OS POBRES
OBRAS DO AUCTOR
| | Uma árvore : |
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| EU | -- | Historia d'um palhaço . |
| II | -- | Os pobres . |
| III | -- | Raizes (em preparação). |
| | Teatro : |
| | (De colaboração com Julio Brandão) |
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| A noite de Natal , drama em 3 atos, representou no teatro de D. Maria II. |
RAUL BRANDÃO
OS POBRES
Precedido de uma CARTA-PREFACIO
DE
GUERRA JUNQUEIRO
LISBOA
EMPREZA DA HISTÓRIA DE PORTUGAL
SOCIEDADE EDITORA
Livraria Moderna, R. Augusta, 95 | Tipografia R. Ivens, 45 e 47
1906
ÍNDICE
| Carta-Prefácio | V |
| EU. | -- | O enxurro | 1 |
| II. | -- | O Gebo | 9 |
| III. | -- | Como mulheres | 15 |
| 4. | -- | Ó Gabiru | 25 |
| V. | -- | História do Gebo | 35 |
| VI. | -- | Filosofia do Gabiru | 43 |
| VII. | -- | Primavera | 47 |
| VIII. | -- | Memórias de Luiza | 57 |
| IX. | -- | Filosofia do Gabiru | 63 |
| X. | -- | História do Gebo | 69 |
| XI. | -- | Luiza eo morto | 75 |
| XII. | -- | Filosofia do Gabiru | 81 |
| XIII. | -- | Essa rapariguinha | 87 |
| XIV. | -- | O escarneo | 95 |
| XV. | -- | Fala | 105 |
| XVI. | -- | História do Gebo | 109 |
| XVII. | -- | O que é a vida? | 113 |
| XVIII. | -- | História do Gebo | 137 |
| XIX. | -- | O Gabiru treslê | 143 |
| XX. | -- | Uma mouca | 149 |
| XXI. | -- | Ahi tem os senhores a natureza | 155 |
| XXII. | -- | Filosofia do Gabiru | 161 |
| XXIII. | -- | A outra primavera | 167 |
| XXIV. | -- | Uma morte | 173 |
| XXV. | -- | Uma árvore | 179 |
| XXVI. | -- | Natal dos pobres | 185
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CARTA--PREFÁCIO
Meu bom amigo :
O seu livro é uma história patética de uma alma. Qual? A do Gebo, a de Luiza, a de Sophia, a da Mouca, a dos Pobres emfim? Não. A sua. Histórias diversas, que se resumem numa história única: a da sua alma, transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia espiritual, dilacerada e furiosa, demoníaca e santa, blasfemadora e divina. Confissão verdadeira, plena, absoluta d'um organismo que sente a música misteriosa do universo, d'um coração que repercute a dôr eterno da natureza, mas que só ao cabo de oscilações, dúvidas e desanimos, coordena a idealidade do ser com as aparências do ser, o espírito com as formas, o Deus,--amor e beatitude, com a materia,--crime e soffrimento.Não vejo diante de mim um poema esteril, obra dos sentidos, da imaginação e da volúpia. Vejo um ato profundo, [VI]espontâneo, de imensidade religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. Não a confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca que tem dentes, para o ouvido que tem sombras. Não a confissão-análise, a confissão dos críticos, rol de inteligência, catálogo de ideias. Mas a esplêndida confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de eternidade e de mistério. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, ha lavadoedas ignoradas que dissociam as almas. E, se taes almas se desdobram, a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o infinito, e lembra-se; andará o infinito, e já o sonha. Quando o gênio explora, conta-nos a natureza a sua história. O gênio supremo é o santo. O verbo do santo, eis uma língua clara do universo.As confissões augustas são as dos poetas e dos santos. Nenhum homem vulgar a personalidade rígida encarcera e coalha as personalidades volateis e difusas. O imenso inconsciente não acorda, porque está, como um aroma, dentro de um bloco duro, impenetravel. É o sonho cativo num ovo hermético de bronze. As almas emotivas dos grandes visionários,essas conservam aquela graça radiante, aquela omnipresença espiritual, que as deixa embeber, mover, existir na fraternidade cósmica e divina. O sonhador dos Pobres é um evocador atormentado e religioso. Busquei no seu livro a imagem ardente de sua alma. Vamos ver se um desenho com rapidez e precisão.Alma vibratil e fugaz, olhando a natureza, o que sentiu? Assombro, esplendor, pavimento, enigma, deslumbramento. Tudo vive, deseja, estremece, palpita, murmura [VII]e sonho. Tudo vive, tudo vive: o homem, a féra, a rocha, o lodo, a água, o ar, braseiros de mundos, aluviões de nebulosas, incorporação genética do éter. Fervedoiro de vidas insondáveis, que o tempo não exgota, porque a morte criadora continuamente o desorganiza e reproduz em formas novas e diversas. E todos se cruzam, beijam, penetram, oferecem. É uma teia vertiginosa de fios sem fim, de fios moveis, ondeantes, cambeantes, urdindo-se a mesma, na eternidade impenetravel, sem ninguem ver o tecelão. Rigidez, solidez, inércia, não existem. Na fraga mais dura, no bronze mais compacto circulam desejos, dramas, turbilhões de moléculas e vontades. As cordilheiras inabaláveis são redemoinhos dentro de enxovias. O concreto dilue-se, o material evapore-se. O sol tombando, aniquilaria cardumes de planetas, e a lua do sol, que é sol volatilizado, pesa menos que uma folha de rosa na mão d'uma criação. Em cada bloco metálico latejam oceanos dormentes, de vagas fluidas, invisiveis. Acordem-n'os, e o bloco obtuso, eletrizado, irradia no éter. Vêde um penedo monstruoso: Parece firme. Desagregou-se, e é lama; a raíz tocou-lhe e é seiva; a seiva gerou, e é flor e é fruto; o fruto, alimento; o alimento de sangue; e o sangue vermelho, corpo que caminha, carne que fala, cérebro que pensa. Natureza! universo!... Vidas infindaveis eternamente circulando n'uma vida unica. Assombro, esplendor, pavimento, deslumbramento! O homem vacila, desmaia, quer equilibrar-se... mas onde, se não há terra em que poise, nem muro a que se encoste?! Tudo impalpavel, fugaz, incerto, ilusorio, ilimitado... tudo vida, tudo sonho, tudo desejo... Se baixa [VIII]os olhos do imenso ao grão d'areia, o grão d'areia, infinitessimo, resolve-se-lhe em vidas infinitas. Quer contemplar o universo, quer examinar um corpúsculo, a alma engolfa-se, estonteada, no mesmo abismo devorador e criador.Abismo de aparências ocultas, abismo de vozes que não ouvem. A natureza taciturna exprime-se magicamente, em línguas vagas, silenciosas. E quando n'um pouco de cisco murmuram mais vontades do que bocas humanas há na terra, o que não dirá o coloquio formidável de todas as vontades do universo! Cada organismo tem sua língua peculiar. Os que vivem mais próximos entendem-se melhor. O ar segreda à água, a raiz ao lodo, a luz à folha, o pólen ao ovário. Há fluidos que se casam, raízes que se querem bem. O oxigênio é íntimo do ferro, o azougue é íntimo do ouro. Os orbes fraternisam, os metaes amalgamam-se, e as electricidades sexuadas procuram-se avidamente, para copular!Matéria infinita, - forças infinitas, infinitamente caminhantes. E no pelago vertiginoso da mobilidade universal é cada átomo invisível um desejo que nasce, um desejo que sente, um desejo que fala...O léxico sem princípio nem fim, das vozes mudas do increado, das línguas tácitas da natureza, alguém o ouviu que se gravou? Alguem: o homem. Ó homem, crisalida do anjo, foi monstro e planta e verme e rocha e onda; foi nebulosa, foi gás impalpavel, foi éter invisível. Articulou todas as línguas, e d'elas conservam, obscuramente, vagas memorias dormindo. Por isso os poetas adivinham, e raros com a intuição prodigiosa do meu amigo.[IX]Abreviando: A sua alma, diante do universo, reagiu por três formas ou em três fases emotivas. Estudei a primeira,-- uma emoção dinâmica . O mundo resolve se n'um jogo de forças, n'um conflito de vontades, brigando, casando-se, transfigurando-se em aparências rápidas, ilusórias. Tudo se move, tudo quer e tudo vive.Mas o que é a vida? Chega na segunda fase. Deslisa da emoção dinâmica à emoção moral. Depois de ver o mundo através dos sentidos, julgue-o através da razão e da consciência.O que é a vida?A vida é o mal. A expressão ultima da vida terrestre é a vida humana, e a vida dos homens cifra-se n'uma batalha inexoravel de apetites, n'um tumulto desordenado de egoísmos, que se entrechocam, rasgam, dilaceram. O Progresso, marca-o a distância que vai do salto do tigre, que é de dez metros, ao curso da bala, que é de vinte quilómetros. A fera, a dez passos, perturba-nos. O homem, a quatro léguas, enche-nos de terror. O homem é fera dilatada.Nunca os abismos das ondas pariram monstruosas equivalentes ao navio de guerra, com as escamas d'aço, os intestinos de bronze, o olhar de relampagos, e as bocas hiantes, pavorosas, rugindo metralha, mastigando lavadoedas, vomitando morte.A pata pré-histórica do atlantosauro esmagava o rochedo. As dinamites do chimico estoiram montanhas, como nozes. Se a preza do mastodonte escavacava um cedro, o canhão Krup rebenta baluartes e trincheiras. Uma vibora envenena um homem, mas um homem, sosinho, arraza uma capital.[X]Os grandes monstros não chegam realmente na época secundária; apareça na ultima, com o homem. Ao pé d'um Napoleão um megalossauro é uma formiga. Os lobos da velha Europa trucidaram algumas duzias de viandantes, em quantos milhões e milhões de miseraveis cahem de fome e de abandono, sacrificados à soberba dos príncipes, à mentira dos padres e à gula devoradora da burguezia christã e democratica. O matadoiro é a fórmula crua da sociedade em que vivemos. Uns nascem para rezes, outros para verdugos. Uns jantam, outros são jantados. Há criaturas lobregas, vestidas de trapos, minando montes, e criaturas esplêndidas, cobertas de oiro e de veludo, irradiando ao sol. No cofre do banqueiro dormem pobres metalizadas. Há homens que ceiam n'uma noite num bairro funebre de mendigos. Enfeitam gargantas de cortesãs rosários de esmeraldas e diamantes, bem mais sinistros e lutuosos que rosários de guindastes ao peito de selvagens.Vivem quadrúpedes em estrebarias de marmore, e agonizam parias em alfurjas infectadas, roidos de vermes. Uma latrina de Vanderbilt guardava aldeolas de miseráveis. E, visto os palácios devorarem pocilgas, todo o boulevard grandioso reclama um quartel, um carcere e uma força. O deus milhão não digere sem a guilhotina de sentinela. Os homens repartem o globo, como os abutres o carneiro. Abutre maior, quinhão maior. Homens que têm imperios, e homens que não têm lar.Os pés mimosos das princesas deslizam lusentes d'oiro por alfombras, e os pés vagabundos calcam, sangrando, [XI]rochedos hirtos e matagaes. Bebem champagne alguns cavalos do esporte, usam anneis de alguns cães de regaço, e algumas criaturas, por falta d'uma codea, acendem fogareiros para morrer. Bemdito o óxido de carbono, que exala paz e esquecimento! É a natureza, insensível ao drama barbaro do homem! Guerras, ódios, crimes, tiranias, hecatombes, desastres, iniquidades, deixam-na tão indiferente e inconsciente, como o rochedo imovel, bulindo-lhe a asa d'uma vespa. O clamor atroador de todas as angústias não arranca um ai da imensidade inexoravel. A aurora sorri com o mesmo esplendor aos campos de batalha ou ao berço infantil, e as hervas gulosas não distinguem o podridão de Locusta da podridão de Joana d'Arc. Reguem vergeis com sangue de Iscariote ou com sangue de Cristo, e os lyrios inocentes (estranha inocencia!) desabrocharão, igualmente candidos e nevados.A humanidade, emfim, é a vitória dos arrogantes sobre os humildes, dos fortes sobre os debeis, da besta sobre o anjo. E tendo de escolher entre vencidos e vencedores, entre o amor e o ódio, o mal e o bem, o riso e as lágrimas, o seu coração misericordioso de poeta inclinado-se espontaneamente para a Dor, como as vergonteas para a luz.A dôr é o seu deleite. Busca-a, desejo febril!--por hospitais, por cadeias, por antros, por alcoices. Fareja-a de noite nos bairros leprosos, cloacas de humanidade, vasadoiros d'almas, onde crimes, virtudes, vicios, angustias, raivas, desesperos, fermentam promiscuamente, aglomerados e abandonados, como esterqueiras, como entulhos. Pesquisa dedalos caliginosos, cafurnas [XII]sem fundo, abismos hiantes, boqueirões de sombra. Explora desvãos, trapeiras, minas, covas, esconderijos. Louco de piedade, engolfa-se nas trevas mudas e soturnas, que gotejam sangue, nas roucas escuridões tumultuosas, pavidas de gemidos, cortadas de clamores, anavalhadas de blasfemias.E do amago d'essas noites insondaveis pululam turbas espectros de crucificados, hordas de monstros, bandos de misérias, cardumes de abominações e de agonias. Ullulam tropeis disformes e sangrentos, regougam fauces patibulares, chorom, coroadas de ulceras, Magdalenas lividas, bocas de escarneo crocitam sem dentes e sem pudor, arcajam ralas estorturantes, gemem creanças vagabundas, tossem tisicos, ardem febres, lusem gangrenas e podridões... E tudo vago, indistinto, confuso, n'um rumor longo e subterrâneo. Não se destaca, não se desenham as formas. Olhos, bocas, gestos, relampeando na sombra... Nada mais. A sombra voraz esbate as linhas e os contornos. É o mundo caótico da miséria, que a noite pútrida gerou e a noite soturna ha-de engulir... É o seu mundo, o mundo dos pobres, meu grande visionário, quase desconhecido e genial.Homens de gosto colecionam quadros ou estátuas. O meu amigo coleção dôr. Não em galerias ou museus, como quem se dedica ao estudo biológico das diversas formas de sofrer. Quando uma chaga aterradora o surprehende, não a invasilha num frasco, guarda-a no coração.Conta-lhe os ais, não os microbios. Em vez de analisar, decompondo-a, analisa-a beijando-a. Não seu [XIII]O laboratório químico existe apenas um reagente, que dissolve tudo: lagrimas.O poeta dos Pobres não é um romancista. A alma do evocador desagrega fluidamente as almas de sonho que ela evoca. Dir-se-hiam espelhos, brancos, verdes ou azuis, planos, côncavos ou convexos, refletindo todos eles um único semblante, que julgamos distintos, porque aparece deformado.Chamei aos Pobres uma confissão religiosa. Não há dúvida. Os seus pobres, meu amigo, são bocas de visões, articulando a alma d'um vidente. Falar a sua língua e contar-nos a sua história. Não a história, no minuto e na rua, do homem-sicrano, mas a história, no espaço e no tempo, do homem infinito, que vem de Deus e para Deus caminha.No drama dos Pobres há duzias de atores e um único personagem: o dramaturgo. As suas figuras não específicas, individualidades reais, caracteres verosimeis, logicamente arquitetados e definidos pelas inúmeras causas de existência, conglobados em duas ordens genéricas, - a herança e o meio. Os seus ladrões, assassinos e meretrises, não roubaram, não mataram, não copulam: sofrimentos. Sofrer, eis o seu senhor. Mouca, Luiza, Gebo, Golim,--pseudônimos. O nome real, o nome verdadeiro de todos eles é um só: a Dôr.Inevitável. Desde que o meu amigo rasgou as máscaras enganadas ao Universo, para ele descobrir a essência e a natureza íntima, e desde que a lei do Universo é o predomínio do mais feroz e do mais forte, toda a imensa humanidade, tumultuosa e vária, se resume logicamente em dois homens apenas: o algoz [XIV]e a vítima, o homem que sofre e o homem que faz sofrer. Os bons são os que padecem. A miséria, mesmo sinistra e delinquente, é já um princípio de virtude. Nenhum dos ladrões, nenhuma das prostitutas do seu poema resvalaram ao vicio ou ao crime por vontade própria, por fatalidade fisiológica. Obrigou-os à fome, calcou-os à injustiça. A sua infâmia e a sua ignomínia é a avareza ou a luxúria dos homens opulentos e devassos. Todos os ricos, ainda os caridosos, são perversos, e todos os miseraveis, ainda roubando ou esfaqueando, são criaturas boas, porque são vítimas dos primeiros. Os retratos dos bemfeitores do seu hospicio (pag. 59) parecem-lhe «uma galeria de afogados, todos solenes, ricos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.» E as alfurjas, cadeias e prostíbulos, onde se amontoam, n'um horror tenebroso, os vicios alucinados e os crimes exorbitantes, afiguram-se-lhe á imaginação misericordiosa como templos de angustias, santuários sagrados de tribulações e de martírios. É um flos-sanctorum da miseria, a dor do enxurro canonisada e sublimada.Mas se a lei da natureza é iniqua e feroz, visto os maus triunfarem e os bons sucumbirem, onde vem essa lei, quem a gerou, quem a impoz ao universo? Quer a creasse, com o universo, uma vontade alheia, quer ela seja imanente ao universo infinito, é, nos dois casos, uma lei monstruosa, negadora da suprema ideia do espírito do homem, a ideia do bem e da justiça. Contradição inexplicavel: A natureza é iniquidade, porque a lei que a rege assegura o domínio e a sobrevivencia do mais forte. Mas quem me leva a dizer que [XV]a natureza é iniqua? O sentimento do bem e da justiça, desenraisavel do meu coração e do meu cérebro. Logo existe também na natureza, pois que eu sou natureza, a lei do amor e da justiça, contraposta à lei da força e da violência. Se Cristo morreu na cruz, a natureza é o mal. Mas sendo a natureza o mal, como é que d'ella nasceu o mesmo Christo, afirmação de todo o bem?A ideia do bem e da perfeição, levada ao infinito, é a ideia de Deus. Mas como harmonizar o absoluto perfeito com a natureza imperfeita? Como fazer sahir a diversidade da identidade, o complexo do simples, o mal do bem, o universo de Deus?Chegamos à terceira e última fase do seu espírito: à fase religiosa, à emoção divina .A natureza desagregada em movimento, traduziu-se-lhe em dor e resolveu-se-lhe em amor. Movimento infinito, dôr infinito, amor infinito, eis os três rostos da natureza no espelho cada vez mais profundo de sua consciência, nos olhos cada vez mais abertos de sua alma. O dinamismo atômico do universo escuro-o,--pavorosa sinteze!--á dôr sem fim, á dôr universal. Viver é sofrer, e tudo vive, tudo sofre. Vida infinita igual à dor eterna, é uma descoberta matemática da natureza. Pandiabolismo, satanaz-universo. Um circulo infernal, hermeticamente inexoravel. Não há, pois, evasiva? Ah. D'esse inferno sobe uma escada de chamas tenebrosas, que vai ao purgatório, e do purgatório uma espiral de luz radiante, que nos leva ao céo. A dor, que se lhe figurou a essência íntima da vida e sua expressão única, não era, ao cabo, o substrato último da natureza, o fundo [XVI]irredutível do universo. A dor não era irredutível. A alma, vencendo-a, converteu-a em amor. Não há beleza esplêndida, que não fosse dôr caliginosa. A flor é a dôr da raiz, a lua a dôr das estrelas, e a virtude ou o gênio a dor ascendente do ether luminoso, cristalisando no homem, ao fim de um calvário inenarrável de milhões e milhões de séculos sem conta. A alma de Jesus proclama o triunfo da santidade sobre o crime, como o corpo de Vênus entoa a vitória da linha viva e musical sobre a linha inerte, a linha bruta e desarmônica. Bela de essência ou bela de aparência, virtude de Jesus ou formosura de Vênus, tem, ancestralmente, a inicial-as o mesmo horror e a mesma imperfeição. Do verbo odiar nasceu, evolutivamente, o verbo amar. Se o homem foi tigre, o beijo foi dentado. Toda a alegria vem do amor, e todo o amor do sofrimento. A alegria é o sofrimento amoroso, o sofrimento espiritualizado. Deus é, pois, o amor infinito, vencendo infinitamente a infinito dôr. E, vencendo a dor infinita, ela é uma alegria infinita, uma paz absoluta, uma glória eterna, uma bem-aventurança ilimitada. Deus sustente-se realmente, como diz o meu amigo, do sofrimento universal.Nos meus Ensaios Espirituais , ainda inéditos, eu exprimo inumeras vezes a mesma ideia. Quer ver? Destaco uma página:«Só a dor infinita produz o amor absoluto. Deus, amor absoluto, sustenta-se o sofrimento do universo. É uma luz eterna, alimentada por um incêndio eterno. Deus, amor absoluto, projete-se em dor [XVII]infinita da natureza. Para ser a perfeição absoluta, encarnou-se na imperfeição ilimitada do universo. Deus não se compreende sem universo. O perfeito vive do imperfeito, como a chama vive do combustivel. O mal é a condição do bem, o erro é a condição da verdade, o crime é a condição da virtude. O santo é santo, porque venceu o demonio. Sem o demonio, o santo não se compreende. Sem universo imperfeito não há Deus perfeito. Satanaz é uma das faces de Deus. Mais ainda: Satanaz é o corpo de Deus. Deus é Deus, isto é infinita perfeição, infinito amor, porque vence eternamente infinitas imperfeições e infinitas dores. Deus é a afirmação completa do Bem, pela completa e continua vitória sobre o mal. No instante em que o mal acabasse, acabava Deus. Deus não é ideia, pensar-se infinitamente: é ato infinito, amor infinito, a realizar-se pela infinita vontade na duração infinita . Eliminando o imperfeito, o perfeito evapora-se. Destruindo o relativo, destruímos o absoluto: o absoluto que fica é o absoluto não-ser . O infinito amor de semelhante Deus seria o infinito amor de si próprio, o infinito egoísmo . É como se quizessemos resumir a multidão dos números em um número único, infinito, eterno, inalteravel, o número absoluto perfeito, e realizamos a síntese da variedade numérica no absoluto do zero. Tudo igual a nada. Não! Deus é infinito amor, esforço infinito, atividade infinita. O universo é o corpo de Deus, é a carne de Deus. Deus é absolutamente perfeito na diversidade infinita, porque sem essa diversidade infinita não há, nem pode haver, a união suprema. Mas a síntese da vida é irrealizável na ideia de número e quantidade, na ideia concreta de [XVIII]matéria. Só na ordem moral se unifica absolutamente a vida variada do universo. As quantidades, traduzidas em imperfeições, os números traduzidos em egoísmos, são redutivos ao absoluto na ideia única de amor . Ahi o imperfeito torna-se a condição matemática do perfeito. Deus, amor absoluto, vive e sustenta se dos egoísmos infinitos, continuamente evoluindo para ela. Deus, beatitude eterna, vive e sustenta-se das dores infinitas do universo. Deus como corpo, como natureza, sofre infinitamente; mas Deus, espírito puro, Deus, amor absoluto, não sente dor, nem sofrimento. É a bem-aventurança e a glória eterna, porque eternamente triunfa dos sofrimentos eternos do seu corpo. O santo verdadeiro nos dá a imagem pálida de Deus. Deus é o santo perfeito, o Cristo absoluto e universal.»Adoramos, pois, o mesmo Deus, unificamos a vida na mesma síntese. Mas o autor dos Pobres não desvendou, ideologicamente, abstratamente, o segredo da natureza, a explicação religiosa e íntima da vida universal. Não a estudei como filosofo, descarnando-a, dissecando-a, até lhe descobrir as leis inalteráveis e recônditas da sua estrutura evolutiva. Não fez do cérebro um instrumento de visão, agudo e claro, gelido e penetrante, com elle interrogando, dia a dia, no sorvedoiro cósmico, o borbulhar infinitiforme da existência. Não mediu a vida a compasso, não a fórmula em teoremas ou equações. Viveu-a. O seu livro não é uma história dialética da razão de um homem, sistematisando e codificando a natureza. Não é uma história de um encefalo, desdobrada em ideias. É a história de um homem, [XIX]a história plena e formidável de um organismo inteiro,--da carne e dos ossos, do sangue e das lágrimas, das mãos que abençoam e que destroem, dos olhos que choram e que fulminam, da boca que resa e que tritura, da alma do lobo, que vem de Satanaz, da alma do anjo que se encaminha para Deus. Sim, a história universal de um homem, gemida e rugida, furiosa e candida, não para que o mundo lha ouça (então seria hipócrita) mas para que Deus lha escute, na eternidade e no silêncio. É uma confissão clamorosa, satânica ou celeste, das energias infinitas, evolutivamente amalgamadas e condensadas no mistério pavido d'um homem. O abismo insondavel, retrahindo-se, cristalisou n'um ponto; e esse ponto, adquirindo voz, confessou o abismo, revelou o insondavel. Almas inumeras se agrupam na alma sintética e central. Há em cada alma numerosas almas. É umas tão horriveis e loucas, que as escondemos para que as não vejamos, e outras tão inconscientes e profundas, que, habitando comnosco, as não chegamos sequer a conhecer. O poeta dos Pobres conheceu-as e confessou-as todas. Desde a mais clara á mais crepuscular e tenebrosa, irradiou-as todas plenamente, no estado nascente, ingênuas e vivas, sem ocultar uma única.O seu Deus não é o último termo de uma cadeia lógica de silogismos. Não o descobre pela razão, atinge-o pela emoção. O meu amigo não raciocina, isoladamente, com o encefalo. Raciocina de chofre e com todo o corpo. As ideias brotam-lhe espontaneas, como o sangue da fachada ou a flor da pressa. Palpitam de vida, mas vida viva,-no estado genético. Não falo, [XX]não discursamos, não discordamos. Gritam, uivam, ululam, gemem, resam, blasfemam. Ciclones d'ais, de orações, de imprecações, de furias, de lamentos. O meu amigo pensa, forma juízes, como as eletricidades formam raios.O seu Deus é a expressão da sua emotividade. Ou, bem no fundo, da sua moralidade. Só crê em Deus, só descobre Deus, quando em si, pela virtude, momentaneamente o realisa, ou tenta realizar. Se a espera e a paz ele existe no coração, a natureza resolve se-lhe em Deus, em amor supremo. Mas, d'ahi a instantes, o egoísmo invade-o, e não é já em Deus, é na química, que a explicação do mundo lhe aparece. Qual a fonte do ser, a razão da vida? É o acaso, é o apetite, é o amor, é Deus ou Satanaz, conforme as horas ou os dias conforme o equilíbrio instalado da sua carne e do seu espírito. Logo de começo, nas páginas 29 e 30, defina Deus abrazadoramente n'uma língua de chamas, n'um paroxismo de dor e de misericordia, n'um extase candente e lagrimoso, tão fervido e tão lúcido, que arrebata e deslumbra. Fulgiu-lhe subito, no amago da alma, a verdade da vida. A vida é um calvário. Sóbe-se ao amor pela dor, à redenção pelo sofrimento. Cristo é um redentor humano, Deus o redentor universal. É o ser infinito, porque é o amor ilimitado. É a natureza tenebrosa, vista de Deus, divinisou-se por encanto. Guerras, lutas, crimes, catástrofes, desordens, evaporam se e fundem-se em harmonia mágica e perfeita.Mas logo adiante, nas páginas 42, a natureza, divinizada, reverte e regressa à sua forma demoníaca, de matéria bruta.[XXI]«Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre, que sonho!»Do altruísmo absoluto, do amor absoluto, que é Deus, retrogradou ao individualismo anarquista, ao egoísmo feroz, que é Satanaz. Do polo positivo saltou ao polo negativo. Entre os dois polos, entre o bem e o mal, entre Deus e o Diabo, vai oscilar e flutuar a sua alma, ora aproximando-se de um, ora aproximando-se do outro, ora imobilisando-se quase, pelo hausto indutivo das duas correntes antagônicas.Tal um Christo, penosa e religiosamente escalando o calvario, e que, a meio da encosta, varado de dôr, esvahido o animo e evolada a fé, arrojasse a cruz dos hombros, exclamando n'um impeto: «Basta! Se o caminho do céo é um martírio abrupto, uma inferneira ingreme, desisto do céo e volto para traz para o conchego do meu lar, para a ternura de minha mãe, para o afeto dos meus parentes e meus irmãos. Antes risonho e feliz, junto do meu pae humano, que é carpinteiro, aplainarmos cruzes, do que, morto e crucificado, na glória infinita do meu divino Pae celestial!»E assim blasfemando, retrocederia na encosta do sofrimento e da amargura, para já lá no fundo, voltar a subil-a novamente, a cruz nos homens, com maior fé e maior ancia.O seu poema é a história da escalada trágica do seu calvário. Mil vezes o meu amigo tomou nos homens a cruz do dôr e da paixão, e outras tantas a deixou cahir, exausto, com ais de desanimo, ou a sacudiu exasperado, cuspindo invectivas no lenho duro do resgate. Mas por fim, sangrando e chorando, galgou a [XXII]montanha do erro e do sofrimento. Chegou a Deus, e em Deus ficaram imoveis e serenos os olhos tristes da sua alma. Polarisou-se em Deus, de vez e de vontade. Livre, emfim! Libertou-se.Não volte ao servidão, à escravatura negra e demoníaca. Mantendo-se livre, a obra d'hoje, patetica, mas angustiosa e desigual, a obras futuras, vastas, claras e radiantes, servirá de entrada e de prefacio. A arte vale mais ou menos, segundo a porção de amor que abrange e que revela. A arte soberana é a que conjuga a natureza toda, -homens e monstros, águas e árvores, pedras e nuvens, soes e nebulosas, com o verbo infinito e perfeito, o único verbo criador, que é o verbo amar. O universo atômico, particulas inumeráveis e vagabundas, fraterniza em Deus, unificado n'uma só alma e n'um só corpo.Resar o universo é polarisal-o no infinito amor. Cantar não basta. Resar é mais. Resar é o superlativo divino de cantar. A oração é a canção angelisada, a canção chorada e de mãos postas. O universo absorve a, compreende-a. Ouve-a Deus, os homens escutam-na, e as ondas, as águas e os rochedos, vagamente a percebem, como um halito amigo, uma caricia branda e luminosa. Rese todas as dores, pobresas, misérias, lutos, sofrimentos. Rese o lodo e o sangue, o ninho, o covil, o hospital, o carcere, a enxovia, a terra trágica, ulcerada de mortes, e a noite côncava e funebre, ulcerada de soes e de nebulosas. Rese a dôr, mas rese também a alegria, que é dôr vencida e desbaratada pelo amor. Rese o triunfo do amor, a alegria ascendente da natureza, a marcha épica da vida pelo caminho [XXIII]eterno, que não tem fim. Rese chorando, mas lágrimas fecundas, que fazem parir a terra, palpitar o seio e germinar a semente. Lágrimas d'aurora, orvalho vivo e criador. Resar e chorar, mas heroicamente, na ação e na luta, no mundo e para o mundo. Resar, como Nuno Álvares, entre o fogo ardente da batalha. Enganam-se os que vão para Deus, voltando as costas à natureza. Quem quer salvar, há de salvar os outros. Quem renega a natureza, renega Deus. Um ascese egoísta, eis o ateísmo verdadeiro. A imobilidade é sacrílega, a escuridão é sacrílega, o silêncio é sacrílego. A vida é som, é luz, é movimento. A vida marcha por abismos, trágica e formidável, mas ruidosa e simfônica, vestida de luz e de mil côres. Amortalhal-a de negro, arrancar-lhe a língua, para que não cante, e os olhos, para que não deslumbre e não dêdeje, é como se lhe cravassemos no coração uma facada sinistra. O quietismo beato, apagando o universo, apaga Deus. Quietismo e niilismo, - dois zeros, dois sinônimos. O frade católico, na concha da mão, exangue e paralítica, sustenta uma caveira. É o nada olhando o não ser. O monge ideal, na dextra poderoso, em vez da caveira, tem um globo de ouro constelado. Tem o universo. É o monge futuro.Seja elle o tipo a que se encaminhe, embora de longe, a nossa fé e a nossa arte. Resemos, vivificando e sublimando. Arte criadora, que seja pão e seja luz.Se nos acusarem de hipócritas, deixa-os acusar; mentem. E a mentira só aos mentirosos prejudicados. Se nos amesquinharem a fama e cercearem a glória, desviando de nós as multidões, que não pensam e vão para [XXIV]onde as levam, melhor. Os que nos querem, os que nos amam, os que nos entendem, ficarão comnosco. Os outros, deixando-nos, prestam-nos favor. Lezam-nos sómente na vaidade, que é vicio ruim, grama que custa a deitar fora. Portanto, melhor. E se nos insultarem e injuriarem, melhor. E se nos perseguirem, melhor. E se nos apedrejarem e ensanguentarem, melhor ainda, muito melhor. Quando a alma, ao termo de mil hesitações e desenganos, cravou as raízes para sempre n'um ideal de amor e de verdade, pódem calcal-a e tortural-a, pódem-na ferir e ensanguentar, que quanto mais a calcam, mais ela penetra no ideal que busca, mais ella se entranha no seio ardente que deseja.Seu amigo e camarada cordialíssimo1902.3
Guerra Junqueiro.
