A Revolução dos Bichos

autor, George Orwell

Sumário

A revolução dos bichos

Posfácio: Repensando A revolução

dos bichos | Christopher Hitchens (2006)

Apêndices

I. A liberdade de imprensa (prefácio proposto

pelo autor à primeira edição inglesa, de 1945)

II. Prefácio do autor à edição ucraniana (1947)

1.

O sr. Jones, dono da Granja do Solar, fechou o galinheiro para a

noite, mas estava bêbado demais para lembrar-se de fechar

também as vigias. Com o facho de luz da lanterna balançando de

um lado para o outro, atravessou cambaleante o pátio, tirou as botas

na porta dos fundos, tomou um último copo de cerveja do barril da

copa e foi para a cama, onde sua mulher já ressonava.

Tão logo apagou-se a luz do quarto, houve um silencioso

movimento em todos os galpões da granja. Correra, durante o dia, o

boato de que o velho Major, um porco que já fora premiado numa

exposição, tivera um sonho muito estranho na noite anterior e

desejava contá-lo aos outros animais. Haviam combinado encontrar-

se no celeiro, assim que Jones se deitasse. O velho Major

(chamavam-no assim, muito embora ele houvesse concorrido na

exposição com o nome de “Belo de Willingdon”) gozava de tão alto

conceito na granja que todos estavam dispostos a perder uma hora

de sono só para ouvi-lo.

Ao fundo do grande celeiro, sobre uma espécie de estrado, estava

o Major refestelado em sua cama de palha, sob um lampião que

pendia da viga. Com doze anos de idade, já bem corpulento, era

ainda um porco de porte majestoso, com ar sábio e benevolente, a

despeito de suas presas jamais terem sido cortadas. Os outros

animais chegavam e punham-se a cômodo, cada qual a seu modo.

Os primeiros foram os três cachorros, Branca, Lulu e Cata-Vento,

depois os porcos, que se sentaram sobre a palha, em frente ao

estrado. As galinhas empoleiraram-se nas janelas, as pombas

voaram para os caibros do telhado, as ovelhas e as vacas deitaram-

se atrás dos porcos e ali ficaram a ruminar. Os dois cavalos de

tração, Sansão e Quitéria, chegaram juntos, andando lentamente e

pousando no chão os enormes cascos peludos, com grande cuidado

para não machucar qualquer animalzinho porventura oculto na

palha. Quitéria era uma égua volumosa, matronal, já chegada à

meia-idade, cuja silhueta não mais se recompusera após o

nascimento do quarto potrinho. Sansão era um bicho enorme, de

quase um metro e noventa de altura, forte como dois cavalos. A

mancha branca do focinho dava-lhe certo ar de estupidez, e

realmente ele não tinha lá uma inteligência de primeira ordem,

embora fosse grandemente respeitado pela retidão de caráter e pela

tremenda capacidade de trabalho. Depois dos cavalos chegaram

Maricota, a cabra branca, e Benjamim, o burro. Benjamim era o

animal mais idoso da fazenda, e o mais moderado. Raras vezes

falava, e em geral quando o fazia era para emitir uma observação

cínica — para dizer, por exemplo, que Deus lhe dera uma cauda

para espantar as moscas, e no entanto seria mais do seu agrado

não ter nem a cauda nem as moscas. Era o único dos animais que

nunca ria. Quando lhe perguntavam por quê, respondia não ver

motivo para riso. Não obstante, sem que admitisse abertamente,

tinha certa afeição por Sansão; com frequência passavam os

domingos juntos no pequeno potreiro existente atrás do pomar,

pastando lado a lado em silêncio.

Mal se haviam acomodado os dois cavalos quando uma ninhada

de patinhos órfãos desfilou celeiro adentro, piando baixinho e

procurando um lugar onde não fossem pisoteados. Quitéria

protegeu-os com a pata dianteira, e os patinhos ali se

aconchegaram, caindo no sono. No último instante, Mimosa, a égua

branca, vaidosa e fútil, que puxava a charrete do sr. Jones, entrou,

requebrando-se graciosamente e mastigando um torrão de açúcar.

Tomou lugar bem à frente e ficou meneando a crina branca, na

esperança de chamar atenção para as fitas vermelhas que a

adornavam. Por fim, chegou a gata, que buscou, como sempre, o

lugar mais morno, enfiando-se entre Sansão e Quitéria; ronronou

satisfeita durante toda a fala do Major, sem ouvir uma só palavra.


Todos os animais estavam presentes, exceto Moisés, o corvo

domesticado, que dormia fora, num poleiro junto à porta dos fundos.

Quando o Major os viu, bem acomodados e aguardando

atentamente, limpou a garganta e começou:

“Camaradas, já ouvistes, por certo, algo a respeito do estranho

sonho que tive a noite passada. Mas falarei do sonho mais tarde.

Antes, tenho outras coisas a dizer. Sei, camaradas, que não estarei

convosco por muito mais tempo, e antes de morrer considero uma

obrigação transmitir-vos o que aprendi sobre o mundo. Já vivi

bastante, e muito tenho refletido na solidão da minha pocilga. Creio

poder afirmar que compreendo a natureza da vida sobre esta terra

tão bem quanto qualquer outro animal vivente. É sobre o que desejo

vos falar.

“Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida?

Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta.

Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar

respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última

parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba,

trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal na Inglaterra

sabe o que é felicidade ou lazer após completar um ano de vida.

Nenhum animal na Inglaterra é livre. A vida do animal é feita de

miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua.

“Será isso, apenas, a ordem natural das coisas? Será esta nossa

terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus

habitantes? Não, camaradas, mil vezes não! O solo da Inglaterra é

fértil, o clima é bom, ela pode dar alimento em abundância a um

número de animais muitíssimo maior do que o existente. Só esta

nossa fazenda comportaria uma dúzia de cavalos, umas vinte

vacas, centenas de ovelhas — vivendo todos num conforto e com

uma dignidade que agora estão além de nossa imaginação. Por

que, então, permanecemos nesta miséria? Porque quase todo o

produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos. Eis

aí, camaradas, a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se

em uma só palavra — Homem. O Homem é o nosso verdadeiro e

único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da

fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre.

“O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá

leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o

que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os

animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a

inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo,

nosso estrume o fertiliza, e no entanto nenhum de nós possui mais

que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos

litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse

leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu

pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos

puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os

restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus

homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos

que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos

com a idade de um ano — nunca mais você os verá. Como paga por

seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu

você, além de ração e baia?

“Mesmo miserável como é, nossa vida não chega nem ao fim de

modo natural. Não me queixo por mim, que tive até muita sorte.

Estou com doze anos e sou pai de mais de quatrocentos porcos.

Isto é a vida normal de um barrão. Mas no fim nenhum animal

escapa ao cutelo. Vós, jovens leitões que estais sentados à minha

frente, não escapareis de guinchar no cepo dentro de um ano.

Todos chegaremos a esse horror, as vacas, os porcos, as galinhas,

as ovelhas, todos. Nem mesmo os cavalos e os cachorros escapam

a esse destino. Sansão, no dia em que seus músculos fortes

perderem a rigidez, Jones o mandará para o carniceiro, e você será

degolado e fervido para alimentar os cães de caça. Quanto aos

cachorros, depois de velhos e desdentados, Jones amarra-lhes uma

pedra ao pescoço e os atira na primeira lagoa.

“Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males

da nossa existência têm origem na tirania dos humanos? Basta que

nos livremos do Homem para que o produto de nosso trabalho seja

só nosso. Praticamente, da noite para o dia, poderíamos nos tornar

ricos e livres. Que fazer, então? Trabalhar dia e noite, de corpo e

alma, para a derrubada do gênero humano. Esta é a mensagem que

eu vos trago, camaradas: rebelião! Não sei dizer quando será esta

revolução, pode ser daqui a uma semana ou daqui a um século,

mas uma coisa eu sei, tão certo quanto vejo esta palha sob meus

pés: mais cedo ou mais tarde, justiça será feita. Fixai isso,

camaradas, para o resto de vossas curtas vidas! E, sobretudo,

transmiti esta minha mensagem aos que virão depois de vós, para

que as futuras gerações continuem na luta até a vitória.

“E lembrai-vos, camaradas, jamais deixai fraquejar vossa decisão.

Nenhum argumento vos poderá desviar. Fechai os ouvidos quando

vos disserem que o Homem e os animais têm interesses comuns,

que a prosperidade de um é a prosperidade dos outros. É tudo

mentira. O Homem não busca interesses que não os dele próprio.

Que haja entre nós, animais, uma perfeita unidade, uma perfeita

camaradagem na luta. Todos os homens são inimigos, todos os

animais são camaradas.”

Nesse momento houve uma tremenda confusão. Enquanto o

Major falava, quatro ratos haviam rastejado para fora de seus

buracos e estavam sentados nas patinhas de trás, a ouvi-lo. De

repente, os cachorros lhes deram pela presença, e somente pela

rapidez com que sumiram nos buracos foi que os ratos conseguiram

escapar com vida. O Major levantou a pata, pedindo silêncio.

“Camaradas”, disse ele, “eis aí um ponto que precisa ser

esclarecido. As criaturas rebeldes, tais como os ratos e os coelhos,

serão nossos amigos ou nossos inimigos? Coloquemos o assunto

em votação. Apresento à assembleia a seguinte questão: são os

ratos camaradas?”

A votação foi realizada imediatamente, e concluiu-se, por

esmagadora maioria, que os ratos eram camaradas. Houve apenas

quatro votos contra, dos três cachorros e da gata, que, depois se

descobriu, votara pelos dois lados. O Major prosseguiu:

“Pouco mais tenho a dizer. Repito apenas: lembrai-vos sempre do

vosso dever de inimizade para com o Homem e todos os seus

desígnios. O que quer que ande sobre duas pernas é inimigo, o que

quer que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.

Lembrai-vos também de que na luta contra o Homem não devemos

ser como ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai-lhe os

vícios. Animal nenhum deve morar em casas, nem dormir em

camas, nem usar roupas, nem beber álcool, nem fumar, nem tocar

em dinheiro, nem comerciar. Todos os hábitos do Homem são maus.

E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais.

Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos

os animais são iguais.

“E agora, camaradas, vou contar-vos o sonho que tive na noite

passada. Não sei o que significa. Foi um sonho sobre como será o

mundo quando o Homem desaparecer. Mas lembrou-me algo que

havia muito eu esquecera. Há anos, quando eu ainda era um




leitãozinho, minha mãe e as outras porcas costumavam cantar uma

antiga canção da qual só conheciam a melodia e as três primeiras

palavras. Na minha infância aprendi a melodia, depois a esqueci. Na

noite passada, entretanto, ela me voltou à memória. O mais

interessante é que me lembrei também dos versos — os quais,

tenho certeza, foram cantados pelos animais de antanho, depois

esquecidos por muitas gerações. Vou cantar essa canção,

camaradas. Estou velho, e minha voz é rouca, mas quando vos

houver ensinado a melodia, podereis cantá-la melhor que eu.

Chama-se ‘Bichos da Inglaterra’.”


O velho Major limpou a garganta e começou a cantar. De fato, a

voz era roufenha, mas ele entoava bem, e a melodia era bastante

movimentada, algo entre “Clementine” e “La cucaracha”. Os versos

diziam:


Bichos da Inglaterra e da Irlanda,

Daqui, dali, de acolá,

Escutai a alvissareira

Novidade que virá.

Mais hoje, mais amanhã,

O Tirano vem ao chão,

E os campos da Inglaterra

Só os bichos pisarão.

Não mais argolas nas ventas,

Dorsos livres dos arreios,

Freio e espora enferrujando

E relho em cantos alheios.

Riqueza incomensurável,

Terra boa, muito grão,

Trigo, cevada e aveia,

Pastagem, feno e feijão.

Lindos campos da Inglaterra,

Ribeiros com águas puras,

Brisas leves circulando,

Liberdade nas alturas.

Lutemos por esse dia

Mesmo que nos custe a vida.

Gansos, vacas e cavalos,




Todos unidos na lida.

Bichos da Inglaterra e da Irlanda,

Daqui, dali, de acolá,

Levai esta minha mensagem

E o futuro sorrirá.


O canto levou a bicharada à mais extrema excitação. Mesmo

antes de o Major chegar ao fim, já haviam começado a cantar por

conta própria. Até os mais parvos pegaram a melodia e algumas

palavras; os mais vivos, tais como os porcos e os cachorros,

decoraram a canção em minutos. Então, depois de algumas

tentativas, a granja toda atacou “Bichos da Inglaterra” em potente

uníssono. As vacas mugiam a canção, os cachorros latiam, as

ovelhas baliam, os cavalos relinchavam, os patos grasnavam. Foi tal

o enlevo que cantaram cinco vezes corridas, de ponta a ponta, e

teriam cantado a noite toda se não fossem interrompidos.


Infelizmente, o alarido acordou Jones, que pulou da cama certo

de que havia raposa no pátio. Deitou a mão na espingarda, sempre

pronta num canto do quarto, e disparou uma carga de chumbo

grosso na escuridão. O chumbo foi encravar-se na parede do

celeiro, e a reunião dispersou-se num abrir e fechar de olhos. Cada

qual correu para seu pouso. As aves saltaram para os poleiros, o

gado deitou-se na palha e, em poucos instantes, toda a fazenda

dormia.


*




2.

Daí a três noites, faleceu o velho Major, tranquilamente, durante o


sono. Seu corpo foi enterrado no fundo do pomar.

Começava o mês de março. Nos três meses seguintes houve uma


intensa atividade secreta. As palavras do Major haviam dado uma

perspectiva de vida inteiramente nova aos animais de maior

inteligência da granja. Não sabiam quando teria lugar a Rebelião

predita pelo Major, nem tinham razões para acreditar que fosse

durante a existência deles próprios, mas percebiam claramente o

dever de aprestar-se para ela. A tarefa de instruir e organizar os

outros recaiu naturalmente sobre os porcos, reconhecidos como os

mais inteligentes dos bichos. Salientavam-se, entre eles, dois jovens

barrões, Bola-de-Neve e Napoleão, que o sr. Jones criava para

vender. Napoleão era um cachaço berkshire, de aparência

ameaçadora, o único berkshire da fazenda, pouco falante, mas com

a reputação de ter grande força de vontade. Bola-de-Neve era mais

ativo que Napoleão, de palavra mais fácil, mais imaginoso, porém

não gozava da mesma reputação quanto à solidez de caráter. Todos

os demais porcos da fazenda eram castrados. Dentre estes, o mais

conhecido era um porquinho gordo chamado Garganta, de

bochechas redondas, olhos sempre piscando, movimentos lépidos e

voz aguda. Manejava a palavra com brilho, e quando discutia algum

ponto mais difícil tinha o hábito de dar pulinhos de um lado para o

outro e abanar o rabicho, uma coisa bastante persuasiva. Diziam

que Garganta era capaz de convencer de que preto era branco.


Esses três haviam organizado os ensinamentos do Major num

sistema de pensamento a que deram o nome de Animalismo. Várias

noites por semana, depois que Jones dormia, faziam reuniões

secretas no celeiro e expunham aos outros os princípios do

Animalismo. De início, encontraram certa apatia e muita ignorância.

Alguns animais mencionavam o dever de lealdade para com Jones,

a quem se referiam como o “dono”, ou emitiam comentários




elementares do tipo: “O senhor Jones nos alimenta. Se ele fosse

embora, nós morreríamos de fome”. Outros faziam perguntas como:

“Que importa o que acontecerá depois da nossa morte?”, ou: “Se

essa Rebelião virá de qualquer maneira, que diferença faz

trabalharmos por ela ou não?”; e os porcos tinham grande

dificuldade em fazê-los ver que isso ia contra o espírito do

Animalismo. As perguntas mais estúpidas eram sempre as de

Mimosa, a égua branca. A primeira pergunta que ela fez a Bola-de-

Neve foi:


“Ainda haverá açúcar depois da Rebelião?”

“Não”, Bola-de-Neve respondeu firmemente. “Não temos meio de


obter açúcar nesta fazenda. Além do mais, você não precisa de

açúcar. Mas terá toda a aveia e o feno que quiser.”


“E ainda vou poder usar laço de fita na crina?”, perguntou

Mimosa.


“Camarada”, explicou Bola-de-Neve, “essas fitas que você tanto

estima são o distintivo da servidão. Não vê que a liberdade vale

mais que laços de fita?”


Mimosa sempre concordava, mas não dava a impressão de estar

lá muito convencida.


Muito mais ainda lutaram os porcos para neutralizar as mentiras

espalhadas por Moisés, o corvo doméstico. Moisés, mascote do sr.

Jones, era um espião linguarudo, mas também de boa conversa.

Afirmava a existência de uma região misteriosa, a Montanha de

Açúcar-Cande, para onde iam os animais após a morte. Essa

montanha ficava em algum lugar no céu, pouco acima das nuvens,

segundo Moisés. Na Montanha de Açúcar-Cande, os sete dias da

semana eram domingos, o ano inteiro era época de trevo, e as

sebes davam torrões de açúcar e bolinhos de linhaça. Os bichos

detestavam Moisés, porque vivia de histórias e não trabalhava,

porém alguns acreditavam na Montanha de Açúcar-Cande, e os

porcos travaram grandes discussões para convencê-los de que esse

lugar não existia.


Os discípulos mais fiéis eram os dois cavalos de tração, Sansão e

Quitéria. Ambos tinham enorme dificuldade em pensar qualquer

coisa por si próprios; todavia, aceitando os porcos como instrutores,

absorviam tudo quanto lhes era dito e passavam adiante para os




outros animais por simples repetição. Jamais faltavam aos

encontros secretos no celeiro e davam o tom para o canto de

“Bichos da Inglaterra”, que sempre encerrava as reuniões.


Afinal, a Rebelião ocorreu muito mais cedo e bem mais facilmente

do que se esperava. Jones fora, no passado, um patrão duro, mas

competente. Agora estava em decadência. Desestimulado com a

perda de dinheiro numa ação judicial, dera para beber muito além

do que devia. Às vezes passava dias inteiros recostado em sua

cadeira de braços, na cozinha, lendo os jornais, bebendo e dando a

Moisés cascas de pão molhadas na cerveja. Seus peões eram

vadios e desonestos, o campo estava coberto de erva daninha, os

galpões careciam de telhas novas, as cercas estavam caindo, e os

animais tinham fome.


Junho chegou, e o feno estava quase pronto para o corte. Na

véspera do solstício de verão, um sábado, Jones foi a Willingdon e

bebeu tanto no Leão Vermelho que só voltou ao meio-dia de

domingo. Os homens ordenharam as vacas de manhã cedo e

saíram para caçar lebres, sem tratar da forragem dos animais. Ao

voltar, Jones caiu dormindo no sofá da sala com o News of the

World sobre o rosto; portanto, ao cair da tarde, os animais ainda não

haviam comido. Aquilo já era demais. Uma das vacas rebentou a

chifradas a porta do celeiro, e os bichos avançaram sobre as tulhas.

Nesse momento, Jones acordou. Num átimo, ele e seus quatro

peões estavam no celeiro com os chicotes na mão, batendo a torto

e a direito. Isso ultrapassou tudo quanto os animais famintos podiam

suportar. De comum acordo, muito embora nada fosse planejado,

lançaram-se sobre seus verdugos. Jones e os homens viram-se de

repente marrados e escoiceados de todo lado. A situação fugira ao

controle. Nunca tinham visto os animais daquele jeito, e a súbita

revolta de criaturas que eles estavam acostumados a surrar e

maltratar à vontade os encheu de pavor. Em poucos instantes

largaram de defender-se e deram o fora. Um minuto depois, os

cinco voavam pela trilha rumo à estrada, com os bichos no encalço,

triunfantes.


A mulher de Jones olhou pela janela do quarto, viu o que ocorria,

juntou às pressas alguns haveres numa bolsa de pano e escapuliu

da granja por outro caminho. Moisés levantou voo do poleiro e bateu




asas atrás dela, grasnando. A essa altura, os animais haviam posto

Jones e os peões para fora da granja, fechando atrás deles a

porteira das cinco barras. E assim, antes de se darem conta, a

Rebelião vencera. Jones fora expulso, e a Granja do Solar era

deles.


Durante os primeiros minutos, os bichos mal puderam acreditar na

sorte. Seu primeiro ato foi galopar pelos limites da granja, como a

ver se nenhum ser humano ficara escondido; depois, correram de

volta às casas da granja, para varrer os últimos vestígios do odiado

império de Jones. O galpão dos arreios, no fundo dos estábulos, foi

arrombado; freios, argolas de nariz, correntes de cachorro, as cruéis

facas com que Jones castrava os porcos e os cordeiros, foi tudo

atirado no fundo do poço. As rédeas, os cabrestos, os antolhos e os

degradantes bornais foram jogados na fogueira que ardia no pátio.

O mesmo destino tiveram os relhos. Os bichos saltaram de alegria

quando viram os chicotes em chamas. Bola-de-Neve jogou também

ao fogo as fitas que enfeitavam as crinas e caudas dos cavalos em

dias de feira.


“Fitas”, disse ele, “devem ser consideradas roupas, que são a

marca do ser humano. Todos os animais têm de andar nus.”


Ao ouvir isso, Sansão foi buscar o chapeuzinho de palha que

usava no verão para proteger suas orelhas das moscas, e o atirou

também no fogo.


Em pouco tempo, os bichos destruíram tudo o que lhes recordava

Jones. Napoleão conduziu-os de volta ao celeiro e serviu uma ração

dupla de milho para todo mundo, dois biscoitos para cada cachorro.

Cantaram, então, “Bichos da Inglaterra” do começo ao fim sete

vezes, depois deitaram-se e dormiram como nunca.


Porém, como sempre, acordaram de madrugada, e ao lembrar-se

do glorioso evento da véspera, correram para a pastagem. A

pequena distância, havia um morrete donde se via quase toda a

fazenda. Os animais subiram e olharam em volta, à luz clara da

manhã. Sim, era deles — tudo o que enxergavam era deles! No

êxtase dessa percepção, deram cambalhotas e saltos de

contentamento. Rolaram no orvalho, comeram a deliciosa grama do

verão, arrancaram torrões de terra e aspiraram aquele rico aroma.

Depois fizeram um circuito de inspeção em toda a granja,




vistoriando, com muda admiração, a lavoura, o campo de feno, o

pomar, a lagoa, o arvoredo. Era como se nunca tivessem visto

aquilo, e mal podiam acreditar: tudo era deles.


Voltaram, então, para as casas da granja e pararam silenciosos

em frente à porta da casa-grande. Era deles também, mas ficaram

com medo de entrar. Após alguns instantes, porém, Bola-de-Neve e

Napoleão forçaram a porta a trancos, e os animais entraram em fila

indiana, caminhando com o maior cuidado para não desarrumar

nada. Andaram na ponta dos pés, de um aposento para o outro,

falando baixinho e olhando com certa reverência o luxo

inacreditável, as camas, os colchões de penas, os espelhos, o sofá

de crina, o tapete de Bruxelas, a litografia da rainha Vitória sobre a

lareira da sala de estar. Quando desciam as escadas, deram pela

falta de Mimosa. Voltando, descobriram-na no quarto principal.

Havia apanhado no toucador da sra. Jones um pedaço de fita azul,

e segurava-o contra a espádua, admirando-se no espelho com

trejeitos ridículos. Repreenderam-na acerbamente, e saíram todos.

Alguns presuntos, pendurados na cozinha, foram levados para fora

e enterrados; o barril de cerveja da copa foi rebentado com um coice

de Sansão; além disso, nada mais foi tocado na casa. Ali mesmo

aprovou-se, por unanimidade, a resolução de conservá-la como

museu. Concordaram em que nenhum animal jamais deveria morar

lá.


Os bichos tomaram o café da manhã e foram outra vez

convocados por Bola-de-Neve e Napoleão.


“Camaradas”, disse Bola-de-Neve, “são seis e quinze, e temos um

longo dia pela frente. Iniciaremos hoje a colheita do feno. Mas antes,

há outro assunto de que devemos tratar.”


Os porcos revelaram que, nos últimos três meses, haviam

aprendido a ler e a escrever, num velho livro de ortografia que

pertencera aos filhos de Jones e fora jogado no lixo. Napoleão

mandou buscar latas de tinta preta e tinta branca e marchou à frente

até a porteira das cinco barras, que dava para a estrada principal.

Então, Bola-de-Neve (que escrevia melhor) pegou o pincel entre as

juntas da pata, cobriu de tinta o nome GRANJA DO SOLAR do travessão

superior e, em seu lugar, escreveu GRANJA DOS BICHOS. Seria esse o

nome da granja dali em diante. Depois disso, voltaram para as




casas da granja; Bola-de-Neve e Napoleão mandaram buscar uma

escada e fizeram-na encostar à parede do fundo do celeiro grande.

Explicaram que, segundo os estudos que haviam feito nos últimos

três meses, era possível resumir os princípios do Animalismo em

Sete Mandamentos. Esses Sete Mandamentos seriam agora

escritos na parede, constituindo a lei inalterável pela qual a Granja

dos Bichos deveria reger sua vida para sempre.


Com alguma dificuldade (pois não é fácil para um porco equilibrar-

se numa escada de mão), Bola-de-Neve subiu e começou a

trabalhar, enquanto Garganta, alguns degraus abaixo, segurava a

lata de tinta. Os Mandamentos foram escritos na parede alcatroada

em grandes letras brancas que podiam ser lidas a muitos metros de

distância.


Eram os seguintes:

OS SETE MANDAMENTOS

1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.

2. O que andar sobre quatro pernas, ou tiver asas, é amigo.

3. Nenhum animal usará roupa.

4. Nenhum animal dormirá em cama.

5. Nenhum animal beberá álcool.

6. Nenhum animal matará outro animal.

7. Todos os animais são iguais.


Foi tudo muito bem escrito, e com exceção da palavra “álcool”,

que saiu “álcol”, e de um dos S, desenhado ao contrário, a ortografia

estava correta. Bola-de-Neve leu o que escrevera, em voz alta, para

os demais. Todos os bichos balançaram a cabeça, de pleno acordo,

e os mais atentos começaram logo a decorar os Mandamentos.


“Agora, camaradas”, disse Bola-de-Neve, deixando cair o pincel,

“ao campo de feno! É questão de honra fazer a colheita em menos

tempo do que Jones e sua gente.”


Nesse momento, porém, as vacas, que já vinham dando sinais de

inquietação, começaram a mugir. Há vinte e quatro horas não eram

ordenhadas, e tinham os úberes quase estourando. Depois de

alguma reflexão, os porcos pediram baldes e ordenharam as vacas

razoavelmente bem, pois seus cascos adaptavam-se à tarefa.

Tiraram cinco baldes de um leite espumante e cremoso, que muitos

dos animais olharam com considerável interesse.




“Que vamos fazer com esse leite?”, perguntou alguém.

“Jones, às vezes, misturava um pouco ao nosso farelo”, disse


uma galinha.

“Não vos ocupeis do leite, camaradas!”, exclamou Napoleão,


postando-se à frente dos baldes. “Nós trataremos desse assunto. A

colheita é mais importante. O camarada Bola-de-Neve vos

conduzirá. Eu irei dentro de alguns minutos. Avante, camaradas! O

feno espera.”


Os animais rumaram ao campo de feno para o início da colheita, e

quando voltaram, à noitinha, perceberam que o leite havia

desaparecido.


*




3.

Como trabalharam para juntar aquele feno! Mas valeu o esforço,


pois a colheita deu resultado bem melhor do que esperavam.

