Sumário
A revolução dos bichos
Posfácio: Repensando A revolução
dos bichos | Christopher Hitchens (2006)
Apêndices
I. A liberdade de imprensa (prefácio proposto
pelo autor à primeira edição inglesa, de 1945)
II. Prefácio do autor à edição ucraniana (1947)
1.
O sr. Jones, dono da Granja do Solar, fechou o galinheiro para a
noite, mas estava bêbado demais para lembrar-se de fechar
também as vigias. Com o facho de luz da lanterna balançando de
um lado para o outro, atravessou cambaleante o pátio, tirou as botas
na porta dos fundos, tomou um último copo de cerveja do barril da
copa e foi para a cama, onde sua mulher já ressonava.
Tão logo apagou-se a luz do quarto, houve um silencioso
movimento em todos os galpões da granja. Correra, durante o dia, o
boato de que o velho Major, um porco que já fora premiado numa
exposição, tivera um sonho muito estranho na noite anterior e
desejava contá-lo aos outros animais. Haviam combinado encontrar-
se no celeiro, assim que Jones se deitasse. O velho Major
(chamavam-no assim, muito embora ele houvesse concorrido na
exposição com o nome de “Belo de Willingdon”) gozava de tão alto
conceito na granja que todos estavam dispostos a perder uma hora
de sono só para ouvi-lo.
Ao fundo do grande celeiro, sobre uma espécie de estrado, estava
o Major refestelado em sua cama de palha, sob um lampião que
pendia da viga. Com doze anos de idade, já bem corpulento, era
ainda um porco de porte majestoso, com ar sábio e benevolente, a
despeito de suas presas jamais terem sido cortadas. Os outros
animais chegavam e punham-se a cômodo, cada qual a seu modo.
Os primeiros foram os três cachorros, Branca, Lulu e Cata-Vento,
depois os porcos, que se sentaram sobre a palha, em frente ao
estrado. As galinhas empoleiraram-se nas janelas, as pombas
voaram para os caibros do telhado, as ovelhas e as vacas deitaram-
se atrás dos porcos e ali ficaram a ruminar. Os dois cavalos de
tração, Sansão e Quitéria, chegaram juntos, andando lentamente e
pousando no chão os enormes cascos peludos, com grande cuidado
para não machucar qualquer animalzinho porventura oculto na
palha. Quitéria era uma égua volumosa, matronal, já chegada à
meia-idade, cuja silhueta não mais se recompusera após o
nascimento do quarto potrinho. Sansão era um bicho enorme, de
quase um metro e noventa de altura, forte como dois cavalos. A
mancha branca do focinho dava-lhe certo ar de estupidez, e
realmente ele não tinha lá uma inteligência de primeira ordem,
embora fosse grandemente respeitado pela retidão de caráter e pela
tremenda capacidade de trabalho. Depois dos cavalos chegaram
Maricota, a cabra branca, e Benjamim, o burro. Benjamim era o
animal mais idoso da fazenda, e o mais moderado. Raras vezes
falava, e em geral quando o fazia era para emitir uma observação
cínica — para dizer, por exemplo, que Deus lhe dera uma cauda
para espantar as moscas, e no entanto seria mais do seu agrado
não ter nem a cauda nem as moscas. Era o único dos animais que
nunca ria. Quando lhe perguntavam por quê, respondia não ver
motivo para riso. Não obstante, sem que admitisse abertamente,
tinha certa afeição por Sansão; com frequência passavam os
domingos juntos no pequeno potreiro existente atrás do pomar,
pastando lado a lado em silêncio.
Mal se haviam acomodado os dois cavalos quando uma ninhada
de patinhos órfãos desfilou celeiro adentro, piando baixinho e
procurando um lugar onde não fossem pisoteados. Quitéria
protegeu-os com a pata dianteira, e os patinhos ali se
aconchegaram, caindo no sono. No último instante, Mimosa, a égua
branca, vaidosa e fútil, que puxava a charrete do sr. Jones, entrou,
requebrando-se graciosamente e mastigando um torrão de açúcar.
Tomou lugar bem à frente e ficou meneando a crina branca, na
esperança de chamar atenção para as fitas vermelhas que a
adornavam. Por fim, chegou a gata, que buscou, como sempre, o
lugar mais morno, enfiando-se entre Sansão e Quitéria; ronronou
satisfeita durante toda a fala do Major, sem ouvir uma só palavra.
Todos os animais estavam presentes, exceto Moisés, o corvo
domesticado, que dormia fora, num poleiro junto à porta dos fundos.
Quando o Major os viu, bem acomodados e aguardando
atentamente, limpou a garganta e começou:
“Camaradas, já ouvistes, por certo, algo a respeito do estranho
sonho que tive a noite passada. Mas falarei do sonho mais tarde.
Antes, tenho outras coisas a dizer. Sei, camaradas, que não estarei
convosco por muito mais tempo, e antes de morrer considero uma
obrigação transmitir-vos o que aprendi sobre o mundo. Já vivi
bastante, e muito tenho refletido na solidão da minha pocilga. Creio
poder afirmar que compreendo a natureza da vida sobre esta terra
tão bem quanto qualquer outro animal vivente. É sobre o que desejo
vos falar.
“Então, camaradas, qual é a natureza desta nossa vida?
Enfrentemos a realidade: nossa vida é miserável, trabalhosa e curta.
Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar
respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última
parcela de suas forças; no instante em que nossa utilidade acaba,
trucidam-nos com hedionda crueldade. Nenhum animal na Inglaterra
sabe o que é felicidade ou lazer após completar um ano de vida.
Nenhum animal na Inglaterra é livre. A vida do animal é feita de
miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua.
“Será isso, apenas, a ordem natural das coisas? Será esta nossa
terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus
habitantes? Não, camaradas, mil vezes não! O solo da Inglaterra é
fértil, o clima é bom, ela pode dar alimento em abundância a um
número de animais muitíssimo maior do que o existente. Só esta
nossa fazenda comportaria uma dúzia de cavalos, umas vinte
vacas, centenas de ovelhas — vivendo todos num conforto e com
uma dignidade que agora estão além de nossa imaginação. Por
que, então, permanecemos nesta miséria? Porque quase todo o
produto do nosso esforço nos é roubado pelos seres humanos. Eis
aí, camaradas, a resposta a todos os nossos problemas. Resume-se
em uma só palavra — Homem. O Homem é o nosso verdadeiro e
único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da
fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre.