OS POBRES
EU
ENXURRO
Vem o inverno e os montes pedregosos, as árvores despidas, a natureza inteira envolve-se numa grande nuvem úmida que tudo abafa e penetra. As coisas dil-as-heis recolhidas e cismáticas.É como um rôlo misterioso e profundo que vem de um mar desconhecido. E a chuva começa. É um ruido doce o da chuva. Faz sonhar em tantas coisas idas e tristes! Primeiro a terra imbebe-se e incha. E, depois de cheia, a torrente jorra até polir as pedras: ara na terra, põe raízes à mostra, arrasta n'alluvião o húmus, as folhas secas das árvores, os cadáveres dos bichos, os detrictos desagregados das rochas, que rolam juntos, dispersam e reune, atira, entre a baba da água, para um destino ignoto.Assim é a vida. É um rio de lágrimas, de brados, de mistério. A onda turva põe as mais fundas raízes á [2]mostra, a torrente leva comsigo de roldão a tristeza e o riso; sem cessar carreia este terriço humano para uma praia, onde as mãos esqualidas dos que soffreram encontram emfim a mão que os ampara, onde os olhos dos pobres, que se fartaram de chorar, ficam attonitos diante da madrugada eterna, onde todo o sonho se converte em realidade...Vêde... É noite. A ventania redobra e nas lufadas que passam por gritos, catástrofes, lamentos. Sou pobre e transito e nada sei da vida, mas sou um príncipe. De que terra? direis.--Do sonho. E assim não é predio revolvido me quédo, sósinho e triste, a escutar... Ouço um rio que os mais não sinto. Cada criatura nascida traz comsigo uma fonte, fio de água umedecendo a frincha d'uma pedra ou levada impetuosa e aos jorros. É ela que tira a vida em sua segurança. Em certas criaturas pobres e simples quase se ouvem essa água correr e tão amorosamente, que dá vontade de nos chegarmos à sua sombra. É emoção. Minae, não deixeis seccar: se finda torna-se a vida como os andares sequiosos.N'este casarão onde móro a toda a hora se ouve o ruido da levada; corre sempre como as torrentes desordenadas e esplendidas. Escutae!... Préga o inverno bravio, o vento e os aguaceiros passam, mas escutae, escutae!...São meus visinhos, lá em baixas mulheres perdidas, ao pé de mim dois casados, e na trapeira um gato pingado, a quem chamam S. José. As mulheres passam [3]ás vezes na rua, com chales púrpuras a rasto; o gato pingado só sahe à noite, à hora dos morcegos. Mais tímido que eu, encontro-o nas escadas a tossir, com o peito escalavrado e rôto.Para que viva esta ralé? Levantem-se derreados, para cavar, para berrar, para que eles considerem um pedaço de pão e só se deitam no sepulcro. Caminho sem sonho. Da vida coube-lhes este quinhão amargo: o cansaço, a humilhação e a fome.Se passa pelas árvores, num dia de primavera, tão lindo, que até as próprias macieiras de comovidas se vão desentranhando em flor, sabeis o que acontece? As árvores retrahem-se, as coisas chamam-se ao vel-os passar cobertos de suor, calcados e gastos. Para que é que eles vivem aos gritos, ofendidos, ralé, pedras, sapos? para que é que Deus os cria?O gato pingado... Eil-o que sobe. Cada passo me lembra uma pázada de terra. É soturno este homem, esguio e magro, com o chapéu alto embrulhado no lenço do rapé e a casaca dobrada no braço. Nunca fale. Estou mesmo em dizer que não penso, este avejão que só sahe para os enterros. Deve ser máo, deve ser duro: nunca decerto chorou. Os garotos apedrejam-n'o quando ela passa pela rua, esguio, vesgo, de chapéu alto e casaca, palhaço rígido da morte, que em logar de gargalhadas toda a sua vida ouvisse lagrimas. Aposto que, quando arrancam as casas os caixões como quem arranca o coração dos vivos, ao ouvir gritos, tem um riso interior, jubilo de quem está farto de viver só, arredado, humilhado... Gato pingado! gato pingado! [4]Vive de lágrimas, sustenta-se de dores. E quando vai, de tocha accesa, esguio, a galgar atraz d'um carro funerário, na reles mascarada, em que irá ela a pensar, esbaforido e triste?....Outros... Casaram ha muito. Chamam-lhe a Rata. Pobre e sem mãe atiraram-n'a um dia para um colégio de órfãos, onde cresceu entre maus tratos. Riam-se d'ella. Era um aborto que cresceu por caridade. Passava a vida na enfermaria e os médicos--acho que de proposito--livraram-n'a da morte, para que depois sofresse.Encontro-a nas escadas, com as botas do homem, os cotovellos rôtos, e magra e desleixada que faz piedade.--O melhor tempo que eu vivi foi o da enfermaria. Havia lá uma Irmã que me beijava e fazia festas...Mais felizes são os cães vadios, mais felizes, incomparavelmente, são as árvores.Ó homem desanca-a. Chega a casa e bate-lhe, faz-lhe tratos. Se ela chora e se queixa desanca-a mais. E agora, como ella não dá palavra e só pensa:--Antes eu fosse para criar de servir!--elle quer que a Rata grite e chore.Antes tu fosses para mulher da vida, digo-t'o eu!...Esta manhã aparece com os olhos inchados e pisaduras na cara. O vestido já lhe não serve. E como está frio, reparei, traz os pés mettidos nos sapatões do marido, sem meias e roxos. Aprende na vida, soffre! Nada te valerá. Até a morte, até que você acabe de matar com maus tratos. Às vezes, se elle sahe, [5]põe-se à janella, a scismar na Irmã, que, quando cahia doente, lhe dava beijos, lhe fazia festas--e pergunta-se:--Porque não morri então?....Calla-te e soffre. E até à morte, até o teu pobre corpo cahir exausto, moido, negro de pancadas. Assim será irremediavelmente, inexoravelmente.Este velho que pára nos patamares das escadas, gordo e molle, de cabelos brancos estacados, é o Gebo. Todo curvo, olha-vos com um olhar aguado e tonto.--Ó Gebo!E elle, erguendo o carão aflito:--Anh?...E como este, outros assim. A toda a hora vai o enxurro humano polindo as pedras. A ventania açouta o casarão e passa, levando poeira de cisma, ais, para outro mundo ignoto. Com a noite a vida redobrada. Eis uma transmissão feita de território, de criaturas tendo arrancado a máscara: certos homens são sonhos, outros dil-os-heis gritos. Põe-se o Gebo a contar a sua história, surge o Corsário, uma velha trágica, com o caio dos palhaços, o Astronomo, um sabio hirsuto, o Gabirú, philosopho esguio e hirto como uma taboa, que tem descoberto mundos e ignora as coisas mais simples d'esta vida. Remexe n'um brazido de ideias e nunca olhou cara a cara a existência. Anda attonito na rua, perdido num mundo que descobriu prôa do seu barco como um navegador. No subterraneo do predio mora--ha quantos annos?-- o homem do pacho , de [6]quem nunca sabe a história. Emparedou-se. Odeia a luz: essa poeira azul, que imbebe os seres e as coisas, março, a árvore, a vida tumultuada e larga como um rio, nunca mais a viu. Está vivo n'um tumulo: só as paredes esbrazeadas, á força d'elle sonhar, a rubro como as pedras d'uma forja, conheça a sua história. Para no patamar o Gebo contando o que sofreu aos pobres que o querem ouvir. Muitos fazem roda e elle, picaro, desata a chorar e narra pedaços d'uma triste existência de humilhação e de esmola, sempre esbaforido e escorraçado, a filha a sustentar, o desprezo do mundo, as suas correrias, desorientado e com lagrimas, atraz do pão para os seus. E termina sempre:--Tenho pena de ter sido honrado...A ventania présaga aumenta, abalando o Predio. De que é construída uma casa? De pedra. Todo o globo é revolvido para abrigar o homem. A árvore e a ossada da terra são arrancadas para o servirem. Juntem a isto gritos. De pedra, de árvores e de gritos para construir o Predio. Juntem-se a isto sonho, que transforma as coisas. Um gritava nos subterrâneos, outro de tanto sonhar empoeirára d'oiro o granito negro. De forma que toda a casa gasta, amolgada, revolvida, tinha tomada alguma feição de aquelas existências. É a habitação do Gebo, das prostitutas, do Gabiru, do Pitta. Escana-se o portão, cahem-lhe os telhados, mas se, em cima, nas mansardas arrombadas dá de chapa o sol, acredital-a-heis a cismar, a cantar. É efetivamente de pedra – e de sonho.[7]Chove, mas em torno da terra árida, não tem água nem plantas.Só uma árvore cresce n'aquelle solo infecundo. Sustenta-se de dor. As suas raízes foram minando até o Hospital, construído em frente da casaria, para açucarar a vida dos pobres. Se um raio de lua, escoado pelas nuvens, a toca - eis um fantasma de árvore todo de pó de luar.Quédo-me sósinho nas noites estiradas, ouvindo este enxurro vivo. Muitas vezes são lágrimas que correm ou emoção que brota com o ruido de um fio de bica cheio de cintilações e rumores. O cahir de lagrimas é sempre d'uma tristeza pacifica... Na noite negra o Hospital entaipa a cidade: árvores, nóras humedecidas, donde sahe a frescura do chão, montes solitários, parece que os prohibe aos infelizes: como um velho sumidouro espera, guarda, construído de pedra e n'um brazido por dentro, todos os que soffrem, santos, pobres, mulheres perdidas e heróis.Ó Pitta, embrulhado no seu chalé-manta, murmura às vezes ao contemplal-o:--A misericordia humana constroe d'estes castelos, para que os ricos não assistam ao sofrimento dos pobres. E fal-os de pedra, de granito bem sólido, para que não se ouçam os gritos cá fora.II
O GEBO
Heis de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabelos brancos estacados e um ar de aflição que faz riso e piedade. Tomba ás vezes na rua, levanta se, e, todo enlameado, olha p'ra os lados e chora; depois caminha esbaforido. Parece que vai gritar, esse ser molle e gordo, de cabelos brancos estacados, e, de subito, baixinho, pede-vos esmola. Tem um riso de humilhado e o aspecto d'uma bola de sebo - de cabelos brancos estacados. É o Gebo. É um gebo por ser picaro e rôto e por a desgraça o ter calcado aos pés até o tornar ridículo.Triste existência sem ódio e sem gritos. A vida não n'a entendia e a cada empurrão tinha um ar espantado e aflito de quem não compreendeu. O que mal fazer? que mal fazer? Pois a desgraça faz rir? o sofrimento faz rir?[10]E em torno das boccas escancaravam-se, ao verem-n'o gordo, pedinchão e desgaste.As peores ruinas resumem-se n'esta secca frase - ser infeliz. Ha seres que nascem com uma sina – amargar a vida. Tudo lhe corria tôrto, até as coisas mais banaes e mais reles, as coisas que para os outros nem mesmo existem, e ela punha-se a olhar para a tristeza, atarantado e estupido. O que mal fazer para sofrer?Além de infeliz, este homem fôra sempre picaro: assim no globo passam existências ignoradas de sofrimento e de retenção, que não deixam o mais simples vestígio, como os veios de água escondidos e que não emtanto são a vida da terra.Mesmo posto a chorar, a sua máscara, de cabelos brancos estacados, fazia rir.Sempre a suar, quase sem saber gritar nem saber reclamar-se, o Gebo tinha um coração igneo. Era d'estas criaturas a quem um monte de desagradáveis torna ainda mais ridículas: a ruina, a quebra, a miseria, a fome. Enlameado pela vida fóra, resignado e chorão, elle ahi vae...--Ó Gebo!E todos se riam ao vel-o chorar d'aflicção. Diziam uns:--Que não fosse tolo!--E os pobres, a quem elle tanta vez valera, gostavam de o vêr calcado e humilde como a terra dos caminhos. Qual é a razão porque a desgraças alheia consola a nossa própria desgraça, dizem-me?...A tresuar, afflicto, depois de espesinhado, ainda esse sêr molle e gordo, aos quarenta anos, cria na existência como as arvores e as creanças crêem.[11]Em que hora aziaga encontrou a má sorte que nunca mais o deixou? Ha criaturas em quem a desgraça se escarrancha no cachaço, e é p'ra sempre! p'ra toda a vida! Nunca mais tão longo. Viera a quebra, aflições sem conto, ainda mais negras que o coração dos outros. Enganavam-n'o, com a alegria do verem rebaixado e perdido, empurrão d'aqui, empurrão d'acolá, aos tombos por esse mundo.Era casado com o Gebo e tinha esta felicidade: uma filha. Oh uma filha!... Uma filha sempre prende a existência! uma filha pequenina sempre tem nas mãosinhas uma força!Assim esse velho ridículo e gordo também está fora feliz. Era d'estes lares apagados e sumidos, onde a vida corre com a monotonia de uma fonte, sempre igual e pronta a apagar todas as bocas sequiosas. Uma casinha velha, um quintal com seis árvores, um fio rumoroso d'água e as janelas abrindo para a sombra amiga das fruteiras. Alli era uma felicidade. Dão-nos as árvores toda a sua sombra: nunca nos enganam.Muito tempo mentira à mulher, que ia vivendo iludida. Ria o Gebo em casa, com o coração torcido, para que elas fossem felizes mais algumas horas--ultimas horas tiradas à tristeza. Até que um dia succumbiu:--Eu não te queria dizer... Mas ó mulher! ó mulher!...--Que é? o que foi?--Estamos perdidos, estamos perdidos...--Perdidos?!--Sim, vamos... E agora? agora? Ninguem-me [12]vale, ninguém se importa. Tenho pedido, tenho andado... e já não posso! Estamos perdidos, mulher!...--Estamos perdidos?--Sim...--Tu é que tens a culpa, não tens mesmo finura nenhuma. Riem-se de ti. Todos te enganam e ainda por cima se riem de ti. E você, vai!... O que você quer? Que ha-de ser de mim e da pequena? Nós temos culpa das tuas tolices, das tuas desgraças?...--Não, mulher, não, bem sei...--Anda!E ela voltava, todo o dia corria esbaforido, até que uma noite a mulher viu-o entrar, sem chapéu, enlameado, exausto--e de cabelos brancos estacados. A ingratidão embranquecera-o. Era ao crepúsculo. Tombado, como uma bola de gordura, tremia abalado pela dor, monologando baixinho:--Oh a minha filhinha!... E todos se riram de mim, todos!... Ninguem se importa. Quem quer saber da desgraça dos outros? Ai minha filha!Começou uma vida desorientada e feroz. Parecia que de todos os lados havia vozes a clamar, a escarnecel-o:--ó Gebo! ó Gebo!--Nunca mais houve paz na terra para elle: mesmo no seu lar tinha certo a toda a hora os ralhos da mulher desvairada e as lagrimas silenciosas da filha. Oh, essas horas férreas em que olhar em torno perdido e só vira seguro e risos! essas horas tinham-lhe deixado suor d'aflicção para o resto dos seus dias. Tudo se arrazára. E curvava-se sob as palavras da mulher, amachucado, sem forças para luctar, quebrado pelos desenganos e pela indiferença dos outros.[13]--E agora? agora? perguntava-lhe ella.E elle cahido:--Agora não sei... Agora morremos todos à fome.Batera em vão a todas as portas, aniquilado, sem ideias e sem forças. Só sabia chorar, molle e grotesco, emquanto a mulher, que a sapatos seccára, lhe atirava impróprios, gritos:--Mas levanta-te! procuro! salva-nos!E Gebo! E ela lá sahia, tornava aos amigos, pedinchão, desnorteado, atraz de emprestimos, de demoras, trocando as palavras e desatando de subito a esbracejar com gritos e soluços.Heis-de tel-o encontrado esse velho gordo, de cabelos brancos estacados, aos empurrões na vida e com um ar de aflição que faz riso e piedade.--Ó Gebo!--Anh?--Conta!E elle logo, em palavras rôtas, precipitadas, bebendo as lagrimas:--Ó Senhor!... Tanto tenho andado e tanto tenho soffrido! Quanto mais faço peor, inda é peor... E já não posso mais... Acabou-se! Só Deus sabe pelo que tenho passado, as desgraças que tenho rapado e as aflições, para arranjar ao menos o triste pedaço de pão para a bocca... O peor é d'ellas. O meu coração estala, tanto tenho soffrido. Trago a noite cá dentro. O que você faria? Curtir a desgraça. Ei? Tenho pena de ter sido honrado...E fica com a boca aberta, chorão, de cabelos brancos estacados.III
AS MULHERES
Ao vir a noite põem-se as prostitutas a cantar; entre as pedras resequidas e o ruido humano põem-se as prostitutas a cantar. São pobres, tristes, seres de descalabro e piedade, lama que o homem gerou de propósito para o goso. A treva leva e dispersa essa toada em farrapos, flocos de tristeza, que são como a alma, a aflição da noite, a soluçar. Noite... Andae, vinde, remorsos, sonhos, soou a vossa hora! Os blocos negros constroem uma cidade. Há ainda clarezas esparsas, nebulosas, que a Sombra chamada, a tactear, de subito affoga sem boato. E d'entre as meias portas surgem fisionomias como só o remorso as cria: dirieis, de tristes e cansadas, que se vão diluir como as das mortas.É a hora do gato pingado descer as escadas a passos cavos, do Gebo contar sempre a mesma história desconnexa, dos pobres sahirem à procura de pão.[16]No escuro as mulheres falam para se esquecerem. Ás vezes somem-se as boccas e da treva rompe aquella voz de tragédia, como se a treva falasse, ao que d'um canto a escuridão responde:--Ó tu!...--Que é?--Lembrou-me agora uma coisa.--O quê?--N'esta vida sabeis o que há de ruim? É nem a gente poder estar triste.--Ahi começas tu...Lento e lento, a noite que cahe as affoga e na escuridão sente-se pairar a Desgraça... Callam-se e depois a mesma voz começa:--Vem um e quer que eu me ria, vem outro e quer-me triste. Quem entra que é importante?--E então?--Nada. Mas inda assim olhae que é triste a gente não poder ao menos lembrar-se...--De quê?--Do que lá vae...--Melhor é a gente não se lembrar do que passou.--Tomára eu ser como morta--afirma outra voz.--E você?--UE? Tu falas p'ra mim?--pergunta uma magra surgindo do escuro.--Tomára eu não ter memoria, p'ra não tornar a vel-a, como quando a vi estirada no caixão, por vê de mim...--Quem?--Á minha mãe.--Ah!...[17]--Pois é...--diz a primeira voz--N'esta vida a gente não se deve lembrar. Toca a cantar meninas... Cantae!E as mulheres continuam a cantar, n'uma toada esfarrapada, d'uma tristeza imensa. Depois calam-se e uma torna a falar. Dizem sempre as mesmas palavras, mais para fazer em ruido do que para que as ouçam. Ha uma que ri de tudo. É magro, pálido e gasta. Traz um pacho negro n'um olho e ri sempre, com um ar de rímel, de si, das outras, de todas as suas desgraças.--Eu sou a Mouca--começa ella ás risadas.--A minha mãe deitou-me fóra era eu pequenina, e eu, se teve uma filha, botava-a á roda p'ra ganhar a vida. Tomaram conta de mim os ladrões, cresceu na rua e a minha cama eram as pedras dos portaes... Tomaram conta de mim os ladrões. Vidas! vidas!...--Tu não te calarás!--Em pequena andei todo um inverno com uma camisa rôta. Até foi bom, agora não sinto frio. Depois moeram-me. Você não quer saber? Calçavam-me aos pés por nada. Aprendi. Muito custa a levar a vida... Aos treze anos um ladrão me desfrutou. Era um velho careca que parecia um S. Pedro. Chamavam-lhe o Lesma, vocês hão-de ter ouvido falar. A gente só aprende à sua custa. Vidas! vidas!... Eu sou feito de terra, da terra que todo o mundo piza, mas também já tenho calcado. Elle ha desgraças peores, eu sei que ha. Já vi gente morrer por não ter uma codea p'ra a bocca. Olha que eu conheço os desastres. Tenho-a encarado... Faz mal quem se [18]abaixa... Um dia a gente põe-se a gostar de um homem e inda é peor. O que você faria? Todos temos de nos sujeitar, todos somos o mesmo, as ricas e as que não têm uma sede d'água. O peor é quando se começa a gostar de um homem...Você sabe o que é o amor? O amor é cada qual é como um cão. É a gente ser menos que nada e eles serem tudo. Ahi tem o que é o amor. Elle a bater-me e eu a dizer cá commigo:--Tu que me bates é porque gostas de mim...--Ahi têm o que é o amor, é a gente ser menos que um cão... Eu escrava, elle o senhor. Acabou-se! todos temos de sofferr.--Todas. Não há nada pior do que nascer mulher.--Eu nunca tive sorte. O que me importava para mim que ela me batesse? Punha-me a olhar p'r'as nodoas do meu corpo e a dizer cá por dentro:--Este é meu amigo.--Um dia partiu-me um braço, mas a gente é como os cães, que só ama d'um dono que dá dê pontas. O pior foi que ela me botou ao desprezo. Os homens são todos o mesmo... Vidas! vidas! Um dia disse-me:--Estou farto de ti.--E sabeis? nunca mais falei p'ra mim. Ai, quanto mais se pena p'r'amor d'um homem mais se lhe vem a querer!--Mas deixa-me gostar de ti...--Vae elle disse-me:--Fóra!--E eu fiquei passado. O meu comer eram lágrimas. E bebia a toda a hora para atormentar uma dor que se me pozera no coração. Mas ela vem! elle torna!... Qual!...--Como se chamava?--O que você importa? Não é bom alumiar os mortos. Deixae estar quem está quieto. Ah, se vós o visseis mortos como eu vi!... Ver morto um corpo que se teve [19]nos braços é como ver no caixão um filho. Por mais que a gente grite não lhe dê vida! Trazia sempre no coração a mesma dôr... Vae uma vez vesti-me socegada e fria como defunta e fui ter com ela.--A que vens? disse ela. E eu disse-lhe:--A servir-te.--E ri-me.--Já sei que me não podes ver, acabou-se! não me importo. O que te peço é que me deixes servir-vos. Venho ser sua criada.--Elle poz-se a rir. Depois veio ela e eu puz-me a rir também.--Venho ser vossa moça, quanto me daes de soldada?--Elles cochicharam.--Onde vocês pozerem os pés ponho eu a bocca. Aqui estou, aqui me têm.--Elles riram-se de mim.--Anda escrava!--Vae eu e ria-me.--Que quereis de mim?--Rua, escrava!--e eu ia-me embora. Um dia peguei e dei-lhes rosalgar a comer. Comeram-não. Então, quando o vi morto, puz-me a rir, a rir, que era uma dor do coração. Levaram-me em braços. Na cadeia me chamaram a perguntas e eu só me ria. Já me doia a cara de tanto rir e via-o sempre morto a meu lado.--Porque o mataste? E eu desatava a rir-me... Aqui têm, cada qual cumpre o seu fado. Todos temos de nos suster e de soffrer. Eu sou a Mouca--terminando as risadas.Aquela porta aberta para a tragédia e para o escarnecedor fica em frente ao Hospital. As mulheres dos ladrões e dos soldados moram ao pé da dor. As paredes são negras e úmidas: mãos ao roçarem-nas deram-lhes aflição, gritos abalaram-nas. Acredita-as-hieis construídas do mesmo sonho e da mesma pedra de que é feita a vida.[20]Lá dentro, a uma luz enfumaçada e oleosa, as mulheres expõem-se como farrapos d'adelo ou mascaras: direis retratos feitos a tesouro d'aflicção, tanto desespero resumam as boccas que gargalham. Duas á porta espreitam, uma cisma com a fisionomia petrificada, d'imbebida em magoa, outra canta, e a patroa gorda e desdentada, calcula o ganho. É dura, espremida, de feições crueis e coleras subitas. Ás vezes prega-lhes horas e horas:--O amor sabe a zinagre. É peor do que a morte... Não no queiram, ouviram?--A senhora fala! fala!... Bem triste é achar-se a gente sósinha no mundo,-diz uma derreada e tisica.--E ter o quê? Escarneo, só se fõr...--accrescenta outra.--Eu de mim, se fosse sósinha no mundo, cuido que me affogava.--Pois você! andae!-diz a patroa--Fartae-vos de sofrimentos. É só fartar. Que sois vós? Menos que terra... Ireis d'este mundo fartas de sapos. Antes de morrer no rio!--Eu cá--diz outra--tenho o corpo negro, mas que m'importa? Se o meu me deixou antes queria acabar... Pela minha salvação que ia direitinha ao rio.--Depois queixae-vos...--ameaça a velha.--Sereis peor do que arroladas.--Nem as pancadas d'elle me doem, e mais o meu faz-me comer terra,--affiança outra.--A gente não tem mais ninguém no mundo. Quem quer saber de uma desinfeliz ?--A gente não tem pae nem mãe, nem folego vivo.[21]--Se choro, os outros riem-se. Quem entra e sabe o que é importante?--E ninguem n'este mundo póde chorar sósinho...--Eu cá--diz a Mouca--eu cá estou tão habituado a que me dêem dinheiro, que se o meu amigo fica commigo, escondo moedas no lençol... Quando acordo e as encontro, parece que me pagaram.As outras riem-se com risos que destoam, e a patroa prega-lhes:--Vocês nem sequer vêm... O que aconteceu á Maria? Affogou-se e o amante ri. Helia lá foi p'ra o Hospital. É morto. E todas as mortes se deixam ter coração.--Ás vezes mais vale morrer.--Morrer!...--exclama a tisica.--Eu já me matei... E depois? Foi quando eu vi sósinha no mundo. Elle tinha-me despreocupado. Peguei e bebe um quarteirão de água quente com lumes. Pensa que estou arrependida? Ah, se a senhora comentários o que se sente!... Quando me veio dizer--foi a Mouca--que o meu amigo estava com outra, foi como se tornasse a resurgir deante de mim a mãe que eu matei á força de lagrimas, por me ver na triste vida. Nem poderia gritar. Tinham-me seccado os gritos aqui--na bocca... Sahi, andei...A porta d'ella estava fechada e tudo ficou até de manhã ao frio. Os homens que passavam diziam o que pareciam, porque nunca tinham ideia do que cada um traz dentro do coração. Scismei, passei a noite ora a cismar, ora a chorar. N'esse dia me poz-me elle o corpo negro, como este lenço que trago na cabeça. Olhae... Ainda [22]tenho as marcas. Estas só na cova me passam.--Farta-te, se queres, mas não me deixas...--Vae elle e disse:--Fica-te p'ra ahi, estupor, que te não posso ver.--Vejam vocês!... Se isto é assim no mundo, se a gente cá vem p'ra isto, p'ra nos deitarem fóra, e não há mais nada, era melhor morrer... E antes que tivesse morrido p'ra não ter mais que penar...--O Hospital está à espera, raparigas--diz a patroa d'um canto.--Ouvi dizer que os estudantes cortam a gente p'ra estudar?...--E a mim que me importa?--Eu já ouvi a um... E o que eles se riem uns com os outros!...--Depois da morte a gente não sente.--Quem é pobre, acho que você sempre vai aprender a estudar.--Pois a mim é o que me entristece... O meu pobre corpo ser retalhadinho!--Lá está o Hospital á espera, meninas!...--Tu não te calarás!Riem-se, uma fica cismática e a patroa continua:--Filhas inda podemis enriquecer. O que é preciso é muita experiência da vida. Olha que na terra só há dor e vaidade. Não há nada peor do que envelhecer pobre... O que elles se riem! Se eles pedem pão, dão-vos escarneo. E põe-se a rir até do nosso ódio, ouviram?--Quem nasce p'ra esta vida mais lhe valeria morrer.--E tu p'ra que vieste?[23]--Foi o meu fado.E a velha continua:--Haveis de querer comer e tereis...--O quê? diz uma anciosa.--Pedras.--Acabou-se! diz outra.E fica cismática.--Mais nos valia morrer.--Mais valia.--Andae, andae! Lá está o Hospital à espera. Lá tende toda uma visão e o lençol. E o cemitério pode sempre com gente. Aquelle nunca se farta.--Tem sempre fome,--murmura do lado uma risada.--Pois tem,--affiança a companheira.--Deixal-o ter!--exclama a Mouca.--Envelhecei pobres e vereis! vós vereis!...--ameaça a patroa pondo-se de pé.--O quê senhora?--Para sempre, traz-se para sempre uma pedra no coração sem se poder arrancar.--Então para que nasce a gente? Só para soffrer?--pergunta Sofia.--Então. A este mundo vem-se para sofrer.--Ah!...--Enganae-os. Tratae do ganho, de juntar, de juntar muito dinheiro. O resto tudo é fingido...Mas uma, triste e magra, a tisica :--N'esta vida todos nos rebaixam e a gente precisa de encontrar alguém, um pobre como a gente...--Inda que seja um ladrão...--interrompe Luiza.[24]--Ao pé de quem se não sinta desprezada.--Metteu-se a gente na triste vida e nunca mais pode sahir--affiança outra.--Olhae que me lembro... Cada qual aqui é menos que nada, é como a terra...Callam-se e scismam ou passam as longas noites de inverno a cantar, em frente ao Hospital tragico. De dia pela porta escancarada vê-se o banco do hospital. Nada mais poído do que essas miseras taboas de pinho secas, gastas, destingidas, e nada também mais comovente. Vivem, estremecem. Há coisas que à força de serem tocadas por mãos humanas, ganham alma, criam fisionomia. Antes da morte alli tombaram os corpos que, como uma pua, a dor brocou. Aquilas taboas mirradas, de se sentirem a toda a hora roçadas pelas mãos de naufragos (todos os que entram no Hospital alli passam, santos, poetas, pobres com a bocca cheia de gritos) conseguiram uma outra existência.Foi a árvore arrancada à terra para amparar os pobres. É ainda mais bela do que levantou no topo do solitário monte, ao nevão, ao sol, á tempestade, às estrelas. Eil-a emfim sómente erguida para a dor. Taboas que já deram sombra na floresta, imbebidas de seiva e de azul, vieram servir de encosto a miseros: tem nodoas de sangue, dedadas d'aflicção e suor de infelizes que se entranharam na madeira.IV
O GABIRU
No último andar do predio móra o Gabiru, um solitário philosopho, esquisito e triste como um enterro, armado da mais formidável penca e da mais estranha sabedoria que Deus tem criado. Nunca vivi. Tudo o que existe para lá do Hospital é para ela um grande mar ignorado e verde.A realidade também não na entende: solitário e pencudo, da vida só se fartou com soffreguidão d'esta fonte que trasborda--o sonho. Tem o olhar tático e, mettido na trapeira com ignobeis calhamaços, deixa correr as suas ideias à solta como os rios. Assim, metafísico e pobre, de raras palavras, deitou-se a amar a Mouca, escarnecedor de soldados.Nasceu para sonhar. Tem um suspiro d'allivio quando se fecha na mansarda e exclama:--Vou idealizar!...--Sabe palavras, theorias, cartapacios, e nunca viu [26]ao pé os rios, os montes, nem as árvores. Remexe em ideias profundas e nunca encontrou a realidade.É assim feliz e triste. Posto à janella do cubículo sente correr o doirado jorro dos dias, cisma n'um portentoso sonho e ama. Entre as idéias que vão surgir naquela figura trágica, que todo o dia ri com os ladrões e os soldados.Mas ela ignora a vida. Alguma coisa porém existe de imaterial--emoção violeta e oiro--que o rodeia, quase o toca e subito foge magoada e aos soluços. E fio a fio vai tecendo e construindo a sua teoria:«Oh como eu tremo deante das árvores, do luar que corre branco e sem murmurio, da natureza esplêndida!... Passo por doido e na verdade eu quase grito de pavor deante do espantoso universo. Olhae a treva a escutar, o mistério, a água que brota sem ruido, a árvore de braços erguidos, o caliginoso mar...O homem passa indiferente, mas eu sinto-me enlouquecer deante das coisas mais simples: d'um farrapo de nuvem como um sudário a rasto, d'um raio de luz em pó, todo d'oiro vivo, que entra no meu quarto. Nunca me pude habituar a olhar a natureza cara a cara. Isto! que significado tem isto? É um sonho, um grito de beleza, uma alma? Montes verdes e etéreos, constelações infinitas, neve que do mar nasce e sobre o mar vae, como um rolo portentoso, como um fantasma gigante...E não adquiro o hábito. Todas as manhãs é como se pela vez primeira me achasse deante da monstruosa natureza--verde, oiro, azul, como os seus rios, florestas, [27]o mar a bramir e arvores que são sêres!... Por isso, sobretudo n'estes dias d'inverno, em que anda uma prodigiosa voz d'Adamastor a prégar á terra e ás coisas dilaceradas, eu me ponho, escondido e só, a discutir o enigma...Devo, porém, notal-o: eu sou uma criatura singular. Ha até quem me supponha doido. Todos os que são apenas restos de sonhos vivos e despedaçados como eu, têm este feitio recolhido e transitado. A esta hora da noite em que o universo parece desabitado e em que até o boato da pena no papel me faz medo, feche-me sobre mim mesmo e escute-me: alguma coisa, que não sou eu próprio, se põe então a murmurar baixinho. E eis-me perdido, no canto d'uma negra trapeira, encolhido e esguio, a sonhar em quê? N'esta belleza infinita, o universo ígneo...Deshabituei-me de falar, mas sonho. Há vozes esplêndidas dentro de mim; de mim brotam árvores, estátuas mutiladas, pedaços vivos de sonho. Oh, eu acredito que cada criatura é um composto de almas de montes, de pedras, de águas, e acredito também que existe uma ligação misteriosa entre o homem e os mundos. Estou preso às estrelas e aos cartões humildes.Dizem rindo se eu passo escolhido e esguio:--Lá vae o Gabiru!Deixal-o dizer! Eu sou mais feliz do que aquelles que riem, e antes quero conviver com os tristes do que com os outros. D'elles tiro emoção para o meu sonho. Depois feche-me n'esta trapeira alta, construida nos telhados e onde se vêem sêres admiráveis: [28]labaredas verdes que se agitam--e são árvores; nuvens pousadas sobre a terra com oiro a flux ou então d'um violeta desfallecido--e são montes; e rôlos que correm vivos e fluidos – e são rios. Muito tempo levei a decifrar-lhes o nome. Nenhum dos infelizes o sabia, porque o Hospital enorme entaipa a cidade, e essa vida úmida, nóras, torrentes de detritos, árvores, primaveras, gritos de sol, é desconhecida a todos os que sofram lá em baixo, entre o granito resequido. Só outro pobre, o Pitta, da trapeira contigua vê como eu a prodigiosa natura--a Mãe.Oh! e há horas, quando uma neblina de sol cahe sobre as coisas estarrecidas, todas verdes, em que eu quase toco o mistério. Ouço como palavras da natureza, numa linguagem gigante, de que não compreende o sentido. Os filhos são syllabas perdidas, umas d'oiro, outras verdes. O ar é fino, alma empoada de luar, as árvores desmaiam e os grandes montes pálidos, onde o sol deixou fuligem, que vai esmorecendo até ao vir da noite, fala baixinho, entoncidos. Mais tímido é o murmúrio das fontes, como se não quizessem perturbar o diálogo espantoso.É esta a melhor hora para se ouvir e em que eu quase entendo as palavras. Ha coisas desfallecidas: arvores vão tombar cheias de emoção e de tudo o que existe sahe uma prodigiosa alma etherea e viva, que me envolve e toca, e que fala! que vae falar!...Onde nasce esta beleza? d'onde vem tudo isto?... Se um homem cahe prostrado e grita as suas palavras igneas são apenas filhos, que misturados a outros gritos de dor, formam palavras d'um monólogo giganteo. [29]E credes que existem montanhas, guias, o mar, credel-o por aventura?.... São sílabas, são vozes da Terra que entram no diálogo. E mundos, estrelas, são palavras d'Aquelle que no infinito prega. É sempre a mesma força, a única força que cria a beleza e o sonho, a força onde brota a Vida.Eu tinha visto que a dor era sempre necessária para se produzir alguma coisa de belo e de giganteo: para se agarrar um pedaço de sonho, que, apenas entrevisto, foge: para que nas nossas mãos esqualidas fique um farrapo d'essa figura de prodígio: para que a vida tenha um fim: para amar: para criar: para que alguma coisa de reste. N'um grito existe sempre viva uma porção de beleza. Da cova nascem coisas materiais, formas, árvores, nuvens – da dor jorra a belleza absoluta.E com que fim? dir-me-hão.Imaginem um estatuário: para compor uma figura de mármore, para realizar um fantasma entrevisto, precisa de soffrer. Depois tritura o barro, petrifica a dor. E por acaso se pergunta se o barro sofre? Assim Deus esmaga o barro que nós somos para construir alguma coisa de extraordinário: mundos, a Vida e a Morte, alma infinita que tudo atravessa.De que precisam os poetas para fazer uma obra de gênio? De dor. O sofrimento cria. Lembram-se das figuras de marmore, para sempre debruçadas sobre os túmulos antigos? O luar que vem pela rosácea gótica ao tocar-lhes dá-lhes uma vida de sonho, fal-as todas de poalha: estremecem, levantam voo, dir-se-hia. Pois a dor, fio a fio, como o luar, dá vida ao sonho.[30]Para se criar é preciso sofrer-se. Hoje e sempre só a dor é que deu vida às coisas inanimadas. Com um escopo e um tronco inerte faz-se uma obra admiravel, se o escultor soffreu. Mais: com palavras, com filhos perdidos, com imaterialidades, consegue-se este milagre: fazer rir, fazer sonhar, arrancar lagrimas a outras criaturas. Com as letras simples e secas do abecedário, um deserto com gênio, mettido n'uma água furtada, edifica uma coisa eterna, uma construção mais sólida e mais bela, do que se fosse arrancar os materiais ao coração das montanhas.O que é então a dor, milagre extraordinário, que consegue dar vida às fragas? o que é esse assombroso fluido, que se comunica, alma arrancada da própria alma e que se pode repartir como o pão? Nunca houve sob o sol criatura que soffresse da verdadeira dor cujo soffrimento não consolasse ou salvasse. Até os mais humildes, tal como árvores que ainda depois de mirradas, vão aquecer e alumiar os pobres.A dôr dá a vida e não é a própria vida: cria, redime, obra prodígios e nada há que se comunique, que convença, que torne os homens irmãos, como ella... Para onde vão pois todos esses gritos, unidos n'um só grito? Visto que nada se perde, que é que se sustenta no infinito com essa enxurrada de lágrimas? Deus?Por muito tempo escutei o ruido de vozes, de exasperos, de gritos de criaturas. Vinham da guerra, do Hospital, da miséria humana.E d'esse mar espesinhado nasciam claros, as nebulosas d'onde surgem mundos. Esse eterno rio de gritos, [31]a correr desde que o homem existe, vai desaguar no infinito.É que a dôr é a única força que realmente cria e destrói: é a Força. Alimenta Deus e a limusine. É um Atlântico de fogo, é o espírito do universo. Cria clarezas na alma dos tristes e faz nascer montanhas.As árvores são emoções da terra.Sonhae! sofreu!Este mundo é talvez, como disse um philosopho desconhecido, uma gotta cahida d'um oceano infinito de beleza.O universo é o sonho doloroso de Deus.Nada se perde. A alma, as ideias e as emoções, fazem parte da força que faz florir o céo e os humildes pomares ignorados.Eu coleciono a dor. Passo a vida a juntar farrapos d'esse manto em fogo.O mundo é misterioso, cheio de gritos. A cada passo um tumulo d'onde renasce um amálgama, uma poeira verde, azul, doirada, cóva onde o Desconhecido remexe formas: o mar, as creaturas, as pedras, as tempestades, tudo vivo e a falar! O homem passa inconsciente mas eu tremo de pavor.Estas pobres criaturas que vivem ao mesmo predio em que eu habito, ladrões, philosophos, coveiros, mulheres [32]perdidas, são esmagadas para que alguma coisa se chore. Geram o mistério, o mar bravo da dor, e as macieiras anãs. Sob a nossa vista indiferente a cada passo se cumpre um milagre: sol, água ao nascer, pinheiros bravios e vivos!...Escutae... As coisas choram. N'esta noite de frio inverno--ventania--o que as coisas dirão!... estão transidas--ha que dias chove!...--o vento despedaça-as e é sempre triste ouvir cahir tantas lagrimas. Por momentos quedam-se n'uma quietação, como se ficassem a escutar ou se pozessem a falar baixinho entre si...Eu tremo e, para me esquecer, deito-me a escrever o meu livro A Árvore . É do lodo destas coisas humildes, que eu construo a minha estatua disforme... Ora uma tarde d'estas, imbebido nos meus pensamentos como n'um largo horizonte, não reparei que pela porta aberta alguém entrará. De forma que tive um sobresalto, ao ouvir a meu lado n'uma voz pausada:--Maquinações philosophicas, meu preclaro amigo...--Hein?Era o Pitta, mas o Pitta transfigurado e triste; o Pitta com dentes a menos e não sei que sorriso doloroso; o Pitta mais velho e mais sórdido.--Maquinações filosóficas meu preclaro amigo. A realidade é triste e amarga. Isto que d'aqui vê e não compreende, árvores, montes e águas, é no fundo tão revolvido e espesinhado como o lodo humano. Vem uma raiz e despedaça outra raiz, um braço que se chora empurra logo outro braço. Cada monte gera tanto ódio quanto o coração do homem.[33]--Porventura o amigo já viu árvores ao pé? Eu só vi a do saguão.--Sim, conheço-as não só dos bons auctores, como de ter dormido á sua sombra movida e fresca... São diferentes: são vivas e enormes...--E o mar?--O mar, que d'aqui vê longinquo, todo do pó verde, é trágico e terrível. Brame de furia, despedaça. É esverdeado e cheio de coleras... Só eu neste momento posso dar informações categóricas, reais, absolutas, só eu, Pitta da Conceição, é que possuo no universo esse segredo temeroso.--E a Mãe, a natureza?--Um amálgama, um cadinho cheio de gritos; formas revolvidas e trituradas, boccas que não podem gritar. Veja...Para lá do Hospital havia ainda tremulos de luz, fios esquecidos de sol emaranhados nas árvores, presos nos espinhos do monte. Dir-se-hia no emtanto que a vida se redobrava: cresciam e murmuravam os pinheiros, gorgolejava a seiva ao trepar nos troncos. De certo a água tinha um ruido mais vivo, e a terra, que o sol queimára, bebia-a toda d'um trago. As nóras cansadas pingavam ainda o seu último suor, e da noite que descera irrompia um murmúrio, vozes de árvores e rios e montanhas.--Maquinações filosóficas, meu preclaro amigo...»V