Por vezes, a tarefa foi dura; os implementos destinavam-se ao


uso de humanos, e foi de enorme desvantagem o fato de nenhum

bicho poder utilizar ferramentas que exigissem a posição em pé

sobre as patas traseiras. Mas os porcos eram tão imaginosos que

conseguiam contornar todas as dificuldades. Os cavalos conheciam

cada palmo do terreno, e na realidade sabiam ceifar e raspar muito

melhor do que Jones e os empregados. Os porcos não trabalhavam,

propriamente, mas dirigiam e supervisionavam o trabalho dos

outros. Donos de um conhecimento maior, era natural que

assumissem a liderança. Sansão e Quitéria atrelavam-se à

ceifadeira ou à grade (é claro que não havia mais necessidade de

freios nem de rédeas) e andavam pelo campo para lá e para cá,

com um porco atrás gritando “Eia, camarada” ou “A volta, agora,

camarada”, conforme o caso. E cada animal, até o mais modesto,

labutou para colher e juntar o feno. Até os patos e as galinhas

ciscavam o dia inteiro sob o sol, carregando no bico pequeninos

feixes de feno. Enfim, terminaram a colheita dois dias antes do

tempo que Jones e os peões normalmente levavam. Mas, além

disso, foi a maior colheita que jamais se realizara ali. Não houve o

mínimo desperdício; as galinhas e os patos, com sua vista

penetrante, juntaram até o menor talinho. E nenhum animal na

granja furtou sequer uma bocada.


Por todo aquele verão o trabalho da granja andou como um

relógio. Os bichos, felizes como nunca. Cada bocado de comida

constituía um extremo prazer, agora que a comida era realmente

deles, produzida por eles e para eles, em vez de ser distribuída em

pequenas quantidades por um dono cheio de má vontade. Ausentes

os inúteis parasitas humanos, mais sobrava para cada um. Houve

também mais lazer, muito embora os animais fossem inexperientes




nisso. Encontraram muitas dificuldades — por exemplo, no fim do

ano, quando colheram os cereais, foram obrigados a pisá-los, à

moda antiga, e a soprar as cascas, pois a granja não possuía uma

debulhadeira —, mas os porcos, com a inteligência, e Sansão, com

seus músculos fantásticos, sobrepujavam-nas. Sansão era a

admiração de todos. Já era trabalhador no tempo de Jones; agora,

como que valia por três. Dias houve em que todo o trabalho da

granja parecia cair em seu lombo. Da manhã à noite, lá estava ele,

puxando e empurrando, sempre no lugar onde o trabalho era mais

pesado. Fizera um trato com um dos galos para ser chamado todas

as manhãs meia hora mais cedo que os demais, e aproveitava esse

tempo em trabalho voluntário no que parecesse mais necessário.

Sua solução para cada problema, para cada contratempo, era

“Trabalharei mais ainda”, frase que adotara como seu lema

particular.


Cada qual trabalhava de acordo com sua capacidade. As galinhas

e os patos, por exemplo, economizaram cinco baldes de trigo na

colheita, catando grãos extraviados. Ninguém roubava, ninguém

resmungava a respeito das rações. A discórdia, as mordidas, o

ciúme, coisas normais nos velhos tempos, tinham quase

desaparecido. Ninguém se esquivava ao trabalho — ou quase

ninguém. É bem verdade que Mimosa não gostava de levantar cedo

e costumava abandonar o trabalho antes dos demais, alegando

estar com uma pedra encravada no casco. E o comportamento da

gata era um tanto estranho. Em seguida notou-se que ela nunca

podia ser encontrada quando havia trabalho por fazer. Desaparecia

por várias horas consecutivas e voltava a aparecer na hora das

refeições, ou à tardinha, após o fim da jornada, como se nada

houvesse acontecido. Tinha, porém, desculpas tão convincentes e

ronronava de maneira tão carinhosa que era impossível não crer em

suas boas intenções. O velho Benjamim, o burro, nada mudara após

a Revolução. Executava sua tarefa da mesma forma

obstinadamente lenta como o fazia nos tempos de Jones. Não se

esquivava ao trabalho normal, mas nunca era voluntário para

extraordinários. Sobre a revolução e seus resultados não emitia

opinião. Quando lhe perguntavam se não era mais feliz, agora que

Jones se havia ido, respondia apenas: “Os burros vivem muito




tempo. Nenhum de vocês jamais viu um burro morto”, e os outros

tinham de contentar-se com essa obscura resposta.


Aos domingos, não se trabalhava. A refeição da manhã era uma

hora mais tarde, e depois dela havia uma cerimônia que se realizava

todas as semanas, indefectivelmente. Começava com o

hasteamento da bandeira. Bola-de-Neve achara, no depósito, uma

velha toalha verde de mesa, e pintara no centro, em branco, um

chifre e um casco. Essa era a bandeira que subia ao topo do mastro

no pátio da casa todos os domingos pela manhã. O verde da

bandeira, explicava Bola-de-Neve, representava os verdes campos

da Inglaterra, ao passo que o chifre e o casco simbolizavam a futura

República dos Bichos, cujo advento teria lugar no dia em que o

gênero humano, enfim, desaparecesse. Após o hasteamento da

bandeira, iam todos ao grande celeiro, para assistir a uma

assembleia-geral conhecida como a Reunião. Lá planejavam o

trabalho da semana seguinte e debatiam as resoluções. Eram

sempre os porcos que propunham resoluções. Os outros bichos

aprenderam a votar, mas nunca conseguiram imaginar uma

resolução por conta própria. Bola-de-Neve e Napoleão eram os mais

ativos nos debates. Notou-se, porém, que os dois nunca estavam de

acordo: qualquer sugestão de um podia contar, na certa, com a

oposição do outro. Mesmo quando se resolveu — coisa que, em si,

não podia sofrer a objeção de ninguém — que o potreiro situado

além do pomar seria reservado para os animais aposentados, houve

uma agitada discussão a respeito da idade de aposentadoria para

cada classe de animal. A Reunião era encerrada sempre com o hino

“Bichos da Inglaterra”, e a tarde destinava-se à recreação.


Os porcos reservaram o depósito de ferramentas para sede da

direção. Ali, à noite, estudavam forjaria, carpintaria e outras artes

necessárias, em livros trazidos da casa-grande. Bola-de-Neve

ocupava-se também da organização dos outros bichos através dos

chamados Comitês de Animais. Formou o Comitê da Produção de

Ovos para as galinhas, a Liga das Caudas Limpas para as vacas, o

Comitê de Reeducação dos Camaradas Arredios (cujo objetivo era

domesticar ratos e coelhos), o Movimento Pró-Lã Mais Branca, que

congregava as ovelhas, e outros mais, além da criação de cursos

para ensinar a ler e escrever. De maneira geral, esses projetos




foram um fracasso. A tentativa de domesticar os elementos

silvestres, por exemplo, falhou em pouco tempo. Eles continuaram a

portar-se como dantes, e simplesmente tiravam vantagem do fato

quando tratados com generosidade. A gata ingressou no Comitê de

Reeducação, e por algum tempo militou muito ativa. Um dia foi vista,

sentada num telhado, a doutrinar alguns pardais pousados pouco

além do seu alcance. Dizia-lhes que todos os animais agora eram

camaradas, e qualquer pardal que o desejasse poderia vir pousar na

sua mão; mas os pardais preferiram ficar de longe.


As aulas de ler e escrever, pelo contrário, fizeram enorme

sucesso. Pelo outono, quase todos os bichos estavam

alfabetizados, uns mais, outros menos.


Os porcos já liam e escreviam muito bem. Os cães aprenderam a

ler razoavelmente, mas não se interessavam pela leitura de nada

além dos Sete Mandamentos. Maricota, a cabra, lia um pouco

melhor que os cães e costumava ler para os demais, à noite, os

pedaços de jornal que achava no lixo. Benjamim sabia ler tão bem

quanto os porcos, mas não exercia sua faculdade. Ao que soubesse

— costumava dizer — não havia o que valesse a pena ler. Quitéria

aprendeu todo o alfabeto, mas não conseguia juntar as letras.

Sansão não foi capaz de ir além da letra D. Riscava na areia, com a

pata, as letras A, B, C, D e ficava olhando, com as orelhas murchas,

às vezes sacudindo o topete, tentando com todas as suas forças

lembrar-se do que vinha depois, inutilmente. É verdade que em

várias ocasiões aprendeu E, F, G, H, mas ao consegui-lo descobria

sempre que havia esquecido A, B, C, D. Afinal decidiu contentar-se

com as quatro primeiras letras, e costumava escrevê-las um par de

vezes por dia, a fim de refrescar a memória. Mimosa recusou-se a

aprender mais do que as seis letras que compunham seu nome.

Formava-as, bem certinhas, com pedaços de ramos, enfeitava o

conjunto com uma ou duas flores e ficava andando em volta, a

admirá-las.


Nenhum dos outros animais da granja chegou além da letra A.

Notou-se também que os mais estúpidos, tais como as ovelhas, as

galinhas e os patos, eram incapazes de aprender de cor os Sete

Mandamentos. Depois de muito pensar, Bola-de-Neve declarou que,

na verdade, os Sete Mandamentos podiam ser condensados numa




única máxima, que era: “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Aí

se continha, segundo ele, o princípio essencial do Animalismo.

Quem o adotasse com firmeza estaria a salvo das influências

humanas. A princípio, os pássaros fizeram objeções, pois lhes

parecia que estavam na categoria das duas pernas, porém Bola-de-

Neve provou não ser esse o caso:


“A asa de uma ave, camaradas, é órgão de propulsão, e não de

manipulação. Deveria ser vista mais como uma perna. O que

distingue o Homem é a mão, o instrumento com que ele perpetra

toda a sua maldade.”


As aves não compreenderam as palavras de Bola-de-Neve, mas

aceitaram a explicação, e os bichos mais modestos dedicaram-se a

aprender de cor a nova máxima — QUATRO PERNAS BOM, DUAS PERNAS RUIM

—, que foi escrita na parede do fundo do celeiro, acima dos Sete

Mandamentos, e em letras bem maiores. Depois que conseguiram

decorá-la, as ovelhas tomaram-se de uma enorme predileção por

essa máxima, e frequentemente, deitadas no pasto, ficavam a balir

“Quatro pernas bom, duas pernas ruim!” durante horas a fio.


Napoleão não mostrou interesse nenhum pelos comitês de Bola-

de-Neve. Dizia que a educação dos jovens era mais importante que

qualquer coisa em favor dos adultos. Aconteceu que Lulu e Branca

deram cria logo após a colheita do feno, parindo nove robustos

cachorrinhos. Tão logo foram desmamados, Napoleão tirou-os das

mães, dizendo que ele próprio se responsabilizaria por sua

educação. Levou-os para um sótão que só podia ser alcançado pela

escada do depósito, e os manteve em tal reclusão que o resto da

fazenda logo se esqueceu de sua existência.


O mistério do leite de pronto se esclareceu. Era misturado à

comida dos porcos. As maçãs estavam amadurecendo, e a grama

do pomar cobria-se de frutas derrubadas pelo vento. Os bichos

acharam que as frutas seriam distribuídas equitativamente; certo

dia, porém, chegou ordem para que todas as frutas caídas fossem

recolhidas e levadas ao depósito das ferramentas para o consumo

dos porcos. Alguns bichos murmuraram a respeito, mas foi inútil. Os

porcos estavam todos de acordo sobre esse ponto, até mesmo

Bola-de-Neve e Napoleão. Garganta foi enviado aos outros, para

dar explicações.




“Camaradas!”, conclamou. “Não imaginais, suponho, que nós, os

porcos, fazemos isso por espírito de egoísmo e privilégio. Muitos de

nós até nem gostamos de leite e de maçã. Eu, por exemplo, não

gosto. Nosso único objetivo ao ingerir essas coisas é preservar a

saúde. O leite e a maçã (está provado pela ciência, camaradas)

contêm substâncias absolutamente necessárias à saúde dos

porcos. Nós, porcos, somos trabalhadores intelectuais. A

organização e a direção desta granja dependem de nós. Dia e noite

velamos pelo vosso bem-estar. É por vossa causa que bebemos

aquele leite e comemos aquelas maçãs. Sabeis o que sucederia se

os porcos falhassem em sua missão? Jones voltaria! Sim, Jones

voltaria! Com toda a certeza, camaradas”, gritou Garganta, quase

suplicante, dando pulinhos de um lado para outro e sacudindo o

rabicho, “com toda a certeza, não há dentre vós quem queira Jones

de volta.”


Ora, se havia algo sobre o que todos os animais estavam de

acordo era o fato de nenhum deles desejar a volta de Jones.

Quando o assunto foi colocado sob essa luz, não tiveram mais o

que dizer. A importância de manter a boa saúde dos porcos ficou

óbvia. Foi, portanto, resolvido sem mais discussões que o leite e as

maçãs caídas (bem como toda a colheita de maçãs, quando

amadurecessem) seriam reservados para os porcos.


*




4.

Pelo fim do verão, a notícia do que sucedera na Granja dos


Bichos já se espalhara pelo condado. Todos os dias, Bola-de-Neve e

Napoleão enviavam formações de pombos com instrução de

misturarem-se aos animais das granjas vizinhas, contar-lhes a

história da Rebelião e ensinar-lhes a melodia de “Bichos da

Inglaterra”.


Jones passava a maior parte desse tempo na taverna do Leão

Vermelho, em Willingdon, queixando-se, a quem quisesse ouvir, da

monstruosa injustiça que sofrera ao ser expulso de sua granja por

uma súcia de animais imprestáveis. Os outros granjeiros eram-lhe

simpáticos, em princípio, mas inicialmente não lhe deram muita

ajuda. No fundo, cada um imaginava em segredo alguma forma de

tirar vantagem do infortúnio de Jones. Era uma sorte que os

proprietários das duas granjas lindeiras com a dos bichos vivessem

em más relações. Uma delas, chamada Foxwood, era uma granja

grande, abandonada e antiquada, coberta de mato, com as

pastagens cansadas e as sebes malcuidadas. O dono, o sr.

Pilkington, era um fazendeiro amador, bom sujeito, que passava a

maior parte do tempo caçando ou pescando, conforme a estação. A

outra granja, chamada Pinchfield, era menor e muito bem cuidada.

O proprietário era o sr. Frederick, homem rude e sagaz, sempre

envolvido em litígios e com reputação de sempre levar a melhor em

paradas muito difíceis. Os dois se hostilizavam tanto que lhes era

sumamente difícil chegar a qualquer acordo, mesmo em defesa de

seus próprios interesses.


Só que ambos estavam muito assustados com a rebelião na

Granja dos Bichos e queriam evitar que seus próprios animais

tomassem maior conhecimento do assunto. De início, fingiram achar

graça na ideia de bichos dirigirem uma granja. O caso todo estaria

acabado em coisa de semanas, diziam. Espalharam que os animais

da Granja do Solar (insistiam em chamá-la Granja do Solar, não




admitindo o nome Granja dos Bichos) estavam lutando entre si e

não tardariam a definhar até a morte. Como o tempo passava e os

animais evidentemente não morriam, Frederick e Pilkington

mudaram de tom e passaram a falar nas terríveis perversidades que

estavam ocorrendo na Granja dos Bichos. Foi dito que os animais lá

praticavam o canibalismo, torturavam uns aos outros com ferraduras

ao rubro e tinham suas fêmeas em comum. Isso era o que advinha

do desrespeito às leis da natureza, diziam Frederick e Pilkington.


Entretanto, nunca ninguém acreditou muito nessas histórias.

Boatos de um sítio maravilhoso, onde acabaram os seres humanos

e os bichos tomavam conta dos próprios negócios, continuavam a

circular, de forma vaga e distorcida, e durante todo aquele ano uma

onda de revolta correu a região. Touros que sempre haviam sido

mansos repentinamente enfureceram, as ovelhas passavam as

sebes e comiam o trevo, as vacas coiceavam os tarros, os cavalos

da caça à raposa refugavam as cercas, jogando os cavaleiros do

outro lado. Mas sobretudo, a melodia e mesmo a letra de “Bichos da

Inglaterra” eram sabidas em toda parte. O hino espalhara-se com

espantosa rapidez. Os humanos não aguentavam de raiva ao

ouvirem a canção, embora a desdenhassem como simplesmente

ridícula. Não dava para entender, diziam, que mesmo animais

chegassem ao ponto de cantar aquela droga. O bicho flagrado a

cantá-la era açoitado na hora. Ainda assim, a canção era

irreprimível. Os melros a trinavam pousados nas cercas, as pombas

arrulhavam-na nos olmeiros, e ela pervagava nas marteladas dos

ferreiros e no bimbalhar dos sinos das igrejas. E os humanos, ao

ouvi-la, tremiam secretamente ante aquela profecia de sua

desgraça.


No início de outubro, quando o trigo já fora colhido, amontoado e

em parte até debulhado, uma revoada de pombos chegou num

turbilhão e pousou no pátio da Granja dos Bichos, presa de grande

pavor. Jones e todos os seus homens, com mais meia dúzia de

Foxwood e Pinchfield, haviam entrado pela porteira das cinco barras

e vinham subindo a trilha que conduzia à fazenda. Todos armados

de bastões, exceto Jones, que marchava à frente com uma

espingarda na mão. Era evidentemente uma tentativa de recuperar

a granja.




Há muito isso era esperado, e os preparativos vinham sendo

feitos. Bola-de-Neve, que estudara um velho livro sobre as

campanhas de Júlio César achado na casa-grande, estava

encarregado das operações defensivas. Ligeiro deu suas ordens, e

logo cada animal estava em seu posto.


Quando os humanos chegaram perto das casas, Bola-de-Neve

lançou o primeiro ataque. Os pombos, em número de trinta e cinco,

voaram em sortidas sobre os homens e defecaram sobre eles;

enquanto os homens debatiam-se com isso, os gansos, até então

escondidos nas sebes, avançaram bicando-lhes as pernas

malevolamente. Mas era apenas uma pequena manobra de

escaramuça, destinada a criar confusão, e os humanos tiveram

facilidade em espantar os gansos com os bastões. Então, Bola-de-

Neve lançou sua segunda vaga de ataque. Maricota, Benjamim e as

ovelhas, com Bola-de-Neve à frente, arremeteram sobre os homens,

marrando, mordendo e escoiceando-os de todo lado, Benjamim

fustigando-os pelas costas com seus pequenos cascos. Novamente,

porém, os homens com os bastões e os coturnos rústicos foram

mais fortes; e de repente, a um guincho de Bola-de-Neve, que era o

sinal para bater em retirada, todos os bichos deram meia-volta e

atravessaram o portão em disparada para dentro do pátio.


Os homens soltaram um brado de triunfo. Viram, tal como haviam

imaginado, o inimigo em fuga, e se lançaram em seu encalço

desordenadamente. Era justo o que Bola-de-Neve queria. Tão logo

eles entraram no pátio, os três cavalos, as três vacas e o restante

dos porcos, que estavam emboscados atrás do estábulo, surgiram-

lhes de inopino à retaguarda, cortando a retirada. Bola-de-Neve deu

o sinal de carga. Ele próprio correu na direção de Jones. Vendo-o,

Jones levantou a arma e atirou. Os projéteis abriram riscos

sangrentos no dorso de Bola-de-Neve, e uma ovelha caiu morta.

Sem titubear um só instante, Bola-de-Neve lançou os seus cem

quilos contra as pernas de Jones. O homem foi jogado sobre um

monte de esterco, e a arma voou-lhe das mãos. Porém, o

espetáculo mais aterrorizante em tudo aquilo era Sansão, erguendo-

se nos posteriores e dando manotaços com seus enormes cascos

ferrados, feito um garanhão. Logo no primeiro golpe atingiu o crânio

de um cavalariço de Foxwood, que caiu prostrado sem vida na lama.




Diante disso, vários homens largaram os bastões e tentaram correr.

O pânico tomou conta deles, e em poucos momentos os animais os

caçavam em volta do pátio. Eles foram chifrados, lanhados,

mordidos e atropelados. Não houve bicho da granja que não tirasse

desforra, cada um à sua moda. Até a gata, inesperadamente, saltou

de um telhado sobre as costas de um peão, cravando-lhe as unhas

no pescoço e fazendo o homem dar um berro de dor. Em dado

momento, desimpedida a saída, os homens conseguiram fugir do

pátio e saíram em desabalada carreira rumo à estrada principal. E

assim, poucos minutos após a invasão, batiam em retirada

vergonhosa pelo mesmo caminho da vinda, com uma multidão de

gansos no seu encalço, bicando-lhes as pernas sem piedade.


Todos os homens haviam fugido, exceto um. No pátio, Sansão

empurrava, com a pata, o cavalariço que jazia de bruços na lama,

tentando virá-lo. Mas o rapaz não se mexia.


“Está morto”, disse Sansão, penalizado. “Eu não queria fazer isso.

Esqueci que estava de ferraduras. Quem acreditará que não fiz isso

de propósito?”


“Nada de sentimentalismos, camarada!”, gritou Bola-de-Neve, de

cujos ferimentos o sangue corria. “Guerra é guerra. Humano bom é

humano morto.”


“Eu não desejo tirar a vida de quem quer que seja, nem mesmo

de um ser humano”, repetiu Sansão, com os olhos cheios de

lágrimas.


“Onde está Mimosa?”, perguntou alguém.

Mimosa realmente havia desaparecido. Por momentos, houve


grande alarme. Temeu-se que os homens a tivessem ferido ou

mesmo levado com eles. Por fim, foi encontrada em sua própria

baia, com a cabeça escondida no feno da manjedoura. Havia fugido

no momento do tiro da espingarda. E quando voltaram, depois de

encontrá-la, foi para descobrir que o cavalariço, que na verdade

havia apenas desmaiado, voltara a si e desaparecera.


Os bichos, então, tornaram a reunir-se, presas de grande

entusiasmo, cada qual narrando suas façanhas na batalha com a

voz mais alta que conseguia. Uma celebração de improviso realizou-

se imediatamente. A bandeira foi hasteada, e cantou-se “Bichos da

Inglaterra” muitas vezes; depois a ovelha morta recebeu funerais




solenes, sendo plantado em seu túmulo um ramo de espinheiro. Ao

pé do túmulo, Bola-de-Neve fez um pequeno discurso, pondo em

relevo a necessidade de todos os animais estarem prontos a morrer

pela Granja dos Bichos, se necessário.


Os animais decidiram, por unanimidade, criar uma condecoração

militar, a Herói Animal, Primeira Classe, conferida ali mesmo a Bola-

de-Neve e a Sansão. Consistia numa medalha de bronze (era, na

realidade, bronze dos arreios achados no galpão de ferramentas)

para ser usada nos domingos e feriados. Criaram também a Herói

Animal, Segunda Classe, conferida postumamente à ovelha morta.


Houve muita discussão quanto ao nome a ser dado à batalha. Por

fim, ela foi chamada Batalha do Estábulo, o lugar onde se armara a

emboscada. A espingarda de Jones foi encontrada na lama. Havia

uma boa quantidade de cartuchos na casa-grande, e ficou decidido

que colocariam a arma ao pé do mastro, como uma peça de

artilharia, e dariam uma salva duas vezes ao ano — uma no dia 12

de outubro, aniversário da Batalha do Estábulo, e outra no dia 24 de

junho, aniversário da Rebelião.


*




5.

Com a chegada do inverno, Mimosa tornou-se cada vez mais


importuna. Todas as manhãs atrasava-se para o trabalho e dava a

desculpa de dores misteriosas, embora gozasse de excelente

apetite. A qualquer pretexto largava o trabalho e ia para o açude, em

cuja beira permanecia admirando a própria imagem refletida na

água. Corriam também boatos de maior seriedade. Um dia, quando

Mimosa entrou no pátio, toda contente, sacudindo a cauda e

mascando um talo de feno, Quitéria abordou-a.


“Mimosa”, disse ela, “tenho um assunto muito sério para tratar.

Hoje de manhã vi você olhando por cima da sebe que separa a

nossa granja de Foxwood. Do outro lado estava um empregado do

senhor Pilkington. E ele — embora eu estivesse longe, tenho quase

certeza de que vi isso — falava com você e fazia festa em seu

focinho. Que quer dizer isso, Mimosa?”


“Ele não fez! Eu não estava! Não é verdade!”, gritou Mimosa,

agitando-se e escarvando a terra.


“Mimosa! Olhe nos meus olhos. Você me dá sua palavra de honra

de que o homem não a tocou no focinho?”


“Não é verdade!”, repetiu Mimosa, sem olhar Quitéria de frente,

depois virou-se e galopou para o campo.


Quitéria teve uma ideia. Sem dizer nada a ninguém, foi à baia de

Mimosa e virou a palha com o casco. Ali estavam, escondidos, um

montinho de torrões de açúcar e vários novelos de fitas de diversas

cores.


Três dias mais tarde, Mimosa desapareceu. Durante algumas

semanas ninguém teve notícias de seu paradeiro, até que os

pombos trouxeram o informe de que a haviam visto na parte mais

afastada de Willingdon, atrelada a uma bonita charrete vermelha e

preta, em frente a uma taverna. Um homem gordo, de rosto

vermelho, calças xadrez e polainas, com todo o tipo de

estalajadeiro, passava-lhe a mão no focinho e dava-lhe torrões de




açúcar. Estava de pelo bem tosado e usava uma fita escarlate no

topete. Parecia muito satisfeita, disseram os pombos. Os bichos

nunca mais falaram em Mimosa.


Em janeiro, o tempo piorou terrivelmente. A terra, dura como ferro,

não permitia o trabalho no campo. Houve muitas reuniões no celeiro

grande, e os porcos passaram ao planejamento dos trabalhos a

realizar na estação seguinte. Ficara acertado que os porcos, sendo

manifestamente mais inteligentes que os outros animais, decidiriam

todas as questões referentes à política agrícola da granja, embora

suas decisões devessem ser ratificadas pelo voto da maioria. Essa

combinação teria funcionado muito bem, não fossem as disputas

entre Bola-de-Neve e Napoleão. Esses dois discordavam em todos

os pontos passíveis de discordância. Se um propunha o aumento da

área de plantio de cevada, era certo que o outro proporia uma área

maior para o cultivo de aveia, e se um dissesse que tais e tais lotes

eram ótimos para plantar repolho, o outro diria que só prestavam

para nabos. Cada qual tinha seus seguidores, e havia debates

violentos. Nas reuniões, Bola-de-Neve frequentemente obtinha a

maioria, por seus discursos brilhantes, porém Napoleão era o

melhor na cabala de apoio durante os intervalos. Obtinha sucesso

especial com as ovelhas. Ultimamente elas haviam criado o hábito

de balir “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” em ocasiões

próprias ou impróprias, e muitas vezes interrompiam a reunião

dessa maneira. Notou-se que mostravam especial disposição de

atacar o “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” justo quando Bola-

de-Neve chegava a um momento crucial de seus discursos. Bola-

de-Neve estudara atentamente alguns números atrasados da revista

O Agricultor e o Criador de Gado, encontrados na casa-grande, e

andava com a cabeça cheia de projetos de invenções e

melhoramentos. Falava com grande conhecimento de causa sobre

drenagens, ensilagem, escórias básicas, e havia elaborado um

complexo esquema segundo o qual os bichos evacuariam

diretamente no campo, em pontos diferentes cada dia, para

economizar o trabalho do transporte de esterco. Napoleão não fazia

projetos próprios, apenas dizia com toda a calma que os de Bola-de-

Neve não dariam em nada e parecia aguardar sua vez. De todas as




divergências, porém, nenhuma foi tão séria quanto a do moinho de

vento.


Não muito longe das casas havia um outeiro que era o ponto mais

alto da granja. Depois de realizar uma pesquisa no solo, Bola-de-

Neve declarou ser o local ideal para a construção de um moinho de

vento que poderia acionar um dínamo e suprir de energia elétrica

toda a granja. As baias teriam luz e aquecimento no inverno, haveria

força para uma serra circular, para moagem de cereais, para o corte

da beterraba de forragem e para um sistema de ordenha elétrica. Os

animais nunca tinham sequer ouvido falar nessas coisas (pois a

granja era antiquada, com aparelhagem das mais primitivas) e

escutaram boquiabertos Bola-de-Neve fazer desfilar como por

encanto, ante sua imaginação, as figuras dos aparelhos mais

espetaculares, máquinas que fariam todo o serviço em seu lugar,

enquanto eles aproveitariam a folga pastando ou cultivando a mente

através da leitura e da conversação.