“O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá
leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o
que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os
animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a
inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo,
nosso estrume o fertiliza, e no entanto nenhum de nós possui mais
que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos
litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse
leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu
pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos
puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os
restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus
homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos
que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos
com a idade de um ano — nunca mais você os verá. Como paga por
seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu
você, além de ração e baia?
“Mesmo miserável como é, nossa vida não chega nem ao fim de
modo natural. Não me queixo por mim, que tive até muita sorte.
Estou com doze anos e sou pai de mais de quatrocentos porcos.
Isto é a vida normal de um barrão. Mas no fim nenhum animal
escapa ao cutelo. Vós, jovens leitões que estais sentados à minha
frente, não escapareis de guinchar no cepo dentro de um ano.
Todos chegaremos a esse horror, as vacas, os porcos, as galinhas,
as ovelhas, todos. Nem mesmo os cavalos e os cachorros escapam
a esse destino. Sansão, no dia em que seus músculos fortes
perderem a rigidez, Jones o mandará para o carniceiro, e você será
degolado e fervido para alimentar os cães de caça. Quanto aos
cachorros, depois de velhos e desdentados, Jones amarra-lhes uma
pedra ao pescoço e os atira na primeira lagoa.
“Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males
da nossa existência têm origem na tirania dos humanos? Basta que
nos livremos do Homem para que o produto de nosso trabalho seja
só nosso. Praticamente, da noite para o dia, poderíamos nos tornar
ricos e livres. Que fazer, então? Trabalhar dia e noite, de corpo e
alma, para a derrubada do gênero humano. Esta é a mensagem que
eu vos trago, camaradas: rebelião! Não sei dizer quando será esta
revolução, pode ser daqui a uma semana ou daqui a um século,
mas uma coisa eu sei, tão certo quanto vejo esta palha sob meus
pés: mais cedo ou mais tarde, justiça será feita. Fixai isso,
camaradas, para o resto de vossas curtas vidas! E, sobretudo,
transmiti esta minha mensagem aos que virão depois de vós, para
que as futuras gerações continuem na luta até a vitória.
“E lembrai-vos, camaradas, jamais deixai fraquejar vossa decisão.
Nenhum argumento vos poderá desviar. Fechai os ouvidos quando
vos disserem que o Homem e os animais têm interesses comuns,
que a prosperidade de um é a prosperidade dos outros. É tudo
mentira. O Homem não busca interesses que não os dele próprio.
Que haja entre nós, animais, uma perfeita unidade, uma perfeita
camaradagem na luta. Todos os homens são inimigos, todos os
animais são camaradas.”
Nesse momento houve uma tremenda confusão. Enquanto o
Major falava, quatro ratos haviam rastejado para fora de seus
buracos e estavam sentados nas patinhas de trás, a ouvi-lo. De
repente, os cachorros lhes deram pela presença, e somente pela
rapidez com que sumiram nos buracos foi que os ratos conseguiram
escapar com vida. O Major levantou a pata, pedindo silêncio.
“Camaradas”, disse ele, “eis aí um ponto que precisa ser
esclarecido. As criaturas rebeldes, tais como os ratos e os coelhos,
serão nossos amigos ou nossos inimigos? Coloquemos o assunto
em votação. Apresento à assembleia a seguinte questão: são os
ratos camaradas?”
A votação foi realizada imediatamente, e concluiu-se, por
esmagadora maioria, que os ratos eram camaradas. Houve apenas
quatro votos contra, dos três cachorros e da gata, que, depois se
descobriu, votara pelos dois lados. O Major prosseguiu:
“Pouco mais tenho a dizer. Repito apenas: lembrai-vos sempre do
vosso dever de inimizade para com o Homem e todos os seus
desígnios. O que quer que ande sobre duas pernas é inimigo, o que
quer que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
Lembrai-vos também de que na luta contra o Homem não devemos
ser como ele. Mesmo quando o tenhais derrotado, evitai-lhe os
vícios. Animal nenhum deve morar em casas, nem dormir em
camas, nem usar roupas, nem beber álcool, nem fumar, nem tocar
em dinheiro, nem comerciar. Todos os hábitos do Homem são maus.
E principalmente, jamais um animal deverá tiranizar outros animais.
Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos
os animais são iguais.
“E agora, camaradas, vou contar-vos o sonho que tive na noite
passada. Não sei o que significa. Foi um sonho sobre como será o
mundo quando o Homem desaparecer. Mas lembrou-me algo que
havia muito eu esquecera. Há anos, quando eu ainda era um
leitãozinho, minha mãe e as outras porcas costumavam cantar uma
antiga canção da qual só conheciam a melodia e as três primeiras
palavras. Na minha infância aprendi a melodia, depois a esqueci. Na
noite passada, entretanto, ela me voltou à memória. O mais
interessante é que me lembrei também dos versos — os quais,
tenho certeza, foram cantados pelos animais de antanho, depois
esquecidos por muitas gerações. Vou cantar essa canção,
camaradas. Estou velho, e minha voz é rouca, mas quando vos
houver ensinado a melodia, podereis cantá-la melhor que eu.
Chama-se ‘Bichos da Inglaterra’.”
O velho Major limpou a garganta e começou a cantar. De fato, a
voz era roufenha, mas ele entoava bem, e a melodia era bastante
movimentada, algo entre “Clementine” e “La cucaracha”. Os versos
diziam:
Bichos da Inglaterra e da Irlanda,
Daqui, dali, de acolá,
Escutai a alvissareira
Novidade que virá.
Mais hoje, mais amanhã,
O Tirano vem ao chão,
E os campos da Inglaterra
Só os bichos pisarão.
Não mais argolas nas ventas,
Dorsos livres dos arreios,
Freio e espora enferrujando
E relho em cantos alheios.
Riqueza incomensurável,
Terra boa, muito grão,
Trigo, cevada e aveia,
Pastagem, feno e feijão.
Lindos campos da Inglaterra,
Ribeiros com águas puras,
Brisas leves circulando,
Liberdade nas alturas.
Lutemos por esse dia
Mesmo que nos custe a vida.
Gansos, vacas e cavalos,
Todos unidos na lida.
Bichos da Inglaterra e da Irlanda,
Daqui, dali, de acolá,
Levai esta minha mensagem
E o futuro sorrirá.
