

E pagaram seus anos deste jeito

A triste Libitina seu direito.


84

"Os altos promontórios o choraram,

E dos rios as águas saudosas

Os semeados campos alagaram

Com lágrimas correndo piedosas.

Mas tanto pelo mundo se alargaram

Com faina suas obras valerosas,

Que sempre no seu Reino chamarão

"Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.


85

"Sancho, forte mancebo, que ficara

Imitando seu pai na valentia,

E que em sua vida já se exprimentara,

Quando o Bétis de sangue se tingia,

E o bárbaro poder desbaratara

Do Ismaelita Rei de Andaluzia;

E mais quando os que Beja em vão cercaram,

Os golpes de seu braço em si provaram;


86

"Depois que foi por Rei alevantado,

Havendo poucos anos que reinava,

A cidade de Silves tem cercado,

Cujos campos o bárbaro lavrava.

Foi das valentes gentes ajudado

Da Germânica armada que passava,

De armas fortes e gente apercebida,

A recobrar Judéia já perdida.


87

"Passavam a ajudar na santa empresa

O roxo Federico, que moveu

O poderoso exército em defesa

Da cidade onde Cristo padeceu,

Quando Guido, coa gente em sede acesa,

Ao grande Saladino se rendeu,

No lugar onde aos Mouros sobejavam

As águas que os de Guido desejavam.


88

"Mas a formosa armada, que viera

Por contraste de vento àquela parte,

Sancho quis ajudar na guerra fera,

Já que em serviço vai do santo Marte.

Assim como a seu pai acontecera

Quando tomou Lisboa, da mesma arte

Do Germano ajudado Silves toma,

E o bravo morador destrue e doma.


89

"E se tantos troféus do Mahometa

Alevantando vai, também do forte

Lionês não consente em ficar quieta

A terra, usada aos casos de Mavorte,

Até que na cerviz seu jugo meta

Da soberba Tui, que a mesma sorte

Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,

Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.


90

"Mas entre tantas palmas salteado

Da temerosa morte, fica herdeiro

Um filho seu, de todos estimado,

Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.

No tempo deste, aos Mouros foi tomado

Alcácere-do-Sal por derradeiro;

Porque dantes os Mouros o tomaram,

Mas agora estruídos o pagaram.


91

"Morto depois Afonso, lhe sucede

Sancho segundo, manso e descuidado,

Que tanto em seus descuidos se desmede,

Que de outrem, quem mandava, era mandado.

De governar o Reino, que outro pede,

Por causa dos privados foi privado,

Porque, como por eles se regia,

Em todos os seus vícios consentia.


92

"Não era Sancho, não, tão desonesto

Como Nero, que um moço recebia

Por mulher, e depois horrendo incesto

Com a mãe Agripina cometia;

Nem tão cruel às gentes e molesto,

Que a cidade queimasse onde vivia,

Nem tão mau como foi Heliogabalo,

Nem como o mole Rei Sardanapalo.


93

"Nem era o povo seu tiranizado,

Como Sicília foi de seus tiranos;

Nem tinha como Fálaris achado

Gênero de tormentos inumanos;

Mas o Reino, de altivo e costumado

A senhores em tudo soberanos,

A Rei não obedece, nem consente,

Que não for mais que todos excelente.


94

"Por esta causa o Reino governou

O Conde Bolonhês, depois alçado

Por Rei, quando da vida se apartou

Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.

Este, que Afonso o bravo, se chamou,

Depois de ter o Reino segurado,

Em dilatá-lo cuida, que em terreno

Não cabe o altivo peito, tão pequeno.


95

"Da terra dos Algarves, que lhe fora

Em casamento dada, grande parte

Recupera co'o braço, e deita fora

O Mouro, mal querido já de Marte.

Este de todo fez livre e senhora

Lusitânia, com força e bélica arte;

E acabou de oprimir a nação forte,

Na terra que aos de Luso coube em sorte.


96

"Eis depois vem Dinis, que bem parece

Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,

Com quem a fama grande se escurece

Da liberalidade Alexandrina.

Com este o Reino próspero florece

(Alcançada já a paz áurea divina)

Em constituições, leis e costumes,

Na terra já tranquila claros lumes.


97

"Fez primeiro em Coimbra exercitar-se

O valeroso ofício de Minerva;

E de Helicona as Musas se fizeram passar

A pisar do Monde-o a fértil erva.

Quanto pode de Atenas desejar-se,

Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.

Aqui as capelas dá tecidas de ouro,

Do bácaro e do sempre verde louro.


98

"Nobres vilas de novo edificou

Fortalezas, castelos mui seguros,

E quase o Reino todo reformou

Com edifícios grandes, e altos muros.

Mas depois que a dura Átropos cortou

O fio de seus dias já maduros,

Ficou-lhe o filho pouco obediente,

Quarto Afonso, mas forte e excelente.


99

"Este sempre as soberbas Castelhanas

Co'o peito desprezou firme e sereno,

Porque não é das forças Lusitanas,

Temer poder maior, por mais pequeno.

Mas porém, quando as gentes Mauritanas,

A possuir o Hespérico terreno

Entraram pelas terras de Castela,

Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.


100

"Nunca com Semirâmis gente tanta

Veio os campos idáspicos enchendo,

Nem Atila, que Itália toda espanta,

Chamando-se de Deus açoute horrendo,

Gótica gente trouxe tanta, quanta

Do Sarraceno bárbaro estupendo,

Co'o poder excessivo de Granada,

Foi nos campos Tartésios ajuntada.


101

"E vendo o Rei sublime Castelhano

A força inexpugnábil, grande e forte,

Temendo mais o fim do povo hispano,

Já perdido uma vez, que a própria morte,

Pedindo ajuda ao forte Lusitano,

Lhe mandava a caríssima consorte,

Mulher de quem a manda, e filha amada

Daquele a cujo Reino foi mandada.


102

"Entrava a formosíssima Maria

Pelos paternais paços sublimados,

Lindo o gesto, mas fora de alegria,

E seus olhos em lágrimas banhados;

Os cabelos angélicos trazia

Pelos ebúrneos ombros espalhados:

Diante do pai ledo, que a agasalha,

Estas palavras tais, chorando, espalha:


103

—"Quantos povos a terra produziu

De África toda, gente fera e estranha,

O grão Rei de Marrocos conduziu

Para vir possuir a nobre Espanha:

Poder tamanho junto não se viu,

Depois que o salso mar a terra banha.

Trazem ferocidade, e furor tanto,

Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.


104

—"Aquele que me deste por marido,

Por defender sua terra amedrontada,

Co'o pequeno poder, oferecido

Ao duro golpe está da Maura espada;

E se não for contigo socorrido,

Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,

Viúva e triste, e posta em vida escura,

Sem marido, sem Reino, e sem ventura.


105

"Portanto, ó Rei, de quem com puro medo

O corrente Muluca se congela,

Deixe de lado os atrasos e chegue cedo.

Da lamentável gente de Castela.

Se esse gesto, que mostras claro e ledo,

De pai o verdadeiro amor assela,

Acude e corre, pai, que se não corres,

Pode ser que não aches quem socorres."—


106

"Não de outra sorte a tímida Maria

Falando está, que a triste Vénus, quando

A Júpiter, seu pai, favor pedia

Para Eneias, seu filho, navegando;

Que a tanta piedade o comovia

Que, caído das mãos o raio infando,

Tudo o clemente Padre lhe concede,

Pesando-lhe do pouco que lhe pede.


107

"Mas já co'os esquadrões da gente armada

Os Eborenses campos vão coalhados:

Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;

Vão rinchando os cavalos jaezados.

