OTELO, O MOURO DE VENEZA


por William Shakespeare


Conteúdo

ATO I
Cena I. Veneza. Uma rua.
Cena II. Veneza. Outra rua.
Cena III. Veneza. Uma sala do conselho.

ATO II
Cena I. Um porto marítimo em Chipre. Uma plataforma.
Cena II. Uma rua
Cena III. Um Salão no Castelo

ATO III
Cena I. Chipre. Em frente ao Castelo.
Cena II. Chipre. Um quarto no castelo.
Cena III. Chipre. O Jardim do Castelo
Cena IV. Chipre. Em frente ao Castelo.

ATO IV
Cena I. Chipre. Em frente ao Castelo.
Cena II. Chipre. Um quarto no castelo.
Cena III. Chipre. Outro quarto no castelo.

ATO V
Cena I. Chipre. Uma rua.
Cena II. Chipre. Um quarto no castelo.

Dramatis Personæ

DUQUE DE VENEZA
BRABÂNTIO, senador de Veneza e pai de Desdêmona
Outros Senadores
GRATIANO, irmão de Brabâncio
LODOVICO, parente de Brabâncio
OTELO, um nobre mouro a serviço de Veneza
CÁSSIO, seu tenente
IAGO, seu ancião
MONTANO, antecessor de Otelo no governo de Chipre
RODERIGO, um fidalgo veneziano
PALHAÇO, servo de Otelo

Desdêmona, filha de Brabâncio e esposa de Otelo;
Emília, esposa de Iago
; Bianca, amante de Cássio.

Oficiais, Cavalheiros, Mensageiros, Músicos, Arautos, Marinheiros, Atendentes, etc.

CENA: O primeiro ato em Veneza; durante o resto da peça, em um porto marítimo no Chipre.

ATO I

CENA I. Veneza. Uma rua.

Entram Rodrigo e Iago .

RODERIGO.
Ora, nunca me diga isso, eu acho muito desagradável
que você, Iago, que teve minha bolsa
como se os cordões fossem seus, saiba disso.

IAGO.
'Sangue, mas você não vai me ouvir.
Se eu alguma vez sonhei com tal coisa,
abomine-me.

RODERIGO.
Tu me disseste, tu o odiavas.

IAGO.
Desprezem-me se eu não o fizer. Três figurões da cidade,
em busca pessoal para me nomear seu tenente,
me dispensaram; e pela fé dos homens,
sei o meu valor, não valho posição pior.
Mas ele, amando seu próprio orgulho e seus propósitos,
os evita com uma circunstância bombástica,
horrivelmente repleta de epítetos de guerra:
e, para concluir,
rejeita meus mediadores: pois “Certamente”, diz ele,
“já escolhi meu oficial”.
E quem era ele?
Ora, um grande aritmético,
um tal de Michael Cassio, florentino,
um sujeito quase condenado por uma bela esposa,
que nunca comandou um esquadrão em campo,
nem sabe a divisão de uma batalha
mais do que uma solteirona, a não ser a teoria livresca,
na qual os cônsules falsificados podem propor
com tanta maestria quanto ele: mera tagarelice sem prática
é tudo o que ele sabe fazer de soldado. Mas ele, senhor, teve a eleição,
E eu, de quem seus olhos viram a prova
Em Rodes, em Chipre, e em outros lugares,
cristãos e pagãos, devo ser acreditado e acalmado
Por devedor e credor, este contador,
Ele, no tempo certo, deve ser seu tenente,
E eu, Deus abençoe a marca, o antigo de seu Moorship.

RODERIGO.
Por Deus, eu preferiria ter sido o carrasco dele.

IAGO.
Ora, não há remédio. É a maldição do serviço,
a promoção se dá por carta e afeição,
e não pela antiga hierarquia, onde cada segundo
era herdeiro do primeiro. Agora, senhor, julgue você mesmo
se, em termos justos, tenho afeição
por amar o Mouro.

RODERIGO.
Eu não o seguiria, então.

IAGO.
Ó, senhor, contenta-te.
Sigo-o para lhe servir a minha parte:
nem todos podemos ser mestres, nem todos os mestres
podem ser verdadeiramente seguidos. Observarás
muitos patifes obedientes e subservientes
que, apegados à sua própria servidão obsequiosa,
desperdiçam o seu tempo, tal como o burro do seu mestre,
por nada além de provisão, e quando envelhecem, são dispensados.
Que me castiguem esses patifes honestos. Outros há
que, adornados com formas e semblantes de dever,
mantêm os seus corações voltados para si mesmos,
e, ostentando apenas demonstrações de serviço aos seus senhores,
prosperam às suas custas, e quando se aposentam,
prestam homenagem a si mesmos. Esses indivíduos têm alguma alma,
e eu me considero um deles. Pois, senhor,
é tão certo quanto o senhor ser Rodrigo,
que se eu fosse o Mouro, não seria Iago:
ao segui-lo, sigo apenas a mim mesmo.
O céu é meu juiz, não eu por amor e dever,
mas aparentando fazê-lo para meu fim peculiar.
Pois quando minha ação exterior demonstra
o ato e a figura nativos do meu coração
em complemento externo, não demora muito
para que eu exponha meu coração à mostra
para que os corvos o bicassem: eu não sou o que sou.

RODERIGO.
Que fortuna deve o de lábios grossos,
se consegue carregá-la assim!

IAGO.
Chame seu pai,
acorde-o, persiga-o, envenene sua alegria,
proclame-o nas ruas; incite seus parentes,
e embora ele viva em um clima fértil,
atormente-o com moscas: embora sua alegria seja alegria,
lance sobre ela mudanças tão drásticas,
que ela possa perder um pouco do seu encanto.

RODERIGO.
Aqui é a casa do pai dela, vou chamar em voz alta.

IAGO.
Faça, com o mesmo sotaque tímido e grito terrível,
como quando, pela noite e pela negligência, o fogo
é avistado em cidades populosas.

RODERIGO.
O que é, Brabâncio! Signior Brabantio, ho!

IAGO.
Acorda! Ei, Brabâncio! Ladrões, ladrões!
Cuidado com sua casa, sua filha e suas malas!
Ladrões, ladrões!

Brabantio aparece acima, junto a uma janela.

BRABÂNTIO.
Qual é a razão desta terrível convocação?
O que está acontecendo lá?

RODERIGO.
Senhor, está toda a sua família aí dentro?

IAGO.
Suas portas estão trancadas?

BRABÂNTIO.
Por que, então, te pergunto isso?

IAGO.
Ora essa, senhor, você foi roubado, que vergonha, vista sua toga,
seu coração está partido, você perdeu metade da sua alma;
neste exato momento, agora mesmo, um velho carneiro negro
está cobrindo sua ovelha branca. Levante-se, levante-se,
acorde os cidadãos bufantes com o sino,
ou então o diabo fará de você um avô:
levante-se, eu digo.

BRABÂNTIO.
O quê, você perdeu o juízo?

RODERIGO.
Reverendíssimo senhor, o senhor reconhece minha voz?

BRABÂNTIO.
Não eu. O que você é?

RODERIGO.
Meu nome é Rodrigo.

BRABÂNTIO.
Pior recepção.
Eu te ordenei que não rondasse minhas portas;
com honestidade e franqueza me ouviste dizer que
minha filha não é para ti; e agora, em loucura,
embriagado de jantar e bebidas que te fazem mal,
com malícia e bravura, vens
perturbar minha paz.

RODERIGO.
Senhor, senhor, senhor,—

BRABÂNTIO.
Mas deves ter certeza de que
meu espírito e meu lugar têm poder
para tornar isso amargo para ti.

RODERIGO.
Paciência, meu bom senhor.

BRABÂNTIO.
O que me dizes de roubo?
Isto é Veneza. Minha casa não é uma fazenda.

RODERIGO.
Brabâncio, o mais grave dos meus brabâncios,
venho a vós com alma simples e pura.

IAGO.
Ora, senhor, o senhor é daqueles que não serviriam a Deus nem se o diabo mandasse. Porque viemos para lhe prestar um serviço, e o senhor pensa que somos rufiões, sua filha será coberta por um cavalo berbere; seus sobrinhos relincharão para o senhor; terá cavalos de corrida como primos e gaviões como alemães.

BRABÂNTIO.
Que criatura profana és tu?

IAGO.
Sou eu, senhor, que venho lhe dizer que sua filha e o Mouro estão agora fazendo o bicho de duas costas.

BRABÂNTIO.
Tu és um vilão.

IAGO.
Você é senador.

BRABÂNTIO.
É isso que você deve responder. Eu te conheço, Rodrigo.

RODERIGO.
Senhor, responderei a tudo. Mas imploro-lhe,
se for de seu agrado e sábio consentimento
(como em parte constato que seja), que sua bela filha,
nesta vigília noturna,
transportada sem guarda melhor ou pior,
mas com um patife de aluguel comum, um gondoleiro,
para os braços grosseiros de um mouro lascivo:
se isso for do seu conhecimento e de sua permissão,
então cometemos uma afronta ousada e atrevida.
Mas se não o sabe, meus bons modos me dizem que
temos sua justa repreensão. Não acredite
que, por qualquer senso de civilidade,
eu brincaria e zombaria assim de sua reverência.
Sua filha (se o senhor não lhe deu permissão),
repito, cometeu uma grave rebeldia,
entregando seu dever, beleza, inteligência e fortuna
a um forasteiro extravagante e desregrado
. Certifique-se imediatamente:
se ela estiver em seus aposentos ou em sua casa,
faça-me cumprir a justiça do Estado
por tê-lo enganado assim.

BRABÂNTIO.
Acenda a isca, ei!
Me dê uma vela! Chame todo o meu povo!
Este acidente não é diferente do meu sonho,
a crença nele já me oprime.
Luz, eu digo, luz!

Saída pela parte superior. ]

IAGO.
Adeus; pois devo partir:
Não me parece adequado nem conveniente para o meu lugar
ser apresentado, como se eu permanecesse,
contra o Mouro. Pois conheço o estado,
embora isso possa irritá-lo com alguma dificuldade,
não pode lançá-lo com segurança, pois ele embarcou
com tamanha razão nas guerras de Chipre,
que já estão em curso, que, por suas almas,
não têm outro de sua estatura
para liderar seus negócios. Nesse sentido,
embora eu o odeie como odeio as penas do inferno,
ainda assim, pela necessidade da vida presente,
devo mostrar uma bandeira e um sinal de amor,
que na verdade não passa de um sinal. Para que vocês certamente o encontrem,
levem a busca elevada ao Sagitário,
e lá estarei com ele. Então, adeus.

Saída. ]

Entram em Brabâncio com servos e tochas.

BRABÂNTIO.
É um mal terrível. Ela se foi,
e o que restará do meu tempo desprezado
não será senão amargura. Agora, Rodrigo,
onde a viste? (Ó infeliz moça!)
Com o Mouro, é isso que dizes? (Quem quer ser pai!)
Como sabias que era ela? (Ó, ela me engana
completamente.) O que ela te disse? Traga mais velas,
reúna todos os meus parentes. Será que eles estão casados?

RODERIGO.
Sinceramente, acho que sim.

BRABÂNTIO.
Ó céus! Como ela escapou? Ó traição de sangue!
Pais, não confiem mais na mente de suas filhas
pelo que veem elas fazerem. Não existem encantamentos
pelos quais a juventude e a virgindade
possam ser abusadas? Você não leu, Rodrigo,
sobre algo assim?

RODERIGO.
Sim, senhor, de fato.

BRABÂNTIO.
Chame meu irmão. Oh, se você a tivesse levado!
De um jeito ou de outro. Você sabe
onde podemos capturá-la, a ela e ao mouro?

RODERIGO.
Acho que posso encontrá-lo, se você quiser.
Fique de olho e venha comigo.

BRABÂNTIO.
Por favor, continue. Em cada casa que eu visitar,
poderei dar ordens no máximo. Pegue as armas, vamos!
E recrute alguns oficiais especiais para a noite.
Vamos, bom Rodrigo. Eu merecerei seus esforços.

Saem. ]

CENA II. Veneza. Outra rua.

Entram Otelo, Iago e seus acompanhantes com tochas.

IAGO.
Embora na arte da guerra eu tenha matado homens,
ainda assim considero de suma importância para a minha consciência
não cometer um assassinato premeditado; às vezes me falta iniquidade
para me servir: nove ou dez vezes
pensei em esmagá-lo aqui, debaixo das costelas.

OTELO.
É melhor assim.

IAGO.
Não, mas ele tagarelava,
e proferia termos tão vil e provocadores
contra a vossa honra,
que com a pouca piedade que me resta,
tive que resistir com todas as minhas forças. Mas pergunto-vos, senhor,
estás bem casado? Tenha certeza disto:
o magnifico é muito amado
e tem em seu poder uma voz tão poderosa
quanto a do duque; ele se divorciará de vós,
ou imporá a vós toda a restrição e injustiça
que a lei (com todo o seu poder para aplicá-la)
lhe permitir.

OTELO.
Que ele se desespere;
meus serviços, que prestei à nobreza,
falarão mais alto que suas queixas. Ainda há muito a saber —
o que, quando eu souber que se vangloriar é uma honra,
divulgarei — que conquistei minha vida e meu ser
por meio de homens de guerra real. E meus deméritos
poderão falar abertamente a uma fortuna tão orgulhosa
quanto esta que alcancei. Pois saiba, Iago,
que se eu não amasse a gentil Desdêmona,
não deixaria minha condição de livre e desabrigada
ser limitada e confinada nem
por todo o valor do mar. Mas veja, que luzes vêm lá?

IAGO.
Esses são o pai criado e seus amigos:
É melhor você entrar.

OTELO.
Não eu; eu preciso ser encontrado.
Meus atributos, meu título e minha alma perfeita
me manifestarão corretamente. Serão eles?

IAGO.
Por Janus, acho que não.

Entram Cassio e oficiais com tochas.

OTELO.
Aos criados do duque e ao meu tenente.
Que a noite esteja convosco, amigos!
Quais são as novidades?

CÁSSIO.
O duque o saúda, general,
e exige sua presença imediata,
sem demora.

OTELO.
O que há de errado, você pensa?

CÁSSIO.
Algo de Chipre, pelo que posso deduzir.
É um assunto bastante polêmico. As galeras
enviaram uma dúzia de mensageiros
esta noite, um atrás do outro;
e muitos dos cônsules, reunidos e convocados,
já estão na casa do duque. Você foi chamado com urgência,
pois, não sendo encontrado em sua hospedagem,
o Senado enviou três grupos de buscadores
para encontrá-lo.

OTELO.
Que bom que me encontraram.
Vou apenas trocar algumas palavras aqui na casa
e depois irei com vocês.

Saída. ]

CÁSSIO.
Antigo, o que o traz aqui?

IAGO.
Ora, esta noite ele embarcou numa nau terrestre:
se for um prêmio legítimo, estará feito para sempre.

CÁSSIO.
Não entendo.

IAGO.
Ele é casado.

CÁSSIO.
Para quem?

Aí entra Otelo .

IAGO.
Casar com—Vamos, capitão, você vai?

OTELO.
Tenha você.

CÁSSIO.
Lá vem outra tropa atrás de você.

Entram Brabâncio, Rodrigo e oficiais com tochas e armas.

IAGO.
É Brabâncio. General, fique avisado,
ele vem com más intenções.

OTHELLO.
Olá, fique aí!

RODERIGO.
Senhor, é o Mouro.

BRABÂNTIO.
Abaixo com ele, ladrão!

Eles desenham em ambos os lados. ]

IAGO.
Você, Rodrigo! Venha, senhor, estou aqui para você.

OTHELLO.
Mantenham suas espadas brilhantes, pois o orvalho as enferrujará.
Bom senhor, com a idade você terá mais poder
do que com suas armas.

BRABÂNTIO.
Ó, ladrão vil, onde escondeste minha filha?
Maldito sejas, enfeitiçaste-a,
pois, recorro a todos os sentidos
(se ela não estivesse acorrentada por magia), questiono
se uma donzela tão terna, bela e feliz,
tão avessa ao casamento que evitava
os ricos e elegantes príncipes de nossa nação,
jamais teria que, para incorrer em escárnio geral,
fugir de sua proteção para o seio fuliginoso
de alguém como tu — para temer, não para se deleitar.
Julga-me, mundo, se não é absurdo
que a tenhas enfeitiçado com feitiços malignos,
abusado de sua delicada juventude com drogas ou minerais
que enfraquecem os movimentos. Quero discutir o assunto;
é provável e palpável ao pensamento.
Portanto, eu te prendo e te aprisiono
por abusar do mundo, por praticar
artes proibidas e sem autorização.
— Segure-o, se ele resistir,
subjugue-o por sua conta e risco.

OTELO.
Segurem suas mãos,
vocês dois que me apoiam e os demais:
se fosse meu sinal para lutar, eu o teria reconhecido
sem precisar de incentivo. Aonde vocês querem que eu vá
para responder a essa sua acusação?

BRABÂNTIO.
À prisão, até que o tempo oportuno
, a lei e o curso do julgamento direto
te chamem a responder.

OTELO.
E se eu obedecer?
Como poderá o duque ficar satisfeito,
cujos mensageiros estão aqui ao meu redor, a caminho de me trazer até ele para tratar
de algum assunto de Estado ?

OFICIAL.
É verdade, digníssimo senhor, o duque está reunido em conselho, e tenho certeza de que
Vossa Excelência já foi chamado.

BRABÂNTIO.
Como? O duque em conselho?
A esta hora da noite? Tragam-no daqui;
a minha causa não é vã. O próprio duque,
ou qualquer um dos meus irmãos de Estado,
não pode deixar de sentir esta injustiça como se fosse sua.
Pois se tais ações passarem impunes,
os nossos estadistas serão escravos e pagãos.

Saem. ]

CENA III. Veneza. Uma sala do conselho.

Duque e os Senadores sentados à mesa; Oficiais presentes.

DUKE.
Não há nada de contundente nessas notícias
que lhes dê crédito.

PRIMEIRO SENADOR.
De fato, são desproporcionais;
minhas cartas dizem cento e sete galés.

DUQUE.
E o meu, cento e quarenta.

SEGUNDO SENADOR
E os meus duzentos:
Mas embora não se baseiem numa explicação justa
(como nestes casos, em que os relatórios de objetivo
são frequentemente divergentes), todos confirmam
uma frota turca, dirigindo-se para Chipre.

DUQUE.
Não, é bastante possível julgar:
não me considero tão seguro do erro,
mas aprovo o artigo principal
em sentido estrito.

MARINHEIRO.
Dentro. ] O quê, ho! O quê, ho! O quê, ho!

OFICIAL.
Um mensageiro das galeras.

Entre, marinheiro .

DUKE.
E agora, qual é o assunto?

MARINHEIRO.
A preparação turca para Rodes,
então eu enviei um relatório aqui ao estado
pelo Senhor Angelo.

DUKE.
O que você acha dessa mudança?

PRIMEIRO SENADOR.
Isso não pode ser explicado
por nenhum raciocínio. É um espetáculo
para nos manter iludidos. Quando considerarmos
a importância de Chipre para o turco;
e entendamos novamente
que, como isso diz respeito mais ao turco do que Rodes,
ele poderá lidar com a questão com mais facilidade,
pois Chipre não se encontra em tal posição bélica,
mas carece totalmente das capacidades
que Rodes possui. Se refletirmos sobre isso,
não devemos pensar que o turco seja tão inábil
a ponto de deixar de lado o que lhe diz respeito em primeiro lugar,
negligenciando uma tentativa de facilidade e ganho,
para se lançar em uma situação perigosa e inútil.

DUQUE.
Não, falando sério, ele não é para Rhodes.

OFICIAL.
Aqui estão mais notícias.

Digite um Messenger .

MENSAGEIRO.
Os otomanos, reverendos e graciosos,
navegando com o devido curso em direção à ilha de Rodes,
ali os acompanharam com uma frota de retaguarda.

PRIMEIRO SENADOR.
Ah, era o que eu pensava. Quantos, você deve imaginar?

MENSAGEIRO.
Trinta navios à vela, e agora retomam
seu curso retrógrado, levando com franca aparência
seus propósitos em direção a Chipre. Senhor Montano,
vosso fiel e valente servo,
por seu livre dever, assim vos recomenda
e suplica que acrediteis nele.

DUQUE.
É certo, então, para Chipre.
Marcus Luccicos, não está ele na cidade?

PRIMEIRO SENADOR.
Ele está agora em Florença.

DUQUE.
Escreva-lhe de nós; envie-o o mais rápido possível.

PRIMEIRO SENADOR.
Eis que chegam Brabâncio e o valente mouro.

Entram Brabâncio, Otelo, Iago, Rodrigo e os Oficiais.

DUQUE.
Valente Otelo, precisamos imediatamente empregá-lo
contra o inimigo geral, otomano.
Para Brabâncio. ] Não o vi; seja bem-vindo, gentil senhor.
Sentimos falta de seu conselho e de sua ajuda esta noite.

BRABÂNTIO.
Eu também fiz o mesmo com você. Vossa Graça, perdoe-me.
Nem meu emprego, nem nada do que ouvi falar sobre negócios
me fizeram levantar da cama, nem a preocupação geral
me domina; pois minha dor particular
é de natureza tão avassaladora e insuportável
que engole e absorve outras tristezas,
e permanece em si mesma.

DUKE.
Por que, o que houve?

BRABÂNTIO.
Minha filha! Oh, minha filha!

DUQUE e SENADORES.
Mortos?

BRABÂNTIO.
Sim, para mim.
Ela é abusada, roubada de mim e corrompida
por feitiços e remédios comprados de charlatães;
pois a natureza erraria tão absurdamente,
não sendo deficiente, cega ou insensível,
sem feitiçaria não poderia.

DUQUE.
Quem quer que seja, que neste procedimento vil
tenha enganado sua filha
e a você, o livro sangrento da lei
você mesmo lerá em sua amarga letra,
segundo seu próprio entendimento, sim, mesmo que nosso legítimo filho
estivesse envolvido em sua ação.

BRABÂNTIO.
Humildemente agradeço a vossa graça.
Eis o homem, este mouro, que agora parece que
a vossa especial incumbência para os assuntos de Estado
trouxe até aqui.

TODOS.
Lamentamos muito por isso.

DUQUE.
Para Otelo. ] O que você, por sua vez, tem a dizer sobre isso?

BRABÂNTIO.
Nada, mas isto é verdade.

OTELO.
Senhores poderosos, graves e reverendíssimos,
meus nobres e estimados mestres:
que tomei a filha deste velho,
é bem verdade; é verdade, casei-me com ela.
O próprio cerne da minha transgressão
não se limita a isso. Sou rude na fala
e pouco agraciado com a suave frase da paz;
pois, desde que estas minhas armas tinham sete anos de vigor,
até agora, há nove luas, elas usaram
sua mais preciosa ação no campo de batalha,
e pouco posso dizer deste vasto mundo,
além do que diz respeito a feitos de luta e batalha,
e, portanto, pouco honrarei minha causa
falando por mim mesmo. Contudo, por vossa graciosa paciência,
contarei uma história completa e sincera
de toda a minha trajetória amorosa: que drogas, que encantos,
que conjurações e que poderosa magia
(por tais procedimentos também sou acusado)
eu usei para conquistar sua filha.

BRABÂNTIO.
Uma donzela jamais ousada:
De espírito tão sereno e tranquilo que seu movimento
a fazia corar de vergonha; e ela, apesar da natureza,
da idade, da pátria, do crédito, de tudo,
Apaixonou-se por aquilo que temia contemplar!
É um juízo mutilado e imperfeito
que confessa que a perfeição pôde errar
contra todas as regras da natureza, e que precisa ser impelida
a descobrir as artimanhas do inferno,
por que isso acontece. Garanto, portanto,
que com alguma mistura poderosa sobre o sangue,
ou com algum gole conjurado para esse efeito,
ele a dominou.

DUQUE.
Garantir isso não é prova;
sem um teste mais amplo e mais evidente
do que esses hábitos superficiais e probabilidades precárias
da aparência moderna favorecem contra ele.