HISTÓRIA DO GEBO
Por fim, na entrada d'esse frio e inverno rigoroso, já tinha vendido tudo, até o oiro da filha. De envelhecido e gasto, de picaro e gordo, dil-o-heis um trapo que se deita fóra ou um doido de cabelos brancos estacados, a falar sosinho. Toda a gente o conhece.--Ó Gebo!--Anh?A mulher, que fôra sempre boa, azedára com a pobreza. Nervosa e secca passando horas e horas a chorar, atirada para um canto, ou prégava dias inteiros: monólogos cheios de gritos, de sonho espesinhado, todas lavadas em lagrimas. Se tudo acabasse!... Mas nem a Morte escuta os infelizes, nem o tempo se apréssa; vai moendo na sua mó, consumindo-as, as [36]tristezas, as aflições e o pão negro. O desespero d'aquella cria cahia em impróprios sobre a cabeça do Gebo espantado, a suar, e a quem nem a propria danos capazes de impedir o coração.Todos os dias eram da mesma forma águas, sombrias e tristes. Isto de chorar um dia e outro dia, dá a impressão de que chove e se não sahe do inverno.--Déste, emprestáste a toda a gente. E agora? agora?-dizia-lhe a mulher--Riem-se de ti inda por cima, e nunca te ajuda. Morremos à fome.--É o mesmo, mulher, é o mesmo. Paciência...--O peor é de nós, de mim e da pequena.--Pois é o que me aflige, que por mim quem me déra morrer!--Não fosse isso! olha os teus amigos como trepam.--Ó mulher, mas que hei-de eu fazer? Você não me dirá o que hei-de fazer?--Roubal-o! roubal-o!...Eram palavras negras, aflições sem conto. Ás vezes esqueciam-se e ainda palravam em torno d'uma esperança, a qual, agora nascida, logo a tênis calcava. A poeira mais humilde d'ilusão bastava, para que todos três, gelados pela desventura, se sentassem na enxerga, alertasse a edificar os mais altos castelos e esquecidos de tudo. Só a filha, Sofia, era sempre a mesma, sem queixas, magra e linda, e com um sorriso tão triste que lembrava certas horas em que havia sol e chuva misturada. E como o Gebo lhe queria! Pelo seu destino que seria amargo, por a ver rapar misérias, e por ser o único ser no globo, que ele não disse mais palavras.[37]Lá ia indo pela vida fóra, cossado e com um ar de aflição que fazia rir. Parecia amachucado: as marcas dos encontrões nunca mais lhe sahiam.A mulher passando os seus dias n'uma lucta desesperada com a desgraça, arrancando-lhe os últimos trapos, disputando-os um a um até vel-os desfeitos. Ao fim do dia ouviam-se os passos vagarosos do velho nas escadas e a sua respiração--anh! anh!--sufocada.--Ahi vem elle...--murmurava a mulher.O Gebo entrou e ela logo, soffrega, morta por desabafar o que todo o dia ruminára:--Até que vieste, homem! E então? Conta. Então há alguma esperança?--Não há nada, mulher.E sentou-se arrasado.--Tambem nunca faz caso de ti. O que é você? Você sabe o que você é?--Eu não, o quê?--Um entre inutil. Não há ninguém que se não ria de ti, das tuas desgraças, das tolices que tens feito... Que é do dinheiro que tanto nos custou a poupar?--Eu sei lá agora do dinheiro. Não falemos mais n'isso... O que lá vae, lá vae.--Pois é o que você quer... Mas hei de falar, tem-de-me ouvir. Déste cabo de tudo, davas dinheiro a toda a gente... Tinhas-me a mim, tinhas a pequena. Reparasses, era a tuas obrigações.--Ó mulher, ora tu que todos os dias vens com a mesma sécca. Não me basta a minha aflição!... De que serve isso agora?--De que serve? Sirva muito![38]À noite, à luz do petróleo, o Gebo fazia escriptas com um cobertor pelos homens e as mãos geladas de frio. A filha, sumida na sombra, compunha-lhe a roupa, e a mulher ralhava, passando na sala. Batia a luz do candieiro na cara oleosa do Gebo, no nariz enorme, nos seus olhos tristes, e, do outro lado da meza, só se viam iluminadas as mãos de Sofia, toda a noite trabalhando sem ruido e sem descanço.--Já tive uma letra tão linda e agora... Os desgostos cansam a gente.--É de você! é de você! Outros têem penas, desgostos, cahem e tornam a levantar-se...--dizia-lhe a mulher.--Têem sorte, é o que é. Para tudo é preciso sorte.--E curvado sobre os livros contando, murmurava mais baixo:--E vão sete--...--Sorte! sorte! A culpa é tua que não tens energia nenhuma. Procura! Deixa-te ficar espaçado p'ra ahi... Tu o que queres é comer e dormir.--Ó mulher!...--E erguia o carão aflito, onde batia a claridade de chapa. Viam-se-lhe os olhos aguados.--Ó mulher, a gente também perde as forças... Sempre a desgraça! sempre a desgraça!...--Tudo nos corre torto!--Mas...--Tudo! Deixa-me!...E desatava a chorar. Então o Gebo, aflito, a mão curta e gorda ronronando no papel, mentia para o dar animo.--Qualquer dia entro ahi n'um negócio, tu verás... Não te afflijas.--E vão cinco...--Tambem ha-de chegar [39]o nosso S. Miguel. A desgraça ha-de-se cansar de nos perseguir.E o pão que trazia para casa era quase uma esmola. Mas tanto mentia, que chegava elle proprio a iludir-se.A velha reanimava-se. E outra vez passei na sala, embrulhada no chale rapado.--Não, que é preciso sahirmos deste atoleiro.--Agora vai, agora vai, você verá. Endo ahi com um negócio... Sabes tu o que mais?... Deixa-me trabalhar.Ia a mãe deitar-se e Sofia, até ahi silenciosa, disse erguendo-se:--Pae não se afflija.--Eu não, filha, eu não. Aquillo é genial, coitada. Ela tem razão, tem sido muito sofrida. Vae tu tambem p'ra cama. Dá cá um beijo... Assim. Eu cá fico com a escrita.--Muito boa noite.Sósinho o Gebo scismava muito tempo, olhando a luz. Depois, horas e horas, ouvia-se a penna correr do papel, parar, tornar...--E vão cinco, e vão sete... noves fóra nada...--até que a vista se lhe toldava, e as deshoras, embrulhado no cobertor, tombava sobre a meza, soluçando:--Não posso! não posso mais! E tinha uma letra tão linda!...Na própria desgraça cahem por vezes resquicios de sol. Assim houve tempo em que respiramos. Tinham-lhe dado escriptas, mas ia-lhe faltando a luz dos olhos, [40]e a vida de expedientes enfrentará-se mais aziaga. Achavam-no ridículo, ninguem o tomava a sério, a esse homem gordo e chorão, que vivia com esta pedra a gastal-o--a sorte da filha. Escondido da mulher empenhára a casinha onde moravam, e passando as noites trabalhando nos livros.Quase sempre ao deitar falavam da filha.--É o que nos vale a nossa filhinha.--Sempre nos dá mais animo.--É tão boa, tão nossa amiga!...A velha trabalhada, ruminava projetos desconnexos para enriquecer; a roupa andava defendida e cuidada até às últimas. Luziam as coisas e quase não comiam para poupar, sobretudo ella que tudo guardava para o Gebo e para a filha.--Ó homem, mas então? Toda a gente, se arranja e tu estás sempre na cepa torta!--Deixa estar, mulher! As coisas não vão como você pensa.--Ora não vão! não vão!...Era ela afinal que o empurrava, áquelle ser gordo e inutil. Fortaleza-ó.--Por vossa causa é que eu lucto,-dizia elle sempre.Às vezes visitava-os uma parenta afastada, a tia Anninhas e as duas mulheres punham-se a falar das pessoas conhecidas. Há criaturas que só aparecem quando a desgraça entra em uma casa. Era uma velha, de chalé preto sem pele, e que vivia de aproveitar os restos da miséria. Trazia novidades e com que alegria a mulher do Gebo, ao ouvir-lhe dizer, que pessoas suas [41]conheciam também eram infelizes, tinha pena dos que soffriam como ella!--Ó Anninhas ouvi dizer que a Desideria está por baixo, coitada!...--Tem tudo empenhado, filha. Passa muita fome.E ella n'uma ancia:--Fome? passa fome? Coitada!--Mesmo fome, filha.--Que me diz?--É isso que te digo. E você como você vai com a sua vida?--Agora, graças a Deus, vamos indo. As coisas vão-se remediando.Entretanto o Gebo é para uma loja conhecida onde se juntavam os negociantes falidos, os professores sem discípulos, os burguezes desesperados por terem perdido tudo. Falavam muito, procuravam iludir-se. Enganavam-se uns aos outros, não por mentirem, mas para tornarem mais visíveis a sua aspiração, o sonho que traziam escondido. Discutiam imaginárias emprezas, negócios impossíveis.--Oh como eu sou feliz!...--dizia o Gebo--Agora tenho ahi um logar...Nem sequer o escutavam e, se um sahia, diziam os outros:--Cuido que está cada vez peor.--Um homem que teve um crédito na praça!--Tem fome à porta.--Coitado! Eu agora é que trago entre mãos um negócio...Porque é que eles não trabalham? Porque a quebra, [42]as aflições, a ruina, tolheram-nos para sempre. Perderam a energia e só sonham em se tornar ricos. Vivem iludidos e tombam no sepulcro gastos e com a cisma em lucros maravilhosos. E não têm porventura razão? Não vai amanhã quinhoar d'essa larga e misteriosa empreza--a Morte?VI
FILOSOFIA DO GABIRU [1]
E que você acredita na imortalidade da alma? Bem fundo, bem arreigado?Tenho horas em que crer: é uma esperança, um raio de luz entrou num tumulo vasio pela junção abalada d'uma pedra. Porque crêr? porque não crêr? Teorias, palavras... No íntimo, porém, sou materialista como toda a gente. Dormir na terra funda e gorda é bom – dormir para sempre. Ir ser árvore, luz, estreito, [44]correr nas veias da terra, é quase consolador--excellente somno sem sonhos, depois da lide canceirosa d'um dia.Na primavera quase sempre sou materialista, no inverno idealista e com a mesma sinceridade, quase com ferocidade.Ser só, sem amigos, sem apertos de mão, sem conhecidos, ser só e livre, que sonho!...Ser só por cobardia, para não ter este aguilhão da vaidade a espicaçar-me:--Então tu não fazes, e este, aquelle, o diabo, fez!--Ser só para sonhar e para ver este espetáculo único---a natureza; para passar os meus dias vendo as transformações d'uma d'aquellas arvores que d'aqui contemplo!...Quando me fecho e estou só, sou tão diferente!... Como o homem é desconhecido até de si próprio, porque o tempo passa, vem a morte e elle não esteve sósinho! Se estou só vêm falar-me vozes --eu mesmo--mas com que palavras únicas! Os seres de que sou composto, se me habituo à solidão, nos primeiros tempos balbuciam, mas depois falam! pregam!...Tenho a certeza de que fui arvore e é por isso que tanto quanto amo.Há livros que falam baixinho, há livros que falam alto. Uns têem por si o encanto, outras a força. Ás vezes as palavras murmuradas impressionam mais: passado tempo ainda ellas acordam em nós fibras adormecidas.[45]Porque é que a água, até o mais humilde charco, atrai e faz sonhar os homens de imaginação?Quanto mais desprezo o homem, mais amo a natureza. Ella é inalterável.O homem prende-se com muitas coisas inúteis: a riqueza, a ambição, interesses mesquinhos: vive emaranhado n'uma teia. De forma que não tem tempo de ver, nem de ouvir, nem de se conhecer. Quantas criaturas, existem que nunca olharam para o céo? A natureza, árvores, montes, rios, esse pelago que vejo do meu quarto deixa-os indiferentes; as horas de preguiça e sonho deixam-os indiferentes. Nunca tive tempo para amar as coisas simples e grandes da vida. O que é eterno não no viveram. Por mim antes quero comer pão e cismar, deixe correr as minhas ideias como um regato corre--até onde tem água. Alguns morrem sem terem reparado que existiram.É por isso que eu curto sempre com tudo que me não deixa sonhar - e que quando encontro razões para acabar com um amigo tenho um suspiro d'alivio. É uma amarra de menos.Habituar-se a gente a viver com ideias simples é como habituar-se a andar com fatos velhos e rotos. Indigna os outros. De forma que tem de se viver arredado.A morte aterra-me um pouco. Porquê? Porque só penso [46]na morte como n'uma divisão distante. Fica para muito longe ainda.Há horas, porem, à noite, de subito, em que, sem ligação, essa ideia rapidamente me toma e abala até as fibras mais reconditas. Sufoco então aterrado.Com que facilidade se matam até os entes mais queridos!... Quantas vezes me surpreendendo a assassinar eu a desejar a morte--é a mesma coisa, com este acrescimo, a cobardia--de pessoas que soffreram por mim! Por a menor causa, por o mais leve transtorno, o primeiro pensamento é este:--Se elle morresse...É claro que protestas logo. Protesta o teu coração, a tua educação, os teus hábitos e até a tua hipocrisia. Mas se deixarmos trabalhar a imaginação à vontade, sem peias, é uma hecatombe--por futilidades.VII
PRIMAVERA
O Gabiru sentiu-se aquecido, como a terra quando vem a primavera. Eu crio! Ia crear!... Aquile chão que só o arado do sonho lavrára, eil-o atravessado por este veio turvo, que tudo remexe e transforma--a Vida. Consumira-o o sonho, tornando-o cambado e gasto, esguio e d'olhos perdidos de cisma...Acordára emfim para a realidade e elle, que tinha passado a vida a revólver um brazido d'idéas, longe da terra e do seu lodo, amou a Mouca, raza como o chão. Todos se riam d'ella, magro e pálido, de pacho n'um olho, com um ar de rímel que vae gritar d'aflicção.O seu ideal prende-lhe os olhos tal'qual nol-os prende o lume, de forma que ao erguel-os, déra de cara com a vida e perguntára: Que é isto? o mundo, uma tempestade, tudo o que do cubículo vejo, arfando ao sol, [48]penetrado de ruidos e de sombras? Arvores me acenando com os braços, vozes d'águas fartando as terras imbebidas? Isto?... Tudo é luz, é uma chama? E como tudo é lindo!Vêr ao pé árvores e montes, a esse esguio philosopho habituado a conviver com velhos cartapacios, parecia-lhe tão irrealizável como subir às estrelas. Nos alfarrabios fala-se de tudo menos da vida. Por isso acordando espantado, interrogava as ondas luminosas, os rios correndo, o extraordinário mar: «Vós que me quereis?» E no alto da mansarda sorria para a terra, pencudo e triste, esguio como um enterro.--Porque amas tu, philosopho?--Sei lá! Amo-a. Dá-me vontade de chorar ao vel a. Amo os seus olhos tristes, o seu feitio do cão espancado. Amo-a, porque qualquer outra me desprezaria, envelhecido a sonhar. Ella é parecida commigo, talvez tenha pena de mim.Todos somos construtores. De terra e de emoção andamos pelo mundo a massarar estátuas; de realidade e de sonho arquitetamos as figuras que se misturam em nossa vida. Eles existem mais pelo que lhes mostram damos de nós mesmos, do que pelo que na realidade são. De saudade, de sonho, de lodo e piedade, construa uma figurinha ofendida e triste, andando no mundo aos tombos, sem pão e sem abrigo. A elle que passou a vida inteira atear um brazido, cabia-lhe em espécie a Mouca, escarnecedor de ladrões e de soldados.A casa das mulheres de dia é funebre, mas de noite, à luz do petróleo que esvoaça e deixa tudo n'uma [49]meia tinta d'aflicção--candieiros partidos, luzes fumarentas--lembra um circo de desastre, onde palhaçadas tragicas fazem gargalhar e onde os ladrões e as mulheres enfarinhadas representam a serio vicios e crimes, com risos e choros à mistura, para que o público que paga se possa rir. Vem um Velho, que sem falar gargalha toda a noite ao vel-as maltratadas, e o Morto, palido e soturno, com um laivo na cara. Tem as mãos ósseas e enormes sempre frias e as mulheres temem-no pela sua crueldade, pelo seu sorriso trágico. Despreza a dor e os gritos. Sente-se que d'elle não há a esperar piedade. Só a Mouca se atreve a resistir-lhe. Apparecem outros e toda a noite, se ouvem insultos, choros, gargalhadas.Cada um alli arranca a mascara, transforma-se, fica um ser nu: as feições duram, o riso é atroz. O homem tem vontade de ouvir gritos. Paga, maltrata. É muito, não há que ter piedade. E as mulheres cantam sempre na mesma toada triste e soluçante... Nenhuma fala do passado, com medo ao escarneo, mas guardam-no para si, sem o esquecerem. A história é idêntica, o eterno húmus amassado em lágrimas. Eles sabem que nasceram para sofrar e resignar-se: o esgoto é necessário. Tudo na vida se alimenta de gritos, como as raízes na terra se sustentam d'água. Enganam nas e não se queixam. É o Fado. Não tenha odio a quem as illudiu; ao contrário não esquecem esse fio de sonho espesinhado, que ainda sinto correr na vida, longiquo e triste, quase a sumir-se de tudo. O Fado as faz nascer e as traga. Triste é sempre a vida--lágrimas, pancadas, pão e assim como leva a sorte até à cova. [50]Ouvir: esta seiva dolorida fará nascer um dia alguma misteriosa Árvore.São irmãs e unidas, sustentem-se na desgraça. Os amantes moem-nas e elas humildam-se, tão triste é não ter ninguém a quem amar. E as infelizes, aquelas que, de confundidas com um lama, se não enxergam, são como que de tudo se sacrificam por eles. Miseras criaturas, a quem se paga com lesões, quanto mais afundadas na desgraça e mais pobres, quanto mais perto da enfermaria e da morte, mais se fazem pequeninas para que as amem. Ficam dias sem pão para que os amantes o tenham. Tiram a última camisa do corpo para lhes dar de comer. As arroladas matam-se se as desiludirem. Seres de ignominia só amam idealmente. Assim será o amor das ervas, dos sapos, das nascentes, de tudo o que na natureza é pequenino ou disforme. O Sonho para o esgoto é uma realidade única.A casa é trágica, de tetos negros, sumidouros, corredores onde toda a noite agonisa uma luz de petróleo.Ha mulheres tisicas, com tosse e a taboa do peito raza; ha-as que insultam quem entra para serem espancadas. A filha, do Gebo, Sofia, é alta, curva, cansada, e tão cheia de resignação que parece morta; outra, Luiza, a quem chama a Asylada, quase não fala. Olha soturna, com os negros cabellos violentos todos soltos e a fisionomia empedrada de magoa.Ao fundo divide a casa um corredor com cubículos. Às vezes, altas horas, tudo sereno, ouve-se na escuridão um ruido de choro sufocado.Fóra vê se o Hospital e a rua negra, onde o enxurro [51]humano sem cessar carreia detrictos, lagrimas, sonho. Especadas às esquinas, criaturas esperando... Parecem pedaços de noite destacados da própria noite. Fazem-lhe nicho as arcarias e arrancaram á treva para se embrulharem um farrapo do seu manto. Às vezes a escuridão sae um perfil, mãos que querem arrepellar, mas logo tudo se algumas entre roupas, que têm a trágica das estatuas. Só a mão, que o lampião ilumina, fica decepcionado. Por vezes toda a figura baça e amolgada surge, para logo se aniquilar. A lama faz-lhe pedestal, passa o enxurro, e ellas nem se mexem, petreas: se choram são a Dor. Alguns, de viverem d'um passado de fogo, parecem mirradas, outros procuram mingoar, extinguir-se, não ocupar logar na terra. E entretanto as mulheres vão cantando na mesma toada de catástrofe, que a noite traga, como farrapos de sonho espesinhado...Todas as noites o Gabiru lá vai sentar-se a um canto a cismar. Olha a Mouca sem palavra e sonha. Conhecem-no os ladrões e os soldados e elas vendem-o entrar, esgrouviado e triste exclamam:--Lá vem o enguiço!A Mouca ás risadas diz:--Cá temos o enguiço!...Mas em vão! Elle, com as enormes pernas dobradas, alheado, a penca cahida, sem ver nem ouvir, pensa n'um amor ideal e monologa baixinho, entre as mulheres, os ladrões e os soldados:«O que eu sonho! Eu que sou tão tímido, ponho-me a falar e a scismar... E tanto scismo!... Troco tudo. [52]Como é que você gosta de mim, que nem você sabe sorrir?E a inventar uma língua nova, que seja como a das fontes e a das árvores, quando desponta março, para te expressar o que sinto. Todas as palavras me parecem miradas e servidas.Olha, dize-me: chamas-te Maria, não é?»E entretanto os ladrões e as mulheres conversam:--«Tu não te callarás, estupor!»É uma tisica, magra, só com a pele e o osso, explica:--Uma mulher da vida... O que vocês estão dizendo das mulheres da vida? Eu inda queria ver... Quando tu não tens pão quem t'o dá?E o ladrão responde:--É você.--O pão que eu ganhei com o meu corpo com quem o parto?--Comigo.Mas fora do outro lado berra:--A gente aqui é como os cães. Toca a rir, meninas! Se uma mãe adivinhasse para o que cria aos seus peitos uma filha!...--E virada para um que entra:--Olha lá, ó coisa, pozeste-me o corpo negro n'outro dia... Tu imaginas que uma pessoa é de ferro?--Abaixo das patas!Uma mulher pergunta a um velho ladrão calvo, que a um canto só ri, com uma boca disforme, escancarada na sombra:--Tu que eras, ó velho?Mas elle ri-se com a boca aberta sahindo do escuro--só [53]bocca--como a fauce desdentada d'um lobo, e um outro é que responde:--O velho era lavrador. Olhae-lhe p’ras mãos. Cheira à terra e ao pobre.O philosopho a um canto scisma, olhando a Mouca entretida a falar com os soldados:--«Tenho muito que te dizer--tanto!...--e não sei o que te hei-de dizer!...Se me perguntam:--Tu que tens?--parece-me que acordo e que me puxam para a terra.As árvores levam todo o inverno a sonhar polegadas e um dia acordam desfeitas em sonho. É o que lhes acontece.Ora vem ahi março, já rebentaram novas fontes... Maria é um nome tão lindo!»Falam aos grupos, n'um borborinho. Andam todas mal vestidas e com frio. Uma traz meias amarelas e outra, a quem a tosse desconjuncta, anda com um chalé de seda que a não aquece.--E você que era?--Eu nada. Basta de conversas. Dá-me um beijo?--Tira-te! A ti um beijo!... Antes queria morrer. Nem morta era capaz de me dar um beijo. Com essa cara! Olhae p'ra elle, meninas... Já viu alguém rindo-se assim?--Ó minha arrolada!E deu-lhe um pontapé.Entretanto duas mais afastadas conversam no escuro:--N'esse dia tomo uma bebedeira, que há-de dar que falar.[54]--Você?--Sim.--A mim minha mãe é que era a capa. Encobria-me.E nunca se importa com o Gabiru, que tece, vai tecendo a sua teia, toda de emoção e de nuvens, reunido a um canto, absorto, sem ver nem ouvir:--«Não sei bem o que sinto, que nunca me vi assim. Do meu coração sahe uma bica que rega as coisas mais secas. E ouço! o que eu ouço!... Ao luar, lá em cima, ouço as montanhas em diálogo e falarem árvores e pedras!...»E a tisica , voltada para o ladrão, diz-lhe:--Que quer mais que te eu dê?E elle, rindo:--Ora! dinheiro...--Nem p'ra pão já o tenho, quanto mais!... Já o não ganho. Quem me quer, se todos dizem que estou tisica? Estarei...--Tu arranjas sempre.--Aonde? os meus trapos estão no prego, este chale é emprestado por misericórdia. O lenço que hontem trazia, vendi-o p'ra pagar á patroa. Amanhã entrarei no Hospital.Elle lentamente ergue-se para sahir. Quasi á porta murmura:--Bem sei onde ir buscal-o.Magra, desconjunctada, a tossir, a tisica exclama:--Pois vae! vae!... Se outras te dão mais, vae!... Deixa-me!...--Pois vou...[55]E logo ella, arrependida, torna:--Espera. Dei-te tudo. Escuta... Tens sido como quê? como um filho meu...--E para as outras com um sorriso amargo:--Ó meninas, quem ha ahi que me empreste algum dinheiro pelas almas?Uma abaixa-se. D'entre a meia e o sapato tira uma moeda e a tisica , estendendo a mão:--Já a não ganho com o meu corpo.E beija as cruzes ao dinheiro.--Toma.Dá-lha e baixinho põe-se a pedir-lhe:--Antes de eu morrer, promettes que me vais ver ao Hospital? Todos dizem que estou tisica. Não é por nada, mas vai-me custar morrer, sem ver ninguém ao pé de mim... Quem hei-de eu vê? Agora olha como te portas sósinho, ouviste? Inda te levam para o quelindró. Vocês em se pilhando á solta, adeus meu amigo!... Entro amanhã de manhã para o Hospital e na quinta é dia de visita. Não te esqueças de mim, ouviste? A gente prende-se e depois custa-lhe. Ora! que é que eu faço neste mundo?.... Tu ha boccado disseste que bem sabias onde ir buscar o dinheiro. Era á Gorda, pois era? Podes dizer que eu bem sei. 'Stou pronto! Sou um cangalho, só senhor de tropeço... Mas olha que fui sempre tua amiga. Já agora me deixa acabar, p'ra ele não ousa esse gosto... Só te peço uma coisa. É que me vás ver antes de eu ir p'ra a cova. P'ra a terra! Isto de a gente morrer sem mais nem menos até me parece exquisito... Que não haverá outro mundo?... Estou pronto. O médico hontem disse:--Estás prompta!--E atiram assim com a gente [56]p'ra o cemitério!... Eu ainda queria que me dissessem o que é que a gente cá vem fazer...--Sei lá!--Chorar. Só se for... E levar mais vida.Apertando-lhe as mãos, envergonhada:--Então vê lá se te esqueces de mim.--Ágora!...E ela sorri com um sorriso triste e piedoso, que lhe ilumina a boca escorada como um reflexo de sol:--Ágora! é o que vocês sabem dizer. Os homens são todos o mesmo, falam todos pela mesma boca. A gente, coitada, prende-se, mas vem a morte e tudo leva comsigo.O Gabiru, desenroscando as pernas, ergue-se e murmura de si para si:«Que tempo está em que estamos. Parece feito de emoção... E tudo vai sonhando o seu sonho, que eu bem sei, bem não sinto nas árvores, nas pedras e na terra, até na terra mirrada... E eu tanto te queria dizer! tanto!... Olha, sempre te chamas Maria?»VIII
MEMÓRIAS DE LUIZA
É assim a história de uma das mulheres:«Tive sempre frio. Esta impressão de ter os ossos gelados vem de muito longe, de pequenina.Nunca tive mãe, nem ninguem. Fecho os olhos e só vejo o Asylo, os corredores úmidos, o dormitório, o frio refeitorio abobadado de granito. Toda aquela pedra parecia sepultar-nos.Também guardo de pequenina esta impressão: a vontade que tinha de beijar, sem ter ninguém a quem dar beijos. Todos os que eu conhecia eram hirtos.Vou ver se me lembro bem... Primeiro é tudo confuso: depois vae-se espancando a nevoa e eu gravei a triste existência do Asylo.[58]Noite ainda nos erguiamos para ressar. Tocava um sino. Mal sabíamos andar, tropegas como velhinhas. Um pouco era preciso vestil-as. A Irmã ralhava se nos demoravamos. Aquela somno da manhã de que nos arrancavam era como a cova e o esquecimento. Antes nos deixaremos dormir para sempre. Para que vem a gente ao mundo?De tantas que conheci quase todas, mais felizes, morreram por não terem mãe.Todas, tão pequeninas, tinham ou já eram crescidas. E não sei o que é de amargo, de refletido, de sofrimento, de experiência da vida. Brincavam sem risos pelos cantos, com bichos, com pedrinhas. Uma vez uma disse alto:--Ó mamãe!...E foi um escândalo. Onde aprendera ela, que não tinha mãe a pronunciar essa palavra?Quereis crer? Só tenho esta imagem: velhinhas recolhidas, tristes por não terem filhos.E no entanto eu curto saudades dessa negra existência do Asylo.Na cerca havia um curral com vacinas, que nos davam um leite aguado. D'uma vez uma, já eu era grande, toda a noite gemeu. Por piedade pediu ao coração o que ela tinha.--Soidades por lhe levarem o filho.[59]E há mães que os deitam fora!Muito deve custar a morrer a uma mãe, que deixa no mundo um filho para o Asylo!Havia as grandes, as médias e as pequenas. As grandes eram desageitadas, de mãos enormes, com vestidos negros e grossos. E todas eram feias. Faltava-lhes não sei que graça, que só existe nas que têm mãe, por mais feias que sejam: seres d'abandono, plantas que vivem estioladas...Ás vezes o senhor provedor visitava-nos. Era um homem seco, rispido, de cara rapada, que nos vinha lembre que viviamos por esmola:--É preciso que se registrem d'isto: a sua vida deve-n'a aos bemfeitores.Ela própria era uma bemfeita. O seu retrato lá estava colocado ao pé dos outros, com o mesmo caixilho funebre. Era o último da sala enorme, gelada, onde os passos ecoavam, toda cheia de retratos em torno. Os bemfeitores!...--Dir-se-hia uma galeria d'afogados, todos solenes, secos e maldosos, hirtos, de labios finos e ar de cerimonia.Todas as noites as Irmãs nos fizeram ressar por elles, a quem deviamos o pão e a vida.Era proibido falar, a não ser há horas de recreio, e isto explica talvez os vincos que todas tínhamos, ainda as mais pequeninas, aos cantos da bocca.O melhor sitio do Asylo era uma enfermaria por isto: [60]era mais quentinho: dava-lhe o sol todo o dia e viam-se as árvores da cerca: e por a Irmã enfermeira ser a única que tinha coração e que gostava de nos beijar. Todas eram amigas dela.É curioso. Lembro-me das grandes árvores que de lá se avistavam, mas só as recordo descarnadas e despidas, n'um céu pálido. Sempre no inverno.Tenho ainda a impressão de ter os joelhos frios e doloridos. Nunca mais consegui esquentá-los.O pão do Asylo tinha um sabor que nunca encontrei em outro pão, por mais desagradáveis que fossem os meus dias: um gosto amargo e requentado. E em todo o refeitorio havia um cheiro idêntico. Tudo, até o Christo, até o caldo aguado, a mesquinha ração que nos davam parecia dizer-nos: «Olhae que viveis por caridade! Habituae-vos á desertos!»Quereis crer? Muito mais caridoso seria affogar as criações que não têm mãe. Livral-as-hieis do Asylo, da caridade, da vida.No dormitório tudo era regular, branco e monótono, e, apesar de branco, funebre. O sol, que entrava pelas janelinhas, abria numa muralha de prisão, era pálido, e, mesmo de verão, parecia um sol de inverno; as camas, todas de branco, alinhavam-se encostadas às paredes caiadas e nuas; só ao fundo, por cima da cama da Irmã, um Cristo de louça azul manchava aquela brancura.[61]O recreio não era perto do convento. Brincavamos sem barulho no claustro. Parecia que tínhamos medo de mostrar árvores e sombras. O claustro... Por cima via-se sempre, engastado no beiral, um retângulo do céu, e a sombra geométrica estendia-se cá em baixo. De um lado era sempre frio e úmido: as paredes tinham musgo. Ao meio do claustro um golfinho de pedra deitava gota a gota, pelos dentes cariados, um fio d'água fria. De tudo aquillo sahia uma paz transitada de sepulcro. Só andorinhas cortavam em cima o céu; mas d'uma vez que em março veio, afadigadas e chilreando, fazer ninho no beiral, as religiosas deitaram-lhos abaixo. Destruil-os porque? Os restos, farrapos de pennugem quente, ternos dirieis, andaram por muito tempo no claustro. Passaram de mão em mão com alvoroço. Algumas das asyladas scismavam, olhando-os: as mais pequeninas brincavam com elas. Uma disse:--É um berço...Destruil-os porquê? Para que não saibamos que as aves têm mães e cuidam dos filhos? Para que não tivéssemos saudades das nossas, que não conhecêssemos? para que ignoramos?... Mas que candura a das Irmãs se era por isto! Nós presentes, adivinhamos tudo aquilo e quando uma das mais pequeninas explicou como que faziam roda:--É o berço dos passarinhos...--quantas de nós já tinham scismado n'um berço assim agasalhado e fôfo!...D'aquella vida idêntica, secca, dura, vinha um [62]dia, quando eramos grandes, arrancar-nos o provedor.Era um dia solene. Vamos partir. Quem precisasse de uma criação que comesse um pouco procurava-a no Asylo. Uma caderneta, papeis, alguns trapos, camisinhas curtas e o discurso do senhor provedor:--Sustentou-as este Asylo por caridade. Se vivem não devem ser bem feitos. Agora lembrem-se sempre nas suas orações do bem que ele fez. E na casa que as recebidas sejam agradecidas. Tomam-n'as por esmola...E assim, com uma trouxa debaixo do braço, partimos para a Vida.Oh! minha mãeinha!»IX
FILOSOFIA DO GABIRU
Ter os mesmos direitos que as árvores e os bichos à imortalidade, humilda-me, e fazendo-me humilde torno-me melhor, mais irmão do que é pequeno e infeliz.