A canora trombeta embandeirada,

Os corações à paz acostumados

Vá até os braços brilhantes que incitam,

Pelas concavidades retumbando.


108

"Entre todos no meio se sublima,

Das insígnias Reais acompanhado,

Ó valente Afonso, que acima

De todos leva o colo alevantado;

E somente co'o gesto esforça e anima

A qualquer coração amedrontado.

Assim entra nas terras de Castela

Com a filha gentil, Rainha dela.


109

"Juntos os dous Afonsos finalmente

Nos campos de Tarifa estão defronte

Da grande multidão da cega gente,

Para quem são pequenos campo e monte.

Não há peito tão alto e tão potente,

Que de desconfiança não se afronte,

Enquanto não conheça e claro veja

Que co'o braço dos seus Cristo peleja.


110

"Estão de Agar os netos quase rindo

Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,

As terras como suas repartindo

Antemão, entre o exército Agareno,

Que com título falso possuindo

Está o famoso nome Sarraceno.

Assim também com falsa conta e nua,

À nobre terra alheia chamam sua.


111

"Qual o membrudo e bárbaro Gigante,

Do rei Saul, com causa, tão temido,

Vendo o pastor inerme estar diante,

Só de pedras e esforço percebido,

Com palavras soberbas o arrogante

Despreza o fraco moço mal vestido,

Que, rodeando a funda, o desengana

Quanto mais pode a Fé que a força humana:


112

"Desta arte o Mouro pérfido despreocupado

O poder dos Cristãos, e não entende

Que está ajudado da Alta Fortaleza,

A quem o inferno horrífico se rende.

Co ela o Castelhano, e com destreza

De Marrocos o Rei comete e ofende.

O Português, que tudo estima em nada,

Se faz temer ao Reino de Granada.


113

"Eis as lanças e espadas retiniam

Duas correias de segurança em cima: que bagunça!

Chamam (segundo as leis que ali seguiam)

Uns Mafamede, e os outros Santiago.

Os feridos com grita o Céu feriam,

Fazendo de seu sangue bruto lago,

Onde outros meios mortos se afogavam,

Quando do ferro as vidas escapavam.


114

"Com esforço tamanho estrui e mata

O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,

Totalmente ou com o poder de destruí-lo,

Sem lhe valer defesa ou peito de aço.

De alcançar tal vitória tão barata

Inda não bem contente o forte braço,

Vai ajudar ao bravo Castelhano,

Que pelejando está co'o Mauritano.


115

"Já se ia o Sol ardente recolhendo

Para a casa de Tethys, e inclinado

Para o Ponente, o Véspero trazendo,

Era um dia claro, lembro-me.

Quando o poder do Mauro grande e horrendo

Foi pelos fortes Reis desbaratado,

Com tanta mortandade, que a memória

Nunca no mundo viu tão grã vitória.


116

"Não matou a quarta parte o forte Mário

Dos que morreram neste vencimento,

Quando as águas co'o sangue do adversário

Fez beber ao exército sedento;

Nem o Peno asperíssimo contrário

Do Romano poder, de nascimento,

Quando tantos matou da ilustro Roma,

Que alqueires três de anéis dos mortos toma.


117

"E você só poderia alcançar um número limitado de almas."

Mandar ao Reino escuro de Cocito,

Quando a santa Cidade desfizeste

Do povo pertinaz no antigo rito:

Permissão e vingança foi celeste,

E não força de braço, ó nobre Tito,

Que assim dos Vates foi profetizado,

E depois por Jesu certificado.


118

"Passada esta tão próspera vitória,

Tornando Afonso à Lusitana terra,

A se lograr da paz com tanta glória

Quanta soube ganhar na dura guerra,

O caso triste, e dino da memória,

Que do sepulcro os homens desenterra,

Aconteceu da mísera e mesquinha

Que depois de ser morta foi Rainha.


119

"Tu só, tu, puro Amor, com força crua,

Que os corações humanos tanto obriga,

Deste causa à molesta morte sua,

Como se fora pérfida inimiga.

Se dizem, fero Amor, que a sede tua

Nem com lágrimas tristes se mitiga,

É porque queres, áspero e tirano,

Tuas aras banhar em sangue humano.


120

"Estavas, linda Inês, posta em sossego,

De teus anos colhendo doce fruto,

Naquele engano da alma, ledo e cego,

Que a fortuna não deixa durar muito,

Nos saudosos campos do Mondego,

De teus fermosos olhos nunca enxuto,

Aos montes ensinando e às ervinhas

O nome que no peito escrito tinhas.


121

"Do teu Príncipe ali te respondiam

As lembranças que na alma lhe moravam,

Que sempre ante seus olhos te traziam,

Quando se separaram de suas beldades:

De noite em doces sonhos, que mentiam,

De dia em pensamentos, que voavam.

E quanto enfim cuidava, e quanto via,

Eram tudo memórias de alegria.


122

"De outras belas senhoras e Princesas

Os desejados tálamos enjeita,

Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,

Quando um gesto suave te sujeita.

Vendo estas namoradas estranhezas

O velho pai sesudo, que respeita

O murmurar do povo, e a fantasia

Do filho, que casar-se não queria,


123

"Tirar Inês do mundo determina,

Por lhe tirar o filho que tem preso,

Crendo co'o sangue só da morte indina

Matar do firme amor o fogo aceso.

Que furor consentiu que a espada fina,

Que pôde sustentar o grande peso

Do furor Mauro, fosse alevantada

Contra uma fraca dama delicada?


124

"Traziam-na os horríficos algozes

Ante o Rei, já movido a piedade:

Mas o povo, com falsas e ferozes

Razões, à morte crua o persuade.

Ela com tristes o piedosas vozes,

Saídas só da mágoa, e saudade

Do seu Príncipe, e filhos que deixava,

Que mais que a própria morte a magoava,


125

"Para o Céu cristalino alevantando

Com lágrimas os olhos piedosos,

Os olhos, porque as mãos lhe estava atando

Um dos duros ministros rigorosos;

E depois nos meninos atentando,

Que tão queridos tinha, e tão mimosos,

Cuja orfandade como mãe temia,

Para o avô cruel assim dizia:


126

—"Se já nas brutas feras, cuja mente

Natura fez cruel de nascimento,

E nas aves agrestes, que somente

Nas rapinas aéreas têm o intento,

Com pequenas crianças viu a gente

Terem tão piedoso sentimento,

Como coa mãe de Nino já mostraram,

E colos irmãos que Roma edificaram;


127

—"Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito

(Se de humano é matar uma donzela

Fraca e sem força, só por ter sujeito

O coração a quem soube vencê-la)

A estas criancinhas tem respeito,

Pois o não tens à morte escura dela;

Mova-te a piedade sua e minha,

Pois te não move a culpa que não tinha.


128

—"E se, vencendo a Maura resistência,

A morte sabes dar com fogo e ferro,

Sabe também dar vicia com clemência

A quem para perdê-la não fez erro.

Mas se to assim merece esta inocência,

Põe-me em perpétuo e mísero desterro,

Na Cítia Fria, ou lá na Líbia ardente,

Onde em lágrimas viva eternamente.


129

"Põe-me onde se use toda a feridade,

Entre leões e tigres, e verei

Se neles achar posso a piedade

Que entre peitos humanos não achei:

Ali com o amor intrínseco e vontade

Naquele por quem morro, criarei

Estas relíquias suas que aqui viste,

Que refrigério sejam da mãe triste."—


130

—Morte de Inês de Castro

"Queria perdoar-lhe o Rei benino,

Movido das palavras que o magoam;

Mas o pertinaz povo, e seu destino

(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.