PRIMEIRO SENADOR.
Mas, Otelo, fale:
você
subjugou e envenenou os afetos desta jovem donzela por meios indiretos e forçados?
Ou foi por meio de um pedido e uma pergunta tão sincera
quanto a que se faz de alma para alma?

OTELO.
Eu te imploro,
manda chamar a dama ao Sagitário,
e deixa que ela fale de mim perante seu pai.
Se me achares desonrado em seu relato, não só me retires
a confiança e o cargo que te dedico , como que a tua sentença recaia sobre a minha vida.

DUQUE.
Tragam Desdêmona aqui.

OTELO.
Antigo, conduza-os, você conhece melhor o lugar.

Saem Iago e Atendentes. ]

E até que ela venha, tão sinceramente quanto ao céu
confesso os vícios do meu sangue,
e com justiça, aos seus ouvidos graves, apresentarei
como prosperei no amor desta bela dama,
e ela no meu.

DUQUE.
Diga isso, Otelo.

OTELO.
Seu pai me amava, me convidava com frequência,
sempre me questionava sobre a história da minha vida,
ano após ano — as batalhas, os cercos, as fortunas,
pelas quais passei.
Eu a contava, desde meus dias de menino
até o exato momento em que ele me pedia para contá-la,
onde eu falava dos acontecimentos mais desastrosos,
de acidentes comoventes por enchentes e campos;
de escapadas por um triz da iminente brecha mortal;
de ser capturado pelo inimigo insolente
e vendido como escravo, da minha redenção dali,
e da importância da minha história de viajante,
onde de vastas avenidas e desertos inóspitos,
pedreiras acidentadas, rochas e colinas cujos cumes tocam o céu,
era minha deixa falar — tal era o processo;
e dos canibais que se devoravam uns aos outros,
dos antropófagos e dos homens cujas cabeças
cresciam sob seus ombros. Ouvir isso
deixaria Desdêmona seriamente inclinada.
Mas ainda assim os afazeres domésticos a atraíam para longe,
e sempre que podia, com a maior pressa,
ela voltava e, com ouvidos ávidos,
devorava meu discurso; o qual, observando,
tomei uma hora generosa e encontrei bons meios
para extrair dela uma súplica sincera
de que eu a detalharia por toda a minha peregrinação,
da qual ela ouvira algo em partes,
mas não atentamente. Eu consentia
e muitas vezes a livrava das lágrimas
quando falava de algum golpe doloroso
que eu sofrera na juventude. Terminada minha história,
ela me deu, em troca, um mundo de suspiros.
Ela jurou, com fé, que fora estranho, muito estranho;
era lamentável, maravilhosamente lamentável.
Ela desejou não tê-la ouvido, mas desejou
que o céu a tivesse feito um homem como eu: ela me agradeceu
e me disse que, se eu tivesse um amigo que a amasse,
eu o ensinaria a contar minha história,
e isso a conquistaria. Diante dessa pista, eu falei:
Ela me amava pelos perigos que eu havia enfrentado,
e eu a amava porque ela tinha compaixão deles.
Essa é a única bruxaria que usei.
Eis que vem a dama. Que ela testemunhe.

Entram Desdêmona, Iago e seus acompanhantes.

DUQUE.
Acho que essa história também conquistaria minha filha.
Bom Brabâncio,
trate bem desse assunto complicado.
Os homens preferem usar suas armas quebradas
do que as próprias mãos.

BRABÂNTIO.
Rogo-te que a ouças falar.
Se ela confessar que foi metade da pretendente,
a destruição recairá sobre mim; se a minha culpa
recairá sobre o homem! — Vem cá, gentil senhora:
percebes, em toda esta nobre companhia,
a quem mais deves obediência?

DESDÊMONA.
Meu nobre pai,
percebo aqui um dever dividido:
a ti estou ligada por toda a vida e educação.
Tanto a minha vida quanto a minha educação me ensinam
a respeitá-lo. Tu és o senhor do dever,
eu sou até agora tua filha; mas aqui está meu marido.
E tanto dever quanto minha mãe demonstrou
para contigo, preferindo-te a seu pai,
tanto eu prometo para poder professar o
respeito devido ao meu senhor, o Mouro.

BRABÂNTIO.
Deus esteja contigo! Já terminei.
Por favor, Vossa Graça, passemos aos assuntos de Estado.
Preferiria adotar uma criança a ter uma.
— Venha cá, Mouro:
aqui te dou de todo o coração aquilo
que, se não o tivesses, de todo o coração
te negaria. — Por tua causa, joia,
alegro-me de alma por não ter outro filho,
pois a tua fuga me ensinaria a tirania,
a impor-lhes tamancos. — Já terminei, meu senhor.

DUQUE.
Permita-me falar como você e proferir uma sentença
que, como um pretexto ou um passo, possa ajudar esses amantes
a conquistarem seu favor.
Quando os remédios se esgotam, as mágoas terminam
ao se ver o pior, do qual as esperanças dependiam até então.
Lamentar um mal passado
é o caminho mais curto para atrair novos males.
O que não pode ser preservado quando a fortuna leva,
a paciência zomba de sua injúria.
O roubado que sorri rouba algo do ladrão;
rouba a si mesmo aquele que se entrega a uma tristeza inútil.

BRABÂNTIO.
Que o turco de Chipre nos iluda, pois
não o perderemos enquanto pudermos sorrir;
ele suporta bem a sentença, pois nada suporta
senão o consolo gratuito que dela recebe;
mas ele suporta tanto a sentença quanto a tristeza
que, para pagar o sofrimento, precisa recorrer à sua pouca paciência.
Essas sentenças, para adoçar ou para ferir,
sendo fortes em ambos os lados, são ambíguas:
mas palavras são palavras; nunca ouvi dizer
que o coração ferido tenha sido transpassado pela orelha.
Suplico-vos humildemente, prossigam com os assuntos de Estado.

DUQUE.
O turco, com uma preparação formidável, parte para Chipre. Otelo, a fortaleza daquele lugar é bem conhecida por ti. E embora lá tenhamos um substituto mais do que suficiente, a opinião pública, soberana mestra dos efeitos, te aconselha de forma mais segura: deves, portanto, contentar-te em manchar o brilho da tua nova fortuna com esta expedição mais obstinada e turbulenta.

OTELO.
O costume tirânico, ó sénior senadores,
transformou o leito de aço e pedra da guerra
em meu leito de plumas, três vezes mais macio. Reconheço
uma prontidão natural e imediata
que encontro na dureza da guerra, e empreendo
estas presentes guerras contra os otomanos.
Humildemente, portanto, curvando-me à vossa vontade,
imploro por um tratamento adequado para minha esposa,
respeito de lugar e consideração,
com acomodações e tratamento
condizentes com sua linhagem.

DUQUE.
Por favor,
vá até a casa do pai dela.

BRABÂNTIO.
Não permitirei isso.

OTELO.
Nem eu.

DESDÊMONA.
Nem eu. Eu não gostaria de lá residir,
para deixar meu pai impaciente,
estando em seu campo de visão. Duque graciosíssimo,
concede-me teus ouvidos generosos
e permite-me encontrar em tua voz um instrumento
para auxiliar minha simplicidade.

DUQUE.
O que você faria, Desdêmona?

DESDÊMONA.
Que eu amei o Mouro a ponto de viver com ele,
minha violência implacável e a tempestade de fortunas
podem anunciar ao mundo: meu coração está subjugado
até mesmo à própria essência do meu senhor.
Vi o semblante de Otelo em minha mente,
e às suas honras e às suas qualidades valentes
consagrei minha alma e fortuna.
De modo que, caros senhores, se eu for deixada para trás,
uma traça da paz, e ele partir para a guerra,
os ritos pelos quais o amo me serão negados,
e eu suportarei um longo período de pendências
com sua querida ausência. Deixem-me ir com ele.

OTELO.
Deixe-a ter a sua voz.
Garanta-me, céus, que eu, portanto, não imploro
que satisfaça o paladar do meu apetite,
nem que se conforme com o calor, os afetos juvenis
em mim extintos e a devida satisfação,
mas que seja livre e generoso com a mente dela.
E que os céus protejam suas boas almas, para que não pensem
que eu negligenciarei seus assuntos sérios e importantes,
pois ela está comigo. Não, quando brinquedos de asas leves,
do Cupido emplumado, vedarem com lascívia insensata
meus instrumentos especulativos e oficiais,
que meus divertimentos corrompam e contaminem meus negócios,
que as donas de casa façam uma frigideira do meu elmo,
e que todas as adversidades indignas e vis
se voltem contra a minha estima.

DUQUE.
Que seja conforme decidirem em particular,
se ela ficará ou partirá. O assunto exige urgência,
e a rapidez deve ser atendida.

PRIMEIRO SENADOR.
O senhor deve estar ausente esta noite.

OTHELLO.
De todo o meu coração.

DUQUE.
Às nove da manhã nos encontraremos novamente aqui.
Otelo, deixe algum oficial para trás,
e ele lhe trará nossa comissão,
juntamente com outras coisas de valor e respeito
que lhe sejam importantes.

OTELO.
Então, por favor, minha graça, meu ancião,
um homem de honestidade e confiança,
confio minha esposa à sua guarda,
com o que mais vossa benevolência julgar necessário
enviar atrás de mim.

DUQUE.
Que assim seja.
Boa noite a todos. [ Para Brabâncio. ] E, nobre senhor,
se a virtude não carece de beleza encantadora,
seu genro é muito mais belo do que negro.

PRIMEIRO SENADOR.
Adeus, bravo mouro, use bem Desdêmona.

BRABÂNTIO.
Olha para ela, mouro, se tens olhos para ver:
ela enganou o pai e pode enganar a ti também.

Saem Duque, Senadores, Oficiais, etc. ]

OTELO.
Minha vida depende da sua fé! Honesto Iago,
minha Desdêmona devo deixar a ti.
Rogo-te que deixes tua esposa cuidar dela
e as conduzes depois da melhor maneira possível. —
Vem, Desdêmona, tenho apenas uma hora
de amor, de assuntos mundanos e de orientação
para passar contigo. Devemos respeitar o tempo.

Saem Otelo e Desdêmona . ]

RODERIGO.
Iago—

IAGO.
O que dizes, nobre coração?

RODERIGO.
O que farei, pensas tu?

IAGO.
Por que não ir para a cama e dormir?

RODERIGO.
Vou me afogar sem hesitar.

IAGO.
Se fizeres isso, nunca mais te amarei. Ora, seu tolo cavalheiro!

RODERIGO.
É uma tolice viver, quando viver é um tormento; e ainda temos uma receita para morrer quando a morte é o nosso médico.

IAGO.
Ó vilão! Observei o mundo por quatro vezes sete anos, e desde que aprendi a distinguir entre um benefício e um prejuízo, jamais encontrei um homem que soubesse amar a si mesmo. Antes que eu dissesse que me afogaria por amor a uma galinha-d'angola, trocaria minha humanidade por um babuíno.

RODERIGO.
O que devo fazer? Confesso que me envergonho de ser tão apegado, mas não está em minha virtude mudar isso.

IAGO.
Virtude! Uma bobagem! É em nós mesmos que somos assim ou assado. Nossos corpos são jardins, e nossas vontades são os jardineiros. De modo que, se plantarmos urtigas ou semearmos alface, cultivarmos hissopo e arrancarmos tomilho, se o abastecermos com um tipo de erva ou o sobrecarregarmos com muitas, seja para torná-lo estéril pela ociosidade ou adubado pelo trabalho, o poder e a autoridade corrigível disso residem em nossas vontades. Se a balança de nossas vidas não tivesse uma balança da razão para equilibrar a outra da sensualidade, o sangue e a baixeza de nossa natureza nos levariam às conclusões mais absurdas. Mas temos a razão para refrear nossos impulsos desenfreados, nossos desejos carnais, nossas paixões desenfreadas; daí eu considero isso, que vocês chamam de amor, como uma seita, ou um ramo.

RODERIGO.
Não pode ser.

IAGO.
É apenas uma luxúria de sangue e uma permissão da vontade. Vamos, seja homem. Afogar-se? Afogar gatos e cachorrinhos cegos. Eu me declarei seu amigo e confesso que estou ligado ao seu merecimento por laços de resistência duradoura; eu nunca poderia te apoiar melhor do que agora. Coloque dinheiro na sua bolsa; siga as guerras; derrote seu favor com uma barba usurpada; eu digo, coloque dinheiro na sua bolsa. Não pode ser que Desdêmona continue seu amor pelo Mouro por muito tempo — coloque dinheiro na sua bolsa — nem ele por ela. Foi um começo violento, e você verá um sequestro correspondente — coloque apenas dinheiro na sua bolsa. Esses mouros são volúveis em suas vontades. Encha sua bolsa de dinheiro. A comida que para ele agora é tão deliciosa quanto gafanhotos, em breve será tão ácida quanto a coloquíntida. Ela deve trocar pela juventude. Quando estiver saciada com o corpo dele, ela perceberá o erro de sua escolha. Ela precisa de troco, com certeza. Portanto, encha sua bolsa com dinheiro. Se quiser se condenar, faça-o de uma maneira mais delicada do que se afogando. Ganhe todo o dinheiro que puder. Se a santimoniosa honra e um frágil voto entre um bárbaro errante e uma veneziana extremamente astuta não forem demais para a minha inteligência e toda a tribo do inferno, você poderá desfrutar dela; portanto, ganhe dinheiro. Que a maldição de se afogar seja vencida! Isso já está resolvido: procure ser enforcado para alcançar sua alegria do que se afogar e ficar sem ela.

RODERIGO.
Serás fiel às minhas esperanças se eu depender do resultado?

IAGO.
Tu tens certeza de mim. Vai, ganha dinheiro. Já te disse muitas vezes, e repito sempre, que odeio o Mouro. Minha causa é justa; a tua não é menos justa. Unamo-nos na nossa vingança contra ele: se o traires, terás prazer em ti e eu em mim. Há muitos acontecimentos no ventre do tempo que ainda se revelarão. Atravessa, vai, arranja o teu dinheiro. Falaremos mais disto amanhã. Adeus.

RODERIGO.
Onde nos encontraremos pela manhã?

IAGO.
Na minha hospedagem.

RODERIGO.
Estarei contigo em breve.

IAGO.
Vá, adeus. Você me ouve, Rodrigo?

RODERIGO.
O que você acha?

IAGO.
Chega de afogamento, entendeu?

RODERIGO.
Eu mudei. Vou vender todas as minhas terras.

Saída. ]

IAGO.
Assim faço do meu tolo a minha bolsa.
Pois profanaria o conhecimento que adquiri
se gastasse tempo com tal canalha,
a não ser por diversão e proveito. Odeio o Mouro,
e corre o boato de que entre meus lençóis
ele me desfez o meu trabalho. Não sei se é verdade,
mas, por mera suspeita,
agirei como se fosse certeza. Quanto mais ele me tratar bem,
melhor será para o meu propósito influenciá-lo.
Cássio é um homem decente. Vejamos agora,
como tomar o seu lugar e engrandecer a minha vontade
com dupla malícia. Como? Vejamos.
Depois de algum tempo, insultar Otelo,
dizendo que ele é íntimo demais da sua esposa.
Ele tem uma aparência e um jeito suave,
que o tornam suspeito de ser capaz de enganar as mulheres.
O Mouro tem uma natureza livre e aberta
, que considera honestos os homens que apenas aparentam sê-lo,
e será tão facilmente manipulado
quanto um burro.
Eu tenho. Está engendrado. O inferno e a noite
devem trazer este nascimento monstruoso à luz do mundo.

Saída. ]

ATO II

CENA I. Um porto marítimo no Chipre. Uma plataforma.

Entram Montano e dois cavalheiros .

MONTANO.
O que se pode discernir do cabo no mar?

PRIMEIRO CAVALHEIRO.
Nada, é uma enchente repentina.
Não consigo avistar
uma vela entre o céu e o mar.

MONTANO.
Parece-me que o vento falou alto em terra.
Uma rajada mais forte jamais sacudiu nossas muralhas.
Se ele se agitou assim no mar,
que costelas de carvalho, quando as montanhas derretem sobre elas,
poderão sustentar o encaixe? O que ouviremos disso?

SEGUNDO CAVALHEIRO.
Uma segregação da frota turca.
Pois basta ficar na costa espumante,
a onda repreendida parece açoitar as nuvens,
a onda sacudida pelo vento, com seu mar alto e monstruoso,
parece lançar água sobre a Ursa Maior em chamas
e extinguir os guardiões do mastro sempre fixo;
nunca gostei da visão perturbadora
da inundação encravada.

MONTANO.
Se a frota turca
não for abrigada e encurralada, ela se afogará.
É impossível comprovar isso.

Entra um terceiro cavalheiro .

TERCEIRO CAVALHEIRO.
Notícias, rapazes! Nossas guerras terminaram.
A tempestade desesperada atingiu os turcos com tanta força
que seus planos foram interrompidos. Um nobre navio de Veneza
sofreu um naufrágio terrível e
grande parte de sua frota foi destruída.

MONTANO.
Como? Isso é verdade?

TERCEIRO CAVALHEIRO.
O navio aqui atracou,
um Veronessa; Michael Cassio,
tenente do guerreiro mouro Otelo,
desembarcou; o próprio mouro está no mar
e aqui está em plena missão para Chipre.

MONTANO.
Fico feliz com isso. É um governador digno.

TERCEIRO CAVALHEIRO.
Mas este mesmo Cássio, embora fale de consolo
em relação à perda turca, ainda assim olha tristemente
e reza para que o mouro esteja a salvo; pois foram separados
por uma tempestade violenta e terrível.

MONTANO.
Rogai aos céus que seja ele;
pois eu o servi, e o homem comanda
como um soldado de verdade. Vamos para a beira-mar, ora!
Tanto para ver o navio que chegou
quanto para arrancar os olhos do bravo Otelo,
até que o mar e o azul do céu se tornem
um olhar indistinto.

TERCEIRO CAVALHEIRO.
Venha, vamos fazer isso;
pois a cada minuto há expectativa
de mais chegada.

Entra Cassio .

CÁSSIO.
Obrigado, ó valente desta ilha guerreira,
por tão aprovares o Mouro! Oh, que os céus
o protejam dos elementos,
pois eu o perdi em um mar perigoso.

MONTANO.
Ele está bem encaminhado?

CÁSSIO.
Seu barco é robusto, e seu piloto,
experiente e respeitado;
portanto, minhas esperanças, não exaustas,
permanecem firmes.

Dentro. ] Uma vela, uma vela, uma vela!

Digite um Messenger .

CÁSSIO.
Que barulho?

MENSAGEIRO.
A cidade está vazia; na beira-mar,
fileiras de pessoas se erguem e gritam: "Uma vela!"

CÁSSIO.
Minhas esperanças o moldam para ser governador.

Um tiro. ]

SEGUNDO CAVALHEIRO.
Eles demonstram cortesia.
Pelo menos os nossos amigos.

CÁSSIO.
Eu te imploro, senhor, vá em frente,
e nos diga a verdade, quem é aquele que chegou.

SEGUNDO CAVALHEIRO.
Eu irei.

Saída. ]

MONTANO.
Mas, bom tenente, seu general está viúvo?

CÁSSIO.
Felizmente: ele conquistou uma donzela
que supera a descrição e a fama selvagem,
uma que transcende as peculiaridades das penas rebuscadas
e, na essência da criação,
cansa o engenheiro.

Entra o segundo cavalheiro .

E agora? Quem se inscreveu?

SEGUNDO CAVALHEIRO.
É um certo Iago, antigo para o general.

CÁSSIO.
Ele teve uma navegação extremamente favorável e feliz:
as próprias tempestades, os mares revoltos e os ventos uivantes,
as rochas escarpadas e as areias aglomeradas,
os traidores que se entrincheiraram para obstruir a quilha inocente,
por terem senso de beleza, omitem
suas naturezas mortais, deixando-se levar em segurança pela
divina Desdêmona.

MONTANO.
O que ela é?

CÁSSIO.
Aquela de quem falei, a capitã do nosso grande capitão,
deixada sob o comando do audaz Iago;
cuja presença aqui antecipa nossos pensamentos
em sete dias. Grande Júpiter, proteja Otelo,
e infle suas velas com teu poderoso sopro,
para que ele abençoe esta baía com seu alto navio,
faça o amor suspirar nos braços de Desdêmona,
dê novo fogo aos nossos espíritos extintos
e traga conforto a toda Chipre!

Entram Desdêmona, Iago, Rodrigo e Emília .

Ó, eis que
as riquezas do navio chegaram à costa!
Homens de Chipre, ajoelhem-se diante dela.
Salve, senhora! E que a graça dos céus,
à sua frente, atrás de você e por todos os lados,
a envolva!

DESDÊMONA.
Agradeço-te, valente Cássio.
Que notícias podes dar-me do meu senhor?

CÁSSIO.
Ele ainda não chegou, e eu não sei nada
além de que está bem e chegará em breve.

DESDÊMONA.
Oh, mas eu temo—Como você perdeu a companhia?

Dentro. ] Uma vela, uma vela!

CÁSSIO.
A grande contenda do mar e dos céus
Separou nossa companhia. Mas, eis que surge uma vela.

Armas dentro. ]

SEGUNDO CAVALHEIRO.
Eles saúdam a cidadela.
Este também é um amigo.

CÁSSIO.
Veja as notícias.

Saiam, senhores . ]

Bom ancião, seja bem-vindo. [ Para Emília. ] Bem-vinda, senhora. Que
a minha cortesia não lhe cause nenhum transtorno, bom Iago;
é a minha educação
que me permite esta ousada demonstração de cortesia.

Beijando-a. ]

IAGO.
Senhor, se ela lhe desse tanto de seus lábios
quanto de sua língua ela frequentemente me concede,
você teria o suficiente.

DESDÊMONA.
Infelizmente, ela não tem fala.

IAGO.
Na fé, demais.
Ainda me sinto assim quando tenho dificuldade para dormir.
Ora, perante Vossa Senhoria, eu admito,
ela coloca a língua um pouco no coração
e repreende com pensamentos.

EMILIA.
Você não tem muitos motivos para dizer isso.

IAGO.
Vamos lá, vamos lá; vocês são quadros ao ar livre,
sinos em suas salas de estar, felinos selvagens em suas cozinhas,
santos em suas feridas, demônios sendo ofendidos,
atores em seus afazeres domésticos e donas de casa em suas camas.

DESDÊMONA.
Ó, que vergonha, caluniador!

IAGO.
Não, é verdade, senão eu seria turco.
Você se levanta para brincar e vai para a cama para trabalhar.

EMILIA.
Não escrevas meus elogios.

IAGO.
Não, melhor não.

DESDÊMONA.
O que escreverias de mim, se me elogiasses?

IAGO.
Ó gentil senhora, não me provoque,
pois sou, acima de tudo, crítico.

DESDÊMONA.
Vamos, analise.—Alguém foi para o porto?

IAGO.
Sim, senhora.

DESDÊMONA.
Não sou alegre, mas disfarço
a minha verdadeira natureza, fingindo ser outra. —
Vamos, como me elogiarias?

IAGO.
Estou nisso, mas, na verdade, minha invenção
brota da minha cabeça como a goma de passarinho brota do friso,
arranca miolos e tudo: mas minha Musa labuta,
e assim ela se liberta.
Se ela for bela e sábia, bela e inteligente,
uma é para ser usada, a outra a usa.

DESDÊMONA.
Bem louvada! E se ela fosse negra e espirituosa?

IAGO.
Se ela for negra, e tiver inteligência,
encontrará um branco que combine com sua negritude.

DESDÊMONA.
Cada vez pior.

EMILIA.
E se for justo e tolo?

IAGO.
Ela jamais foi tola,
pois até mesmo sua tolice a ajudou a ter um herdeiro.

DESDÊMONA.
Estes são velhos paradoxos queridos para fazer os tolos rirem na taverna. Que elogio miserável tens para aquela que é vil e tola?

IAGO.
Não há ninguém tão vil e tolo nisso
que não faça as mesmas travessuras que os justos e sábios fazem.