O canto levou a bicharada à mais extrema excitação. Mesmo
antes de o Major chegar ao fim, já haviam começado a cantar por
conta própria. Até os mais parvos pegaram a melodia e algumas
palavras; os mais vivos, tais como os porcos e os cachorros,
decoraram a canção em minutos. Então, depois de algumas
tentativas, a granja toda atacou “Bichos da Inglaterra” em potente
uníssono. As vacas mugiam a canção, os cachorros latiam, as
ovelhas baliam, os cavalos relinchavam, os patos grasnavam. Foi tal
o enlevo que cantaram cinco vezes corridas, de ponta a ponta, e
teriam cantado a noite toda se não fossem interrompidos.
Infelizmente, o alarido acordou Jones, que pulou da cama certo
de que havia raposa no pátio. Deitou a mão na espingarda, sempre
pronta num canto do quarto, e disparou uma carga de chumbo
grosso na escuridão. O chumbo foi encravar-se na parede do
celeiro, e a reunião dispersou-se num abrir e fechar de olhos. Cada
qual correu para seu pouso. As aves saltaram para os poleiros, o
gado deitou-se na palha e, em poucos instantes, toda a fazenda
dormia.
*
2.
Daí a três noites, faleceu o velho Major, tranquilamente, durante o
sono. Seu corpo foi enterrado no fundo do pomar.
Começava o mês de março. Nos três meses seguintes houve uma
intensa atividade secreta. As palavras do Major haviam dado uma
perspectiva de vida inteiramente nova aos animais de maior
inteligência da granja. Não sabiam quando teria lugar a Rebelião
predita pelo Major, nem tinham razões para acreditar que fosse
durante a existência deles próprios, mas percebiam claramente o
dever de aprestar-se para ela. A tarefa de instruir e organizar os
outros recaiu naturalmente sobre os porcos, reconhecidos como os
mais inteligentes dos bichos. Salientavam-se, entre eles, dois jovens
barrões, Bola-de-Neve e Napoleão, que o sr. Jones criava para
vender. Napoleão era um cachaço berkshire, de aparência
ameaçadora, o único berkshire da fazenda, pouco falante, mas com
a reputação de ter grande força de vontade. Bola-de-Neve era mais
ativo que Napoleão, de palavra mais fácil, mais imaginoso, porém
não gozava da mesma reputação quanto à solidez de caráter. Todos
os demais porcos da fazenda eram castrados. Dentre estes, o mais
conhecido era um porquinho gordo chamado Garganta, de
bochechas redondas, olhos sempre piscando, movimentos lépidos e
voz aguda. Manejava a palavra com brilho, e quando discutia algum
ponto mais difícil tinha o hábito de dar pulinhos de um lado para o
outro e abanar o rabicho, uma coisa bastante persuasiva. Diziam
que Garganta era capaz de convencer de que preto era branco.
Esses três haviam organizado os ensinamentos do Major num
sistema de pensamento a que deram o nome de Animalismo. Várias
noites por semana, depois que Jones dormia, faziam reuniões
secretas no celeiro e expunham aos outros os princípios do
Animalismo. De início, encontraram certa apatia e muita ignorância.
Alguns animais mencionavam o dever de lealdade para com Jones,
a quem se referiam como o “dono”, ou emitiam comentários
elementares do tipo: “O senhor Jones nos alimenta. Se ele fosse
embora, nós morreríamos de fome”. Outros faziam perguntas como:
“Que importa o que acontecerá depois da nossa morte?”, ou: “Se
essa Rebelião virá de qualquer maneira, que diferença faz
trabalharmos por ela ou não?”; e os porcos tinham grande
dificuldade em fazê-los ver que isso ia contra o espírito do
Animalismo. As perguntas mais estúpidas eram sempre as de
Mimosa, a égua branca. A primeira pergunta que ela fez a Bola-de-
Neve foi:
“Ainda haverá açúcar depois da Rebelião?”
“Não”, Bola-de-Neve respondeu firmemente. “Não temos meio de
obter açúcar nesta fazenda. Além do mais, você não precisa de
açúcar. Mas terá toda a aveia e o feno que quiser.”
“E ainda vou poder usar laço de fita na crina?”, perguntou
Mimosa.
“Camarada”, explicou Bola-de-Neve, “essas fitas que você tanto
estima são o distintivo da servidão. Não vê que a liberdade vale
mais que laços de fita?”
Mimosa sempre concordava, mas não dava a impressão de estar
lá muito convencida.
Muito mais ainda lutaram os porcos para neutralizar as mentiras
espalhadas por Moisés, o corvo doméstico. Moisés, mascote do sr.
Jones, era um espião linguarudo, mas também de boa conversa.
Afirmava a existência de uma região misteriosa, a Montanha de
Açúcar-Cande, para onde iam os animais após a morte. Essa
montanha ficava em algum lugar no céu, pouco acima das nuvens,
segundo Moisés. Na Montanha de Açúcar-Cande, os sete dias da
semana eram domingos, o ano inteiro era época de trevo, e as
sebes davam torrões de açúcar e bolinhos de linhaça. Os bichos
detestavam Moisés, porque vivia de histórias e não trabalhava,
porém alguns acreditavam na Montanha de Açúcar-Cande, e os
porcos travaram grandes discussões para convencê-los de que esse
lugar não existia.
Os discípulos mais fiéis eram os dois cavalos de tração, Sansão e
Quitéria. Ambos tinham enorme dificuldade em pensar qualquer
coisa por si próprios; todavia, aceitando os porcos como instrutores,
absorviam tudo quanto lhes era dito e passavam adiante para os
outros animais por simples repetição. Jamais faltavam aos
encontros secretos no celeiro e davam o tom para o canto de
“Bichos da Inglaterra”, que sempre encerrava as reuniões.
Afinal, a Rebelião ocorreu muito mais cedo e bem mais facilmente
do que se esperava. Jones fora, no passado, um patrão duro, mas
competente. Agora estava em decadência. Desestimulado com a
perda de dinheiro numa ação judicial, dera para beber muito além
do que devia. Às vezes passava dias inteiros recostado em sua
cadeira de braços, na cozinha, lendo os jornais, bebendo e dando a
Moisés cascas de pão molhadas na cerveja. Seus peões eram
vadios e desonestos, o campo estava coberto de erva daninha, os
galpões careciam de telhas novas, as cercas estavam caindo, e os
animais tinham fome.