Só as criaturas que sofrem são as que são dignas de viver, e na verdade são as únicas que vivem.
No tempo infinito e no espaço limitado as moléculas agregam-se, desagregam-se... Só química, só a química existe... As moléculas, que têm em si a força vital, são hoje árvore, amanhã animal, pedra, homem. Conforme o quê? o que é que as modela?...Eis-me: eu fui e continuei a ser n'este oceano trágico, o que o acaso determinar, conforme as minhas [64]moléculas, amanhã desagregadas, se unirem a outras mais tarde... Tenho vivido até aqui--continuarei assim pela eternidade.Quando pois me chegar a vez de ser homem, hei-de viver: quero viver da minha própria vida: quero que fale dentro em mim o universo que eu já fui--a pedra que eu já fui--a árvore que eu já fui--o bicho humilde que eu já fui...A tua opinião?... De que me sirva? E é ela tua, sentel-a bem tua, ou é aprendida, falsa, vinda de outros homens que querem me esmagar?...Qual deve ser o meu fim? Deixar falar todo o universo que compõe o meu sêr, deixa-o prégar com a sua voz rouca - com a sua própria voz e não com a tua. Se eu trago odio, deixa-me ser o odio; se eu trago riso, deixa-me ser o Riso.O momento é único, não vale a pena perder. Porque acaso, porque furia insana, depois de que rebeldias, de que horas ou séculos de aguilhão, de desespero e raiva, estas moléculas, perdidas num oceano maior que o atlântico, tornarão a ser, se chegarão a reunir para terem a consciência do Universo? E agora vens tu, homem, e queres emmudecel-as com as tuas leis, as tuas teorias, os teus sonhos...O momento é único: você vai perder-se amanhã. Séculos de canseira para terem n'um minuto a consciência do universo; períodos de sonho tremeluzindo no fundo da obscuridade, para não virem afinal à luz, períodos de amargura, de esforços, de tentativas abortadas - para não chegares finalmente a viver. É como ir a uma árvore e arrancar-lhe toda a flor...[65]Mas olha: tudo é feliz em torno de ti, porque tudo cumpre o seu destino. Cumpre tu o teu. Tudo é harmônico, porque vive da verdadeira vida: as plantas crescem sem que as outras lhes imponham regras, os animais, a natureza inteira, não tenham remorsos nem dúvidas. Nem você terá, se viver da sua verdadeira vida e não de outra.A tua educação deve consistir n'isto: em falar fazer o universo que traz comtigo, com a sua voz. Arreda, mata, calca tudo o que te contrariar n'isto. Sabes por acaso d'aqui a quantos séculos, tornaremos a ter consciência? E que forças perdidas, que luctas não serão necessárias?... Quantos gritos!...
Gosa tudo: a desgraça, a fome, a terra, o sol, o riso, porque nunca voltarás a sentir senão n'uma extensa de séculos. Impregna-te de vida, do teu largo quinhão de vida, para que às portas do Nada possas dizer:--Vivi!...
Estão em primeiro logar os deveres para comtigo, do que os deveres para com os outros.
Deves amar os rios, porque já foste rio; os montes porque andaste nas suas entranhas; a nuvem sua irmã; a arvore onde correste em seiva--eo homem porque é o homem.
Se você não deixa ser o que deve ser--resiste. [66]Mais vale morrer do que não luctar. Morrendo, triunfarás porque cumpriste o teu destino. Você é feito de húmus, você é feito de terra. Se ela te deu boca para que foi? Para que falasses. Com que fim cria tantas boccas? Para que ao fim de mil tentativas se digam as palavras necessárias... N'esse dia tudo terá voz. Na verdade não há fonte, árvore, bicho por mais esquecido, pedra por mais ignorada, que não tenha voz e não faça a sua confissão.
A educação moderna, ao contrário, tende a isto: para que todos falem no universo da mesma forma.
Nasce comnosco o destino. Não o cumprir, seja qual for, é ser infeliz.
Cada criatura que nasceu honrada tem quantos séculos e foi gerada? Sabeil-o?...
Não contrariem a vida. Nós somos uma torrente, que Deus criou para um fim... Assim nascerão criaturas que encarnarão o Mal, dirás... Pois que o mal tenha também a sua boca e que fale sem gaguejar.
Se a natureza cria monstros, é que elas são necessárias, como certas pústulas que purificam.[67]
Nunca os tigres finalmente venceram.
E de que você serve andares mascarados?...
O homem tem em si partículas de tudo o que não existe universo: metaes, pedras, etc. Conforme n'elle predominam determinadas moléculas, assim odeia ou ama.Quando é que a química será tão grande, que poderá fazer esta análise?...
Há pessoas que nunca nos fizeram mal e a quem odiamos. Nunca? quem sabe?... Se há um infinito que tu vives, se tu existeiste sempre e és eterno.
O que é piedade sincera, abalada, interior? Uma reminiscência.
Fujamos da terra, dizem-te. Não, bem preso a terra, a terra subtilizada que tu és, a terra tua mãe. Essência da terra, trabalho insano do seu ventre durante séculos e séculos, homem não a renegues! Ama-a, ama a vida. Tu é talvez o sonho da terra. Ella poz em ti toda a sua emoção, toda a sua maternidade, toda a sua dor e tambem tudo que tinha de imaterial: deu-te o sonho. Sê bom, se ella t'o ordena, sê máu se ella o quer.[68]
Há dias em que a gente se sente responsável por tudo o mal que se faz na terra.
No mundo correm e entrechocam-se grandes rios de moléculas - que são rios de ódio, outros que são rios de amor, outros que são a amargura, o riso, o sonho...X
HISTÓRIA DO GEBO
Elle ahi vae, aos tropeções, amachucado e ridículo.Tambem a dor torna picaro e as lagrimas no seu carão espantado só nos fazem rir. Empurra-o a Vida, atira-o, estatéla-o no lagedo, afflito, sem mão que o ampare--e de cabelos brancos estacados. Gritam-lhe:--Ó Gebo! ó Gebo!...Não há que ter piedade dos fracos. A própria natureza os repelle do seu seio.Faltava-lhes tudo, tudo se esfarrapava no seu lar. Dormiam em enxergas no chão, n'essas noites de frio inverno. O que mais lhe custava era ver a filha horas e horas a cismar. Em quê?... O Gebo ao pensar na sorte de Sofia cuidava que ela torciam o coração. Por ella é que se batia ainda com o destino. E quase não tinha pão para dar![70]A mulher clamava:--Mas trabalha! tu não trabalhas!... Tu o que és és um mandrião. Olha os outros como furam, como sobem... Tu és um estupido! Na vida é preciso ter-se muita finura. Quem é assim não se casa!--Ó mulher, a gente quando cahe nunca mais se levanta.E finalmente cahira para sempre, sem energia e sem forças, prostrado. A sua vontade seria deitar-se e nunca mais acordar. Corrêra tudo, batêra a todas as portas e assim se afizerá à humilhação e à esmola; a ser mal recebido, a ouvir respostas que ferem e despedidas bruscas. Os amigos, que a princípio lhe davam para o rebaixar, conversam-lhe agora com pedras na mão:--Volte depois! É demais! Isto sempre não pode ser, você abusa!As suas melhores horas eram as do somno, profundo, de pôço, em que ao deitar mergulhava logo. Esses pedaços de vida, furtados à desgraça, em que se não pensa, sem sonhos, d'um profundo aniquilamento, eram o único goso do Gebo. E tanto mais a desgraça o abalava, tanto maiores eram os seus cuidados, mais absoluto o seu somno. Ao contrário da mulher, que quase não dormia e levava a noite inteira a cismar e a chorar, ela, logo cahido na cama, logo tombava como morto. Ás vezes a mulher nem descançar o deixa; queria falar, discutir, ouvil-o...--Dormes como um porco! Fala, escute-me!E o Gebo, a pingar de somno, lá se punha a dizer palavras, coisas desnorteadas, até que ella enfurecida exclamava:[71]--Dorme! Fica-te para ahi!...Mas tinha de acordar e a caça aos magros cinco tostões, que todos os dias precisavam de juntar, começára a ser desorientada e feroz. Viam-n'o correr, espreitar um conhecido d'outr'ora, seguil-o, dizer-lhe a sua aflição em palavras rôtas, e depois muito baixinho pedir. Ficava horas à porta d'uma loja, esse velho tropego, com o casaco no fio remendado pela filha, à espera que um conhecido passasse. Ás vezes consumam-se os dias e elle sem dinheiro para pão--porque os corações são de pedra. Rondava n'um desespero pelas ruas. Não encontraria acaso alguém que lhe valesse? Despediam-n'o, e elle faz-se mais humilde, sem odios, pedinchão e sempre a suar. Já não tinha que pôr no prego e muitas vezes se lembrava da morte.Opresso o coração, voltava, lá ia á espreita, n'um desespero sem fim. Ao chegar a casa, sufocado, pesado, a mulher que o esperava n'um transe, perguntava ao avistal-o:--E então? então?--Cá está, mulher! cá está!Ó descançar, dormir na terra bem pesada, bem funda, para sempre fugir aquela fadiga de lágrimas, esquecer as humilhações, as horas amargas passadas atraz dos que outr'ora servira! ficar no derradeiro somno, de que nunca mais se acorda nem para a desgraça, nem para o escarneo!...Que mal causara elle a Deus e aos outros, para assim ser castigado sem tregoas, com a fome e o frio e a sua filha infeliz? E nem na própria casa o Gebo descansava. [72]Eram infindáveis os ralhos e os gritos. Só Sofia, linda e triste, pela sua resignação ao dava animo. Se não fosse ela, seria tão bom morrer!... Os seus amigos eram ricos e secos como as fragas. Alguns nem sequer o viam: riam-se outros d'elle e não lhe davam esmola. E mais fundo, mais fundo, assim se atascava na desgraça, gordo e picaro, atarantado e pedinchão, com uma única idéia ao acordar: arranjar cinco tostões, para as mulheres comerem.Já cossados e gastos, todos os dias diziam as mesmas palavras e passavam pelas mesmas aflições. Transidos pelo frio interior, o verdadeiro frio, que só a miséria dá, encostados uns aos outros, raro se aqueciam ainda com um sonho vão. Fixavam o olhar, perdidos, absorvidos pela realidade, e a Desgraça alli presente pareciam rir-se. Gastavam as últimas roupas, faltavam já trapos usados e elle de cada vez mais gordo e mais molle. Se acontecia riem-se por futilidades, todos três juntos, aquele riso fazia mais aflição do que as próprias lagrimas. Muitas noites não se acende o lume e por fim todos três dormem n'uma única enxerga.A última coisa vendida e que eles custára as derradeiras lágrimas d'olhos ardidos, fôra a pequena casa e o quintal, que de paes para filhos até elles viera. Sucumbiram ao terem de deixar para sempre as árvores, que tinham plantadas por suas mãos, a horta, o fio de água da bica, as fruteiras antigas, a que queriam como pessoas. Tudo fôra levado, como uma parte do seu ser, que lembrava os dias de felicidade, sol que ainda aquecia e que não tornaria a luzir.[73]A mulher já não ralhava: tombára, com o olhar desorientado e os dias gastos em monólogos desconnexos. E ela ficou, amolgado pelos encontrões, gordo e ridículo.--Ó Gebo!--Anh? eh?...XI
LUIZA EO MORTO
O ladrão escondia-se. Perseguiam-n'o, fugira, andára e n'essa noite, com um pedaço de pão metido entre o seio e a camisa rota, fôra dar ao caes. O céu estava negro e o rio negro corria como lava. A água à noite assusta: fala, attrahe, e a sua frialdade tem qualquer coisa de cóva. O rumor das águas lembra um ruido de vozes a concerto baixinho coisas presas.Foi uma noite de silêncio úmido e abafado. Brilhava uma luzinha ao largo e ouvia-se a ressaca subir nas pedras, entrar nas cavidades poídas do caes. E era no ermo o único ruido, aquela respiração estrangulada, apressada, um marulhar humano e trágico na noite profunda, silenciosa e opaca.O Morto aconchegou ao seio o pedaço de pão--o seu jantar--e teve um ah! de alivio. Alli ninguem o procuraria, [76]era como se fosse sepultado no fundo do rio. Houve quase dois dias que não comia e ia emfim dar a primeira dentada no pedaço de pão. Tinha os joelhos doloridos e sentia um lassidão enorme. Ao sentar-se topou n'um corpo cahido, abandonado. N'um sobresalto, de pé, com o pão a que ia dar uma dentada na mão, perguntou:--Quem está ahi?Ninguem: a noite negra e o ruido de ressaca minando as pedras.--Ah!As suas mãos ao tactear deram com uma rapariguinha inerte. A saia estava encharcada e frias os pés.--Estará morto.E a sociedade tornou-se a sentar-se para comer o pão. Mas senti-a mexer-se.--Outra desgraçada...--scismou--Quem está ahi?E, sahindo da treva, uma voz de criação, começou:--Sou eu.--Tu quem é?--Não sou ninguém.--Que está aqui para fazer?--Não estou a fazer nada.--Você que quer, então?--Vim deitar-me ao rio.--Ah!...--Mas tive medo. A água do rio sempre é mais fria do que a morte.A treva espessa em torno e o mesmo ruido da ressaca a prégar. As nuvens baixas envolviam-nos num fluido negro, ambos tragados pelo deserto da noite. [77]Não se viam e aquellas duas vozes, uma infantil e baixinha, a outra rouca, eram como o diálogo de duas forças ignoradas, que o acaso rola no mesmo turbilhão do infinito. Perguntou-lhe o Morto:--Como te chamas?--Chamo-me Luiza.--Quem te fez mal?--Ninguém. Estou grávida.--Ah!...--Estou grávida. Eu não sabia nada. Estou grávida, acabou-se. Porque é que não ensinamos às pessoas que todos nos querem fazer mal? Uma pessoa deve aprender.--O quê?--A ser infeliz. Há dois dias que não como. Tenho andado por ahi. Botaram-me fóra, empurraram-me e eu ando por ahi a chorar.--Vae p'ra a tua casa.--Eu sou do Asilo, não tenho ninguém, nem mãe, nem nada.--Enganaram-te?--A mim não, ninguém me enganou. Eu não sabia nada. Quando vim do Asylo não sabia nada. Um dia apareceu grávida e pozeram-me fora. Nunca me queira assim. Quando a gente está grávida que tem que fazer? A gente não tem culpa...--Não fez o filho.--Eu era uma inocente.--Ah!...--Não sabia nada, juro-lhe pela minha salvação.--E então?[78]--Deitaram-me fóra do Asylo e fui servir. O patrão foi quem me logrou.É sempre o mesmo caso banal e trágico. Se o homem encontra uma pobre criatura desprotegida e ao desamparo, ilude-a e explora-a. Sahida do Asylo com uma trouxa debaixo do braço e o discurso do senhor provedor, foi servir. Logo que o patrão viu aquela rapariguinha ao abandonar a terra, poz-se a falar-lhe baixo, as escondidas.--Era como se me pizassem o coração...Ella ouvia e depois com um sorriso triste, em que mostrava os dentes agudos d'esfaimada, ficava muitas horas cismática e a falar sósinha. Abandonou-lhe o pobre corpo macerado, cheirando a enfermaria, já vindo à terra com este destino amargo-ser explorado. Elle deixou-a logo e ela continuou a servi-los, com o mesmo sorriso, mais descórada e triste. Um dia acordou gravida e a patrôa pôl-a na rua. Remexeu-lhe a trouxa e completamente:--O que tu merecias era ir para a polícia.Com um filho na barriga e a trouxa debaixo do braço poz-se a andar pelas portas, despedida das casas logo que lhe viam o ventre, até que foi dar ao rio, com fome e inteiriçada pelo frio.Callou-se. Só se ouvia o chapinhar da maré. Só o rio prégava. Tu, rio, que carreias nas tuas águas, para assim falares toda a noite? Levas lagrimas comtigo, raízes, cadáveres: mais pão, terras encharcaste, humedeceste troncos: e entre salgueiros, espelhando a lua, prateado, foste romântico e triste. Depois de banhaste a pedra das cidades, o ferro, e a tua voz tornou-se presaga. [79]Levas lágrimas salgadas ao seu destino, tudo leva, ais, confissões, restos, para o mar profundo. Que dizes, rio? que prégas? Você conta com sua vida incessante? Ir ao oceano largo, a fundos redemoinhos para feito nuvem depois de viajares, ora negra, ora d'oiro no poente, trespassada de sol, aquecida e vivificada, cahindo por fim em chuva para matar a sede das terras, e voltares ao seio do planeta, rompendo de novo em fonte, que acarreta outras lagrimas, outros sonhos e raízes na mesma condenação eterna e n'um trabalho insano? É isso? É para mais pão negro, passa por troncos conhecidos sempre rio, mar profundo ou nuvem?...Uma luzinha, que brilhava ao largo, deixando na água um fio d'oiro trêmulo, de todo se sumira. Então o Morto no silencio e no negrume, começou:--Tu que imagina que é isto?--Isto é, senhor?--Uma vida. Todos querem mas é enganado. Os ricos fazem mal aos pobres; os pobres roubaram os ricos. Todos querem chorar os mais.--Todos?--Todos. Eu mesmo posso-te agora matar, posso-te fazer o mal que quizer. Não grite que seja ruim. Nunca te acode.--Eu não grito.--A tua mãe botou te fora, para não te criar, o teu patrão enganou-te. O que você imagina? E que você poderia fazer senão deixa-o enganar-te? O que tem que fazer? Hão-de enganar-te sempre e só te não desamparará...--Quem? Disse anciosa.--A fome. Has-de andar por ahi até cahires de velha, [80]aos pontapés e às voltas com o desgaste. A desgraça é que pode tudo, ninguém no mundo tem mais força. Se tiveres fome, hão-de-se rir de ti e dar-te terra a comer.--Ó senhor! ó senhor! Mas então para que eu criasse no Asylo? Era melhor terem-me deixado morrer. Eu não faço mal a ninguém. O que vou fazer? Tenho esta camisa que trago no corpo. Uma saia empenhei-a. Há dois dias que não como.--Mata-te. Para que vieste tu ao rio?--Para me afogar... Mas tenho um medo á água!... Quando metti os pés no rio tão negro, fugi... Ó minhas mães!...E tombou para o lado.O Morto deitou-lhe as mãos. Estava encharcada, todo o pobre corpo, ainda por criar, enregelado e transitado.--Tu que dezenas?--Nada. Fome.--Toma lá o meu pão.E o ladrão deu-lhe todo o pão que trazia.XII
FILOSOFIA DO GABIRU
Em todo o caso se a imortalidade existe deve ser bem diferente de tudo o que se tem sonhado.
Ser despedaçado, oprimido, calcado, torna quase sempre o homem grande, porque abala e acorda vozes adormecidas.
Compreendo o materialista sincero, o idealista sincero. Num predomina a nuvem, não outro a terra. Tudo o que é verdadeiro, arraigado e fundo, é belo – até o crime.
Não importa saber onde nasceu a ideia da imortalidade, o que importa é saber se a imortalidade existe. Todos a sensação até os mais materialistas, todos [82]sabemos que ela brilha no fundo do nosso ser. Podem-na abalar, abafar, com teorias, palavras, explicações mesquinhas, o que não pode é arrancal-a. É como certas árvores que, deitadas abaixo, deixam sempre raízes profundas e inabaláveis no solo. Para que extinguir seria necessário tornar esteril à terra.Cada homem tral-a comsigo como uma certeza ou como uma aspiração... Ella remexe sob todas as cinzas.Mas que imortalidade?
Tomo tudo a serio, até as coisas sem importância - outra razão para ser infeliz.
E quando é que eu cumpro o meu destino?-dirás. Interrogar.
Se as árvores não fossem necessárias, existiriam árvores? Se os crimes não fossem necessários existiriam por aventura crimes?
A educação que nos dão o melhor que há a fazer é esquecel-a. E esqueci-se porque ella nada tem com a vida, é uma coisa à parte. A que adquirimos á custa de nervos, de sangue, de suor, a que se aprende na peleja, essa acompanha-nos até ao tumulo. É a verdade.
[83]O homem procura sempre uma filosofia onde caiba o seu temperamento, os seus erros - e até os seus crimes. Se não existe, inventa-a.
Acho que, ao contrário do que se diz, não sou amigo de ninguém senão nos primeiros tempos. A princípio os angulos não aparecem ou disfarçam-se. Depois começamos a ser duros.Creio que só há amigos até aos vinte anos, quando ainda não se pensa na vida. Depois suportou-se. Raros são os homens que atravessam a vida a sério e dos interesses conservam ainda amigos.Para ficarmos amigos tenho ou de me submetter ou de te submetter.
Não, a morte não destrói a essência da vida, mas desorganizando uma forma destrói a consciência dessa forma, que é formada por milhares de consciências...A ação do que se chama espírito sobre a minha matéria produz o meu eu , com os seus erros, sonhos, desesperos, odios. A mesma força tira harmonias diferentes d'uma harpa ou d'um orgão. O que resta, pois? A essência da vida?
A predominância de certas moléculas produz o sonhador; a predominância de outros o herói, etc... Eis a futura química.
Não se trata de ser feliz ou infeliz mas de se cumprir o destino para que se nasceu.[84]
Que ideia tão falsa de se apoiar que a vida tem um fim--a felicidade ou a desgraça! Não é isto subordinar o universo ao homem?Se a vida tem um fim-é viver. Viver, deixe que cumpramos o fim para que fôssemos nascidos. Isto é lógico, inevitável, maior direito do que o que suppomos, mais belo, mas cêdo ainda para se entrever.
O homem é uma fonte onde a vida corre límpida ou turva, n'um fio que a emoção torna d'oiro ou n'um jacto negro de colera. Eu ouço assim correr a minha existência...Um dia a fonte secca-se.
A terra ha-de sempre criar os seus erros de digitação, quer os homens queiram quer não. O homem não é senão a essência do universo e nasce para que tudo tenha bocca. Podemos tentar abafar isto, pôr diques, retardar a torrente, mas um dia o largo rio da Vida e do Destino irrompe.
Não, não é justo que a gente morra de subito sem protestos, sem palavras, sem gritos, com os seus erros, as suas ambições, os seus sonhos... Abre-se de subito uma cova... Não se pensa mais, não se vê, não se ouve... E o que custa não é deixar pessoas queridas, nem hábitos--é não viver. Morrer quando a vida [85]continua da mesma forma harmônica e impassível – é o horror.
Nenhum outro homem, nenhum universo existe realmente para o homem; não outra vida senão a sua vida.
Ao chegar dos trinta anos abandonam-se os amigos. Se alguns restam é por hábito ou por interesse: é por cálculo. Se quiser continuar a amar os outros, afaste-te, torne-te um solitário. Ou deixa de ser sincero e passa a morar com a mentira. A peleja começou: é preciso arredar, vencer--e cada um n'essa edade é o que é. Já se não amolada: é um ferro desembainhado, sahido da forja; tem já os seus hábitos, vaidade, mentiras. Tudo o que estava apenas esboçado suportou; é de pedra.De forma que se quizeres viver com as outras dezenas de representar. Da tua idade há centenas que vão comtigo pelo mesmo caminho e para o mesmo fim. Adiante de ti estão os homens de quarenta anos, que é preciso arredar, conquistar ou iludir. Cada um deles é de aço. Para triunfar tens de os lisongear, tens de ser elles e não tu...Os que têm uma forte individualidade arredam-se porque nunca podem gostar. O triunfo não pertence aos mais fortes, nem aos mais inteligentes, mas aos que, sem pessoalidade, pode ser todo o mundo...Ser parecido lisongea: d'ahi tens d'afivelar uma máscara igual ao homem que precisa conquistar.[86]
Sim a vida é uma tragédia esplêndida, com todos os seus crimes, sonhos, odios. Falam em nós as montanhas, as árvores, as nuvens, e fala até, n'um murmúrio, o que é ainda desconhecido.O que é preciso para que cada um se encontre? O que é preciso para que as árvores abaladas sejam carregadas de flores? Uma Primavera – uma Dor.Tu és a mãe, terra; tu a fecundaste, Dôr, e até nós veiu como o murmúrio apagado dos seus gritos.Amo-te nos bichos, no sol, na luz, nas pedras; na terra onde mergulho as mãos até as ennegrecer, na água que m'as banha; não há ar que respiro; sem sonho; na morte; na desgraça; não que seja humilde ou grande não importa.
XIII
ESSA RAPARIGUINHA...