DESDÊMONA.
Ó profunda ignorância! Tu elogias o pior como o melhor. Mas que elogio poderias conceder a uma mulher verdadeiramente merecedora, uma que, na autoridade de seu mérito, justamente se valeu da própria malícia?

IAGO.
Aquela que sempre foi bela e nunca orgulhosa,
Que tinha língua solta e, no entanto, nunca era barulhenta,
Que nunca lhe faltou ouro e, no entanto, nunca se mostrou alegre,
Que fugiu do seu desejo e, no entanto, disse: "Agora posso";
Aquela que, enfurecida, com a vingança próxima,
Mandou que o seu erro se acalmasse e que o seu desagrado fugisse;
Aquela que em sabedoria nunca foi tão frágil
a ponto de trocar a cabeça do bacalhau pela cauda do salmão;
Aquela que podia pensar e jamais revelar a sua mente,
Ver pretendentes a segui-la e não olhar para trás;
Ela era uma criatura extraordinária, se é que alguma vez existiu tal criatura—

DESDÊMONA.
Fazer o quê?

IAGO.
Para amamentar tolos e fazer crônicas de cerveja barata.

DESDÊMONA.
Ó conclusão tão frágil e impotente!—Não aprendas com ele, Emília, ainda que seja teu marido.—O que dizes, Cássio? Não é ele um conselheiro profano e liberal?

CÁSSIO.
Ele fala com carinho, senhora. A senhora pode apreciá-lo mais no papel de soldado do que no de erudito.

IAGO.
À parte. ] Ele a pega pela palma da mão. Ah, bem dito, sussurra. Com uma teia tão pequena como esta, eu prenderei uma mosca tão grande quanto Cássio. Ah, sorria para ela. Eu te entregarei em teu próprio cortejo. Você diz a verdade, é verdade mesmo. Se truques como esses te destituíssem do seu posto de tenente, teria sido melhor não ter beijado seus três dedos tantas vezes, o que agora você está mais do que propenso a fazer. Muito bem; bem beijado, uma excelente cortesia! É verdade mesmo. Mais uma vez seus dedos nos lábios? Quem dera fossem cânulas de clister para você!

Som de trombetas. ]

O Mouro! Conheço a sua trombeta.

CÁSSIO.
É verdade.

DESDÊMONA.
Vamos encontrá-lo e recebê-lo.

CÁSSIO.
Eis que ele vem!

Entram Otelo e seus acompanhantes.

OTELO.
Ó meu belo guerreiro!

DESDÊMONA.
Meu querido Otelo!

OTELO.
É com grande admiração e contentamento
que te vejo aqui diante de mim. Ó, alegria da minha alma!
Se depois de cada tempestade vêm tais calmas,
que os ventos soprem até despertarem a morte!
E que a barca laboriosa suba montanhas de mares
tão altas quanto o Olimpo, e mergulhe tão baixo
quanto o inferno desce do céu! Se fosse agora para morrer,
seria agora para ser mais feliz, pois temo que
minha alma tenha uma satisfação tão absoluta
que nenhum outro consolo como este
possa me alcançar, mesmo diante de um destino desconhecido.

DESDÊMONA.
Os céus nos livrem
de que nossos amores e confortos não aumentem
à medida que nossos dias crescem!

OTELO.
Amém, doces poderes!
Não me canso de falar deste conteúdo.
Ele me paralisa; é alegria demais:
E isto, e isto, as maiores discórdias [ Eles se beijam. ]
Que nossos corações jamais farão!

IAGO.
Parêntese. ] Oh, você está bem afinado agora,
mas vou largar as cravelhas que fazem esta música,
tão honesto quanto sou.

OTELO.
Venham, vamos ao castelo. —
Notícias, amigos, nossas guerras terminaram, os turcos foram afogados.
Como estão meus velhos conhecidos desta ilha?
Querida, você será muito desejada em Chipre;
encontrei grande amor entre eles. Ó, minha doce,
eu falo demais e me deleito
com meus próprios confortos. — Eu te imploro, bom Iago,
vá à baía e descarregue meus cofres.
Traga o mestre à cidadela;
ele é bom, e sua dignidade
inspira muito respeito. — Venha, Desdêmona,
mais uma vez tão bem-vinda em Chipre.

Saem Otelo, Desdêmona e Atendentes. ]

IAGO.
Encontra-me já no porto. Vem cá. Se fores valente — pois, dizem, os homens vis, quando apaixonados, adquirem uma nobreza de caráter que não lhes é natural — ouve-me. O tenente vigia esta noite o pátio da guarda: primeiro, devo dizer-te isto: Desdêmona está profundamente apaixonada por ele.

RODERIGO.
Com ele? Ora, isso não é possível.

IAGO.
Coloque o seu dedo assim, e deixe que a sua alma seja instruída. Observe-me com que violência ela primeiro amou o Mouro, não fosse por ele se gabar e contar-lhe mentiras fantasiosas. E será que ela ainda o amará por causa de suas tagarelices? Que o seu coração discreto não pense isso. Os olhos dela precisam ser alimentados. E que prazer ela terá em olhar para o diabo? Quando o sangue estiver entorpecido pelo ato de diversão, deve haver, para reavivá-lo e dar à saciedade um novo apetite, beleza em seu favor, simpatia em sua idade, maneiras e encantos; tudo o que o Mouro não possui: agora, por falta dessas comodidades necessárias, sua delicada ternura se verá abusada, começará a vomitar, a detestar e a abominar o Mouro, a própria natureza a instruirá nisso e a obrigará a uma segunda escolha. Agora, senhor, admitindo isso (já que é uma posição muito significativa e natural), quem se destaca tão eminentemente no grau dessa fortuna quanto Cássio? Um patife muito loquaz; Não há nada mais consciencioso do que fingir ser civilizado e humano para melhor esconder sua afeição lasciva e dissimulada? Ora, nada disso! Um patife astuto e dissimulado, um aproveitador; alguém que tem olho para criar e falsificar vantagens, mesmo quando estas nunca se apresentam: um patife diabólico! Além disso, o patife é bonito, jovem e possui todos os atributos que a insensatez e a ingenuidade buscam. Um patife completo e pestilento, e a mulher já o descobriu.

RODERIGO.
Não consigo acreditar que ela esteja repleta de bênçãos.

IAGO.
Fim de figo abençoado! O vinho que ela bebe é feito de uvas: se ela fosse abençoada, nunca teria amado o Mouro. Pudim abençoado! Não viste ela remar com a palma da mão dele? Não percebeste isso?

RODERIGO.
Sim, eu fiz isso. Mas foi apenas por cortesia.

IAGO.
Luxúria, por esta mão. Um índice e prólogo obscuro para a história da luxúria e dos pensamentos impuros. Seus lábios se encontraram tão perto que suas respirações se entrelaçaram. Pensamentos vis, Rodrigo! Quando essas reciprocidades abrem caminho, logo se aproxima o exercício principal e essencial, a conclusão final. Bobagem! Mas, senhor, seja governado por mim. Eu o trouxe de Veneza. Vigiarei você esta noite. Quanto à ordem, eu a transmitirei a você. Cássio não o conhece. Não estarei longe de você. Encontre alguma ocasião para irritar Cássio, seja falando alto demais, seja comprometendo sua disciplina, ou de qualquer outra maneira que lhe agrade, que o momento lhe permita servir de forma mais favorável.

RODERIGO.
Bem.

IAGO.
Senhor, ele é precipitado e muito explosivo em seus acessos de raiva, e talvez com seu cassetete possa atacá-lo: provoque-o para que o faça, pois mesmo a partir disso incitarei os cipriotas à revolta, cuja condição só voltará a ser apreciada com a deposição de Cássio. Assim, você terá uma jornada mais curta para alcançar seus objetivos pelos meios que terei então à disposição, e o obstáculo removido da maneira mais proveitosa, sem o qual não havia expectativa de nossa prosperidade.

RODERIGO.
Farei isso, se puder aproveitar qualquer oportunidade.

IAGO.
Eu te garanto. Encontre-me daqui a pouco na cidadela: preciso levar seus pertences para terra. Adeus.

RODERIGO.
Adeus.

Saída. ]

IAGO.
Que Cássio a ama, acredito plenamente;
que ela o ama, é apropriado e de grande mérito;
o Mouro, embora eu não o suporte,
é de natureza constante, amorosa e nobre;
e, ouso pensar, provará ser para Desdêmona
um marido muito querido. Ora, eu também a amo,
não por luxúria absoluta (embora talvez
eu seja culpado de um pecado tão grande),
mas em parte por buscar vingança,
pois suspeito que o lascivo Mouro
tenha tomado meu lugar. O pensamento disso
, como um mineral venenoso, corrói-me por dentro,
e nada pode ou poderá contentar minha alma
até que eu esteja em paz com ele, esposa por esposa,
ou, na falta disso, que eu ao menos instigue no Mouro
um ciúme tão forte
que o juízo não possa curar. O que fazer,
se este pobre coitado de Veneza, a quem eu humilho
por sua caça desenfreada, aguentar a humilhação?
Terei nosso Michael Cassio no meu colo,
o humilharei perante o Mouro em suas vestes imundas
(pois temo Cassio até mesmo com meu gorro de dormir),
farei o Mouro me agradecer, me amar e me recompensar
por tê-lo transformado em um completo idiota
e por perturbar sua paz e tranquilidade
até a loucura. Está aqui, mas ainda confuso.
A face franca da maldade nunca é vista até ser usada.

Saída. ]

CENA II. Uma rua.

Entra o arauto de Otelo com uma proclamação.

ARAUTO.
É da vontade de Otelo, nosso nobre e valente general, que, com as notícias que acabam de chegar, anunciando a perdição da frota turca, todos se entreguem à festa: alguns dançando, outros acendendo fogueiras, cada um se entregando aos prazeres e festividades que sua inclinação lhe permite. Pois, além dessas notícias auspiciosas, celebra-se seu casamento. Tal era seu desejo que fosse proclamado. Todos os ofícios estão abertos e há plena liberdade para festejar a partir destas cinco horas até que o sino marque onze. Que os céus abençoem a ilha de Chipre e nosso nobre general Otelo!

Saída. ]

CENA III. Um Salão no Castelo.

Entram Otelo, Desdêmona, Cássio e seus acompanhantes.

OTHELLO.
Bom Michael, fique atento à guarda esta noite.
Vamos aprender a parar com honra,
a não ultrapassar a discrição.

CÁSSIO.
Iago sabe o que fazer. Mas, mesmo assim, observarei
com meus próprios olhos .

OTELO.
Iago é muito honesto.
Michael, boa noite. Amanhã, assim que possível,
permita-me falar com você. [ Para Desdêmona. ] Venha, meu amor,
a compra feita, os frutos virão;
o lucro ainda está por vir entre mim e você. —
Boa noite.

Saem Otelo, Desdêmona e Atendentes. ]

Entra Iago .

CÁSSIO.
Bem-vindo, Iago. Devemos ir para a vigília.

IAGO.
Não nesta hora, tenente. Ainda não são dez horas. Nosso general nos mandou assim tão cedo por amor à sua Desdêmona; que não devemos, portanto, culpar: ele ainda não se entregou à noite com ela; e ela é diversão para Júpiter.

CÁSSIO.
Ela é uma dama requintada.

IAGO.
E, garanto, ela está cheia de energia.

CÁSSIO.
De fato, ela é uma criatura muito fresca e delicada.

IAGO.
Que olhar ela tem! Acho que isso soa como uma provocação.

CÁSSIO.
Um olhar convidativo, e ainda assim, a meu ver, bastante modesto.

IAGO.
E quando ela fala, não é um alarme para o amor?

CÁSSIO.
Ela é realmente a perfeição.

IAGO.
Bem, felicidades para eles! Venha, tenente, tenho um copo de vinho; e aqui fora estão dois galantes cipriotas que adorariam brindar à saúde do negro Otelo.

CÁSSIO.
Não esta noite, meu bom Iago. Tenho um cérebro muito fraco e infeliz para beber. Bem que eu gostaria que a cortesia inventasse outro costume de entretenimento.

IAGO.
Oh, eles são nossos amigos; mas uma taça: eu beberei por você.

CÁSSIO.
Bebi apenas uma taça esta noite, e essa foi habilmente qualificada, e vejam só que inovação: sou infeliz por estar enfermo e não ouso sobrecarregar minha fraqueza com mais nada.

IAGO.
Ora, homem! É uma noite de folia. Os cavalheiros a desejam.

CÁSSIO.
Onde eles estão?

IAGO.
Aqui à porta. Eu te imploro, chame-os para dentro.

CÁSSIO.
Eu não farei; mas ele não gosta de mim.

Saída. ]

IAGO.
Se eu lhe impuser apenas uma taça,
com o que já bebeu esta noite,
ficará tão cheio de contendas e ofensas
quanto o cão da minha jovem senhora. Agora, meu tolo e doente Rodrigo,
a quem o amor quase virou do avesso,
ofereceu a Desdêmona esta noite
poções até a borda; e ele deve vigiar:
três rapazes de Chipre, nobres e orgulhosos,
que mantêm suas honras a uma distância cautelosa,
os próprios elementos desta ilha guerreira,
eu os perturbei esta noite com taças transbordantes,
e eles também vigiam. Agora, em meio a essa horda de bêbados,
devo colocar nosso Cássio em alguma ação
que possa ofender a ilha? Mas eis que eles vêm:
se as consequências aprovarem meu sonho,
meu barco navegará livremente, tanto com o vento quanto com a corrente.

Entram Cássio, Montano e os cavalheiros; seguidos pelo criado com vinho.

CÁSSIO.
'Por Deus, eles já me armaram uma cilada.'

MONTANO.
Boa fé, um pouquinho; não mais do que uma caneca, pois sou um soldado.

IAGO.
Um pouco de vinho, hein!
Canta. ]

E que o canibal tilinte, tilinte,
e que o canibal tilinte, tilinte:
Um soldado é um homem,
oh, a vida de um homem é apenas um instante,
então por que deixar um soldado beber?

Um pouco de vinho, rapazes!

CÁSSIO.
'For God, uma canção excelente.

IAGO.
Aprendi isso na Inglaterra, onde de fato eles são mais habilidosos na arte de fazer cerâmica: seu dinamarquês, seu alemão e seu holandês barrigudo — bebam, por favor! — não são nada comparados aos seus ingleses.

CÁSSIO.
Seu inglês é tão experiente assim na bebida?

IAGO.
Ora, ele te bebe com facilidade, teu dinamarquês fica completamente bêbado; ele não se esforça para derrubar teu alemão; ele faz teu holandês vomitar antes que o próximo pote possa ser enchido.

CÁSSIO.
À saúde do nosso general!

MONTANO.
Sou a favor, tenente; e farei justiça ao senhor.

IAGO.
Ó doce Inglaterra!

Canta. ]

O Rei Estêvão era um nobre digno,
Suas calças lhe custaram apenas uma coroa;
Ele as considerava caras demais, por seis pence,
Com isso chamou o alfaiate de pobre.
Ele era um sujeito de grande renome,
E tu és apenas de baixa posição:
É o orgulho que arrasta o país para baixo,
Então veste teu velho manto.

Um pouco de vinho, ei!

CÁSSIO.
'Por Deus, esta é uma canção mais requintada do que as outras.

IAGO.
Você vai ouvir isso de novo?

CÁSSIO.
Não, pois considero indigno do seu lugar aquele que pratica tais coisas. Bem, Deus está acima de tudo, e há almas que devem ser salvas e almas que não devem ser salvas.

IAGO.
É verdade, bom tenente.

CÁSSIO.
Quanto a mim, sem ofensa ao general, nem a qualquer homem de qualidade, espero ser salvo.

IAGO.
Eu também, tenente.

CÁSSIO.
Sim, mas, com sua permissão, não na minha presença; o tenente deve ser salvo perante o ancião. Chega disso; vamos ao que interessa. Perdoe-nos os nossos pecados! Senhores, vamos tratar dos nossos assuntos. Não pensem, senhores, que estou bêbado. Este é o meu ancião, esta é a minha mão direita e esta é a minha esquerda. Não estou bêbado agora. Consigo ficar de pé e falar muito bem.

TUDO.
Excelente.

CÁSSIO.
Ora, muito bem então. Não pense, portanto, que estou bêbado.

Saída. ]

MONTANO.
À plataforma, mestres. Venham, vamos acertar o relógio.

IAGO.
Vejam este sujeito que se foi antes,
um soldado digno de estar ao lado de César
e dar-lhe ordens; e observem seu vício,
que é o equinócio perfeito para sua virtude,
um tão longo quanto o outro. É uma pena que ele esteja com pena.
Temo que a confiança que Otelo deposita nele,
em algum momento de sua enfermidade,
abalará esta ilha.

MONTANO.
Mas será que ele é assim com frequência?

IAGO.
É sempre o prólogo do seu sono:
ele verá o relógio duas vezes,
se a bebida não embalar seu berço.

MONTANO.
Seria bom
que o general se lembrasse disso.
Talvez ele não veja, ou sua bondade
valorize a virtude que aparece em Cássio
e não se atente aos seus defeitos: não é verdade?

Entra Rodrigo .

IAGO.
Dirigindo-se a ele à parte. ] E então, Rodrigo?
Peço-te que sigas o tenente; vai.

Saída Rodrigo . ]

MONTANO.
E é uma grande pena que o nobre Mouro
arrisque tal posição como a sua segunda em comando
com alguém de enfermidade inata:
seria uma atitude honesta dizer isso
ao Mouro.

IAGO.
Não eu, por esta bela ilha.
Amo muito o Cássio e faria muito
para curá-lo deste mal. Mas, ouçam! Que barulho?

Grito interior : “Socorro! Socorro!”]

Entra Cassio, dirigindo em Rodrigo .

CÁSSIO.
Puxa, seu patife, seu patife!

MONTANO.
Qual o problema, tenente?

CÁSSIO.
Um patife me ensine o meu dever! Vou espancar o patife até ele virar uma garrafa de gravetos.

RODERIGO.
Me venceu?

CÁSSIO.
Estás a tagarelar, patife?

Atacando Rodrigo. ]

MONTANO.
Não, bom tenente;
eu lhe imploro, senhor, segure minha mão.

CÁSSIO.
Solte-me, senhor,
ou eu lhe darei uma surra.

MONTANO.
Vamos, vamos, você está bêbado.

CÁSSIO.
Bêbado?

Eles brigam. ]

IAGO.
À parte para Rodrigo. ] Fora, eu digo! Saiam e gritem motim!

Saída Rodrigo . ]

Não, bom tenente, que seja feita a vontade de Deus, senhores.
Socorro! — Tenente, — senhor, — Montano, — senhor: —
Socorro, mestres! Eis uma bela guarda!

Um sino toca. ]

Quem é que toca o sino? — Diablo, ei!
A cidade se levantará. Que a vontade de Deus seja cumprida, tenente,
você será envergonhado para sempre.

Entram Otelo e seus acompanhantes.

OTELO.
Qual é o problema aqui?

MONTANO.
Puxa, ainda estou sangrando, estou ferido até a morte.

OTHELLO.
Parem, por suas vidas!

IAGO.
Parem, ei! Tenente,—senhor,—Montano,—senhores,—
Esqueceram-se de todo o bom senso e dever?
Parem! O general está falando com vocês; parem, parem, que vergonha!

OTELO.
Ora, ora, ora! De onde vem isso?
Tornamo-nos turcos e fazemos o
que o céu proibiu aos otomanos?
Por vergonha cristã, chega dessa briga bárbara:
aquele que se move para saciar sua própria fúria
mantém a alma leve; morre em seu próprio movimento.
Silêncio com esse sino terrível, ele assusta a ilha e a faz perder
a compostura. Qual é o problema, senhores?
O honesto Iago, que parece morto de tristeza,
fala, quem começou isso? Juro por teu amor.

IAGO.
Não sei. Amigos, todos, mas agora, até agora,
em quarto, e em termos como noivos,
despojando-os para a cama; e então, mas agora,
como se algum planeta tivesse homens insensatos,
espadas desembainhadas, e se atacando mutuamente,
em oposição sangrenta. Não consigo falar
nem começar a descrever essa situação irritante;
e como seria glorioso se eu tivesse perdido
aquelas pernas que me trouxeram a uma parte disso!

OTELO.
Como é que você foi esquecido assim, Michael?

CÁSSIO.
Peço-lhe que me perdoe; não consigo falar.

OTHELLO.
Digno Montano, você não queria ser civilizado.
A gravidade e a serenidade de sua juventude
o mundo notou, e seu nome é grande
nas bocas dos mais sábios críticos: o que há de errado,
que você destrói sua reputação assim,
e gasta sua rica opinião pelo nome
de um brigão noturno? Dê-me uma resposta.

MONTANO.
Digno Otelo, estou em perigo.
Seu oficial, Iago, pode informá-lo,
enquanto eu me abstenho de falar, o que agora me ofende,
de tudo o que sei; e não sei
de nada que eu tenha dito ou feito de errado esta noite,
a menos que a autocomiseração seja às vezes um vício,
e defender-nos seja um pecado
quando a violência nos assola.

OTELO.
Agora, por Deus,
meu sangue começa a governar meus guias mais seguros,
e a paixão, tendo colidido com meu melhor julgamento,
tenta liderar o caminho. Ora, se eu me mexer,
ou sequer levantar este braço, o melhor de vocês
afundará em minha repreensão. Digam-me
como começou esta vil debandada, quem a incitou,
e aquele que for aprovado nesta ofensa,
embora tenha sido gêmeo de mim ao nascer,
me perderá. O quê?! Numa cidade em guerra,
ainda selvagem, com os corações do povo transbordando de medo,
resolver uma disputa privada e doméstica,
à noite, na corte e sob a guarda da segurança?
É monstruoso. Iago, quem começou isso?

MONTANO.
Se parcialmente afim ou aliado no cargo,
tu entregas mais ou menos do que a verdade,
tu não és um soldado.

IAGO.
Não me toque tão de perto.
Preferiria ter esta língua cortada da minha boca
a ofender Michael Cassio.
Contudo, convenço-me de que dizer a verdade
não lhe fará mal algum. Eis o que aconteceu, general:
Montano e eu estávamos conversando,
quando um homem gritou por socorro,
e Cassio o seguiu com a espada cerrada, pronto
para matá-lo. Senhor, este cavalheiro
interveio e pediu-lhe que parasse.
Eu mesmo persegui o homem que gritava,
para que seu clamor (como se viu)
não causasse pânico na cidade; ele, veloz,
ultrapassou meu objetivo, e eu recuei,
pois ouvi o tilintar e o cair das espadas,
e Cassio proferindo um palavrão, que até esta noite
eu jamais poderia ter proferido. Quando voltei
(pois tudo foi breve), encontrei-os juntos,
trocando golpes e estocadas, exatamente como estavam
quando o senhor os separou.
Não posso relatar mais detalhes deste assunto.
Mas homens são homens; até os melhores às vezes se esquecem;
Embora Cássio lhe tenha feito algum pequeno mal,
como os homens enfurecidos atacam aqueles que lhes desejam o bem,
certamente Cássio, creio eu, recebeu
daquele que fugiu alguma estranha indignidade,
que a paciência não pôde suportar.

OTELO.
Eu sei, Iago,
que tua honestidade e amor amenizam essa questão,
tornando-a trivial para Cássio. Cássio, eu te amo,
mas nunca mais sejas meu oficial.

Entrou Desdêmona, que estava presente.

Olha, se o meu amor terno não se despertar!
Farei de ti um exemplo.

DESDÊMONA.
O que houve?

OTELO.
Agora está tudo bem, querida; venha para a cama.
Senhor, para seus ferimentos, eu mesmo serei seu cirurgião.
Levem-no para fora.

Montano é retirado do local. ]

Iago, observe a cidade com cuidado
e silencie aqueles que foram perturbados por esta vil briga.
Venha, Desdêmona: é a vida dos soldados
ter seus sonos tranquilos despertados pela luta.

Saem todos menos Iago e Cássio . ]

IAGO.
O que foi, o senhor está ferido, tenente?