Junho chegou, e o feno estava quase pronto para o corte. Na
véspera do solstício de verão, um sábado, Jones foi a Willingdon e
bebeu tanto no Leão Vermelho que só voltou ao meio-dia de
domingo. Os homens ordenharam as vacas de manhã cedo e
saíram para caçar lebres, sem tratar da forragem dos animais. Ao
voltar, Jones caiu dormindo no sofá da sala com o News of the
World sobre o rosto; portanto, ao cair da tarde, os animais ainda não
haviam comido. Aquilo já era demais. Uma das vacas rebentou a
chifradas a porta do celeiro, e os bichos avançaram sobre as tulhas.
Nesse momento, Jones acordou. Num átimo, ele e seus quatro
peões estavam no celeiro com os chicotes na mão, batendo a torto
e a direito. Isso ultrapassou tudo quanto os animais famintos podiam
suportar. De comum acordo, muito embora nada fosse planejado,
lançaram-se sobre seus verdugos. Jones e os homens viram-se de
repente marrados e escoiceados de todo lado. A situação fugira ao
controle. Nunca tinham visto os animais daquele jeito, e a súbita
revolta de criaturas que eles estavam acostumados a surrar e
maltratar à vontade os encheu de pavor. Em poucos instantes
largaram de defender-se e deram o fora. Um minuto depois, os
cinco voavam pela trilha rumo à estrada, com os bichos no encalço,
triunfantes.
A mulher de Jones olhou pela janela do quarto, viu o que ocorria,
juntou às pressas alguns haveres numa bolsa de pano e escapuliu
da granja por outro caminho. Moisés levantou voo do poleiro e bateu
asas atrás dela, grasnando. A essa altura, os animais haviam posto
Jones e os peões para fora da granja, fechando atrás deles a
porteira das cinco barras. E assim, antes de se darem conta, a
Rebelião vencera. Jones fora expulso, e a Granja do Solar era
deles.
Durante os primeiros minutos, os bichos mal puderam acreditar na
sorte. Seu primeiro ato foi galopar pelos limites da granja, como a
ver se nenhum ser humano ficara escondido; depois, correram de
volta às casas da granja, para varrer os últimos vestígios do odiado
império de Jones. O galpão dos arreios, no fundo dos estábulos, foi
arrombado; freios, argolas de nariz, correntes de cachorro, as cruéis
facas com que Jones castrava os porcos e os cordeiros, foi tudo
atirado no fundo do poço. As rédeas, os cabrestos, os antolhos e os
degradantes bornais foram jogados na fogueira que ardia no pátio.
O mesmo destino tiveram os relhos. Os bichos saltaram de alegria
quando viram os chicotes em chamas. Bola-de-Neve jogou também
ao fogo as fitas que enfeitavam as crinas e caudas dos cavalos em
dias de feira.
“Fitas”, disse ele, “devem ser consideradas roupas, que são a
marca do ser humano. Todos os animais têm de andar nus.”
Ao ouvir isso, Sansão foi buscar o chapeuzinho de palha que
usava no verão para proteger suas orelhas das moscas, e o atirou
também no fogo.
Em pouco tempo, os bichos destruíram tudo o que lhes recordava
Jones. Napoleão conduziu-os de volta ao celeiro e serviu uma ração
dupla de milho para todo mundo, dois biscoitos para cada cachorro.
Cantaram, então, “Bichos da Inglaterra” do começo ao fim sete
vezes, depois deitaram-se e dormiram como nunca.
Porém, como sempre, acordaram de madrugada, e ao lembrar-se
do glorioso evento da véspera, correram para a pastagem. A
pequena distância, havia um morrete donde se via quase toda a
fazenda. Os animais subiram e olharam em volta, à luz clara da
manhã. Sim, era deles — tudo o que enxergavam era deles! No
êxtase dessa percepção, deram cambalhotas e saltos de
contentamento. Rolaram no orvalho, comeram a deliciosa grama do
verão, arrancaram torrões de terra e aspiraram aquele rico aroma.
Depois fizeram um circuito de inspeção em toda a granja,
vistoriando, com muda admiração, a lavoura, o campo de feno, o
pomar, a lagoa, o arvoredo. Era como se nunca tivessem visto
aquilo, e mal podiam acreditar: tudo era deles.
Voltaram, então, para as casas da granja e pararam silenciosos
em frente à porta da casa-grande. Era deles também, mas ficaram
com medo de entrar. Após alguns instantes, porém, Bola-de-Neve e
Napoleão forçaram a porta a trancos, e os animais entraram em fila
indiana, caminhando com o maior cuidado para não desarrumar
nada. Andaram na ponta dos pés, de um aposento para o outro,
falando baixinho e olhando com certa reverência o luxo
inacreditável, as camas, os colchões de penas, os espelhos, o sofá
de crina, o tapete de Bruxelas, a litografia da rainha Vitória sobre a
lareira da sala de estar. Quando desciam as escadas, deram pela
falta de Mimosa. Voltando, descobriram-na no quarto principal.
Havia apanhado no toucador da sra. Jones um pedaço de fita azul,
e segurava-o contra a espádua, admirando-se no espelho com
trejeitos ridículos. Repreenderam-na acerbamente, e saíram todos.
Alguns presuntos, pendurados na cozinha, foram levados para fora
e enterrados; o barril de cerveja da copa foi rebentado com um coice
de Sansão; além disso, nada mais foi tocado na casa. Ali mesmo
aprovou-se, por unanimidade, a resolução de conservá-la como
museu. Concordaram em que nenhum animal jamais deveria morar
lá.
Os bichos tomaram o café da manhã e foram outra vez
convocados por Bola-de-Neve e Napoleão.
“Camaradas”, disse Bola-de-Neve, “são seis e quinze, e temos um
longo dia pela frente. Iniciaremos hoje a colheita do feno. Mas antes,
há outro assunto de que devemos tratar.”
Os porcos revelaram que, nos últimos três meses, haviam
aprendido a ler e a escrever, num velho livro de ortografia que
pertencera aos filhos de Jones e fora jogado no lixo. Napoleão
mandou buscar latas de tinta preta e tinta branca e marchou à frente
até a porteira das cinco barras, que dava para a estrada principal.