Em poucas semanas, o projeto de Bola-de-Neve para o moinho

de vento ficou pronto. Os detalhes mecânicos foram retirados

principalmente de três livros que haviam pertencido ao sr. Jones —

Mil coisas úteis para sua casa, Seja o seu próprio pedreiro e

Eletricidade para principiantes. Bola-de-Neve utilizou como estúdio

um galpão que antes abrigara incubadoras e cujo piso era de

madeira lisa, própria para desenhar. Lá permanecia horas a fio, com

os livros abertos sob o peso de uma pedra e uma barra de giz entre

as duas pontas do casco. Andava lépido para lá e para cá, riscando

linhas e mais linhas e soltando guinchos de entusiasmo.


Aos poucos o projeto foi se transformando numa complicada

massa de manivelas e engrenagens que cobria quase metade do

assoalho, e que os outros animais achavam completamente

ininteligível — mas impressionante. Pelo menos uma vez por dia,

cada um vinha olhar os desenhos de Bola-de-Neve. Até as galinhas

e os patos apareciam, pisando com grande dificuldade para não

estragar os riscos de giz. Apenas Napoleão permaneceu

desinteressado. Havia se declarado contra o moinho de vento desde

o início. Um dia, entretanto, chegou de surpresa para ver o projeto.

Caminhou pesado em volta do galpão, olhou detidamente cada

detalhe do desenho, farejou-o uma ou duas vezes, depois deteve-se




a contemplá-lo por alguns instantes pelo canto dos olhos; então de

repente levantou a pata, urinou sobre o projeto e saiu sem proferir

palavra.


A granja estava profundamente dividida com respeito ao moinho

de vento. Bola-de-Neve não negava que sua construção era um

empreendimento difícil. Seria necessário carregar pedras e

transformá-las em paredes, depois construir as pás, e por fim

haveria necessidade de dínamos e fios (onde seriam encontrados,

Bola-de-Neve não dizia). Mas afirmava que tudo poderia ser feito

em um ano. Depois disso, dizia, tanto trabalho seria poupado que

bastariam apenas três dias de trabalho por semana. Napoleão, por

seu lado, argumentava que a grande necessidade do momento era

aumentar a produção de alimentos, e que eles morreriam de fome

se perdessem tempo com o moinho de vento. Os animais dividiram-

se em duas facções que se alinhavam sob os dísticos: “Vote em

Bola-de-Neve e na semana de três dias” e “Vote em Napoleão e na

manjedoura cheia”. Benjamim foi o único animal que não tomou

partido. Recusava-se a crer, tanto em que haveria fartura de

alimento como em que o moinho de vento economizaria trabalho.

Moinho ou não moinho, dizia ele, a vida seguiria como sempre — ou

seja, mal.


Além da disputa sobre o moinho de vento, havia o problema da

defesa da granja. Eles bem sabiam que, embora os humanos

tivessem sido derrotados na Batalha do Estábulo, poderiam fazer

outra tentativa, mais em força, para retomar a granja e restaurar

Jones. Tinham as melhores razões para tentar, pois a notícia da

derrota se espalhara por todo o interior e tornara os animais das

granjas vizinhas mais rebeldes do que nunca. Como de hábito, Bola-

de-Neve e Napoleão não estavam de acordo. Segundo Napoleão, o

que os animais deveriam fazer era conseguir armas de fogo e

instruir-se em seu emprego. Bola-de-Neve achava que deveriam

enviar mais e mais pombos e provocar a rebelião entre os bichos

das outras granjas. O primeiro argumentava que, incapazes de

defender-se, estavam destinados à submissão; o outro alegava que,

fomentando revoluções em toda parte, não teriam necessidade de

defender-se. Os animais ouviam Napoleão, depois Bola-de-Neve, e




não chegavam a conclusão nenhuma sobre quem tinha razão; na

verdade, estavam sempre de acordo com quem falava no momento.


Por fim, chegou o dia em que o projeto de Bola-de-Neve ficou

pronto. Na reunião do domingo seguinte deveria ser posta em

votação a questão de começar ou não o trabalho no moinho de

vento. Quando os animais se reuniram no grande celeiro, Bola-de-

Neve levantou-se e, embora fosse interrompido de vez em quando

pelo balido das ovelhas, expôs suas razões em favor da construção

do moinho de vento. Depois levantou-se Napoleão, para rebater.

Disse calmamente que o moinho de vento era uma tolice e que não

aconselhava ninguém a votar a favor daquilo. Sentou-se de novo;

falara durante trinta segundos, se tanto, e parecia indiferente ao

resultado. Ante isso, Bola-de-Neve pôs-se de pé outra vez, calou a

gritos as ovelhas, que começavam a balir de novo, e irrompeu num

candente apelo em favor do moinho de vento. Até então, os bichos

estavam quase igualmente divididos em sua simpatia, mas num

instante a eloquência de Bola-de-Neve arrastou a todos. Com

sentenças ardentes, pintou um quadro de como poderia ser a

Granja dos Bichos quando o trabalho sórdido fosse tirado dos

ombros de todos. Sua imaginação ia agora além da mó de cereais e

do corta-nabos. A eletricidade — disse ele — ia mover

debulhadoras, arados, grades, rolos compressores, ceifeiras e

atadeiras, além de prover a cada baia sua própria luz, água quente

e fria e um aquecedor elétrico. Quando parou de falar, não havia

mais dúvida quanto ao resultado da votação. Porém nesse exato

instante Napoleão levantou-se, e dando uma estranha olhadela de

viés para Bola-de-Neve, soltou um guincho estridente que ninguém

nunca ouvira antes.


Houve um terrível latido do lado de fora, e nove cães enormes

usando coleiras tachonadas de bronze entraram aos saltos no

celeiro. Jogaram-se sobre Bola-de-Neve, que saltou do lugar onde

estava mal a tempo de escapar àquelas presas. Num instante, zuniu

porta afora com os cães em seu encalço. Espantados e

aterrorizados demais para falar, os bichos amontoaram-se na porta

para observar a caçada. Bola-de-Neve corria pelo campo em

direção à estrada, como só um porco sabe correr, mas os cachorros

se aproximavam. De repente ele caiu, e pareceu que o pegariam.




Mas levantou-se outra vez e voou como um desesperado. Já os

cães o alcançavam de novo. Um deles quase fechou as mandíbulas

no rabicho de Bola-de-Neve, que o sacudiu bem na hora. Aí fez um

esforço extremo e, ganhando algumas polegadas, se enfiou por um

buraco da sebe e sumiu.


Calados e aterrados, os animais voltaram furtivamente para

dentro do celeiro. Logo chegaram os cachorros, latindo. A princípio,

ninguém pôde imaginar de onde tinham vindo aquelas criaturas,

mas o mistério logo se aclarou: eram os cachorrinhos que Napoleão

havia tomado das mães e criado em segredo. Embora ainda não

tivessem completado o crescimento, já eram cães enormes, mal-

encarados como lobos. Permaneceram junto a Napoleão, e notou-

se que sacudiam a cauda para ele da mesma maneira como os

outros cachorros outrora faziam para Jones.


Napoleão, com os cães a segui-lo, subiu para o estrado de onde o

Major fizera seu discurso. Anunciou que daquele momento em

diante terminariam as reuniões aos domingos de manhã. Eram

desnecessárias, disse ele, uma perda de tempo. Para o futuro,

todos os problemas relacionados com o funcionamento da granja

seriam resolvidos por uma comissão de porcos, presidida por ele,

que se reuniria em particular e depois comunicaria as decisões aos

demais. Os animais continuariam a reunir-se aos domingos para

saudar a bandeira, cantar “Bichos da Inglaterra” e receber as ordens

da semana; não haveria debates.


A despeito do estado de choque em que a expulsão de Bola-de-

Neve os deixara, os bichos caíram das nuvens com aquela notícia.

Vários teriam protestado, se conseguissem achar os argumentos.

Até Sansão ficou um tanto inquieto. Murchou as orelhas, sacudiu o

topete várias vezes e fez um esforço tremendo para pôr em ordem

as ideias; mas afinal não conseguiu pensar em nada para dizer.

Alguns porcos, porém, tinham maior flexibilidade de raciocínio.

Quatro jovens porcos castrados, colocados na primeira fila, soltaram

altos guinchos de protesto e levantaram-se, falando a um só tempo.

Mas os cachorros, junto de Napoleão, deram um rosnado fundo e

ameaçador, e os porcos calaram-se, sentando-se de novo. Aí

estrondaram as ovelhas um formidável balido de “Quatro pernas




bom, duas pernas ruim”, que durou cerca de um quarto de hora,

acabando com qualquer hipótese de discussão.


Mais tarde, Garganta foi mandado percorrer a granja para explicar

a nova situação aos demais.


“Camaradas”, ele disse, “tenho certeza de que cada animal

compreende o sacrifício que o Camarada Napoleão faz ao tomar

sobre seus ombros mais esse trabalho. Não penseis, camaradas,

que a liderança seja um prazer. Pelo contrário, é uma enorme e

pesada responsabilidade. Ninguém mais que o Camarada Napoleão

crê firmemente que todos os bichos são iguais. Feliz seria ele se

pudesse deixar-vos tomar decisões por vossa própria vontade; mas

às vezes poderíeis tomar decisões erradas, camaradas; e então,

onde iríamos parar? Suponhamos que tivésseis decidido seguir

Bola-de-Neve, com suas miragens de moinho de vento — logo Bola-

de-Neve, que, como hoje sabemos, não passava de um criminoso?”


“Ele foi valente na Batalha do Estábulo”, disse alguém.

“Valentia não basta”, respondeu Garganta. “A lealdade e a


obediência são mais importantes. E quanto à Batalha do Estábulo,

acredito, tempo virá em que verificaremos que o papel de Bola-de-

Neve foi muito exagerado. Disciplina, camaradas, disciplina férrea!

Esse é o lema para os dias que correm. Um passo em falso, e o

inimigo estará sobre nós. Por certo, camaradas, não quereis Jones

de volta, hein?”


Uma vez mais, esse argumento era irrespondível. Sem dúvida

alguma, os bichos não desejavam Jones de volta; e se a realização

dos debates dominicais podia ter essa consequência, então que

cessassem os debates. Sansão, que já tivera tempo de pensar,

expressou o sentimento geral: “Se é o que diz o Camarada

Napoleão, deve estar certo”. E daí por diante adotou a máxima

“Napoleão tem sempre razão”, acrescentando-a ao seu lema

particular “Trabalharei mais ainda”.


Já com o tempo melhor, iniciou-se a arada da primavera. O

galpão em que Bola-de-Neve desenhara o projeto do moinho de

vento foi trancado, e os desenhos, provavelmente apagados. Todos

os domingos, às dez horas, os animais reuniam-se no grande

celeiro para receber as ordens da semana. A caveira do velho

Major, já sem carnes, fora desenterrada e colocada sobre um toco




ao pé do mastro, junto da espingarda. Após o hasteamento da

bandeira, os animais deviam desfilar reverentemente perante a

caveira, antes de entrar no celeiro. Já não sentavam todos juntos,

como antes. Napoleão, com Garganta e outro porco chamado

Mínimo, dono de notável talento para compor canções e poemas,

aboletavam-se sobre a parte fronteira da plataforma, os nove

cachorros em semicírculo ao redor deles, e os outros porcos atrás.

O restante dos animais ficava de frente para eles, no chão do

celeiro. Napoleão lia as ordens da semana num áspero estilo militar,

e após cantarem uma única vez “Bichos da Inglaterra”, os animais

se dispersavam.


No terceiro domingo após a expulsão de Bola-de-Neve, os bichos

ficaram muito surpresos ao ouvir Napoleão anunciar que o moinho

de vento seria finalmente construído. Napoleão não deu nenhuma

explicação sobre o motivo que o fizera mudar de ideia, apenas

alertando os animais de que essa tarefa extraordinária significaria

trabalho mais duro, podendo até ser necessário reduzirem-se as

rações. O projeto, entretanto, estava formulado até o último detalhe.

Uma comissão especial de porcos trabalhara nele durante as três

últimas semanas. A construção do moinho de vento, com vários

outros melhoramentos, deveria levar dois anos.


Naquela tarde, Garganta explicou aos outros bichos, em

particular, que Napoleão nunca fora contra a construção do moinho

de vento. Pelo contrário, ele é que advogara a ideia desde o início, e

o projeto que Bola-de-Neve havia desenhado no assoalho do galpão

das incubadoras fora, na realidade, roubado de entre os papéis de

Napoleão. O moinho de vento era, na verdade, criação do próprio

Napoleão. Por que, então, perguntou alguém, ele falou tanto contra

o moinho? Garganta olhou, manhoso. Aí é que estava a esperteza

do Camarada Napoleão, disse. Ele fingira ser contra o moinho de

vento, apenas como manobra para livrar-se de Bola-de-Neve, que

era um péssimo caráter e uma influência perniciosa. Agora que

Bola-de-Neve saíra do caminho, o projeto podia prosseguir sem a

sua interferência. Isso, disse Garganta, era uma coisa chamada

tática. Repetiu inúmeras vezes: “Tática, camaradas, tática!”,

saltando à roda e sacudindo o rabicho, com um riso jovial. Os bichos

não estavam muito certos do significado da palavra, mas Garganta




falava de modo tão persuasivo, e três cachorros — que por

coincidência estavam com ele — rosnavam tão ameaçadores que

eles aceitaram a explicação sem mais perguntas.


*




6.

Todo aquele ano, os bichos trabalharam feito escravos. Mas


trabalhavam felizes; não mediam esforço ou sacrifício, cientes de

que tudo quanto fizessem reverteria em benefício deles próprios e

dos de sua espécie, que estavam por vir, e não em proveito de um

bando de seres humanos preguiçosos e aproveitadores.


Na primavera e no verão, enfrentaram uma semana de sessenta

horas de trabalho, e em agosto Napoleão fez saber que haveria

trabalho também nos domingos à tarde. Esse trabalho era

estritamente voluntário, porém o bicho que não aceitasse teria sua

ração diminuída pela metade. Mesmo assim, ficou alguma coisa por

fazer. A colheita foi pouco menor que a do ano anterior, e duas

lavouras, que deveriam receber nabos no início do verão, não foram

plantadas por não ter sido possível ará-las a tempo. Era fácil prever

que o inverno seria bastante duro.


A construção do moinho de vento apresentou dificuldades

imprevistas. Havia na granja uma boa pedreira, e grande quantidade

de areia e cimento fora encontrada num depósito, portanto o

material para a construção existia e estava à mão. O problema que

os animais não conseguiram resolver, de início, foi o de quebrar as

pedras no tamanho desejado. Não parecia haver outra maneira

senão com furadeiras e alavancas, coisas que nenhum animal podia

usar, porque não lhes era possível ficar sobre duas patas. Somente

após semanas de trabalho em vão foi que ocorreu a alguém a ideia

certa — aproveitar a força da gravidade. Pelo leito da pedreira

jaziam pedras enormes, demasiado grandes para ser usadas como

estavam. Os bichos amarravam cordas em torno das pedras, e

todos juntos, cavalos, vacas, ovelhas, todo animal que fosse capaz

de segurar os cabos — em certos momentos críticos até os porcos

entravam no grupo —, arrastavam-nas com desesperadora lentidão

até o ponto mais elevado da pedreira, de cuja borda eram

derrubadas para despedaçarem-se embaixo. O transporte das




pedras, uma vez quebradas, era relativamente simples. Os cavalos

carregavam-nas em carroças, as ovelhas arrastavam blocos

individuais, até mesmo Maricota e Benjamim atrelaram-se a uma

velha charrete e fizeram sua parte. No fim do verão já haviam

acumulado um bom estoque de pedras, e então começou a

construção, sob a superintendência dos porcos.


Entretanto, o processo era demorado e laborioso. Muitas vezes,

levavam um dia inteiro para arrastar uma pedra das maiores até o

topo da pedreira, e era frequente que, atirada pela borda, ela não

quebrasse. Nada se teria feito sem Sansão, cuja força parecia igual

à de todos os outros bichos juntos. Quando a pedra começava a

escorregar e os animais gritavam de desespero ao se ver arrastados

ladeira abaixo, era sempre Sansão que retesava os cabos e

continha a pedra. Vê-lo na faina da subida, palmo a palmo, com a

respiração acelerada, os costados molhados de suor e as pontas

dos cascos cravadas no solo, era algo que enchia a todos de

admiração. Quitéria recomendava-lhe que tivesse cuidado e não se

esforçasse demais, mas Sansão não lhe dava ouvidos. As duas

máximas “Trabalharei mais ainda” e “Napoleão tem sempre razão”

pareciam resolver todos os seus problemas. Pediu a um dos galos

que o acordasse três quartos de hora mais cedo, pela manhã, em

vez de meia hora. E nos momentos de folga, coisa que nos últimos

tempos não sucedia muito amiúde, ia sozinho à pedreira, juntava um

monte de pedras quebradas e puxava-o até o local do moinho de

vento, sem ajuda de ninguém.


Os bichos não passaram muito mal aquele inverno, malgrado a

dureza do trabalho. Se não dispunham de mais alimentos do que no

tempo de Jones, também não tinham menos. A vantagem de só

terem a si próprios para alimentar, sem os cinco esbanjadores seres

humanos, era tão grande que compensava bem algumas faltas. E

em muitos aspectos seus métodos eram mais eficientes e

econômicos. Certas tarefas, como, por exemplo, a limpeza de ervas

daninhas, podiam ser realizadas com uma perfeição impossível para

os humanos. E como nenhum animal roubava, não houve

necessidade de separar as pastagens das terras aráveis, o que

evitou o grande trabalho da construção de cercas e porteiras.

Mesmo assim, à medida que o verão passava, alguma escassez




imprevista começou a se fazer sentir. Faltaram óleo de parafina,

pregos, corda, biscoitos para os cachorros e ferraduras para os

cavalos, coisas que não podiam ser fabricadas na granja. Mais

tarde, faltaram também sementes e adubo artificial, além de vários

tipos de ferramentas, e finalmente a maquinaria para o moinho de

vento. Como obter isso tudo, ninguém conseguia imaginar.


Um domingo de manhã, quando os bichos se reuniram para

receber as ordens, Napoleão anunciou sua decisão de encetar uma

nova política. A partir daquele dia, a Granja dos Bichos passaria a

comerciar com as da vizinhança; naturalmente, sem nenhum

objetivo de lucro, mas com o fito único de obter algumas

mercadorias urgentemente necessárias. As exigências do moinho

de vento deviam sobrepujar tudo o mais, disse. Em consequência,

ele estava tratando da venda de uma grande meda de feno e de

parte da safra de trigo daquele ano; mais tarde, caso fosse

necessário mais dinheiro, teria de ser obtido com a venda de ovos,

para os quais sempre havia mercado em Willingdon. As galinhas,

disse Napoleão, deveriam agradecer a oportunidade de oferecer

esse sacrifício, como contribuição especial em prol da construção do

moinho de vento.


Os animais sentiram outra vez uma vaga inquietude. Nunca ter

contato com seres humanos, nunca comerciar, jamais usar dinheiro

— pois não estavam tais coisas entre as primeiras moções

passadas naquela formidável Reunião inicial, logo após a expulsão

de Jones? Todos se lembravam da aprovação dessas resoluções —

ou pelo menos julgavam lembrar-se. Os quatro jovens porcos

castrados que haviam protestado quando Napoleão acabara com as

reuniões levantaram timidamente a voz, mas foram logo silenciados

pelo rosnar medonho dos cachorros. Nesse instante, como de

hábito, as ovelhas irromperam em “Quatro pernas bom, duas pernas

ruim!”, e a momentânea impertinência foi abafada. Finalmente,

Napoleão levantou a pata ordenando silêncio e declarou que já

havia tomado todas as providências. Não haveria necessidade de

nenhum animal entrar em contato com seres humanos, coisa que

seria da maior inconveniência. Ele pretendia tomar sobre seus

ombros toda essa carga. Um certo sr. Whymper, que era advogado

em Willingdon, concordara em atuar como intermediário entre a




Granja dos Bichos e o mundo exterior, e viria à granja todas as

segundas-feiras pela manhã, a fim de receber instruções. Napoleão

finalizou o discurso com sua exclamação habitual de “Viva a Granja

dos Bichos!”, e após cantarem “Bichos da Inglaterra” os animais

foram dispensados.


Depois, Garganta percorreu a granja para tranquilizá-los.

Assegurou-lhes que tal resolução contra o engajamento no comércio

e o uso de dinheiro jamais fora aprovada, aliás nem sequer

apresentada. Era pura imaginação, e provavelmente tinha origem

em mentiras inventadas por Bola-de-Neve. Alguns bichos ainda

estavam em dúvida, porém Garganta, astuto, perguntou: “Vocês

estão certos de que não sonharam? Existe algum registro dessa

resolução? Está escrita em algum lugar?”. E uma vez que realmente

não existia nada assim escrito, os animais se convenceram do

engano.


Todas as segundas-feiras o sr. Whymper visitava a granja,

conforme o combinado. Era um homenzinho finório, de suíças

crescidas, procurador de pouca clientela, porém vivo o suficiente

para perceber, antes de qualquer outro, que a Granja dos Bichos

precisaria de um representante e que as comissões seriam

polpudas. Os bichos olhavam suas idas e vindas com um certo

receio e evitavam-no tanto quanto possível. Apesar disso, ver

Napoleão, de quatro, dando ordens a Whymper, que permanecia em

pé sobre duas pernas, era uma coisa que lhes acariciava o orgulho

e parcialmente os reconciliava com a nova situação. As relações

com o gênero humano andavam bem diferentes. Os humanos não

odiavam menos a Granja dos Bichos, agora que ela prosperava; na

verdade, odiavam-na mais que nunca. Todo ser humano tinha como

certo que a granja iria à bancarrota mais cedo ou mais tarde e,

sobretudo, que o moinho de vento seria um fracasso. Reuniam-se

nas tavernas e provavam uns aos outros, por meio de gráficos e

diagramas, que o moinho estava fadado a desabar e, caso se

mantivesse erguido, jamais funcionaria. Não obstante, mesmo

contra a vontade, haviam criado certo respeito pela eficiência com

que os bichos conduziam seus assuntos. Sintoma disso foi o fato de

começarem a chamar o sítio de Granja dos Bichos, deixando de

fingir que ela ainda se chamava Granja do Solar. Haviam também




acabado com o cartaz de Jones, que perdera toda a esperança de

reaver sua granja e fora viver noutro lugar. Até agora, exceto através

de Whymper, não houvera contato entre a Granja dos Bichos e o

mundo exterior, mas já circulavam insistentes boatos de que

Napoleão estava por chegar a um decisivo acordo de negócios, ora

com Pilkington, de Foxwood, ora com Frederick, de Pinchfield —

mas nunca, interessante, com ambos ao mesmo tempo.


Foi mais ou menos por essa época que os porcos, de repente, se

mudaram para a casa-grande, onde fixaram residência. Mais uma

vez os bichos julgaram lembrar-se de que havia uma resolução

contra isso, aprovada nos primeiros dias, e de novo Garganta

conseguiu convencê-los do contrário. Era absolutamente

necessário, ele disse, que os porcos, sendo os cérebros da granja,

tivessem um lugar calmo onde trabalhar. Além disso, viver numa

casa era mais adequado à dignidade do Líder (nos últimos tempos

dera para referir-se a Napoleão pelo título de “Líder”) do que viver

numa simples pocilga. Mesmo assim, alguns animais se

aborreceram ao ouvir dizer que os porcos não só faziam as

refeições na cozinha e utilizavam a sala como local de recreação,

mas ainda dormiam nas camas. Sansão resolveu o assunto com

seu “Napoleão tem sempre razão”; Quitéria, porém, que tinha a

impressão de lembrar-se de uma lei específica contra camas, foi até

o fundo do celeiro e tentou decifrar os Sete Mandamentos que lá

estavam escritos. Sentindo-se incapaz de ler mais do que algumas

letras separadamente, foi chamar Maricota.


“Maricota”, pediu, “leia para mim, por favor, o Quarto

Mandamento. Não diz qualquer coisa de nunca dormir em camas?”


Com alguma dificuldade, Maricota soletrou o mandamento:

“Diz que ‘Nenhum animal dormirá em cama com lençóis’.”

Curioso, Quitéria não se recordava dessa menção a lençóis no


Quarto Mandamento. Mas se estava escrito na parede, devia haver.

E Garganta, que por acaso passava nesse momento, acompanhado

de dois cachorros, colocou todo o assunto na perspectiva adequada.


“Com que então vocês, camaradas, ouviram dizer que nós, os

porcos, agora dormimos nas camas da casa? E por que não? Vocês

não supunham, por certo, que houvesse uma lei contra camas, não

é? A cama é meramente o lugar onde se dorme. Vendo bem, um




monte de palha no estábulo é uma cama. A lei era contra os lençóis,

que são uma invenção humana. Nós retiramos os lençóis das

camas da casa e dormimos entre cobertores. Confortáveis, lá isso

são! Porém não mais do que necessitamos, posso afirmar,

camaradas, com todo o trabalho intelectual que atualmente recai

sobre nós. Vocês não seriam capazes de negar-nos o repouso,

camaradas, seriam? Não desejariam nos ver tão cansados que não

pudéssemos cumprir nossa missão, não é verdade? Será que

alguém quer Jones de volta?”


Os animais tranquilizaram-no a esse respeito, e não se falou mais

no fato de os porcos dormirem nas camas da casa. E quando se

anunciou, alguns dias depois, que os porcos passariam a levantar-

se, de manhã, uma hora mais tarde que os outros bichos, ninguém

se queixou disso também.


Ao chegar o outono, os animais estavam cansados mas felizes.

Haviam tido um ano difícil, e após a venda de uma parte da safra de

feno e de trigo, os estoques para o inverno não eram lá muito

abundantes, mas o moinho de vento compensava tudo. Já estava

quase pela metade. Após a colheita houve um período de tempo

bom, e os bichos trabalharam mais do que nunca, satisfeitos com a

tarefa de andar para lá e para cá puxando blocos de pedras, desde

que com isso conseguissem fazer a parede subir mais alguns

centímetros. Sansão chegava a trabalhar de noite, uma hora ou

duas, por sua conta, à luz da lua. Nas horas de folga os animais

passeavam em volta do moinho inacabado, admirando a solidez e a

verticalidade de suas paredes, maravilhados com o fato de terem

sido capazes de construir algo tão imponente. Somente o velho

Benjamim se recusava a entusiasmar-se com o moinho de vento,

embora, como sempre, não pronunciasse nada além do enigmático

comentário de que os burros vivem muito tempo.


Novembro chegou, com fortes ventos de sudoeste. Foi preciso

interromper a construção, pois o tempo estava úmido demais para a

mistura de cimento. Finalmente, houve uma noite em que a

tormenta foi tão forte que os galpões da granja tremeram na base e

várias telhas do celeiro foram arrancadas. As galinhas acordaram

cacarejando aterrorizadas, pois haviam sonhado, todas ao mesmo

tempo, com o barulho de um tiro ao longe. Pela manhã, ao saírem




os animais de suas baias, deram com o mastro caído no chão e

viram o olmeiro do pomar desgalhado como um rabanete. Mal

haviam notado isso, quando soltaram um grito lancinante de

desespero. Visão terrível se apresentava aos seus olhos: o moinho

de vento estava em ruínas.


Correram todos para o local. Napoleão, que raras vezes

abandonava seu passo normal à frente de todos, correu também.

Sim, ali estava o moinho, o fruto de todas as suas lutas, caído ao

nível dos alicerces; e as pedras, que de modo tão laborioso haviam

levantado, espalhadas pelas redondezas. Impossível falar, de início;

ali ficaram, olhando com tristeza a desordem das pedras no chão.