CÁSSIO.
Ah, passou de toda a cirurgia.

IAGO.
Casar? Deus me livre!

CÁSSIO.
Reputação, reputação, reputação! Oh, perdi minha reputação! Perdi a parte imortal de mim mesmo, e o que restou é bestial. Minha reputação, Iago, minha reputação!

IAGO.
Como sou um homem honesto, pensei que você tivesse sofrido algum ferimento físico; isso faz mais sentido do que a reputação. Reputação é uma imposição vã e falsa, frequentemente conquistada sem mérito e perdida sem merecer. Você não perdeu reputação alguma, a menos que se considere um perdedor. Ora, meu amigo, há maneiras de recuperar o general: você está apenas agora sob o efeito do humor dele, um castigo mais político do que malicioso, como quem bate em seu cão inocente para assustar um leão imperioso: peça a ele novamente, e ele será seu.

CÁSSIO.
Prefiro ser desprezado a enganar um comandante tão bom com um oficial tão insignificante, tão bêbado e tão indiscreto. Bêbado? E falar como um papagaio? E discutir? Se gabar? Xingar? E conversar em tom de sotaque carregado com a própria sombra? Ó espírito invisível do vinho, se não tens nome, chamemo-te de diabo!

IAGO.
Quem era aquele que você seguia com sua espada? O que ele havia feito com você?

CÁSSIO.
Não sei.

IAGO.
Não é possível?

CÁSSIO.
Lembro-me de uma série de coisas, mas nada com clareza; uma briga, mas nada me recordo do porquê. Ó Deus, que os homens coloquem um inimigo na boca para lhes roubar o cérebro! Que nós, com alegria, prazer, regozijo e aplausos, nos transformemos em bestas!

IAGO.
Ora, mas você já está bem o suficiente: como foi que se recuperou assim?

CÁSSIO.
Agradou ao diabo a embriaguez dar lugar à sua ira. Uma imperfeição me mostra outra, para me fazer desprezar francamente a mim mesmo.

IAGO.
Vamos, você é um moralista muito severo. Considerando o momento, o lugar e a situação deste país, eu sinceramente desejaria que isso não tivesse acontecido; mas, já que é como é, corrija para o seu próprio bem.

CÁSSIO.
Vou pedir-lhe novamente o meu lugar; ele dirá que sou um bêbado! Se eu tivesse tantas bocas quanto a Hidra, tal resposta as calaria a todas. Ser agora um homem sensato, depois um tolo e, em seguida, uma besta! Ó estranho! Toda taça em excesso é profana, e o ingrediente é um demônio.

IAGO.
Vamos, vamos, um bom vinho é um bom companheiro, se bem utilizado. Não fale mais mal dele. E, meu bom tenente, acho que você pensa que eu te amo.

CÁSSIO.
Eu aprovei, senhor.—Eu bebi!

IAGO.
Você, ou qualquer homem vivo, pode se embriagar de vez em quando, meu caro. Vou lhe dizer o que você deve fazer. A esposa do nosso general agora é a general; posso dizer isso a este respeito, pois ele se dedicou e se entregou à contemplação, observação e admiração de suas qualidades e graças. Confesse-se livremente a ela. Implore a ajuda dela para que ela o coloque de volta em seu lugar. Ela é de uma disposição tão livre, tão bondosa, tão adequada, tão abençoada, que considera um vício em sua bondade não fazer mais do que lhe é pedido. Implore a ela que esta ruptura entre você e o marido se desfaça, e, contrariando qualquer pretexto digno de menção, esta rachadura do seu amor se tornará mais forte do que era antes.

CÁSSIO.
Você me aconselha bem.

IAGO.
Protesto, com a sinceridade do amor e da honesta bondade.

CÁSSIO.
Penso nisso sem hesitar; e bem cedo pela manhã, implorarei à virtuosa Desdêmona que se encarregue disso por mim; estou desesperado com a minha sorte se me detiverem aqui.

IAGO.
Você tem razão. Boa noite, tenente, preciso ir para o meu posto.

CÁSSIO.
Boa noite, honesto Iago.

Saída. ]

IAGO.
E quem é ele, então, que diz que eu interpreto o papel de vilão?
Quando este conselho que dou é gratuito e honesto,
propício à reflexão, e de fato o caminho
para reconquistar o Mouro? Pois é muito fácil
subjugar a inclinada Desdêmona
em qualquer proposta honesta. Ela é tão fértil
quanto os elementos livres. E então, para ela
conquistar o Mouro, seria preciso renunciar ao batismo dele,
a todos os selos e símbolos de pecado redimido, pois
a alma dele está tão presa ao amor dela
que ela pode fazer, desfazer, fazer o que bem entender,
assim como seu apetite desempenha o papel de deus
com a função frágil dele. Como posso eu, então, ser um vilão
por aconselhar Cássio a seguir esse caminho paralelo,
diretamente para o seu bem? Divindade do inferno!
Quando os demônios querem se revestir dos pecados mais negros,
eles se insinuam primeiro com aparências celestiais,
como eu faço agora: pois enquanto este tolo honesto
implora a Desdêmona para restaurar sua fortuna,
e ela intercede por ele com veemência junto ao Mouro,
eu lhe lançarei esta pestilência em seus ouvidos,
que ela o rejeita por causa da luxúria de seu corpo;
e por mais que ela se esforce para lhe fazer o bem,
ela arruinará sua reputação com o Mouro.
Assim, transformarei sua virtude em breu,
e de sua própria bondade farei a rede
que os enredará a todos.

Entra Rodrigo .

E aí, Rodrigo?

RODERIGO.
Sigo aqui na perseguição, não como um cão que caça, mas como um que atende ao chamado. Meu dinheiro está quase acabando, apanhei muito esta noite; e acho que o resultado será que terei tanta experiência em troca dos meus esforços, que assim, sem dinheiro nenhum e com um pouco mais de astúcia, voltarei para Veneza.

IAGO.
Como são pobres aqueles que não têm paciência!
Que ferida jamais cicatrizou senão aos poucos?
Sabes que trabalhamos com inteligência, e não com feitiçaria,
e a inteligência depende do tempo prolongado.
Não corre bem? Cássio te derrotou,
e tu, por essa pequena mágoa, destituíste Cássio;
embora outras coisas cresçam belas contra o sol,
os frutos que desabrocham primeiro amadurecem primeiro.
Contenta-te por um tempo. Pela missa, já é manhã;
o prazer e a ação fazem as horas parecerem curtas.
Retira-te; vai para onde estás alojado.
Vai-te embora, eu digo, saberás mais depois.
Não, vai-te embora.

Saída Rodrigo . ]

Duas coisas precisam ser feitas:
minha esposa deve ir atrás de Cássio e levá-lo até sua amante.
Eu a incumbirei disso;
enquanto isso, eu atrairei o Mouro para um canto
e o farei pular fora quando ele encontrar Cássio
cortejando sua esposa. Sim, é assim mesmo.
Não vamos desperdiçar o plano com frieza e demora.

Saída. ]

ATO III

CENA I. Chipre. Em frente ao Castelo.

Entram Cássio e alguns músicos .

CÁSSIO.
Mestres, toquem aqui, eu compensarei seus esforços,
algo breve; e digam "Bom dia, general".

Música. ]

Apresentando o Palhaço .

PALHAÇO.
Ora, mestres, seus instrumentos estiveram em Nápoles, para que falem assim pelo nariz?

PRIMEIRO MÚSICO.
Como, senhor, como?

PALHAÇO.
Seriam estes, eu lhe pergunto, instrumentos de sopro?

PRIMEIRO MÚSICO.
Ora, ora, são mesmo, senhor.

PALHAÇO.
Ah, e assim pende um rabo.

PRIMEIRO MÚSICO.
De onde vem essa história, senhor?

PALHAÇO.
Ora, senhor, por todos os instrumentos de sopro que conheço. Mas, mestres, aqui está o dinheiro para vocês: e o general gosta tanto da sua música que, por amor a Deus, pede que vocês não façam mais barulho com ela.

PRIMEIRO MÚSICO.
Bem, senhor, não vamos.

PALHAÇO.
Se você tiver alguma música que não possa ser ouvida, toque-a novamente. Mas, como dizem, para ouvir música o general não se importa muito.

PRIMEIRO MÚSICO.
Não temos nenhum, senhor.

PALHAÇO.
Então guarde suas flautas na sua bolsa, porque eu vou embora. Vá, desapareça no ar, vaze!

Saem os músicos. ]

CÁSSIO.
Ouviste, meu sincero amigo?

PALHAÇO.
Não, não estou ouvindo seu amigo honesto. Estou ouvindo você.

CÁSSIO.
Por favor, mantenha suas aljavas. Há uma pequena moeda de ouro para você: se a dama de companhia da esposa do general se mexer, diga-lhe que Cássio lhe pede um pequeno favor. Você fará isso?

PALHAÇO.
Ela está se mexendo, senhor; se ela se mexer para cá, eu irei avisá-la.

CÁSSIO.
Faça bem, meu amigo.

Saída do Palhaço . ]

Entra Iago .

Nos bons tempos, Iago.

IAGO.
Então você não estava na cama?

CÁSSIO.
Ora, não. O dia já havia amanhecido
quando nos separamos. Ousei, Iago,
enviar um mensageiro à sua esposa. Meu pedido a ela
é que interceda junto à virtuosa Desdêmona para
que eu tenha acesso a ela.

IAGO.
Vou enviá-la para você em breve,
e vou bolar um jeito de afastar o Mouro
, para que sua conversa e seus negócios
possam fluir mais livremente.

CÁSSIO.
Agradeço-lhe humildemente por isso.

Sai Iago . ]

Nunca conheci
um florentino mais gentil e honesto.

Entra Emília .

EMILIA.
Bom dia, bom tenente; lamento
o seu desagrado, mas tudo ficará bem.
O general e sua esposa estão conversando sobre isso,
e ela fala em sua defesa com firmeza: o mouro responde
que aquele a quem você magoou é muito famoso em Chipre
e tem grande afinidade, e que, em sã consciência,
ele não poderia deixar de recusá-la; mas ele protesta que a ama
e não precisa de outro pretendente além de alguém por quem se identifica
para aproveitar a oportunidade mais segura na frente de batalha
para trazê-la de volta.

CÁSSIO.
No entanto, eu te imploro,
se achares conveniente, ou se for possível,
concede-me a oportunidade de uma breve conversa
a sós com Desdêmona.

EMILIA.
Por favor, entre.
Eu lhe darei um lugar onde você terá tempo
para desabafar livremente.

CÁSSIO.
Estou muito agradecido a você.

Saem. ]

CENA II. Chipre. Um quarto no castelo.

Entram Otelo, Iago e os Cavalheiros .

OTELO.
Entregue estas cartas, Iago, ao piloto,
e por meio dele cumpra meus deveres para com o senado.
Feito isso, irei caminhar sobre as obras;
venham até mim.

IAGO.
Bem, meu Deus, eu farei isso.

OTELO.
Esta fortificação, senhores, vamos vê-la?

Senhores,
aguardaremos a sua presença.

Saem. ]

CENA III. Chipre. O Jardim do Castelo.

Entram Desdêmona, Cássio e Emília .

DESDÊMONA.
Pode ter certeza, bom Cássio, que farei
todo o possível em seu favor.

EMILIA.
Boa senhora, faça isso. Garanto que isso entristece meu marido
como se a causa fosse dele.

DESDÊMONA.
Oh, esse é um sujeito honesto. Não duvide, Cássio,
mas terei meu senhor e você de volta
tão amigos como antes.

CÁSSIO.
Generosa senhora,
aconteça o que acontecer com Michael Cassio,
ele sempre será seu fiel servo.

DESDÊMONA.
Eu sei. Agradeço-te. Tu amas o meu senhor.
Conheces-o há muito tempo; e podes ter a certeza de que
Ele, em termos de estranheza, não se afastará mais
do que a distância política necessária.

CÁSSIO.
Sim, mas, senhora,
essa política pode durar tanto tempo,
ou se alimentar de uma dieta tão agradável e fraca,
ou se desfazer de tal forma por circunstâncias adversas,
que, estando eu ausente e meu lugar ocupado,
meu general se esquecerá do meu amor e serviço.

DESDÊMONA.
Não duvide disso. Diante de Emília, aqui
te dou a garantia do teu lugar. Asseguro-te que,
se eu jurar amizade, cumprirei o juramento
até o último artigo. Meu senhor jamais descansará,
eu o vigiarei até a exaustão e o farei perder a paciência;
sua cama será uma escola, sua mesa um esconderijo;
misturarei tudo o que ele fizer
com os assuntos de Cássio. Portanto, alegra-te, Cássio,
pois teu advogado preferirá morrer
a desistir da tua causa.

Entram Otelo e Iago .

EMILIA.
Senhora, eis que chega meu senhor.

CÁSSIO.
Senhora, vou-me embora.

DESDÊMONA.
Por que, fique e ouça-me falar.

CÁSSIO.
Senhora, agora não. Estou muito desconfortável,
inapto para os meus próprios fins.

DESDÊMONA.
Bem, faça seu próprio julgamento.

Sai Cassio . ]

IAGO.
Ha, não gosto disso.

OTELO.
O que dizes?

IAGO.
Nada, meu senhor; ou se... não sei o quê.

OTELO.
Não foi Cássio quem se separou da minha esposa?

IAGO.
Cássio, meu senhor? Não, certamente, não consigo imaginar
que ele se retiraria com ar tão culpado,
ao vê-lo chegar.

OTELO.
Eu acredito que tenha sido ele.

DESDÊMONA.
Como vai, meu senhor?
Estive conversando com um pretendente aqui,
um homem que definha em seu desagrado.

OTHELLO.
Quem você está querendo dizer?

DESDÊMONA.
Ora, seu tenente, Cássio. Meu bom senhor,
se tenho alguma graça ou poder para convencê-lo,
aceite sua reconciliação agora mesmo;
pois se ele não for alguém que realmente o ama,
que erra por ignorância e não por astúcia,
não tenho juízo em um rosto honesto.
Rogo-lhe que o chame de volta.

OTELO.
Foi ele agora para lá?

DESDÊMONA.
Sim, certamente; tão humilhado
que deixou parte de sua dor comigo
para que eu sofra com ele. Bom amor, chame-o de volta.

OTELO.
Agora não, minha doce Desdêmon, em outra ocasião.

DESDÊMONA.
Mas não será em breve?

OTHELLO.
Quanto antes, querida, para você.

DESDÊMONA.
Não será hoje à noite no jantar?

OTELO.
Não, não esta noite.

DESDÊMONA.
Jantar amanhã, então?

OTELO.
Não jantarei em casa;
encontrarei os capitães na cidadela.

DESDÊMONA.
Então, amanhã à noite, ou terça-feira de manhã,
na terça-feira ao meio-dia ou à noite; na quarta-feira de manhã.
Por favor, diga-me a hora, mas que não
ultrapasse três dias. Na verdade, ele está arrependido;
e, no entanto, sua transgressão, em nossa razão comum
(exceto que, dizem, as guerras devem servir de exemplo
com os melhores), quase não é uma falta
que justifique uma revisão particular. Quando ele virá?
Diga-me, Otelo: pergunto-me em minha alma
o que você me pediria para que eu negasse
ou continuasse a murmurar. O quê? Michael Cassio,
que veio cortejá-lo e tantas vezes,
quando falei de você de forma depreciativa,
assumiu o seu lugar para ter tanto trabalho
para trazê-lo! Acredite em mim, eu poderia fazer muito.

OTELO.
Não insista mais. Deixe-o vir quando quiser;
não lhe negarei nada.

DESDÊMONA.
Ora, isto não é uma dádiva;
é como se eu te implorasse que usasses luvas,
ou que te alimentasses com pratos nutritivos, ou que te mantivesses aquecida,
ou que te suplicasses que fizesses algo de proveitoso
para ti mesma: não, quando eu tiver um pedido
com o qual pretenda tocar verdadeiramente o teu amor,
será cheio de sutileza e peso difícil,
e temível de ser concedido.

OTELO.
Nada te negarei.
Em troca, peço-te que me concedas isto:
que me deixes um pouco a sós.

DESDÊMONA.
Devo negar-lhe? Não, adeus, meu senhor.

OTELO.
Adeus, minha Desdêmona. Irei ter contigo em breve.

DESDÊMONA.
Emília, venha. Seja como seus desejos mandarem.
Seja o que for que você seja, eu lhe obedecerei.

Saída com Emilia . ]

OTELO.
Excelente criatura! Que a perdição alcance minha alma,
mas eu te amo! E quando eu não te amar mais,
o caos retornará.

IAGO.
Meu nobre senhor,—

OTELO.
O que dizes, Iago?

IAGO.
Será que Michael Cassio, quando cortejaste minha dama,
sabia do teu amor?

OTELO.
Ele fez isso, do começo ao fim. Por que você pergunta?

IAGO.
Mas apenas para satisfazer meu pensamento.
Nenhum dano adicional.

OTELO.
Por que pensas nisso, Iago?

IAGO.
Eu não imaginava que ele a conhecesse.

OTELO.
Ah, sim, e transitava entre nós com muita frequência.

IAGO.
Mesmo?

OTELO.
É mesmo? Sim, é mesmo. Você percebe alguma coisa nisso?
Ele não é honesto?

IAGO.
Honestamente, meu senhor?

OTELO.
Sincero? Sim, sincero.

IAGO.
Meu senhor, pelo que sei.

OTELO.
O que você acha?

IAGO.
Pense, meu senhor?

OTELO.
Pensa, meu senhor? Por Deus, ele me repete,
como se houvesse algum monstro em seus pensamentos,
tão horrendo que não pudesse ser mostrado. Tu queres dizer alguma coisa.
Eu te ouvi dizer agora mesmo que não gostaste disso,
quando Cássio deixou minha esposa. De que não gostaste?
E quando te disse que ele era meu conselheiro
em todo o meu cortejo, tu exclamaste: "É mesmo?"
E franziste a testa,
como se tivesses guardado em teu cérebro
alguma ideia horrível: se me amas,
mostra-me o que pensas.

IAGO.
Meu senhor, tu sabes que te amo.

OTELO.
Eu acho que sim;
e pois sei que és cheio de amor e honestidade,
e ponderas tuas palavras antes de as proferires,
portanto, essas tuas hesitações me assustam ainda mais:
pois tais coisas, num patife falso e desleal,
são truques do costume; mas num homem justo,
são dilatações profundas, que emanam do coração,
e que a paixão não pode dominar.

IAGO.
Quanto a Michael Cassio,
ouso jurar que acredito que ele seja honesto.

OTELO.
Eu também acho.

IAGO.
Os homens devem ser o que parecem;
ou aqueles que não o são, que assim seja!

OTELO.
Certamente, os homens devem ser o que aparentam ser.

IAGO.
Então, eu acho que Cássio é um homem honesto.

OTELO.
Não, ainda há mais nisto:
Eu te imploro, fala-me sobre teus pensamentos,
como tu ruminas, e dá aos teus piores pensamentos
as piores palavras.

IAGO.
Meu bom senhor, perdoe-me.
Embora eu esteja obrigado a cumprir todo dever,
não estou obrigado àquilo a que todos os escravos são livres.
Expressar meus pensamentos? Ora, diga que são vis e falsos:
pois onde está aquele palácio onde coisas impuras
às vezes não se intrometem? Quem tem um coração tão puro
que não nutrisse apreensões impuras,
mantendo leets e dias de lei, e em sessão sentando-se
com meditações lícitas?

OTELO.
Tu conspiras contra teu amigo, Iago,
se tão somente o consideras injustiçado e o fazes
ignorar teus pensamentos.

IAGO.
Eu te imploro,
embora talvez eu seja perverso em minhas suposições,
pois, confesso, é da minha natureza
perscrutar abusos e, por ciúme,
criar faltas onde não existem, que tua sabedoria,
vinda de alguém que pensa de forma tão imperfeita,
não te dê atenção; nem cries problemas para ti mesma
a partir de sua observação dispersa e incerta.
Não seria para tua tranquilidade nem para teu bem,
nem para minha virilidade, honestidade ou sabedoria,
que te revelaria meus pensamentos.

OTELO.
O que queres dizer?

IAGO.
Bom nome, meu caro senhor,
é a joia mais preciosa da alma de um homem e de uma mulher.
Quem rouba minha bolsa rouba lixo. É algo, nada;
era meu, é dele, e foi escravo de milhares.
Mas quem me rouba o bom nome
me rouba aquilo que não o enriquece
e me deixa verdadeiramente pobre.

OTELO.
Por Deus, eu saberei os teus pensamentos.

IAGO.
Você não pode, se meu coração estivesse em suas mãos,
nem poderá, enquanto estiver sob minha custódia.

OTELO.
Hã?

IAGO.
Ó, cuidado, meu senhor, com o ciúme;
é o monstro de olhos verdes que zomba
da carne que devora. Vive em felicidade
aquele que, certo de seu destino, não ama sua injustiça;
mas, ó, que minutos malditos ele narra,
aquele que adora, mas duvida, suspeita, mas ama intensamente!

OTELO.
Ó, que miséria!

IAGO.
Pobre e contente é rico, e rico o suficiente;
mas riquezas sem graça são tão pobres quanto o inverno
para aquele que sempre teme ser pobre.
Céus, defenda as almas de toda a minha tribo
da inveja!

OTELO.
Por que, por que isso?
Pensas que eu faria da inveja a minha vida,
seguindo sempre as mudanças da lua
com novas suspeitas? Não. Uma vez em dúvida,
uma vez decidido: troca-me por um bode
quando eu dedicar os assuntos da minha alma
a tais suposições insípidas e exageradas,
que se igualam às tuas inferências. Não é para me provocar ciúmes
dizer que minha esposa é bela, se alimenta bem, gosta de companhia,
é franca, canta, toca e dança bem;
onde há virtude, estas são ainda mais virtuosas:
nem dos meus próprios méritos fracos tirarei
o menor medo ou dúvida da sua revolta,
pois ela tinha olhos e me escolheu. Não, Iago,
verei antes de duvidar; quando duvidar, provarei;
e, provado, não há mais nada a dizer senão isto:
afaste-se de vez o amor e o ciúme!

IAGO.
Alegro-me com isso, pois agora terei motivos
para demonstrar o amor e o dever que lhe dedico
com mais franqueza; portanto, como me sinto obrigado,
aceite-o de mim. Ainda não falo de provas.
Cuide de sua esposa; observe-a bem com Cássio;
mantenha o olhar atento, sem ciúme nem insegurança.
Não quero que sua natureza livre e nobre
seja abusada por generosidade. Cuide dela.
Conheço bem os costumes do nosso país;
em Veneza, elas deixam o céu ver as travessuras
que não ousam mostrar aos maridos. Sua melhor consciência
é não deixar nada por fazer, mas manter em segredo.

OTELO.
É isso que você diz?

IAGO.
Ela enganou o pai, casando-se contigo;
e quando parecia tremer e temer teu olhar,
era porque o amava mais que tudo.

OTELO.
E assim ela fez.

IAGO.
Ora, vá então.
Ela, tão jovem, podia dar tal aparência,
a ponto de fechar os olhos do pai como um carvalho,
a ponto de ele pensar que era bruxaria. Mas a culpa é minha.
Humildemente, imploro seu perdão
por amá-la demais.

OTELO.
Estou ligado a ti para sempre.

IAGO.
Vejo que isso te desanimou um pouco.

OTELO.
Nem um pingo, nem um pingo.

IAGO.
Acredite em mim, temo que sim.
Espero que considere que o que foi dito
vem do meu amor. Mas vejo que você está comovido.
Peço-lhe que não force minhas palavras
a abordar questões mais grosseiras nem a alcançar objetivos maiores
do que a suspeita.

OTELO.
Eu não vou.

IAGO.
Se assim o fizer, meu senhor,
meu discurso terá um resultado tão vil
que meus pensamentos não almejavam. Cássio é meu digno amigo.
Meu senhor, vejo que está comovido.

OTHELLO.
Não, não me comoveu muito.
Não acho que Desdêmona seja honesta.