Então, Bola-de-Neve (que escrevia melhor) pegou o pincel entre as
juntas da pata, cobriu de tinta o nome GRANJA DO SOLAR do travessão
superior e, em seu lugar, escreveu GRANJA DOS BICHOS. Seria esse o
nome da granja dali em diante. Depois disso, voltaram para as
casas da granja; Bola-de-Neve e Napoleão mandaram buscar uma
escada e fizeram-na encostar à parede do fundo do celeiro grande.
Explicaram que, segundo os estudos que haviam feito nos últimos
três meses, era possível resumir os princípios do Animalismo em
Sete Mandamentos. Esses Sete Mandamentos seriam agora
escritos na parede, constituindo a lei inalterável pela qual a Granja
dos Bichos deveria reger sua vida para sempre.
Com alguma dificuldade (pois não é fácil para um porco equilibrar-
se numa escada de mão), Bola-de-Neve subiu e começou a
trabalhar, enquanto Garganta, alguns degraus abaixo, segurava a
lata de tinta. Os Mandamentos foram escritos na parede alcatroada
em grandes letras brancas que podiam ser lidas a muitos metros de
distância.
Eram os seguintes:
OS SETE MANDAMENTOS
1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
2. O que andar sobre quatro pernas, ou tiver asas, é amigo.
3. Nenhum animal usará roupa.
4. Nenhum animal dormirá em cama.
5. Nenhum animal beberá álcool.
6. Nenhum animal matará outro animal.
7. Todos os animais são iguais.
Foi tudo muito bem escrito, e com exceção da palavra “álcool”,
que saiu “álcol”, e de um dos S, desenhado ao contrário, a ortografia
estava correta. Bola-de-Neve leu o que escrevera, em voz alta, para
os demais. Todos os bichos balançaram a cabeça, de pleno acordo,
e os mais atentos começaram logo a decorar os Mandamentos.
“Agora, camaradas”, disse Bola-de-Neve, deixando cair o pincel,
“ao campo de feno! É questão de honra fazer a colheita em menos
tempo do que Jones e sua gente.”
Nesse momento, porém, as vacas, que já vinham dando sinais de
inquietação, começaram a mugir. Há vinte e quatro horas não eram
ordenhadas, e tinham os úberes quase estourando. Depois de
alguma reflexão, os porcos pediram baldes e ordenharam as vacas
razoavelmente bem, pois seus cascos adaptavam-se à tarefa.
Tiraram cinco baldes de um leite espumante e cremoso, que muitos
dos animais olharam com considerável interesse.
“Que vamos fazer com esse leite?”, perguntou alguém.
“Jones, às vezes, misturava um pouco ao nosso farelo”, disse
uma galinha.
“Não vos ocupeis do leite, camaradas!”, exclamou Napoleão,
postando-se à frente dos baldes. “Nós trataremos desse assunto. A
colheita é mais importante. O camarada Bola-de-Neve vos
conduzirá. Eu irei dentro de alguns minutos. Avante, camaradas! O
feno espera.”
Os animais rumaram ao campo de feno para o início da colheita, e
quando voltaram, à noitinha, perceberam que o leite havia
desaparecido.
*
3.
Como trabalharam para juntar aquele feno! Mas valeu o esforço,
pois a colheita deu resultado bem melhor do que esperavam.
Por vezes, a tarefa foi dura; os implementos destinavam-se ao
uso de humanos, e foi de enorme desvantagem o fato de nenhum
bicho poder utilizar ferramentas que exigissem a posição em pé
sobre as patas traseiras. Mas os porcos eram tão imaginosos que
conseguiam contornar todas as dificuldades. Os cavalos conheciam
cada palmo do terreno, e na realidade sabiam ceifar e raspar muito
melhor do que Jones e os empregados. Os porcos não trabalhavam,
propriamente, mas dirigiam e supervisionavam o trabalho dos
outros. Donos de um conhecimento maior, era natural que
assumissem a liderança. Sansão e Quitéria atrelavam-se à
ceifadeira ou à grade (é claro que não havia mais necessidade de
freios nem de rédeas) e andavam pelo campo para lá e para cá,
com um porco atrás gritando “Eia, camarada” ou “A volta, agora,
camarada”, conforme o caso. E cada animal, até o mais modesto,
labutou para colher e juntar o feno. Até os patos e as galinhas
ciscavam o dia inteiro sob o sol, carregando no bico pequeninos
feixes de feno. Enfim, terminaram a colheita dois dias antes do
tempo que Jones e os peões normalmente levavam. Mas, além
disso, foi a maior colheita que jamais se realizara ali. Não houve o
mínimo desperdício; as galinhas e os patos, com sua vista
penetrante, juntaram até o menor talinho. E nenhum animal na
granja furtou sequer uma bocada.
Por todo aquele verão o trabalho da granja andou como um
relógio. Os bichos, felizes como nunca. Cada bocado de comida
constituía um extremo prazer, agora que a comida era realmente
deles, produzida por eles e para eles, em vez de ser distribuída em
pequenas quantidades por um dono cheio de má vontade. Ausentes
os inúteis parasitas humanos, mais sobrava para cada um. Houve
também mais lazer, muito embora os animais fossem inexperientes
nisso. Encontraram muitas dificuldades — por exemplo, no fim do
ano, quando colheram os cereais, foram obrigados a pisá-los, à
moda antiga, e a soprar as cascas, pois a granja não possuía uma
debulhadeira —, mas os porcos, com a inteligência, e Sansão, com
seus músculos fantásticos, sobrepujavam-nas. Sansão era a
admiração de todos. Já era trabalhador no tempo de Jones; agora,
como que valia por três. Dias houve em que todo o trabalho da
granja parecia cair em seu lombo. Da manhã à noite, lá estava ele,
puxando e empurrando, sempre no lugar onde o trabalho era mais
pesado. Fizera um trato com um dos galos para ser chamado todas
as manhãs meia hora mais cedo que os demais, e aproveitava esse
tempo em trabalho voluntário no que parecesse mais necessário.
Sua solução para cada problema, para cada contratempo, era
“Trabalharei mais ainda”, frase que adotara como seu lema
particular.