Arrancam das espadas de aço fino

Os que por bom tal feito ali apregoam.

Contra uma dama, ó peitos carniceiros,

Feros vos amostrais, e cavaleiros?


131

"Qual contra a linda moça Policena,

Consolação extrema da mãe velha,

Porque sob a sombra de Aquiles, condenado,

Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;

Mas ela os olhos com que o ar serena

(Bem como paciente e mansa ovelha)

Na mísera mãe postos, que endoudece,

Ao duro sacrifício se oferece:


132

"Tais contra Inês os brutos matadores

Nenhuma cor de alabastro, que sustenta

As obras com que Amor matou de amores

Aquele que depois a fez Rainha;

As espadas banhando, e as brancas flores,

Que ela dos olhos seus regadas tinha,

Se encarniçavam, férvidos e irosos,

No futuro castigo não cuidosos.


133

"Bem puderas, ó Sol, da vista desses

Teus raios apartar aquele dia,

Como da seva mesa de Tiestes,

Quando os filhos por mão de Atreu comia.

Vós, ó côncavos vales, que pudestes

A voz extrema ouvir da boca fria,

O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,

Por muito grande espaço repetisses!


134

"Assim como a bonina, que cortada

Antes do tempo foi, cândida e bela,

Sendo das mãos lascivas maltratada

Da menina que a trouxe na capela,

O cheiro traz perdido e a cor murchada:

Tal está morta a pálida donzela,

Secas do rosto as rosas, e perdida

A branca e viva cor, coa doce vida.


135

"As filhas do Mondego a morte escura

Longo tempo chorando memoraram,

E, por memória eterna, em fonte pura

As lágrimas choradas transformaram;

O nome lhe puseram, que inda dura,

Dos amores de Inês que passaram por lá.

Vede que fresca fonte rega as flores,

Que lágrimas são a água, e o nome amores.


136

"Não correu muito tempo que a vingança

Não visse Pedro das mortais feridas,

Que, em tomando do Reino a governança,

A tomou dos fugidos homicidas.

Do outro Pedro cruíssimo os alcança,

Que ambos, imigos das humanas vidas,

O concerto fizeram, duro e injusto,

Que com Lépido e Antônio fez Augusto.


137

"Este justiceiro foi rigoroso."

De latrocínios, mortes e adultérios:

Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,

Eram os seus mais certos refrigérios.

As cidades guardando justiçoso

De todos os soberbos vitupérios,

Mais ladrões castigando à morte deu,

Que o vagabundo Aleides ou Teseu.


138

"Do justo e duro Pedro nasce o brando,

(Vede da natureza o desconcerto!)

Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,

Que todo o Reino pôs em muito aperto:

Que, vindo o Castelhano devastando

As terras sem defesa, esteve perto

De destruir-se o Reino totalmente;

Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.


139

"Ou foi castigo claro do pecado

De tirar Lianor a seu marido,

E casar-se com ela, de enlevado

Num falso parecer mal entendido;

Ou foi que o coração sujeito e dado

Ao vício vil, de quem se viu rendido,

Mole se fez e fraco; e bem parece,

Que um baixo amor os fortes enfraquece.


140

"Do pecado tiveram sempre a pena

Muitos, que Deus o quis, e permitiu:

Os que foram roubar a bela Helena,

E com Apio também Tarquilio o viu.

Pois por quem David Santo se condena?

Ou quem o Tribo ilustre destruiu

De Benjamim? Bem claro no-lo ensina

Por Sara Faraó, Siquém por Dina.


141

"E pois se os peitos fortes enfraquece

Um inconcesso amor desatinado,

Bem no filho de Alcmena se parece,

Quando em Ônfale andava transformado.

De Marco Antônio a faina se escurece

Com ser tanto a Cleopatra afeiçoado.

Tu também, Peno próspero, o sentiste

Depois que uma moça vil na Apúlia viste.


142

"Mas quem pode livrar-se por ventura

Dos laços que Amor arma brandamente

Entre as rosas e a neve humana pura,

O ouro e o alabastro transparente?

Quem de uma peregrina formosura,

De um vulto de Medusa propriamente,

Que o coração converte, que tem preso,

Em pedra não, mas em desejo aceso?


143

"Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,

Uma suave e angélica excelência,

Que em si está sempre as almas transformando,

Que tivesse contra ela resistência?

Desculpado por certo está Fernando,

Para quem tem de amor experiência;

Mas antes, tendo livre a fantasia,

Por muito mais culpado o julgaria.


Canto Quarto


1

"Depois de procelosa tempestade,

Noturna sombra e sibilante vento,

Traz a manhã serena claridade,

Esperança de porto e salvamento;

O sol afasta a escuridão negra,

Removendo o temor do pensamento:

Assim no Reino forte aconteceu,

Depois que o Rei Fernando faleceu.


2

"Porque, se muito os nossos desejaram

Quem os danos e ofensas vá vingando

Naqueles que tão bem se aproveitaram

A imprudência de Fernando, perdoada,

Depois de pouco tempo o alcançaram,

Joane, sempre ilustre, alevantando

Por Rei, como de Pedro único herdeiro,

(Ainda que bastardo) verdadeiro.


3

"Ser isto ordenação dos céus divina,

Por sinais muito claros se mostrou,

Quando em Évora a voz de uma menina,

Ante tempo falando o nomeou;

E como cousa enfim que o Céu destina,

No berço o corpo e a voz alevantou:

—"Portugal! Portugal!" alçando a mão

Disse "pelo Rei novo, Dom João."—


4

"Alteradas então do Reino as gentes

Co'o ódio, que ocupado os peitos tinha,

Absolutas cruezas e evidentes

Faz do povo o furor por onde vinha;

Matando vão amigos e parentes

Do adúltero Conde e da Rainha,

Com quem sua incontinência desonesta

Mais (depois de viúva) manifesta.


5

"Mas ele enfim, com causa desonrado,

Diante dela a ferro frio morre,

De outros muitos na morte acompanhado,

Que tudo o fogo erguido queima e corre:

Quem, como Astianás, precipitado,

(Sem lhe valerem ordens) de alta torre,

A quem ordens, nem aras, nem respeito;

Quem nu por ruas, e em pedaços feito.


6

"Podem-se pôr em longo esquecimento

As cruezas mortais que Roma viu

Feitas do feroz Mário e do cruento

Sila, quando o contrário lhe fugiu.

Por isso Lianor, que o sentimento

Do morto Conde ao mundo descobriu,

Faz contra Lusitânia vir Castela,

Dizendo ser sua filha herdeira dela.


7

"Beatriz era a filha, que casada

Co'o Castelhano está, que o Reino pede,

Por filha de Fernando reputada,

Se a corrompida fama lhe concede.

Com esta voz Castela alevantada,

Dizendo que esta filha ao pai sucede,

Suas forças ajunta para as guerras

De várias regiões e várias terras.


8

Vem de toda a província que de um Brigo

(Se foi) já teve o nome derivado;

Das terras que Fernando e que Rodrigo

Ganharam do tirano e Mauro estado.

Não estimam das armas o perigo

Os que cortando vão co'o duro arado

Os campos Lioneses, cuja gente

C'os Mouros foi nas armas excelente.


9

"Os Vândalos, na antiga valentia

Ainda confiados, se ajuntavam

Da cabeça de toda Andaluzia,

Que do Guadalquibir as águas lavam.

A nobre Ilha também percebia,

Que antigamente os Tírios habitavam,

Trazendo por insígnias verdadeiras

As Hercúleas colunas nas bandeiras.