IAGO.
Que ela viva para sempre! E que você viva para sempre por pensar assim!

OTELO.
E, no entanto, como a natureza se desvia de si mesma—

IAGO.
Ah, aí está o ponto. Para ser ousado com você,
sem querer influenciar as muitas propostas de casamento,
com seu próprio clima, tez e posição social,
para onde vemos que a natureza tende em todas as coisas;
ora! Pode-se sentir em tal vontade o cheiro mais repugnante,
desproporção vil, pensamentos antinaturais.
Mas me perdoe: não
falo dela diretamente, embora eu tema
que sua vontade, cedendo ao seu melhor julgamento,
possa levá-lo a se casar com alguém de sua região,
e felizmente se arrepender.

OTELO.
Adeus, adeus:
Se mais perceberes, conta-me mais;
pede à tua esposa que observe. Deixa-me, Iago.

IAGO.
Indo. ] Meu senhor, eu me retiro.

OTELO.
Por que me casei? Essa criatura honesta sem dúvida
vê e sabe mais, muito mais, do que revela.

IAGO.
Retornando. ] Meu senhor, eu gostaria de pedir a Vossa Senhoria
que não investigue mais este assunto. Deixe para o tempo:
embora seja apropriado que Cássio ocupe seu lugar,
pois certamente o preenche com grande habilidade,
se Vossa Senhoria quiser retê-lo por um tempo,
assim o conhecerá melhor e poderá avaliar seus meios.
Observe se sua dama insiste em sua hospitalidade
com alguma insistência forte ou veemente;
muito se verá nisso. Enquanto isso,
permita-me ser considerado ocupado demais com meus temores
(pois tenho uma causa digna de temer)
e imploro a Vossa Senhoria que a mantenha livre.

OTELO.
Não temas o meu governo.

IAGO.
Mais uma vez, me despeço.

Saída. ]

OTELO.
Este sujeito é de uma honestidade excepcional,
e conhece todas as qualidades, com um espírito sábio,
das relações humanas. Se eu a provar desleixada,
mesmo que suas correias fossem as cordas do meu querido coração,
eu a mandaria embora assobiando, e a deixaria ao sabor do vento
para se aproveitar da fortuna. Talvez, por eu ser negro,
e não ter a delicadeza de uma conversa
que os camareiros possuem, ou por eu ter decaído
para o vale dos anos — mas isso não é grande coisa
— ela se foi, fui maltratado, e meu alívio
terá que ser odiá-la. Ó maldição do casamento,
que possamos chamar essas criaturas delicadas de nossas,
e não seus apetites! Eu preferiria ser um sapo,
e viver do vapor de uma masmorra,
do que manter um canto daquilo que amo
para o uso de outros. No entanto, esta é a praga dos grandes,
prerrogativas que lhes são inferiores às dos vis,
é o destino inevitável, como a morte:
mesmo assim, esta praga bifurcada nos aguarda
quando despertarmos. Desdêmona vem.
Se ela for falsa, ó, então o céu zomba de si mesmo!
Não acreditarei nisso.

Entram Desdêmona e Emília .

DESDÊMONA.
Como vai, meu caro Otelo?
Seu jantar, e os generosos ilhéus
por você convidados, compareçam.

OTELO.
A culpa é minha.

DESDÊMONA.
Por que você fala tão baixo?
Você não está se sentindo bem?

OTELO.
Estou com uma dor na testa.

DESDÊMONA.
Fé, que é vigiar, desaparece de novo;
Deixe-me apenas prendê-la firmemente, dentro desta hora
tudo ficará bem.

OTELO.
Seu guardanapo é muito pequeno;

Ele tira o lenço de perto dela, e ela o deixa cair. ]

Deixa pra lá. Vem, eu entro com você.

DESDÊMONA.
Sinto muito que você não esteja bem.

Saem Otelo e Desdêmona . ]

EMILIA.
Que bom que encontrei este guardanapo;
esta foi a primeira lembrança que ela teve do Mouro. Meu marido inconstante já me pediu
cem vezes para roubá-lo. Mas ela ama tanto a lembrança, pois ele a fez jurar que a guardaria para sempre, que a mantém sempre consigo para beijar e conversar com ela. Vou mandar tirar o trabalho e dar para Iago. O que ele fará com ele , só Deus sabe, eu não sei, nada além de satisfazer sua fantasia.






Entra Iago .

IAGO.
E agora? O que você faz aqui sozinho?

EMILIA.
Não me repreenda. Eu tenho uma queda por você.

IAGO.
Algo para mim? É algo comum—

EMILIA.
Hã?

IAGO.
Ter uma esposa tola.

EMILIA.
Ah, é só isso? O que você me dará agora
por esse mesmo lenço?

IAGO.
Que lenço?

EMILIA.
Que lenço?
Ora, aquele que o Mouro deu primeiro a Desdêmona,
aquele que tantas vezes me pediste para roubar.

IAGO.
Roubou dela?

EMILIA.
Não, ora, ela deixou cair por descuido,
e, por sorte, eu que estava aqui, peguei.
Veja, aqui está.

IAGO.
Uma boa moça, me dê.

EMILIA.
O que você vai fazer com isso, já que insistiu tanto
para que eu o roubasse?

IAGO.
Agarrando-o. ] Ora, o que isso te importa?

EMILIA.
Se não for para algum propósito importante,
devolva-me. Coitada, ela vai enlouquecer
quando não tiver mais.

IAGO.
Não seja desconhecido sobre isso, eu preciso disso.
Vá, me deixe.

Sai Emilia . ]

Vou deixar este guardanapo cair no quarto de Cássio,
e ele o encontrará. Insignificâncias leves como o ar
são, para os ciumentos, confirmações tão fortes
quanto provas das escrituras sagradas. Isso pode surtir algum efeito.
O Mouro já se rende ao meu veneno:
ideias perigosas são venenos por natureza,
que a princípio mal causam repulsa,
mas com um pouco de ação no sangue
queimam como minas de enxofre. Eu disse isso.

Aí entra Otelo .

Olha, de onde ele vem. Nem a papoula, nem a mandrágora,
nem todos os xaropes soníferos do mundo,
jamais te levarão ao doce sono
que ontem lhe era devido.

OTELO.
Ha! ha! Falso para mim?

IAGO.
Por que, como agora, general? Chega disso.

OTELO.
Afasta-te! Vai-te embora! Tu me puseste na tortura.
Juro que é melhor ser muito insultado
do que saber apenas um pouco.

IAGO.
Como vai, meu senhor?

OTELO.
Que pressentimento eu tinha das suas horas de luxúria roubadas?
Não vi, não pensei nisso, não me prejudicou.
Dormi bem na noite seguinte, livre e alegre;
não encontrei os beijos de Cássio nos seus lábios.
Aquele que é roubado, não desejando o que lhe foi roubado,
que não saiba disso, e não será roubado de todo.

IAGO.
Lamento saber disso.

OTELO.
Eu teria ficado feliz se o acampamento geral,
pioneiros e todos os demais, tivessem provado seu doce corpo,
contanto que eu nada soubesse. Oh, agora, para sempre,
adeus à mente tranquila! Adeus à satisfação!
Adeus às tropas emplumadas e às grandes guerras
que fazem da ambição uma virtude! Oh, adeus,
adeus ao cavalo relinchando e à trombeta estridente,
ao tambor que incita o espírito, ao pífaro que fere os ouvidos,
ao estandarte real e a toda a qualidade,
orgulho, pompa e circunstância da guerra gloriosa!
E, ó vós, máquinas mortais, cujas gargantas rudes
falsificam os clamores temíveis do imortal Júpiter,
adeus! A ocupação de Otelo acabou!

IAGO.
Não é possível, meu senhor?

OTELO.
Vilão, certifique-se de provar que meu amor é uma prostituta;
tenha certeza disso. Dê-me a prova visual,
ou, pelo valor da alma eterna de um homem,
teria sido melhor ter nascido cão
do que enfrentar minha fúria descontrolada.

IAGO.
Não chegamos a este ponto?

OTELO.
Faça-me ver, ou ao menos prove de tal forma,
que a provação não tenha nenhuma brecha ou gancho
que possa gerar dúvida, ou desgraça sobre a tua vida!

IAGO.
Meu nobre senhor,—

OTELO.
Se a caluniares e me torturares,
nunca mais reza. Abandona todo o remorso;
sobre a cabeça do horror, acumulam-se horrores;
comete atos que façam o céu chorar e toda a terra ficar estupefata;
pois nada podes acrescentar à danação
maior do que isso.

IAGO.
Ó graça! Ó céu, defendei-me!
És um homem? Tens alma ou juízo?
Que Deus esteja contigo. Toma o meu lugar. — Ó tolo miserável,
que vives para fazer da tua honestidade um vício!
Ó mundo monstruoso! Toma nota, toma nota, ó mundo,
ser direto e honesto não é seguro.
Agradeço-te por este ensinamento, e daqui em diante
não amarei nenhum amigo, pois o amor gera tanta ofensa.

OTELO.
Não, fique. Você deveria ser honesto.

IAGO.
Eu deveria ser sábio; pois a honestidade é tola,
e perde aquilo pelo qual trabalha.

OTELO.
Por todo o mundo,
acho que minha esposa é honesta, e acho que não é.
Acho que você é justo, e acho que não é.
Quero provas: o nome dela, que era tão puro
quanto o semblante de Diana, agora está sujo e negro
como o meu próprio rosto. Se houver cordas ou facas,
veneno ou fogo, ou rios sufocantes,
não suportarei. Quem me dera estar satisfeito!

IAGO.
Vejo, senhor, que o senhor está tomado pela paixão.
Arrependo-me de tê-la provocado.
O senhor ficaria satisfeito?

OTELO.
Gostaria? Não, eu gostaria.

IAGO.
E talvez; mas como? Quão satisfeito, meu senhor?
O senhor, supervisor, ficaria boquiaberto,
olhando para ela despedaçada?

OTELO.
Morte e danação! Ó!

IAGO.
Seria uma dificuldade tediosa, creio eu,
levá-los a essa perspectiva. Malditos sejam, então,
se olhos mortais os virem se vangloriar
mais do que a si mesmos! E então? Como então?
O que devo dizer? Onde está a satisfação?
É impossível que você veja isso,
mesmo que eles sejam tão puros quanto cabras, tão impetuosos quanto macacos,
tão salgados quanto lobos em orgulho e tão tolos
quanto a ignorância embriagada. Mas ainda assim eu digo,
se a imputação e as fortes circunstâncias,
que levam diretamente à porta da verdade,
lhe derem satisfação, talvez não a tenha.

OTHELLO.
Dê-me um motivo convincente para ela ser desleal.

IAGO.
Não gosto deste cargo,
mas já que me envolvi tanto nesta causa,
impelido por uma honestidade tola e pelo amor,
continuarei. Deitei-me com Cássio recentemente,
e, atormentado por uma dor de dente insuportável,
não consegui dormir.
Há homens tão desleixados
que, em seus sonhos, murmuram seus casos.
Um desses homens é Cássio:
em sonho, ouvi-o dizer: “Doce Desdêmona,
sejamos cautelosos, escondamos nossos amores”;
e então, senhor, ele apertava e torcia minha mão,
exclamava: “Ó doce criatura!” e me beijava com força,
como se arrancasse beijos pela raiz
que cresciam em meus lábios, depois colocava a perna
sobre minha coxa, suspirava e beijava, e então
exclamava: “Maldito destino que te entregou ao Mouro!”

OTELO.
Ó monstruoso! monstruoso!

IAGO.
Não, isso não passava de um sonho dele.

OTELO.
Mas isso denotava uma conclusão inevitável.
É uma dúvida astuta, embora não passe de um sonho.

IAGO.
E isso pode ajudar a reforçar outras provas
que demonstram algo superficialmente.

OTELO.
Vou despedaçá-la toda.

IAGO.
Não, mas seja sábio. Ainda não vemos nada feito,
ela pode até ser honesta. Diga-me apenas isto:
você nunca viu um lenço
manchado de morangos na mão de sua esposa?

OTHELLO.
Eu lhe dei um desses, foi meu primeiro presente.

IAGO.
Não sei disso, mas vi hoje Cássio enxugar a barba com um lenço igual a esse
(tenho certeza de que era da sua esposa) .

OTELO.
Se for isso mesmo,—

IAGO.
Se for isso, ou qualquer outra coisa que lhe pertencia,
isso, juntamente com as outras provas, depõe contra ela.

OTELO.
Oh, se o escravo tivesse quarenta mil vidas!
Uma é muito pouco, muito fraca para a minha vingança!
Agora vejo que é verdade. Veja aqui, Iago;
todo o meu amor assim eu sopro para o céu.
Acabou.
Levanta-te, vingança negra, do teu inferno oco!
Entrega, ó amor, tua coroa e trono de coração
ao ódio tirânico! Incha, peito, com teu fardo,
pois é de línguas de áspide!

IAGO.
Mas contente-se.

OTELO.
Ó, sangue, Iago, sangue!

IAGO.
Paciência, eu digo. Talvez você mude de ideia.

OTELO.
Nunca, Iago. Como o Mar Pôntico,
cuja corrente gélida e curso implacável
jamais recuam, mas seguem em frente
para o Propôntico e o Helesponto;
assim também meus pensamentos sangrentos, com passo violento,
jamais olharão para trás, jamais recuarão para o amor humilde,
até que uma vingança capaz e abrangente
os engula. Agora, por aquele céu de mármore,
na devida reverência de um voto sagrado [ Ajoelha-se. ]
aqui comprometo minhas palavras.

IAGO.
Não se levante ainda. [ Ajoelha-se. ]
Testemunhem, luzes eternas lá em cima,
elementos que nos cercam,
testemunhem que aqui Iago entrega
a execução de sua inteligência, mãos e coração
ao serviço do injustiçado Otelo! Que ele comande,
e obedecer será motivo de remorso para mim,
seja lá qual for o negócio sangrento.

Eles se levantam. ]

OTELO.
Saúdo teu amor,
não com vãos agradecimentos, mas com generosa aceitação,
e imediatamente te entregarei a ele.
Dentro destes três dias, que eu te diga
que Cássio não está vivo.

IAGO.
Minha amiga está morta. Isso foi feito a seu pedido.
Mas deixe-a viver.

OTELO.
Maldita seja ela, lasciva! Oh, maldita seja ela, maldita seja ela!
Venha, vá comigo para um lugar à parte, eu me retirarei
para providenciar um meio rápido de matar
a bela diaba. Agora você é meu tenente.

IAGO.
Sou seu para sempre.

Saem. ]

CENA IV. Chipre. Em frente ao Castelo.

Entram Desdêmona, Emília e o Palhaço .

DESDÊMONA.
Você sabe, senhor, onde o tenente Cassio está enterrado?

PALHAÇO.
Não me atrevo a dizer que ele mente em lugar nenhum.

DESDÊMONA.
Por quê, cara?

PALHAÇO.
Ele é um soldado; e dizer que um soldado mente é uma traição.

DESDÊMONA.
Vá para. Onde ele se aloja?

PALHAÇO.
Dizer onde ele se hospeda é dizer onde eu me deito.

DESDÊMONA.
Será que se pode fazer alguma coisa com isto?

PALHAÇO.
Não sei onde ele se hospeda; e tentar adivinhar onde ele fica e dizer que ele está aqui ou ali seria como mentir para a minha própria garganta.

DESDÊMONA.
Você pode interrogá-lo e se informar pelo relatório?

PALHAÇO.
Catequizarei o mundo para ele, isto é, farei perguntas e, por meio delas, responderei.

DESDÊMONA.
Procurem-no, mandem-no vir até aqui. Digam-lhe que intercedi junto ao meu senhor em seu favor e espero que tudo corra bem.

PALHAÇO.
Fazer isso está ao alcance da inteligência humana, e, portanto, tentarei fazê-lo.

Saída. ]

DESDÊMONA.
Onde devo perder esse lenço, Emília?

EMILIA.
Não sei, senhora.

DESDÊMONA.
Acredite, eu preferiria ter perdido minha bolsa
cheia de cruzados. Mas meu nobre mouro
é íntegro e não possui a baixeza
das criaturas invejosas, o suficiente
para levá-lo a pensamentos impuros.

EMILIA.
Ele não está com ciúmes?

DESDÊMONA.
Quem, ele? Acho que o sol do lugar onde ele nasceu
extraiu dele todos esses humores.

EMILIA.
Olha, de onde ele vem.

Aí entra Otelo .

DESDÊMONA.
Não o deixarei agora até que Cássio
seja chamado. Como vai, meu senhor?

OTELO.
Bem, minha senhora. [ À parte. ] Oh, que dificuldade em dissimular!
Como vai você, Desdêmona?

DESDÊMONA.
Bem, meu Deus.

OTELO.
Dê-me a sua mão. Esta mão está úmida, minha senhora.

DESDÊMONA.
Ela ainda não sentiu a idade nem conheceu a tristeza.

OTELO.
Isto demonstra fertilidade e um coração generoso.
Quente, quente e úmido. Esta tua mão requer
um isolamento da liberdade, jejum e oração,
muita punição, exercício devoto;
pois aqui está um demônio jovem e suado
que se rebela com frequência. É uma boa mão,
uma mão franca.

DESDÊMONA.
Podes dizer isso, sem dúvida,
pois foi aquela mão que me entregou o coração.

OTELO.
Uma mão generosa. Os corações de outrora davam mãos,
mas nossa nova heráldica são as mãos, não os corações.

DESDÊMONA.
Não posso falar sobre isso. Vamos, faça sua promessa.

OTHELLO.
Que promessa, rapaz?

DESDÊMONA.
Enviei um convite a Cássio para que venha falar com você.

OTELO.
Tenho uma forte irritação na garganta e um catarro desagradável.
Empreste-me seu lenço.

DESDÊMONA.
Aqui, meu senhor.

OTELO.
Aquilo que eu te dei.

DESDÊMONA.
Não se trata de mim.

OTELO.
Não?

DESDÊMONA.
Não, por Deus, meu senhor.

OTELO.
Isso é uma falha. Esse lenço,
uma egípcia deu à minha mãe.
Ela era encantadora e quase conseguia ler
os pensamentos das pessoas. Disse-lhe, enquanto o guardava,
que o lenço a tornaria amável e subjugaria meu pai
completamente ao seu amor. Mas se o perdesse,
ou o desse de presente, o olhar de meu pai
a desprezaria, e seu espírito buscaria
novas fantasias. Ela, morrendo, deu-o a mim
e pediu-me que, quando o destino me levasse a casar,
o desse a ela. Assim fiz; e tenha cuidado com ele,
faça dele um tesouro como seu precioso olho.
Perdê-lo ou dá-lo a alguém seria uma perdição
incomparável.

DESDÊMONA.
Não é possível?

OTELO.
É verdade. Há magia na trama.
Uma sibila, que havia contado no mundo
o sol percorrer duzentos compassos,
em sua fúria profética teceu a obra;
os vermes que criaram a seda foram consagrados,
e ela foi tingida em múmia, que os hábeis
conservaram dos corações das donzelas.

DESDÊMONA.
Sério? Não é verdade?

OTHELLO.
Muito verídico, portanto, observe-o com atenção.

DESDÊMONA.
Quem dera eu nunca tivesse visto isso!

OTELO.
Hã? Por quê?

DESDÊMONA.
Por que você fala de forma tão repentina e precipitada?

OTHELLO.
Não está perdido? Não se foi? Fale, está fora do caminho?

DESDÊMONA.
Que Deus nos abençoe!

OTELO.
Disse você?

DESDÊMONA.
Não está perdida, mas e se estivesse?

OTELO.
Como?

DESDÊMONA.
Eu digo que não está perdida.

OTHELLO.
Traga-o, deixe-me vê-lo.

DESDÊMONA.
Ora, eu poderia, senhor, mas não o farei agora.
Isso é um truque para me livrar do meu processo.
Por favor, permita que Cássio seja recebido novamente.

OTELO.
Traga-me o lenço! Estou com um pressentimento ruim.

DESDÊMONA.
Venha, venha.
Você nunca encontrará um homem mais completo.

OTHELLO.
O lenço!

DESDÊMONA.
Eu imploro, fale-me de Cássio.

OTHELLO.
O lenço!

DESDÊMONA.
Um homem que por toda a sua vida
fundamentou sua boa fortuna em seu amor,
compartilhou perigos com você,—

OTHELLO.
O lenço!

DESDÊMONA.
Na verdade, a culpa é sua.

OTHELLO.
Fora!

Saída. ]

EMILIA.
Este homem não está com ciúmes?

DESDÊMONA.
Nunca vi nada assim antes.
Certamente há algo de maravilhoso neste lenço, mas
estou muito triste por tê-lo perdido.

EMILIA.
Não é um ano ou dois que nos mostram um homem:
eles não passam de estômagos e nós não passamos de comida;
eles nos devoram com fome, e quando estão cheios,
nos arrotam.

Entram Cássio e Iago .

Olha só você, Cássio, e meu marido.

IAGO.
Não há outro jeito; é ela quem tem que fazer isso,
e eis a felicidade! Vai e implora a ela.

DESDÊMONA.
E aí, bom Cássio, quais são as novidades?

CÁSSIO.
Senhora, meu antigo pedido: Suplico-lhe
que, por seus meios virtuosos, eu possa
existir novamente e ser membro de seu amor,
a quem honro
inteiramente com toda a devoção do meu coração. Não quero demora.
Se minha ofensa for de tal natureza mortal
que nem meu serviço passado, nem as tristezas presentes,
nem o mérito futuro pretendido
possam me resgatar e me fazer voltar a amá-lo,
mas que saiba que isso será para meu próprio benefício,
então me revestirei de uma satisfação forçada
e me entregarei a algum outro caminho,
à esmola da fortuna.

DESDÊMONA.
Ai de mim, três vezes gentil Cássio,
minha defesa não está em sintonia;
meu senhor não é meu senhor; nem o reconheceria
se estivesse em meu favor, como se meu humor tivesse mudado.
Que eu, de todo espírito santificado, ajude-me,
pois falei por você com todo o meu melhor,
e me mantive sob o peso de seu desagrado
por minha liberdade de expressão! Você deve ter paciência por um tempo.
Farei o que puder; e farei mais
do que ousaria fazer por mim mesma. Que isso lhe baste.

IAGO.
Meu senhor está zangado?

EMILIA.
Ele partiu agora mesmo,
e certamente com uma estranha inquietação.

IAGO.
Ele pode estar zangado? Eu vi o canhão,
quando ele lançou suas fileiras pelos ares
e, como o diabo, do próprio braço,
inflou seu próprio irmão, e ele pode estar zangado?
Algo importante, então. Irei ao seu encontro.
Há, de fato, algo nisso se ele estiver zangado.

DESDÊMONA.
Eu te imploro que assim seja.

Sai Iago . ]

Algo certo de estado,
seja de Veneza, seja alguma prática não refinada
que lhe foi demonstrada aqui em Chipre,
contagiou seu espírito puro, e em tais casos
a natureza humana se apega a coisas inferiores,
embora seu objetivo sejam as grandes. É assim mesmo.
Pois se nosso dedo dói, isso afeta
até mesmo nossos outros membros saudáveis, causando
-lhes dor. Aliás, devemos considerar que os homens não são deuses,
nem esperar deles a mesma reverência
que se espera de um casamento. Que Deus me perdoe, Emília,
eu estava (guerreiro pouco atraente como sou)
acusando-o de sua crueldade com toda a minha alma;
mas agora descubro que subornei a testemunha,
e ele foi falsamente acusado.

EMILIA.
Rogai aos céus que tudo se resolva como você pensa,
e que não haja nenhuma ideia preconcebida ou invejosa
a seu respeito.

DESDÊMONA.
Ai daquele dia, eu nunca lhe dei motivo!

EMILIA.
Mas as almas invejosas não serão respondidas assim;
Elas nunca são invejosas pela causa,
mas sim porque são invejosas: é um monstro
gerado em si mesmo, nascido em si mesmo.

DESDÊMONA.
Que os céus livrem a mente de Otelo desse monstro!

EMILIA.
Amém, senhora.