Cada qual trabalhava de acordo com sua capacidade. As galinhas
e os patos, por exemplo, economizaram cinco baldes de trigo na
colheita, catando grãos extraviados. Ninguém roubava, ninguém
resmungava a respeito das rações. A discórdia, as mordidas, o
ciúme, coisas normais nos velhos tempos, tinham quase
desaparecido. Ninguém se esquivava ao trabalho — ou quase
ninguém. É bem verdade que Mimosa não gostava de levantar cedo
e costumava abandonar o trabalho antes dos demais, alegando
estar com uma pedra encravada no casco. E o comportamento da
gata era um tanto estranho. Em seguida notou-se que ela nunca
podia ser encontrada quando havia trabalho por fazer. Desaparecia
por várias horas consecutivas e voltava a aparecer na hora das
refeições, ou à tardinha, após o fim da jornada, como se nada
houvesse acontecido. Tinha, porém, desculpas tão convincentes e
ronronava de maneira tão carinhosa que era impossível não crer em
suas boas intenções. O velho Benjamim, o burro, nada mudara após
a Revolução. Executava sua tarefa da mesma forma
obstinadamente lenta como o fazia nos tempos de Jones. Não se
esquivava ao trabalho normal, mas nunca era voluntário para
extraordinários. Sobre a revolução e seus resultados não emitia
opinião. Quando lhe perguntavam se não era mais feliz, agora que
Jones se havia ido, respondia apenas: “Os burros vivem muito
tempo. Nenhum de vocês jamais viu um burro morto”, e os outros
tinham de contentar-se com essa obscura resposta.
Aos domingos, não se trabalhava. A refeição da manhã era uma
hora mais tarde, e depois dela havia uma cerimônia que se realizava
todas as semanas, indefectivelmente. Começava com o
hasteamento da bandeira. Bola-de-Neve achara, no depósito, uma
velha toalha verde de mesa, e pintara no centro, em branco, um
chifre e um casco. Essa era a bandeira que subia ao topo do mastro
no pátio da casa todos os domingos pela manhã. O verde da
bandeira, explicava Bola-de-Neve, representava os verdes campos
da Inglaterra, ao passo que o chifre e o casco simbolizavam a futura
República dos Bichos, cujo advento teria lugar no dia em que o
gênero humano, enfim, desaparecesse. Após o hasteamento da
bandeira, iam todos ao grande celeiro, para assistir a uma
assembleia-geral conhecida como a Reunião. Lá planejavam o
trabalho da semana seguinte e debatiam as resoluções. Eram
sempre os porcos que propunham resoluções. Os outros bichos
aprenderam a votar, mas nunca conseguiram imaginar uma
resolução por conta própria. Bola-de-Neve e Napoleão eram os mais
ativos nos debates. Notou-se, porém, que os dois nunca estavam de
acordo: qualquer sugestão de um podia contar, na certa, com a
oposição do outro. Mesmo quando se resolveu — coisa que, em si,
não podia sofrer a objeção de ninguém — que o potreiro situado
além do pomar seria reservado para os animais aposentados, houve
uma agitada discussão a respeito da idade de aposentadoria para
cada classe de animal. A Reunião era encerrada sempre com o hino
“Bichos da Inglaterra”, e a tarde destinava-se à recreação.
Os porcos reservaram o depósito de ferramentas para sede da
direção. Ali, à noite, estudavam forjaria, carpintaria e outras artes
necessárias, em livros trazidos da casa-grande. Bola-de-Neve
ocupava-se também da organização dos outros bichos através dos
chamados Comitês de Animais. Formou o Comitê da Produção de
Ovos para as galinhas, a Liga das Caudas Limpas para as vacas, o
Comitê de Reeducação dos Camaradas Arredios (cujo objetivo era
domesticar ratos e coelhos), o Movimento Pró-Lã Mais Branca, que
congregava as ovelhas, e outros mais, além da criação de cursos
para ensinar a ler e escrever. De maneira geral, esses projetos
foram um fracasso. A tentativa de domesticar os elementos
silvestres, por exemplo, falhou em pouco tempo. Eles continuaram a
portar-se como dantes, e simplesmente tiravam vantagem do fato
quando tratados com generosidade. A gata ingressou no Comitê de
Reeducação, e por algum tempo militou muito ativa. Um dia foi vista,
sentada num telhado, a doutrinar alguns pardais pousados pouco
além do seu alcance. Dizia-lhes que todos os animais agora eram
camaradas, e qualquer pardal que o desejasse poderia vir pousar na
sua mão; mas os pardais preferiram ficar de longe.
As aulas de ler e escrever, pelo contrário, fizeram enorme
sucesso. Pelo outono, quase todos os bichos estavam
alfabetizados, uns mais, outros menos.
Os porcos já liam e escreviam muito bem. Os cães aprenderam a
ler razoavelmente, mas não se interessavam pela leitura de nada
além dos Sete Mandamentos. Maricota, a cabra, lia um pouco
melhor que os cães e costumava ler para os demais, à noite, os
pedaços de jornal que achava no lixo. Benjamim sabia ler tão bem
quanto os porcos, mas não exercia sua faculdade. Ao que soubesse
— costumava dizer — não havia o que valesse a pena ler. Quitéria
aprendeu todo o alfabeto, mas não conseguia juntar as letras.
Sansão não foi capaz de ir além da letra D. Riscava na areia, com a
pata, as letras A, B, C, D e ficava olhando, com as orelhas murchas,
às vezes sacudindo o topete, tentando com todas as suas forças
lembrar-se do que vinha depois, inutilmente. É verdade que em
várias ocasiões aprendeu E, F, G, H, mas ao consegui-lo descobria
sempre que havia esquecido A, B, C, D. Afinal decidiu contentar-se
com as quatro primeiras letras, e costumava escrevê-las um par de
vezes por dia, a fim de refrescar a memória. Mimosa recusou-se a
aprender mais do que as seis letras que compunham seu nome.
Formava-as, bem certinhas, com pedaços de ramos, enfeitava o
conjunto com uma ou duas flores e ficava andando em volta, a
admirá-las.
Nenhum dos outros animais da granja chegou além da letra A.
Notou-se também que os mais estúpidos, tais como as ovelhas, as
galinhas e os patos, eram incapazes de aprender de cor os Sete
Mandamentos. Depois de muito pensar, Bola-de-Neve declarou que,
na verdade, os Sete Mandamentos podiam ser condensados numa
única máxima, que era: “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”. Aí
se continha, segundo ele, o princípio essencial do Animalismo.