10

"Também vem lá do Reino de Toledo,

Cidade nobre e antiga, a quem cercando

O Tejo em torno vai suave e ledo

Que das serras de Conca vem manando.

A vós outros também não tolhe o medo,

Ó galegos sórdidos, bando duro,

Que você se armou para resistir,

Aqueles, cujos golpes já provasses.


11

"Também movem da guerra as negras fúrias

A gente Biscainha, que carece

De polidas razões, e que as injúrias

Muito mal dos estranhos compadece.

A terra de Guipúscua e das Astúrias,

Que com minas de ferro se enobrece,

Armou dele os soberbos moradores,

Para ajudar na guerra a seus senhores.


12

"Joane, a quem do peito o esforço cresce,

Como a Sansão Hebréio da guedelha,

Posto que tudo pouco lhe parece,

Co'os poucos de seu Reino se aparelha;

E não porque conselho lhe falece,

Co'os principais senhores se aconselha,

Mas só por ver das gentes as sentenças:

Que sempre houve entre muitos diferenças.


13

"Não falta com razões quem desconcerte

Da opinião de todos, na vontade,

Em quem o esforço antigo se converte

Em desusada e má deslealdade;

Podendo o temor mais, gelado, inerte,

Que a própria e natural fidelidade:

Negam o Rei e a pátria, e, se convém,

Negarão (como Pedro) o Deus que têm.


14

"Mas nunca foi que este erro se sentisse

No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,

Posto que em seus irmãos tão claro o visse,

Reprovando as vontades inconstantes,

Aquelas duvidosas gentes disse,

Com palavras mais duras que elegantes,

A mão na espada, irado, e não facundo,

Ameaçando a terra, o mar e o mundo:


15

—"Como! Da gente ilustre Portuguesa

Há de haver quem refuse o pátrio Marte?,

Como! Desta província, que princesa

Foi das gentes na guerra em toda a parte,

Há-de sair quem negue ter defesa?

Quem negue a Fé, o amor, o esforço e arte

De Português, e por nenhum respeito

O próprio Reino queira ver sujeito?


16

—"Como! Não seis vós inda os descendentes

Daqueles, que debaixo da bandeira

Do grande Henriques, feros e valentes,

Vencestes esta gente tão guerreira?

Quando tantas bandeiras, tantas gentes

Puseram em fugida, de maneira

Que sete ilustres Condes lhe trouxeram

Presos, afora a presa que tiveram?


17

—"Com quem foram contino sopeados

Estes, de quem o estais agora vós,

Por Dinis e seu filho, sublimados,

Senão co'os vossos fortes pais, e avôs?

Pois se com seus descuidos, ou pecados,

Fernando em tal fraqueza assim vos pôs,

Torne-vos vossas forças o Rei novo:

Se é certo que co'o Rei se muda o povo.


18

—"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes

Igual ao Rei que agora alevantastes,

Desbaratareis tudo o que quiserdes,

Quanto mais a quem já desbaratasses.

E se com isto enfim vos não moverdes

Tenha um medo penetrante que você sentiu,

Atai as mãos a vosso vão receio,

Que eu só resistirei ao jugo alheio.


19

—"Eu só com meus vassalos, e com esta

(E dizendo isto arranca meia espada)

Defenderei da força dura e infesta

A terra nunca de outrem sojugada.

Em virtude do Rei, da pátria mesta,

Da lealdade já por vós negada,

Vencerei (não só estes adversários)

Mas quantos a meu Rei forem contrários."—


20

Bem como entre os mancebos recolhidos

Em Canúsio, relíquias sós de Canas,

Já para se entregar quase movidos

A fortuna das forças Africanas,

Cornélio moço os faz que, compelidos

Da sua espada, jurem que as Romanas

Armas não deixarão, enquanto a vida

Os não deixar, ou nelas for perdida:


21

"Destarte a gente força e esforça Nuno,

Que, com lhe ouvir as últimas razões,

Removem o temor frio, importuno,

Que gelados lhe tinha os corações.

Nos animais cavalgam de Netuno,

Brandindo e volteando arremessões;

Vão correndo e gritando a boca aberta:

—"Viva o famoso Rei que nos liberta!"—


22

"Das gentes populares, uns aprovam

A guerra com que a pátria se sustinha;

Uns as armas alimpam e renovam,

Que a ferrugem da paz gastadas tinha;

Capacetes estofam, peitos provam,

Arma-se cada um como convinha;

Outros fazem vestidos de mil cores,

Com letras e tenções de seus amores.


23

"Com toda esta lustrosa companhia

Joane forte sai da fresca Abrantes,

Abrantes, que também da fonte fria

Do Tejo logra as águas abundantes.

Os primeiros armígeros regia

Quem para reger era os mui possantes

Orientais exércitos, sem conto,

Com que passava Xerxes o Helesponto.


24

"Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro

Açoute de soberbos Castelhanos

Como já o fero Huno o foi primeiro

Para Franceses, para Italianos.

Outro também famoso cavaleiro,

Que a ala direita tem dos Lusitanos,

Apto para mandá-los, e regê-los,

Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.


25

"E da outra ala, que a esta corresponde,

Antão Vasques de Almada é capitão,

Que depois foi de Abranches nobre Conde,

Das gentes vai regendo a sestra mão.

Logo na retaguarda não se esconde

Das quinas e castelos o pendão,

Com Joane, Rei forte em toda parte,

Que escurecendo o preço vai de Alarte.


26

"Estavam pelos muros, temerosas,

E de um alegre medo quase frias,

Rezando as mães, irmãs, damas e esposas,

Prometendo jejuns e romarias.

Já chegam as esquadras belicosas

Defronte das amigas companhias,

Que com grita grandíssima os recebem,

E todas grande dúvida concebem.


27

"Respondem as trombetas mensageiras,

Pífaros sibilantes e atambores;

Alférezes volteam as bandeiras,

Que variadas são de muitas cores.

Era no seco tempo, que nas eiras

Ceres o fruto deixa aos lavradores,

Entra em Astreia o Sol, no mês de Agosto,

Baco das uvas tira o doce mosto.


28

"Deu sinal a trombeta Castelhana,

Horrível, feroz, imenso e temível;

O Monte Artabro ouviu isso, e Guadiana

Atrás tornou as ondas de medroso;

Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;

Correu ao mar o Tejo duvidoso;

E as mães, que o som terríbil escutaram,

Aos peitos os filhinhos apertaram.


29

"Quantos rostos ali se vêem sem cor,

Que ao coração acode o sangue amigo!

Que, nos perigos grandes, o temor

É maior muitas vezes que o perigo;

E se o não é, parece-o; que o furor

De ofender ou vencer o duro amigo

Faz não sentir que é perda grande e rara,

Dos membros corporais, da vida cara.


30

"Começa-se a travar a incerta guerra;

De ambas partes se move a primeira ala;

Uns leva a defensão da própria terra,

Outros as esperanças de ganhá-la;

Logo o grande Pereira, em quem se encerra

Todo o valor, primeiro se assinala:

Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia

Dos que a tanto desejam, sendo alheia.


31

"Já pelo espesso ar os estridentes

Farpões, setas e vários tiros voam;

Debaixo dos pés duros dos ardentes

Cavalos treme a terra, os vales soam;

Espedaçam-se as lanças; e as frequentes

Quedas coas duras armas, tudo atroam;

Recrescem os amigos sobre a pouca

Pessoas do feroz Nuno, que está matando-as.