Napoleão andava devagar de um lado para outro, em silêncio, de

vez em quando farejando o chão aqui e ali. Seu rabicho se esticava

e se sacudia energicamente, para lá e para cá, num sinal de febril

atividade mental. De repente estacou, como se tivesse chegado a

uma conclusão.


“Camaradas”, disse com toda a calma, “sabem quem é o

responsável por isto? Sabem quem foi o inimigo que, na calada da

noite, destruiu nosso moinho de vento? BOLA-DE-NEVE!”, rugiu violento,

com voz de trovão. “Bola-de-Neve foi o autor disto! Com rematada

maldade, pensando em destruir nossos planos e vingar-se de sua

ignominiosa expulsão, esse traidor insinuou-se até aqui, sob o

manto da escuridão, e destruiu nosso labor de quase um ano.

Camaradas, neste local e neste momento, pronuncio a sentença de

morte para Bola-de-Neve. Uma Herói Animal, Segunda Classe e

meio balde de maçãs ao animal que lhe fizer justiça. Um balde

inteiro a quem o capturar vivo!”


Os animais ficaram chocadíssimos ao saber que até Bola-de-

Neve fora capaz de uma coisa daquelas. Subiu ao céu um brado de

indignação, e cada um pôs-se a pensar num modo de pegar Bola-

de-Neve, se algum dia ele ousasse voltar. Quase ao mesmo tempo,

descobriram-se as pegadas de um porco a pequena distância da

colina. Embora marcassem apenas alguns metros, pareciam dirigir-

se a um buraco da sebe. Napoleão cheirou-as profundamente e

declarou serem de Bola-de-Neve. Na sua opinião, ele

provavelmente viera da Granja Foxwood.




“Não percamos tempo, camaradas!”, bradou Napoleão, depois do

exame das pegadas. “Temos muito trabalho pela frente. Hoje

mesmo, esta manhã, recomeçaremos a construção do moinho de

vento e trabalharemos por todo o inverno, com sol ou com chuva.

Mostraremos a esse traidor miserável que ele não pode desfazer

nosso trabalho assim tão fácil. Lembrem-se, camaradas, não deve

haver mudança em nossos planos: serão cumpridos à risca. Para a

frente, camaradas! Viva o moinho de vento! Viva a Granja dos

Bichos!”


*




7.

Aquele inverno foi horrível. Às tempestades seguiram-se o granizo


e as nevadas, depois o gelo, que só derreteu em meados de

fevereiro. Os bichos fizeram todo o possível na reconstrução do

moinho de vento, conscientes de que o mundo tinha os olhos sobre

eles e de que os invejosos seres humanos vibrariam de

contentamento se o moinho não fosse concluído a tempo.


Apesar de tudo, os humanos recusaram-se a crer que Bola-de-

Neve tivesse destruído o moinho de vento: afirmavam que as

paredes ruíram porque eram finas demais. Os animais sabiam não

ser essa a causa. Mesmo assim, deliberaram dessa vez construir as

paredes com noventa centímetros de largura, em vez de quarenta e

cinco, como inicialmente, o que exigia muito mais pedra. Durante

longo tempo, a pedreira esteve coberta de neve e foi impossível

fazer qualquer coisa. Algum progresso se conseguiu depois, no

tempo gelado e seco que se seguiu, mas foi um trabalho cruel, e os

animais já não o realizavam com a mesma esperança de antes.

Andavam sempre com frio, e em geral com fome. Só Sansão e

Quitéria nunca desanimavam. Garganta fazia excelentes discursos

sobre a alegria e a dignidade do trabalho, mas os animais

encontravam mais inspiração na força de Sansão e no seu

indefectível brado “Trabalharei mais ainda!”.


Em janeiro, a comida diminuiu. A ração de milho foi drasticamente

reduzida, e anunciou-se que uma ração extra de batata seria

entregue em seu lugar. Descobriu-se, então, que a maior parte da

colheita de batatas estava congelada, nas pilhas desprotegidas.

Moles e descoradas, poucas estavam em condição de ser

consumidas. Durante dias seguidos, os bichos não tiveram senão

palha e nabos para comer. O espectro da fome parecia surgir à sua

frente.


Era imprescindível ocultar esse fato ao resto do mundo.

Encorajados pelo colapso do moinho de vento, os humanos




andavam renovando mentiras sobre a Granja dos Bichos. Mais uma

vez, dizia-se que os bichos morriam de fome e doença, que

brigavam continuamente entre si e que haviam descambado para o

canibalismo e o infanticídio. Napoleão bem sabia dos maus

resultados que poderiam advir caso a verdadeira situação alimentar

da granja fosse conhecida, e resolveu utilizar o sr. Whymper para

divulgar uma impressão contrária. Até então, os animais haviam tido

muito pouco ou nenhum contato com Whymper, em suas visitas

semanais: agora, entretanto, alguns bichos selecionados,

principalmente ovelhas, foram instruídos para comentar,

casualmente, mas de forma bem audível, o fato de terem sido

aumentadas as rações. Em complemento, Napoleão deu ordens

para que as tulhas do depósito, que estavam quase vazias, fossem

recheadas de areia quase até a boca, depois completadas com

cereais e farinha grossa. A um pretexto qualquer, Whymper foi

conduzido através do depósito e pôde dar uma olhada nas tulhas.

Foi ludibriado e continuou a dizer lá fora que, absolutamente, não

havia falta de alimento na Granja dos Bichos.


Ainda assim, no fim de janeiro, ficou premente a necessidade de

conseguir mais cereais em algum lugar. Naqueles dias, Napoleão

raramente apareceu em público, passando o tempo todo no

casarão, guardado por um cão mal-encarado em cada porta.

Quando surgiu outra vez, foi de maneira cerimoniosa, com uma

escolta de seis cachorros que o cercavam de perto e rosnavam se

alguém se achegasse demais. Muitas vezes não aparecia, nem

sequer aos domingos de manhã, enviando suas ordens por

intermédio de outro porco, de preferência Garganta.


Certa manhã de domingo, Garganta anunciou que as galinhas,

que mal haviam começado a pôr, deveriam entregar-lhe os ovos,

pois Napoleão assinara, por intermédio de Whymper, um contrato de

fornecimento de quatrocentos ovos por semana. O rendimento

pagaria, em cereais e farinha, o bastante para manter a granja até

que chegasse o verão e as condições do tempo melhorassem.


Ao ouvir isso, as galinhas responderam com um grande cacarejo.

Já haviam sido alertadas sobre essa possibilidade, mas não

pensavam que viesse a acontecer. Acabavam de preparar as

ninhadas de ovos para a chocagem da primavera e protestaram




dizendo que tomar-lhes os ovos, agora, era um crime. Pela primeira

vez desde a expulsão de Jones aconteceu algo parecido com uma

rebelião. Lideradas por três jovens frangas minorcas, as galinhas

realizaram uma ação direta visando a contrariar os desejos de

Napoleão. O método usado foi voar para os caibros do telhado e dali

pôr os ovos, que vinham despedaçar-se no chão. Napoleão agiu

rápida e implacavelmente. Cortou a ração das galinhas e decretou

que o bicho que fosse apanhado dando a elas um grão sequer de

alimento seria condenado à morte. Os cachorros fiscalizavam a

execução da ordem. As galinhas resistiram por cinco dias, depois

capitularam e voltaram para os ninhos. Nove haviam morrido. Seus

corpos foram enterrados no pomar, e segundo se disse a causa da

morte fora coccidiose. Whymper nada ouviu sobre esse caso, e os

ovos foram entregues com pontualidade, vindo um caminhão

semanalmente buscá-los.


Entrementes, não se sabia mais de Bola-de-Neve. Havia rumores

de que estaria homiziado numa das granjas vizinhas, Foxwood ou

Pinchfield. Nessa época, Napoleão andava em termos ligeiramente

melhores com os outros proprietários. É que havia no pátio várias

pilhas de madeira, feitas dez anos antes, por ocasião da derrubada

de um bosque de faias. Como a madeira já estava bem seca,

Whymper aconselhara Napoleão a vendê-la, e tanto Pilkington como

Frederick desejavam comprá-la. Napoleão hesitava entre os dois,

sem se decidir. Notou-se que, toda vez que parecia ter chegado a

um acordo com Frederick, surgia o boato de que Bola-de-Neve

estava escondido em Foxwood, ao passo que, quando se inclinava

para Pilkington, Bola-de-Neve deveria andar em Pinchfield.


Subitamente, no início da primavera, descobriu-se um fato

alarmante. Bola-de-Neve estava frequentando a granja à noite, em

segredo! Os bichos ficaram tão preocupados que mal conseguiam

dormir nos estábulos. Todas as noites, dizia-se, ele se esgueirava

nas sombras e perpetrava um sem-número de maldades. Roubava

milho, entornava baldes de leite, quebrava ovos, esmagava os

viveiros de sementes e roía o córtex das árvores frutíferas. Sempre

que algo errado aparecia, o culpado era Bola-de-Neve. Uma janela

quebrada, um dreno entupido, e alguém com certeza diria que Bola-

de-Neve viera à noite e fizera aquilo; quando se perdeu a chave do




depósito, toda a granja se convenceu de que Bola-de-Neve a jogara

no fundo do poço. Interessante foi continuarem a acreditar, mesmo

depois que a chave perdida foi encontrada sob um saco de farinha.

As vacas declaravam unânimes que Bola-de-Neve entrara em suas

baias e as havia ordenhado durante o sono. Os ratos, por

incomodarem muito durante o inverno, foram tachados de aliados de

Bola-de-Neve.


Napoleão decretou uma ampla investigação sobre as atividades

de Bola-de-Neve. Com seus cachorros em atitude de alerta, saiu e

fez uma cuidadosa inspeção nos galpões da fazenda, com os outros

animais a segui-lo a uma distância respeitosa. A pequenos

intervalos, Napoleão parava e farejava o chão em busca de Bola-de-

Neve, cuja presença, segundo disse, podia perceber pelo faro.

Cheirou cada canto, no celeiro, no estábulo, nos galinheiros, na

horta, encontrando vestígios de Bola-de-Neve em quase toda parte.

Invariavelmente encostava o focinho no chão, puxava algumas

cheiradas profundas e exclamava numa voz terrível: “Bola-de-Neve!

Andou por aqui! Sinto perfeitamente o cheiro!”. E, à palavra “Bola-

de-Neve”, a cachorrada soltava rosnados sanguinários, pondo os

dentes à mostra.


Os animais andavam aterrorizados. Parecia-lhes que Bola-de-

Neve era uma espécie de entidade invisível, impregnando o ar à sua

volta e ameaçando-os com toda espécie de perigos. Certa tarde,

Garganta os reuniu e, com expressão alarmada, disse ter várias

notícias para dar.


“Camaradas”, gritou, cheio de tiques nervosos, “descobrimos uma

coisa pavorosa. Bola-de-Neve vendeu-se a Frederick, da Granja

Pinchfield, que neste mesmo instante está planejando atacar-nos e

tomar nossa granja! Bola-de-Neve será o guia, quando o ataque

começar. Mas ainda há coisa pior. Pensávamos que a rebelião de

Bola-de-Neve fosse causada por sua vaidade e ambição. Pois

estávamos enganados, camaradas. Sabeis qual foi a verdadeira

razão? Bola-de-Neve era aliado de Jones desde o início! Foi, o

tempo todo, agente de Jones. Tudo isso está comprovado em

documentos que deixou e só agora descobrimos. Para mim isso

explica muita coisa, camaradas. Pois não vimos, com nossos

próprios olhos, a maneira como ele tentou — felizmente sem




conseguir — fazer que fôssemos derrotados e destruídos na Batalha

do Estábulo?”


Os bichos ouviam, estupefatos. Isto era um crime muitíssimo

maior do que ter destruído o moinho de vento. Mas alguns minutos

se passaram até eles compreenderem a completa significação de

tudo aquilo. Todos se lembravam, ou julgavam lembrar-se, de ter

visto Bola-de-Neve liderando o ataque na Batalha do Estábulo, de

como ele os encorajava e incitava a cada instante, não titubeando

um só segundo quando as balas de Jones rasgaram-lhe o dorso. De

início foi um pouco difícil entender como isso se encaixava em sua

aliança com Jones. Até Sansão, que raras vezes fazia perguntas,

ficou confuso. Deitou-se, enfiou as patas dianteiras debaixo do

corpanzil, fechou os olhos e, com grande esforço, tentou reunir os

pensamentos.


“Não acredito”, disse. “Bola-de-Neve lutou bravamente na Batalha

do Estábulo. Isso eu vi com meus próprios olhos. Pois até não lhe

demos uma Herói Animal, Primeira Classe logo depois?”


“Esse foi o nosso erro, camarada, já que agora sabemos — está

tudo lá, nos papéis que encontramos — que, na realidade, ele

tentava nos conduzir à derrota.”


“Mas ele foi ferido”, insistiu Sansão. “Todos nós o vimos

ensanguentado.”


“Era parte do trato”, gritou Garganta. “O tiro de Jones pegou

apenas de raspão. Eu poderia lhes mostrar isso, escrito com a

própria letra dele, se vocês soubessem ler. A combinação era Bola-

de-Neve dar o sinal de retirada no momento crítico e abandonar o

terreno ao inimigo. E ele quase conseguiu isso — posso dizer até

que teria conseguido, não fosse o nosso heroico Líder, o Camarada

Napoleão. Vocês se lembram de que, bem no momento em que

Jones e seus homens atingiram o pátio, Bola-de-Neve, de repente,

virou-se e fugiu, seguido de muitos animais? E não foi nesse exato

momento, quando já nos dominava o pânico e tudo parecia perdido,

que o Camarada Napoleão surgiu bradando ‘Morte à Humanidade!’

e cravou os dentes na perna de Jones? Por certo vocês se lembram

disso, pois não, camaradas?”, exclamou Garganta, dando pulinhos

de um lado para outro.




Bem, agora que Garganta descrevera a cena de maneira tão

vívida, parecia aos animais que de fato se lembravam. Pelo menos

lembravam que, no momento crítico da batalha, Bola-de-Neve dera

meia-volta para fugir. Sansão, porém, ainda permanecia contrafeito.


“Não acredito que Bola-de-Neve fosse traidor desde o começo”,

disse por fim. “O que fez depois é outra coisa. Eu ainda acho que na

Batalha do Estábulo ele foi um bom camarada.”


“Nosso Líder, o Camarada Napoleão”, disse Garganta, falando

devagar e com firmeza, “declarou categoricamente

(categoricamente, camaradas!) que Bola-de-Neve era agente de

Jones desde o início… sim, desde o instante mesmo em que

imaginamos a Rebelião.”


“Ah, aí é diferente!”, respondeu Sansão. “Se o Camarada

Napoleão diz, deve ter razão.”


“Esse é o verdadeiro espírito, camarada!”, exclamou Garganta.

Porém, todos notaram a olhadela feia que deu para Sansão, com

seus olhos matreiros.


Depois virou-se para ir embora, mas se deteve e acrescentou de

maneira contundente:


“Alerto a todos os animais desta fazenda para que mantenham os

olhos bem abertos. Temos motivos para pensar que alguns agentes

secretos de Bola-de-Neve estão ocultos entre nós neste momento!”


Quatro dias depois, à tardinha, Napoleão mandou que os bichos

se reunissem no pátio. Quando todos haviam comparecido,

Napoleão emergiu do casarão, ostentando ambas as suas medalhas

(pois recentemente conferira a si próprio a Herói Animal, Primeira

Classe e a Herói Animal, Segunda Classe), com os nove cachorros

fazendo demonstrações à sua volta e soltando rosnados que davam

calafrios na espinha dos animais. Estes se encolheram silenciosos

em seus lugares, parecendo pressentir que algo horrível estava para

acontecer.


Napoleão postou-se e dirigiu um olhar severo à assistência;

depois deu um guincho estridente. Imediatamente os cachorros

avançaram, pegando quatro porcos pelas orelhas e arrastando-os, a

guinchar de dor e terror, até os pés de Napoleão. As orelhas dos

porcos sangraram, e o gosto do sangue parecia enlouquecer os

cachorros. Para surpresa de todos, três deles lançaram-se sobre




Sansão. Ele reagiu com um pataço, que pegou um dos cachorros

ainda no ar, e apertou-o no chão. O cachorro ganiu pedindo

piedade, e os outros dois fugiram com o rabo entre as pernas.

Sansão olhou para Napoleão para saber se devia liquidar o cachorro

ou deixá-lo ir. Napoleão pareceu mudar de expressão e, ríspido,

ordenou a Sansão que o soltasse, e este ergueu a pata, deixando ir

o cachorro ferido, a uivar.


O tumulto agora havia amainado. Os quatro porcos esperavam

trêmulos, com a culpa desenhada em cada linha do semblante.

Então Napoleão induziu-os a confessar seus crimes. Eram os

mesmos que haviam protestado quando Napoleão abolira as

reuniões dominicais. Sem mais demora, confessaram ter realizado

contatos secretos com Bola-de-Neve desde o dia de sua expulsão e

colaborado com ele na destruição do moinho de vento; confessaram

ainda que também haviam se comprometido a entregar a Granja

dos Bichos a Frederick. Acrescentaram que Bola-de-Neve admitira,

na presença deles, ter sido, durante muitos anos, agente secreto de

Jones. Ao fim da confissão, os cachorros estraçalharam a garganta

dos quatro, e Napoleão, com uma voz ameaçadora, perguntou se

algum outro animal tinha qualquer coisa a confessar.


As três galinhas que haviam liderado a tentativa de reação sobre

os ovos aproximaram-se e declararam que Bola-de-Neve lhes

aparecera em sonho, instigando-as a desobedecer às ordens de

Napoleão. Também foram degoladas. Aí veio um ganso e confessou

ter escondido seis espigas de milho durante a colheita do ano

anterior, comendo-as depois, à noite. Uma ovelha confessou ter

urinado no açude — por insistência, disse, de Bola-de-Neve —, e

duas outras confessaram ter assassinado um velho bode, seguidor

especialmente devotado de Napoleão, perseguindo-o em volta de

uma fogueira quando ele, coitado, estava com um ataque de asma.

Foram mortas ali mesmo. E assim prosseguiu a sessão de

confissões e execuções, até haver um montão de cadáveres aos

pés de Napoleão e um pesado cheiro de sangue no ar, coisa que

não sucedia desde a expulsão de Jones.


Quando tudo acabou, os bichos sobreviventes, com exceção dos

porcos e dos cachorros, retiraram-se furtivos, trêmulos, angustiados.

Não sabiam o que era mais chocante, se a traição dos animais que




se haviam acumpliciado com Bola-de-Neve ou a cruel repressão ali

presenciada. Nos velhos tempos, eram frequentes as cenas de

sangue, igualmente horripilantes, entretanto agora lhes pareciam

ainda piores, uma vez que ocorriam entre eles mesmos. Desde que

Jones deixara a fazenda até aquele dia, nenhum animal matara

outro animal. Nem sequer um rato fora morto. Haviam percorrido o

caminho até a colina do moinho inacabado e de comum acordo

deitaram-se, procurando aquecer uns aos outros — Quitéria,

Maricota, Benjamim, as vacas, as ovelhas e todo o bando de gansos

e galinhas —, todos eles, no fim, exceto a gata, que desaparecera

de repente ao chegar a ordem de Napoleão para a reunião. Durante

algum tempo ninguém falou. Só Sansão permanecia de pé. Andava,

impaciente, de um lado para o outro, batendo com a longa cauda

negra nos flancos e proferindo, de vez em quando, um gemido de

estupefação. Finalmente disse:


“Não entendo. Nunca pensei que coisas assim pudessem

acontecer em nossa granja. Deve ser o resultado de alguma falha

nossa. A solução que vejo é trabalhar mais ainda. Daqui por diante,

vou levantar uma hora mais cedo.”


E saiu no seu trote pesadão, rumo à pedreira. Lá chegando,

juntou dois grandes montes de pedra e arrastou-os até o moinho de

vento, antes de recolher-se para dormir.


Os bichos se amontoaram em volta de Quitéria, em silêncio. O

outeiro onde estavam dava-lhes uma ampla vista da região. A maior

parte da Granja dos Bichos abria-se diante deles — a grande

pastagem que se estendia até a estrada, o campo de feno, o

bosque, o açude, os campos arados onde estava o trigo novo, ainda

fino e verde, e os telhados vermelhos do casario da granja, de onde

saía fumaça pelas chaminés. Era uma tarde clara de primavera. A

grama e a sebe em brotação douravam-se aos raios horizontais do

sol. Jamais a granja lhes parecera — e com uma espécie de

surpresa lembraram que tudo era deles, cada centímetro era de sua

propriedade — um lugar tão agradável. Olhando pela encosta da

colina, Quitéria ficou com os olhos cheios d’água. Se pudesse

exprimir seus pensamentos, diria que aquilo não era bem o que

pretendiam ao se lançarem, anos atrás, ao trabalho de depor o

gênero humano. Aquelas cenas de terror e sangue não eram as que




previra naquela noite em que o velho Major, pela primeira vez, os

incitara à rebelião. Se ela própria pudesse imaginar o futuro, veria

uma sociedade de animais livres da fome e do chicote, todos iguais,

cada qual trabalhando de acordo com sua capacidade, os mais

fortes protegendo os mais fracos, como ela protegera aquela

ninhada de patinhos na noite do discurso do Major. Em vez disso —

não podia compreender por quê — havia chegado uma época em

que ninguém ousava dizer o que pensava, em que cachorros

rosnadores e malignos perambulavam por toda parte e todos eram

obrigados a ver camaradas feitos em pedaços após confessar os

crimes mais chocantes. Não tinha em mente ideias de rebelião ou

desobediência. Sabia que, por piores que fossem, as coisas

estavam muito melhores do que nos tempos de Jones e que antes

de mais nada era preciso evitar o retorno dos humanos. O que quer

que acontecesse, ela permaneceria fiel, trabalharia bastante,

cumpriria as ordens recebidas e aceitaria a liderança de Napoleão.

Mesmo assim, não fora por aquilo que ela e todos os animais

haviam esperado e trabalhado. Não fora para aquilo que haviam

construído o moinho de vento e enfrentado as balas da espingarda

de Jones. Tais eram seus pensamentos, embora ela não tivesse

palavras para expressá-los.


Por fim, sentindo que assim expressaria as palavras que não

conseguia encontrar, começou a cantar “Bichos da Inglaterra”. Os

outros animais, sentados à sua volta, foram aderindo e cantaram o

hino três vezes — bem na melodia, mas lenta e tristemente, como

nunca haviam cantado antes.


Mal haviam terminado de cantar a terceira vez, apareceu

Garganta, seguido de dois cachorros, com ar de quem tem coisa

muito importante a dizer. Anunciou que, por decreto especial do

Camarada Napoleão, a canção “Bichos da Inglaterra” fora abolida.

Daquele momento em diante era proibido cantá-la.


Os animais foram colhidos de surpresa.

“Por quê?”, perguntou Maricota.

“Não há necessidade, camaradas”, respondeu Garganta,


inflexível. “‘Bichos da Inglaterra’ era a canção da Rebelião. Mas

agora completou-se a Revolução. A execução dos traidores, nesta

tarde, foi o ato final. Em ‘Bichos da Inglaterra’ expressávamos nosso




anseio por uma sociedade melhor, no porvir. Ora, essa sociedade já

está criada. Evidentemente o hino não tem mais valor nenhum.”


Mesmo amedrontados como estavam, alguns animais poderiam

ter protestado, se nesse momento as ovelhas não enveredassem

pelo “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, que durou vários

minutos, pondo fim à discussão.


E assim, não mais se ouviu “Bichos da Inglaterra”. Em seu lugar,

Mínimo, o poeta, compusera outra canção que começava dizendo:


Granja dos Bichos, Revolução dos Bichos,

Nenhum de nós jamais te fará mal!


E isso passou a ser cantado todos os domingos após o

hasteamento da bandeira. Mas, de certa forma, nem a letra nem a

música jamais pareceram, para os animais, igualar-se às de “Bichos

da Inglaterra”.


*




8.

Poucos dias mais tarde, quando já amainara o terror causado


pelas execuções, alguns animais lembraram — ou julgaram lembrar

— que o Sexto Mandamento rezava: “Nenhum animal matará outro

animal”. Embora ninguém o mencionasse ao alcance dos ouvidos

dos porcos ou dos cachorros, parecia-lhes que a matança ocorrida

não se encaixava muito bem nisso. Quitéria pediu a Benjamim que

lesse o Sexto Mandamento, e quando Benjamim, como sempre,

respondeu que se recusava a tomar parte em tais assuntos, ela

procurou Maricota, que leu para ela o Sexto Mandamento. Dizia:

“Nenhum animal matará outro animal, sem motivo”. Sabe-se lá por

quê, as duas últimas palavras haviam escapado à memória dos

bichos. Mas eles viam agora que o Sexto Mandamento não fora

violado; sim, pois evidentemente havia boas razões para matar os

traidores que haviam se aliado a Bola-de-Neve.


Durante aquele ano, os bichos trabalharam ainda mais que no

ano anterior. A reconstrução do moinho de vento, as paredes com o

dobro da espessura, a conclusão no prazo marcado, juntamente

com o trabalho normal da granja, era tudo tremendamente

desgastante. Houve momentos em que lhes pareceu que

trabalhavam mais do que no tempo de Jones, sem se alimentar

melhor. Nos domingos de manhã, Garganta, segurando uma

comprida folha de papel, lia para eles relações de estatísticas

comprobatórias de que a produção de todas as classes de gêneros

alimentícios aumentara duzentos, trezentos ou quinhentos por

cento, conforme o caso. Os bichos não viam razão para descrer,

especialmente porque já não conseguiam lembrar-se com clareza

das exatas condições de antes da Rebelião. Mesmo assim, dias

havia em que preferiam ter menos estatísticas e mais comida.


Todas as ordens, agora, eram transmitidas através de Garganta

ou de outro porco. Napoleão não era visto em público mais do que

uma vez a cada quinze dias. E quando aparecia, era acompanhado




não só pela sua comitiva de cães, mas também por um garnisé

preto que marchava à sua frente, atuando como arauto, soltando um

cocoricó antes de cada fala de Napoleão. Mesmo na casa-grande,

diziam, Napoleão habitava um apartamento separado dos demais.

Fazia as refeições sozinho, com dois cachorros para servi-lo, e

comia no serviço de jantar de porcelana da cristaleira da sala.

Anunciou-se também que a espingarda seria disparada,

anualmente, na data do aniversário de Napoleão, assim como nos

outros dois aniversários.


Agora já não mencionavam o líder como “Napoleão”

simplesmente. Referiam-se a ele de maneira formal, como “nosso

Líder, o Camarada Napoleão”, e os porcos gostavam de inventar

para ele títulos tais como “Pai de Todos os Bichos”, “Terror da

Humanidade”, “Protetor dos Apriscos”, “Amigo dos Pintainhos” e

assim por diante. Garganta, em seus discursos, com lágrimas

rolando pelo focinho, falava da sabedoria de Napoleão, da bondade

de seu coração, do profundo amor que devotava aos animais de

toda parte, mesmo — e especialmente — aos infelizes animais que

ainda viviam na ignorância e na escravidão em outras granjas.

Tornara-se comum dar a Napoleão crédito por todos os êxitos e

todos os golpes de sorte. Ouvia-se frequentemente uma galinha

comentar com outra: “Sob a orientação do nosso Líder, o Camarada

Napoleão, botei cinco ovos em seis dias”; ou duas vacas, bebendo

juntas no açude, exclamarem: “Graças à liderança do Camarada

Napoleão, que gosto bom tem esta água!”. O sentimento geral da

granja era bem expresso num poema intitulado “O Camarada

Napoleão”, composto por Mínimo, que dizia assim:


Amigo dos orfãozinhos!

Fonte da felicidade!

Senhor do balde de lavagem! Oh, minh’alma arde

Em fogo quando te vejo

Assim, calmo e soberano,

Como o sol na imensidão,

Camarada Napoleão!

Tu és aquele que tudo dá, tudo

Quanto as pobres criaturas amam.