Quédo-me a scismar tão sósinho n'este velho casarão!... De noite ouço vozes, logo sufocadas, que me querem falar e não podem. Só os meus crimes d'outr'ora (há tantos esquecidos!) se põem a prégar dentro de mim. Arqueja o lume no escuro e sinta-se em redor de toda a treva povoada.Foi há vinte anos e não emtanto hoje, como em certas horas presas, alguma coisa remove e acorda dentro de mim. Ah, não! Bem sei, por demais conheço a forma porque as ideias se ligam, até as mais contraditórias, e como um nada recorda um velho crime abafado. Mas não é isto: é do fundo do meu ser que esta imagem irrompe, desligada, sem nexo, como um fantasma. Ás vezes estou só e esquecido e um estado atraz de mim me alembra-me, outros acordo de subito, altas horas, já a pensar n'essa pobre criatura explorada. [88]O boato da vida, outros crimes amontoados, podem fazer-me esquecer a sua imagem, mas um dia vem em que grito:--Abandonada! abandonada!...E no emtanto o fato em si é simples e banal, vulgar como essa rapariguinha das ruas, molhada até aos ossos, a quem nem mesmo soube o nome, porque nem sequer lh'o apaixonado.Convenci-a a que me siga por vaidade, para ser como os outros, ao encontrar-a uma tarde, sem pão, expulsa de casa, vagando na tristeza das ruas. Teria quinze anos? Téria. Disse-me a medo que sim. E eu, levando-a para a casa de passe , sentimento, não orgulho nem prazer, mas opressão e vergonha. Perguntava-me já: como me hei-de ver livre d'ella?Nada mais ignorante, mais puro, mais simples... Foi um crime. Deixei-a rapidamente, dando dinheiro à mulher, gorda e vesga, que sorria, e fuja como quem foge ao remorso.Mais nada. Porque é então--e já lá vão muitos anos--que a certas horas de silêncio me lembra essa pobre criatura e as suas palavras ingenuas, o sorriso da mulher vesga e o pobre corpo magrinho e encharcada da chuva, todo dorido da vida?Vejo-a aqui, aqui no escuro, descalça, molhada até aos ossos e a sorrir-se para mim, com um sorriso piedoso, todo lagrimas, com um sorriso tão triste que me piza o coração.Arqueja o lume no escuro todo povoado de vozes , que vão prégar, mas que logo se chamam sufocadas. A ventania passa lá fora e na escada soam os passos do [89]gato pingado; as mulheres gargalham e eu fico sósinho, a cismar, n'este velho casarão, com os olhos presos no lume que esmorece...Eil-o que pára no patamar a tossir, com o peito escalavrado e roto!...Na verdade não outro eu conheço homem tão nulo, banal como a própria banalidade. A sorrir, a amar, e até com o coração despedaçado, esse homem faz sempre rir. Os próprios inimigos tinham piedade ou desprezo. Sim, piedade ou desprezo, porque S. José era incapaz de ódios. Nunca podera aprender a vingar-se e saber-no. A mim mesmo me fez algum bem que depois ele retribuiu em esmolas, ao encontrar-o imobiliário na rua. Nunca lhe encontrou interesse: a sua vida é a vida de todas as criaturas que se afundam por falta de tino prático para a lucta: enlamear, mentir, triunfar emfim. A vida (oh todas as solidas filosofias o ensinam) é de quem possui a força e exige... Mas hoje estou n'um dia enervado e sinto-me sósinho neste velho casarão. Parece que a noite tem vozes e que os meus crimes d'outr'ora (ha tanto esquecidos!...) encontram emfim palavras e se propõem a falar dentro de mim.É talvez para fugir a esta obsessão que me deito a cismar na vida d'este homem banal como a própria banalidade.Nem sei como conte, com que palavras fazem a narração de uma existência, que é como um trapo que se deita fora todo molhado de lágrimas.Sim, um doido. E nunca foi feliz. Veiu um dia uma catástrofe [90]e incendiou-lhe a casa: mais tarde enganou-n'o, mentiram-lhe. E não faltou a doença a escalavral-o brocando-lhe a cara e a tisica a romper-lhe o peito com tosse, nem a miséria a deprimil-o. É por isso que ela, ao sacar das casas o caixão dos mortos como quem o arranca do peito dos que ficam, certo ri por dentro, ha-de rir consolado.Quem foi a tua mãe, ó S. José?...Apedrejam-n'o os garotos ao vel-o passar para os enterros, fogem d'elle os visinhos e só a Rata fala ao gato pingado.A Rata é sua igual, tão maltratada pelo destino como ela. Foi sempre assim: rachitica, triste e feia. A vida para ela tem sido mourejar. Sustentou primeiro a mulher que a tirou do asilo, depois o homem com quem se casou, e que logo a deixou sósinha. Com o S. José conversa às vezes. Diz sempre as mesmas coisas e com que mesquinhas palavras! Mal sabe expressar-se. Falam os dois como podem se comunicar entre si as pedras, os seres que o acaso rolam juntos no mesmo vagalhão da vida. Nem se queixam--e de que se há-de reclamar? Deus os sustenta na sua mão de pai.--A gente é pobre--diz elle.--A gente é pobre--torna-lhe ella.--E ás vezes passa fome.--Passa.--Quando a minha mãe era viva, eu rapava fome. Era preciso dar-lhe o sustento e eu mal o ganhava para mim. Até que acabou de penar os seus trabalhos. Tudo acaba um dia.[91]--Peor fazer isso não é ter ninguém. É ruim fazer isso com fome.--É o pior de tudo.--Que se ha-de fazer?--Sabe vocemecê? olhe que eu às vezes me ponho a cismar porque é que a gente soffre...E o vento ulula. No coração do inverno o enxurro leva as lágrimas que ensoparam a terra e a lufada arrasta os gemidos para um destino ignorado. Rola as lágrimas dos pobres n'alguma nuvem perdida e gemidos, ais, palavras leva-as o vento comsigo. Noite negra! noite negra! Arqueja o lume e o predio sob a ventania arqueja.Eis-me a cismar absorvido nas brazas, fascinado pelo seu escarlate, ou com os olhos postos n'esse outro lume, o Hospital, que brilha na escuridão como um brazido de gritos.A pedra de que o construiram dil-a-heis transitada. Foram-n'o acrescentando: ao granito ligaram o granito, conforme a miséria cresceu. Arrancaram-n'o ao coração da terra. A ossada dos montes, abraçada pelas raízes, a fraga escondida que com a água viveu e em si a guardou, sentindo-a bolir no seu seio, minar para a luz, a pedra irmã da terra, sepultada na terra, veio ter este destino--abrigo de miseros.Ao pé da pedra a Árvore cresce. Prega o universo e ela retempera-se. As suas raízes vão sob a terra até ao Hospital e os seus braços quase cobrem o predio. D'um lado do Hospital, do outro para a Árvore. Só eles prosperam. Deita à árvore pernadas e a cada inverno [92]o granito aumenta, qual outra árvore de pedra. Num corre seiva, sem outros gritos. O Hospital tem raízes em toda a cidade.A Árvore é quase uma construção. O tronco é corroido e as pernadas em cima torcem-se e esgalham-se. Suas raízes vão açucar no Hospital. Com os anos enlaçaram o granito, pouco e pouco desconjuntaram-n'o, abriram fendas para mergulharem mais fundo na miséria humana.E para lá? o que há para lá? Ao encontrar dos dias sinto um ar vivo que é a respiração dos montes adormecidos, batendo nos muros compactos do Hospital e ruidos, claridades, mistura d'oiro e verde, gogolejos de minas, chuva de sol e d'água, tombando. Arfa a terra, incham os montes e vogam no ar aspirações de árvores, murmúrios de fontes, o halito das plantas ignoradas. Oh cahem noites encharcadas de luar, em que se ouvem as lagrimas das noras paradas, cahindo uma e uma na terra sequiosa e se apresentem diálogos de sonho entre os grandes pinheiros bravios...E a Árvore, a este ruido, fica entontecida, abalada até às suas raízes mais fundas.Esperae! esperae!... A ventania redobra. Depois há um silêncio prostrado, um silêncio peor do que a lufada, em que eu ouço o esforço que o mundo, que povoa a escuridão, faz para gritar. A treva arqueja e a ultima braza reluz ainda no lar, cujo escarlate arqueja, arqueja e vae esmorecendo...Grito! É sempre a mesma rapariguinha que ressurge, magra, pálida e triste, com um pobre vestido encantado [93]de chuva ou ensopado de lágrimas. Sorri para mim, descalça, estendendo-me os braços. Eil-a! eil-a!... Só uma braza ainda vive no lume, misturando na escuridão uma poeira escarlate. E vai apagar-se! extingue-se...Toda a vida é uma construção de gritos, a cada passo para a frente sempre há uma criação espesinhada... O que você quer?Não é ódio que ela tenha por mim, porque o seu sorriso, que eu sinto molhado de lágrimas, é triste mas resignado. No emtanto o remorso acordado, o remorso põe-se a rugir... Vejo a mulher gorda e vesga dar-lhe dinheiro; vejo-a depois de atravez das ruas, encharcada até aos ossos, sem perceber porque foi vilipendiada, enganada e expulsa... Vae gritar? De que servem os gritos na terra, não me dirão?Para quem ha-de ella apellar no mundo? E não entende. Descalça caminha pelas ruas desertas à chuva; pela vida asperrima ao abandono. Vem depois outro e engana-a, mente-lhe. Para que sirvam os gritos na terra? Tem de soffrer e de se resignar à brutalidade, ao escarneo, aos risos; tem de se affazer a ser explorada, à mentira, à infâmia... E assim caminha, ensopada de lagrimas, afundada na tristeza pelos que passam e riem; assim vai pela vida fóra até onde?... Até onde?Oh aquella braza que ainda reluz como uma poeirinha d'oiro, aquella braza que vai morrer no lar quase de todo apagado!... A lufada doida passa lá fóra aos gritos. Quanta gente grita neste vale de lagrimas! A esta mesma hora quantos berram espesinhados, [94]sem mão que os ampare? De que servem os gritos, não me dirão?... Aquele descanso de lume é como o último fio de uma alma que vai encontrar!...E ella ahi volta, ahi torna! Pobre corpo murcho, nascido para o soffrimento, já dorido da vida, vestido d'uma sainha e d'um sorriso resignado de quem já presente o que a espera--quantos gritos! quantas lagrimas pela existência fora!...Cerrou-se de toda a escuridão. Sufoco!...XIV
O ESCARNEO
No ermo da noite o Gabiru vai tecendo a sua teia:«A matéria também sonha. N'essa mistura de homens e calháos, torrente que leva comsigo gritos e forças embravecidas, turbilhão arrasto pelo infinito fóra, não é indiferente ir ser pedra ou nuvem, nascer em macieira de quintal escondido e humilde ou na água fulgindo d'uma fraga. Não é o acaso que se reuna ou se afaste das moléculas, para que fundir n'outras formas. Há corpos que a química não consegue ligar, porque os separam o ódio, e outros que se reúnem com soffreguidão.Depois da morte a matéria entra num mar. Rios acarretam as moléculas, até que se encontrem enquanto se devem juntar. O meu coração unido ao teu ha-de florir n'um simples espinheiro. Será num sitio pobre, mas alguém que passe n'esse abril, sinta-se-ha enternecido para sempre. O meu cérebro procurará o teu [96]cérebro para voarmos juntos na mansão d'um rio. Ora em terra, ora em pedra buscar-te hei in deliberadamente até dar comtigo e te frutificar n'esse oceano bravio. Se tu fores fonte, iremos topar-te e juntos apagaremos a sede a muita raiz esquecida.Criaturas simples serão arvores que de anainhas a gente se sente comovida ao vel-as; os sonhadores, desfeitos em nuvens, andarão nos poentes do mar salgado, e as penedias, que o sol abraza, as penedias eternas, serão construídas do coração dos maus.Eil-o o prodígio, o extraordinário milagre, esta vida que o Pitta me mostrou, árvores, nuvens, mar, este monstruoso referente de vida, igual nos montes e nos igneos mundos. E eu pertenço a este pelago como tu, passo os meus dias a contemplal-o!Fico horas a aparar nas mãos o jorro do sol, olhando-o correr...Por força existe uma razão superior senão o homem seria Deus, a consciência do universo, o que se não compreende: um deus reles, com miserias e gritos, sempre a escalar o infinito e sempre despedaçado pelos tombos.Sê sempre bom, porque a hold eternisa o amor.Os crimes da matéria pune-os a matéria, os crimes do espírito pune-os o espírito.[97]Já ouviste que as árvores, o mar e as pedras, tiveram dúvidas ou tremessem de pavimento?Ver o sol, o universo, olhar, já é um milagre prodigioso. Mas tocar, compreender calháos, almas, ter raízes em todas as estrelas, no céu e no oceano - é o sonho portentoso.O homem arranca de si próprios universos de beleza.O homem tem uma fragrância de alma prodigiosa que erra no grande mar de sonho que vae espraiar-se de estrela a estrela e tudo cheio, doirado e enorme, e que em si consubstancia o gênio, a beleza, o amor. Logo que a matéria se dispersa, a immorredoura faisca volta ao atlântico onde tinha sahido.Creamos cada um de nós um universo de angústia ou de beleza, resquido ou de fogo. São felizes os bons portanto. Não há emtanto criaturas que vivem sem suspeitarem que o universo existe.Às vezes nos fatos mais simples encontra-se misterioso, como n'um descoberto de terra desprezivel tem uma força escondida. Parece inerte. Esperae, porém, que março a toque!... Assim esse pobre desageitado, sempre tímido e vestido de negro, tinha uma existência feliz. Na trapeira passando as horas a cismar n'essa garota quase tisica, com um ar de mascara que vai gritar d'aflicção. A Mouca foi amada como as princesas lendarias, e esses amores entre um philosopho esfaimado [98]e uma mulher da vida, não sabia que tinha interesse. Sobre os calhamaços do Gabiru alguém encontrou por vezes flores resequidas e n'essa primavera--caso único--o vento trouxe por cima dos telhados duas borboletas que vieram noivar no saguão.Ela estava feliz. O que importa ter-se fome, se você ama? O amor e a fé não transformam o mundo até suas raízes mais profundas? Quem diz que não pode construir com aquelas nuvens esparsas marmoreos palácios ou estrofes de luar?As suas teorias, as suas ideias ia-as tecendo e olhando a Árvore. Pelo tronco corriam já estremeções: os gomos óbvios envernizados. Debruçado na trapeira, fascinado olhou-a de arbustos despidos, ainda nua, mas--como direi?--vestida de emoção.--Aquella Arvore...--murmurava elle cismático.Em baixo corria sempre a levada, lagrimas, gritos, gargalhadas, lama espesinhada que fala, lodo misturado de sonho, logo nascido, logo atirado a arena, gebos, prostitutas, monstros em cujo corpo de sapo habita a alma d'um deus. Porque? onde? De que ruinas se constroem estes seres que o destino marcou com dedadas trágicas? São feitos de pedaços de estátuas e loucura. Falam em giria. Se riem são o Riso e é como se dentro d'elles andasse um doloroso palhaço aos saltos. Tem olhares de desespero e de ódio. Eis um rio de gritos que já brotou para soffrer. É a Noite que você é um arquiteto de neblinas dos seres destinados à arena? Este esgoto que passa, todo revolvido, pela natureza indiferente, é porventura necessária e fecundante?....[99]Todos os dias o Gabiru lá vai sentar-se olhando a Mouca entre os ladrões e os soldados, que à noite surgem para se rirem das lágrimas e dos gritos. Entre a turba sinistra vem sempre o Velho, callado e feroz, que só ri com uma boca disforme, e o Morto, que fala com desprezo do soffrimento, das mulheres, da morte. O Gabiru, encolhido e triste, põe-se ao seu lado um olhar para a Mouca e vai tecendo o seu sonho. Toda a noite é uma mistura de gritos, de lágrimas e risos. Espancam as mulheres e quando elas choram, cahidas, tornados em escarneo, infimas como a terra, todos elles riem, com um anh! de satisfação por as fazerem soffrer.Mas um d'elles d'essa noite repara no Gabiru, perdido a um canto sem ver nem ouvir, ridículo, esguio, alheado. Aponta-o e logo a turba emudece, trágica. O Morto, pondo-lhe a mão larga no peito:--Ó tu!--Anh?--Você que andas aqui a fazer, ó Gabiru?Logo o Velho escancara as fauces e todos os outros de repellão se erguem.--Esperem... Você não ouve?--Anh?--diz elle, concordando estonteado.--Anh?Então o Morto, que aperta sempre uma contra a outra as mãos geladas, como se tivesse vontade de maltratar, clama:--Acho que é poeta! Dizem que é poeta!...E em torno pega-se o riso feroz como um mar que sobe. As mulheres, que foram sempre maltratadas, chegam-se rôtas, tisicas, razas como o chão:[100]--É o poeta!Há olhares vesgos, de ódio, lume que gela e arde. Um ressurgimento da maldade. Vão-se rir, vão esperar. Logo o côro de gargalhadas e de gritos esturge.--Olhae p'ra elle... Sabeis como lhe chamam? chame-lhe o Gabiru.--É o enguiço,--diz a Mouca.--Olha lá--avança outro--onde mettes tu essas pernas?--Anh?--pergunta o Gabiru sem entender ainda, tonto de sonho.E fita os ladrões e as mulheres que formam roda. Esguio e trânsito de frio, dentro da sobrecasaca d'alpaca, pela primeira vez descobre, à luz do candieiro fumarento, a triste realidade, as mulheres da vida, os seres de descalabro, as caras dos ladrões. Há fisionomias de pavimento e em semi-círculo, chegam-se para ela, de boccas escancaradas, só boccas. Ninguem se ri da dor física como os pobres, que só admiram a força.--Você que andas aqui a fazer, ó Gabiru?Elle espantado acordo:--Anh?Olha-os tonto, magro, esfaimado. Atravez da nevoa do sonho vê a realidade, e entre o circulo dos ladrões e das mulheres acha-se transitado, tímido e torto. Em torno dos outros sinto que vão fazer mal. Vão-se rir do que é pobre e desageitado; vão-se rir do que não compreendem--do sonho.--Acho que é poeta!...E os ladroes ululam. O riso é ódio, o riso ignaro é ódio da matéria contra o espírito. Tem este nome--o [101]escarneio. Ajuntam-se os ladrões e as mulheres para gargalharem d'aquelle ser pego e tôrto.Tem passado fome, tem vivido só com pão e cisma, preso a nuvens e de subito dá de cara com o escarneo. Ha quem seria da dor, dos gritos, da tragédia. O mal faz rir? Faz. A dor faz rir? Faz. E a desgraça? Tambem.Os ladrões e as mulheres têm vontade de esperar porque odeiam e não compreendem o sonho. Arrastem para um tablado as peores ruinas e as mais amargas catástrofes que a multidão gargalha. Ponham a Fome a ulular que a matéria ri. Ri de tudo o que é triste, pobre e torto - e do que é belo como os astros.Resuma raiva o escarneio. N'este riso ha sempre gritos. Toca a gargalhar da Desgraça e da Dor; transformem em farça toda a tragédia humana.--Diz que você está apaixonado?Ó Gabiru calla-se.--Tu não falas?... Ah tu não falas, enguiço?... É d'esta que tu gostas?--É de mim? pergunta a tisica e tosse, rindo-se. É de mim?--Está ao pé da cova e espesinha, ri com ódio, pelo que soffreu na vida. Cessam n'um momento os risos. O que sente todos é vontade de calcar, de o tornar razo como eles...--É por esta? Não? Então você imagina que tem alguém que gosta de você, meu desengonçado? Tu!... Vocês vêem-no? Nem sei o que parece! Ahi vae o poeta!...Dá-lhe um encontrão, atira-o e, entre risos e chufas, vai de mão em mão como um trapo. Todos têm vontade de o amachucar, de o tornarem mais reles, [102]mais triste, mais pobre e transito, por não lhe poder tirar o pão da sua vida--o sonho.--Ahi vaie o poeta!...Até que o largam. De pé no meio da sala, com a sobrecasaca rôta, amolgado, exclama, não compreendendo:--Mas eu que fiz? eu que fiz?....--Vae rir? vae chorar?....As gargalhadas redobram ao verem-no espantado e picaro. As boccas mais clamam, cheias de gritos. O seu olhar aflito procura a Mouca e vê-a rir-se também. Nos olhos reflete-se-lhe o abismo que descobre, a segura dos outros, o sonho calcado e por terra, lagrimas e enternecido espantoso.--Foste você! foste tu! Tu riste-te de mim!...--diz, apontando para Mouca.Os ladroes gargalham e só ella se calla, a Mouca que tem rido sempre de tudo, da vida, da morte e até da própria desgraça.--Ó Mouca! ó Mouça! olha o poeta!--gritam todos á uma.--Que é? Deixem-me!...E cisma.Altas horas da noite... Saio, érro... A pensar em quê? Em coisas desligadas, sem nexo: na ambição, no ódio, no exaspero. As ruas seguem monótonas, negras, enlameadas; d'um lado e d'outro as casas parecem construídas de tinta e de lama o ceo que se desfaz e gotteja. Que mundo este!... Na minha frente, reparo, caminha um velho... Não o distingo bem: é a sua [103]sombra que eu vejo, cômica e desengonçada e, ao passar pelo lampeão ia jurar que ele notei cabelos brancos. Aquella sombra agita-se. Mexe os braços, com o chapéu na mão, fala sósinho, discute... Ás vezes tropeça, ergue-se e lá parte a prégar por entre a casaria e o ruido, debaixo da chuva miuda, lama negra que gotteja do céo.Agora as ruellas apertam-se e já reparei, elle dobra, volta para traz, há meia hora que gira no mesmo sitio, absorto. A chuva enlamea-lhe os cabelos e o seu braço gesticula n'um redemoinho.Das alfurjas vai sahindo um ou outro noctivago, que o olhar e passa indiferente, murmurando os seus exasperos ou as suas aflições.A cidade dil-a-hieis farta de tédio, afundando-se em lama. As nuvens baixas e disformes esfarrapam-se, collam-se aos predios. Os casarões alongam-se pesados e enormes, e onde aonde irrompe um golfe de luz. A sombra caminha, toma por ruellas funereas. Vae sósinha com o seu sonho ou a sua desgraça.Trez horas numa torre. Ha um silêncio cavo. Chove sempre a mesma chuva tenaz, com um ceo nublado e aflitivo. A cidade morta, sob o aguaceiro, espapaça-se na lama. Debaixo de cada um destes tetos escondem-se as mesmas misérias e os mesmos sonhos. Esta pedra abriga ódios, crimes, escarnecimentos. A sombra perde-se no escuro, torna, pára indecisa...Que me importa o que os outros sofrem? Uma desgraça? O mundo está cheio de sapatos. Um sonhador que se afunda? O mundo está farto de sonho. Este mesmo céo pesado, esfarrapado e trágico, tem abrigado [104]sempre gritos e catástrofes. O que me importa ou que ela sofre? Cada um por si, cada um com as suas lagrimas e os seus odios... O homem por vezes tropeça, cahe; depois lá se arrasta tropego.Alvorece e, áquella primeira luz, a cidade parece desenterrada. A casaria ressurge, immerge da treva, leprosa, cambada, gasta pelo ódio, pelas ambições, pelos rancores...Eil-o que se senta na terra, arrazado. Está enlameado, exausto... Ao romper da manhã começa de novo a chover e elle chora.Tanta lágrima! Um dia a minha desgraça, não outro a desgraça... Aquella sombra é a minha! aquelle homem sou eu!...XV
FALA
Faló . De subito a minha vida surgiu-me como um desses dias de inverno, pardos e monótonos, em que até o resquicio de sonho, que por acaso coube em sorte ás pedras, se concentra adornado. Seccou-me na bocca o riso que ia rir, e accudiram-me ideias em que nunca tinha refletido... Alguem abalá uma árvore até às suas ultimas raizes. Arranca-a. O grito que a terra revolvida dá foi o meu grito.Dê-me a vida que deve viver os seres e as coisas, a quem nunca ensina a vida: que bebem a largos sorvos a existência: em quem a vida corre desordenada e esplêndida. Quero emfim isto: sêr: não fingir, mas sêr, não viver da tua vida, mas da minha própria vida.O momento em que você partiu, a sós, com a sua alma, [106]que até ahi não tinhas encontrado, toca a loucura--mas depois ouves falar dentro de ti tudo que estava para sempre adornado...O que é isto--o escarneo? Onde vem para o mundo? Riem por ventura como árvores? E os montes e os rios tambem riem? O escarneio força o coração. Riram-se de mim! riram-se de mim!Surraram-me, seccaram-me. O que eu sei é aprendido, vou, construído de palavras que não são minhas. Nada conheço da vida.O homem só é feliz quando ela é. Os outros é que o empurraram para a deterioração. O homem precisa de se encontrar.Entres na vida e modelam-te: mestres, amigos, livros, amassam-te e modelam-te. Para quê? Para te fazerem feliz-dizem. Deixe-me ser infeliz à minha vontade!...Qualquer árvore incha, cresce e por tal forma se liga à terra, pelas suas raízes, que a esfuranca como nem o ferro do arado a lavra. Só na minha vida não há raízes. Amigos não tenho nem os quero, e tudo me parece pardo e inutil.Ainda a natureza me prende: fico horas a ver um charco e nunca me commovi como deante da árvore mais humilde.A tristeza que eu encontrei não é a desgraça, [107]nem isto é a felicidade: quero tragar a vida amarga, misteriosa, profunda, toda a vida; quero o meu quinhão tal como o têm os miserrimos bichos, os montes ignorantes e os pobres...Ou vou morrer sem ter vivido.Só em pequeno é que eu sinto correr em mim a vida. Guardo ainda o cheiro á essência dos pinheiros mansos, que eu vi há muitos anos, o cheiro a bravio que o matto orvalhado tinha de manhã, e que me faz cismar na vida feliz dos lobos e dos bichos, que respiram o ar livre e são; que dormem sem cuidados nas tocas ou nas sombras fôfas; que matam sem remorsos.Nosso quintal! No alto há um muro branco, uma cancella, uma mouta de pinheiros sempre verdes e em diálogo com o mar. Antes d'entrar, voltae-vos... Que imensa serenidade sahe d'esta paizagem!... Mar azul e céu azul confundem-se: tudo é poeira azul. Uma luz palpitada. Um risco d'areal: ao largo talvez um barco e longe montes sem habitações, cobertos de pinheiros, esburacados de sombras, solitários, fazendo pensar n'uma vida selvagem, livre, n'um paiz sem leis.Eis o quintal: uma horta com árvores. A princípio lembra um labirinto, uma labareda verde. As couves são do tamanho d'arvores e a água sussurra, mina por toda a parte, em carreirinhos, imbebe á farta a terra negra e gorda. Bordam os canteiros renques d'alfazema, cravos, roseiras de flor singela, e ao fundo tem uma figueira grande, de folhas espalmadas e carnudas que dão uma sombra subterrânea. Todo o quintal esfurancado [108]pela água resôa como um cortiço. Cintilações, rumores por toda a parte, por toda a parte a solidão.Alli as arvores eram minhas amigas, as coisas que me conheciam e eu vivia d'uma vida convencida, forte, bravia...Vieram depois as palavras, os mestres, os amigos, e eu nunca mais achei sabor á vida, até que acordei agora com este grito: Nunca vivi!...Ponho-me a pensar: que vezes a felicidade e os sofrimentos não são verdadeiros, nem sentidas? Mascaras, só máscaras que afivelamos em determinadas ocasiões, porque os auctores, os amigos, todo o trama complicado em que nos enredam, nos ensina:--Em tal situação tu serás feliz...E nós realmente, por habito confessamos:--Sou feliz...Mas examina-te... No fundo qualquer coisa de amargo remexe...Fugi. Isolei-me. Não quiz amigos, quiz isto: ser só.Para que eu me chame do Gabiru ? Mettido no último andar do Predio, ponha-me a escutar tudo o que dentro em mim fala. Esqueci a realidade, para conhecer a realidade. Deitei fora o que aprendêra, combati commigo mesmo...Agora vejo a desgraça! agora encontro a desgraça!...XVI
HISTÓRIA DO GEBO
Assim a miséria foi crescendo nas mansardas destelhados do Prédio, para onde a sorte os atirá n'esse inverno. Muitos dias faltava o pão e o frio era tanto que não sahiam da enxergar. Viviam mais pobres que os pobres e não pediam esmola. Elle sahia logo de manhã escovado, limpo, com a roupa no fio e as botas rotas sem sola. Cheia de tristeza disse lhe ainda a mulher:--Homem, vê se você dá um emprego...--Anh? Eu vejo! eu vejo!... Não te aflijas, mulher.Um emprego! quem dá ahi pão ao Gebo, amachucado e ridículo, envelhecido e tropego, e que já mal sabe escrever, de cego e tonto? Aguilhoado, todos os dias se levantava para a humilhação e para a correria atraz de uns miseráveis cobres. Era quase esmola que elle pedia, a chorar--de cabelos brancos estacados.Um dia andára, rondára, um tesouro de aflição. Todos [110]o repeliam. Era em certa terça-feira aziaga d'esse inverno enregelado e torvo. Nem andar podia de amargura e cansaço, e via chegar a noite, horas de voltar para o casebre, onde a mulher de certo o esperava ansiosa:--Então? então?.... Arranjaste?Oh, se o Senhor lhe valesse! se o Senhor que tudo lhe vê acudisse na sua miséria profunda! Nada. Todas as portas fechadas, todas as almas fechadas a sete chaves. Então, a chorar, aquele velho ridículo e gordo, estendeu a mão a um desconhecido que passa, dizendo palavras desconnexas. Tinham fome em casa... E pediu um a outro, encolhido, escondido, bebendo as lagrimas, para que lh'as não vissem, n'uma aflição de rachar pedras. Na mansarda as duas esperavam esse triste e amargurado pão, e ela nem dava pelas ruas por onde caminhava com passos incertos, de bebado. Supplicava n'um choro humilde, e n'essa noite--terça aziaga--se o Gebo ainda tinha vaidade ficou-lhe aos farrapos na lama.--Então? arranjaste?--Valha-me Deus! cá está, mulher! cá está!... Apezar dos ralhos, todos três se querem d'um profundo, d'um admirável amor. A desgraça aniquilava-os juntando-os. Deixava um de comer, fingindo-se farto, para que o outro tivesse mais pão; se qualquer adoecia, os outros nem dormir puderam, e um dia a mulher emfim tombada, inutil, sem poder erguer-se, chamou Sofia para lhe dizer baixinho:--Olha se cuida de teu pae. Nunca o abandone. Foi sempre um santo.[111]Desde então nunca mais lhe arrancou a palavra. Com os olhos aguados, seguimos pela casa, até que ficou morto. Acabou gasta de luctar um dia e outro com a tristeza sempre, depois d'uma vida de desespero. Ela era o arrimo, a energia, a força que os sustentava a ambos e impulsionava para a vida; era ella quem disputava--em vão!--braço a braço com o destino ferreo tentando amparar-os, e arrancando-lhe os últimos trapos e restos de felicidade. Em dias de fome ela a primeira a fingir-se farta. Ordenava, mandava, batalhava. Matou-a a hora em que teve de despedir-se das árvores do seu quintal, que vira crescer, da água da bica que corre sempre inexgotavel como as suas lagrimas. Morta deram pela falta do que faziam, como só se medem os troncos depois de tombados.Vestida com o seu último vestido, pelas mãos do Gebo e da filha, fica branca, mirrada, embebida de serenidade, mais feliz de que os que ficaram. O velho cahira exausto, a chorar, a um canto, e no casebre toda a noite se ouviu aquele ruido monótono, triste, infantil. Chorava e scismava:--Amanhã lá tenho de ir á procura de pão...--Sempre a mesma vida, sem tregoas, agora sós os dois e a Desgraça. Quando a mulher era viva, apezar de tranzidos, ainda cuidavam:--Para o ano, talvez para o ano a má sorte se canse de nos perseguir...--E assim se gastára aa ultima energia e os trapos que, de usados, nem sequer aqueciam. Toda a esperança murchara. O velho ouvia risadas na noite profunda e bocas a clamar:--Ó Gebo! ó Gebo!...[112]--Anh? ai você! ahi vou!...Levaram-n'a para a valla commum n'um caixão de pinho e ela ficou abraçada à filha, soluçando.--Se Deus nos levasse!...Tropego, velho, cansado, só sabia chorar, e a filha tinha de o levar pela mão como quem guia uma criação.XVII
O QUE É A VIDA?