DESDÊMONA.
Vou procurá-lo. Cássio, ande por aqui:
se eu o encontrar, darei seguimento ao seu pedido
e farei tudo o que estiver ao meu alcance para concretizá-lo.

CÁSSIO.
Agradeço humildemente a Vossa Senhoria.

Saem Desdêmona e Emília . ]

Entra Bianca .

BIANCA.
Salve-te, amigo Cássio!

CÁSSIO.
De onde você é?
Como vai você, minha querida Bianca?
Ai, meu amor, eu estava indo para a sua casa.

BIANCA.
E eu ia para a sua hospedagem, Cássio.
O quê, ficar uma semana fora? Sete dias e noites?
Oitocentas e oito horas, e horas de ausência dos amantes,
mais tedioso do que contar oitenta vezes?
Ó, que cálculo cansativo!

CÁSSIO.
Perdoe-me, Bianca.
Estive ocupado com pensamentos pesados ​​ultimamente,
mas em breve poderei
apagar essa nota de ausência. Doce Bianca,

Entregando-lhe o lenço de Desdêmona. ]

Me leve para fazer esse treino.

BIANCA.
Ó Cássio, de onde veio isto?
É uma lembrança de um amigo recente.
Agora sinto uma causa para a ausência que sentia.
Não foi isso que nos levou a isto? Bem, bem.

CÁSSIO.
Vai, mulher!
Joga essas tuas suposições vis nos dentes do diabo,
de onde as tiraste. Estás com ciúmes agora
porque isto vem de alguma amante, de alguma lembrança.
Não, em nome de Deus, Bianca.

BIANCA.
Por quê? De quem é?

CÁSSIO.
Eu também não sei. Encontrei-o no meu quarto.
Gostei muito do trabalho. Antes que seja solicitado,
como provavelmente será, mandarei copiá-lo.
Leve-o, faça-o e me deixe por enquanto.

BIANCA.
Deixar você, por quê?

CÁSSIO.
Eu compareço aqui por conta do general,
e não considero um acréscimo, nem meu desejo,
que ele me veja como mulher.

BIANCA.
Por que, eu te imploro?

CÁSSIO.
Não que eu não te ame.

BIANCA.
Mas você não me ama.
Eu imploro que me acompanhe um pouco no caminho
e diga se nos veremos em breve à noite.

CÁSSIO.
É um pequeno caminho que posso percorrer para te levar,
pois estou aqui. Mas te verei em breve.

BIANCA.
É muito bom; devo estar circunstancial.

Saem. ]

ATO IV

CENA I. Chipre. Em frente ao Castelo.

Entram Otelo e Iago .

IAGO.
Você acha mesmo?

OTELO.
Acha mesmo, Iago?

IAGO.
O quê,
beijar em particular?

OTHELLO.
Um beijo não autorizado.

IAGO.
Ou ficar nua com a amiga na cama
por uma hora ou mais, sem intenção de causar mal?

OTELO.
Nu na cama, Iago, e sem intenção de fazer mal?
É hipocrisia contra o diabo:
aqueles que têm boas intenções e agem de forma vil,
o diabo tenta sua virtude, e eles tentam o céu.

IAGO.
Então eles não fazem nada, é um deslize venial.
Mas se eu der um lenço à minha esposa—

OTELO.
E depois?

IAGO.
Ora, então, é dela, meu senhor, e sendo dela,
ela pode, creio eu, concedê-lo a qualquer homem.

OTHELLO.
Ela também é protetora de sua honra.
Será que ela pode conceder isso?

IAGO.
Sua honra é uma essência que não se vê;
muitas vezes a possuem aqueles que não a têm:
exceto pelo lenço—

OTELO.
Por Deus, eu teria esquecido isso de bom grado.
Tu disseste (Oh, isso me vem à mente,
como o corvo sobre a casa infectada,
pressagiando para todos) que ele tinha meu lenço.

IAGO.
E daí?

OTHELLO.
Isso não é nada bom agora.

IAGO.
E
se eu tivesse dito que o vi te prejudicar?
Ou o ouvi dizer (pois são esses os patifes por aí,
que, por sua própria insistência,
ou pela voluntariedade de alguma amante,
convencidos ou influenciados, não conseguem escolher
senão falar demais)?

OTELO.
Ele disse alguma coisa?

IAGO.
Ele jurou, meu senhor, mas fique bem tranquilo,
ele não voltará atrás em seu juramento.

OTELO.
O que ele disse?

IAGO.
Fé, que ele fez—não sei o que ele fez.

OTELO.
O quê? O quê?

IAGO.
Mentira.

OTELO.
Com ela?

IAGO.
Com ela, sobre ela, o que você quiser.

OTELO.
Deite-se com ela! Deite-se sobre ela! — Dizemos "deite-se sobre ela" quando a desmentem. — Deite-se com ela! Que coisa mais vulgar. Lenço — confissões — lenço! Confessar e ser enforcado por seus atos. Primeiro, ser enforcado e depois confessar. Tremo só de pensar nisso. A natureza não se envolveria em uma paixão tão sombria sem alguma instrução. Não são as palavras que me abalam assim. Bobagem! Narizes, orelhas e lábios. Não é possível? — Confessar? — Lenço? — Ó diabo!

Entra em transe. ]

IAGO.
Trabalhe,
meu remédio, trabalhe! Assim são os tolos crédulos,
e muitas damas virtuosas e castas,
todas inocentes, são repreendidas. Ora, ora! Meu senhor!
Meu senhor, eu digo! Otelo!

Entra Cassio .

E então, Cássio!

CÁSSIO.
O que houve?

IAGO.
Meu senhor teve uma crise epiléptica.
Esta é a segunda. Ele teve uma ontem.

CÁSSIO.
Esfregue-o nas têmporas.

IAGO.
Não, tenha paciência;
a letargia precisa seguir seu curso tranquilo.
Se não, ele espuma pela boca e, logo em seguida,
explode em uma loucura selvagem. Veja, ele se mexe:
afaste-se um pouco,
ele se recuperará imediatamente. Quando ele se for,
terei uma ótima oportunidade para conversar com você.

Sai Cassio . ]

Como vai, general? Não machucou a cabeça?

OTELO.
Estás a zombar de mim?

IAGO.
Estou zombando de você? Não, por Deus!
Quem dera você suportasse sua fortuna como um homem!

OTELO.
Um homem com chifres é um monstro e uma besta.

IAGO.
Há muitas feras, então, em uma cidade populosa,
e muitos monstros civis.

OTELO.
Ele confessou?

IAGO.
Meu bom senhor, seja homem.
Pense que qualquer barbudo que esteja preso
pode se juntar a você. Há milhões vivos
que todas as noites se deitam naquelas camas impróprias
que ousam jurar serem peculiares: seu caso é melhor.
Oh, é a maldade do inferno, a zombaria suprema do demônio,
beijar uma libertina em um leito seguro
e supor que ela seja casta! Não, diga-me,
e sabendo o que sou, sei o que ela será.

OTELO.
Ó, tu és sábio, disso não há dúvida.

IAGO.
Afasta-te um pouco,
Confina-te a uma lista paciente.
Enquanto estavas aqui dominado pela tua dor
(uma paixão tão inadequada para um homem como tu),
Cássio chegou. Afastei-o
e justifiquei o teu êxtase,
ordenando-lhe que voltasse logo e falasse comigo,
como ele prometeu. Recolhe-te
e observa os olhares de desprezo, as zombarias e os escárnios notáveis
​​que habitam cada região do seu rosto;
pois eu o farei contar a história novamente,
onde, como, quantas vezes, há quanto tempo e quando
ele se envolveu com a tua esposa e voltará a fazê-lo:
digo, mas observa os seus gestos. Ora, paciência,
ou direi que és puro mau humor
e nada de homem.

OTELO.
Ouviste, Iago?
Serei considerado o mais astuto em minha paciência;
mas... ouviste?... o mais sanguinário.

IAGO.
Isso não está errado.
Mas, ainda assim, mantenha o tempo em tudo. Você vai se retirar?

Otelo se retira. ]

Agora, perguntarei a Cássio sobre Bianca,
uma dona de casa que, vendendo seus desejos,
compra pão e roupa: é uma criatura
que se apaixona por Cássio (pois é a praga da prostituta
enganar muitos e ser enganada por um).
Ele, quando ouve falar dela, não consegue conter
o riso desenfreado. Eis que ele vem.

Entra Cassio .

Ao sorrir, Otelo enlouquecerá,
e seu ciúme nada intelectual interpretará
os sorrisos, gestos e comportamento despreocupado do pobre Cássio
como totalmente errados. Como vai, tenente?

CÁSSIO.
Pior ainda é o que você me acrescenta,
cuja vontade me mata.

IAGO.
Trate Desdêmona com sabedoria e você terá certeza disso.
Falando mais baixo. ] Agora, se este processo estiver ao alcance de Bianca,
quão rápido você deve se apressar!

CÁSSIO.
Ai, coitado do coitado!

OTELO.
À parte. ] Veja como ele já está rindo!

IAGO.
Nunca vi uma mulher amar tanto um homem.

CÁSSIO.
Ai, coitado do patife! Acho, tenho fé, que ela me ama.

OTELO.
À parte. ] Agora ele nega timidamente e dá uma risadinha.

IAGO.
Está ouvindo, Cássio?

OTELO.
Agora ele o importuna
para que conte tudo. Vá em frente, bem dito, bem dito.

IAGO.
Ela está dizendo que você vai se casar com ela.
Você pretende fazer isso?

CÁSSIO.
Ha, ha, ha!

OTELO.
Você triunfa, Romano? Você triunfa?

CÁSSIO.
Casar com ela? O quê? Uma cliente? Por favor, tenha um pouco de piedade da minha inteligência, não ache isso tão insalubre. Ha, ha, ha!

OTHELLO.
Então, então, então, então. Eles riem, isso vence.

IAGO.
Fé, dizem que você se casará com ela.

CÁSSIO.
Por favor, diga a verdade.

IAGO.
Eu sou um vilão muito diferente.

OTELO.
Você já me avaliou? Bem.

CÁSSIO.
Isso é culpa da própria macaca. Ela está convencida de que eu me casarei com ela, por amor e bajulação, não por minha promessa.

OTELO.
Iago me faz um gesto. Agora ele começa a história.

CÁSSIO.
Ela estava aqui agora mesmo. Ela me assombra em todos os lugares. Outro dia eu estava conversando na beira do mar com alguns venezianos, e eis que surge a bugiganga, e assim cai em volta do meu pescoço.

OTELO.
Exclamando, “Ó querido Cássio!”, por assim dizer: seu gesto transmite isso.

CÁSSIO.
Assim fica pendurado, e se deita, e chora sobre mim; assim me sustenta e me puxa. Ha, ha, ha!

OTELO.
Agora ele conta como ela o arrastou para o meu quarto. Oh, eu vejo esse seu nariz, mas não aquele cachorro para quem eu o jogarei.

CÁSSIO.
Bem, preciso me despedir dela.

IAGO.
Diante de mim! Veja por onde ela vem.

Entra Bianca .

CÁSSIO.
É mais um daqueles papos fedorentos! Ora, um papo perfumado.
O que você quer dizer com essa sua obsessão por mim?

BIANCA.
Que o diabo e sua mãe te assombrem! O que você quis dizer com aquele mesmo lenço que me deu agora? Fui uma tola em aceitá-lo. Devo tirar o bordado? Um bordado tão bom que você o encontraria no seu quarto sem saber quem o deixou lá! Isso é uma lembrancinha de alguma vadia, e eu devo tirar o bordado? Pronto, dê para o seu cavalinho de pau. Onde quer que você o tenha guardado, não vou tirar nenhum bordado dele.

CÁSSIO.
Como vai, minha doce Bianca? Como vai, como vai?

OTELO.
Pelos céus, esse lenço deveria ser meu!

BIANCA.
Se você vier jantar hoje à noite, fique à vontade. Se não vier, venha quando estiver preparada.

Saída. ]

IAGO.
Atrás dela, atrás dela.

CÁSSIO.
Fé, eu preciso ter; senão ela vai reclamar na rua.

IAGO.
Você vai jantar lá?

CÁSSIO.
Fé, é essa a minha intenção.

IAGO.
Bem, talvez eu tenha a oportunidade de vê-lo, pois gostaria muito de conversar com você.

CÁSSIO.
Venha, por favor.

IAGO.
Vá para; não precisa dizer mais nada.

Sai Cassio . ]

OTELO.
Avançando. ] Como devo assassiná-lo, Iago?

IAGO.
Você percebeu como ele riu do seu vício?

OTELO.
Ó Iago!

IAGO.
E você viu o lenço?

OTELO.
Era meu?

IAGO.
Teu, por esta mão: e veja como ele valoriza a mulher tola, tua esposa! Ela lhe deu, e ele deu à sua prostituta.

OTHELLO.
Eu o mataria por nove anos. Uma mulher elegante, uma mulher bela, uma mulher doce!

IAGO.
Não, você deve esquecer isso.

OTELO.
Sim, que ela apodreça, pereça e seja amaldiçoada esta noite, pois não viverá. Não, meu coração se transformou em pedra; eu o golpeio e dói na minha mão. Oh, o mundo não tem criatura mais doce. Ela poderia deitar-se ao lado de um imperador e dar-lhe ordens.

IAGO.
Não, esse não é o seu jeito.

OTELO.
Enforquem-na, eu digo, mas só para dizer o que ela é. Tão delicada com a agulha, uma musicista admirável! Oh, ela cantará a ferocidade de um urso! De tão elevada e abundante inteligência e invenção!

IAGO.
Ela está pior por causa de tudo isso.

OTELO.
Oh, mil, mil vezes: e ainda por cima em tão tenra condição!

IAGO.
Ah, muito suave.

OTELO.
Não, isso é certo. Mas que pena, Iago! Ó Iago, que pena, Iago!

IAGO.
Se você gosta tanto da iniquidade dela, dê a ela carta branca para ofender, pois se não te afeta, não afeta ninguém.

OTHELLO.
Vou picá-la em pedaços. Me traia!

IAGO.
Oh, é repugnante nela.

OTHELLO.
Com meu oficial!

IAGO.
Isso é pior.

OTELO.
Traga-me veneno, Iago; esta noite. Não discutirei com ela, para que seu corpo e beleza não me desestabilizem novamente. Esta noite, Iago.

IAGO.
Não faça isso com veneno, estrangule-a em sua cama, a cama que ela contaminou.

OTELO.
Bom, bom. A justiça disso agrada. Muito bom.

IAGO.
E quanto a Cássio, que eu seja seu coveiro. Vocês ouvirão mais até a meia-noite.

OTHELLO.
Excelente. [ Uma trombeta toca. ] Que trombeta é essa?

Entram Lodovico, Desdêmona e um acompanhante.

IAGO.
Algo de Veneza, com certeza. É Lodovico.
Veio do duque. Veja, sua esposa está com ele.

LODOVICO.
Salve-te, estimado general!

OTELO.
De todo o meu coração, senhor.

LODOVICO.
O duque e os senadores de Veneza saúdam-te.

Entrega-lhe um pacote. ]

OTELO.
Eu beijo o instrumento dos seus prazeres.

Abre o pacote e lê. ]

DESDÊMONA.
E quais são as novidades, meu bom primo Lodovico?

IAGO.
É um prazer vê-lo, senhor.
Bem-vindo ao Chipre.

LODOVICO.
Agradeço. Como vai o Tenente Cassio?

IAGO.
Vidas, senhor.

DESDÊMONA.
Prima, houve
uma ruptura desagradável entre ele e meu senhor, mas você resolverá tudo.

OTELO.
Tem certeza disso?

DESDÊMONA.
Meu senhor?

OTELO.
Lê. ] “Não deixe de fazer isso, como você fará—”

LODOVICO.
Ele não ligou; está ocupado com o jornal.
Há alguma desavença entre meu senhor e Cássio?

DESDÊMONA.
Uma infeliz. Eu faria muito
para expiar meus pecados, pelo amor que sinto por Cássio.

OTELO.
Fogo e enxofre!

DESDÊMONA.
Meu senhor?

OTELO.
Você é sábio?

DESDÊMONA.
O quê, ele está zangado?

LODOVICO.
Talvez a carta o tenha comovido;
pois, como eu penso, eles o mandam para casa,
nomeando Cássio para o seu governo.

DESDÊMONA.
Acredite em mim, estou feliz por isso.

OTELO.
De fato!

DESDÊMONA.
Meu senhor?

OTELO.
Fico feliz em ver você bravo.

DESDÊMONA.
Por que, meu doce Otelo?

OTELO.
Diabo!

Atacando-a. ]

DESDÊMONA.
Eu não mereci isso.

LODOVICO.
Meu senhor, isso não seria acreditado em Veneza,
mesmo que eu jurasse que vi: é muita coisa.
Faça as pazes com ela. Ela chora.

OTELO.
Ó diabo, diabo!
Se a terra pudesse se encher de lágrimas de mulher,
cada gota que ela caísse seria um crocodilo.
Suma da minha vista!

DESDÊMONA.
Não ficarei para te ofender.

Indo. ]

LODOVICO.
Verdadeiramente, uma senhora obediente.
Imploro a Vossa Senhoria que a chame de volta.

OTELO.
Senhora!

DESDÊMONA.
Meu senhor?

OTELO.
O que o senhor faria com ela?

LODOVICO.
Quem, eu, meu senhor?

OTELO.
Ah, você queria que eu a fizesse mudar de ideia.
Senhor, ela pode mudar de ideia, e mudar de ideia, e continuar,
e mudar de ideia de novo. E ela pode chorar, senhor, chorar;
e ela é obediente, como o senhor diz, obediente,
muito obediente. Prossiga com suas lágrimas.
Quanto a isso, senhor,—Ó paixão tão bem representada!
Recebi ordens para voltar para casa.—Vá embora;
mandarei chamá-lo em breve.—Senhor, obedeço à ordem
e retornarei a Veneza.—Portanto, vá embora!

Desdêmona sai . ]

Cássio ficará com o meu lugar. E, senhor, esta noite,
peço-lhe que jantemos juntos.
O senhor é bem-vindo a Chipre. Cabras e macacos!

Saída. ]

LODOVICO.
É este o nobre mouro, a quem nosso senado pleno
considera suficiente em tudo? É esta a natureza
que a paixão não pôde abalar? Cuja virtude sólida
nem o tiro do acidente nem o dardo do acaso
puderam atingir de raspão?

IAGO.
Ele mudou muito.

LODOVICO.
Será que ele está são? Será que não é um tanto distraído?

IAGO.
Ele é o que é. Não posso proferir minha censura
sobre o que ele poderia ser. Se ele não for o que poderia ser,
eu daria tudo para que ele fosse!

LODOVICO.
O quê, bater na esposa dele?

IAGO.
Fé, não foi tão bom; mas eu gostaria de saber
que aquele derrame seria o pior!

LODOVICO.
Será que foi para seu benefício?
Ou será que as letras agiram sobre seu sangue,
e recriaram essa falha?

IAGO.
Ai, ai!
Não é honesto da minha parte falar
o que vi e soube. Vocês o observarão,
e seus próprios atos o denunciarão, de modo
que eu possa poupar minhas palavras: apenas sigam-no
e observem como ele continua.

LODOVICO.
Lamento ter sido enganado por ele.

Saem. ]

CENA II. Chipre. Um quarto no castelo.

Entram Otelo e Emília .

OTELO.
Então você não viu nada?

EMILIA.
Nunca ouvi falar, nem jamais suspeitei.

OTHELLO.
Sim, você já viu Cássio e ela juntos.

EMILIA.
Mas então eu não vi nenhum mal, e então eu ouvi
cada sílaba que aquela respiração formava entre eles.

OTELO.
O quê, eles nunca sussurraram?

EMILIA.
Nunca, meu senhor.

OTELO.
Nem te mandar embora?

EMILIA.
Nunca.

OTHELLO.
Buscar seu leque, suas luvas, sua máscara, e nada mais?

EMILIA.
Nunca, meu senhor.

OTELO.
Que estranho.

EMILIA.
Ousei, meu senhor, apostar que ela é honesta,
arriscando minha alma: se pensa o contrário,
afasta esse pensamento, pois lhe causa repulsa.
Se algum miserável lhe pôs isso na cabeça,
que o céu o castigue com a maldição da serpente,
pois se ela não for honesta, casta e fiel,
não haverá homem feliz. Até mesmo a mais pura de suas esposas
é impura como a calúnia.

OTELO.
Mande-a vir aqui. Vá.

Sai Emilia . ]

Ela diz o suficiente. Mas é uma simples prostituta
que não consegue dizer tanto. É uma puta astuta,
uma fechadura e chave de segredos perversos.
E mesmo assim, ela se ajoelha e reza. Eu a vi fazer isso.

Entram Desdêmona e Emília .

DESDÊMONA.
Meu senhor, qual é a sua vontade?

OTELO.
Por favor, Chuck, venha cá.

DESDÊMONA.
Qual é o seu prazer?

OTELO.
Deixe-me ver seus olhos.
Olhe no meu rosto.

DESDÊMONA.
Que fantasia horrível é essa?

OTELO.
Para Emília. ] Algumas das suas funções, senhora.
Deixe os procriadores em paz e feche a porta.
Tussa ou grite se alguém aparecer.
Seu mistério, seu mistério. Não, despache-se.

Sai Emilia . ]

DESDÊMONA.
De joelhos, o que significam suas palavras?
Entendo uma fúria em suas palavras,
mas não as palavras em si.

OTELO.
Ora, quem és tu?

DESDÊMONA.
Tua esposa, meu senhor, tua verdadeira e leal esposa.

OTELO.
Vamos, jure, amaldiçoe-se,
para que, sendo como um dos céus, os próprios demônios
não temam te agarrar. Portanto, seja duplamente amaldiçoado.
Jure que é honesto.

DESDÊMONA.
O Céu certamente o sabe.

OTELO.
Só Deus sabe que tu és tão falso quanto o inferno.

DESDÊMONA.
A quem, meu senhor? Com ​​quem? Em que sou infiel?

OTELO.
Ó Desdêmona, vá embora! Vá embora! Vá embora!

DESDÊMONA.
Ai, que dia triste, por que choras?
Sou eu o motivo destas lágrimas, meu senhor?
Se porventura suspeitas que meu pai seja
o instrumento deste teu retorno,
não me culpes. Se o perdeste,
eu também o perdi.

OTELO.
Se os céus tivessem
me provado com aflições, se tivessem feito chover
sobre minha cabeça nua toda sorte de feridas e vergonhas,
mergulhado-me na pobreza até os lábios,
me entregado ao cativeiro com minhas maiores esperanças,
eu teria encontrado em algum lugar da minha alma
uma gota de paciência. Mas, ai de mim, fazer de mim
uma figura estática para o tempo do desprezo,
para apontar seu dedo lento e imóvel...
Contudo, eu poderia suportar isso também, muito bem:
mas ali, onde acumulei meu coração,
onde devo viver ou não ter vida,
a fonte da qual minha corrente flui,
ou então seca, para ser descartada dali,
ou mantida como uma cisterna para sapos imundos
se aninharem e procriarem! — volte para lá o teu semblante,
Paciência, tu, jovem querubim de lábios rosados,
sim, lá, mostre-te sombrio como o inferno!

DESDÊMONA.
Espero que meu nobre senhor me considere honesta.

OTELO.
Oh, sim, como moscas de verão nos matagais,
que se agitam até com o sopro. Ó tu, erva daninha,
que és tão bela e perfumas tão docemente,
que os sentidos anseiam por ti,
quem dera nunca tivesses nascido!

DESDÊMONA.
Ai de mim, que pecado de ignorância cometi?

OTELO.
Este belo papel, este livro tão nobre,
foi feito para escrever "prostituta" nele? Que ato foi cometido?
Cometido! Ó tu, plebeia!
Eu faria das minhas faces verdadeiras forjas,
que reduziriam a cinzas a modéstia,
se eu apenas contasse os teus atos. Que ato foi cometido!
O céu tapa o nariz para isso, e a lua pisca;
o vento lascivo, que beija tudo o que encontra,
está silenciado dentro da mina oca da terra,
e não o ouvirá. Que ato foi cometido!
Prostituta insolente!