Duas barrigas cheias por dia, palha limpa onde rolar;




Os bichos todos, grandes, pequenos,

Dormem tranquilos, enquanto

Zelas tu por nós na solidão,

Camarada Napoleão!

Tivesse eu um leitão e,

Antes mesmo que atingisse

O tamanho de um barril ou garrafão,

Já teria aprendido a ser eternamente

Teu fiel e leal seguidor. E o primeiro

Guincho que daria meu leitão seria

“Camarada Napoleão!”.


Napoleão aprovou esse poema e mandou escrevê-lo no grande

celeiro, na parede oposta àquela onde estavam os Sete

Mandamentos. Sobre ele foi colocado um retrato de Napoleão de

perfil, executado por Garganta.


Enquanto isso, por intermédio de Whymper, Napoleão entrara em

negociações complicadíssimas com Frederick e Pilkington. As pilhas

de madeira ainda não estavam vendidas. Dentre os dois, Frederick

era o mais ansioso por colocar-lhes a mão, mas não oferecia um

bom preço. Ao mesmo tempo, circulavam novos boatos de que

Frederick e seus homens estavam planejando atacar a Granja dos

Bichos e destruir o moinho de vento, cuja construção lhe causara

indizível ciúme. Sabia-se que Bola-de-Neve ainda estava oculto na

Granja Pinchfield. Em meio ao verão, correu entre os animais a

notícia alarmante de que três galinhas se haviam apresentado

confessando que, instigadas por Bola-de-Neve, haviam conspirado

para assassinar Napoleão. Foram executadas imediatamente, e

novas medidas se tomaram para a segurança do líder. Quatro

cachorros passaram a montar guarda junto a sua cama, durante a

noite, um em cada canto, e um jovem porco de nome Rosito

recebeu a missão de provar a comida, para evitar que ele fosse

envenenado.


Mais ou menos por essa época, foi anunciado que Napoleão

acertara vender as pilhas de madeira ao sr. Pilkington; ia assinar

também um acordo para a troca regular de certos produtos entre a

Granja dos Bichos e a Granja Foxwood. As relações entre Napoleão

e Pilkington, embora mantidas apenas por intermédio de Whymper,




eram agora quase amistosas. Os bichos não confiavam em

Pilkington, ser humano que era, mas preferiam-no a Frederick, a

quem temiam e odiavam. Com o passar do verão e estando o

moinho de vento perto de ser concluído, os boatos de um iminente e

traiçoeiro ataque tornavam-se cada vez mais fortes. Frederick, dizia-

se, tencionava trazer contra eles vinte homens armados de

espingardas e já subornara os magistrados e a polícia, de modo que

não surgisse nenhum problema caso conseguissem colocar as

mãos na escritura de propriedade da Granja dos Bichos. Além disso,

filtravam-se de Pinchfield terríveis histórias a respeito das

barbaridades a que Frederick submetia seus animais. Havia

chicoteado um cavalo velho até liquidá-lo, matava as vacas de fome,

assassinara um cachorro jogando-o na fornalha, divertia-se de noite

assistindo a rinhas de galos em cujas esporas colocava estiletes de

lâminas de barbear. O sangue dos animais fervia de ódio quando

ouviam contar o que se fazia contra seus camaradas e, às vezes,

alguns pediam que lhes fosse permitido sair para atacar Pinchfield,

expulsar os humanos e libertar os bichos. Porém Garganta

aconselhava-os a evitar essas atitudes violentas e confiar na

estratégia do Camarada Napoleão.


Apesar de tudo, crescia o ódio a Frederick. Certo domingo de

manhã, Napoleão apareceu no celeiro e declarou que jamais, em

tempo algum, admitiria vender as pilhas de madeira a Frederick;

considerava abaixo de sua dignidade, disse, fazer negócios com

patifes dessa laia. Os pombos, que continuavam a espalhar a

mensagem da Rebelião, foram proibidos de pôr os pés em qualquer

ponto da Granja Foxwood e receberam ordem de modificar seu

slogan de “Morte à Humanidade” para “Morte a Frederick”.

Entrementes, no fim do verão, revelou-se outra das maquinações de

Bola-de-Neve. A lavoura de trigo estava cheia de joio, e descobriu-

se que ele havia misturado sementes de joio às de trigo. Um ganso

que tomara parte no feito confessou sua culpa a Garganta e

suicidou-se comendo frutinhas de erva-moura. Os animais ficaram

sabendo também que Bola-de-Neve jamais havia recebido — como

pensavam muitos até então — a comenda Herói Animal, Primeira

Classe. Era apenas uma lenda, criada algum tempo depois da

Batalha do Estábulo por ele próprio. Muito ao contrário, em vez de




condecorado, ele fora repreendido por demonstrar covardia durante

a batalha. Novamente, alguns bichos ouviram isso com

perplexidade, mas Garganta conseguiu convencê-los de que havia

um lapso em suas memórias.


No outono, após um tremendo e exaustivo esforço — pois a

colheita se fizera ao mesmo tempo —, o moinho de vento estava

pronto. Restava ainda instalar a maquinaria, e Whymper andava

tratando das compras, mas a estrutura já estava pronta. Contra

todas as dificuldades, a despeito da inexperiência, dos implementos

primitivos, da falta de sorte e da perfídia de Bola-de-Neve, a obra

estava concluída no exato dia marcado! Cansados mas orgulhosos,

os bichos deram voltas e mais voltas em torno de sua obra-prima,

que lhes parecia ainda mais linda que da primeira vez. Além disso,

as paredes tinham agora o dobro da espessura. Exceto explosivos,

nada poderia colocá-las abaixo. E ao pensarem em como haviam

trabalhado, em quanto abatimento tinham superado, e na enorme

diferença que suas vidas sofreriam quando as pás estivessem

girando e os dínamos funcionando — ao pensarem em tudo isso, o

cansaço os abandonava e eles saltavam ao redor do moinho de

vento, dando gritos de alegria. Napoleão em pessoa, acompanhado

dos seus cachorros e do seu garnisé, veio inspecionar o trabalho

concluído; congratulou-se com os animais pelo feito e anunciou que

o moinho se chamaria Moinho Napoleão.


Dois dias mais tarde, os animais foram convidados para uma

reunião especial no celeiro. E ficaram abobados de surpresa,

quando Napoleão comunicou ter vendido a madeira a Frederick. No

dia seguinte, os caminhões de Frederick chegariam para o

carregamento. Durante todo o período de aparente amizade com

Pilkington, Napoleão na realidade negociara um acordo secreto com

Frederick.


Todas as relações com Foxwood foram cortadas, e Pilkington

recebeu mensagens insultuosas. Os pombos tiveram ordens de não

pousar mais na Granja Pinchfield e de mudar o slogan de “Morte a

Frederick” para “Morte a Pilkington”. Ao mesmo tempo, Napoleão

assegurou a todos que as histórias sobre o iminente ataque à

Granja dos Bichos eram inteiramente falsas e que os boatos a

respeito da crueldade de Frederick para com os animais eram muito




exagerados. Todos esses boatos eram, provavelmente, coisa de

Bola-de-Neve e seus agentes. Parecia, agora, que Bola-de-Neve na

verdade não estava escondido na Granja Pinchfield; aliás, nunca

estivera lá em toda a sua vida. Vivia — e cercado de muito luxo,

sabiam agora — na Granja Foxwood, e era, além do mais,

sustentado por Pilkington há muitos anos.


Os porcos estavam em êxtase com a sagacidade de Napoleão.

Fingindo ser amigo de Pilkington, obrigara Frederick a aumentar a

oferta em doze libras. Porém, a qualidade superior da mente de

Napoleão, dizia Garganta, estava no fato de não confiar em

ninguém, nem mesmo em Frederick. Este quisera pagar a madeira

com uma coisa chamada cheque, que era, ao que diziam, um

pedaço de papel com uma promessa de pagamento escrita. Mas

Napoleão era vivo demais para cair nessa. Exigiu o pagamento em

notas autênticas de cinco libras, que deveriam ser entregues antes

da retirada da madeira. Frederick já pagara; e a soma era suficiente

para comprar a maquinaria do moinho de vento.


A madeira já fora retirada com grande rapidez. Quando todo o

carregamento estava bem longe, houve outra reunião especial no

celeiro, para os bichos examinarem as notas de Frederick. Sorrindo

com ar beatífico e usando suas condecorações, Napoleão

recostara-se numa cama de palha, com o dinheiro a seu lado,

cuidadosamente empilhado numa travessa da cozinha da casa-

grande. Os animais passavam devagar, em fila, e cada um olhava

pelo tempo que quisesse. Sansão espichou o focinho para cheirar

as notas, e as delicadas coisinhas mexeram-se e farfalharam com

sua respiração.


Três dias mais tarde, houve um deus-nos-acuda. Whymper,

branco como cera, chegou afobado em sua bicicleta, deixou-a caída

no pátio e correu para dentro da casa. Daí a momentos ouviu-se um

pavoroso rugido de raiva vindo do apartamento de Napoleão. A

notícia do que sucedera espalhou-se pela granja com a rapidez de

um raio. As notas eram falsas! Frederick levara a madeira de graça!


Napoleão imediatamente chamou os animais e com um vozeirão

de arrepiar proclamou a sentença de morte contra Frederick. Ao ser

capturado, disse, Frederick seria fervido vivo. Ao mesmo tempo

avisou que, depois daquela insídia, deveriam esperar pelo pior.




Frederick e seus homens poderiam desencadear a qualquer

momento o tão falado ataque. Colocaram-se sentinelas em todos os

caminhos que levavam à granja. Além disso, quatro pombos foram a

Foxwood com um recado conciliador que levava a esperança de

restabelecimento de boas relações com Pilkington.


Logo na manhã seguinte, sobreveio o ataque. Os animais

estavam fazendo a refeição matinal quando os sentinelas chegaram

correndo com a notícia de que Frederick e seus seguidores já

haviam atravessado a porteira das cinco barras. Corajosos, os

bichos saíram ao seu encontro, mas dessa vez não obteriam uma

vitória fácil como a da Batalha do Estábulo. Eram quinze homens,

com meia dúzia de espingardas, que abriram fogo tão logo

chegaram a cinquenta metros de distância. Os animais não

puderam fazer frente à saraivada de balas, e, a despeito dos

esforços de Napoleão e Sansão para fazê-los voltar à luta,

retrocederam. Muitos já estavam feridos. Refugiaram-se no casario

da granja e ficaram olhando prudentemente pelos buracos. Toda a

pastagem, inclusive o moinho de vento, caíra nas mãos do inimigo.

Até Napoleão estava perplexo. Caminhava de um lado para outro,

sem proferir palavra, com o rabo rígido e contraído. Olhares

ansiosos eram lançados na direção da Granja Foxwood. Se

Pilkington e seus homens os ajudassem, ainda poderiam ganhar a

parada. Porém, nesse momento, voltaram os quatro pombos

enviados no dia anterior, um deles trazendo um pedaço de papel da

parte de Pilkington, com a mensagem “Benfeito” escrita a lápis.


Enquanto isso, Frederick e seus homens haviam se detido junto

ao moinho de vento. Os animais continuavam observando e viram

surgir um pé de cabra e um malho. Correu um murmúrio de aflição.

Iam botar abaixo o moinho de vento.


“Impossível”, exclamou Napoleão. “As paredes são grossas

demais para isso. Nem em uma semana conseguirão. Coragem,

camaradas!”


Benjamim, porém, observava atento a atividade dos homens. Bem

devagar, com ar quase de quem se diverte, meneou o focinho.


“Era o que eu achava”, disse. “Vocês não veem o que eles estão

fazendo? Logo vão colocar explosivos naquele buraco.”




Aterrorizados, os bichos esperavam. Era impossível abandonar a

proteção das casas. Daí a pouco os homens saíram correndo em

todas as direções. Ouviu-se, logo após, um estrondo ensurdecedor.

Os pombos revolutearam no ar, e os animais todos, exceto

Napoleão, jogaram-se no chão. Quando se levantaram outra vez,

havia uma gigantesca nuvem preta no lugar do moinho. Aos poucos,

a brisa a dissolveu. O moinho de vento havia desaparecido!


Aquilo devolveu a coragem aos animais. O medo e o desânimo

que sentiam foram engolfados pelo tremendo ódio que os dominou

ante aquela vilania inominável. Um brado de vingança subiu aos

ares; sem esperar ordens, reuniram-se e, como um só corpo,

lançaram-se contra o inimigo. Desta vez não fugiram às balas cruéis

que caíam sobre eles em saraivadas. Foi uma batalha horrível,

selvagem. Os homens atiraram várias vezes, e quando os animais

os alcançaram foi aquela pancadaria em todas as direções, com

porretes e tacões de bota. Morreram uma vaca, três ovelhas e dois

gansos, e quase todo mundo ficou ferido. Até Napoleão, que dirigia

as operações da retaguarda, teve a ponta do rabicho arranhada por

um balim. Mas aos humanos não tocou melhor sorte. Três tiveram a

cabeça quebrada pelos golpes de Sansão; outro, a barriga furada

pelo chifre de uma vaca; outro viu suas calças quase arrancadas por

Lulu e Branca. E quando os nove cachorros da guarda pessoal de

Napoleão, que ele mandara fazer um desvio por trás da sebe,

apareceram de repente no flanco dos humanos, latindo furiosos, o

pânico os dominou. Perceberam o perigo de serem cercados.

Frederick gritou a seus homens que se retirassem enquanto havia

passagem, e logo o inimigo fugia acovardado para salvar a vida. Os

animais perseguiram-nos até o fundo do campo, desferindo ainda

uns últimos golpes ao atravessarem a sebe de pilriteiro.


Tinham vencido, mas estavam feridos e sangravam. Aos poucos,

começaram a voltar para a granja. A visão dos camaradas mortos,

estirados sobre a relva, comoveu alguns até as lágrimas. E por

instantes detiveram-se num triste silêncio no local onde existira o

moinho. Sim, ele sumira; fora-se quase todo o seu trabalho. Até os

alicerces estavam parcialmente destruídos. E desta vez, para

reconstruí-lo, não bastaria erguer de novo pedras caídas ali mesmo:

estas também haviam desaparecido. A força da explosão as




arremessara a centenas de metros. Era como se o moinho nunca

tivesse existido.


Ao se aproximarem do sítio, Garganta, que estivera

inexplicavelmente ausente da luta, veio ao encontro deles,

sacudindo o rabicho e guinchando de satisfação. E os animais

ouviram, vindo da direção da granja, o troar solene da espingarda.


“A troco de que está atirando aquela arma?”, perguntou Sansão.

“Celebrando a nossa vitória!”, exclamou Garganta.

“Vitória? Que vitória?”, gritou Sansão. Tinha os joelhos sangrando,


perdera uma ferradura, rachara o casco, e uma dúzia de

chumbinhos havia se alojado em sua pata traseira.


“Você pergunta que vitória, camarada? Mas então não

expulsamos o inimigo do nosso solo — do solo sagrado da Granja

dos Bichos?”


“Mas eles destruíram o moinho de vento. Nosso trabalho de dois

anos!”


“Que importa? Construiremos outro. Construiremos meia dúzia de

moinhos de vento, se quisermos. Vocês não perceberam,

camaradas, que coisa formidável realizamos? O inimigo ocupava

este mesmo chão em que pisamos. E agora — graças à liderança

do Camarada Napoleão — nós o ganhamos centímetro por

centímetro!”


“Quer dizer, ganhamos o que já era nosso”, retrucou Sansão.

“Essa foi a nossa vitória”, insistiu Garganta.

Coxearam até o pátio. As balas sob o couro de Sansão


aferroavam dolorosamente. Ele enxergava à sua frente a pesada

tarefa de reconstruir o moinho de vento, e mesmo em imaginação já

se atirava ao trabalho. Pela primeira vez, entretanto, ocorreu-lhe a

lembrança de que tinha onze anos de idade e que talvez seus

músculos não tivessem a mesma força de antes.


Porém, quando os bichos viram tremular a bandeira verde e

ouviram a arma atirar novamente — sete tiros ao todo — e o

discurso que Napoleão fez congratulando-se com a atuação deles,

pareceu-lhes que, afinal de contas, haviam obtido uma grande

vitória. Os animais caídos na batalha tiveram funerais solenes.

Sansão e Quitéria puxaram o carroção que serviu de carro fúnebre,

e Napoleão abriu em pessoa o cortejo. Dedicaram-se dois dias




inteiros às celebrações. Houve canções, discursos, novos disparos

de espingarda e o prêmio especial de uma maçã para cada animal,

cinquenta gramas de milho para cada ave e três biscoitos para cada

cachorro. Proclamou-se que a batalha se chamaria Batalha do

Moinho de Vento, e que Napoleão havia criado nova comenda, a

Ordem da Bandeira Verde, que conferira a si próprio. Em meio ao

regozijo geral, o assunto das notas de dinheiro morreu.


Foi alguns dias depois disso que os porcos encontraram, na

adega da casa-grande, uma caixa de uísque. Passara despercebida

na época da ocupação. Naquela noite, chegou da casa o som de

uma cantoria em que, para surpresa de todos, se ouviram trechos

de “Bichos da Inglaterra”. Mais ou menos às nove e meia da noite,

Napoleão, usando um velho chapéu-coco de Jones, foi visto

claramente emergir da porta de trás, dar um rápido galope em volta

do pátio e sumir pela porta outra vez. Na manhã seguinte, um

silêncio profundo tomara conta da casa. Ao que parecia, nenhum

porco estava de pé. Eram quase nove horas quando apareceu

Garganta, vacilante e deprimido, com os olhos embaçados, o

rabicho mole, com um aspecto gravemente doentio. Chamou todo

mundo e disse que tinha péssima notícia para dar. O Camarada

Napoleão estava à morte!


Ouviu-se um grito de lamento. Colocaram palha do lado de fora

da casa, e os animais andaram pé ante pé. Com lágrimas nos olhos,

perguntavam-se que seria deles se o Líder faltasse. Correu o boato

de que Bola-de-Neve afinal conseguira envenenar a comida de

Napoleão. Às onze, Garganta saiu de novo para fazer outra

proclamação. Como último ato sobre a terra, o Camarada Napoleão

expedira o seguinte decreto: a ingestão de álcool seria punida com a

morte.


Já à noite, Napoleão parecia um pouco melhor, e na manhã

seguinte Garganta pôde anunciar sua franca recuperação. Na tarde

desse dia, Napoleão voltou à atividade, e no dia seguinte soube-se

que dera instruções a Whymper para comprar, em Willingdon,

alguns folhetos sobre fermentação e destilação. Uma semana

depois, Napoleão ordenou que fosse arado o pequeno potreiro atrás

do pomar, anteriormente destinado ao repouso dos animais

aposentados. Espalhou-se que a grama estava cansada e




necessitava de uma nova semeadura, porém logo se soube que

Napoleão pretendia semeá-la com cevada.


Mais ou menos nessa época, aconteceu um incidente que

nenhum dos bichos pôde compreender. Certa noite, por volta de

meia-noite, ouviu-se um ruído de queda no pátio, e os animais

correram de suas baias para ver o que sucedera. Era noite de lua.

Ao pé da parede do fundo do celeiro, na qual estavam escritos os

Sete Mandamentos, encontraram uma escada quebrada em dois

pedaços. Garganta, momentaneamente aturdido, jazia estatelado

junto a ela, tendo ao lado uma lanterna, uma broxa e uma lata de

tinta branca entornada. Os cachorros logo fizeram um círculo em

torno de Garganta e escoltaram-no de volta à casa-grande, assim

que ele conseguiu caminhar. Os bichos não faziam ideia do que

significava aquilo, exceto Benjamim, que torceu o focinho com um ar

de compreensão e pareceu entender o que se passara, mas nada

disse.


Alguns dias mais tarde, no entanto, Maricota, lendo os Sete

Mandamentos, notou que havia outro mandamento mal lembrado

pelos animais. Todos pensavam que o Quinto Mandamento era

“Nenhum animal beberá álcool”, mas haviam esquecido duas

palavras. Na realidade, o mandamento dizia: “Nenhum animal

beberá álcool em excesso”.


*




9.

A rachadura do casco de Sansão levou tempo para cicatrizar.


Haviam iniciado a reconstrução do moinho de vento no dia seguinte,

ao final das celebrações. Sansão recusou-se a aceitar um só dia de

dispensa, e fez questão de não dar mostras da dor que sofria. À

noite, admitia em particular para Quitéria que o casco realmente o

incomodava muito. Quitéria tratava-o com infusões de ervas, que

preparava mastigando, e tanto ela como Benjamim diziam a Sansão

que não trabalhasse tanto.


“Pulmão de cavalo não é de ferro”, alertava ela. Sansão, porém,

não atendia. Explicava que só tinha uma ambição: ver o moinho de

vento concluído antes de aposentar-se.


De início, quando as leis da Granja dos Bichos foram elaboradas,

fixara-se a idade de aposentadoria em doze anos para os cavalos e

os porcos, catorze para as vacas, nove para os cachorros, sete para

as ovelhas e cinco para as galinhas e os gansos. Para os animais

idosos, fixaram-se pensões generosas. Até então, nenhum bicho se

aposentara, mas ultimamente o assunto vinha sendo objeto de

frequentes conversas. Como o potreiro atrás do pomar fora

semeado com cevada, dizia-se agora que um canto da pastagem

grande seria cercado e reservado para os velhos. Para os cavalos,

ao que se falava, a pensão seria de dois quilos e meio de milho por

dia, e no inverno oito quilos de feno, mais uma cenoura ou talvez

uma maçã nos feriados. O décimo segundo aniversário de Sansão

seria no fim do verão do ano seguinte.


A vida ia dura. O inverno foi tão frio quanto o anterior, e a

quantidade de alimento, ainda menor. Novamente reduziram-se

todas as rações, exceto as dos porcos e dos cachorros. Uma

igualdade por demais rígida em matéria de rações, explicou

Garganta, seria contrária ao espírito do Animalismo. De qualquer

maneira, não teve dificuldade de provar aos outros bichos que na

realidade eles não sentiam falta de comida, a despeito das




aparências. Naquele momento, de fato, fora necessário realizar um

reajuste das rações (Garganta sempre se referia a “reajustes”,

nunca a “reduções”), mas em comparação com o tempo de Jones, a

diferença para melhor era enorme. Lendo os dados estatísticos em

voz aguda e rápida, provou-lhes, com riqueza de detalhes, que eles

recebiam mais aveia, mais feno e mais nabos que na época de

Jones; que trabalhavam muito menos; que a água potável era de

melhor qualidade; que viviam mais tempo; que havia mais palha nas

baias; e que as pulgas já não incomodavam tanto. Os animais

acreditavam em cada palavra. Para falar a verdade, tanto Jones

como tudo quanto ele representava já estavam quase apagados de

sua memória. Sabiam que a vida estava difícil e cheia de privações,

que andavam constantemente com frio e com fome e trabalhando

sempre que não estavam dormindo. Mas, sem dúvida, antigamente

era muito pior. Gostavam de achar isso. Além do mais, naqueles

dias eram escravos, ao passo que agora eram livres; e tudo isso,

afinal, fazia diferença, como Garganta sempre dizia.


Havia agora muito mais bocas a alimentar. No outono, as quatro

porcas haviam dado cria quase simultaneamente — trinta e um

leitõezinhos ao todo. Os leitões eram malhados, e, sendo Napoleão

o único cachaço da fazenda, era fácil adivinhar sua linhagem. Foi

proclamado que, mais tarde, quando comprassem tábuas e tijolos,

construiriam uma escola no jardim da casa. Por enquanto, os leitões

seriam instruídos pelo próprio Napoleão, na cozinha. Faziam

exercícios no jardim e eram aconselhados a não brincar com os

filhotes dos outros animais. Mais ou menos por essa época,

estabeleceu-se que, quando um porco e outro animal se

encontrassem numa trilha, o outro animal cederia a passagem; e

também que os porcos, qualquer que fosse seu grau hierárquico,

teriam o direito de usar fitas vermelhas no rabicho, aos domingos.


A granja tivera um ano bem-sucedido, mas ainda faltava dinheiro.

Era necessário comprar tijolos, areia e cal para a escola e

economizar outra vez para a maquinaria do moinho de vento. Além

disso, havia necessidade de querosene para os lampiões e velas

para a casa, açúcar para a mesa de Napoleão (ele o proibira para

os outros porcos, dizendo que engordava), todo o suprimento

normal de ferramentas, pregos, carvão, arame, ferro-velho, e




biscoitos para cachorros. Venderam uma meda de feno e parte da

colheita de batatas, e o contrato de fornecimento de ovos foi

aumentado para seiscentos por semana, de forma que as galinhas

naquele ano mal puderam chocar um número de ovos que as

mantivesse no mesmo nível. As rações, já reduzidas em dezembro,

sofreram nova redução em fevereiro, e foram proibidos os lampiões

nos estábulos, a fim de economizar querosene. Os porcos,

entretanto, pareciam bastante bem, pelo menos ganhavam sempre

alguns quilinhos.


Uma tarde, em fins de fevereiro, correu pelo pátio, proveniente da

cozinha, um cheiro gostoso, suculento, quentinho, como nunca os

animais haviam sentido antes. Alguém disse que era cheiro de

cevada cozida. Os bichos farejaram avidamente o ar e ficaram a

pensar se não seria algum fervido para o jantar. Mas não apareceu

fervido nenhum no jantar, e no domingo seguinte comunicou-se que

toda a cevada passaria a ser reservada para os porcos. O campinho

junto ao pomar já fora semeado com cevada, e logo transpirou a

notícia de que cada porco estava recebendo, diariamente, a ração

de meia garrafa de cerveja, sendo que Napoleão recebia meio galão

e era servido na terrina da baixela de porcelana.


Mas se existiam grandes agruras a arrostar, estas eram

compensadas pelo fato de a vida ter agora muito mais dignidade.

Havia mais canções, mais discursos, mais desfiles. Napoleão

determinara que uma vez por semana houvesse uma coisa

chamada Manifestação Espontânea, cuja finalidade era comemorar

as lutas e triunfos da Granja dos Bichos. À hora marcada, os

animais deviam abandonar o trabalho e desfilar pelo terreno da

granja, em formação militar, os porcos à frente, depois os cavalos,

depois as vacas, depois as ovelhas e, por último, as aves. Os

cachorros enquadravam a formatura, e à testa marchava o garnisé

preto de Napoleão. Sansão e Quitéria conduziam sempre a bandeira

verde com o desenho do chifre e do casco e o dístico VIVA O CAMARADA

NAPOLEÃO! Em seguida, havia recitação de poemas compostos em

honra de Napoleão, um discurso de Garganta dando detalhes dos

últimos aumentos na produção de gêneros, e no momento exato a

espingarda dava um tiro. Quem mais gostava das Manifestações

Espontâneas eram as ovelhas, e se alguém se queixava (havia




quem o fizesse, quando os porcos ou os cachorros não andavam

por perto) de que aquele negócio era uma perda de tempo, além de

ser obrigado a ficar um bom pedaço no frio, o insatisfeito era

invariavelmente calado pelas ovelhas com um ensurdecedor balido

de “Quatro pernas bom, duas pernas ruim!”. De modo geral, porém,

os bichos gostavam daquelas celebrações. Achavam confortador

ser relembrados de que, afinal, não tinham patrões e todo o trabalho

que enfrentavam era em seu próprio benefício. E assim, à custa das

cantorias, dos desfiles, das estatísticas de Garganta, do estrondo da

espingarda, do cocoricó do garnisé e do drapejar da bandeira,

conseguiam esquecer que estavam de barriga vazia, pelo menos a

maior parte do tempo.