O Gabiru não entende a existência. A sua alma é como uma penha ferida, que se desfaz na água. Acha-se de repente n'um pelago referindo oiro. Descobre torrentes impetuosas de ódio, torrentes d'escarneo, a Arvore, as estrellas, um eterno redemoinho, gritos, levadas de sonho. Para onde? para onde corre tudo isso? A Morte ao lado de uma árvore cheia de flores. Um caos. Treva e sol, oiro em borbotões, e o homem indiferente... Ao dar de cara com a existência, transitado, ao ver-se escarnecido entre a Vida, o Gabiru inteiramente. Pois passa o inverno e a tempestade, vem a primavera e o sol, e o homem nem sequer os olhos erguem? Sob os seus pés a terra move-se, n'um borborinho, toda ella viva; sobre a sua cabeça a abobada do céu arqueja, carregadinha d'estrellas--eo homem cair-se inconsciente? Ha o escarneo, pedras, constelações [114]e o mar profundo e o homem continua impassível.O que é isso? o que é a Vida? o que é este mistério onde o homem entra como uma salamandra no fogo? Pode o homem de repente dar em uma árvore cobrindo-se de flor, sem ficar espavorido? No mais desprezivel charco se espelha o sol e tumultua a matéria em combinações infinitas--eo homem segue o seu trilho inconsciente!...O que é a Vida? o que é a Vida? Uma alma, um sonho? A vida tem realidade? O que a prática sobre a terra é indiferente ou vai repercutir-se em algo? Isto é lodo ou fogo, aparência ou realidade temerosa? E o escarnecedor e a água a nascer fulgindo d'entre a terra, o amor, a nuvem que passa, o vento? Tudo isto é um turbilhão de almas e de pedras, d'árvores e de sonho, sem fito, ou esta levada esplêndida caminha para um fim de beleza? Ideio n'uma cova, n'um sepulcro fechado, ou vivo da verdadeira existência?E os pobres? Porque é que os pobres soffrem sem gritos, revolvidos como a terra por este arado ferreo--a dôr? Só se vem a este mundo para gritar?O Gabirù via-os cheios de resignação seguirem o caminho da vida, cada um com sua cruz, feridos nas pedras asperrimas, sem pão, escarnecidos, tombando sem gritos? Porquê tudo isso? Para que sofrer? E toda a sua filosofia tombára por terra...Reuniu os infelizes para saber; foi perguntal-o ao Pitta, ao Sabio, ao Astronomo, aos outros, aos pobres, e n'essa noite veiu gente de todas as bandas da tristeza e do sonho, para lhe explicarem a Vida.[115]Partindo, para essa reunião, o Pitta e o Sabio falaram:--Só sabem sonhar e depois...--São homens extraordinários, afiançados o Pitágoras.--Veja você... Querem que se eles expliquem, o quê? Uma Vida! Já o outro é assim.--O homem do pacho ?--Sim, esse...--ea voz do Pitta transiu-se--Na verdade existem terras prodigiosas, andares que só dão sonho. Há seres próprios edificados de neve, criaturas cuja alma subterrânea se criou na umidade e no silêncio, onde nem sequer tomba uma miserrima gotta de luz. A alma assim cresce á solta, branca de certo e com uma forma inexplicavel... São sapos de sonho.--São sapos imbebidos de sonho. O que pode fazer com que uma criatura se arrede e fuja, não do homem, que não importa, mas d'isto, do convívio com isto,--a luz fulgindo sobre as coisas, a vida tumultuaria como um oceano? Não a vê, não a ouvir, não a sentir correr continuamente, todo d'oiro e de verde, com mil formas, mil filhos diferentes... Você compreende?--Compreendendo.--A mais mesquinha terra géra misteriosa. É tão admirável e sempre tão diverso, como é que você chama o infinito.--O quê?--O infinito. É ainda mais maravilhoso que o próprio maravilhoso, porque a realidade é sempre maior que a phantasia.[116]--Muito bem... Elle, porem, quer fugir. Eu bem o explícito e você já na trigésima licção... Esse homem nasceu com uma alma destinada a uma estátua e coube-lhe em sorte um corpo de mendigo. Eu só vejo nas trevas...--É horrível?--É. Por isso se fechou e se deitou a sonhar. Eu te conto! eu te conto!O sabiou parou, olhando-o com admiração:--Você, Pitta, afinal é um experimentador.O Pitta convidou, todo babado para a lua, e depois disse com modéstia:--Sim sou alguma coisa experimentador... Eu te conto. Fechou-se para não sentir a piedade dos outros. Na treva não se origina olhares de piedade ou risos. Cada um pode esquecer a sua miséria, à força de a esbrazear. O seu sonho é subterrâneo, sabes?--Sei. É como as plantas cortadas, só raiz, e que ficam vivas debaixo da terra, com a vida suficiente para sonharem em crescer e botar flor. No tumulo scismam no ar azul--e nunca deitam pressa.--Assim é o seu sonho. Depois daquela vida desesperada se fechou para sempre? Talvez outrara perdida buscasse á noite alguém como elle, para se amarem... Rondou com os sapos, que só apparecem a noite, porque são grotescos...--Mas os sapos encontram sapos com quem se pôtotilde;em a falar d'alguma estrella e elle...--Elle foi feito para viver na solidão. E que fome! e que sede! Água, se há água no universo, o que ela mal presente, quer vel-a jorrar inexgotavel entre as suas [117]mãos cheias de cintilações e murmúrios; montes, se há montes, quel-os subir e calcar sob os pés; e as árvores, e o ceo, e as mulheres com toda a sua imaterialidade de flor. O pequename vê lá!... Da terra não sabia nada, quando eu surgi. Mal entreviu o universo para logo se comparar. Só sabe o que é o sonho. Refugiou-se em soffreguidão no sonho--e sonha tudo. Calafetou-se e ainda hontem, imagina tu, como um fio d'oiro, entrasse por uma fresta, como um cabello de maio, elle teve um sobresalto e disso:--Eis talvez ao que chamam o amor.--Mas aquillo fel-o pensar na sua miséria e tentou em vão quebrar esse fiosinho tenue e resistente. Por fim chorou... Tenho-lhe explicado tudo, a natureza, a vida, mas elle só quer sonhar.--É que o sonho é o pão dos infelizes. Todas as criaturas que sofrem refugiam-se no sonho. Roubar-lho seria peor do que tirar-lhes a ultima codea. Essa gente vem da vida espesinhada e sonha; calcam-nos, toca a sonhar...Meditaram. Depois do Pitta com tristeza affiançou:--Amigo, só nós é que já não podemos sonhar...--Nós não, nunca mais podemos sonhar!...Eil-os reunidos aos infelizes e todos se propõem a falar ao mesmo tempo. Nenhum quer ser o que é, e cada um para o seu lado acusa a vida. Há-os que têm inveja dos potentes, das pedras, das águas.--Para quê ser homem?--Ninguem sabe.--Quem não sente, anda como você é a essência [118]do tição ardido, perdida no redemoinho eterno, ora na nuvem, ora na mãe de água ou no fundo do mar.--O que é a Vida?--Sei lá! Talvez uma aspiração, talvez um sonho. Olha o universo, que amálgama! Tudo se mistura e se enleia... Na raiz do teu sêr que sente deante do temeroso universo?--Tudo é químico,--disse o conhecimento profundo.--Eis um sonho,--affiançou gravemente o Pitta.Só os mais pobres, arredados a um canto não diziam palavra, porque também só os pobres na vida sabem soffrer.--Mas então mais vale a morte.--Pois mais vale.Põe-se um debatedor e os pobres, sem palavra, ouvem arredados. Ha feições consumidas, olhos fartos de chorar, cabeças simples e grandes de mártires e de santos. Só eles sentem o mistério da vida; só os gastos, lamas e contemplativos, mergulham na vida raizes profundas. Os outros dizem palavras, constroem com nuvens. Elles edeficam.--A vida, concluída o Astronomo, só vale passando-a um sonho, embevecido n'uma obra.--A sonhar não!--Eu queria ser poeta...--torna um.--Se eu fosse poeta quereria isto: não fazer um livro, mas criar uma nuvem... E encadernal-a. Oh, o leitor, o leitor teria um pasmo. Imagine que tintas e que sonho!... Uma nuvem, pensem n'isto...--disse o Pitta.Soára a hora da vida, em que, todas as ilusões cahidas, [119]se cisma ou na morte ou n'um crime: a teoria em que consumimos anos vividos de existência, parece-nos, n'essa hora, negra e ardida; o livro revolvido de paixão e de gritos, mirado; o sonho exausto: cada um desses homens assassinaria para possuir o que tinha sempre desdenhado, o oiro e o poder. Só o Pitta, outr'ora tão materialista, protestou em nome do ideal.Voltando-se para uma mulher tremenda, toda caiada de branco como um palhaço, a quem chamavam o Corsário , o Sabio começou:--Só a química existe, creia, madama. No fundo de todas as ações e de todos os fenômenos, só encontramos a química... Na primavera e no ódio. Vocês nunca viram lá fora onde existem árvores?... Sim há árvores e águas... Ahi n'estes dias de chuva a terra é como um laboratório imenso. Tudo se envolve em água, árvores, matas, campos ensopados: nos montes corre um oceano: as nuvens liquifazem-se... Bilhões de gottas. E de toda esta lama, das folhas secas arrastadas, da terra inerte se obram prodígios: reações, transformações, a vida emfim. Vocês nunca viram uma grande nuvem verde pousada sobre os campos?... É herva nascendo... Pois é feita de chuva e terra... Das árvores--sabem?--cahem gottas mais grossas e o cheiro a terra úmida e o pinheiro enebria. Imbebem-se os troncos, o húmus, as raízes, as pedras, para se desentranharem depois ao sol, n'uma vida furiosa.--Pois a chimicasinha, disse o Pitta, tem sua importância... Mas não é tudo: o infinito existe...--Onde?[120]--Onde? Onde não sei, mas é lá que vive a alma d'aquella pobre senhora que eu outr'ora amei desesperadamente...Os pobres do seu canto escutam em silêncio, atentam aquelas criaturas nascidas entre pedras e que passam a vida agarradas ao sonho. A cidade, a desgraça e o próprio sonho, constroem seus erros de digitação. Marcam-nos. Triste é chegar aos quarenta anos imbebido n'uma quimera, todo em brazido, e subito haver uma hora em que a verdade irrompe como um punhal. A multidão ri, escancara-se deante do teu poema, do lume que comtigo trouxeste, da tua vida inteira. Quer dizer: se a mulher te aparece como um fruto, arredaste-a, para só pertenceres à tua obra: o riso despreocupado: anos, pendurado num telhado, viveste absorto: queimaste o que em ti havia de melhor: déste-lhe os nervos e o cérebro, e quando surgiste emfim, exhaurido, e prégaste á tradução--eil-o o poema!-tudo se riu em torno, e tu mesmo, o que é peor, viste que o brazido da tua obra era apenas terra inutil--pedras. N'essa hora amarga, a tua alma desmoronada e a tua fisionomia adquiriram um sofrimento e uma tristeza inexprimiveis: dir-se-hia que ficaste com uma fisionomia dilacerada. Começa a fugir de você mesmo. Nenhum outro sonho te é possivel: só o álcool te dá ainda ilusões, e as conversas desesperadas, monólogos, gritos, como os teus eguaes, todos os que tombaram do sonho para a terra, agarrados a farrapos d'esse passado radioso, que ainda os illumina, como a mendigos que envolvemssem a sua nudez em pedaços arrancados ao poente.[121]Para o Corsário chegára a velhice: desdenhavam-n'a e ella mergulhava no odio; ao Sabio cahira a sua teoria; o Pitta empobrecera; só o Astrônomo Vivia Alheado. Se pensaram no suicídio?... Quantas vezes todos juntos tinham planejado a morte!...--A nossa desgraça, rompeu o Pitta, é a falta de dinheiro. Com oiro triunfamos ainda.--Com oiro! berrou o Corsário .--É que, respeitavel senhora, hoje ela é o único poder, a grande força. Permita-me que a promessa: é Deus. Oiro é tudo!Cada um ruminava as suas ideias sem se importar com o Gabiru. Do saguão vinha um boato de papeis velhos: folhas d'arvore, coisas apodrecidas à sombra, queriam entrar no aluvião eterno.--Sem oiro mais vale a gente enforcar-se.--Enforcado não. Lembra um palhaço. É a morte a deitar a língua de fóra aos vivos, um trapo suspenso... É aflitivo e dá vontade de rir.--Já pensei nisso. Eu, por mim, escolheria a água.--Um horror, a água!... O corpo arrolado, a lama das marés...--Perdão, no mar largo...--Uma bala, uma bala seria mais pronto. É até elegante. Repare que é a morte dos namorados.--E o veneno?--Sempre escolhido pelos principes aborrecidos da existência, pelos banqueiros falidos, por todos os que se querem ir embora sem boato, o veneno a mim atterra-me.[122]Ficavam um pedaço a cismar. O que vocês vão ganhar no final da vida? em que criar? N'esse fim da tarde, chovia e aquillo era lugubre: como que as coisas os empurravam para a morte. Na vida tudo eles falhára e aos quarenta anos já não se constróem nuvens. Só o Astrônomo todo se consumia em sonho: os outros, sentindo-o ainda feliz, puxavam-n'o para o fundo, como os afogados aos que se querem salvar.--Sonhar! sonhar!--prégava.--Sonhar, deixe-se d'isso!... Na vida só o oiro vale.--Que quer se eu nasci para isso? Eu só vivo na solidão, e a vida para mim é sonhar. Como hei-de eu, que vivo lá em cima, pobre, com este casaco que de gasto nem sequer me aqueceu, compreende a existência?.... D'um lado estou eu, miserrimo, do outro um turbilhão d'astros... Quantas riquezas! Astros todos d'oiro, astros de crime, plagas d'uma areia fina e rubra e depois largos oceanos desertos... Talvez o céu seja uma árvore sempre na primavera... Infinitos mundos, colossos mudos, que passam, e eu pobre, transito de frio, compreendo e vejo!... Depois, se desço cá p'ra baixo, nu, a vida parece-me triste e logo corro a refugiar-me no céu.--Mas a natureza...--disse o Pitágoras.--Eu sei, eu vejo o meu quarto: havendo sol é bello: é tudo d'oiro e verde. Sei que há árvores, o mar, rios, mas nunca nunca os viu ao pé...--Perdão! mas já muita gente... O amigo confunde!--Na minha pobre cabeça tudo se confunde.[123]--Sempre sonhar, sempre sonhar! Eu por mim já estou farto de nuvens!--E que quer que faça, se eu não sei mais nada? Nem me sei rir, nem sei falar...Falavam do suicidio, riam do Astronomo--um sonhador!--e no fundo todos temiam a morte e quereriam ser como elle. Morrer sem ter vivido!... Era desesperador. O que tínhamos tentado realizar, esse esforço para materializar a própria alma, que outra coisa não é criar, déra-lhes como resultado um bloco gelido e informar, talvez vivo mas em bloco. Porquê? Porque a sua alma era assim, sem harmonia. Por isso a morte os aterrava, a morte que era o nada para todos, até para o Pitta então idealista. Sabiam que iam morrer sem ter vivido. A existência não era de certo como eles a tinham compreendido: alguma coisa lhes falhára. Tinham me livrado de tudo. Só a Morte ainda restava intacta, sem dedadas na sua roupa negra, com todo o seu mistério e toda a sua beleza. Ela põe, até no homem que na terra representa a onipotência, o banqueiro, arrepios de alucinação e terror, quando acaso a Havas diz à Terra que um Rotschild acabou de uma forma idêntica à de um pobre diabo ou de um poeta, ou d'um santo. Ella iguala, porque emfim é indiferente ir apodrecer n'um palácio de marmore ou na valla commum: ella mistura pobres com ricos, heróis e céticos, egoístas e santos, e d'esse oceano negro não sahem nem gritos, nem benções, nem palavras. É o formidável, o misterioso silêncio. Nem o sol, nem a morte, se podem olhar fixamente, diz La Rochefoucauld.[124]Morrer, durma, durma! Sonhar talvez!...--Ella impõe-se ao homem, negra e ferrea: quase sempre, porem, sob o seu manto tem clarezas de relampago. Nada a escapa, e, se para uns é madrastra, para outros é noiva. Ora avançou como uma fúria, ora coberta de flores como abril.As criaturas grotescas, os que nascem para soffrer, escravos, párias, esperam-na como a redenção. De tanta lágrima, de tanta aspiração, alguma cousa se deve ter criada no infinito...Os humildes, que vêm ao mundo para gritar, aquelles para quem a vida é aziaga e que vão de rastros até essa praia, onde o mar desconhecido rola as suas ondas silenciosas, vêm-no dourado, cheio de claridade, n'uma madrugada eterna. Apenas cahidos, exangues, sem fibra que não tenha sido torcida e despedaçada, sem bocca para gritar--elles sabem-no--vão erguer-se e, transfigurados, embarcar nas naus que os esperam para uma viagem de sonho maravilhoso. Para os céticos esse mar é negro, tumultuado, de horror, como aquele oceano nunca d'antes navegado, onde só monstros cresceram.Para eles a morte era o fim da vida, porque nenhum tinha vivido da verdadeira existência. Eil-a a cova, a imobilidade, o Nada.A diferença é simples: ella é termo de miserias, ou o termo do goso.Ha pobres e tristes que passam a vida a esperal-a, a sonhal-a. Os humilhados, os ofendidos, amam-n'a porque ella eguala, os escravos porque ella liberta, e até os incompletos, aquiles a quem não é dado nem [125]sonhar nem amar, porque n'ella deve existir o Sonho e o Amor. Cada um encontra não esse pelago o que lhe falta na vida...--Este fim para que nós caminhamos, com terror e angustia quasi sempre, é o termo da vida? é o inicio da vida?-perguntava o Pitta.--As filosofias e as religiões respondem. Cada uma garante a fala. O mais certo, porem, é seguir o conselho de Platão: escolher a melhor opinião e embarcar n'ella como n'uma jangada, para atravessar a existência, - dizia o Pitágoras.Só o Astronomo lhes explicou:--A morte é a vida,--cadinho onde tudo se refaz e renova. Da morte do que é matéria resultam belas formas, árvores, nuvens, côres; da transformação do que é espírito alguma coisa de rádio deverá surgir...Há muito que eu conheço duas figuras, que através das edades, vem pregando ao homem as suas doutrinas: ri uma, a outra chora.Em certas horas de tristeza, em certas horas de crepusculo, as palavras d'uma, como murmuradas, empoeiraram de sonho a alma; a outra préga, a outra fala entre desesperos e ruinas. Vocês, meus amigos, conhecemil-as--a figura do Cético e a figura do Idealista. Representamos os dois grandes erros de digitação da humanidade. Às vezes confunde-se, misturam-se: cabeças de idealistas e corações de pedra. Acontece também que, quase sempre, uma segue a outra, para quebrar ou para construir. Têm assim vindo pelas philosophias, pelos systemas, ora nas palavras de Platão, ora nas palavras [126]de Epicuro. Creio bem que, quando o immorredoiro espírito precisa de falar aos homens, cria uma bocca--Jesus; quando a matéria quer prégar--aparece Falstaff.Eu tenho ouvido dentro da minha própria alma, tenho assistido aos seus combates dentro do meu coração. Uma afirma, a outra nega. São duas grandes vozes, que nasceram com o homem.Uma crê apenas na realidade, no universo tangivel, a outra põe mais longe os seus olhos--no Sonho. O espetáculo doloroso da miséria humana, desola-a, mas não a faz descrever:--Lá, lá, tudo se realiza e os próprios gritos são necessários à Harmonia.Uma é feita de sacrifício. Arde. Morre e renasce, aponta a terra como lôdo, o infinito como fogo; a outra afirma-te que depois só o nada existe.E assim é: o nada para quem crêem no nada, a beleza eterna para quem para ela vive. Nem era admitido que milhares de espíritos tivessem soffrido, cheios de abnegação, sem a terem criados, à imortalidade. Se ela não existia, formou-se, desde que os infelizes e os simples o quizeram. Do nada nada se cria, e da imortalidade tem sahido forças e palavras, que espantaram homens e abalaram mundos. Desde que o primeiro humilhado viveu para ella e n'ella pôz a justiça eterna e a sua fé - o infinito criou a.Elles, porém, ouvi com temor estas palavras. Esse problema da morte, que vem dos tempos perdidos, como um largo rio, trazendo à tona ideias, explicações, teorias, apavorava-os. As suas águas acarretavam ídolos, religiões, mantos púrpuras de homens, [127]que se debate, a gesticular, querendo compreender, vêr. Ao pé dessa figura negra e indecifravel, como no sôco d'uma estatua, havia sangue amalgamado com teorias, brazidos, lama, desesperos, que não consegui nem sequer colocar uma ruga na sua impenetrabilidade bronzea. Ella encheu o céu, tragica e muda, e da fila de homens, que lentamente, inexoravelmente, para lá caminhava, n'uma caravana infinita, se algum erguia os olhos, cético, desesperado ou resignado, sentiu-se sempre desvairado de pavor...--Então a quem morre...--perguntou alguém.--Acabou-se-lhe o sonho.--Quem sabe? O sonho consome-os. Ardem.--Sempre sonhar. E vem a morte e leva-os!... Que vale tudo isto? Ah o oiro, sim, o oiro filhos, o oiro respeitavel Corsario, o oiro Gabiru!...--O dinheiro!...--exclamou o Corsario e quedou-se a meditar.--Podesse eu ir á terra arrancar-lhe as entranhas d'oiro até a fazer gritar!--exclamou o Pitta.--O oiro é a vida. Tivesse-o eu! Gargalharia do alto d'uma montanha d'oiro da humanidade e dos sonhos que ella cria. Botam as árvores floridas e as criaturas emoção... Tudo isso seria meu. Poderia destruir, conquistar, mandar. Eu, Pitta da Conceição, seria talvez nomeado Imperador do Mundo. Ó filhos lembrae-vos!... O mal a imperar, o mal a rir do alto d'assombrosas montanhas d'oiro da dor, do heroísmo, da piedade! E o pequenome a subir a montanha. Porque note bem: tinha o pequename tudo, estava-se todo a criar para mim!...E como o Pitágoras fosse a sahir:[128]--Espera. Para onde é a ida, philosopho?--Prégo a revolução. Endo a prégal a...E curvou-se sobre o ouvido do Pitta, que exclamou sobresaltado:--Ao pequename! Rica ideia! É filosófico! Um grande elemento. Pois é atiçar-lhe!...E sahiram ambos.Então o Gabiru ficou sósinho com os pobres. Elles não sabiam explicar a vida: sentim-n'a e soffriam. De pé explicado-lhes:--Foi assim... Disseram-me um dia:--Eis aqui um thesouro, cava! E eu puz-me um cavar. D'um lado e d'outro acumula-se a terra. As minhas mãos eram negras, os meus vestidos cheiravam a terra e eu cavava. A mina era profunda como um poço. O céu esquecera-o, as árvores esquecera-as. Um dia topei pedras, que me proporcione luzir como oiro puro e embebido a contemplal-as esqueci-me do tempo, da terra, do mundo... Subito, cá fora, ouvi rir. Trepei pela terra acima e consegui-me com pedras negras nas mãos, cheio de terra, feio e cego como os bichos que nunca viram o sol... E tudo era belo! Tudo o que esquecera, tudo o que desprezara!... Attonito, com as pedras inuteis na mão, olhei... E assim desperdiçára a vida á procura d'um thesouro que tinha alli á mão!...Ninguem lhe respondeu. Só o Corsário, curvando-se-lhe sobre o ouvido:--Eu sei o que tu tens, eu sei o que tu tens...--Que é?--É pena. A vida não se torna a viver. Perdeste-a. [129]Esqueceste-te d'ella a sonhar... A sonhar!... Trocaste, o sol, o ódio, trocaste a realidade por nuvens.E, ai! a vida não se torna a viver! A vida para você foi como a água que passa límpida pelas mãos d'uma dessas estátuas que você vê nas fontes. Nunca cessa, igual, fresco, cheio de cintilações, e nunca também estanca a segurança dessas figuras de pedra... Ai, não se torna a ter na bocca o sabor a sangue e a mocidade, nem agora as árvores são as mesmas árvores e o riso o mesmo riso. Queria ter fome e ser moça... Perdeste-a! perdeste-a!...--E tu?--Eu?.... Eu fui nova e todos dariam a vida por mim. Amaram-me, mas o que eles queriam era o marmore do meu corpo e a minha boca moça e viva. As rugas vieram, mirrou-se-me o collo, seco e inutil, e então me arredaram. E dentro do meu peito ardia ainda o mesmo amor. Como posso metter-se uma nuvem dentro de uma pedra resequida? Desci à humilhação, à procura do amor que se paga. Isto! isto!... Só então entendi que os homens nos aproveitam e usam para nos deitarem fora depois de serviços... Olha para mim... Envelheci. Há muito tempo que moro com o ódio. Deante do espelho, ao ver-me mirrada, tornei-me ainda mais seco. Escarnecida, deitei-me a odiar... Oh fazer gritar os homens que nos desfrutam, para depois se rirem... E sonhei... Eu sou inutil, o meu odio murchará commigo, sem poder florir. Inutil, velha, cahida, quem toma ahi a serio o meu ódio?.... O que eu tenho sonhado!... O que eu daria para ter uma filha!... Tivesse eu fome que o pão iria arrancal-o [130]ás mãos dos pobres; seccos os meus peitos o leite iria roubar-o. Ela seria o meu ódio vivo. E bella, para que eu me vingasse. Era forçoso que fosse criado como uma lírica de sonho e que ao mesmo tempo tivesse uma alma de pedra, peor que a minha, mais má que a minha. Dir-lhe-hia tudo, ensinar-lhe-hia tudo, tudo o que sei, tudo o que do mundo aprendeu. Explicar-lhe-ia o egoísmo, a vaidade e que no fundo de cada ser só existe segurança e interesse. As mulheres se são honestas é por vaidade, e quantas ao pé do tumulo choram uma virgindade inutil!... Ella seria minha filha! A semente germinaria, cahida n'um coração mais duro que as pedras. Por dentro de um corpo lacteo, haveria uma velha mais ofendida, mais rancorosa que eu, a prégar-lhe o ódio. Odiar-me-ia a mim própria, sua mãe--e havia de sustentar se de lagrimas e gritos!...Sahiu. Só os infelizes ficaram encostados uns aos outros--ea um canto os pobres, gastos, com fisionomias de santos e olhos murchos de tantas lágrimas choradas. Não sabia reclamar-se. Alguns puzeram-se entontados a narrar, n'uma voz amarga - a voz da desgraça. Erguiam os braços e de cansados e sinistros, acredital-os-hieis foragidos do hospital e da guerra.Um disse:--Eu gosto de ver soffrer! eu quero ver soffrer!... Como elle anda a espreitar ilusões a ver se as calca! Onde nascem flores logo as esmigalha, nada lhe sabe, nem o solás levadas. Calca tudo e ri, tudo o que nasce, mesmo a ponta verde da erva que rompe d'entre as lages.[131]Um velho gasto e de botas rotas queixa-se. Quer viver e exclama:--Fui sempre como as toupeiras, como os bichos que, no fundo da terra, minam e minam e scismam sempre na claridade e nunca chegam a vêr o sol.--Ha desgraças e dôres que fazem rir,-diz alguém.Outro ri, ri sempre d'aflicções, de catástrofes. Procuradores para se rir e doido eil-o a rir e a clamar:--Calcamos terra, hein, calcamos dor... A terra está farta de soffrer. Ris-te, hein, ou sou eu que me rio?--Queremos ter saúde e ter risos. Eu nunca me ri, eu nunca me pude rir,--préga uma bocca na escuridão.O Gabiru sente-se agarrado pelo homem do pacho .O olhar luz-lhe odiento e a sua voz, através do pacho, parece proporcionar um tumulo.--Leve-nos! mostre-nos o oiro, as arvores, os montes todos d'oiro...--É impossível...--Oh não saber nunca o que é amar, viver como os outros que se podem rir--e ser só, ser diferente!... Eu vi! eu vi!... O Pitta me mostrou e depois, sabes? odio ativo. Ódio... Não eu não sou amigo do sol nem das árvores. Tenho a minar-me a alma uma ferida como esta... Os risos com os outros se riem, os seus risos--e eu sem bocca para rir!... Esta ferida come-me a vida--e triste vida d'aflicção a minha! Estou sempre doente. Até em pequeno senti a piedade agazalhar-me. [132]Porque é que Deus faz nascer criaturas com vida e dá a outras um quinhão de negrura? Tenho frio e fome de sol, de saúde, de forças, e vivo gelado, sempre gelado, e sem poder olhar nada no mundo sem sentir rancor. Tenho inveja até da terra onde nascem pedras e cartões, porque ella ao menos não soffre. Dêem-me o quinhão de risos que me pertence!... Se eu te escancarasse a minha alma, tu a verias transitada, negra, mirrada... Ouvi dizer--é certo?--que até as arvores noivam... Eu apenas sei que existe a inveja, a dôr e a enfermaria, onde o próprio sol requentado sabe a hospital. E nunca ninguem quiz saber de mim, nunca! Quem me dera beijar! ter boca para beijar! Dize-me: ha porventura pedras nojentas?Arrancou o pacho e uma fisionomia de tumulo, onde os dentes surdiam pela carne dilacerada, rompeu dentre os trapos que a cobriam.--Olha! olha p'ra mim!...Sahiram--e atraz de todos, não tendo dito palavra, caminharam os pobres, curvos, descalços, resignados. Houve-os gastos pela dor; havia-os tirando o pão da boca, para o repartirem; havia-os com uma vida de lágrimas. Sahiram uns atraz dos outros, sem queixas nem gritos.Afinal todos se tinham ido; só na escuridão fingirá uma velha prostituta. Era quase uma coisa – um podridão. Não sabia falar, nem sabia reclamar-se. Tinha aparecido para dizer o quê? Que acusação tremenda contra a vida?[133]Chegou-se a ella o Gabiru e poz-se a olharl-a. Depois disse-lhe:--Tu que tens? você que quer? Vae-te!...Ella não respondeu, e ela esquecida ficou muito tempo a cismar. O que era a Vida afinal?... Pouco e pouco um clarão se fazia na sua alma... O Gabiru absorto sonhou, até que ao seu lado uma voz rouca lhe disse:--Mas então p'ra quê? para que criemos a gente. Eu tenho amargado a vida e nem posso gritar... E você?--Eu tambem... Mas olha: eu gosto de soffrer... Escuta: soffrer é afinal reanimar uma labareda, um fogo que se extingue... Possuir um sonho e vel-o calcado!...--Eu cá fui sempre assim, andei sempre assim... Quem se importa? Não me lembro de ter sido feliz... Não me lembro... Sempre se riram de mim e toda a vida me bateram.--Tu sim, pobre de ti... E amaste?--Lembro-me... muito longe... amei. Mas o que eles se riram! Depois de serviço batiam-me. Eu fui sempre menos que nada. Quem se importa com uma desinfeliz ? Inda se a gente encontra o pão de cada dia... Agora sempre anda um frio!...--Tu, sim... Pobre, pobre de ti! Eu fui feliz, fui sempre feliz afinal. E batiam-te?--Punham-me o corpo negro... Mas era para se rirem, não fazia mal... E a ti?--Puzeram-me a alma negra.--E você?--Eu sofria.[134]--Pois se a gente tem pão e uma enxerga ainda ao menos é feliz.Encostados um ao outro, para se aquecerem, scismavam enregelados, quase cobertos pelos mesmos trapos. Noite escura, mas no sitio onde todos os filhos sonhavam, obviamente arder faúlas, restos d'um lar a apagar-se.--Ouve, não tarefas... Tens frio?--Estou gelada de frio.--Olha: soffrer não importa, soffrer na vida que importa? Você imagina que o que se soffre se perde? As lágrimas e as dores vão criar, para depois, alguma coisa extraordinária. Do que se espesinha vem sempre a nascer. E se tu amaste e se riram de ti alguma coisa brotou, que se não extingue e germina com as tuas lagrimas e os teus gritos. Amaste?--Amei. Muito longe... Mas tudo perdido! tudo perdido!... Não fales! ah, não fale! não me lembres!...--Se tu amaste e soffreste nada está perdido. As tuas mãos estão geladas, mas as minhas ardem.--Eu já não sinto o frio... Só me sinto de rastros, pequenina e perdida... Oh doe-me e tenho pena de mim. Tu para que falas? O que serve a gente lembrar-se? Para chorar? É melhor dormir, dormir sempre...--Soffre. Nada está perdido. Olha: vai-se criando com as nossas aflições e os nossos gritos, uma outra terra!...--Aonde?--Uma terra toda alma, cria-se, para depois, quando á ultima dor, aos ultimos gritos, se esbrazear...[135]--Conta! conta-me!--Escuta: quando se traz um sonho... Sabes um sonho?--Um sonho?!--Um sonho é como se tivéssemos na alma um mundo maior que este. Todo em fogo... Quando se traz um sonho e se soffre mais elle cresce. Tanto mais puida é a materia, mais elle arde!... Isto não se perde... Construa-se das nossas lagrimas... É um palácio. As pedras que são feitas são os gritos... Sabes?--Assim quando eu amei e se riram, maior se tornou o meu amor... Consumiu-me.--Assim...--Um sonho!...--Tudo se ilumina dentro de nós. E a cada humilhação elle se torna maior. Depois que soffri, é que comecei a ver o que nunca tinha presente. Tudo. Sabes as árvores, as nuvens, as estrelas? Veja-as agora transformadas, de fogo. Arde... Nunca é noite. E tanto mais sofro, mais se ateia o meu sonho.Ambos se perdem, unidos, gelados, na escuridão. Por fim só a voz d'elle corria: ella escutava-o sufocada, unida contra a terra.XVIII