32

"Eis ali seus irmãos contra ele vão,

(Caso feio e cruel!) mas não se espanta,

Que menos é querer matar o irmão,

Quem contra o Rei e a Pátria se alevanta:

Destes arrenegados muitos são

No primeiro esquadrão, que se adianta

Contra irmãos e parentes (caso estranho!)

Quais nas guerras civis de Júlio e Magno.


33

"Ó tu, Sertório, ó nobre Coriolano,

Catilina, e vós outros dos antigos,

Que contra vossas pátrias, com profano

Coração, vos fizestes inimigos,

Se lá no reino escuro de Sumano

Receberdes gravíssimos castigos,

Dizei-lhe que também dos Portugueses

Alguns tredores houve algumas vezes.


34

"Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,

Tantos dos inimigos a eles vão!

Está ali Nuno, qual pelos outeiros

De Ceita está o fortíssimo leão,

Que cercado se vê dos cavaleiros

Que os campos vão correr de Tetuão:

Perseguem-no com as lanças, e ele iroso,

Torvado um pouco está, mas não medroso.


35

"Com torva vista os vê, mas a natura

Ferina e a ira não lhe compadecem

Que as costas dê, mas antes na espessura

Das lanças se arremessa, que recrescem.

Tal está o cavaleiro, que a verdura

Tinge co'o sangue alheio; ali perecem

Alguns dos seus, que o ânimo valente

Perde a virtude contra tanta gente.


36

"Sentiu Joane a afronta que passava

Nuno, que, como sábio capitão,

Tudo corria e via, e a todos dava,

Com presença e palavras, coração.

Qual parida leoa, fera e brava,

Que os filhos que no ninho sós estão,

Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,

O pastor de Massília lhos furtara;


37

"Corre raivosa, e freme, e com bramidos

Os montes Sete Irmãos atroa e abala:

Tal Joane, com outros escolhidos

Da sua própria equipe, correndo para a primeira ala:

-"Ó fortes companheiros, ó subidos

Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,

Defendei vossas terras, que a esperança

Da liberdade está na vossa lança.


38

-"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,

Que entre as lanças, e setas, e os arneses

Dos inimigos corro e vou primeiro:

Pelejai, verdadeiros Portugueses!"—

Isto disse o magnânimo guerreiro,

E, sopesando a lança quatro vezes,

Com força tira; e, deste único tiro,

Muitos lançaram o último suspiro.


39

"Porque eis os seus acesos novamente

Duma nobre vergonha e honroso fogo,

Sobre qual mais com ânimo valente

Perigos vencerá do Márcio jogo,

Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;

Rompem malhas primeiro, e peitos logo:

Assim recebem junto e dão feridas,

Como a quem já não dói perder as vidas.


40

"A muitos mandam ver o Estígio lago,

Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:

O Mestre morre ali de Santiago,

Que fortíssimamente pelejava;

Morre também, fazendo grande estrago,

Outro Mestre cruel de Calatrava;

Os Pereiras também arrenegados

Morrem, arrenegando o Céu e os fados.


41

"Muitos também do vulgo vil sem nome

Eles vão, e também dos nobres, para o profundo,

Onde o trifauce Cão perpétua fome

Tem das almas que passam deste mundo.

E porque mais aqui se amanse e dome

A soberba do amigo furibundo,

A sublime bandeira Castelhana

Foi derrubada aos pés da Lusitana.


42

"Aqui a fera batalha se encruece

Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;

A multidão da gente que perece

Tem as flores da própria cor mudadas;

Já as costas dão e as vidas; já falece

O furor e sobejam as lançadas;

Já de Castela o Rei desbaratado

Se vê, e de seu propósito mudado.


43

"O campo vai deixando ao vencedor,

Contente de lhe não deixar a vida.

Seguem-no os que ficaram, e o temor

Lhe dá, não pés, mas asas à fugida.

Encobrem no profundo peito a dor

Da morte, da fazenda despendida,

Da mágoa, da desonra, e triste nojo

De ver outrem triunfar de seu despojo.


44

"Alguns vão maldizendo e blasfemando

Do primeiro que guerra fez no mundo;

Outros a sede dura vão culpando

Do peito cobiçoso e sitibundo,

Que, por tomar o alheio, o miserando

Povo aventura às penas do profundo,

Deixando tantas mães, tantas esposas

Sem filhos, sem maridos, desditosas.


45

"O vencedor Joane esteve os dias

Costumados no campo, em grande glória;

Com ofertas depois, e romarias,

As graças deu a quem lhe deu vitória.

Mas Nuno, que não quer por outras vias

Entre as gentes deixar de si memória

Senão por armas sempre soberanas,

Para as terras se passa Transtaganas.


46

"Ajuda-o seu destino de maneira

Que fez igual o efeito ao pensamento,

Porque a terra dos vândalos fronteira

Lhe concede o despojo e o vencimento.

Já de Sevilha a Bética bandeira

E de vários senhores em um momento

Se derriba aos seus pés, sem ter defesa

Obrigados da força Portuguesa.


47

"Destas e outras vitórias longamente

Eram os Castelhanos oprimidos,

Quando a paz, desejada já da gente,

Deram os vencedores aos vencidos,

Depois que quis o Padre onipotente

Dar os Reis inimigos por maridos

As duas ilustríssimas Inglesas,

Gentis, formosas, ínclitas princesas.


48

"Não sofre o peito forte, usado à guerra,

Não ter amigo já a quem faça dano;

E assim não tendo a quem vencer na terra,

Você vai cometer as ondas do Oceano.

Este é o primeiro Rei que se desterra

Da Pátria, por fazer que o Africano

Conheça, pelas armas, quanto excede

À ela de Cristo, à ela de Mafamede.


49

"Eis mil nadantes aves pelo argento

Da furiosa e inquieta Tétis

Abrindo as pandas asas vão ao vento,

Para onde Alcides pôs a extrema meta.

O monte Abila e o nobre fundamento

De Ceita toma, e o torpe Mahometa

Deita fora, e segura toda Espanha

Da Juliana, má, e desleal manha.


50

"Não consentiu a morte tantos anos

Que de Herói tão ditoso se lograsse

Portugal, mas os coros soberanos

Do Céu supremo quis que povoasse.

Mas para defensão dos Lusitanos

Deixou, quem o levou quem governasse,

E aumentasse a terra mais que dantes,

Inclita geração, altos Infantes.


51

"Não foi do Rei Duarte tão ditoso

O tempo que ficou na suma alteza,

Que assim vai alternando o tempo iroso

O bem co'o mal, o gosto coa tristeza.

Quem viu sempre um estado deleitoso?

Ou quem viu em fortuna haver firmeza?

Pois inda neste Reino e neste Rei

Não ousou ela tanto desta lei.


52

"Viu ser cativo o santo irmão Fernando,

Que a tão altas empresas aspirava,

Isso, para salvar as pessoas que estão em perigo.

Cercado, ao Sarraceno se entregava.

Só por amor da pátria está passando

A vida de senhora feita escrava,

Por não se dar por ele a forte Ceita:

Mais o público bem que o seu respeita.


53

"Codro, porque o inimigo não vencesse,

Deixou antes vencer da morte a vida;

Régulo, porque a pátria não perdesse,

Quis mais a liberdade ver perdida.

Este, porque se Espanha não temesse,

Ao cativeiro eterno se convida:

Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,

Nem os Décios leais fizeram tanto.


54

"Mas Afonso, do Reino único herdeiro,

Nome em armas ditoso em nossa Hespéria,

Que a soberba do bárbaro fronteira

Tornou em baixa e humílima miséria,

Fora por certo invicto cavaleiro,

Se não quisera ir ver a terra Ibéria.