Em abril, a Granja dos Bichos foi proclamada República e houve

necessidade de eleger um presidente. Apareceu um só candidato,

Napoleão, que foi eleito por unanimidade. No mesmo dia notificou-

se a descoberta de novos documentos, que revelaram mais

detalhes sobre a cumplicidade de Bola-de-Neve e Jones. Soube-se

que Bola-de-Neve não apenas tentara perder a Batalha do Estábulo,

por meio de um estratagema, conforme os animais já tinham tomado

conhecimento, mas lutara abertamente ao lado de Jones. Na

realidade, fora ele o verdadeiro comandante das forças humanas, e

jogara-se à batalha com as palavras “Viva a Humanidade!” nos

lábios. Os ferimentos em suas costas, que alguns poucos bichos

lembravam-se de ter visto, haviam sido causados pelos dentes de

Napoleão.


Em meio ao verão, Moisés, o corvo, reapareceu inesperadamente

na granja, após uma ausência de vários anos. Continuava o mesmo,

não trabalhava e contava as histórias de sempre a respeito da

Montanha de Açúcar-Cande. Encarapitava-se num toco de árvore e

arengava durante horas para quem quisesse ouvir:


“Lá em cima, camaradas”, dizia solenemente, apontando o céu

com a bicanca, “lá em cima, pouco além daquela nuvem preta, ali

está ela, a Montanha de Açúcar-Cande, o lugar feliz onde nós,

pobres animais, descansaremos para sempre desta nossa vida de

trabalho.”


Chegava a afirmar ter estado lá, num dos seus voos mais altos, e

ter visto os infindos campos de trevo, os bolos de linhaça e o açúcar




crescendo nas sebes. Muitos bichos acreditavam. A vida atualmente

era só fome e trabalho, raciocinavam; não seria justo que lhes

estivesse reservado um mundo melhor, mais além? Coisa difícil de

determinar era a atitude dos porcos com relação a Moisés. Eles

afirmavam peremptoriamente que as histórias sobre a Montanha de

Açúcar-Cande não passavam de pura mentira; no entanto,

deixavam-no permanecer na granja, sem trabalhar, e ainda por cima

com direito a um copo de cerveja por dia.


Depois que o casco ficou bom, Sansão trabalhou mais

violentamente do que nunca. Aliás, naquele ano, todos os bichos

trabalharam feito escravos. Além da faina normal na fazenda e da

reconstrução do moinho de vento, ainda houve a escola dos

porquinhos, iniciada em março. Às vezes ficava difícil aguentar as

longas horas sem comer, mas Sansão nunca fraquejou. Em nada do

que dizia ou fazia era possível perceber nenhum sinal de que sua

energia já não era a mesma de antigamente. Apenas sua aparência

estava um pouco modificada; o pelo já não era tão brilhante, e as

ancas pareciam haver murchado. “Sansão vai se recuperar quando

crescer o capim da primavera”, diziam os outros, mas a primavera

chegou, e Sansão não mudou de aspecto. Por vezes, na rampa da

pedreira, quando enrijecia a musculatura contra o peso de um

enorme pedregulho, tinha-se a impressão de que apenas a vontade

o mantinha de pé. Nesses momentos seus lábios formavam

claramente as palavras “Trabalharei mais ainda”, mas não emitiam

nenhum som. Novamente, Quitéria e Benjamim o aconselharam,

porém ele não deu atenção. Seu décimo segundo aniversário se

aproximava.


Não se importava com o que sucedesse, desde que pudesse

amontoar uma boa quantidade de pedras antes de aposentar-se.


Certa noite, no verão, correu a súbita notícia de que algo

acontecera a Sansão, que havia saído sozinho para puxar uns

montes de pedra até o moinho. E era verdade. Poucos minutos

depois chegaram dois pombos afobados:


“Sansão está caído! Não consegue levantar-se!”

Metade dos animais da granja correu para a colina do moinho de


vento. Lá estava Sansão, deitado entre os paus da carroça, com o




pescoço esticado e sem poder sequer levantar a cabeça. Corria-lhe

da boca um filete de sangue. Quitéria abaixou-se a seu lado.


“Sansão”, chamou, “você está bem?”

“É o meu pulmão”, ele disse quase sem voz. “Não tem


importância. Vocês terminarão o moinho sem mim. Já deixei

bastante pedra aí. De qualquer maneira, só me restava um mês de

atividade. Para falar a verdade, tenho estado à espera desta hora.

E, como Benjamim também está ficando velho, talvez o deixem

aposentar-se para me fazer companhia.”


“Precisamos de socorro imediatamente”, gritou Quitéria. “Alguém

vá correndo contar a Garganta o que aconteceu.”


Os animais todos correram à casa-grande para dar a notícia a

Garganta. Só ficaram Quitéria e Benjamim, que se deitou ao lado de

Sansão e, sem dizer palavra, ficou a espantar-lhe as moscas com o

rabo comprido. Mais ou menos um quarto de hora depois, Garganta

apareceu, cheio de simpatia e preocupação. Disse que o Camarada

Napoleão tomara conhecimento, abaladíssimo, do mal que sucedera

a um dos trabalhadores mais leais da granja, e já estava cuidando

de enviar Sansão para tratar-se no hospital em Willingdon. Os

animais sentiram certa inquietação (com exceção de Mimosa e

Bola-de-Neve, nenhum deles jamais saíra da granja) e não

gostaram da ideia de seu camarada ir parar nas mãos dos

humanos. Entretanto, Garganta facilmente os convenceu de que o

cirurgião veterinário de Willingdon poderia tratar do caso de Sansão

muito melhor do que eles, na granja. Cerca de meia hora mais tarde,

quando Sansão já se recuperara um pouco, conseguiram pô-lo de

pé, e ele cambaleou de volta até sua baia, onde Quitéria e

Benjamim lhe haviam preparado uma boa cama de palha.


Durante os dois dias seguintes Sansão permaneceu na baia. Os

porcos enviaram uma garrafa contendo um remédio cor-de-rosa,

encontrado no armarinho do banheiro, e Quitéria servia-o a Sansão

duas vezes ao dia, após as refeições. À noite, Quitéria ficava a seu

lado, conversando com ele, enquanto Benjamim afastava as

moscas. Sansão afirmava não estar triste com o acontecido. Caso

se recuperasse bem, poderia viver mais três anos, e já imaginava os

dias tranquilos que passaria no rincão da pastagem. Seria a primeira

vez que lhe sobraria tempo de folga para estudar e melhorar seus




conhecimentos. Pretendia dedicar o resto de sua existência ao

aprendizado das vinte e duas letras restantes do alfabeto.


Contudo, Benjamim e Quitéria só podiam estar a seu lado após as

horas de trabalho, e foi durante o dia que o carroção veio buscá-lo.

Os animais estavam na lavoura semeando nabos, sob a supervisão

de um porco, e ficaram admirados ao ver Benjamim a galope, vindo

da direção das casas da granja ao encontro deles, zurrando feito

louco. Era a primeira vez na vida que viam Benjamim nervoso —

para falar a verdade, era a primeira vez que alguém o via galopar.


“Depressa, corram!”, gritou. “Venham logo! Estão levando

Sansão!”


Sem esperar ordens do porco, largaram o trabalho e correram de

volta para as casas. Realmente, lá estava um carroção fechado,

puxado por dois cavalos, com um letreiro no lado e um homem de

chapéu-coco sentado na boleia. A baia de Sansão estava vazia.


Os bichos se apinharam ao redor do carroção.

“Até breve, Sansão!”, gritaram. “Até já!”

“Idiotas! Idiotas!”, exclamou Benjamim, corcoveando em volta


deles e ferindo o chão com os cascos pequeninos. “Imbecis! Não

veem o que está escrito ali ao lado?”


Isso fez calar os animais e ouviu-se um pssss. Maricota começou

a soletrar as palavras, mas Benjamim empurrou-a para um lado e

leu, em meio a grande silêncio:


“ALFRED SIMMONDS, MATADOURO DE CAVALOS, FABRICANTE DE COLA, WILLINGDON. PELES E

FARINHA DE OSSOS. FORNECE PARA CANIS. Será que vocês não percebem? Vão

levar Sansão para o carniceiro!”


Houve um grito de horror dos bichos. Nesse momento, o homem

da boleia estalou o chicote, e os cavalos saíram a trote vivo,

abandonando o pátio. Os bichos correram atrás, gritando com toda

a força. Quitéria abriu caminho até a frente. O carroção tomou

velocidade. Quitéria tentou fazer que suas pernas grossas

galopassem e conseguiu um trotezinho.


“Sansão!”, ela gritou. “Sansão! Sansão! Sansão!” Nesse exato

momento, como se tivesse ouvido a barulheira de fora, apareceu na

janelinha de trás da carroça a cara de Sansão, com sua mancha

branca no focinho. “Sansão!”, berrou Quitéria, desesperada.

“Sansão! Saia depressa! Estão te levando pro matadouro!”




Os bichos gritavam a um tempo:

“Saia daí, Sansão, saia daí!”

Mas o carroção acelerou e começou a distanciar-se. Não podiam


saber se Sansão havia entendido Quitéria. Logo depois, entretanto,

sua cara desapareceu da janela, e ouviu-se o barulho da tremenda

pancadaria de seus cascos no interior do carroção. Ele tentava

livrar-se de qualquer maneira. Tempo houvera em que com alguns

coices Sansão transformaria aquela carroça num monte de lenha.

Mas ai! — sua força o abandonara; em poucos instantes, o som das

batidas diminuiu e morreu. Desesperados, os animais suplicaram

aos dois cavalos que puxavam o carroção que se detivessem.


“Camaradas! Camaradas!”, gritavam. “Não levem um irmão para

essa morte!” Porém os brutos, estúpidos, ignorantes demais para

entender o que acontecia, limitaram-se a murchar as orelhas e

apertar o passo. A cara de Sansão não reapareceu mais na janela.

Alguém pensou em correr à frente e fechar a porteira das cinco

barras, mas era tarde demais, pois logo o carroção atravessava a

porteira e desaparecia rapidamente na estrada. Sansão nunca mais

foi visto.


Três dias depois, chegou a notícia de que havia falecido no

hospital veterinário de Willingdon, a despeito de ter recebido todos

os cuidados que um cavalo merece. Garganta veio dar a notícia.

Presenciara, disse, os últimos momentos de Sansão.


“Foi a cena mais comovente de minha vida!”, relatou Garganta,

erguendo a pata e deixando rolar uma lágrima. “Eu estava à sua

cabeceira no instante final. Quase sem poder falar, ele sussurrou ao

meu ouvido que seu único pesar era morrer antes de ter terminado o

moinho de vento. ‘Avante, camaradas! Viva a Granja dos Bichos!

Viva o Camarada Napoleão! Avante, em nome da Revolução!

Napoleão tem sempre razão.’ Estas foram suas últimas palavras,

camaradas.”


Em seguida, os modos de Garganta se transformaram. Caiu em

silêncio por um momento, e seus olhinhos deram miradas

suspeitosas para os lados antes de prosseguir.


Chegara a seu conhecimento, disse ele, que um boato idiota e

perverso circulara por ocasião do internamento de Sansão. Alguns

animais tinham visto que na carroça que transportou Sansão estava




escrito MATADOURO DE CAVALOS, chegando à conclusão de que Sansão

estava sendo mandado para o carniceiro. Era quase inacreditável

que um bicho pudesse ser tão estúpido. Com certeza, gritou

indignado, sacudindo o rabicho e dando pulinhos, com certeza todos

conheciam seu amado Líder, o Camarada Napoleão, não? A

explicação era muito simples. A carroça pertencera, antes, ao

carniceiro, depois fora comprada pelo cirurgião veterinário, que

ainda não apagara o letreiro. Eis como se dera o engano.


Os bichos ficaram imensamente aliviados com isso. E quando

Garganta continuou dando detalhes sobre a câmara mortuária de

Sansão, o extraordinário cuidado que recebeu e os caríssimos

remédios que Napoleão mandara comprar sem olhar o preço,

desapareceram suas últimas dúvidas, e a tristeza pelo camarada

morto foi mitigada pela certeza de que pelo menos morrera feliz.


O próprio Napoleão apareceu no encontro do domingo seguinte e

pronunciou uma singela oração em memória de Sansão. Não fora

possível, explicou, trazer de volta os despojos do lamentado

camarada para o enterro, porém dera ordem para que se

confeccionasse uma grande coroa com louros do jardim e a enviara

para ser colocada no túmulo de Sansão. E anunciou-se, alguns dias

depois, que os porcos pretendiam realizar um banquete em

memória de Sansão. Napoleão finalizou seu discurso relembrando

as duas máximas prediletas de Sansão: “Trabalharei mais ainda” e

“O Camarada Napoleão tem sempre razão”, máximas, disse, que

cada animal deveria adotar.


No dia marcado para o banquete, chegou de Willingdon a carroça

de um armazém e desembarcou na casa-grande um engradado de

madeira. Naquela noite ouviu-se uma alta cantoria seguida de algo

que parecia uma discussão violenta e que terminou cerca das onze

horas com uma tremenda barulheira de vidros quebrados. No dia

seguinte, ninguém se levantou na casa-grande até o meio-dia, e

correu uma conversa de que os porcos haviam conseguido, não se

sabia de que maneira, dinheiro para adquirir outra caixa de uísque.


*




10.

Passaram-se anos. As estações se alternavam, e a curta vida dos


bichos se consumia. Tempo chegou em que ninguém mais se

lembrava de antes da Rebelião, exceto Quitéria, Benjamim, o corvo

Moisés e alguns porcos.


Maricota morreu; Branca, Lulu e Cata-Vento morreram. Jones

também morreu num asilo de alcoólatras, noutra cidade. Bola-de-

Neve fora esquecido. Sansão também, exceto pelos poucos que o

haviam conhecido. Quitéria era agora uma égua velha, corpulenta,

com os olhos atacados pela catarata. Já passara dois anos da idade

de se aposentar. Aquela história de reservar um pedaço de campo

para os animais idosos não era mais nem mencionada. Napoleão

tornara-se um cachaço madurão de uns cento e cinquenta quilos.

Garganta estava tão gordo que mal conseguia abrir os olhos.

Somente o velho Benjamim continuava o mesmo, apenas o focinho

um pouco mais grisalho, e desde a morte de Sansão, mais

rabugento e taciturno que nunca.


Agora existiam muito mais criaturas na granja, embora o índice de

crescimento não fosse aquele que esperavam nos primeiros anos.

Haviam nascido muitos animais; para alguns a Rebelião não

passava de uma obscura tradição transmitida oralmente, e outros

nem sequer tinham ouvido falar a respeito. A granja contava agora

com três cavalos além de Quitéria. Eram bichos maravilhosos,

trabalhadores incansáveis, bons camaradas, mas muito estúpidos.

Nenhum mostrou-se capaz de aprender o alfabeto além da letra B.

Aceitavam tudo quanto lhes era dito sobre a Revolução e os

princípios do Animalismo, especialmente por Quitéria, a quem

dedicavam um respeito filial, mas era duvidoso que entendessem lá

grande coisa.


A granja prosperava e estava mais bem organizada; fora até

aumentada pela compra de dois tratos de terra do sr. Pilkington. O

moinho de vento, afinal, fora concluído com êxito, a granja possuía




uma debulhadeira e um elevador de feno próprio, e várias

construções novas haviam se erguido. Whymper comprara uma

charrete. O moinho de vento, entretanto, não era usado para gerar

energia elétrica. Usavam-no para moer cereais, coisa que dava bom

dinheiro. Os animais estavam a braços com a construção de outro

moinho de vento; quando este estivesse concluído, dizia-se, seriam

instalados os dínamos. Mas naquele luxo de que Bola-de-Neve lhes

falara certa vez — baias com luz elétrica e água quente e fria — e

na semana de três dias não se falava mais. Napoleão denunciara

tais ideias como contrárias aos princípios do Animalismo. A

verdadeira felicidade, dizia, estava em trabalhar bastante e viver

frugalmente.


De certa maneira, era como se a granja tivesse ficado rica sem

que nenhum animal houvesse enriquecido — exceto, é claro, os

porcos e os cachorros. Talvez isso acontecesse por existirem ali

tantos porcos e tantos cachorros. Não que esses animais não

trabalhassem, à sua moda. Garganta nunca se cansava de explicar

que havia um trabalho insano na ação de supervisionar e organizar

a granja. Grande parte desse trabalho era de natureza tal que

estava além da ignorância dos bichos. Tentando explicar, Garganta

dizia que os porcos despendiam diariamente enormes esforços com

coisas misteriosas chamadas “arquivos”, “relatórios”, “minutas” e

“memos”. Grandes folhas de papel que precisavam ser miudamente

cobertas com escritos e logo depois queimadas no forno. Era tudo

da mais alta importância para o bem-estar da granja, dizia. A

verdade é que nem os porcos nem os cachorros produziam um só

grama de alimento com seu trabalho; e havia um bocado deles, com

o apetite sempre em forma.


Quanto aos outros, sua vida, ao que sabiam, continuava a

mesma. Geralmente andavam com fome, dormiam em camas de

palha, bebiam água no açude e trabalhavam no campo; no inverno,

sofriam com o frio; no verão, com as moscas. De vez em quando, os

mais idosos rebuscavam a apagada memória e tentavam determinar

se nos primeiros dias da Rebelião, logo após a expulsão de Jones,

as coisas tinham sido melhores ou piores que agora. Não

conseguiam lembrar. Nada havia com que comparar: não tinham em

que basear-se, exceto as estatísticas de Garganta, que




invariavelmente provavam estar tudo cada vez melhor. Os bichos

consideravam o problema insolúvel; de qualquer maneira,

dispunham de muito pouco tempo para essas especulações.

Apenas o velho Benjamim afirmava lembrar-se de cada detalhe de

sua longa vida e saber que as coisas nunca haviam estado e nunca

haveriam de ficar nem muito melhor nem muito pior, sendo a fome, o

cansaço e a decepção, assim ele dizia, a lei imutável da vida.


Apesar disso, os bichos nunca perdiam a esperança. Mais ainda,

jamais lhes faltava, nem por instantes, o sentimento de honra pelo

privilégio de serem membros da Granja dos Bichos, que continuava

a ser a única em todo o condado — em toda a Inglaterra! — de

propriedade dos animais e por eles administrada. Nenhum deles,

nem mesmo os mais moços, nem mesmo os provenientes de outras

granjas, situadas algumas a dez ou vinte quilômetros de distância,

nunca deixou de maravilhar-se com isso. E quando ouviam o tiro da

espingarda e viam a bandeira tremulando no topo do mastro, seu

coração inchava de orgulho, e a conversa passava a girar em torno

dos históricos dias de antanho, da expulsão de Jones, da inscrição

dos Sete Mandamentos, das grandes batalhas em que os invasores

humanos haviam sido derrotados. Nenhum dos antigos sonhos fora

abandonado. A República dos Bichos, que o velho Major havia

previsto, quando os verdes campos da Inglaterra não mais seriam

pisados por pés humanos, era coisa em que ainda acreditavam. O

dia havia de chegar. Podia ser mais cedo ou mais tarde, talvez não

acontecesse durante a vida de nenhum dos animais de então, mas

havia de chegar. Até a melodia de “Bichos da Inglaterra” talvez fosse

cantarolada em segredo aqui e ali; de qualquer maneira, a verdade

é que cada bicho da granja a conhecia, embora nenhum tivesse

coragem de cantá-la em voz alta. Talvez fosse verdade que a vida

era difícil e que nem todas as suas esperanças haviam se

concretizado; mas tinham consciência de não ser iguais aos outros

animais. Se sentiam fome, não era por alimentarem alguns tirânicos

seres humanos; se trabalhavam arduamente, pelo menos

trabalhavam em benefício próprio. Nenhuma criatura dentre eles

andava sobre duas pernas. Nenhuma criatura era “dona” de outra.

Todos os animais eram iguais.




Certo dia, no início do verão, Garganta mandou que as ovelhas o

seguissem e levou-as para um campo situado nos confins da granja,

que fora tomado de brotação de vidoeiro. As ovelhas passaram o

dia inteiro roendo as brotações, sob a supervisão de Garganta. À

noite, ele regressou à granja, mas, como o tempo estava quente,

disse às ovelhas que permanecessem lá. Terminaram ficando a

semana toda, durante a qual os outros bichos nem as viram.

Garganta passava com elas a maior parte do dia. Ensinava-lhes,

segundo explicou, uma nova canção para a qual precisava de certo

sigilo.


Foi logo após o retorno das ovelhas, numa noite agradável,

quando os bichos haviam terminado o trabalho e regressavam à

granja, que se ouviu, vindo do pátio, um relinchar horripilante.

Arrepiados, os animais estacaram. Era a voz de Quitéria. Ela

relinchou outra vez, e os bichos dispararam a galope para o pátio.

Viram, então, o que ela vira.


Um porco caminhava sobre as duas patas traseiras.

Sim, era Garganta. Um tanto desajeitado, devido à falta de prática


em manter seu apreciável volume naquela posição, mas em perfeito

equilíbrio, passeava pelo pátio. Momentos depois saiu pela porta da

casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as

patas de trás. Uns melhor que outros, um ou dois até meio

desequilibrados e dando a impressão de que apreciariam o apoio de

uma bengala, mas todos deram a volta no pátio muito bem.

Finalmente houve um alarido dos cachorros, ouviu-se o cocoricó

esganiçado do garnisé, e surgiu Napoleão, majestoso,

desempenado, lançando olhares arrogantes para os lados, com os

cachorros brincando em volta.


Empunhava um chicote nas patas dianteiras.

Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto dos


outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente ao

redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para

baixo. Então veio um momento em que, passado o primeiro choque

e a despeito de tudo — a despeito do terror dos cachorros e do

hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca

criticarem, pouco importa o que sucedesse —, poderiam lançar uma

palavra de protesto. Mas exatamente nesse instante, como se




obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas, em uníssono,

irromperam num balido espetacular:


“Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom,

duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor!”


Baliram durante cinco minutos sem cessar. E quando se calaram,

fora-se a oportunidade da palavra de protesto, pois os porcos já

haviam voltado para dentro da casa.


Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o lombo. Era Quitéria.

Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer

palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o

fundo do grande celeiro, onde estavam escritos os Sete

Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a

parede alcatroada com o grande letreiro branco.


“Minha vista está falhando”, ela disse afinal. “Mesmo quando eu

era moça, não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas me parece

agora que a parede está meio diferente. Os Sete Mandamentos são

os mesmos de sempre, Benjamim?”


Pela primeira vez Benjamim consentiu em quebrar sua norma, e

leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora,

senão um único Mandamento que dizia:


TODOS OS BICHOS SÃO IGUAIS, MAS

ALGUNS BICHOS SÃO MAIS IGUAIS QUE OUTROS


Depois disso, não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos

que supervisionavam o trabalho da granja andassem com chicotes

nas patas. Ninguém estranhou saber que os porcos haviam

comprado um aparelho de rádio, que estavam tratando da

instalação de um telefone e da assinatura de jornais e revistas. Não

estranharam quando Napoleão foi visto passeando nos jardins da

casa com um cachimbo na boca — não, nem quando os porcos se

apoderaram das roupas do sr. Jones e passaram a usá-las,

Napoleão apresentando-se com um casaco negro, calções de caça

e perneiras de couro, enquanto sua porca favorita surgia com o

vestido de seda chamalotado que a sra. Jones usava aos domingos.


Uma semana mais tarde, após o meio-dia, apareceram

numerosas charretes subindo rumo à granja. Uma representação de

granjeiros vizinhos fora convidada a realizar uma visita de inspeção.

Toda a granja lhes foi mostrada, e eles expressaram grande

admiração por tudo quanto viram, em especial pelo moinho de




vento. Os bichos estavam limpando a lavoura de nabos.

Trabalhavam diligentemente, mal levantando o olhar do chão e sem

saber a quem temer mais, se aos porcos, se aos visitantes

humanos.


Naquela noite, altas risadas e cantorias chegaram da casa. Lá

pelas tantas, ante o som das vozes misturadas, os bichos

encheram-se de curiosidade. Que estaria acontecendo lá dentro,

agora que, pela primeira vez, encontravam-se em termos de

igualdade os animais e os humanos? Pensando todos a mesma

coisa, dirigiram-se furtivamente para o jardim da casa.


No porão titubearam, um tanto temerosos, mas Quitéria deu o

exemplo e entrou. Andaram pé ante pé, até a casa, e os mais altos

espiaram através da janela da sala de jantar. Lá dentro, em volta de

uma mesa grande, estavam sentados meia dúzia de granjeiros e

meia dúzia de porcos dentre os mais eminentes, Napoleão no lugar

de honra, à cabeceira. Os porcos pareciam perfeitamente à vontade

em suas cadeiras. O grupo estivera jogando cartas, mas havia

interrompido o jogo por instantes, evidentemente para os brindes.

Um grande jarro circulava, e os copos se enchiam de cerveja.

Ninguém notou as caras admiradas dos bichos, que espiavam pela

janela.


O sr. Pilkington, da Granja Foxwood, levantara-se com o copo na

mão. Disse que ia convidar os presentes para um brinde. Mas antes

desejava dizer algumas palavras, que julgava ser seu dever

pronunciar.


Era motivo de grande satisfação para ele — e tinha certeza de

que falava por todos os demais — sentir que o longo período de

desconfianças e desentendimentos chegara ao fim. Tempo houvera

— não que ele ou qualquer um dos presentes tivesse pensado

dessa maneira —, mas tempo houvera em que os respeitáveis

proprietários da Granja dos Bichos eram olhados não diria com

hostilidade, mas com certa apreensão, por seus vizinhos humanos.

Ocorreram incidentes desagradáveis, e ideias errôneas circularam.

Parecera a muitos que a existência de uma granja pertencente a

animais e por eles administrada era coisa um tanto fora do comum e

poderia vir a causar transtornos à vizinhança. Muitos granjeiros

supuseram, sem as verificações devidas, que em tal granja




prevalecia um espírito de licenciosidade e indisciplina. Tinham se

preocupado com o efeito de tudo isso sobre seus próprios animais,

e até mesmo sobre seus empregados humanos. Mas todas essas

dúvidas estavam agora dissipadas. Hoje, ele e seus companheiros

tinham visitado a Granja dos Bichos, inspecionando cada metro

quadrado com seus próprios olhos, e o que haviam encontrado?

Não apenas métodos dos mais modernos, mas uma ordem e uma

disciplina que podiam servir de exemplo. Julgava poder afirmar que

os animais inferiores da Granja dos Bichos trabalhavam mais e

recebiam menos comida do que quaisquer outros animais do

condado. Para falar a verdade, ele e seus companheiros de visita

haviam visto, naquele dia, muita coisa que pretendiam introduzir

imediatamente em suas próprias granjas.


Finalizaria suas palavras, continuou, assinalando mais uma vez

os sentimentos de amizade que prevaleciam e deviam prevalecer

entre a Granja dos Bichos e seus vizinhos. Entre os porcos e os

seres humanos não havia, e eram inteiramente inadmissíveis,

quaisquer conflitos de interesses. Suas lutas e dificuldades eram

uma só. Pois o trabalho não constituía o mesmo problema em toda

parte? A essa altura, evidenciou-se que o sr. Pilkington pretendia

brindar a plateia com um dito espirituoso, mas por alguns momentos

pareceu que gozava demais da própria piada, para poder dizê-la.

Depois de muita sufocação, que deixou vermelhos seus vários

queixos, ele conseguiu dizê-la: “Se Vossas Senhorias têm

problemas com vossos animais inferiores, nós os temos lá com

nossas classes inferiores”. Este bon mot causou sensação na mesa,

e o sr. Pilkington novamente felicitou os porcos pelas muitas horas

de trabalho, pela ausência de mimos e pelas baixas rações que

observara na Granja dos Bichos.


E agora, disse finalmente, convidava o grupo a levantar-se e

verificar se os copos estavam cheios.


“Cavalheiros”, concluiu o sr. Pilkington, “proponho um brinde: à

prosperidade da Granja dos Bichos!”


Houve uma entusiástica ovação e uma salva de palmas.

Napoleão ficou tão emocionado que deixou seu lugar e deu a volta

na mesa para tocar com seu copo o do sr. Pilkington, antes de

esvaziá-lo. Quando as felicitações acabaram, Napoleão, que




permanecera de pé, disse que iria também proferir algumas

palavras.