Quem o adotasse com firmeza estaria a salvo das influências
humanas. A princípio, os pássaros fizeram objeções, pois lhes
parecia que estavam na categoria das duas pernas, porém Bola-de-
Neve provou não ser esse o caso:
“A asa de uma ave, camaradas, é órgão de propulsão, e não de
manipulação. Deveria ser vista mais como uma perna. O que
distingue o Homem é a mão, o instrumento com que ele perpetra
toda a sua maldade.”
As aves não compreenderam as palavras de Bola-de-Neve, mas
aceitaram a explicação, e os bichos mais modestos dedicaram-se a
aprender de cor a nova máxima — QUATRO PERNAS BOM, DUAS PERNAS RUIM
—, que foi escrita na parede do fundo do celeiro, acima dos Sete
Mandamentos, e em letras bem maiores. Depois que conseguiram
decorá-la, as ovelhas tomaram-se de uma enorme predileção por
essa máxima, e frequentemente, deitadas no pasto, ficavam a balir
“Quatro pernas bom, duas pernas ruim!” durante horas a fio.
Napoleão não mostrou interesse nenhum pelos comitês de Bola-
de-Neve. Dizia que a educação dos jovens era mais importante que
qualquer coisa em favor dos adultos. Aconteceu que Lulu e Branca
deram cria logo após a colheita do feno, parindo nove robustos
cachorrinhos. Tão logo foram desmamados, Napoleão tirou-os das
mães, dizendo que ele próprio se responsabilizaria por sua
educação. Levou-os para um sótão que só podia ser alcançado pela
escada do depósito, e os manteve em tal reclusão que o resto da
fazenda logo se esqueceu de sua existência.
O mistério do leite de pronto se esclareceu. Era misturado à
comida dos porcos. As maçãs estavam amadurecendo, e a grama
do pomar cobria-se de frutas derrubadas pelo vento. Os bichos
acharam que as frutas seriam distribuídas equitativamente; certo
dia, porém, chegou ordem para que todas as frutas caídas fossem
recolhidas e levadas ao depósito das ferramentas para o consumo
dos porcos. Alguns bichos murmuraram a respeito, mas foi inútil. Os
porcos estavam todos de acordo sobre esse ponto, até mesmo
Bola-de-Neve e Napoleão. Garganta foi enviado aos outros, para
dar explicações.
“Camaradas!”, conclamou. “Não imaginais, suponho, que nós, os
porcos, fazemos isso por espírito de egoísmo e privilégio. Muitos de
nós até nem gostamos de leite e de maçã. Eu, por exemplo, não
gosto. Nosso único objetivo ao ingerir essas coisas é preservar a
saúde. O leite e a maçã (está provado pela ciência, camaradas)
contêm substâncias absolutamente necessárias à saúde dos
porcos. Nós, porcos, somos trabalhadores intelectuais. A
organização e a direção desta granja dependem de nós. Dia e noite
velamos pelo vosso bem-estar. É por vossa causa que bebemos
aquele leite e comemos aquelas maçãs. Sabeis o que sucederia se
os porcos falhassem em sua missão? Jones voltaria! Sim, Jones
voltaria! Com toda a certeza, camaradas”, gritou Garganta, quase
suplicante, dando pulinhos de um lado para outro e sacudindo o
rabicho, “com toda a certeza, não há dentre vós quem queira Jones
de volta.”
Ora, se havia algo sobre o que todos os animais estavam de
acordo era o fato de nenhum deles desejar a volta de Jones.
Quando o assunto foi colocado sob essa luz, não tiveram mais o
que dizer. A importância de manter a boa saúde dos porcos ficou
óbvia. Foi, portanto, resolvido sem mais discussões que o leite e as
maçãs caídas (bem como toda a colheita de maçãs, quando
amadurecessem) seriam reservados para os porcos.
*
4.
Pelo fim do verão, a notícia do que sucedera na Granja dos
Bichos já se espalhara pelo condado. Todos os dias, Bola-de-Neve e
Napoleão enviavam formações de pombos com instrução de
misturarem-se aos animais das granjas vizinhas, contar-lhes a
história da Rebelião e ensinar-lhes a melodia de “Bichos da
Inglaterra”.
Jones passava a maior parte desse tempo na taverna do Leão
Vermelho, em Willingdon, queixando-se, a quem quisesse ouvir, da
monstruosa injustiça que sofrera ao ser expulso de sua granja por
uma súcia de animais imprestáveis. Os outros granjeiros eram-lhe
simpáticos, em princípio, mas inicialmente não lhe deram muita
ajuda. No fundo, cada um imaginava em segredo alguma forma de
tirar vantagem do infortúnio de Jones. Era uma sorte que os
proprietários das duas granjas lindeiras com a dos bichos vivessem
em más relações. Uma delas, chamada Foxwood, era uma granja
grande, abandonada e antiquada, coberta de mato, com as
pastagens cansadas e as sebes malcuidadas. O dono, o sr.
Pilkington, era um fazendeiro amador, bom sujeito, que passava a
maior parte do tempo caçando ou pescando, conforme a estação. A
outra granja, chamada Pinchfield, era menor e muito bem cuidada.
O proprietário era o sr. Frederick, homem rude e sagaz, sempre
envolvido em litígios e com reputação de sempre levar a melhor em
paradas muito difíceis. Os dois se hostilizavam tanto que lhes era
sumamente difícil chegar a qualquer acordo, mesmo em defesa de
seus próprios interesses.
Só que ambos estavam muito assustados com a rebelião na
Granja dos Bichos e queriam evitar que seus próprios animais
tomassem maior conhecimento do assunto. De início, fingiram achar
graça na ideia de bichos dirigirem uma granja. O caso todo estaria
acabado em coisa de semanas, diziam. Espalharam que os animais
da Granja do Solar (insistiam em chamá-la Granja do Solar, não
admitindo o nome Granja dos Bichos) estavam lutando entre si e
não tardariam a definhar até a morte. Como o tempo passava e os
animais evidentemente não morriam, Frederick e Pilkington
mudaram de tom e passaram a falar nas terríveis perversidades que
estavam ocorrendo na Granja dos Bichos. Foi dito que os animais lá
praticavam o canibalismo, torturavam uns aos outros com ferraduras
ao rubro e tinham suas fêmeas em comum. Isso era o que advinha
do desrespeito às leis da natureza, diziam Frederick e Pilkington.