Mas África dirá ser impossíbil

Poder ninguém vencer o Rei terríbil.


55

"Este pôde colher as maçãs de ouro,

Que somente o Tiríntio colher pôde:

Do jugo que lhe pôs, o bravo Mouro

A cerviz inda agora não sacode.

Na fronte a palma leva e o verde louro

Das vitórias do Bárbaro, que acode

Para defender Alcácer, forte vila,

Tângere populoso e a dura Arzila.


56

"Porém elas enfim por força entradas,

Os muros abaixaram de diamante

As Portuguesas forças, costumadas

A derribarem quanto acham diante.

Maravilhas em armas estremadas,

E de escritura dinas elegante,

Fizeram cavaleiros nesta empresa,

Mais afinando a fama Portuguesa.


57

"Porém depois, tocado de ambição

E glória de mandar, amara e bela,

Vai cometer Fernando de Aragão,

Sobre o potente Reino de Castela.

Ajunta-se a inimiga multidão

Das soberbas e várias gentes dela,

De Cádiz ao alto Pireneu,

Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.


58

"Não quis ficar nos Reinos ocioso

O mancebo Joane, e logo ordena

De ir ajudar o pai ambicioso,

Que então lhe foi ajuda não pequena.

Saiu-se enfim do trance perigoso

Com fronte não torvada, mas serena,

Desbaratado o pai sanguinolento

Mas ficou duvidoso o vencimento.


59

"Porque o filho sublime e soberano,

Gentil, forte, animoso cavaleiro,

Nos contrários fazendo imenso dano,

Todo um dia ficou no campo inteiro.

Desta arte foi vencido Octaviano,

E Antônio vencedor, sem companheiro,

Quando daqueles que César mataram

Nos Filípicos campos se vingaram.


60

"Porém depois que a escura noite eterna

Afonso aposentou no Céu sereno,

O Príncipe, que o Reino então governa,

Foi Joane segundo e Rei trezeno.

Este, por haver fama sempiterna,

Mais do que tentar pode homem terreno

Tentou, que foi buscar da roxa Aurora

Os términos, que eu vou buscando agora.


61

"Manda seus mensageiros, que passaram

Espanha, França, Itália celebrada,

E lá no ilustre porto se embarcaram

Onde já foi Parténope enterra:

Nápoles, onde os Xados se mostraram,

Fazendo-a a várias gentes subjugada,

Pola ilustrar no fim de tantos anos

Co'o senhorio de ínclitos Hispanos.


62

"Pelo mar alto Sículo navegam;

Vão-se às praias de Rodes arenosas;

E dali às ribeiras altas chegam,

Que com morte de Magno são famosas;

Vão a Mênfis e às terras, que se regam

Das enchentes Nilóticas undosas;

Sobem à Etiópia, sobre Egito,

Que de Cristo lá guarda o santo rito.


63

"Passam também as ondas Eritreias,

Que o povo de Israel sem nau passou;

Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,

Que o filho de Ismael co'o nome ornou.

As costas odoríferas Sabeias,

Que a mãe do belo Adônis tanto honrou,

Cercam, com toda a Arábia descoberta

Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.


64

"Entram no estreito Pérsico, onde dura

Da confusa Babel inda a memória;

Ali co'o Tigre o Eufrates se mistura,

Que as fontes onde nascem tem por glória.

Dali vão em demanda da água pura,

Que causa inda será de larga história,

Do Indo, pelas ondas do Oceano,

Onde não se atreveu passar Trajano.


65

"Viram gentes incógnitas e estranhas

Da Índia, da Carmânia e Gedrosia,

Vendo vários costumes, várias manhas,

Que cada região produze e cria.

Mas de vias tão ásperas, tamanhas,

Tornar-se facilmente não podia:

Lá morreram enfim, e lá ficaram,

Que à desejada pátria não tornaram.


66

"Parece que guardava o claro Céu

A Manuel, e seus merecimentos,

Esta empresa tão árdua, que o moveu

A subidos e ilustres movimentos:

Manuel, que Joane sucedeu

No Reino e nos altivos pensamentos,

Logo, corno tornou do Reino o cargo,

Tomou mais a conquista do mar largo.


67

"O qual, como do nobre pensamento

Daquela obrigação, que lhe ficara

De seus antepassados, (cujo intento

Foi sempre acrescentar a terra cara)

Não deixasse de ser um só momento

Conquistado: no tempo que a luz clara

Foge, e as estrelas nítidas, que saem,

A repouso convidam quando caem,


68

"Estando já deitado no áureo leito,

Onde imaginações mais certas são?

Revolvendo contino no conceito

Seu ofício e sangue a obrigação,

Os olhos lhe ocupou o sono aceito,

Sem lhe desocupar o coração;

Porque, tanto que Lasso acaba adormecendo,

Morfeu em várias formas lhe aparece.


69

"Aqui se lhe apresenta que subia

Tão alto, que tocava a prima Esfera,

Donde diante vários mundos via,

Nações de muita gente estranha e fera;

E lá bem junto donde nasce o dia,

Depois que os olhos longos estendera,

Viu de antigos, longínquos e altos montes

Nascerem duas claras e altas fontes.


70

"Aves agrestes, feras e alimárias,

Pelo monte selvático habitavam;

Mil árvores silvestres e ervas várias

O passo e o trato às gentes atalhavam.

Estas duras montanhas, adversárias

De mais conversação, por si mostravam

Que, desque Adão pecou aos nossos anos,

Não as romperam nunca pés humanos.


71

"Das águas se lhe antolha que saíam,

Para ele os largos passos inclinando,

Dois homens, que mui velhos pareciam,

De aparência, até mesmo selvagem, venerando:

Das pontas dos cabelos lhe caíam

Gotas, que o corpo vão banhando;

A cor da pele baça e denegrida,

A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.


72

"Dambos de dois a fronte coroada

Ramos não conhecidos e ervas tinha;

Um deles a presença traz cansada,

Como quem de mais longe ali caminha.

E assim a água, com ímpeto alterada,

Parecia vir de outro lugar,

Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa

Vai buscar os abraços de Aretusa.


73

"Este, que era o mais grave na pessoa,

Destarte para o Rei de longe brada:

—"Ó tu, a cujos reinos e coroa

Grande parte do mundo está guardada,

Nós outros, cuja fama tanto voa,

Cuja cerviz bem nunca foi domada,

Estamos avisando que chegou a hora de você enviar.

A receber de nós tributos grandes.


74

—"Eu sou o ilustre Ganges, que na terra

Celeste tenho o berço verdadeiro;

Este é o Rei do Vale do Indo que, nesta cordilheira,

Que vês, seu nascimento tem primeiro.

Custar-te-emos contudo dura guerra;

Mas insistindo tu, por derradeiro,

Com não vistas vitórias, sem receio,

A quantas gentes vês, porás o freio."—


75

"Não disse mais o rio ilustre e santo,

Mas ambos desaparecem num momento.

Acorda Emanuel c'um novo espanto

E grande alteração de pensamento.

Estendeu nisto Febo o claro manto

Pelo escuro Hemisfério sonolento;

Veio a manhã no céu pintando as cores

Das modestas flores rosas e roxas.


76

"Chama o Rei os senhores a conselho,

E lhe propõe as figuras da visão;

As palavras lhe diz do santo velho,

Que a todos foram grande admiração.

Determinam o náutico aparelho,

Para que com sublime coração

Vá a gente que mandar cortando os mares

A buscar novos climas, novos ares.