Como todos os discursos de Napoleão, aquele foi curto e direto

ao assunto. Também ele, disse, alegrava-se de que o período de

desentendimentos tivesse chegado ao fim. Por longo tempo houvera

rumores — inventados, acreditava, e tinha razões para isso, por

algum inimigo mal-intencionado — de que havia algo de subversivo

e mesmo de revolucionário nos pontos de vista seus e de seus

companheiros. Tinham passado por desejosos de fomentar a

rebelião entre os animais das granjas vizinhas. Nada podia estar

mais longe da verdade! Seu único desejo, agora como no passado,

era viver em paz e gozando de relações normais com seus vizinhos.

Aquela granja que ele tinha a honra de governar, acrescentou, era

um empreendimento cooperativo. As escrituras que estavam em seu

poder conferiam a posse a todos os porcos.


Não acreditava que ainda restassem quaisquer das velhas

suspeitas, mas certas modificações na rotina da granja haviam sido

introduzidas com o fito de promover uma confiança ainda maior. Até

aquele momento os bichos haviam conservado o hábito imbecil de

se dirigir uns aos outros pelo vocativo de “camarada”. Isso ia acabar.

Existira também o costume insólito, cuja origem era desconhecida,

de marchar aos domingos, desfilando diante de uma caveira de

porco pregada num poste. Isso também ia acabar, e a caveira já fora

enterrada. Os visitantes, com certeza, teriam observado também a

bandeira verde que tremulava no poste. Nesse caso, haveriam de

ter notado que as antigas figuras do chifre e do casco, em branco,

tinham sido suprimidas. Daí por diante seria uma bandeira

puramente verde.


Gostaria de fazer apenas um reparo, disse, ao excelente discurso,

bem próprio de um bom vizinho, do sr. Pilkington. Este referira-se o

tempo todo à Granja dos Bichos. Naturalmente ele não podia saber

— mesmo porque Napoleão o estava proclamando naquele instante

pela primeira vez — que a denominação “Granja dos Bichos” fora

abolida. A partir daquele momento sua granja deveria ser chamada

Granja do Solar — que, aliás, era seu nome correto e original.


“Cavalheiros”, concluiu Napoleão, “levantarei o mesmo brinde,

mas de forma diferente. Enchei até a borda vossos copos.




Cavalheiros, este é o meu brinde: à prosperidade da Granja do

Solar!”


Houve as mesmas calorosas felicitações de antes, e os copos

foram esvaziados. Mas aos olhos dos bichos, que lá de fora

espiavam, pareceu que algo estranho estava acontecendo. Que

diabo teria alterado a cara dos porcos? Os olhos embaçados de

Quitéria iam de uma cara para outra. Algumas tinham cinco queixos,

outras quatro, outras três. Mas algo parecia misturá-las e modificá-

las. Então, findos os aplausos, o grupo pegou novamente nas

cartas, reencetando o jogo interrompido, e os animais afastaram-se

em silêncio.


Não haviam, porém, chegado sequer a vinte metros quando se

detiveram ante o vozerio alto que vinha lá de dentro. Voltaram

correndo e tornaram a espiar pela janela. De fato, era uma

discussão violenta. Gritos, socos na mesa, olhares irados, furiosas

negativas. A origem da briga, aparentemente, fora o fato de

Napoleão e o sr. Pilkington terem, ao mesmo tempo, apresentado

um ás de espadas.


Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não

havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos

porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem,

de um homem para um porco e de um porco para um homem outra

vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era

porco.


*




Posfácio Repensando A revolução dos bichos

| Christopher Hitchens (2006)


Certo dia no final da década de 1930, pouco depois de regressar

da Guerra Civil Espanhola, George Orwell estava fazendo uma de

suas longas caminhadas solitárias pelo interior da Inglaterra. Como

haveria de recordar mais tarde:


Pensei em denunciar o mito soviético numa história que fosse fácil de compreender

por qualquer pessoa e fácil de traduzir para outras línguas. No entanto, os detalhes

concretos da história só me ocorreriam depois, na época em que morava numa

cidadezinha, no dia em que vi um menino de uns dez anos guiando por um caminho

estreito um imenso cavalo de tiro que cobria de chicotadas cada vez que o animal

tentava se desviar. Percebi então que, se aqueles animais adquirissem consciência

de sua força, não teríamos o menor poder sobre eles, e que os animais são

explorados pelos homens de modo muito semelhante à maneira como o proletariado

é explorado pelos ricos.


O conceito de “direitos dos animais” ainda não existia na época,

de maneira que Orwell decidiu fazer um uso antropomórfico de sua

percepção. Dessa vez os animais iriam adquirir fala, inteligência e a

coragem de derrubar seus exploradores humanos. Mas sua tragédia

seria uma escravidão nova e mais impiedosa nas mãos de seus

semelhantes. Todos os animais seriam proclamados iguais, só que

— de acordo com uma expressão que desde então entrou para o

vocabulário do nosso tempo — “alguns são mais iguais que outros”.


Orwell só terminaria o livro seis anos depois, preocupado que

estava com o início da Segunda Guerra Mundial, com seus

problemas de saúde e com a necessidade de ganhar a vida como

jornalista free-lancer e locutor de rádio. O manuscrito original quase

se perdeu quando seu apartamento em Londres foi atingido por um

dos primeiros mísseis conhecidos como “bombas voadoras”,

disparado do outro lado do canal pelos nazistas. E como veremos,

por muito pouco não deixou de ser publicado. Mas vale a pena

assinalar o momento germinal da história: a ambição declarada de

Orwell era “analisar a teoria de Marx do ponto de vista dos animais”.




Ele servira na Espanha com as milícias do POUM, um partido quase

trotskista que sofrera uma repressão terrível nas mãos do aparato

policial dominado pelos soviéticos, e Orwell e sua mulher, Eileen,

tiveram, como ele dizia, “muita sorte de sair da Espanha com vida”.

Não menos importante, em Barcelona tinham visto


gente inocente ser atirada na prisão só por suspeita de desvio da ortodoxia. No

entanto, quando voltamos à Inglaterra, encontramos muitos observadores sensatos e

bem informados que acreditavam nos relatos mais fantasiosos — envolvendo

conspirações, traição e sabotagem — que a imprensa fazia dos processos de

Moscou.


Na mesma medida em que os acontecimentos da Espanha assim

se transformaram, em seu espírito, numa alegoria dos fatos mais

amplos que aconteciam na Rússia, A revolução dos bichos se

transformou numa sátira sobre a experiência soviética como um

todo. “Ao longo dos últimos dez anos”, escreveu ele em 1947,

“convenci-me de que a destruição do mito soviético era essencial

para conseguirmos reviver o movimento socialista.”


Todos os trechos que cito aqui foram tirados de um prefácio que

Orwell escreveu para uma edição de A revolução dos bichos

publicada inicialmente em ucraniano e distribuída nos campos de

refugiados que se espalhavam pela Europa desde 1945.* Para os

refugiados ucranianos, que não só tinham sobrevivido à guerra

como também assistido à stalinização de seu país, à coletivização e

à fome que a acompanhava, a história precisava de muito pouco em

matéria de contexto ou explicação. No entanto, mais de meio século

se passou desde aquele momento, e alguns de seus contornos

merecem reforço, além de um certo reexame.


No momento em que a ação do livro começa, todos os bichos da

opressiva fazenda do sr. Jones são convocados para ouvir a última

mensagem do velho porco moribundo que era o animal mais

respeitado de toda a propriedade. O velho Major analisa a vida de

provação e sacrifício dos animais, conclama todos a derrubar seus

opressores e pinta um quadro de um futuro radioso baseado no

princípio da ajuda mútua e da prosperidade. Propõe um hino,

“Bichos da Inglaterra”, para servir como sua versão da “Internacional

Socialista”. Em seguida morre, mas a mensagem arrebatadora

dessa figura inspirada em Marx logo é adotada pelos porcos mais

cultos, a intelligentsia do mundo animal. Conseguem forjar uma




aliança entre os fortes cavalos Sansão e Quitéria, que representam

o proletariado, e os elementos disparatados do campo e da classe

média representados pelas ovelhas, pelas vacas, pelas galinhas e

outras forças dos pastos e do quintal. Só a égua branca Mimosa —

um tipo pequeno-burguês que tinha sido alvo dos mimos do sr.

Jones — e Moisés, o corvo — ave de uma eloquência crocitante e

vocação de pregador que fala de um mundo além do céu —,

permanecem indiferentes. Numa série de batalhas, não só expulsam

o sr. Jones como ainda derrotam suas tentativas de restaurar-se no

poder com a ajuda de fazendeiros vizinhos. Começa então um

período de intensa construção, acompanhada de isolamento e

perigo e, cada vez mais, da sensação de que os porcos se tinham

apoderado de uma fatia excessiva de poder e privilégios.


Qualquer um que conheça um pouco a história da Revolução

Russa já terá percebido as semelhanças. E Orwell ainda fez o

possível para sublinhar e enfatizar alguns paralelos. A excomunhão

dos dissidentes, a reescritura da história, os julgamentos

espetaculares e as execuções em massa são representados com

grande nitidez. O fim do nobre cavalo Sansão, que trabalha até

morrer e no final é despachado da maneira mais cínica, é uma cena

de emoção intensa e terrível, e sabe-se que tende a comover

mesmo os leitores mais jovens, que só têm uma noção muito vaga

da analogia histórica. (Vários dos contemporâneos de Orwell lhe

escreveram contando que seus filhos tinham gostado muito do livro

só pela sua história.) Mas é o cuidado com os detalhes que

impressiona: Moisés, o corvo, acaba obtendo permissão de voltar à

fazenda, assim como Stálin permitiu a reentrada em atividade da

Igreja ortodoxa russa durante a Segunda Guerra Mundial, e a

“Internacional Socialista” foi substituída por versos e palavras de

ordem mais simples.


Por isso, é mais estranho ainda que, em determinado aspecto, a

analogia seja extremamente enganosa e incompleta. É muito óbvio,

e não só devido ao nome, que Napoleão deve representar Stálin. E

é igualmente óbvio, inclusive no que diz respeito a seu exílio e sua

queda em desgraça, que o outro líder dos porcos, Bola-de-Neve,

pretende representar Trotski. Mas onde fica Lênin nisso tudo?




Tenho minha própria especulação acerca do motivo de Orwell ter

composto seu “conto de fadas” rural (como ele próprio chamava seu

livro) como um Hamlet sem o príncipe. Naquela época, a esquerda

em geral ainda não se decidira quanto a Lênin. Os trotskistas

denunciavam Stálin como o “coveiro” do leninismo; os stalinistas

reivindicavam o manto de Lênin. Só as forças conservadoras diziam

que o leninismo e o stalinismo não passavam de dois nomes para a

mesma coisa. E toda a “moral” da história se perde se a ideia da

revolução dos bichos for perversa ou irracional desde o início.

Assim, conscientemente ou não, Orwell apaga a figura que teria

deixado sua história um pouco complicada demais. (Estranhamente,

ou talvez por motivos semelhantes, também existe um Stálin, na

forma do Grande Irmão, e um Trotski, na forma de Emmanuel

Goldstein, em 1984. Mas Lênin está ausente.)


O leitor pode ter reparado que Orwell, acima, afirma que sua

finalidade é “reviver o movimento socialista”. Era uma aspiração

compartilhada pelos refugiados ucranianos e poloneses que lhe

escreveram logo depois da Segunda Guerra Mundial, perguntando

se poderiam traduzir o livro para sua língua. O primeiro deles foi Ihor

Sevcenko, que escreveu para Orwell em abril de 1946:


A parte dos nossos emigrantes que foi parar no exílio não só devido a convicções

nacionalistas, mas pelo que sentiam vagamente tratar-se de uma procura da

“dignidade humana” e da “liberdade”, não se sente nem um pouco reconfortada

quando algum intelectual de direita lhe faz uma advertência eloquente. Estava

especialmente ansiosa para ouvir alguma coisa desse tipo, mas produzida no campo

socialista, do qual se sentia intelectualmente mais próxima […] Em várias ocasiões

traduzi diferentes trechos de A revolução dos bichos. Meus ouvintes eram refugiados

soviéticos. O efeito sempre foi impressionante. Concordavam com quase todas as

suas interpretações. Sentiam-se profundamente afetados por cenas como as dos

animais cantando “Bichos da Inglaterra” no alto da encosta.


Foi em resposta a esse pedido que Orwell escreveu seu primeiro

e único posfácio a este livro, do qual retirei as citações acima. A

edição resultante, traduzida e barata, foi recolhida e queimada pelas

autoridades de ocupação americanas na Alemanha, temerosas de

que sua distribuição pudesse ofender as contrapartidas do Exército

Vermelho na outra “zona”. E nem foi esse o único destino irônico

que as primeiras edições do livro acabaram tendo. Os comunistas e

seus simpatizantes no Ministério da Informação britânico do tempo

da guerra (um dos quais seria mais tarde denunciado como agente

da KGB) fizeram naturalmente o possível para inibir a publicação da




obra, que poderia causar embaraços a Stálin, então aliado de

guerra. Mas até T. S. Eliot, o doyen do mundo editorial conservador,

rejeitou A revolução dos bichos quando o livro lhe foi submetido, e

achava que o romance era inoportuno — para não falar do quanto

era inadequado apresentar os comunistas como porcos. Nos

Estados Unidos, o livro foi rejeitado duas vezes. A primeira recusa,

que pode ter sido simples idiotice, veio da Dial Press, que escreveu

para Orwell dizendo-lhe que não havia mercado para histórias com

animais na América (numa cultura dominada por Walt Disney!). A

segunda rejeição foi claramente ideológica. Arthur Schlesinger Jr.

enviou um exemplar do livro para a Random House, onde foi

rejeitado por um importante companheiro de viagem comunista

chamado Angus Cameron. Embora A revolução dos bichos tenha

acabado encontrando pequenos editores em tiragens limitadas,

tanto em Londres quanto em Nova York, quase foi condenado ao

destino de Lutando na Espanha, o livro praticamente ignorado que

Orwell escrevera sobre suas experiências com o stalinismo na

Guerra Civil Espanhola. Talvez seja justo que este livro tenha sido

um caso prematuro de samizdat.**


Numa medida impressionante e surpreendente, continua a existir

nessa forma. Tendo se transformado num clássico da Guerra Fria (a

CIA mais tarde compensaria de sobra a destruição do livro pelo

exército americano, ajudando a patrocinar sua ampla distribuição

em inúmeros países do mundo, junto com uma versão de

propaganda em desenho animado), hoje é consagrado na Europa

Oriental como uma das primeiras afirmações originais do

antitotalitarismo. Mas na China continua proibido, muito embora uma

versão musical já tenha sido encenada por ousados vanguardistas,

e na Coreia do Norte, claro, nem sequer é conhecido. Um amigo

comunista me telefonou da China alguns anos atrás para dizer que

achava que eu podia ter razão sobre Orwell, no fim das contas.

Acabara de ler um discurso de um dos líderes do partido, dizendo

que os camponeses precisavam enriquecer, e que “alguns deles

iriam ficar mais ricos que os outros”. Foi a primeira vez que ouvi

falar em Deng Xiaoping.


No Zimbábue, em resposta à repressão generalizada promovida

pelo partido governante de Robert Mugabe, bem como ao uso de




alimentos como arma para premiar ou punir os eleitores, o jornal da

oposição simplesmente mandou reimprimir o texto de A revolução

dos bichos na forma de um folhetim diário ilustrado. Sem qualquer

comentário adicional: a única pista era o par de óculos parecidos

com os de Mugabe usado pela figura de Napoleão. Em pouco

tempo, a sede do jornal sofreu um atentado a bomba, com

explosivos de alta potência disponíveis apenas para o exército do

país. Do mundo islâmico, o livro continua banido, o que é justificado,

alega-se, pelo fato de retratar porcos. Pouco importa que os porcos

sejam apresentados como o opressor: o literalismo corânico

permanece absoluto. E pode haver outros motivos para a proibição:

pouco tempo atrás, fui abordado por dissidentes iranianos que

pretendiam produzir uma edição pirata que, esperam, possa

denunciar a corrupção e a ganância dos supostos puritanos que

governam a República Islâmica.


O livro é famoso por terminar com os animais reunidos do lado de

fora, no frio, observando o rapprochement entre porcos e seres

humanos e incapazes de distinguir quem era o quê. Isso já foi

entendido, erradamente, como a afirmação da equivalência moral

entre capitalismo e comunismo, e por essa razão o trecho foi

cortado do desenho produzido pela CIA. Na verdade, como sabemos

pelo próprio Orwell, o final era uma referência sarcástica ao então

famoso encontro de Teerã reunindo Churchill, Roosevelt e Stálin.

Saudado num primeiro momento como uma promessa de

cooperação no pós-guerra entre os diversos blocos, o encontro lhe

pareceu uma reunião cínica destinada à partilha do butim, cujos

efeitos dificilmente haveriam de durar muito. (O acordo subsequente

firmado em Yalta, consolidando a divisão da Europa e do resto do

mundo, inaugurou o estado de permanente “Guerra Fria” —

expressão cunhada por Orwell — que caracterizaria 1984.) O que o

romance na verdade nos diz, com seus amenos empréstimos de

Swift e Voltaire, é que aqueles que renunciam à liberdade em troca

de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra. Essa é

uma lição que transcende o momento em que foi escrita.


*

* O prefácio de Orwell está reproduzido nesta edição, como apêndice. (N. E.)




** Publicações que circulavam clandestinamente nos países do bloco soviético. (N. E.)




Apêndices




I

A liberdade de imprensa

prefácio proposto pelo autor à primeira edição inglesa, de 1945*


Este livro começou a ser concebido, ou pelo menos sua ideia

central, em 1937, mas só comecei a escrevê-lo no final de 1943.

Quando finalmente terminei, ficou óbvio que seria muito difícil

publicá-lo (apesar da escassez corrente de livros, graças à qual

qualquer coisa que se possa descrever como um livro acaba

“vendendo”), e de fato ele acabou sendo recusado por quatro

editores. Só um deles tinha alguma motivação ideológica. Dois

outros vinham publicando livros antirrussos havia muitos anos, e o

outro não tinha nenhuma coloração política perceptível. Na verdade

um dos editores primeiro aceitou o livro, mas depois dos acertos

preliminares decidiu consultar o Ministério da Informação, que

parece ter se manifestado contrário à publicação, ou pelo menos

energicamente alarmado com ela. Eis um trecho de sua carta:


Mencionei a reação que colhi junto a um importante funcionário do Ministério da

Informação quanto a A revolução dos bichos, e devo confessar que a opinião que ele

manifestou me fez pensar muito seriamente […] Agora vejo o quanto a publicação do

livro no momento atual pode ser considerada de extrema inconveniência. Se a fábula

tratasse de ditadores e ditaduras em geral, não haveria problema em publicá-la, mas

ela, como agora entendi, corresponde tão completamente aos fatos ocorridos na

Rússia soviética e a seus dois ditadores que só pode se aplicar à Rússia, excluindo

as demais ditaduras. Outra coisa: seria menos ofensivo se a casta predominante na

fábula não fosse a dos porcos.** Creio que a escolha dos porcos para a casta

governante irá certamente ofender muita gente, especialmente as pessoas mais

suscetíveis, como sem dúvida é o caso dos russos.


Esse tipo de coisa não é um bom sintoma. Obviamente, não

desejamos que nenhum departamento do governo tenha poder de

censura (exceto a censura de segurança nacional, a que ninguém

se opõe em tempo de guerra) sobre livros que nem contam com

patrocínio oficial. Mas aqui o principal atentado contra a liberdade de

pensamento e de expressão não é a interferência direta do




ministério ou de qualquer outro organismo oficial. Se os donos e

diretores das editoras se empenham em manter certos tópicos longe

da página impressa, não é porque tenham medo de processos

judiciais, mas porque temem a opinião pública. Neste país, a

covardia intelectual é o pior inimigo que um escritor ou jornalista

precisa enfrentar, e esse fato não me parece estar sendo tão

discutido quanto mereceria.


Qualquer pessoa equilibrada com experiência jornalística admitirá

que, durante esta guerra, a censura oficial não tem sido

especialmente incômoda na Inglaterra. Não fomos submetidos ao

tipo de “coordenação” totalitária que seria até razoável esperar. A

imprensa tem algumas queixas justificáveis, mas no geral o governo

vem se comportando bem, demonstrando uma surpreendente

tolerância em relação às opiniões minoritárias. O pior da censura

literária na Inglaterra é que em grande parte ela é voluntária. Ideias

impopulares podem ser silenciadas, e fatos inconvenientes podem

ser mantidos à sombra, sem a necessidade de nenhuma proibição

oficial. Qualquer pessoa que tenha passado algum tempo num país

estrangeiro conhecerá muitos casos em que notícias

sensacionalistas — notícias que, por seus próprios méritos, fariam

manchete — são mantidas fora da imprensa britânica não por causa

de alguma intervenção do governo, mas devido a um acordo tácito

generalizado segundo o qual “não convinha” mencionar aquele fato

em particular. No que se refere aos jornais diários, isso é fácil de

entender. A imprensa britânica é altamente centralizada, e quase

toda controlada por homens ricos que têm todos os motivos para se

mostrar desonestos em relação a certas questões fundamentais.

Mas o mesmo tipo de censura velada também afeta livros e

periódicos, além de peças teatrais, filmes e a programação do rádio.

Em qualquer momento dado, existe uma ortodoxia, um corpo de

ideias que, supostamente, todas as pessoas bem-pensantes

aceitarão sem questionar. Não é exatamente proibido dizer isso ou

aquilo, mas dizê-lo é uma coisa que “não se faz”, assim como na era

vitoriana falar de roupas de baixo na presença de uma senhora era

coisa que “não se fazia”. Qualquer um que desafie a ortodoxia

predominante se vê silenciado com uma eficácia surpreendente.

Uma opinião genuinamente destoante quase nunca recebe a




atenção devida, nem na imprensa popular nem nos periódicos mais

intelectualizados.


No momento atual, o que a ortodoxia predominante exige é uma

admiração acrítica da Rússia soviética. Todo mundo sabe disso, e

quase todo mundo age de acordo. Qualquer crítica séria ao regime

dos sovietes, qualquer revelação de fatos que o governo soviético

prefira manter ocultos são coisas praticamente impublicáveis. E

essa conspiração de alcance nacional destinada a agradar nossa

aliada ocorre, o que é muito curioso, contra um fundo de autêntica

tolerância intelectual. Porque, embora não lhe seja permitido criticar

o governo soviético, pelo menos temos uma razoável liberdade para

criticar o nosso. Quase ninguém publicaria um ataque a Stálin, mas

não há o menor problema em atacar Churchill, pelo menos por

escrito, em livros ou revistas. E ao longo de cinco anos de guerra,

durante dois ou três dos quais lutamos pela sobrevivência nacional,

inúmeros livros, panfletos e artigos defendendo uma paz negociada

com o inimigo foram publicados sem nenhuma interferência. E mais,

foram publicados sem despertar muita reprovação. Contanto que o

prestígio da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas não esteja

envolvido, o princípio da liberdade de expressão tem sido

razoavelmente respeitado. Existem assuntos proibidos, e falarei em

seguida de alguns, mas a atitude dominante em relação à URSS é de

longe o mais sério dos sintomas. É por assim dizer espontânea, e

não se deve à atividade de nenhum grupo de pressão.


O servilismo com que a maior parte da intelligentsia britânica

engole e repete a propaganda russa desde 1941 seria espantoso se

os intelectuais britânicos não tivessem exibido um comportamento

similar em várias ocasiões anteriores. Em todas as questões

controversas, o ponto de vista russo é aceito sem discussão e em

seguida divulgado sem o menor respeito pela verdade histórica ou a

decência intelectual. Para mencionar um bom exemplo,

recentemente a BBC comemorou o 25o aniversário do Exército

Vermelho sem tocar no nome de Trotski. O que era mais ou menos

tão correto quanto celebrar a Batalha de Trafálgar sem mencionar o

almirante Nelson, mas não provocou qualquer protesto da

intelligentsia britânica. Nas disputas internas dos vários países

ocupados, a imprensa britânica em quase todos os casos tomou o




partido da facção favorecida pelos russos e difamou a facção

oposta, chegando às vezes a suprimir provas materiais em seu

esforço. Um caso especialmente flagrante foi o do coronel

Mikhailovich, o líder guerrilheiro iugoslavo. Os russos, que tinham

seu protegido iugoslavo no marechal Tito, acusaram Mikhailovich de

colaborar com os alemães, acusação prontamente encampada pela

imprensa britânica. Os partidários de Mikhailovich não tiveram

nenhuma oportunidade de rebatê-la, e fatos que contradiziam a

colaboração foram simplesmente mantidos fora das páginas. Em

julho de 1943, os alemães ofereceram uma recompensa de 100 mil

coroas de ouro pela captura de Tito, e recompensa igual pela

captura de Mikhailovich. A imprensa britânica deu ampla divulgação

à recompensa por Tito, mas só um jornal mencionou (em letras

miúdas) a recompensa por Mikhailovich, enquanto continuavam as

acusações de colaboração com os alemães. Coisas muito

semelhantes aconteceram durante a Guerra Civil Espanhola.

Também naquela época, as facções do lado republicano que os

russos estavam determinados a esmagar eram impiedosamente

difamadas na imprensa inglesa de esquerda [sic], e qualquer

declaração em sua defesa, mesmo em forma de carta, tinha a

publicação recusada. Hoje, além de se considerar repreensível

qualquer crítica séria à URSS, a própria existência dessas críticas

tende a ser mantida em segredo. Por exemplo, pouco antes de sua

morte, Trotski escreveu uma biografia de Stálin. Pode-se supor que

não fosse um livro exatamente imparcial, mas evidentemente muito

vendável. Uma editora americana combinou que iria publicá-lo, e o

livro já estava no prelo — acredito que os exemplares destinados à

imprensa já tinham sido distribuídos — quando a URSS entrou na

guerra. O livro foi imediatamente recolhido. Nenhuma palavra a

respeito jamais foi lida na imprensa britânica, embora tanto a

existência de tal livro quanto a sua supressão fossem uma notícia

claramente merecedora de alguns parágrafos.