DESDÊMONA.
Pelos céus, você me faz mal.

OTELO.
Você não é uma prostituta?

DESDÊMONA.
Não, pois sou cristã:
se preservar este vaso para meu senhor
de qualquer outro toque impuro e ilícito
não significa ser uma prostituta, então não o sou.

OTELO.
O quê, não uma prostituta?

DESDÊMONA.
Não, pois serei salva.

OTHELLO.
Não é possível?

DESDÊMONA.
Ó, céus, perdoem-nos!

OTELO.
Imploro-te, então, misericórdia.
Tomei-te por aquela astuta prostituta de Veneza
que casou com Otelo.—Tu, senhora,

Entra Emília .

Que ocupam o cargo em frente a São Pedro
e guardam a porta do inferno. Vocês, vocês, sim, vocês!
Cumprimos nossa missão; há recompensa pelos seus esforços.
Rogo-lhes que girem a chave e guardem nosso conselho.

Saída. ]

EMILIA.
Ai, o que será que este cavalheiro concebe?
Como vai, senhora? Como vai, minha boa senhora?

DESDÊMONA.
Fé, meio adormecida.

EMILIA.
Boa senhora, o que houve com meu senhor?

DESDÊMONA.
Com quem?

EMILIA.
Ora, com meu senhor, senhora.

DESDÊMONA.
Quem é o teu senhor?

EMILIA.
Ele é seu, minha doce senhora.

DESDÊMONA.
Não tenho nenhuma. Não fale comigo, Emília,
não posso chorar, nem tenho resposta,
senão o que deve ir pela água. Por favor, esta noite,
coloque em minha cama meus lençóis de casamento, lembre-se,
e chame seu marido aqui.

EMILIA.
Eis uma mudança, sem dúvida!

Saída. ]

DESDÊMONA.
É apropriado que eu seja usada assim, muito apropriado.
Como me comportei, para que ele pudesse ter
a menor opinião sobre o mínimo mau uso que fiz de mim?

Entram Iago e Emília .

IAGO.
Qual é o seu desejo, senhora? Como vai a senhora?

DESDÊMONA.
Não sei dizer. Aqueles que ensinam crianças pequenas
o fazem com delicadeza e tarefas fáceis.
Ele pode ter me repreendido assim, pois, de boa fé,
sou uma criança que aceita repreensões.

IAGO.
Qual é o problema, senhora?

EMILIA.
Ai de mim, Iago, meu senhor a prostituiu de tal maneira,
impôs-lhe tamanha afronta e condições tão severas
que os corações verdadeiros não podem suportar.

DESDÊMONA.
Sou eu esse o nome, Iago?

IAGO.
Qual o seu nome, bela dama?

DESDÊMONA.
Tal como ela diz que meu senhor disse que eu era.

EMILIA.
Ele a chamou de prostituta: uma mendiga bêbada.
Não poderia ter usado tais termos com sua namorada.

IAGO.
Por que ele fez isso?

DESDÊMONA.
Não sei. Tenho certeza de que não sou nada disso.

IAGO.
Não chore, não chore: ai do dia!

EMILIA.
Acaso ela abandonou tantos casamentos nobres,
seu pai, sua pátria e seus amigos,
para ser chamada de prostituta? Não seria de se chorar?

DESDÊMONA.
É a minha infeliz sorte.

IAGO.
Maldito seja ele por isso!
Como é que lhe sobreveio essa artimanha?

DESDÊMONA.
Não, só Deus sabe.

EMILIA.
Serei enforcada, se algum vilão eterno,
algum patife intrometido e insinuante,
algum escravo ardiloso e enganador, para conseguir algum cargo,
não tiver arquitetado esta calúnia. Senão, serei enforcada.

IAGO.
Ora, tal homem não existe. É impossível.

DESDÊMONA.
Se assim existir, que Deus o perdoe!

EMILIA.
Que o perdoem por uma corda, e que o inferno lhe roa os ossos!
Por que ele a chamaria de prostituta? Quem lhe faz companhia?
Em que lugar? Em que hora? De que maneira? Que probabilidade?
O Mouro é abusado por algum patife vil,
algum patife notório e desprezível, algum sujeito desprezível.
Ó céus, que tais companheiros tu reveles,
e coloques em cada mão honesta um chicote
para açoitar os canalhas nus pelo mundo,
de leste a oeste!

IAGO.
Fale dentro da porta.

EMILIA.
Oh, que vergonha! Que tipo de fidalgo era
esse que te fez perder a cabeça
e te levou a suspeitar de mim e do Mouro.

IAGO.
Você é um tolo. Vá para.

DESDÊMONA.
Ai de mim, Iago,
o que farei para reconquistar meu senhor?
Meu bom amigo, vá até ele. Pois, sob esta luz celestial,
não sei como o perdi. Aqui me ajoelho.
Se alguma vez minha vontade transgrediu seu amor,
seja em palavras, pensamentos ou ações concretas,
ou se meus olhos, meus ouvidos ou qualquer outro sentido
o encantaram de outra forma,
ou se eu ainda não o amo, e nunca o amei,
e nunca o amarei (mesmo que ele me rejeite
com um divórcio miserável),
que o conforto me perdoe! A crueldade pode fazer muito;
e sua crueldade pode destruir minha vida,
mas jamais maculará meu amor. Não posso dizer "prostituta",
pois me repugna agora que pronuncio a palavra;
cometer o ato que poderia
me render algum benefício não seria possível em toda a vaidade do mundo.

IAGO.
Eu te imploro, contenta-te. É apenas o seu humor.
Os assuntos de Estado o ofendem,
e ele te repreende.

DESDÊMONA.
Se não houvesse outro, -

IAGO.
É exatamente isso, eu garanto.

Som de trombetas. ]

Escutem como estes instrumentos chamam para o jantar.
Os mensageiros de Veneza retêm a carne.
Entrem e não chorem. Tudo ficará bem.

Saem Desdêmona e Emília . ]

Entra Rodrigo .

E aí, Rodrigo?

RODERIGO.
Não acho que estejas agindo com justiça para comigo.

IAGO.
E o contrário?

RODERIGO.
Todos os dias me enganas com algum artifício, Iago, e, como me parece agora, privas-me de toda comodidade em vez de me ofereceres a mínima esperança. Não suportarei mais isso. Nem estou convencido de que aceitarei em paz o que já tolamente sofri.

IAGO.
Você vai me ouvir, Rodrigo?

RODERIGO.
Fé, já ouvi demais, pois suas palavras e suas ações não combinam.

IAGO.
Você me acusa de forma totalmente injusta.

RODERIGO.
Com nada além da verdade. Gastei tudo o que tinha. As joias que me deste para entregar a Desdêmona seriam suficientes para corromper até mesmo um devoto: disseste-me que ela as recebeu e me trouxe expectativas e confortos de um súbito respeito e amizade, mas não encontro nada disso.

IAGO.
Bem, vá em frente, muito bem.

RODERIGO.
Muito bem, vá, eu não posso ir, homem, nem é muito bom. Aliás, eu digo que é muito escorbuto, e começo a me sentir afetado por isso.

IAGO.
Muito bem.

RODERIGO.
Digo-te que não é nada bom. Vou me apresentar a Desdêmona. Se ela me devolver as joias, desistirei do meu pedido e me arrependerei da minha solicitação ilícita. Caso contrário, tenha certeza de que buscarei satisfação junto a ti.

IAGO.
Você já disse isso.

RODERIGO.
Sim, e não disse nada além daquilo que eu protestava que pretendia fazer.

IAGO.
Ora, agora vejo que tens fibra, e a partir deste instante formo uma opinião ainda melhor de ti do que antes. Dá-me a tua mão, Rodrigo. Levantaste contra mim uma objeção muito justa, mas ainda assim protesto, agi com a maior franqueza no teu caso.

RODERIGO.
Não apareceu.

IAGO.
Admito que, de fato, isso não transpareceu, e sua suspeita não é desprovida de inteligência e discernimento. Mas, Rodrigo, se de fato tens em ti aquilo que agora tenho mais razões para crer do que nunca — refiro-me a propósito, coragem e valor —, demonstra-o esta noite. Se na noite seguinte não desfrutares da companhia de Desdêmona, tira-me deste mundo com traição e trama contra mim.

RODERIGO.
Bem, o que é isso? Está dentro da razoabilidade e dos limites?

IAGO.
Senhor, chegou uma comissão especial de Veneza para indicar Cássio para o lugar de Otelo.

RODERIGO.
É verdade? Por que então Otelo e Desdêmona retornam a Veneza?

IAGO.
Oh, não; ele vai para a Mauritânia e leva consigo a bela Desdêmona, a menos que sua estadia seja prolongada aqui por algum acidente: e nenhum acidente pode ser tão determinante quanto a partida de Cássio.

RODERIGO.
O que você quer dizer com "removê-lo"?

IAGO.
Por que? Tornando-o incapaz de ocupar o lugar de Otelo: esmagando seu cérebro.

RODERIGO.
E é isso que você quer que eu faça?

IAGO.
Sim, se você se atrever, faça-se um favor e aproveite a situação. Ele janta esta noite com uma prostituta, e é para lá que irei. Ele ainda não sabe de sua honrosa sorte. Se você observar sua partida, que farei acontecer entre meia-noite e uma da manhã, poderá capturá-lo quando quiser: estarei por perto para reforçar sua investida, e ele cairá entre nós. Venha, não se surpreenda, mas venha comigo. Mostrarei a você uma necessidade tão grande em sua morte que você se sentirá obrigado a impô-la a ele. Já é alta hora do jantar, e a noite está chegando ao fim. Sobre isso.

RODERIGO.
Vou ouvir mais explicações sobre isso.

IAGO.
E você ficará satisfeito.

Saem. ]

CENA III. Chipre. Outro quarto no castelo.

Entram Otelo, Lodovico, Desdêmona, Emília e seus acompanhantes.

LODOVICO.
Eu imploro, senhor, que não se incomode mais.

OTELO.
Oh, com licença; me fará bem caminhar.

LODOVICO.
Senhora, boa noite. Agradeço humildemente a Vossa Senhoria.

DESDÊMONA.
Vossa Excelência é muito bem-vinda.

OTELO.
O senhor vai caminhar? —
Oh, Desdêmona, —

DESDÊMONA.
Meu senhor?

OTELO.
Leve-se para a cama imediatamente, voltarei em breve. Dispense seu criado. Veja se está tudo pronto.

DESDÊMONA.
Sim, meu senhor.

Saem Otelo, Lodovico e Atendentes. ]

EMILIA.
Como vai agora? Ele parece mais gentil do que antes.

DESDÊMONA.
Ele diz que voltará incontinente,
ordenou-me que fosse para a cama
e mandou-me dispensar você.

EMILIA.
Dispensar-me?

DESDÊMONA.
Foi uma ordem dele. Portanto, boa Emília,
devolva-me minhas vestes noturnas e adeus.
Não devemos agora desagradá-lo.

EMILIA.
Eu gostaria que você nunca o tivesse visto!

DESDÊMONA.
Eu também não gostaria. Meu amor o aprova de tal forma
que até mesmo sua teimosia, suas hesitações, suas carrancas —
por favor, me desvencilhe — têm graça e favor.

EMILIA.
Já estendi os lençóis que você me pediu na cama.

DESDÊMONA.
Tudo é um. Meu Deus, como somos tolos!
Se eu morrer diante de ti, por favor, envolve-me
num desses mesmos lençóis.

EMILIA.
Vamos, vamos, fale você.

DESDÊMONA.
Minha mãe tinha uma criada chamada Barbary,
Ela estava apaixonada, e aquele que ela amava enlouqueceu
E a abandonou. Ela tinha uma canção de “salgueiro”,
Uma canção antiga, mas que expressava sua sorte,
E ela morreu cantando-a. Essa canção esta noite
Não sairá da minha cabeça. Tenho muito o que fazer
A não ser abaixar a cabeça para um lado
E cantá-la como a pobre Barbary. Por favor, desça logo.

EMILIA.
Devo ir buscar sua camisola?

DESDÊMONA.
Não, me desprenda aqui.
Esse Lodovico é um homem de verdade.

EMILIA.
Um homem muito bonito.

DESDÊMONA.
Ele fala bem.

EMILIA.
Eu sei que uma dama em Veneza teria caminhado descalça até a Palestina só para tocar em seus lábios inferiores.

DESDÊMONA.
Cantando. ]
A pobre alma sentava-se suspirando junto a um sicômoro,
Canta, toda salgueira verde.
Sua mão no peito, sua cabeça no joelho,
Canta, salgueiro, salgueiro, salgueiro.
Os riachos frescos corriam por ela e murmuravam seus lamentos,
Canta, salgueiro, salgueiro, salgueiro;
Suas lágrimas salgadas caíam dela e amoleciam as pedras;—

Guarde estes itens:—

Canta. ]
Cante salgueiro, salgueiro, salgueiro.

Por favor, vá logo. Ele virá em breve.

Canta. ]
Cantem todos, um salgueiro verde deve ser minha guirlanda.
Que ninguém o culpe, seu desprezo eu aprovo,—

Não, esse não é o próximo passo. Ouça! Quem está batendo?

EMILIA.
É o vento.

DESDÊMONA.
Canta. ]
Chamei meu amor de falso amor; mas o que ele disse então?
Canta, salgueiro, salgueiro, salgueiro:
Se eu cortejar mais mulheres, você se deitará com mais homens.

Então vá embora; boa noite. Meus olhos estão coçando;
será que isso significa que vou chorar?

EMILIA.
Não é nem uma coisa nem outra.

DESDÊMONA.
Já ouvi dizer isso. Oh, esses homens, esses homens!
Você, em sã consciência, pensa — diga-me, Emília —
que existam mulheres que maltratam seus maridos
de maneira tão grosseira?

EMILIA.
Haverá algumas assim, sem dúvida.

DESDÊMONA.
Farias tal coisa por todo o mundo?

EMILIA.
Por que não faria isso?

DESDÊMONA.
Não, por esta luz celestial!

EMILIA.
Nem eu, nem mesmo sob esta luz celestial,
eu poderia fazer tão bem na escuridão.

DESDÊMONA.
Farias tal coisa por todo o mundo?

EMILIA.
O mundo é imenso. É um ótimo preço
para um pequeno vício.

DESDÊMONA.
Sinceramente, acho que não farias isso.

EMILIA.
Sinceramente, acho que sim, e desfaria tudo depois. Ora, eu não faria tal coisa nem por um anel de noivado, nem por um pedaço de linho, nem por vestidos, anáguas, nem chapéus, nem por qualquer exibição insignificante; mas, pelo mundo inteiro... ora, quem não faria do marido um corno para torná-lo um monarca? Eu arriscaria o purgatório por isso.

DESDÊMONA.
Ai de mim se eu cometer tal injustiça contra o mundo inteiro.

EMILIA.
Ora, o erro não passa de um erro no mundo; e tendo o mundo como seu trabalho, é um erro em seu próprio mundo, e você poderia corrigi-lo rapidamente.

DESDÊMONA.
Não creio que exista tal mulher.

EMILIA.
Sim, uma dúzia; e tantas outras, tão privilegiadas quanto poderiam armazenar o mundo inteiro pelo qual brincavam.
Mas eu acho que a culpa é dos maridos
se as esposas caem: dizem que eles negligenciam seus deveres
e derramam nossos tesouros em colos alheios;
ou então explodem em ciúmes irritadiços,
impondo-nos restrições. Ou dizem que nos batem,
ou nos privam do que tínhamos antes, por despeito.
Ora, nós também temos ressentimentos; e embora tenhamos alguma graça,
também temos alguma vingança. Que os maridos saibam
que suas esposas têm a mesma sensibilidade que eles: elas veem, cheiram
e têm paladar tanto para o doce quanto para o azedo,
como os maridos. O que elas fazem
quando nos trocam por outras? É por diversão?
Acho que sim. E o afeto gera isso?
Acho que sim. É a fragilidade que erra assim?
Também é. E nós não temos afeições,
desejos por diversão e fragilidade, como os homens?
Que nos usem bem, então; caso contrário, que saibam que
os males que praticamos, os males deles nos ensinam.

DESDÊMONA.
Boa noite, boa noite. Que o céu me envie esse uso,
não para escolher o ruim do ruim, mas para consertar o ruim!

Saem. ]

ATO V

CENA I. Chipre. Uma rua.

Entram Iago e Rodrigo .

IAGO.
Aqui, fique atrás deste volume. Ele virá direto.
Empunhe sua boa espada e a crave.
Rápido, rápido, não tema nada; estarei ao seu lado.
Isso nos fortalece ou nos destrói, pense nisso,
e firme sua resolução.

RODERIGO.
Esteja por perto, posso ter um aborto espontâneo.

IAGO.
Aqui, à tua mão. Sê ousado e toma posição.

Recua um pouco. ]

RODERIGO.
Não tenho grande apreço pelo feito;
e, no entanto, ele me deu razões convincentes.
É apenas um homem que se foi. Empunha minha espada; ele morre.

Vai para a sua banca. ]

IAGO.
Eu esfreguei esse jovem quase até ele perder os sentidos,
e ele está ficando furioso. Agora, quer ele mate Cássio,
quer Cássio o mate, quer cada um mate o outro,
de qualquer forma eu ganho. Viva Rodrigo!
Ele me cobra uma grande restituição
de ouro e joias que eu lhe tirei,
como presentes para Desdêmona.
Não pode ser. Se Cássio ficar,
ele tem uma beleza diária em sua vida
que me torna feio. E além disso, o Mouro
pode me desmascarar; aí eu corro muito perigo.
Não, ele tem que morrer. Mas, de fato, eu o ouço chegando.

Entra Cassio .

RODERIGO.
Conheço seu jeito de andar; é ele mesmo. Vilão, você vai morrer!

Sai correndo e tenta um ataque a Cássio. ]

CÁSSIO.
Aquele golpe fora de meu inimigo, de fato,
mas meu casaco é melhor do que você imagina.
Eu provarei o seu.

Saca e fere Rodrigo. ]

RODERIGO.
Oh, estou morto!

Iago sai correndo de seu posto, corta a perna de Cássio pelas costas e sai. ]

CÁSSIO.
Estou mutilado para sempre. Socorro! Assassinato, assassinato!

Cachoeiras. ]

Aí entra Otelo .

OTELO.
A voz de Cássio. Iago cumpre sua palavra.

RODERIGO.
Ó, vilão que eu sou!

OTELO.
É exatamente assim.

CÁSSIO.
Oh, socorro! Luz! Um cirurgião!

OTELO.
É ele. Ó bravo Iago, honesto e justo,
que tens tão nobre senso da injustiça cometida contra teu amigo!
Tu me ensinas — servo, teu amado jaz morto,
e teu destino infeliz te leva. Prostituta, eu venho!
Do meu coração se apagaram esses encantos, teus olhos;
teu leito, manchado de luxúria, será salpicado com sangue de luxúria.

Saída. ]

Entram Lodovico e Gratiano .

CÁSSIO.
O quê?! Sem vigia? Sem passagem? Assassinato, assassinato!

GRATIANO.
É uma grande infelicidade; o grito é terrível.

CÁSSIO.
Oh, socorro!

LODOVICO.
Ouça!

RODERIGO.
Ó vilão miserável!

LODOVICO.
Dois ou três gemidos. É uma noite pesada.
Podem ser falsificações. Melhor não
entrar no local do choro sem mais ajuda.

RODERIGO.
Ninguém vem? Então devo sangrar até morrer?

Iago entra com uma luz.

LODOVICO.
Ouça!

GRATIANO.
Aqui está um que vem com a camisa, com luz e armas.

IAGO.
Quem está aí? De quem é esse barulho que clama por assassinato?

LODOVICO.
Não sabemos.

IAGO.
Você não ouviu um grito?

CÁSSIO.
Aqui, aqui! Pelo amor de Deus, me ajude!

IAGO.
Qual é o problema?

GRATIANO.
Este é o antigo de Otelo, pelo que entendi.

LODOVICO.
O mesmo, um sujeito muito valente.

IAGO.
O que você está fazendo aqui, chorando tão dolorosamente?

CÁSSIO.
Iago? Oh, estou arruinado, destruído por vilões!
Ajude-me.

IAGO.
Oh, tenente! Que vilões fizeram isso?

CÁSSIO.
Acho que um deles está por aqui
e não consegue escapar.

IAGO.
Ó vilões traiçoeiros!
Para Lodovico e Gratiano. ] O que vocês estão fazendo aí?
Entrem e ajudem-nos.

RODERIGO.
Oh, me ajude aqui!

CÁSSIO.
Esse é um deles.

IAGO.
Ó escravo assassino! Ó vilão!

Apunhala Rodrigo. ]

RODERIGO.
Ó maldito Iago! Ó cão desumano!

IAGO.
Matem homens na escuridão! Onde estão esses ladrões sanguinários?
Como é silenciosa esta cidade! Ei! Assassinato! Assassinato!
O que vocês são? São do bem ou do mal?

LODOVICO.
Conforme nos comprovarem, louvem-nos.

IAGO.
Senhor Lodovico?

LODOVICO.
Ele, senhor.

IAGO.
Imploro por misericórdia. Aqui está Cássio ferido por vilões.

GRATIANO.
Cássio!

IAGO.
Como vai, irmão?

CÁSSIO.
Minha perna está cortada ao meio.

IAGO.
Ora, Deus me livre!
Atenção, senhores, eu amarro com a minha camisa.

Entra Bianca .

BIANCA.
Qual é o problema, hein? Quem é que chorou?

IAGO.
Quem não chorou?

BIANCA.
Ó meu querido Cássio, meu doce Cássio! Ó Cássio, Cássio, Cássio!

IAGO.
Ó notável meretriz! Cássio, que você possa suspeitar
de quem foram os que a mutilaram assim?

CÁSSIO.
Não.

GRATIANO.
Lamento encontrá-lo assim; eu estava à sua procura.

IAGO.
Empresta-me uma liga. Então... Oh, se eu tivesse uma cadeira,
para carregá-lo facilmente daqui!

BIANCA.
Ai, ele desmaiou! Ó Cássio, Cássio, Cássio!

IAGO.
Senhores, suspeito que essa escória
esteja envolvida nessa injustiça.
Tenha um pouco de paciência, bom Cássio. Venha, venha;
empreste-me uma luz. Reconhecemos este rosto, não é?
Ai, meu amigo e meu querido compatriota
Rodrigo? Não. Sim, claro; ó céus! Rodrigo.

GRATIANO.
O quê, de Veneza?

IAGO.
Até ele, senhor. O senhor o conhecia?

GRATIANO.
Conhece ele? Sim.

IAGO.
Senhor Gratiano? Peço-lhe gentilmente perdão.
Estes acidentes sangrentos devem desculpar meus modos,
que tanto o desrespeitaram.

GRATIANO.
Fico feliz em te ver.

IAGO.
Como vai, Cássio? Oh, uma cadeira, uma cadeira!

GRATIANO.
Rodrigo!

IAGO.
Ele, ele, é ele.

Uma cadeira foi trazida. ]

Oh, isso foi bem dito; a cadeira.
Que algum homem de bom coração o leve daqui com cuidado,
eu chamarei o cirurgião-geral. [ Para Bianca ] Para você, senhora,
poupe seu trabalho. Aquele que jaz morto aqui, Cássio,
era meu querido amigo. Que maldade havia entre vocês?

CÁSSIO.
Ninguém no mundo. Nem eu conheço esse homem.

IAGO.
Para Bianca. ] O quê, está pálida? — Oh, leve-o para fora do ar.

Cássio e Rodrigo são levados embora. ]

Fiquem quietos, meus senhores. — Está pálida, senhora?
Percebe a feiura em seu olhar?
Não, se olharem fixamente, ouviremos mais em breve.
Observem-na bem. Rogo-lhes que a contemplem.
Estão vendo, senhores? Não, a culpa falará,
mesmo que as línguas não pudessem ser usadas.

Entra Emília .

EMILIA.
'Las, o que houve? O que houve, marido?