HISTÓRIA DO GEBO
Para nada me importa a história banal que esse homem gastou conta, abalado pela dor, a suar de aflição... Morta a mulher, o lar ficou gelado. Por onde a Morte passa deixa muito tempo um frio de tumulo que transe os corações. A filha cahira a um canto sem palavra, e o Gebo poz-se a engordar e a chorar. Se tudo acabasse!... Mas não, era preciso voltar à mesma vida de desespero, pizar sempre o mesmo chão, atraz de esmolas para a sustentar. Nos dias, agora amiudados, de fome, já nunca o esperava n'uma ancia como outrara:--E então? então? Arranjaste?....Sofia, essa pobre rapariga que da vida só conhecia aflições, não tinha para o Gebo nem mais palavras, nem queixas. Amava-o. Aquelle velho todo branco, gordo e chorão, era o seu pae. Escondi as lagrimas para não o afligir.[138]--Não se consuma! não se consuma!--Que ha-de ser de ti se eu te falto, filha?--Sempre temos de viver. Ha gente mais pobre.--Acho que não! acho que não!...Depois da morte da mãe, ela o cuidava como quem cuida de um filho. E o Gebo d'olhos se coloca em Sofia, embevecido, só sabia dizer, n'uma voz molhada de lagrimas:--A minha filha! a minha pobre filha!...Fazia falta a mulher, que o atirava para a vida, e muitos dias, sem um exaspero, sem um grito, embrulhado nos farrapos, quieto na enxerga, ela era como uma bola de gordura, d'onde corria um ruido de choro resignado e triste. Se sahia chegava se a todos, pedindo pão, com os cabellos em pé e um ar desorientado, de doido, que fazia rir. Perde a timidez. Arrastava-se pelos amigos, que o perderamm pittoresco, sempre a carpir desgraças, aflito, cambado, exausto, e cada vez mais pedinchão e mais gordo. Divertiam-se. Tinham-lhe posto essa alcunha--o Gebo , e perguntavam-lhe coisas obscenas para se rirem:--Hein, dize lá, ó Gebo, então tu não tens uma filha?E elle logo com um riso no olhar:--Tenho, sim, uma filha, a minha filha...--E que tal, hein, boas pernas, dize, boas pernas?Humilde, cossado, á espera da esmola, sem forças para protestar, responde com um sorriso e lágrimas à mistura:--Boas pernas... boas pernas...Vida negra, de cão, a que nem sequer resistiu poderia. Lá foi levado, enlameado e de rastros, a chorar. [139]Ilusões? já as não tinha, se ilusões não serviam senão para se soffrer. Quando viva, a mulher, era quem ainda arcava com o desgaste. Esbracejava. E juntos aquecia-os no mesmo lar, com pedaços de sonho, como quem, depois de repartir os últimos farrapos, agazalha com a própria alma. Um sonho cahe por terra? Estreia-se outro sonho. Embrulhados no mesmo cobertor, ella, secca e nervosa, prégava-lhes que ainda podiam ser felizes, acalentava-os, e, juntos, todos três iludidos ficaramm n'aquella negrura e desespero, todos três a scismar.Mas agora nem isso... Enregelados não apelavam para a ilusão. Elle chorava e Sofia, alheada e triste, cuidava, ambas sem palavras que dissessem. Oh seria tão bom morrer, descançar, dormir por uma vez sem mais acordar!... Mas, aguilhoado e ridículo, aquele homem picaro, apegava-se como um desesperado à vida. Ainda por cima o Gebo era cobarde: tinha um grande medo à morte.Assim comiam o pão negro, juntando-lhe as lágrimas que choravam. Sob este solo que calcamos atraz, das nossas ambições, anda um humilde rio de lágrimas, um rio subterrâneo de dor, de gritos, que se alastra e corre sem ruido...Já não sahia a pedir todas as madrugadas. Agora cansava, mal podia andar; embrulhado e tiritando de frio, não se erguia da enxerga. Quereis acreditar que estava mais gordo e mais picaro?E como ela dorme! com fome, aflito, tombava n'um somno de sepulcro, espapaçado, os cabellos todos brancos e a fisionomia cansada e amargurada. [140]Nunca se queixava; apenas repetia a miudo:--Tenho pena de ter sido honrado...Porque é que a desgraça se não cansava de o perseguir? Este aguilhão cravado no peito não lhe deixa um minuto de descanço: a sorte da filha. Nada lhe custava mais do que deixa-a no mundo ao desamparo.--Tenho pena de ter sido honrado.Para que sirva ser bom? Os mais que conheciam, eram ricos e escarneciam-no, os bons espesinhados. Criaturas a quem o Gebo salvam acolhiam-no com risos e só fazem ingratos.O Gebo não entendeu a vida.--Ó Gebo! ó Gebo!--gritava-lhe.E elle meio tonto:--Anh? anh?.... Se eu não tivesse sido honrado...Ella era uma criatura triste, resignada e pálida. Falava um pouco. Scismava. Da vida tudo ignorava, a não ser a história dos seus: o lar apagado, a aflição da mãe, o choro do pae ao voltar para casa sem pão. O velho dizia às vezes mais palavras ao Gebo, quando a pergunta era antiga:--Arranjaste?E ela a bufar, exclamava succumbido:--Valha-me Deus, mulher!N'esses dias aziagos ella dizia impróprios à vida e ao Gebo, que nem sequer tinha forças para sustentar a ambas.--Olha os outros! olha os outros!E elle atrapalhado:--Mas que hei-de eu fazer, mulher?--Vae roubal-o! vae roubal-o!...[141]Aquillo terminou por lagrimas e por o velho perguntar, perdido de fome, todo o dia na negra faina:--E agora como ha-de ser?A mãe tinha escondido alguns vintens tirados à bocca e em torno do pão, esquecidos, lá se deitavam a falar da sua miséria. Ella disse que não havia honra nem Deus--tudo no mundo era questão de dinheiro--oiro! Mas quantas vezes a velha repartia com os pobres o pão que faziam falta!... O que a tornava amarga era a lucta exasperada com a má sorte.De forma que Sofia nada sabia da vida, e assim fôra crescendo sem queixas, resignada e pura. A Deus resava todas as noites pela vida do velho, pela saúde d'aquelle ser ofegante e grotesco, que passava horas e horas a chorar.--...O pão nosso de cada dia nos dae hoje...--Filha que ha-de ser de ti!Engordára, não se pudesse mexer. Faltavam-lhe de tudo as forças. Estende a mão na rua como os mendigos. Um dia foi preso, e expulsavam-no das lojas. A ideia da filha abandonada e com fome, alucinava-o:--Eu já não posso mais! eu já não posso mais!...Os dias passaram-se desesperados, idênticos, ferozes. Todos os dias se parecem, como a tristeza se parece com tristeza. Até que cahiu por terra e durante a noite inteira correu na mansarda aquela que ruido de lagrimas baixinho e monótono; toda a noite infinita o Gebo chorou prostrado. Quiz tentei, quiz ainda erguer-se, mas a desgraça havia-o emfim aniquilado: [142]engordára-o, exhaurira-o e pregára-o para sempre a chorar n'um colxão de trapos.Então Sofia, que um dia e uma noite o chorou sem tregoas, d'olhos postos n'ella; que outro dia e outra noite, sem gritos nem frases, o viu todo branco e com fome, d'olhos aguados, no mesmo choro d'aflicção--alheada, mais alta, desceu as escadas e entrou em casa das prostitutas. Todas as tardes descia e tornava altas horas, com pão para o Gebo, que só lagrimejava prostrado, gordo e ridículo, como uma bola de sebo--e de cabellos brancos estacados.Oh este cantar das mulheres, esta toada em farrapos, é a voz dos infelizes, dos pobres, dos que não têm pão, nem felicidade, nem arrimo na terra!...XIX
O GABIRU TRESLÊ
Noite de luar. A árvore mergulhando os braços num oceano de luar translúcido, biliões de átomos luminosos errando. É um colosso de verdura e de retenção, uma construção cheia de frescor e rumores. Cruzam-se as pernadas solidas, torcidas, esgalhadas, d'onde partem ramos, folhas que se agitam e vivem uma vida misteriosa e grande. E o luar é tanto que faz aflição. Sente-se a satisfação gigante da Árvore, por mergulhar as raízes no seio da terra e por ser forte, simples e bondosa. Por pouco ouvil-a hieis falar... Escutae-a na noite callada, branca e cheia de tanto luar que faz aflição. Por entre os raminhos tremuleiam fios de luar esquecidos, coados por entre as folhas sobrepostas. No chão a sombra faz mancha e os fios de luar dão-lhe vida. Dirieis que alli anda folego vivo. Fóra da Sombra é tanto o luar que só se vê uma brancura.[144]Ó cisma Gabiru. Os olhos abertos, todo elle dolorido, deita-se ainda a scismar. Vivera sempre tão transitada e pobre, tão sosinho--que ele não foge do seu sonho--e nada lhe deixará entre as mãos. Só escarneio! só escarneo!...Bate o luar em cheio n'aquella figura exótica e transforma-a. Não é ridículo. Corre-lhe o luar nos olhos, nas mãos cortadas, e cheio de luar sorri extasiado...Hein, o que quer você? Nasce uma criatura para o desgaste. Em pequena anda rôta, quase nusinha, e o pão da vida dão-lh'o os ladrões e soldados. Maltratam-n'a, irmã da terra, raza como a terra. Nada sabe do sonho - e que culpa tem ela de não sonhar? Violam-n'a, tornam-n'a igual das pedras, secca como as pedras, mesquinha, e arrancam-lhe todas as aspirações, cospem-lhe em todos os sonhos. Só sofre. Vêm uns, vêm outros para a fazerem gritar, e ella um dia põe se a rir e ri-se até da desgraça.Julgarieis que na sombra, sob a árvore, o luar construir e tece, à medida que o Gabiru vai tecendo. É não sei o quê de incerto que mexe--fio de luar ou vento que passa e vae transir a sombra misteriosa. Ó Gabiru olha extasiado.Da terra dilacerada surgem formas de prodígio. Quanto mais revolvida a matéria, mais bella é a eclosão do sonho. Da vida da Mouca que começou a soffrer em pequenina, logo a princípio se criou algo de radioso. [145]Ella ri, a Mouca, escarnecida e calcada, sem ter tido quem a ampare senão prostitutas e ladrões. Nasceu para gritar--e ri. Mas nada se perde na vida. Ela que tudo ignora, rolada como as pedras no enxurro, conhecerá o sonho extraordinário. D'aquella materia espesinhada vai nascer uma maravilhosa forma de luar.O philosopho sorri extasiado para a Sombra. Eil-a! Uma fisionomia pálida, onde os olhos cegos se perdem, tenue, construída de luar ou construída de sonho. Dirieis que essa figura esguia, sustentada a luar, de negros cabelos de sombra, desapparece no escuro, torna a surgir nos fios de luar...--Fui eu que te criei, és minha!--diz elle absorto, erguendo-se. Caminhos para mim alheada, não me querendo olhar e não me podendo fugir, pálido e tremendo. Vens sob o tecido do luar. Oh que palavras te hei-de dizer, joelhado, que singulares monólogos feitos de nada e enormes, arrancados á via lactea, com palavras que nunca aprendi, nem pude dizer, mas que me brotam da alma como nascentes! Quem me dera ser a noite, a árvore, o luar, que me enche de aflição! Juro-o, as árvores falam com o luar, as montanhas namoram-se ao luar. Brilham perdidas tantas estrelas pelo céu, meu amor!... Os sapos, confundidos deante da gigantea natura, cantam n'esses pios que, ao longe, na solidão, magoam como ais d'alguem a quem aconteceu desastre...[146]Olha: eu me sento distante de ti, para que não fujas desfeita em luar. Gostava tanto de sentir a tua mão pousada na minha cabeça, tanto! Olha!...Sob a Árvore--realidade ou ilusão?--uma figura se constrói de luar, na sombra opaca uma tremulina toma forma. Juntam-se os fios de luar, amontoam-se nevoas e alguma coisa treme, prestes a fugir--mas viva! viva!... Dirieis que é só um sorriso, um olhar muito triste... O Gabirú corre e tudo se esvae... Só a Sombra resta e um ruido de gotas de luar tombando sobre folhas.Elle sorri e diz:--Eis como se cria uma alma!Todas as noites, muito tarde, volta ao pé da Árvore.--Uma é terra, outra é luar,-murmura. Quanto mais a Mouca soffre, mais esta se cria. Oh, não me fujas! Vens com a noite, melancólica e pálida como as mortas arrancadas ao sepulcro. Crie-te de lágrimas. Os teus cabelos esparsos perdem-se na sombra. Nunca vi na escuridão os teus olhos, mas sinto a irradiação da tua alma!...O Gabiru, na noite branca e callada, sente-a aproximar-se e olharl-o muito tempo.--Minha alma!Nem um murmúrio. Noite a noite era mais o luar. Absorve tudo. A sua claridade misteriosa diluia a terra e as coisas. A Árvore, esmaecida, toda se desfazia em pó claro. E noite a noite tambem a Sombra [147]opaca se tornava mais espessa e funda. A certas horas o silêncio estremecia, n'um ai baixinho e triste. Era uma criação! A alma da Sombra acordava. Eil-a! eil-a!...--Minha vida!Via-a perfeitamente. O oval do rosto pálido, os negros cabellos compridos, feitos de sonho e de lagrimas. Só os olhos se perdem em duas sombras, cega talvez de tanto ter chorado--por a outra rir.--Não fujas!Correu um dia para a Sombra. Lua cheia, lua alta. O mundo, todo imbebido em luar, era como um grande sonho de beleza. Logo a imagem se esvaiu e na sombra funda, na sombra opaca, restavam apenas manchas e dispersões, luar desfeito... Apalpou a terra. Havia um ruido ainda--pelo chão corria um fio de água ou um fio de choro...--Meu amor! meu amor!XX
UMA MOUCA
Noite de chuva, d'esta chuva miuda que enlameia e entristece como uma angustia. Na rua Sofia passa com o chalé de rastro. Ha um clarão de tochas à porta. Vae sahir um enterro. Morreu o pequeno do gato pingado. Trouxe-a para casa uma noite, essa criação que encontrou cahida na rua. Um rapaz de dez anos, abandonado e com uma pneumonia... Que lhe quer o gato pingado fazer, não me dirão?...Estava a chorar. Deu-lhe para chorar sobre o caixão de um garoto, que ele não é nada. Elle que não tem onde cahir morto, chora o pão que tiraria à própria bocca para o dar a outro.Morreu-lhe honra. É certo um gato pingado a menos.[150]Primeiros farrapos da noite a esvoaçar, d'essa noite de primavera negra, em que todos se propõem a contar baixinho os seus sonhos à escuridão.--Deitam flôrá noite...--diz o Sabio.A treva entupe os buracos das ruellas. As tochas têm debaixo da chuva sinistros claros de incêndio. Vae uma balburdia na rua e o redemoinho da noite traga o bairro acastelado. Eis o enterro. Vão mulheres perdidas e a Rata, a tossir, vai o Astrônomo, e na frente d'um caixão de passarito, comboiando a turba, lá marcha o gato pingado, de brandão em punho, chapéu alto e casaca a esvoaçar... A que irão elles deitar fogo na noite trágica, de lama e chuva? Mulheres perdidas, ralé, o velho tisico... Na volta vem certo a cahir de bebedos.Todos os dias desapparece alguma das mulheres levadas para o Hospital. Mas cantam, cantam sempre. Sofia sorri resignada. Na vida que ele resta? O Gebo a sustentar.Todas as manhãs sobe à mansarda onde o velho dorme, levando-lhe pão, que elle mastiga com um nó na garganta. Olha-a com lagrimas e só diz:--Filha!A existência é como um circo. Não há piedade.Dizem-me: a que recanto espantoso vai e a natureza buscar esta ignea hold? A que esconderijo, a que veio oculto? De que força é que se constrói, de que química é que se forma a segurar profundamente, inabalável, inextinguível, que sustenta e ampára os pobres?...[151]As prostitutas que dantes odiavam Sofia, chamam-lhe agora menina , depois que a vem seu igual. Repartem com ella o pão que ganha, e ao vel-a tombada, chorando, ficam aflitos, pois não sabem consolal-a.--Mais lhe valia deitar-se a afogar,-diz uma.--Isto aqui é uma vida de cão.--Olhae que ter fome!... Sempre a fome é negra,-conclue outra.Só a Mouca a odeia. Ella que foi sempre a mais maltratada, maltrata agora. Se podesse, pizal-a-hia aos pés. Ella, de quem todos se riram com escarneo, cuspida pelos soldados, queria emfim fazer soffrer. Não havia sido mais degradado, não porque fosse má, mas porque era como todas as criaturas filhas da terra, que o homem criou para o gozo.A princípio todas fizeram a soffrer Sofia. Tinham vontade de abaixar, de a verem chorar lágrimas de aflição, para a igualarem.--Cá temos uma menina !--Quem não diria? Não falei a ninguém a mesquita morta! É para aprender!--Deixae-a!--Deixae-a o que? Ella é como as outras.--Deixae a pobre, que não faz senão chorar. Vocês não têm coração.--Tambem a gente soffre.Riam-se, empurravam-n'a para os peores tratos, mas pouco e pouco, deante d'aquella dôr silencioso e profundo, callaram-se e pozeram-se a amal-a. Tratavam-n'a [152]por menina . Uma queria penteal-a, outra ajudal-a. Só a Mouca lhe tinha o mesmo ódio.--Olha lá, ó parida!--É commigo que fala?--Faz-te tola! Acaba lá com essas ares de senhora. Já estou farta. Tu aqui é tanto como eu, sabes?--Sei--diz Sofia.--Você me conhece? Olha se me conhece, senão ensino-te quem sou. Acabou-se! embargo com isso. Parece uma soninha... Tu falas?Sofia olha-a silenciosa.--Ah, você não fala? Olhas p'ra mim com cara d'escarneo? Não quero que olhes para mim, não quero, ouviste? Ai, não fala? Toma!E deu-lhe uma bofetada.--E agora? agora? Quizeste, ahi dezenas. Toma. Tu aqui é uma desgraçada como eu. Aqui não há meninas. E agora? agora? pensa que é mais do que as outras?--Sou mais desagradável.E poz-se a soluçar.Mas de subito a Mouca clamou:--Perdão! perdoe-me, menina! Eu era por inveja. Saiba: não a poderia ver por inveja. Fui sempre assim. Não me deixe ficar com raiva. Eu perguntei cá commigo: Então os outros tem mãe e eu nunca a tive? Os outros são infelizes um dia, mas eu fui infeliz desde que nasci. Sou filha da terra. Criem-me os ladrões, já devem ter ouvido. Tenho sido muito má p'ra a menina, peço-lhe que me perdoe. Era por inveja. Peço-lhe que se ria p'ra mim, para me mostrar que não está zangada commigo. [153]É boa! eu dizia cá por dentro: Hei-de pôl-a tão raza como eu. O que é ela mais do que eu? Sabe porque ela tinha esta osga ? Por ver que uma menina estava infeliz e boa por todos. Eu sou assim, sou como um cão. Peço-lhe uma coisa... Bata-me para eu acreditar que é minha amiga.XXI
AHI TÉM OS SENHORES A NATUREZA!
N'essa madrugada o Pitta arrastou o Gabiru por um esgoto que do predio ia desaguar do outro lado do Hospital e de que só ela sabia a existência. As paredes arrombára-as d'onde a onde a raiz torcida da Árvore.--Anda! ea! Estas raízes são mais duras que uma pedra. Nada lhes resiste, nem o granito. A Árvore acabou por nos tragar a todos.Tinha chovido na vespera e era ainda noite quando sahiram do esgoto. Abala-os logo uma lufada de ar vivo, d'este ar que é como a água da rocha, que apetece sempre beber e que traz comsigo existências d'arvores, cheiinho de emoção. Parâmetro. Uma brancura, nebulosa na cova onde se mundo cria, ainda erra esparsa. No céu brilham estrelas e sente-se sobre as terras lavradias o nuvens espessas, que das árvores [156]tomba em gotas grossas como chuva de verão. Os troncos além são espectros e outros, mais longe, de todo desapparecem. Ao norte luz uma estrela enorme. Sobre o monte abre-se um rasgão de claridade... Eis o sol fraco, escorrendo por entre troncos, misturado de branco e sem calor, tal qual luar. Nos regos do arado correm rolos de neve e a verdura da herva, na manhãsinha, é imaterial, como se fosse a respiração da terra. As aves, nas moutas, começam o seu dia cantando.--Que sentes?--pergunta o Pitta ao Gabiru.--Espera! espera!--diz o outro entontado.--Ouço gritos e só vejo uma brancura e gestos... Mas o que eu ouço! que sem número de vozes, de palavras precipitadas!--Vês árvores?--Só vejo um esclarecimento. É como um relampago, ofusca-me! Mas o que eu ouço! Quantos gritos, que amálgama de gritos! Sei agora que existem árvores porque ouço o seu ruido e a sua voz...--Procedamos com método. Eis ahi a terra, ahi a dezenas a teus pés. Ahi tens um charco.Tudo já estava cheio de sol.--Isto negro e isto de oiro? pergunta o Gabiru.--Sim. Revolve isso negro, inerte e no emtanto vivo. Afunda as mãos. Ahi nas tuas mãos, n'esse pedaço de lama, tens tudo, partículas de árvores e de sonho, realidade e emoção...--Isto é então...--Um turbilhão,--affiança gravemente o Pitta.--Isto é vida?[157]--É vida. Esse pedaço de terra é húmus. Incha com a primavera, fala. Está morna e escuta, põe-n'a ao ouvido... Ouves?--Ruido, vozes, gritos d'embryões, um borborinho...--Ora repara. É sempre a mesma coisa. Maquinações filosóficas... Isto é um mundo e isto--e aponta um charco--é um mundo. N'esse charco adeante, ahi, vês?...--É oiro.--Não, é água onde o sol se espelha, apenas água...O Gabiru curvado mergulha as mãos afiladas e negras na poça. Tira-as depois para fóra fascinado. As gottas d'aquella água turva cahem qual oiro líquido, trespassadas pelo sol, n'um chuveiro de faiscas.--Eis estrelas! exclama comovido.--Perdão, é apenas como te disse, um charco, um charco desprezivel. Habitua-te primeiro a ver.--Quero ver mais!--Habitua-te primeiro a ver...O sol que tomba a flux corre, afoga, doira, penetra os sêres e as coisas. No dia úmido ouve-se o resurgir da vida: a lama mexe-se, os troncos absorvem, a água nascente inchada, n'essa manhã de primavera, em que tudo se transforma sob a esteira do sol. Tinha chovido na vespera e até nas mais pequenas coisas, na pegada dos bois onde a chuva encharcára, irrompe uma vida exuberante, apressada, de seres que em minutos de existência têm uma tarefa prodigiosa a cumprir: amar, criar, morrer...--Eis uma árvore--aponta o Pitta.[158]--Como ella gesticula para nós!--Pois ahi tens uma árvore.--Que coisa enorme e bela que é uma árvore! É diferente da outra... E é uma árvore? Uma árvore dá água, ouço a água a cahir.--E o ruido das suas folhas.--Uma árvore é viva. Fala? É o ser mais belo que eu conheço. É verde, mexe-se...--E alli, longe, um monte.--Aquillo pequeno? Um torrão como este que os meus pés desfazem. Só é violeta. Maior é uma árvore! maior!... E essa poeira luminosa que nos envolve, que é? Alma?--Maquinações philosophicas... Caminha agora, vê... Eu vou-me deitar á sombra... Podes ver...O Pitta tirou as botas e estendeu-se ao pé d'um sobro. Da algibeira saccou o caderno de notas e poz-se a escrever: Deve á D. Antonia, três mezes em atrazo--30:500 rs.; a Haver das explicações da natureza aos domicílios--25$000... Diferença...O Gabiru vae andando ao acaso. Pica-se nos espinhos, esmaga entre as mãos flores e rebentos, magoa-se nas pedras. Encontra sebes orvalhadas, árvores brancas toda flor, abrunheiros em flor, e uma hora fica atendida defronte d'um velho muro, encostado ao qual uma macieira treme, carregadinba de flor. Há galhos que lhe parecem emoção. Os pés calcam ervas espesinhadas, que também deitam cá fora o seu sonho; -se ao pé das fontes vendo-as jorrar e põe-se a respirar fundo, querendo imbeber-se d'aquelle ar carregado de vida.[159]De repente cahe um d'estes chuveiros de primavera, precipitados e rápidos. A chuva que tomba é morna. As plantas bebem-n'a, as flores abrem-se tontas e escondem gotas nas corolas; vêm-se crescer as pequeninas folhas verdes como se inchassem e os gomos tingidos de resina estalam, abrem, com um ruido sufocado--ah!... Tudo fica baço a princípio, a terra molhada é d'um negro gordo; um fremito corre nas folhas tenras... Depois, como um veo que se rompe, o sol começa de novo a correr. As fontes deitam oiro, as plantas têm fios de oiro e no chão há toalhas e caminhos de oiro e sombras.--Senhor Pitta, eu quero ser isto...--Isto quê? resmunga o outro concentrado.--Quero ser isto!...Mas o Pitta, enfronhado nos cálculos resmoneia:--Maquinações philosophicas. Deixa-me... Eis a diferença--22$000 réis... Eis!...O Gabiru caminha. Depois cahe entre a herva tenra e nascida e deita-se a ver os rabiscos do sol e um galho tão em flor, que parece uma teia de luar esquecida. Primeiro o tronco incha: há como ponto negro que estoura, para ser botão e depois flor... Medita. Está um dia de manhã e úmido. Sahiram das tocas dos bichos internados todo o inverno. Vespas passaramam a sua roupa d'oiro no marmore das flores e toda a terra remexe. Acredital-a hieis viva.Em que se propõe a pensar? O seu ouvido de enclausurado, afeto ao silêncio, ouve até ao fundo da terra o rumor dos bichos, tanto tempo empedernidos, que esfuracam para o sol; das sensações que rebentam e [160]sobem para a luz, o glu glu das raízes gordas e felizes ao mergulharem no húmus.É um barulho de maré longinqua que cresce, galga, aumenta, trasborda... Espavorido deita a correr... Por toda a parte as sebes, as hervas escondidas, os tojos bravios, para quem nunca repara, crescendo. Ha-ós nas pedras; ha-os no ventre resquido dos calháos.Anda, anda, e dá com águas grossas, felizes, apressadas; com quintalorios onde a verdura cresce aos borbotões; pinheiros, depois silvas, bravios--e até nos sítios mais estereis encontra a mesma vida e o mesmo amor.Que força é esta que faz mexer a terra e a abala?É uma torrente, um rio subterrâneo branco e verde, que vem à supuração? Um riacho de tintas, brotando à superfície do solo em labaredas verdes, todas roxas, completamente brancas? Ha verdura tão tenue que dil-a-hieis uma nevoa verde; folhinhas que parecem feitas d'um halito que se pegou aos troncos.A sombra das árvores enche-o de refrigeração, envolve-o na atmosfera de simpatia e frescura que elas exalam.Por fim o Pitta vai encontrar-lhe o tolhido, d'olhos estesiados entre flores esmagadas, Nas mãos flores, aos seus pés flores esmigalhadas.
XXII
FILOSOFIA DO GABIRU
Oh, descubra agora a torrente esplêndida que é a vida! É uma emoção. Ella é o que veio limpido onde todas as sedes se estancam. Liga os homens, prende-os--eo egoísmo afastado-os.Todos os rios, como todas as vidas, vão desaguar ao grande Atlântico de beleza. As criaturas humildes e simples têm uma existência como um fio corrente – água ou lágrimas, mas sempre claro. A colera, a ambição, os interesses turvam a vida, como a terra revolvida turva a água.
Amar os outros, soffrer pelos outros, viver para os outros, é tornar a existência simples, monótona e grande; é fazel-a semelhante às mantas grossas, d'uma única cor neutra, que agasalham os pobres.
O homem que tem emoção e que ama é sempre feliz: [162]as coisas conhecemos-n'o, as árvores são suas amigas. Sente-se enternecido deante do mais resquido calháo.O que odeia, a ambição e o má, passou pela natureza como o homem na guerra: não viram nem ouviram. As coisas emmudecem para elas. Nada lhe dizem, porque não sabem ouvir. Tu, que enternecido paraste deante d'um sitio recolhido e simples, deante das tristezas alheias, tu, pobre, que tombaste na cóva desprezado, rôto, e a quem a terra recebe como um amigo, tu que adormeceste no derradeiro somno quasi consoladoramente, como morre tudo o que é simples, tu viveste... Comunicate pela piedade e pela emoção, com a natureza inteira e o teu amor repartiste o pelos mundos que rolam no infinito, por Deus, pelo homem, pela pedra. Você descobriu e apresentou tudo.
O que é grande é sempre simples.
Desperta em ti a emoção para que possamos dizer:--Vivi!
Todo o homem que nasce deve ter um quinhão de terra - seu sustento e sua cóva. O pão de cada dia deve ser grangeal-o com o suor do seu rosto.
É singular a inconsciência com que o homem trata as coisas mais profundas da vida - uma gravidade com que discute como que são apenas aparências de vans.[163]
A desgraça é sempre boa – porque aproxima o homem dos infelizes.Tudo na vida se simplifica sendo a gente simples. É como a folha que se deixa vogar na mansão de um rio até que o oceano a traga.
Nada na existência nos prende como os grandes espetáculos da natureza: o monte, a árvore, o fio de lagrimas que as fragas choram, o homem de coração e vida simples, pacifica e grande.Para ser feliz na vida é preciso ser-se pobre. Sentir-se que o pão que se vem não é tirado a nenhuma bocca, nem o lume que nos calores roubaram a alguma velhice friarenta.Ser pobre, lavrar uma terra que nos dá o pão saboroso e negro e o tronco para o nosso lume!...
Quando se ama, a emoção sahe de nós como d'uma fonte e a gente prende-se aos outros. Não se sente sósinha: faz parte da Vida, d'uma torrente de amor misterioso e esplendido. O amor torna-nos irmãos.
O homem não faz senão complicar a vida, que em si é afinal bem simples.
As coisas despresadas são as melhores da vida: a paz, as horas esquecidas, a água desnevada que se bebe, os [164]minutos de silêncio em que se sente Deus comnosco.De que servem ódios, ambições, riquezas acumuladas? Não é isto demais para uma vida terrena?
Não saber nada senão amar--repartir emoções com os outros!