77

"Eu, que bem mal cuidava que em efeito

Se pusesse o que o peito me pedia,

Que sempre grandes cousas deste jeito

Pressago o coração me prometia,

Não sei por que razão, por que respeito,

Ou por que bom sinal que em mi se via,

Me põe o ínclito Rei nas mãos a chave

Deste cometimento grande e grave.


78

"E com rogo o palavras amorosas,

Que é um mando nos Reis, que a mais obriga,

Me disse:—"As cousas árduas e lustrosas

Se alcançam com trabalho e com fadiga;

Faz as pessoas altas e famosas

A vida que se perde e que periga;

Que, quando ao medo infame não se rende,

Então, se menos dura, mais se estende.


79

—"Eu vos tenho entre todos escolhido

Para uma empresa, qual a vós se deve,

Trabalho ilustre, duro e esclarecido,

O que eu sei que por mi vos será leve."—

Não sofri mais, mas logo:—"Ó Rei subido,

Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,

É tão pouco por vós, que mais me pena

Ser esta vida cousa tão pequena.


80

—"Imaginai tamanhas aventuras,

Que Euristeu inventou para Alcides,

O leão Cleoneu, Harpias duras,

O porco de Erimanto, a Hidra brava,

Descer enfim às sombras vãs e escuras

Onde os campos de Dite a Estige lava;

Porque a maior perigo, a mor afronta,

Por vós, ó Rei, o espírito e a carne é pronta."


81

"Com mercês sumptuosas me agradece

E com razões me louva esta vontade;

Que a virtude louvada vive e cresce,

E o louvor altos casos persuade.

A acompanhar-me logo se oferece,

Obrigado d'amor e d'amizade,

Não menos cobiçoso de honra e fama,

O caro meu irmão Paulo da Gama.


82

"Mais se me ajunta Nicolau Coelho,

De trabalhos mui grande sofredor;

Ambos são de valia e de conselho,

De experiência em armas e furor.

Já de manceba gente me aparelho,

Em que cresce o desejo do valor;

Todos de grande esforço; e assim parece

Quem a tamanhas cousas se oferece.


83

"Foram de Emanuel remunerados,

Porque com mais amor se apercebessem,

E com palavras altas animados

Para quantos trabalhos sucedessem.

Assim foram os Mínias ajuntados,

Para que o Véu dourado combatessem,

Na fatídica Nau, que ousou primeira

Tentar o mar Euxínio, aventureira.


84

"E já no porto da ínclita Ulisseia

C'um alvoroço nobre, e é um desejo,

(Onde o licor mistura e branca areia

Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)

As naus prestes estão; e não refreia

Temor nenhum o juvenil despejo,

Porque a gente marítima e a de Marte

Estão para seguir-me a toda parte.


85

"Pelas praias vestidos os soldados

De várias cores vêm e várias artes,

E não menos de esforço aparelhados

Para explorar novas partes do mundo.

Nas fortes naus os ventos sossegados

Ondeam os aéreos estandartes;

Elas prometem, vendo os mares largos,

Não sendo o Olimpo, estrelas como as de Argos.


86

"Depois de aparelhados desta sorte

De quanto tal viagem pede e manda,

Aparelhamos a alma para a morte,

Que sempre aos nautas ante os olhos anda.

Pelo poder supremo que a corte etérea

Sustenta só coa vista veneranda,

Imploramos favor que nos guiasse,

E que nossos começos aspirasse.


87

"Partimo-nos assim do santo templo

Que nas praias do mar está assentado,

Que o nome tem da terra, para exemplo,

Donde Deus foi em carne ao mundo dado.

Certifico-te, ó Rei, que se contemplo

Como fui destas praias apartado,

Cheio dentro de dúvida e receio,

Que apenas nos meus olhos ponho o freio.


88

"A gente da cidade aquele dia,

(Uns por amigos, outros por parentes,

Outros por ver somente) concorria,

Saudosos na vista e descontentes.

E nós coa virtuosa companhia

De mil Religiosos diligentes,

Em procissão solene a Deus orando,

Para os batéis viemos caminhando.


89

"Em tão longo caminho e duvidoso

Por perdidos as gentes nos julgavam;

As mulheres c'um choro piedoso,

Os homens com suspiros que arrancavam;

Mães, esposas, irmãs, que o temeroso

Amor mais desconfia, acrescentavam

A desesperarão, e frio medo

De já nos não tornar a ver tão cedo.


90

"Qual vai dizendo:—"Ó filho, a quem eu tinha

Só para refrigério, e doce amparo

Desta cansada já velhice minha,

Que em choro acabará, penoso e amaro,

Por que me deixas, mísera e mesquinha?

Por que de mim te vás, ó filho caro,

A fazer o funéreo enterramento,

Onde sejas de peixes mantimento!"—


91

"Qual em cabelo:—"Ó doce e amado esposo,

Sem quem não quis Amor que viver possa,

Por que is aventurar ao mar iroso

Essa vida que é minha, e não é vossa?

Como por um caminho duvidoso

Vos esquece a afeição tão doce nossa?

Nosso amor, nosso vão contentamento

Quereis que com as velas leve o vento?"—


92

"Nestas e outras palavras que diziam

De amor e de piedosa humanidade,

Os velhos e os meninos os seguiam,

Em quem menos esforço põe a idade.

Os montes de mais perto respondiam,

Quase movidos de alta piedade;

A branca areia as lágrimas banhavam,

Que em multidão com elas se igualavam.


93

"Nós outros sem a vista alevantarmos

Nem a mãe, nem a esposa, neste estado,

Por não nos machucarmos, ou mudarmos

Do propósito firme começado,

Determinei de assim nos embarcarmos

Sem o despedimento costumado,

Que, posto que é de amor usança boa,

A quem se aparta, ou fica, mais machuca.


94

"Mas um velho d'aspeito venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

C'um saber só de experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:


95

—"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C'uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades você vivencia!


96

—"Dura inquietação d'alma e da vida,

Fonte de desamparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios:

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,

Sendo dina de infames vitupérios;

Chamam-te Fama e Glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana!


97

—"Que novos desastres você determina

De levar estes reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promessas de reinos, e de minas

D'ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? que histórias?

Que triunfos, que palmas, que vitórias?


98

—"Mas ó tu, geração daquele insano,

Cujo pecado e desobediência,

Não somente do reino soberano

Te pôs neste desterro e triste ausência,

Mas ainda assim, de outro estado, mais do que humano.

Da quieta e da simples inocência,

Idade d'ouro, tanto te privou,

Que na de ferro e d'armas te deitou:


99

—"Já que nesta gostosa vaidade

Vocês dois nutrem uma leve fantasia,

Já que à bruta crueza e feridade

Puseste nome esforço e valentia,

Já que prezas em tanta quantidades

O desprezo da vida, que devia

De ser sempre estimada, pois que já

Temeu tanto perdê-la quem a dá:


100

—"Não tens junto contigo o Ismaelita,

Com quem sempre terás guerras sobejas?

Não segue ele do Arábio a lei maldita,

Se tu pela de Cristo só pelejas?

Não tem cidades mil, terra infinita,

Se terras e riqueza mais desejas?

Não é ele por armas esforçado,

Se queres por vitórias ser louvado?


101

—"Deixas criar às portas o inimigo,

Por ires buscar outro de tão longe,

Por quem se despovoe o Reino antigo,

Se enfraqueça e se vá deitando a longe?

Buscas o incerto e incógnito perigo

Por que a fama te exalta e te lisonge,

Chamando-te senhor, com larga cópia,

Da Índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia?