É importante distinguir entre o tipo de censura que a intelligentsia

literária britânica aceita impor-se por vontade própria e a censura

que às vezes pode ser exercida por grupos de pressão. Existem

alguns assuntos que, notoriamente, não podem ser discutidos por

causa dos “interesses bem estabelecidos”. O caso que se conhece




melhor é o da quadrilha da indústria farmacêutica. Outro é o da

Igreja católica, que exerce uma influência considerável sobre a

imprensa e consegue silenciar até certo ponto as críticas que lhe

são feitas. Um escândalo com um padre católico quase nunca é

divulgado, enquanto qualquer sacerdote anglicano que se envolva

em problemas (por exemplo, o reitor de Stiffkey***) logo se

transforma em manchete. É muito raro qualquer coisa de tendência

anticatólica aparecer no palco ou nas telas. Qualquer ator pode

confirmar que uma peça ou filme que ataque a Igreja católica corre o

risco de ser boicotado pela imprensa, e estará provavelmente

fadado ao fracasso. Mas esse tipo de coisa é inofensivo, ou no

mínimo compreensível. Qualquer organização importante sempre

cuida dos seus interesses da melhor maneira, e não se pode objetar

à propaganda declarada. É tão provável o Daily Worker divulgar

fatos desfavoráveis à URSS quanto o Catholic Herald publicar

denúncias contra o papa. Mas também, qualquer pessoa pensante

sabe o que são o Daily Worker e o Catholic Herald. O que é

inquietante é que, sempre que a URSS e sua política estão em jogo,

não se pode esperar críticas inteligentes nem, em muitos casos,

pura e simples honestidade dos escritores e jornalistas liberais, que

não sofrem pressões diretas para falsificar suas opiniões. Stálin é

sacrossanto, e certos aspectos de suas diretrizes não podem ser

seriamente discutidos. Esta regra vem sendo quase universalmente

observada desde 1941, mas já operava, em medida bem mais

ampla do que às vezes se percebe, dez anos antes. Já naquela

época, a crítica do regime soviético a partir da esquerda só

conseguia se fazer ouvir com muita dificuldade. Havia uma vasta

produção de literatura antirrussa, mas quase toda vinha dos rincões

conservadores e era flagrantemente desonesta, desatualizada e

movida por motivos sórdidos. Do outro lado havia uma enchente

igualmente imensa e quase igualmente desonesta de propaganda

pró-russa, o que resultava no boicote de qualquer pessoa que

tentasse discutir questões fundamentais de forma adulta. Era

possível, de fato, publicar livros antirrussos, mas fazê-lo era a

garantia de ser ignorado ou ter suas palavras distorcidas por quase

toda a imprensa intelectualizada. Tanto em público quanto em

particular, era-se avisado de que isso “não se faz”. O que se tinha a




dizer podia até ser verdade, mas era “inoportuno” e “fazia o jogo”

deste ou daquele interesse da reação. Essa atitude era geralmente

defendida porque a situação internacional e a necessidade urgente

de uma aliança anglo-russa assim o exigiam; mas era claro que se

tratava de uma racionalização. A intelligentsia britânica, ou grande

parte dela, desenvolveu uma lealdade à URSS de fundo nacionalista

e, na verdade, estava convencida de que pôr em dúvida a sabedoria

de Stálin era uma espécie de blasfêmia. O que ocorria na Rússia

devia ser julgado por padrões diferentes dos empregados para

avaliar o que ocorria no resto do mundo. As infindáveis execuções

dos expurgos de 1936-8 foram aplaudidas por antigos opositores da

pena capital, e da mesma forma considerava-se adequado noticiar a

fome quando acontecia na Índia, mas escondê-la quando assolava a

Ucrânia. E se esse já era o panorama antes da guerra, a atmosfera

intelectual certamente não melhorou nos últimos tempos.


Mas voltando a este livro. A reação a ele por parte da maioria dos

intelectuais ingleses será muito simples: “Não devia ter sido

publicado”. Naturalmente, os autores de resenhas que entendem da

arte de denegrir não irão atacá-lo com base na política, mas usarão

argumentos literários. Dirão que é um livro tedioso e bobo, um

escandaloso desperdício de papel. O que pode até ser verdade,

mas obviamente não é a história toda. Não se pode dizer que um

livro “não devia ter sido publicado” só porque é ruim. Afinal, vastas

quantidades de lixo são impressas a cada dia, e ninguém se

incomoda com isso. A intelligentsia britânica, em sua maioria, irá

reclamar deste livro porque calunia seu Líder e (na opinião deles)

prejudica a causa do progresso. Se fosse o contrário, nada teriam a

dizer contra a obra, mesmo que seus defeitos literários fossem dez

vezes mais flagrantes do que são. O sucesso, por exemplo, do

Clube do Livro de Esquerda nos últimos quatro a cinco anos mostra

o quanto esses leitores estão dispostos a tolerar uma escrita tanto

ridícula quanto descuidada, contanto que lhes diga o que desejam

ouvir.


A questão em jogo aqui é muito simples: será que qualquer

opinião, por mais impopular — por mais estúpida, até — que seja,

tem o direito de ser difundida? Formule-se a questão dessa

maneira, e qualquer intelectual inglês se sentirá obrigado a




responder que sim. Mas quando ela se reveste de uma forma

concreta, e alguém pergunta: “E que tal, por exemplo, um ataque a

Stálin? Tem direito de ser difundido?”, a resposta quase sempre

será não. Neste caso, o que ocorre é um desafio à ortodoxia

corrente, de maneira que o princípio da liberdade de expressão

deixa de funcionar. Quando alguém defende a liberdade de

expressão e de imprensa, não está reivindicando uma liberdade

absoluta. Enquanto existirem sociedades organizadas, sempre deve

existir, ou pelo menos sempre haverá de existir, algum grau de

censura. Mas a liberdade, como disse Rosa Luxemburgo, é a

“liberdade para o outro”. O mesmo princípio contido nas famosas

palavras de Voltaire: “Detesto cada palavra que o senhor diz, mas

defenderei até a morte seu direito de dizê-las”. Se existe algum

significado na liberdade do intelecto, que, sem dúvida, tem sido uma

das marcas da civilização ocidental, é que cada um tem o direito de

dizer e escrever o que julga ser verdade, contanto que aquilo que

diz ou escreve não seja inequivocamente nocivo para o restante da

comunidade. Até há pouco, tanto a democracia capitalista quanto as

versões ocidentais do socialismo respeitavam tacitamente esse

princípio. Nosso governo, como já afirmei, ainda age como se o

respeitasse. As pessoas comuns — em parte talvez por não se

interessarem pelas ideias a ponto de se mostrarem intolerantes

quanto a elas — ainda defendem vagamente que “todo mundo deve

ter direito a sua opinião”. Quem começa a desprezar a liberdade,

tanto na teoria quanto na prática, é só, ou principalmente, a

intelligentsia literária e científica, exatamente aqueles que deveriam

ser seus maiores guardiães.


Um dos fenômenos característicos do nosso tempo é o liberal

renegado. Além da conhecida noção marxista segundo a qual a

“liberdade burguesa” é uma ilusão, existe hoje uma difundida

tendência a argumentar que a democracia só pode ser defendida

por métodos totalitários. Se a pessoa tem apego pela democracia,

diz o argumento, precisa esmagar seus inimigos lançando mão de

qualquer meio. E quem são seus inimigos? Sempre se diz que não

são só os que a atacam aberta e conscientemente, mas os que

“objetivamente” a põem em risco através da difusão de doutrinas

equivocadas. Noutras palavras, a defesa da democracia envolve a




destruição de qualquer independência de pensamento. Foi este o

argumento usado, por exemplo, para justificar os expurgos na

Rússia. Mesmo o mais ardoroso dos russófilos acredita que nem

todas as vítimas eram de fato culpadas do que as acusavam, mas

sim do cultivo de opiniões heréticas que prejudicavam

“objetivamente” o regime; portanto, era justo não só massacrá-las

mas também desacreditá-las lançando-lhes falsas acusações. O

mesmo argumento foi usado para justificar a mentira bastante

consciente que correu pela imprensa de esquerda acerca dos

trotskistas e outras minorias republicanas durante a Guerra Civil

Espanhola. E que voltou a ser usada como motivo de tanto alarido

contrário ao habeas corpus quando Mosley foi solto em 1943.*


Essas pessoas não veem que, quando se endossam métodos

totalitários, pode chegar um momento em que deixarão de ser

usados a favor para se voltarem contra o indivíduo. Caso se

transforme num hábito jogar fascistas na prisão sem julgamento, o

processo talvez não se limite aos fascistas. Pouco depois do Daily

Worker, que fora proibido, ter sido reaberto, fui chamado para dar

uma conferência num estabelecimento de ensino para

trabalhadores, no sul de Londres. A plateia era composta de

intelectuais da classe trabalhadora e de classe média baixa — o

mesmo tipo de público que costumava reunir-se nos encontros do

Clube do Livro de Esquerda. A conferência tocara na questão da

liberdade de imprensa, e no final, para meu espanto, várias pessoas

se levantaram e me questionaram: eu não achava que a retirada da

proibição ao Daily Worker tinha sido um grande erro? Quando

perguntei por quê, responderam-me que era um jornal de lealdade

duvidosa, que não devia ser tolerado em tempos de guerra. Logo

me vi defendendo o Daily Worker, que mais de uma vez fizera o

possível para me difamar. Mas onde aquelas pessoas teriam

adquirido essa visão essencialmente totalitária? Era muito provável

que a tivessem aprendido com os próprios comunistas! A tolerância

e a decência têm raízes profundas na Inglaterra, mas não são

indestrutíveis, e precisam manter-se vivas graças em parte a um

esforço deliberado. O resultado da pregação de doutrinas

totalitaristas é o enfraquecimento do instinto graças ao qual as

pessoas sabem o que representa ou não um perigo. O que é bem




ilustrado pelo caso de Mosley. Em 1940, era perfeitamente correto

prender Mosley, tivesse ele cometido ou não um crime no sentido

técnico. Estávamos lutando pelas nossas vidas, e não podíamos

permitir que um possível colaboracionista continuasse em liberdade.

Mas mantê-lo preso em 1943, sem julgamento, era inaceitável. O

fato de ninguém ver a diferença era um mau sintoma, embora seja

verdade que toda a agitação contra a libertação de Mosley foi em

parte fabricada, uma racionalização de outras insatisfações. Mas

que parcela da deriva atual na direção de formas de pensamento

fascistas pode ser atribuída ao “antifascismo” dos últimos dez anos,

e à falta de escrúpulo que ele vem pregando?


É importante perceber que a russomania atual é apenas mais um

sintoma do enfraquecimento generalizado da tradição liberal do

Ocidente. Se o Ministério da Informação tivesse cometido o exagero

de vetar em definitivo a publicação deste livro, o grosso da

intelligentsia britânica não teria visto nada de inquietante na medida.

A lealdade acrítica à URSS transformou-se na ortodoxia do momento,

e sempre que os supostos interesses da URSS estão envolvidos,

nossos intelectuais se dispõem a tolerar não só a censura como a

falsificação deliberada da história. Para dar um exemplo, quando

morreu John Reed, autor de Dez dias que abalaram o mundo — um

relato em primeira mão dos primeiros dias da Revolução Russa —,

os direitos autorais do livro passaram para as mãos do Partido

Comunista Britânico, a quem Reed, segundo creio, tinha legado sua

obra. Alguns anos mais tarde, os comunistas britânicos, depois de

destruir o mais completamente que puderam a edição original do

livro, publicaram uma versão truncada na qual eliminaram todas as

menções a Trotski e também a apresentação escrita por Lênin. Se

uma intelligentsia radical ainda existisse na Grã-Bretanha, esse ato

de contrafação teria sido apontado e denunciado em todas as

revistas literárias do país. Na realidade, porém, quase não houve

protesto. Para muitos intelectuais ingleses, aquilo pareceu uma

coisa bem natural. E essa tolerância ou flagrante desonestidade não

ocorre apenas porque a admiração pela Rússia esteja em voga. É

até provável que a moda não dure muito. Inclusive pode ser que, no

momento em que este livro finalmente chegar ao público, minha

visão do regime soviético tenha se generalizado. Mas de que isso,




por si só, vai adiantar? A troca de uma ortodoxia por outra não

representa necessariamente um avanço. O inimigo é a mentalidade

de gramofone, concordemos ou não com o disco que está tocando

agora.


Conheço bem todos os argumentos contrários à liberdade de

pensamento e de expressão — os argumentos segundo os quais ela

não pode existir, e os argumentos segundo os quais não deve.

Respondo simplesmente que eles não me convencem, e que a

nossa civilização dos últimos quatrocentos anos apoia-se justo na

noção oposta. Já faz praticamente uma década que acredito que o

regime russo é basicamente maligno, e reivindico o direito de dizê-

lo, apesar da nossa aliança com a URSS numa guerra que desejo que

vençamos. Se eu precisasse escolher um texto para justificar-me,

escolheria um verso de Milton: “Pelas regras conhecidas da antiga

liberdade”.**


A palavra “antiga” enfatiza o quanto a liberdade intelectual é uma

tradição que tem raízes profundas e sem a qual duvido que nossa

típica cultura ocidental pudesse existir. Mas é dessa tradição que

muitos de nossos intelectuais vêm se desviando de maneira

perceptível. Aceitaram o princípio de que um livro deva ser

publicado ou suprimido, louvado ou condenado, não com base em

seus méritos, mas de acordo com a sua conveniência política. E

outros que na verdade não têm a mesma opinião acabam

concordando com ela por pura covardia. Um bom exemplo disso

pode ser visto quando os inúmeros e loquazes pacifistas ingleses

deixam de erguer a voz contra o culto reinante ao militarismo russo.

De acordo com esses pacifistas, toda violência é funesta, e em

todos os momentos da guerra eles nos conclamaram a desistir do

combate, ou pelo menos almejar a uma paz negociada. Mas

quantos deles jamais sugeriram que a guerra também é nefasta

quando travada pelo Exército Vermelho? Os russos parecem ter o

direito à autodefesa; para nós, ele consiste num pecado mortal. Só

existe um modo de explicar essa contradição: a saber, um desejo

covarde de não se perder do grosso da intelligentsia, cujo

patriotismo tem como objeto a URSS, não a Grã-Bretanha. Sei que a

intelligentsia britânica tem muitos motivos para sua timidez e

desonestidade, e na verdade já conheço de cor os argumentos que




usa para se justificar. Mas pelo menos devíamos parar de aceitar

absurdos em nome da defesa das liberdades contra o fascismo. A

liberdade, se é que significa alguma coisa, significa o nosso direito

de dizer às pessoas o que não querem ouvir. As pessoas comuns

ainda acreditam vagamente nessa doutrina, e agem de acordo com

ela. Neste nosso país — ela não é a mesma em todos os países;

não era igual na França republicana, e não é a mesma nos Estados

Unidos de hoje —, são os liberais que temem a liberdade e os

intelectuais que querem jogar lama no intelecto: foi para chamar

atenção para esse fato que escrevi este prefácio.


*

* Na primeira edição de A revolução dos bichos, havia um espaço para um prefácio do próprio Orwell, como

indica a paginação das provas do autor. O prefácio acabou não sendo publicado, e o original datilografado só

seria encontrado anos mais tarde por Ian Angus e publicado com uma apresentação do professor Bernard

Crick, intitulada “Como o ensaio acabou sendo escrito”, no The Times Literary Supplement de 15 de setembro

de 1972. (N.E.)

** Não ficou muito claro se esta modificação foi sugerida por ideia do próprio sr. … ou se veio do Ministério da

Informação, mas pelo tom eu diria que tem origem oficial. [Nota de Orwell]

*** Harold Davidson, sacerdote anglicano de Stiffkey, em Norfolk, também conhecido como “The ‘Prostitutes’

Padre”. Envolvido com prostitutas e vagabundos londrinos, foi expulso da Igreja anglicana na década de 30

por comportamento imoral. Hoje sua condenação está sendo revista. (N. T.)

* Refere-se a Sir Oswald Mosley, que fundou o Partido Fascista Inglês em 1937, manifestava apoio ativo a

Hitler e Mussolini, e em maio de 1940, sem processo, foi preso juntamente com a mulher, até ser libertado por

um habeas corpus em 1943. (N. T.)

** Cita o segundo verso do soneto XII de John Milton (1608-74), que começa, no original: “I did but prompt the

age to quit their clogs/ By the known rules of ancient liberty” (“Só preguei que nosso tempo abandonasse seus

jugos/ Pelas regras conhecidas da antiga liberdade”). (N. T.)




II

Prefácio do autor à edição ucraniana (1947)*


Pediram-me para escrever um prefácio à tradução ucraniana de A

revolução dos bichos. Sei que estou escrevendo para leitores sobre

os quais não sei nada, mas também que eles nunca tiveram a

menor oportunidade de saber nada a meu respeito.


Neste prefácio, o mais provável é que esperem que eu conte

alguma coisa sobre a origem de A revolução dos bichos, mas

primeiro queria falar um pouco sobre mim e sobre as experiências

através das quais cheguei à minha posição política.


Nasci na Índia em 1903. Meu pai trabalhava na administração

colonial inglesa, e minha família era uma dessas famílias comuns de

classe média de soldados, religiosos, funcionários públicos,

professores, advogados, médicos etc. Estudei em Eton, a mais cara

e esnobe das Public Schools da Inglaterra.** Mas só fui aceito lá

graças a uma bolsa de estudos; de outro modo, meu pai não teria

meios de me mandar para uma escola desse tipo.


Pouco depois de me formar (ainda não completara vinte anos) fui

para a Birmânia e me alistei na Polícia Imperial da Índia. Era uma

força policial armada, uma espécie de gendarmerie muito

semelhante à Guardia Civil da Espanha ou à Garde Mobile francesa.

Lá servi cinco anos. Não gostei daquilo, que me fez detestar o

imperialismo, embora naquela época não houvesse sentimentos

nacionalistas muito pronunciados na Birmânia, e as relações entre

britânicos e birmaneses não fossem especialmente inamistosas. De

folga na Inglaterra, em 1927, deixei o serviço e resolvi me tornar

escritor: num primeiro momento sem muito sucesso. Entre 1928 e

1929, vivi em Paris, escrevendo contos e romances que ninguém

publicaria (destruí todos de lá para cá). Nos anos seguintes, vivi

praticamente da mão para a boca, e passei fome em várias

ocasiões. Foi só a partir de 1934 que consegui começar a viver do




que ganho com meus escritos. Entrementes, cheguei a passar

meses a fio em meio aos elementos pobres e semicriminosos que

vivem nas piores partes dos bairros mais pobres, ou moram nas

ruas, mendigando e roubando. Naquela época me associei a eles

devido à falta de dinheiro; mais tarde, porém, seu modo de vida me

interessou muito pelo que representava. Passei muitos meses (mais

sistematicamente, dessa vez) estudando as condições de vida dos

mineiros do norte da Inglaterra. Até 1930 eu não me considerava

totalmente socialista. Na verdade, nunca tive opiniões políticas

claramente definidas. Tornei-me pró-socialista mais por desgosto

com a maneira como os setores mais pobres dos trabalhadores

industriais eram oprimidos e negligenciados do que devido a

qualquer admiração teórica por uma sociedade planificada.


Casei-me em 1936. Praticamente na mesma semana irrompeu a

Guerra Civil Espanhola. Tanto minha mulher como eu quisemos ir

para a Espanha e lutar pelo governo espanhol. E ficamos prontos

em seis meses, o tempo que levei para acabar o livro que estava

escrevendo. Na Espanha, passei quase seis meses na frente de

Aragão até que, em Huesca, o disparo de um francoatirador fascista

atravessou minha garganta.


Nos primeiros estágios da guerra, os estrangeiros viviam

praticamente desinformados das lutas internas entre os vários

partidos políticos que apoiavam o governo. Devido a uma série de

acidentes, entrei não para as Brigadas Internacionais, como a

maioria dos estrangeiros, mas para a milícia do POUM — os

trotskistas espanhóis.


Assim, em meados de 1937, quando os comunistas obtiveram o

controle (ou o controle parcial) do governo espanhol e começaram a

perseguir os trotskistas, eu e minha mulher nos vimos em meio às

vítimas. Tivemos muita sorte de conseguir deixar a Espanha com

vida, e de não termos sido presos uma vez sequer. Muitos dos

nossos amigos foram fuzilados, outros passaram longo tempo na

cadeia ou simplesmente desapareceram.


Essas caçadas humanas ocorriam na Espanha ao mesmo tempo

que os grandes expurgos na URSS, e eram uma espécie de

complemento a eles. Tanto na Espanha como na Rússia, a natureza

das acusações (a saber, conspiração com os fascistas) era a




mesma, e no que diz respeito à Espanha, tenho todos os motivos

para julgar que fossem falsas. Vivenciar tudo isso foi uma lição

valiosa: ensinou-me como é fácil para a propaganda totalitária

controlar a opinião de pessoas educadas em países democráticos.


Tanto minha mulher como eu vimos gente inocente ser atirada na

prisão só por suspeita de desvio da ortodoxia. No entanto, quando

voltamos à Inglaterra, encontramos muitos observadores sensatos e

bem informados que acreditavam nos relatos mais fantasiosos —

envolvendo conspirações, traição e sabotagem — que a imprensa

fazia dos processos de Moscou.


E assim compreendi, mais claramente que nunca, a influência

negativa do mito soviético sobre o movimento socialista ocidental.


Aqui preciso parar para descrever minha atitude perante o regime

soviético.


Nunca estive na Rússia, e meu conhecimento a respeito dela

consiste apenas do que pode ser aprendido pela leitura de livros e

jornais. Mesmo que tivesse o poder para tanto, nunca desejaria

interferir nos negócios internos soviéticos: jamais condenaria Stálin

e seus associados só por seus métodos bárbaros e

antidemocráticos. E é possível que, mesmo com a melhor das

intenções, eles realmente não pudessem agir de outra maneira nas

condições lá reinantes.


Por outro lado, porém, era da maior importância para mim que as

pessoas na Europa Ocidental pudessem ver o regime soviético

como de fato era. Desde 1930, eu vira poucos indícios de que a URSS

estivesse avançando na direção de algo que se pudesse chamar de

socialismo. Pelo contrário, ficava chocado diante dos sinais claros

de sua transformação numa sociedade hierarquizada, em que os

governantes não têm mais razão de desistir do poder que qualquer

outra classe dominante. Além disso, os trabalhadores e os

intelectuais de um país como a Inglaterra não compreendem que a

URSS de hoje é totalmente diferente do que foi em 1917. Em parte

porque não querem compreender (ou seja, porque querem acreditar

que, em algum lugar, existe de fato um país realmente socialista), e

em parte porque, acostumados a relativas liberdade e moderação

na vida pública, o totalitarismo lhes é completamente

incompreensível.




No entanto, devemos lembrar que a Inglaterra não é

completamente democrática. Também é um país capitalista onde

existem grandes privilégios de classe e (ainda hoje, mesmo depois

que a guerra nos fez tender à igualdade) acentuadas diferenças

econômicas. Mesmo assim, é um país no qual as pessoas vivem

juntas há centenas de anos sem grandes conflitos, em que as leis

são relativamente justas, as informações e estatísticas oficiais são

quase invariavelmente críveis, e, para terminar, onde o fato de

cultivar e defender opiniões minoritárias não acarreta nenhum risco

de vida. Numa atmosfera como essa, o cidadão comum não tem

uma compreensão concreta do que sejam campos de concentração,

deportações em massa, prisões sem julgamento, censura da

imprensa etc. Tudo o que lê sobre um país como a URSS é

automaticamente traduzido em termos ingleses, e o ingênuo

cidadão acaba aceitando as mentiras da propaganda totalitária. Até

1939, e mesmo depois, a maioria do povo inglês era incapaz de

aquilatar a verdadeira natureza do regime nazista da Alemanha, e

hoje, com o regime soviético, ainda vivem em grande medida

submetidos ao mesmo tipo de ilusão.


Isso causou grande prejuízo ao movimento socialista da

Inglaterra, e teve sérias consequências sobre a política externa

britânica. De fato, a meu ver, nada contribuiu tanto para a corrupção

da ideia original de socialismo quanto a crença de que a Rússia é

um país socialista e cada gesto de seus governantes deve ser

desculpado, quando não imitado.


Ao voltar da Espanha, pensei em denunciar o mito soviético numa

história que fosse fácil de compreender por qualquer pessoa e fácil

de traduzir para outras línguas. No entanto, os detalhes concretos

da história só me ocorreriam depois, na época em que morava

numa cidadezinha, no dia em que vi um menino de uns dez anos

guiando por um caminho estreito um imenso cavalo de tiro que

cobria de chicotadas cada vez que o animal tentava se desviar.

Percebi então que, se aqueles animais adquirissem consciência de

sua força, não teríamos o menor poder sobre eles, e que os animais

são explorados pelos homens de modo muito semelhante à maneira

como o proletariado é explorado pelos ricos.




A partir daí, decidi analisar a teoria de Marx do ponto de vista dos

animais. Para eles, claro, o conceito de luta de classes entre os

seres humanos era pura ilusão, pois sempre que fosse necessário

explorar os animais os seres humanos se uniam contra eles: a

verdadeira luta se dava entre os bichos e as pessoas. A partir desse

ponto, não foi difícil elaborar o enredo. Só escrevi o livro em 1943,

pois estava sempre envolvido com algum outro trabalho que não me

deixava tempo; e no final acrescentei alguns acontecimentos, como

a Conferência de Teerã, que ocorriam no momento em que eu

escrevia. Assim, os principais contornos da história permaneceram

em meu espírito por seis anos antes que eu a escrevesse.


Não quero comentar a obra; se ela não falar por si mesma, é

porque fracassou. Mas gostaria de sublinhar dois pontos: primeiro,

que embora seus vários episódios tenham sido tirados da história

real da Revolução Russa, foram tratados de maneira esquemática, e

sua ordem cronológica foi alterada; isso foi necessário para dar

simetria à narrativa. O segundo ponto passou despercebido pela

maioria dos críticos, possivelmente por não ter sido devidamente

enfatizado por mim. Muitos leitores podem acabar de ler o livro com

a impressão de que ele termina com uma reconciliação total entre

os porcos e os seres humanos. Minha intenção não foi essa; ao

contrário, eu desejava que o livro terminasse com uma nota enfática

de discórdia, pois escrevi o fim imediatamente depois da

Conferência de Teerã, que todos julgaram ter estabelecido as

melhores relações possíveis entre a URSS e o Ocidente.

Pessoalmente, jamais acreditei que essas relações pudessem durar;

e, como os fatos demonstraram, não estava muito enganado.


Não sei o que mais preciso acrescentar. Se alguém se interessa

por detalhes de ordem pessoal, posso acrescentar que sou viúvo,

tenho um filho de quase três anos de idade, que minha profissão é a

de escritor e que desde o início da guerra tenho trabalhado

especialmente como jornalista.


O periódico para o qual escrevo com maior regularidade é o

Tribune, um semanário sociopolítico que representa, em termos

gerais, a ala esquerda do Partido Trabalhista. Os seguintes livros

que escrevi podem ter algum interesse para o leitor comum (caso o

leitor desta tradução encontre algum exemplar deles): Dias na




Birmânia (uma história birmanesa), Lutando na Espanha (com base

em minhas experiências na Guerra Civil Espanhola) e Ensaios

críticos (ensaios que tratam especialmente da literatura popular

inglesa de nossos dias, e mais instrutivos do ponto de vista

sociológico do que propriamente literário).


*

* A tradução ucraniana de A revolução dos bichos foi feita para os ucranianos alojados nos campos de

refugiados da Alemanha sob a administração britânica e americana depois da Segunda Guerra Mundial.

Eram pessoas, como indica uma carta escrita pelo organizador da tradução e da distribuição, Ihor Sevcenko,

partidárias da Revolução de Outubro e determinadas a defender o que fora conquistado, mas que se tinham

voltado contra “o bonapartismo contrarrevolucionário de Stálin” e a “exploração russa, nacionalista, do povo

ucraniano”. Eram pessoas simples, camponeses e trabalhadores, muitos com pouca instrução, mas todos

leitores vorazes. Para essas pessoas, ele pediu a Orwell que escrevesse uma introdução. O original em

inglês se perdeu, e a versão aqui publicada resulta de uma retradução do texto ucraniano. Orwell fez questão

de não receber direitos autorais por essa edição, nem por outras traduções voltadas para pessoas pobres

demais para comprar o livro (por exemplo, as edições em persa ou em telugu). O próprio Orwell arcou com os

custos de produção de uma edição em russo impressa em papel fino, dirigida a soldados e outros leitores

atrás da Cortina de Ferro. (N.E.)

** Que não são “escolas públicas do governo”, mas de certo modo exatamente o contrário: internatos de

ensino secundário muito seletivos e caros, e muito afastados uns dos outros. Até pouco tempo atrás,

praticamente só admitiam os filhos das famílias ricas da aristocracia. Era o sonho de banqueiros nouveaux

riches do século XIX conseguir matricular seus filhos em alguma das Public Schools inglesas. Nessas

escolas, a maior ênfase é dada aos esportes, que formam, por assim dizer, uma visão da vida senhorial, rude

e cavalheiresca. Entre essas escolas, Eton é especialmente famosa. Segundo contam, Wellington teria dito

que a vitória de Waterloo foi decidida nos campos esportivos de Eton. Não faz muito tempo, a esmagadora

maioria das pessoas que de um modo ou de outro controlam a Inglaterra vinha das Public Schools. [Nota de Orwell]