De rastros! de rastros! Ódio, ambição, gritos, tudo isso é nada! Toda a existência perdida a sonhar, a viver sósinho, absorto em coisas nulas, quando a vida é tão grande e tão simples e se reduz--a amar! Pelo amor conhece-se tudo, até o que os sabios ignoram. Olha para um mistério com amor, e ela desvenda-se logo; olha para um calháo com amor, que até n'elle encontra mil coisas imprevistas; chega-te ao homem, teu irmão, até ao mais degradado, com amor, que n'elle depararás com Deus. Deus vive ao pé de ti, comtigo, tocal-o a toda a hora. O que é preciso para sentir? Amor.Viva uma vida simples, a vida de que os pobres se aproximam, com emoção e o seu pedaço de pão negro, olhando o prodigioso mistério, e serás feliz.Lavra o teu campo, e, nas horas perdidas, olha, prende-te á abobada do céo, ao homem, à montanha, à árvore, ao mar--e ouvirás Deus em ti, sentindo atravessar-te uma frescura mais viva do que a água das rochas.Deus está muito perto de ti--e é por isso mesmo que o não vê. A palmas da segurança passa muitas vezes um veio d'água escondido. Basta cavar na crosta [165]da terra, para que o chão gretado e pedregoso se transforme. Que torrente de emoção não vai atravessando os mundos, os homens, as folhas secas e os globos d'oiro do céo!O homem enredou se de tal forma na ambição, no ódio, na guerra, que perdeu o sentido da vida - tão simples e tão larga - e que deixou de ver Deus, sempre presente ao seu lado.Para o encontrar, precisa de voltar ao amor das coisas simples e grandes - ao amor dos seus irmãos, da natureza, e de abrir o seu coração a esse fluido misterioso.A vida artificial é que transformou o homem. Da vida artificial é que nasceu o orgulho, e que nasceram a ambição, os erros, o crime - e até a piedade. Se todos vivermos da verdadeira existência - o homem seria feliz. Como se pode redimir tudo isso? Prégando o Amor. Só o Amor nos pode ainda salvar.Agora vejo! agora vejo! Que monte de infâmias! que monte de crimes! O homem trabalha desesperado, atraz do oiro, da ambição, da vaidade, do sonho vão, para quê? Para ser infeliz. Um trabalho ferreo e herculeo--para gritar, e encontrar-se ao fim, a dois passos da cova, com inutilidades, carregado de dores e de opróbrios. Não hesitou em despedaçar, em calcar, em mentir - em busca do que ela julgava a felicidade, e que era apenas o erro. Não teve tempo para olhar a montanha, o mar, o ceo--o espetáculo de Deus não o viu--porque corria atraz da felicidade. Não perdeu uma hora apanhando sol como um mendigo, tendo piedade de seus irmãos, dando a mão aos [166]infelizes, porque vivia n'uma aflição, atraz do quê? Da felicidade. Não se sentiu a sós comsigo, não se encontrou, nem sequer um dia da sua vida olhando perdeu-se cara a cara, elle e a sua alma, fechada com o seu coração. Porquê? Porque corria atraz da felicidade. Desprezou tudo, a vida, a respiração dos montes; riu-se do amor, da emoção--futilidades--porque feroz, incansavel, negro como um mineiro, elle buscava, sem perder um minuto--a felicidade! Chegou ao termo da jornada, tendo amontoado oiro e pão, tirado a outras bocas, tendo feito gritar, blasfemar, contente o seu orgulho e a sua vaidade mas afinal profundamente triste. Está a dois passos da cóva. Interrogue-se e não compreenda. Então isso é que era uma felicidade? De que me serve tudo isso? O infeliz não reparou que a felicidade na vida estava exatamente no que ela tinha desdenhado!Ama, ama a teus irmãos e vel-os-has transformados e cheios de beleza: mesmo nos mais secos iremos encontrar coisas inesperadas; ama a natureza, os montes, as pedras - e verás que espetáculo sublime; ama que sentirás a mão de Deus enterrada se sobre a tua cabeça.Torne a vida simples e feliz. A tua vida não custará gritos; o teu pão não será furtado a boccas famintas. Por cada homem que amontoa oiro, há cem criaturas morrendo no desespero e na aflição.XXIII
A OUTRA PRIMAVERA
Os dias passaram-se e a Árvore era um colosso.N'essa noite o Sabio encontrou o Pitta desvairado, com o chalé-manta ao vento.--Pitta você tem um ar estranho.E o Pitta, transitado, murmurou:--Você deve tel-os vistos. Nascem, irrompem da treva...O outro, cheio de serenidade, affiançou:--Foi a primavera.--A primavera isto! O amigo desvaira. Como é a primavera? Eles só aparecem de noite, criem-se nos saguões. Deparo com criaturas que nunca vi. Uns são lama viva, outros que são?.... Homem, dir-se-hia que todos os sonhos tomaram corpo.--Tomaram. Tenho pensado nisso. Pois foi a primavera. Você já viu um charco, lama e água revolvida? [168]Vem a primavera e aquilo se transforma. O mesmo sôpro que faz bater mais alto o coração dos montes, cria n'aquelle palmo negro a vida - murmúrios, gritos, um arrancar de mistério. A primavera faz isto; transforma o húmus inerte em uma vida furiosa. Eu já vi...--Então...--Então, Pitta, você medita, é isto... Esta lama que se cria nos saguões, homens, gebos, emparedados, poz se com estas noites a criar... Veio d'alli--e indicado para os lados do Hospital--um eflúvio, o mesmo que faz nascer como árvores, e elles estremeceram abalados.--A noite tem realmente qualquer coisa que aflija... Opressão, mistério...--Emoção que foi até as tocas onde elas criam. Pozeram-se a sonhar e criar. Ora escute... Ouve um fremito, o escachoar d'um riachão, gritos?.... E, como se a gente pozesse o ouvido d'encontro á terra...--Crearam?--Crearam. Isto que nós vemos não são eles, são aparições. É o que eles sonharam. Os sonhos dos infelizes tomaram corpo. Só nós é que não podemos sonhar.--Nós não, nunca mais... Os sonhos dos infelizes tomaram emfim corpo!--Tanto sonharam! tanto sonharam!...--Mas foi a Noite então?....--A Noite. Uma primavera negra, feita de emoção e de noite. Eles só deitam florescer à noite e só podem sonhar à noite.[169]--E você como eu sabia?--Meditei.--São afinal, é certo, sonhos. Uns parecem estatuas vivas, outros são disformes...--Eu tenho visto. É um amálgama singular. Criaturas de fogo, outras de crime. Dil-as-hieis revolvidas, homens e sonhos misturados, um rio que tudo acarrete...--O que eles sonhariam para chegar a materializar!--De cada canto surge. É inesperado e imprevisto. E dos sítios mais negros é que eles irrompem em braza. Hontem vi um que parecia uma flôr---branco, todo branco ou de luar gelado...--E falam!--Falam, pregam! Ouve-lhe os gritos?Era na realidade uma mistura de sonho e vida. O Predio tremido até aos alicerces, queria elle proprio criar. O rio subterrâneo estrupia coleras, absorvera, rompera para a luz; o esgoto acossado carreava oiro, como as poças que refletiam um potente. O Gabiru pregou aos infelizes. O Pitta mostrando-lhe ao pé os montes, as árvores, a natureza, desvairara-o. Viam-n'o curvar-se sobre os miseros e falar-lhes baixo, precipitado, ronco. Deixava-os a cismar d'olhos febris.As suas palavras ardiam. E subterrâneo, incansavel, ferreo, minava. Ia á procura de odios para as atiçar. Prégava-lhes, apontando o Hospital:--É alli! alli!...Falava dos montes e das águas, mas confundia tudo: aquela manhã de março esbraseara-o.[170]--É uma coisa esplêndida! É ao mesmo tempo a frescura e o fogo, um incêndio verde que pacifica e estanca toda a sede. Águas a rolar e árvores esgalhadas falando... Sabeis o que são árvores? Ha todas as montanhas de riqueza, thesouros... Deitae abaixo! deitae-o abaixo!...Todos os desesperados conheciam essa figura que surdia com a noite, esguio como um enterro.--Ha montes todos d'oiro erguidos para o céo, ha oiro nas arvores, oiro nos montes e no tojo... Todas d'oiro são as águas a rolar. Ha seda viva e árvores... Ha seda viva e árvores! E tantas vozes a falar. Tudo fala! tudo fala!E os pobres, os transitados, os homens encardidos de desgraça, escutavam-n'o e punham-se a falar sósinhos. As palavras do Gabiru empoeiravam-nos d'inquietação e tristeza, e a noite era como um brazido que alguém remexe. Ouvira-se primeiro o murmúrio, a zoada do sonho afastado; ouvia-se agora rolar como um rio que incha e trasborda.--Ha oiro! para lá ha oiro!...E era como se o globo tivesse irrompido uma torrente de sonho. O Predio parecia abalado. Todo aquele território de criaturas ou esbrazeara.--Tanto sonharam! tanto sonharam!...Pobres que fariam senão deitar as mãos tabidas a um outro universo que elles presentiam igneo?Á força de sonhar materialisaram o sonho.Eil-os gastos e ardidos. Depois de dar luz, um toro converteu-se em cinza, e no rescaldo todos os toros se confundiram. Não conheço a vida senão a dôr. Gesticulavam, [171]olharam absorvidos, perdidos de emoção, como quem descobre nova terra e deitavam-se a falar uns para os outros sem se entenderem. Nem sequer se ouviram. Cada um narrava a sua antiga, dizia a história pobre ou doirada da sua alma. Pelos sotãos, nas mansardas e nos saguões, encontrei-se aquela levada cismática, tolhida de sonhar. De uns para os outros é o Gabiru, falando com palavras que os doloriam e eles fizeram precipitar as ilusões represas... É verdade afinal que há árvores e fontes todo d'oiro? Porque é que eu nasci para sofrer? Porque é que existem vidas, como a de certas sensações, que não chegam a ter força para germinar?Tocados dessa primavera negra, de que falára o sabio, juntavam-se para se queixar e cada um, à força de sonhar, criava uma figura, desenvolvia-se. Dos seres trágicos, rotos, calcados, nascendo uma aparição de uma beleza estranha; d'outros nevoa, fantasmas. Todos traziam o seu companheiro--e havia homens acompanhados por árvores, pelo ódio, pelo riso, por monstros...--Eil-os que deitam flôr! eil-os que deitam flôr!...E na noite eles botavam realmente flôr, e de tanto falarem nas árvores e nos montes até as pedras cheiravam a terra arada.Sonhos tristes, mealhas, almas que nem sequer puderam exalar ilusões, sonho de sébes, de calháos, de tudo que no planeta se cria de ignorado e humilimo.XXIV
A MORTE
Oh, eu já não sei bem, pobre de mim, o que é realidade e o que é sonho. Por vezes me parece que o próprio Hospital se propõe a falar pela sua boca de pedra. Em noites de luar, quando tudo para lá se envolve em algido luar, eil-o que enternecido conta sonhos rotos e tristes, o sonho dos pobres, dos cegos das estradas, coisas humildes e no entanto vivas, como os fiosinhos d'agua, que apenas convivem com uma lapa e um farrapo de musgo, esquecidos no globo, mas que exalam uma frescura enorme...Encontraram hontem o Astronomo escondido na latrina. Ultimamente ia-lhe no guindaste um ruido estranho. Constelações de fogo, mundos e coisas terrenas se confundem. O olhar absorto, tremendo de frio dentro do casaco d'alpaca, olhou o céo n'um extasi. De [174]que tombára? De fome ou de um sonho? Consumir-se como um tronco n'um lar.Deram com elle cahido na taboa molhada d'aquella ignobil latrina de casa d'hospedes. Nos seus olhos, mesmo mortos, ficaram luciluzindo uma poeira d'espanto. Morrera surpreendendo algum mundo desconhecido ou descobrindo outro sonho tão vivo, que, de vêl-o, cahira fulminado? Em torno era o asco: as paredes com dedadas, versos obscenos e legendas prodigiosas. Havia um desenho alegórico, um viva a republica ! outro, morra a D. Antônia ! é um soneto bocagiano contas pela mão do Pitta - e entre aquela lama o Astrônomo morto era como a claridade das constelações, que luzem até no fundo das latrinas.Um rio, dir-se-hia um rio, com coisas trágicas à tona. Só a Árvore cresce e à medida que a criação forças a Mouca se consuma. A tosse desconjuncta-a. Creou-a a calçado humano, personalizado-a do lodo das ruas e da abjecção. Mas a dôr vem e purifica: é como o fogo que torna um galho apodrecido, atirado ao lume, num ramo do oiro mais fulgido. Magra, alta, luziam-lhe os olhos d'um brilho estranho. Riem-se os soldados, batem-lhe os ladrões e só ella não ri como outr'ora. Se a fazer sofrer, a Mouca chora. Um dia ao ver que batiam em Sofia diz-lhe:--E se nós nos matassemos?--Calla-te! calla-te!--Sabe uma menina? Eu não sei o que tenho, já não me importo de viver. Perdi o amor à vida. Olhe para o meu corpo. Já não tenho senão ossos. Porque será [175]que a gente muda? Diga-me: é p'ra amor do velho que se não quer matar?--É, está chamado.--Eu cá sou assim, o que quer? Às vezes, quando não tenho com quem falar, me coloque a falar sosinha. Antigamente não me lembravam coisas que me vem agora á ideia. Esta vida sempre é mais negra, não é?--É.--Pois é, eu bem digo e mais não conheci outra. Sempre a gente nasce com cada sina! Olhe quando eu estiver p'ra morrer, não me deixe ir p'ra o Hospital.--Não fales...--Porquê? Eu bem sei como estou. Dá-se-me bem! A gente tem de morrer, não é? Então quanto mais depressa melhor...Uma noite que os ladrões espancaram Sofia, a Mouca poz-se a olharl-a como um cão ao dono. Por fim disse-lhe:--Vamos ambas ao rio quer? Eu não me importo de morrer. Mais vale acabar. É uma menina? O que eu vou fazer neste mundo? Se a menina tem medo da água, eu deito-me primeiro ao rio.--Não, deixa! não te afflijas!...--Eu, sim! Bem m'importo!...De noite muitas vezes tinha aflições, sufocada. Agarrada a Sofia:--Ó valha-me!...No entanto falou de curar-se, quando tornasse o sol. Por ora tudo estava tranquilo.[176]--Na primavera...--Sim, na primavera.--Vês a Árvore, vêl-a? Assim que tiver flor, é mais quentinho...Mas veja março e depois de abril e que transformação! Quase nada restava da Mouca, escarnecedor de ladrões e de soldados. Até a voz se lhe sumira...Dia sombrio, de nevoa, cinza e úmido. Começo da noite. Fóra, na rua, lama e gritos; dentro das mulheres acenderam um candieiro fumarento. Vai morrer a Mouca. Limpam as prostitutas o suor da agonia e pé ante pé vem os ladrões e os soldados para ao redor da visão vêl-a acabar. Moldado pelo lençol um corpo resquido e no silêncio d'espera ouve-se só a rala afflicta, o estertor, a ancia de quem quer ainda vida e que a morte esgana--mais perto! mais perto!...O Velho, com a boca enorme some-se no escuro e de lá os seus olhos brilham; á cabeceira Sofia ageita-lhe as repas curtas e úmidas. O lenço está ensopado de suor de aflição.--Ajudae-a a morrer--diz uma das mulheres.--Está a passar?--Shiu! baixinho...Chegam-se mais os ladrões e os soldados e curvam-se em volta da enxerga--o Pitta, o Morto, os outros. Nas suas feições crueis, há espanto e terror.--Inda fala?--Shiu!...Esperam. E a rala enrouquece, mais aguda, como [177]se a morte fosse apertando--mais perto! mais perto!... A Mouca abre os olhos enormes na cara branca e imaterialisada:--Menina! menina valha-me!...--Estou ao pé de ti.--Tenho frio, muito frio...Juntam-se os caras dos ladrões e dos soldados, todos em roda--e pé ante pé também o Velho se chega para a cama. A Mouca abre os braços e de um lado o Morto, do outro Sofia, seguram-lhe nas mãos.--Aqui está uma manta--diz o Velho baixinho. E apresenta um farrapo de manta cossada.--Shiu! já não precisa.--É melhor deital-a com a enxergar no chão, para acabar de penar--aconselha a patroa.A Mouca respira afflicta.--Tenho frio... nas mãos, na cara...Devagarinho, arrepanhando o lençol, rodeada de todos que a tinham maltratado, de todos os que se tinham rido d'ella, devagarinho se fina; a vida extingue-se-lhe como o último gotta d'um fio d'agua que acaba de correr. Haviam ficado em volta imóveis.Este ato do espírito se libertar é de tal forma grande, o início do mistério, que até o Pitta olhou estarrecido. Fóra disse para os ladrões:--A morte, rapazes, ensina. Não há licção mais formidável. É doloroso e não emtanto pacífico. Vêr morrer, cheio de grandes ideias, filhos!...XXV
A ARVORE
O Morto tinha um feitio singular. Uma força desconhecida-d'essa atual a que estamos sujeitos toda a vida--impellia-o para o mal. A sua maneira de falar era curiosa, como a de todas as pessoas que vivem sós e a quem o tempo sobra para refletir.--Quem é você? disse-lhe o Gabiru.--Sou filho do crime. O que você importa o meu nome? O meu nome ao certo ninguém o saberá. Não tenho família.--Quem você criou?--Os ladrões.--Se não tens onde dormir, deita-te lá em cima.E emquanto o ladrão dormia aos solavancos, acordando d'estacão, para de novo mergulhar num somno profundo, o Gabiru scismava, olhando-o.Às vezes o ladrão tornouva e o philosopho repartia com ela o seu pão. Depois disse-lhe:[180]--Dorme.Mas n'essa noite o Morto não quiz dormir. Sentados à beira um do outro falam durante largo tempo.--Não sei porquê este tempo afflije--começa o Morto--Não desvia haver este tempo.--Qual?--Este, de primavera. Até na cadeia, quando n'uma noite assim o luar consegue entrar pelos buracos, os ladrões acordam sobresaltados. Tenho visto assassinos abalados. Havia d'uma vez um velho, que matou uma criação por nada, para se rir, e que n'uma noite d'estas encostou a boca às notas para respirar com soffreguidão e desatou a cantar. Este tempo tira a força.--Escuta. Não ouve nada?--Nada... Durante o tempo que persisti na cadeia aprendi cada um... Os que matam inda são os que têm melhor coração.--Tu para que roubas?--Roubo porque tenho de roubar. É o meu fado. Cada um tem o seu. Tudo o que a gente faz está escrito no livro do destino. Eu bem sei que inda hei-de fazer peor quando subir a hora...--Que hora?--A minha hora. Todos neste mundo têm uma hora em que cumprem aquilo para que foram criados. Cada qual nasce para o que nasce. Ha-os, por exemplo, que chega a sua hora matam. Pensa que é para roubar? Matam uma criação que nunca fez mal.--De que serve fazer mal?--Em primeiro logar é fazer mal, e quando a gente nasce para fazer mal, é sempre bom fazel-o. Tenho [181]horas em que tudo em mim--tudo!--me préga que faça mal e as minhas mãos procuram logo quem matar. Às vezes sonho que mato. É sinal de que a minha hora ainda não é assim.--É Deus?--Deus foi que me criou, Deus não se importa. O que eu tenho que fazer neste mundo? Só mal. É porque Deus me criou para o mal.--Resiste.--Quando a gente é criada para isto, não há nada que nos impeça.--Antes viver com um sonho, ignorando tudo.--Mas viver!... Viver com toda a força! Você não vive. Morrer sem ter vivido!... Que sabes tu da fome? E da desgraça? Quem sabe você de ser perseguido e de fugir? E do minuto em que se mata?.... Que sabes tu de seres tu? Há instantes em que se vive uma vida inteira. Para se viver é preciso cumprir se um fado, com todo o nosso ser, é preciso a gente sentir-se só contra todos e no entanto prosseguir o seu destino... Andar inda que esmague. Para onde? É para o mal? Que importa!...--Mas o mal...--Que sabes tu do mal?--Nada.--O mal sabe... Ter as mãos ensanguentadas e esmigalhar nas mãos!... Fugir de noite com os pés nas pedras, perseguido, sem poder respirar; encher depois o peito, com o coração a estalar, escondido n'um canto negro ou estender-se a gente no chão e sentir na bocca o travor da terra!... Não respirar e ter a noite [182]por amiga!... A gente poder fazer chorar! Eu ter entre as mãos uma vida e vel-a finar-se!...--E eu que tinha pena de ti!...O Gabiru reflete. A noite é espantosa. Toda a lua se desfaz em luar e, no silêncio branco, vem-se da trapeira, os montes, o mar e as árvores, com formas de sonho.--Pobre de ti!--diz por fim o philosopho--Tu és a terra, tu és a terra a falar... Tu és só terra. Eu não vivi? Tu és como uma forja desligada e eu não, eu não, eu ardo!... Olha! Olha!...Mostrava-lhe os montes, o rio, os pinheiros transformados ao luar?--Não, não quero ver. Isto tira a força à gente.--Olha! olha!Mostrava-lhe, esguio e parecendo um D. Quichotte banhado de luar, um sonho que o outro não podia ver...Foi esta noite! foi esta noite! Há dias em que eu sinto como uma torrente impetuosa que vem do outro lado do Hospital. As pedras estremecem impelidas. Há como uma ligação entre a árvore e o que para lá existe. Os seus galhos absorveram quase a rebentar e hontem tarde eu vi que a Árvore já não era a mesma. Foi quando, como agora acontece sempre desde março, o sol lhe deixou poeira de oiro nos galhos. Vae-se o sol embora e ainda-vou jural-o-lhe fica sol nos ramos. Hontem á tarde parecia transformada, dirieis haver n'ella não sei o quê d'extraordinario. Tinha o ar d'um heroe ou d'uma mãe. Puz-me a vel-a tronco por tronco, depois as pernadas e os raminhos e emfim descoberto perdido, quase sumida, uma flôr tão miuda, [183]tão tenue... Qualquer sôpro do vento leval-a-hia para sempre.Uma noite estremecia despedaçada. Uma nevoa viva, torrente luminosa, arrastando comsigo no alvorecer, o primeiro halito dos montes e das águas acordadas, humedecia as arestas dos muros, o granito da cidade ainda em bloco, meia sumida na noite. O Pitta sente que alguma coisa extraordinária se passa nessa madrugada de abril: um jorro de vida brotára, uma aparição, um sonho realisara-se tornado em matéria. A própria luz dir-se-hia enternecida, estremecendo ao tocar na Árvore. Envolve um fluido, um rastro de emoção. Erguida, enorme, transformará em flor a dor que as suas raízes tinham bebido. Com um grito o Pitta viu o Gabiru pendurado em um ramo.Namorára sempre, depois do escarneo da Mouca aquella Arvore, scismando n'um encontro ethereo para depois da cova. A tisica, nos últimos dias, quando a morte a tocára, não tirava os troncos despidos o olhar absorto.--Aquella Arvore,--dizia--aquella Arvore...Não sei se repararam... As criaturas mesmo antes da agonia pertencem mais a um outro mundo do que à terra. A matéria já está toda imbebida de mistério, há mais luz do que noite... As coisas que pertencem ao corpo emmudecem e propõe-se a falar dentro de nós a poeira d'astros de que é feito a alma.--Uma Árvore! a Arvore!...-dizia ella para Sofia--Donde nasce aquillo--olhe--que a faz tremer? Engrossa e de noite irradia luz... Lembra-se do ano [184]passado que p'ra alli veio um passarito morar? E da sua voz? Parecia água a cahir...Quando para sempre a levaram o Gabiru mergulhou na dor. Isolou-se mais. Monologava e os olhos esqueceram-se-lhe nos sítios que ela ama. As noites já tinham esse encanto que alheia, cheias de gritos, de vida no escuro, de palores esquecidos...Altas horas à janela, todo o céo pontilhado d'estrellas, reuniu soluções na quietude da noite. Cahia um luar enorme e a treva tacita parecia esperar escutando. Só muito ao longe, no silencio que lhe pareceu pressago, dir-se-hia que uma nascente deixara correr um fio de água--só um fio... Ou talvez fosse luar que corresse... Dirieis lagrimas. Poz se um olhar inquieto. A Árvore mais esguia ao palor do luar, parecia transformada. Acenavam-lhe os ramos--e que voz era aquella, fina e meiga, que o chamava?.... Ou seria água nascendo ou um fio de luar a correr?Desceu tres a tres os degraus e eil-o no quintal. Vestira o luar à Árvore e sob a magia da noite a eclosão fazera-se. Cobriam-na flores--cheiinha--e todas elas eram como pequeninas boccas a chamal-o, com uma voz conhecida.Ao luar, na luz indecisa da noite, ele pareceu a Árvore como um fantasma branco a fugir e o chamal-o. Baixaram-se os seus troncos para o levar e ouvir aquela voz amiga, desfalleceu apertado, morto, levado pelos ramos...XXVI
NATAL DOS POBRES
Natal ...Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as árvores despidas não bolem. Uma vida parou. As nuvens andam a esta hora arrasto pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na natureza se concentra e sonha. Não há emtanto um grande rio revoltado que nunca cessa de correr...Longe pelos caminhos, através de pinheiras sumidas e callados, vão velhinhas tristes, de saia pelos homens, para consoar n'esta noite com os filhos. Andam tropegas legoas e legoas. As suas mãos calosas, as caras enrugadas, onde as lágrimas abriram sulcos, os olhos tristes, contam o que elas têm passado na vida, dias sem pão, suor d'aflicções, desamparos, maus tratos...[186]Os cavaleiros deixaram mortos os arados nos campos, que a chuva alaga. Que tudo repouso. O vinho d'hoje conforta, como as lágrimas choradas pelas nossas desgraças, o lume d'hoje quente como o amor de nossas mães.Nos soutos, sob a chuva que cahe mansa e continua, e sou pobre que não tem lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão de pae. Partem, chegam, vêm de muito longe, para verem os seus meninos, matando saudades. Quase não comem e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos, que têm atraz de si uma vida de martírio e fome, dizem:--É hoje o maior dia do ano...Na lareira arde um canhoto. Cabe o nevão. A cosinha é negra, de telha vã, é negra o frio, mas as almas sentem-se agasalhadas. Por um buraco avistam-se as estrelas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das pinhas, abafadas na cinza, repartem um pão que é o suor do seu rosto, bebem um vinho quente em árvores que as suas mãos cortam.Sentados ao lume não falam. As brazas vão-se extinguindo como um poeta, ou como uma alma que vai nos deixar. A Morte passa. No buraco do telhado a estrela reluz, o nevão cabe com um ruido de flores desfolhadas, e cada um cisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longinquo: em certa hora da vida, na mãe, n'um filho ausente, n'aquella morta que passou seus dias a sacrificar-se por nós...--O lume apaga-se...[187]--Deitae-lhe canhotos.A luz apaga-se e as sombras da noite, em revoados, vêm escutar-nos atentas.Os pobres são como os rios. Estancam a sede da terra, fazem crescer as raízes e crescer as árvores; implicam; Móem o pão nos moinhos. Eil-a vida da terra. Todas as cátedras foram construídas da sua dor; sem eles a vida pararia.Natal dos pobres! natal dos pobres!... Porque é que criaturas miserrimas, encontram ainda na sua gelida nudez, horas para gravar e amar? Pobres reportem o seu pão; espesinhados dar-nos das suas lagrimas. Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a aflição. Chegam-se uns aos outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sítios onde se sofre, os miseros e os doentes quedam-se muito tempo a cismar. Os pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparados, onde nem o lume se acede; cuidam n'uma velhinha, que, a essa mesma hora, cisma, abandonada e sósinha, ao pé de brazas extinctas, no filho doente, no filho ausente... Ha cabanas nuas, lares rotos, almas mais geladas que o nevão.As lágrimas que se choram e se não vêm são as peores: cahem sobre a alma.Sofia sóbe as escadas com uma caneca de vinho quente, para repartir com o Gebo. Na sua fisionomia há um cansaço enorme.[188]A chorar, misturando-lhe lágrimas, o velho, mais gordo e todo branco, bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraçados soluçam na trapeira fria. Fóra não se ouve boato: as coisas ingeridas escutam. Põem-se a cismar na mãe que descança na terra encantada. Tudo tão triste, dias sem pão, e o amor a prenderl-os, a unil-os, mais forte que a desgraça. Não sinto ódio, nem tenho forças para gritos. Baixinho o velho Gebo e a filha choram aquella que a terra primeiro tragou.--Se o senhor também nos levasse...E Sofia bebendo do mesmo copo:--Tenha paciência, tenha paciência...--Se o senhor nos levasse juntos, na mesma hora... Cuido que não tinha tanto frio.--Ahi tem pão.--Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse comtigo, minha filha, não tinha tanto medo.--A mãe lá nos espera. Na cova acaba-se as precisões e as lágrimas...--Tudo se acaba na cova. Chegada à nossa hora, acaba-se também a desgraça.--Aqui tem o vinho.Natal dos pobres, noite de comunhão, noite de lágrimas e saudades! Não é chuva que cahe sem ruido, são lágrimas. O Gebo abre uma janela e propõe-se a falar para a escuridão com palavras que a noite escuta, com palavras que a noite leva. Sofia o Ampara.Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovellos fincados nas taboas, olham o vinho [189]quente e scismam... Ceia de natal! Ceia de natal!... Até as prostitutas se querem lembrar... Moidas de pancadas, tem mais palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se pequeninas para que lhes perdoem uma vida infame.Falam! !... Parece que a mesma primavera negra fez dar emoção a falar estas criaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre lagrimas, risos sem piedade... Uma começa:--Ninguem canta?E logo outra, como se as palavras lhe sahissem de golphão:--Eu cá foi por fome que me desfrutaram. Ninguem queria saber de mim e a minha madrasta calcava-me aos pés.--Eu nem sei como foi...--E eu então--continua--foi por fome. O pae estava encarangado e a minha madrasta era tão má, que, por eu demorar num recado, partiu-me um braço.--Pois eu fui assim de repente...--diz outra--Ia pela rua fóra. Vinha da fabrica, começou a chover e uma lama!... Tinha frio e um homem poz-se a falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquillo foi... E a falar, a falar, até me doía o coração! E nunca mais o vi. Se o vir acho que nem o conheço.--Enganam e nunca mais querem saber.--A mim minha mãe bem me prégava, mas a gente que tem de fazer?--Hontem os soldados pozeram-me o corpo negro,-diz uma.[190]E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nodoas. No hombro os ossos furam-lhe a pelle.--Quando eu morrer... oh quando eu morrer!...--Tola!--Que tem? Tenho toda a roupa separada.--A mim quando sahi do asylo me enganou, levaram-me. Eu não sabia nada. Depois comecei a servir. Enganaram-me e punham-me fóra... Depois não tinha mais para onde ir...--Eu cá tive um filho...Uma que estava chamada soluçou no escuro. E como todos se voltam poz-se a rir e a ageitar os cabelos.--Eu tive um filho e puz-me a criar. Depois disso o meu amigo nunca mais quiz saber. Quando eu o procuraria-se. Mostrava-lhe o inocente e ela punha se a rir.--Mulheres não faltam, dizia-me. Vae-te!--E a gente fica feia. Vae um dia e disse-me:--Se cá torna chamo a policia.--Eu chorei até não ter mais lagrimas e acabou-se tudo. São todos o mesmo. N'outro dia vi-o mas elle fingiu que não me conheceu.--E o teu filho era bonito?--Era um anjinho do céo. Tanto chorei que seccou-se-me o leite de chorar. A gente sempre é mais tola!... Poz-se muito chupadinho e morreu.--A Maria já deitou um á roda.--Eu cá se tive um filho acho que morria por ela. Não tinha coração para o dar a criar.--A gente não podemos ter filhos.--Eu cá era uma inocente. Até me dá riso! Tinha treze anos e foi logo ao entrar para a fábrica. Ó mestre [191]foi quem me desfrutou. Agarrou-me, mas eu não sabia e puz-me a chorar.--Calla-te! se dizes, vaes para a rua!--Abandonou-me, outros vieram... A gente tem-de cumprir o seu fado.--Eu cá fui um miminho. Meu pae tinha de seu... Depois de tudo esquecido, porque senão a gente morria. Meu pae era muito meu amigo. Era preciso não ter coração para o engano. Nem elle podia suppôr mal de mim, nem do outro que entrava em nossa casa. Meu pae era também muito amigo d'elle e tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pae commigo no collo me disse:--Tu és o meu coraçãosinho...--Eu sempre tive um collo! Olhae: emballava-me como ás creanças.--Falta-te a tua mãe, mas eu sou a tua mãe, queres?--Era uma dôr do coração enganal-o e nós enganamol-o ambos. E eu bem sabia que ela era casada, mas me mentia...--Porque será que os homens mentem sempre?--Mentia-me sempre, e eu era inocente. Mentiu-me e mentia a meu pae. O pior é que um dia fiquei grávida. Começou o meu castigo.--Vou-lhe dizer tudo.--Diz--disse elle. Matal-o. Se queres diz...--Eu callei-me.--E agora?--Agora...--Eu já lhe não queria, acho mesmo que nunca o quiz deveriaras. Foi uma desgraça. Já estava escrito que estava sujo, acabou-se!... Depois não pude esconder o meu erro. Só meu pae não reparava... E ela que me imaginava uma inocente!... Esperae...--E agora? agora?....quere-lhe. Então arranjei com que meu pae me deixa ir com ela e a mulher para uma quinta. Se vós visseis!... A pobre da mulher! Batia-lhe sempre, [192]tratava-a peor que a um cão.--Calla-te!--e ella callava-se, a pobre.--Fala!--e ella falava.--Ó estupor tu não te callarás!--Ella tinha os cabellos todos brancos e vae em um dia quer-lhe quantos annos tinha.--Trinta, respondeu-me, e callou-se. Fiquei passada. O homem deante d'ella dava-me beijos para ver chorar. Dizia-lhe:--Vou dormir com ela, ouves, velha?--E dormia commigo. A senhora não disse palavra. Chorava e punha em mim uns olhos tão tristes, que faziam aflição. Um dia que ficamos sósinhas, ella disse-me:--A menina ha-de ser uma infeliz--Eu chorei, e ella com a mão nos meus cabelos, a fazer-me festa:--Coitada! coitada, que sorte a sua tão negra!... Ainda eu...--Porque o não deixa? queria-lhe.--Já me tinha deitado ao rio se não fossem os meus filhos.--Elle sempre ha péssimas? Ás vezes mais vale ser mulher da vida.--Esperae pelo resto... Tive as dores uma noite no verão, em agosto, e a pobre da senhora é que me tratou. Elle me levou logo o filho. Na outra sala ouvi gritos. Vae e atirei-me pela cama fóra, sem saber o que fazia.--Onde está o meu filho?--Fui mesmo de rastros e puz-me à porta a escutar. Elles berravam--Se falas esgano-te!--dizia o malvado á mulher.--Mata-me! tornava ella.--Você quer a minha desgraça? Estorcego-te!--Depois ouvi um grande grito e fiquei como morto.--O nosso filho? o meu filho?--Nasceu morto.--A mulher a um canto chorava. Chorou sempre depois.--Tinha-o matado, o malvado?....[193]--Tinha. Affogou na latrina. Depois veio a polícia. Esperae... A criada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa d'um lado e descobre do outro. Elle fugiu para o Brasil, eu fui presa, e meu pae deante d'uma ingratidão tão negra--queria crêr?--estalou-lhe o coração. Depois... depois... A gente quando nasce já tem a sua sina escripta.--E a ti?.... Não falas?--perguntam a uma sumida no escuro.--A mim me enganou. Foi há tanto tempo que já não me lembra. Tudo perdido.--É sua família?--A gente não tem família.Na noite, a um canto do Hospital o velho banco de taboas puidas, dá-lhe também para cismar. A ventania parou. D'uma fresta tomba luar. A treva amontoa-se ao fundo, e, para além, nos corredores abobadados, arde um lampeão. Direis que o negrume remexe: pedaços de escuridão destacam-se, escoam-se sem ruido pelas muralhas úmidas e espessas. Mais para o fundo há como um abismo, valla commum de treva empastada. Os gritos redobram; depois, por momentos, o silêncio sufocante, como o d'um sepulcro.--Se é luar que cahe d'aquella fresta,--cuida o banco.--Se fosse luar!...Pela escada vê se a enfermaria onde os lampiões em fila dão uma claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, cahidos nos leitos: parece uma necrópole subterrânea e imensa.--Se fosse luar...--Ha que tempos que não sinto [194]ó luar. Era como um ruido branco que me envolvia outrara na floresta. Neva às vezes luar. E havia ainda outras vozes... Sempre se sonha, quando certas noites nascem! Era diferente... Havia rumores nas folhas e o vento dizia aos ramos histórias acontecidas n'outros montes. Há épocas em que o vento traz noivos, ais de sapos, frangalhos arrancados às flores... Se aquela poeira fosse luar... E se o luar se pozesse a correr sobre mim, aquecendo-me como outr'ora, quando em mim subia não sei o quê de misterioso e forte?Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os últimos lampiões apagam-se um a um, como se alguém quisesse soprasse. É a Morte seguindo o seu caminho. Sombras esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais callada, maior, valla infinita, a que uma luzinha dá alma. E o banco cisma:--Ha que tempos que não sinto em mim a luz da manhã, que traz comsigo a vida de tudo o que existe, dos rios, das outras árvores, nem o sol a crescer em vagas d'oiro, nem a água verde, melancólica, e tão mansa entre os choupos que parece ir vogando já morto... Sinto-me transito... Transido? Isto é como fogo, mas trespassa-me de frio. E não há nevão, mas ouço sempre gritos, ais, dores... Oh se fosse luar!... D'estas enfermarias corre tambem um sonho parecido com luar... Será uma fonte?.... As fontes! nem te lembres das fontes!... Aqui parece que as minhas fibras mergulham n'um mar revolvido, que eu ignoro, mas que é feito de gritos.Baixo a pedra começa também a lembrar-se e áquella hora perdida da noite toda a alma inconsciente do [195]Estremece hospitalar. Quer recordar, palpita e logo esquece... Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes, materialisam-se e são como nuvens: são de fogo, são de luar. Sombras aos bandos dissolvem-se, para outra vez se criarem.--Acho que sempre é luar... E quando havia sol? Torrentes corriam pelo meu tronco, inundavam a minha roupa cascosa e em volta n'uma poeira azul andava um turbilhão de bichos. Outras árvores flutuavam na mesma poalha e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe--e que encanto aquella companhia sempre presente e amiga!--o fio do rio charrava. Folhas cahiam e iam devagarinho viajando sobre a água verde. Para onde?.... Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas raízes quantas vidas protegi e defendi!... As minhas raízes tocavam na vida!... As vezes cahia um pé d'água, mas depois vinham sempre teias de sol, fios de sol, para me enredar--eo sol traz consigo um cheiro a terra e a renovo que consola, o halito dos montes e dos pinheiros meus amigos.Nas temporadas funebres em que a água cahe a golfões, a gente concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens, os bichos na terra tremem de frio sob as raízes e as folhas secas estalam e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a nevoa, os montes são mendigos, com um grande manto remendado. Ao fim da tarde levanta se dos campos um lindo luar azulado que sóbe e se dispersa. É uma nevoa. Baba d'oiro luz na água e os choupos são sombras. Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois [196]poentes doirados... Porque é que me ponho a pensar e a cismar? Ha tanto tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Ha-de ser do luar... Oh se ainda havia luar!As mulheres callaram-se. Não ha ruido. Elas são próprias sonham. Em torno da meza, na cosinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Alguns acham certo n'um lar e bebem as lagrimas que cahem no vinho e o gelam.--A esta hora a minha mãesinha ha-de por força pensar em mim...--começa uma.--E você porque não foste consoar com ela?--Punham-me fora! quero-me lá!... Meu pae, meus irmãos...--Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. Ássam-se pinhas no lar, e minhas irmãs pequeninas... oh minhas irmãs pequeninas!...E sufocada desata de repente a chorar. As outras não se riem como de costume. Só uma, sentindo que iam todas chorar, canta:Se vires a mulher perdida...
--Raparigas é o fado... De que serve agora chorar? Ninguem foge ao seu fado.--Á noite a minha mãe água vinho e dava-m'o na cama. Sempre a gente é criada para uma vida! Quem adivinha?--Calla-te!--Eu era o miminho de todos, eu...[197]--Só eu nunca tive mãe, de mim ninguém se importa! Acabou-se!Na escuridão as cinzas que restam n'um lar, fazem tristeza e saudade. Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da treva que em redor sufoca. Assim o Predio ao abandono, sob a enxurrada, parecia cismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parára tragico defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida, contempla o seu destino.Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se ajuntam friorentos em torno de um lume que não aquece; natal dos seres que a desgraça nós... O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este lume, que jámais se apaga:--Ámanhã! amanhã!...Que poesia tão triste não vai cahindo como um choro sobre aquelas almas de miserrimos, de gebos, de prostitutas, de infelizes!N'uma trapeira o gato pingado quer dizer:--Amo-te!--mas foi sempre tão nú que não sabe expressar o que sente.Na alma d'aquella criação humilde, despida e escarnecida, que tinha medo de sonhar e até de chorar, fazer com que se um clarão. Tal o espanto enternecido d'uma pedra, a que uma raiz se apega e que a olhar deitar flôr na primeira primavera.--Fui eu, apezar da minha segurança, pensa o calhao, que a trouxe no meu ventre.[198]Sem falar, bebem juntos, ela e a Rata o mesmo vinho. Elle diz:--Ambos somos tristes e sósinhos.O vinho que havia calor dá-lhe com um pedaço de pão. Ella olha-o, tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia alguém que gostaria de acumular?...--Bebe.--É tão bom a gente estar junta.--Não se tem frio.--Esta noite sabes?... Lembro-me de minha mãe... Porque seria que ela me engeitou?Fóra chorom. A Rata ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe pôz fóra da porta e que chora e pensa:--E se eu me deitasse afogar?Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, misera, rota, resequida, diz, pondo-lhe a mão na cabeça:--Deus te chora para boa sorte...Na terra só os pobres sabem ser infelizes.Meia noite! meia noite!... Para que tudo se chore, para que o pó se transforme em vida, o que é necessário? Torrentes de chuva, oceanos d'água. Eis a vida... Para que isso seja algo de radioso irrompa, o que é preciso? Um Atlântico de Lágrimas.Da matéria nasceu à custa de gritos, de fibras torcidas, o immorredoiro espírito. Atravez das edades elle se criou, atravez da dôr veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo material. A dôr é a primavera da vida. Para entrar na vida [199]ou para se entrar na morte há sempre gritos. A dôr ara o céo cheio de estrelas e os seres humildes.Que se cria de tudo isso? que é que se alimenta no infinito? D'estes pobres espesinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas - húmus, amálgama, protoplasma, espírito lacteo, d'onde se constroem os mundos. Na valla commum os seus corpos, cansados de soffrer, são a vida da terra: as arvores, o pão, as fórmas, a seiva esplendente. No infinito é da sua dor que se sustenta Deus.