102

—"Ó maldito o primeiro que no mundo

Nas ondas velas pôs em seco lenho,

Dino da eterna pena do profundo,

Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!

Nunca juízo algum alto e profundo,

Nem cítara sonora, ou vivo engenho,

Te dê por isso fama nem memória,

Mas contigo se acabe o nome e glória.


103

—"Trouxe o filho de Jápeto do Céu

O fogo que ajuntou ao peito humano,

Fogo que o mundo em armas acendeu

Em mortes, em desonras (grande engano).

Quanto melhor nos fora, Prometeu,

E quanto para o mundo menos dano,

Que a tua estátua ilustre não tivera

Fogo de altos desejos, que a movera!


104

—"Não cometera o moço miserando

O carro alto do pai, nem o ar vazio

O grande Arquiteto co'o filho, dando

Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.

Nenhum cometimento alto e nefando,

Por fogo, ferro, água, calma e frio,

Deixa intentado a humana geração.

Mísera sorte, estranha condição!"—


Canto Quinto


1

"Estas sentenças tais o velho honrado

Vociferando estava, quando abrimos

As asas ao sereno e sossegado

Vento, e do porto amado nos partimos.

E, como é já no mar costume usado,

A vela desfraldando, o céu ferimos,

Dizendo: "Boa viagem", logo o vento

Nos troncos fez o usado movimento.


2

"Entrava neste tempo o eterno lume

No animal Nemeio truculento,

E o mundo, que com tempo se consume,

Na sexta idade andava enfermo e lento:

Nela vê, como tinha por costume,

Cursos do sol quatorze vezes cento,

Com mais noventa e sete, em que corria,

Quando no mar a armada se estendia.


3

"Já a vista pouco e pouco se desterra

Daqueles pátrios montes que ficavam;

Ficava o caro Tejo, e a fresca serra

De Sintra, e nela os olhos se alongavam.

Ficava-nos também na amada terra

O coração, que as mágoas lá deixavam;

E já depois que toda se escondeu,

Não vimos mais enfim que mar e céu.


4

"Assim fomos abrindo aqueles mares,

Que geração alguma não abriu,

As novas ilhas vendo e os novos ares,

Que o generoso Henrique descobriu;

De Mauritânia os montes e lugares,

Terra que Anteu num tempo possuiu,

Deixando à mão esquerda; que à direita

Não há certeza doutra, mas suspeita.


5

"Passamos a grande Ilha da Madeira,

Que do muito arvoredo assim se chama,

Das que nós povoamos, a primeira,

Mais célebre por nome que por fama:

Mas nem por ser do mundo a derradeira

Se lhe aventajam quantas Vênus ama,

Antes, sendo esta sua, se esquecera

De Chipre, Gnido, Pafos e Cythera.


6

"Deixamos de Massília a estéril costa,

Onde seu gado os Azenegues pastam,

Gente que as frescas águas nunca gosta

Nem as ervas do campo bem lhe abastam:

A terra a nenhum fruto enfim disposta,

Onde as aves no ventre o ferro gastam,

Padecendo de tudo extrema inópia,

Que aparta a Barbaria de Etiópia.


7

"Passamos o limite aonde chega

O Sol, que para o Norte os carros guia,

Onde jazem os povos a quem nega

O filho de Climene a cor do dia.

Aqui gentes estranhas lava e rega

Do negro Sanagá a corrente fria,

Onde o Cabo Arsinário o nome perde,

Chamando-se dos nossos Cabo Verde.


8

"Passadas tendo já as Canárias ilhas,

Que tiveram por nome Fortunadas,

Entramos, navegando, pelas filhas

Do velho Hespério, Hespérides chamadas;

Terras por onde novas maravilhas

Andaram vendo já nossas armadas.

Ali tomamos porto com bom vento,

Por tomarmos da terra mantimento.


9

"Aquela ilha apartamos, que tomou

O nome do guerreiro Santiago,

Santo que os Espanhóis tanto ajudou

A fazerem nos Mouros bravo estrago.

Daqui, tanto que Bóreas nos ventou,

Tornamos a cortar o imenso lago

Do salgado Oceano, e assim deixamos

A terra onde o refresco doce achamos.


10

"Dessa forma, cercando uma grande parte

De África, que ficava ao Oriente,

Província de Jalofo, que distribui

Por diversas nações a negra gente;

A mui grande Mandinga, por cuja arte

Logramos o metal rico e luzente,

Que do curvo Gambeia as águas bebe,

As quais o largo Atlântico recebe.


11

"As Dórcadas passamos, povoadas

Das Irmãs, que outro tempo ali viviam,

Que de vista total sendo privadas,

Todas três dum só olho se serviam.

Tu só, tu, cujas tranças encrespadas

Netuno lá nas águas acendiam,

Tornada já de todas a mais feia,

De bívoras encheste a ardente areia.


12

"Sempre enfim para o Austro a aguda proa

Entramos no grandíssimo golfão nos metemos,

Deixando a serra aspérrima Leoa,

Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.

O grande rio, onde batendo soa

O mar nas praias notas que temos ali,

Ficou, com a Ilha ilustre que tomou

O nome dum que o lado a Deus tocou.


13

"Ali o mui grande reino está de Congo,

Por nós já convertido à fé de Cristo,

Por onde o Zaire passa, claro e longo,

Rio pelos antigos nunca visto.

Através deste vasto mar, finalmente viajo.

Do conhecido pólo de Calisto,

Tendo o término ardente já passado,

Onde o meio do mundo é limitado.


14

"Já descoberto tínhamos diante,

Lá no novo Hemisfério, nova estrela,

Não vista de outra gente, que ignorante

Alguns tempos esteve incerta dela.

Vimos o lado menos deslumbrante,

E, por falta de estrelas, menos bela,

Do Pólo fixo, onde ainda se não sabe

Que outra terra comece, ou mar acabe.


15

"Assim passando aquelas regiões

Por onde duas vezes passa Apolo,

Dois invernos fazendo e dois verões,

Enquanto corre dum ao outro Pólo,

Por calmas, por tormentas e opressões,

Que sempre f az no mar o irado Eolo,

Vimos as Ursas, apesar de Juno,

Banharem-se nas águas de Netuno.


16

"Contar-te longamente as perigosas

Coisas do mar, que os homens não entendem:

Súbitas trovoadas temerosas,

Relâmpados que o ar em fogo acendem,

Negros chuveiros, noites tenebrosas,

Bramidos de trovões que o mundo fendem,

Não menos é trabalho, que grande erro,

Ainda que tivesse a voz de ferro.


17

"Os casos vi que os rudos marinheiros,

Que têm por mestra a longa experiência,

Contam por certos sempre e verdadeiros,

Julgando as cousas só pela aparência,

E que os que têm juízos mais inteiros,

Que só por puro engenho e por ciência,

Vêem do mundo os segredos escondidos,

Julgam por falsos, ou mal entendidos.


18

"Vi, claramente visto, o lume vivo

Que a marítima gente tem por santo

Em tempo de tormenta e vento esquivo,

De tempestade escura e triste pranto.

Não menos foi a todos excessivo

Milagre, e coisa certo de alto espanto,

Ver as nuvens do mar com largo cano

Sorver as altas águas do Oceano.


19

"Eu o vi certamente (e não presumo

Que a vista me enganava) levantar-se

No ar um vaporzinho e sutil fumaça,

E, do vento trazido, rodear-se:

Daqui levado um cano ao pólo sumo

Se via, tão delgado, que enxergar-se

Dos olhos facilmente não podia:

Da matéria das nuvens parecia.


20