IAGO.
Cássio foi atacado na escuridão
por Rodrigo e seus companheiros.
Ele está quase morto, e Rodrigo também.

EMILIA.
Ai, meu bom cavalheiro! Ai, meu bom Cássio!

IAGO.
Este é o fruto da prostituição. Por favor, Emília,
vá saber de Cássio onde ele jantou esta noite.
O quê, você está tremendo com isso?

BIANCA.
Ele jantou na minha casa, mas por isso não tremo.

IAGO.
Ah, é mesmo? Eu te convido a vir comigo.

EMÍLIA.
Que vergonha, que vergonha para você, prostituta!

BIANCA.
Não sou uma prostituta, mas sim uma pessoa honesta
como você, que me maltrata dessa forma.

EMILIA.
Como eu? Ora! Que vergonha!

IAGO.
Senhores, vamos ver o pobre Cássio vestido.
Venha, senhora, você precisa contar outra história.
Emília, corra até a cidadela
e conte ao meu senhor e senhora o que aconteceu.
Vocês irão na frente? [ À parte. ] Esta é a noite
que ou me consagra ou me destrói por completo.

Saem. ]

CENA II. Chipre. Um quarto no castelo.

Desdêmona dormindo na cama; uma luz acesa.

Aí entra Otelo .

OTELO.
É a causa, é a causa, minha alma,
que eu não a revele a vocês, estrelas castas!
É a causa. Contudo, não derramarei seu sangue,
nem marcarei sua pele mais branca que a neve,
e lisa como alabastro monumental.
Mas ela deve morrer, senão trairá mais homens.
Apague a luz, e então apague a luz:
se eu te extinguir, ó ministro flamejante,
poderei restaurar tua antiga luz,
caso eu me arrependa. Mas uma vez extinta tua luz,
ó modelo astuto da natureza suprema,
não sei onde está o calor prometeico
que pode reacender tua luz. Quando eu colher tua rosa,
não poderei lhe dar vida novamente,
ela inevitavelmente murchará. Sentirei seu perfume na árvore.

Beijando-a. ]

Ó, hálito balsâmico, que quase persuades
a Justiça a quebrar sua espada! Mais uma, mais uma.
Sê assim quando morreres, e eu te matarei,
e te amarei depois. Mais uma, e esta será a última.
Tão doce jamais foi tão fatal. Devo chorar,
mas são lágrimas cruéis. Esta dor é celestial,
atinge onde ama. Ela desperta.

Desdêmona.
Quem está aí? Otelo?

OTELO.
Sim, Desdêmona.

DESDÊMONA.
Queres vir para a cama, meu senhor?

OTELO.
Você já rezou esta noite, Desdêmona?

DESDÊMONA.
Sim, meu senhor.

OTELO.
Se você se lembrar de algum crime
ainda não reconciliado com o céu e a graça,
peça perdão imediatamente.

DESDÊMONA.
Ai de mim, meu senhor, o que o senhor quer dizer com isso?

OTELO.
Bem, faça-o, e seja breve, eu passarei.
Eu não mataria teu espírito despreparado,
não, Deus me livre! Eu não mataria tua alma.

DESDÊMONA.
Você está falando em matar?

OTELO.
Sim, eu aceito.

DESDÊMONA.
Então que o céu tenha misericórdia de mim!

OTELO.
Amém, de todo o meu coração!

DESDÊMONA.
Se você diz isso, espero que não me mate.

OTELO.
Hum!

DESDÊMONA.
E ainda assim eu te temo, pois tu és fatal
quando teus olhos reviram assim: por que eu deveria te temer, eu não sei,
já que a culpa eu desconheço, mas ainda assim eu sinto que temo.

OTELO.
Reflita sobre seus pecados.

DESDÊMONA.
São amores que eu te dedico.

OTELO.
Sim, e por isso morrerás.

DESDÊMONA.
Essa morte é antinatural, essa que mata por amor.
Ai de mim, por que rói assim o teu lábio inferior?
Alguma paixão sangrenta estremece o teu próprio ser.
São presságios; mas ainda assim, espero, espero,
que não se refiram a mim.

OTHELLO.
Paz e silêncio!

DESDÊMONA. Sim,
eu farei isso. Qual é o problema?

OTELO.
Aquele lenço que eu tanto amei e te dei,
tu o deste a Cássio.

DESDÊMONA.
Não, pela minha vida e alma!
Mande chamar o homem e pergunte a ele.

OTELO.
Doce alma, cuidado, cuidado com o perjúrio,
pois estás em teu leito de morte.

DESDÊMONA.
Sim, mas ainda não para morrer.

OTELO.
Sim, agora mesmo:
Portanto, confesse livremente o seu pecado.
Pois negar cada artigo com juramento
não pode remover nem sufocar a forte convicção
com a qual gemo. Você vai morrer.

DESDÊMONA.
Então, Senhor, tenha misericórdia de mim!

OTELO.
Eu digo, amém.

DESDÊMONA.
E tenha misericórdia também! Nunca
a ofendi em minha vida, nunca amei Cássio
senão com a garantia geral do céu,
como se pudesse amar. Nunca lhe dei sinal algum.

OTELO.
Pelos céus, vi meu lenço na mão de [nome omitido].
Ó mulher perjura, tu apedrejas meu coração e me fazes chamar de assassinato
o que pretendo fazer , quando eu pensava ser um sacrifício. Vi o lenço.

DESDÊMONA.
Ele a encontrou então.
Eu nunca a dei a ele. Mandem chamá-lo aqui.
Que ele confesse a verdade.

OTELO.
Ele confessou.

DESDÊMONA.
O quê, meu senhor?

OTELO.
Que ele te usou.

DESDÊMONA.
Como? Ilegalmente?

OTELO.
Sim.

DESDÊMONA.
Ele não dirá isso.

OTELO.
Não, sua boca está tapada.
O honesto Iago tomou a ordem para isso.

DESDÊMONA.
Oh, meu medo interpreta! O quê, ele está morto?

OTELO.
Se todos os seus cabelos fossem vidas, minha grande vingança
teria estômago para todas elas.

DESDÊMONA.
Ai de mim, ele foi traído, e eu estou arruinada!

OTELO.
Fora, meretriz! Choras por ele na minha cara?

DESDÊMONA.
Ó, bane-me, meu senhor, mas não me mate!

OTELO.
Abaixe-se, prostituta!

DESDÊMONA.
Mate-me amanhã, deixe-me viver esta noite!

OTELO.
Não, se você se esforçar,—

DESDÊMONA.
Mas meia hora!

OTHELLO.
Terminado, não há pausa.

DESDÊMONA.
Mas enquanto eu faço uma oração!

OTELO.
É tarde demais.

Sufoca-a. ]

EMILIA.
Dentro. ] Meu senhor, meu senhor! O quê, ho! Meu senhor, meu senhor!

OTELO.
Que barulho é esse? Não está morto? Ainda não está completamente morto?
Eu, que sou cruel, sou misericordioso;
não quero que você se demore em sua dor.
Sim, sim.

EMILIA.
Dentro. ] Ora, ora! Meu senhor, meu senhor!

OTELO.
Quem está aí?

EMILIA.
Dentro. ] Ó, meu bom senhor, eu gostaria de falar algumas palavras com você!

OTELO.
Sim. É Emília, de repente. Ela está morta.
Parece que ela veio falar da morte de Cássio;
o alvoroço foi grande. — Ah! Não se mexe mais?
Imóvel como um túmulo. Será que ela vai entrar? Não seria bom?
Acho que ela se mexe de novo; não. O que fazer?
Se ela entrar, com certeza falará com a minha esposa.
Minha esposa! Minha esposa! Que esposa? Eu não tenho esposa.
Ó, insuportável! Ó, hora pesada!
Parece-me que agora deve ser um enorme eclipse
do sol e da lua, e que o globo assustado
deve se abrir diante da mudança.

EMILIA.
Dentro. ] Eu imploro
que me permita falar convosco, ó meu bom senhor!

OTELO.
Eu tinha me esquecido de ti: Oh, entra, Emília.
Silêncio, por um instante; deixe-me fechar as cortinas.
Onde estás?

Destranca a porta. ]

Entra Emília .

Qual é o seu problema agora?

EMILIA.
Oh, meu bom Deus, aqueles assassinatos hediondos foram cometidos!

OTELO.
O quê, agora?

EMILIA.
Mas agora, meu senhor.

OTELO.
É o próprio erro da lua,
ela se aproxima mais da Terra do que costumava
e enlouquece os homens.

EMILIA.
Cássio, meu senhor, matou um jovem veneziano
chamado Rodrigo.

OTHELLO.
Rodrigo foi morto?
E Cássio também?

EMILIA.
Não, Cássio não foi morto.

OTHELLO.
Não matar Cássio! Então o assassinato está fora de sintonia,
e a doce vingança se torna cruel.

DESDÊMONA.
Ó, falsamente, falsamente assassinado!

EMILIA.
Ai, que grito é esse?

OTELO.
Isso? O quê?

EMILIA.
Ai de mim! Era a voz da minha senhora.
Socorro! Socorro, ó! Socorro! Ó senhora, fale de novo,
doce Desdêmona! Ó doce senhora, fale!

DESDÊMONA.
Morro sem culpa.

EMILIA.
Oh, quem cometeu este ato?

DESDÊMONA.
Ninguém; eu mesma. Adeus.
Recomende-me ao meu bondoso senhor. Oh, adeus!

Ela morre. ]

OTHELLO.
Por que, como ela deveria ser assassinada?

EMILIA.
Infelizmente, quem sabe?

OTELO.
Você a ouviu dizer com as próprias palavras: não fui eu.

Emília.
Ela disse isso. Eu preciso relatar a verdade.

OTELO.
Ela é como uma mentirosa, foi para o inferno.
Fui eu quem a matou.

EMILIA.
Oh, quanto mais anjo ela,
e você, mais demônio!

OTELO.
Ela se entregou à loucura e se tornou uma prostituta.

Emília.
Tu a desmentes, e tu és um demônio.

OTELO.
Ela era falsa como a água.

EMILIA.
Tu és precipitado como o fogo, ao dizeres
que ela era falsa: Oh, ela era verdadeiramente celestial!

OTELO.
Cássio a dominou; pergunte ao seu marido o contrário.
Oh, eu estaria condenada nas profundezas do inferno,
se não fosse por justiça, por ter chegado
a este extremo. Seu marido sabia de tudo.

EMILIA.
Meu marido?

OTELO.
Teu marido.

EMILIA.
Que ela foi infiel ao casamento?

OTELO.
Sim, com Cássio. Não, se ela tivesse sido fiel,
se o céu me fizesse um outro mundo
, de um crisólito inteiro e perfeito,
eu não a teria vendido por isso.

EMILIA.
Meu marido?

OTELO.
Sim, foi ele quem me contou primeiro.
Ele é um homem honesto e detesta a sujeira
que se acumula sobre atos imundos.

EMILIA.
Meu marido?

OTELO.
Que necessidade tem desta repetição, mulher? Eu digo, teu marido.

EMILIA.
Ó senhora, a maldade zombou do amor!
Meu marido diz que ela foi infiel?

OTELO.
Ele, mulher;
eu digo teu marido: entendes a palavra?
Meu amigo, teu marido, honesto, honesto Iago.

EMILIA.
Se ele diz isso, que sua alma perniciosa
apodreça meio grão por dia! Ele mente para o coração.
Ela estava muito apegada ao seu pacto mais sujo.

OTELO.
Ha!

EMILIA.
Faça o pior que puder:
este seu ato não é mais digno do céu
do que você era digno dela.

OTHELLO.
Paz, você era o melhor.

EMILIA.
Tu não tens metade do poder que tenho para me ferir
. Ó tolo! Ó imbecil!
Tão ignorante quanto a sujeira! Tu cometes um ato
(não me importo com a tua espada) que te revelarei,
mesmo que eu tenha perdido vinte vidas. Socorro! Socorro, socorro! Socorro!
O Mouro matou minha senhora! Assassinato, assassinato!

Entram Montano, Gratiano e Iago .

MONTANO.
Qual é o problema? Como vai, general?

EMILIA.
Oh, você vem, Iago? Você se saiu bem,
para que os homens atribuam seus assassinatos a você.

GRATIANO.
Qual é o problema?

Emília.
Desminta esse vilão, se és homem.
Ele diz que lhe contaste que sua esposa era infiel.
Eu sei que não o fizeste, não és esse tipo de vilão.
Fala, pois meu coração está cheio.

IAGO.
Eu lhe disse o que pensava e não disse mais nada
além do que ele próprio considerou apropriado e verdadeiro.

EMILIA.
Mas você chegou a dizer a ele que ela era falsa?

IAGO.
Eu fiz.

Emília.
Você contou uma mentira, uma mentira odiosa e maldita;
pela minha alma, uma mentira; uma mentira perversa.
Ela foi infiel a Cássio? Você disse que foi com Cássio?

IAGO.
Com Cássio, senhora. Vá, encante sua língua.

EMILIA.
Não vou me conter; sou obrigada a falar.
Minha senhora jaz assassinada em sua cama.

TODOS.
Ó céus, nos livre!

EMILIA.
E suas reportagens desencadearam o assassinato.

OTELO.
Não, não olhem fixamente, mestres, é verdade mesmo.

GRACIANO.
'Esta é uma verdade estranha.

MONTANO.
Ó ato monstruoso!

EMILIA.
Vilania, vilania, vilania!
Penso nisso, sinto o cheiro; ó vilania!
Pensei nisso naquela época. Vou me matar de tristeza.
Ó vilania, vilania!

IAGO.
O quê, você está louco? Eu te cobro, te levo para casa.

EMILIA.
Bons senhores, permitam-me falar.
É correto que eu o obedeça, mas não agora.
Talvez, Iago, eu nunca mais volte para casa.

OTELO.
Ó! Ó! Ó!

Pendurado sobre sua esposa. ]

EMILIA.
Não, deite-se e grite;
pois você matou a mais doce inocente
que jamais ergueu os olhos.

OTELO.
Levantando-se. ] Oh, ela era repugnante!
Mal o conhecia, tio, e ali jaz sua sobrinha,
cujo fôlego, aliás, estas mãos acabaram de sufocar.
Sei que este ato é horrível e sinistro.

GRATIANO.
Pobre Desdêmona! Alegro-me que teu pai esteja morto.
Teu casamento era mortal para ele, e a pura dor
rompeu seu antigo laço: se ele vivesse agora,
esta visão o faria tomar um rumo desesperado,
sim, amaldiçoar seu anjo da guarda
e cair em desgraça.

OTELO.
É lamentável. Mas Iago sabe
que ela, com Cássio, cometeu mil vezes o ato vergonhoso
; Cássio confessou,
e ela satisfez suas investidas amorosas
com aquele reconhecimento e penhor de amor
que eu lhe dei primeiro; eu o vi em sua mão.
Era um lenço, uma lembrança antiga que
meu pai deu à minha mãe.

EMILIA.
Ó céus! Ó poderes celestiais!

IAGO.
Venha, fique em silêncio.

EMILIA.
'Twill out, 'twill out. Paz?
Não, falarei tão liberalmente quanto o norte.
Que o céu, os homens e os demônios, que todos,
todos, todos, gritem vergonha contra mim, mas eu falarei.

IAGO.
Seja sábio e chegue em casa.

EMILIA.
Eu não vou.

Iago se oferece para esfaquear sua esposa. ]

GRATIANO.
Ora!
Sua espada contra uma mulher?

EMILIA.
Ó tu, mouro insensível, esse lenço de que falas,
encontrei por acaso e dei ao meu marido;
pois muitas vezes, com uma solenidade fervorosa,
mais do que convinha a uma coisa tão insignificante,
ele me pedia que o roubasse.

IAGO.
Puta vilã!

EMILIA.
Ela deu para o Cássio! Não, infelizmente, eu encontrei,
e dei para o meu marido.

IAGO.
Imundo, tu mentes!

EMILIA.
Pelos céus, eu não, eu não, senhores.
Ó, patife assassino! O que um tolo desses
faria com uma esposa tão boa?

OTELO
Não há pedras no céu
que não sirvam de trovão? Precioso vilão!

Iago esfaqueia Emília e foge. ]

GRATIANO.
A mulher cai. Claro, ele matou a esposa.

EMÍLIA.
Sim, sim. Ó, coloque-me ao lado de minha amante.

GRATIANO.
Ele se foi, mas sua esposa foi morta.

MONTANO.
É um vilão notório. Pegue esta arma,
que recuperei do mouro.
Venha, guarde a porta lá fora, não o deixe passar,
mas mate-o. Vou atrás desse mesmo vilão,
pois é um escravo maldito.

Saem Montano e Gratiano . ]

OTHELLO.
Eu também não sou valente,
mas todo insignificante açoitador recebe minha espada.
Mas por que a honra deveria sobreviver à honestidade?
Que tudo se vá.

EMILIA.
O que pressagiava tua canção, senhora?
Escuta, podes me ouvir? Tocarei o cisne
e morrerei em música.
Canta. ] Salgueiro, salgueiro, salgueiro.
Mouro, ela era casta. Ela te amava, mouro cruel,
então que minha alma alcance a felicidade, enquanto falo a verdade;
falando como penso, eu morro, eu morro.

Ela morre. ]

OTELO.
Tenho outra arma nesta câmara,
é uma espada espanhola, temperada como um riacho de gelo.
Ah, aqui está. Tio, preciso ir.

GRATIANO.
Dentro. ] Se tentares, te custará caro;
não tens arma, e por força terás de sofrer.

OTELO.
Olha para mim, então, e fala comigo,
ou, nu como estou, eu te atacarei.

Entre Gratiano .

GRATIANO.
Qual é o problema?

OTELO.
Eis que tenho uma arma.
Melhor jamais se sustentou
na coxa de um soldado: vi o dia
em que, com este pequeno braço e esta boa espada,
superei mais obstáculos
do que vinte vezes o seu. Mas, ó vã vanglória!
Quem pode controlar o próprio destino? Não é assim agora.
Não tenha medo, embora me veja armado.
Aqui está o fim da minha jornada, aqui está a minha coronha,
e o próprio sinal da minha vela mais distante.
Vai voltar assustado? É um medo perdido.
Basta um investida contra o peito de Otelo,
e ele recua. Para onde Otelo irá?
Agora, como estás agora? Ó moça desafortunada,
pálida como a tua túnica, quando nos encontrarmos no julgamento,
este teu olhar lançará a minha alma do céu,
e os demônios a arrebatarão. Fria, fria, minha moça!
Tão fria quanto a tua castidade.
Ó escrava maldita, maldita! Açoitai-me, demônios,
para que eu não possua esta visão celestial!
Soprem-me ao vento, assem-me em enxofre,
lavem-me em abismos profundos de fogo líquido!
Ó Desdêmon! Morta, Desdêmon! Morta! Oh, oh!

Entram Lodovico, Montano, Cassio carregado numa cadeira, e os Oficiais com Iago prisioneiro.

LODOVICO.
Onde está esse homem imprudente e tão azarado?

OTELO.
Esse era Otelo. Aqui estou eu.

LODOVICO.
Onde está aquela víbora? Tragam o vilão à vista.

OTELO.
Olho para os seus pés; mas isso é uma fábula.
Se fores um demônio, não posso te matar.

Feridas em Iago. ]

LODOVICO.
Arranquem-lhe a espada.

IAGO.
Eu sangro, senhor, mas não morro.

OTELO.
Eu também não sinto pena. Eu queria que você vivesse,
pois, para mim, morrer é uma felicidade.

LODOVICO.
Ó tu, Otelo, que outrora foste tão bom,
caíste nos caminhos de um escravo maldito,
o que te dirão?

OTELO.
Ora, qualquer coisa;
um assassino honrado, se quiserem.
Pois nada fiz por ódio, mas tudo por honra.

LODOVICO.
Esse miserável confessou parcialmente sua vilania.
Você e ele consentiram na morte de Cássio?

OTELO.
Sim.

CÁSSIO.
Caro general, eu nunca lhe dei motivo.

OTELO.
Eu acredito nisso e peço perdão.
Por favor, pergunte a esse semideus
por que ele aprisionou minha alma e meu corpo dessa maneira.

IAGO.
Não me exija nada. O que você sabe, você sabe.
De agora em diante, não direi mais uma palavra.

LODOVICO.
O quê, não rezar?

GRATIANO.
Os tormentos abrirão seus lábios.

OTELO.
Bem, tu fazes o melhor que podes.

LODOVICO.
Senhor, o senhor compreenderá o que aconteceu,
o que, creio eu, o senhor desconhece. Aqui está uma carta
encontrada no bolso do falecido Rodrigo,
e aqui outra. Uma delas trata
da morte de Cássio, a ser providenciada
por Rodrigo.

OTELO.
Ó vilão!

CÁSSIO.
O mais pagão e o mais repugnante!

LODOVICO.
Eis aqui outro papel de descontentamento,
encontrado também em seu bolso; e este, ao que parece,
Rodrigo pretendia enviar a este maldito vilão,
mas que, provavelmente, Iago, entretanto, interveio
e o satisfez.

OTELO.
Ó, o perverso vilão!
Como você conseguiu, Cássio, aquele lenço
que era da minha esposa?

CÁSSIO.
Encontrei-o em meu quarto.
E ele mesmo confessou agora mesmo
que o deixou cair ali com um propósito específico
que lhe serviu de desejo.

OTELO.
Ó tolo! tolo! tolo!

CÁSSIO.
Há também na carta de Rodrigo
como ele repreende Iago por tê-lo
incumbido de me colocar de vigia, o que resultou na
minha morte. E mesmo agora ele falava,
depois de parecer morto por muito tempo, Iago o feriu,
Iago o incitou.

LODOVICO.
Deves abandonar este quarto e vir conosco.
Teu poder e teu comando foram retirados,
e Cássio governa em Chipre. Quanto a este escravo,
se houver alguma crueldade astuta
que possa atormentá-lo muito e mantê-lo preso por muito tempo,
ela será dele. Permanecerás prisioneiro
até que a natureza de tua falta seja conhecida
pelo Estado veneziano. Vem, leva-nos.

OTELO.
Silêncio; algumas palavras antes de ir.
Prestei alguns serviços ao Estado, e eles sabem disso.
Chega disso. Rogo-lhe que, em suas cartas,
quando relatar esses atos infelizes,
fale de mim como sou. Nada atenue,
nem escreva nada com malícia. Então terá que falar
de alguém que amou não com sabedoria, mas em excesso;
de alguém que não era facilmente ciumento, mas que, atormentado,
ficou extremamente perplexo; de alguém cuja mão,
como a do vil judeu, jogou fora uma pérola
mais valiosa que toda a sua tribo; de alguém cujos olhos subjugados,
embora não acostumados à fragilidade emocional,
derramam lágrimas tão rápido quanto as árvores árabes derramam
sua resina medicinal. Anote isso.
E diga, além disso, que em Aleppo, certa vez,
onde um turco maligno e de turbante
espancou um veneziano e difamou o Estado,
eu peguei o cão circuncidado pela garganta
e o golpeei, assim.

Apunhala-se a si mesmo. ]

LODOVICO.
Que menstruação maldita!

GRATIANO.
Tudo o que foi dito está arruinado.

OTELO.
Eu te beijei antes de te matar. Não havia outro jeito senão este,
matar-me, morrer com um beijo.

Ao cair sobre Desdêmona. ]

CÁSSIO.
Eu temia isso, mas pensei que ele não tivesse arma,
pois era grandioso de coração.

LODOVICO.
Para Iago. ] Ó cão espartano,
mais cruel que a angústia, a fome ou o mar,
contempla o trágico carregamento deste leito.
Esta é a tua obra. O objeto envenena a vista,
que seja ocultado. Gratiano, guarda a casa
e toma as rédeas da fortuna do Mouro,
pois ela te alcançará. A ti, senhor governador,
cabe a censura deste vilão infernal.
O tempo, o lugar, a tortura, ó, impõe-a!
Eu mesmo embarcarei imediatamente e, com o coração pesado, relatarei ao Estado
este pesado ato.