Entretanto, nunca ninguém acreditou muito nessas histórias.
Boatos de um sítio maravilhoso, onde acabaram os seres humanos
e os bichos tomavam conta dos próprios negócios, continuavam a
circular, de forma vaga e distorcida, e durante todo aquele ano uma
onda de revolta correu a região. Touros que sempre haviam sido
mansos repentinamente enfureceram, as ovelhas passavam as
sebes e comiam o trevo, as vacas coiceavam os tarros, os cavalos
da caça à raposa refugavam as cercas, jogando os cavaleiros do
outro lado. Mas sobretudo, a melodia e mesmo a letra de “Bichos da
Inglaterra” eram sabidas em toda parte. O hino espalhara-se com
espantosa rapidez. Os humanos não aguentavam de raiva ao
ouvirem a canção, embora a desdenhassem como simplesmente
ridícula. Não dava para entender, diziam, que mesmo animais
chegassem ao ponto de cantar aquela droga. O bicho flagrado a
cantá-la era açoitado na hora. Ainda assim, a canção era
irreprimível. Os melros a trinavam pousados nas cercas, as pombas
arrulhavam-na nos olmeiros, e ela pervagava nas marteladas dos
ferreiros e no bimbalhar dos sinos das igrejas. E os humanos, ao
ouvi-la, tremiam secretamente ante aquela profecia de sua
desgraça.
No início de outubro, quando o trigo já fora colhido, amontoado e
em parte até debulhado, uma revoada de pombos chegou num
turbilhão e pousou no pátio da Granja dos Bichos, presa de grande
pavor. Jones e todos os seus homens, com mais meia dúzia de
Foxwood e Pinchfield, haviam entrado pela porteira das cinco barras
e vinham subindo a trilha que conduzia à fazenda. Todos armados
de bastões, exceto Jones, que marchava à frente com uma
espingarda na mão. Era evidentemente uma tentativa de recuperar
a granja.
Há muito isso era esperado, e os preparativos vinham sendo
feitos. Bola-de-Neve, que estudara um velho livro sobre as
campanhas de Júlio César achado na casa-grande, estava
encarregado das operações defensivas. Ligeiro deu suas ordens, e
logo cada animal estava em seu posto.
Quando os humanos chegaram perto das casas, Bola-de-Neve
lançou o primeiro ataque. Os pombos, em número de trinta e cinco,
voaram em sortidas sobre os homens e defecaram sobre eles;
enquanto os homens debatiam-se com isso, os gansos, até então
escondidos nas sebes, avançaram bicando-lhes as pernas
malevolamente. Mas era apenas uma pequena manobra de
escaramuça, destinada a criar confusão, e os humanos tiveram
facilidade em espantar os gansos com os bastões. Então, Bola-de-
Neve lançou sua segunda vaga de ataque. Maricota, Benjamim e as
ovelhas, com Bola-de-Neve à frente, arremeteram sobre os homens,
marrando, mordendo e escoiceando-os de todo lado, Benjamim
fustigando-os pelas costas com seus pequenos cascos. Novamente,
porém, os homens com os bastões e os coturnos rústicos foram
mais fortes; e de repente, a um guincho de Bola-de-Neve, que era o
sinal para bater em retirada, todos os bichos deram meia-volta e
atravessaram o portão em disparada para dentro do pátio.
Os homens soltaram um brado de triunfo. Viram, tal como haviam
imaginado, o inimigo em fuga, e se lançaram em seu encalço
desordenadamente. Era justo o que Bola-de-Neve queria. Tão logo
eles entraram no pátio, os três cavalos, as três vacas e o restante
dos porcos, que estavam emboscados atrás do estábulo, surgiram-
lhes de inopino à retaguarda, cortando a retirada. Bola-de-Neve deu
o sinal de carga. Ele próprio correu na direção de Jones. Vendo-o,
Jones levantou a arma e atirou. Os projéteis abriram riscos
sangrentos no dorso de Bola-de-Neve, e uma ovelha caiu morta.
Sem titubear um só instante, Bola-de-Neve lançou os seus cem
quilos contra as pernas de Jones. O homem foi jogado sobre um
monte de esterco, e a arma voou-lhe das mãos. Porém, o
espetáculo mais aterrorizante em tudo aquilo era Sansão, erguendo-
se nos posteriores e dando manotaços com seus enormes cascos
ferrados, feito um garanhão. Logo no primeiro golpe atingiu o crânio
de um cavalariço de Foxwood, que caiu prostrado sem vida na lama.
Diante disso, vários homens largaram os bastões e tentaram correr.
O pânico tomou conta deles, e em poucos momentos os animais os
caçavam em volta do pátio. Eles foram chifrados, lanhados,
mordidos e atropelados. Não houve bicho da granja que não tirasse
desforra, cada um à sua moda. Até a gata, inesperadamente, saltou
de um telhado sobre as costas de um peão, cravando-lhe as unhas
no pescoço e fazendo o homem dar um berro de dor. Em dado
momento, desimpedida a saída, os homens conseguiram fugir do
pátio e saíram em desabalada carreira rumo à estrada principal. E
assim, poucos minutos após a invasão, batiam em retirada
vergonhosa pelo mesmo caminho da vinda, com uma multidão de
gansos no seu encalço, bicando-lhes as pernas sem piedade.
Todos os homens haviam fugido, exceto um. No pátio, Sansão
empurrava, com a pata, o cavalariço que jazia de bruços na lama,
tentando virá-lo. Mas o rapaz não se mexia.
“Está morto”, disse Sansão, penalizado. “Eu não queria fazer isso.
Esqueci que estava de ferraduras. Quem acreditará que não fiz isso
de propósito?”
“Nada de sentimentalismos, camarada!”, gritou Bola-de-Neve, de
cujos ferimentos o sangue corria. “Guerra é guerra. Humano bom é
humano morto.”
“Eu não desejo tirar a vida de quem quer que seja, nem mesmo
de um ser humano”, repetiu Sansão, com os olhos cheios de
lágrimas.
“Onde está Mimosa?”, perguntou alguém.
Mimosa realmente havia desaparecido. Por momentos, houve
grande alarme. Temeu-se que os homens a tivessem ferido ou
mesmo levado com eles. Por fim, foi encontrada em sua própria
baia, com a cabeça escondida no feno da manjedoura. Havia fugido
no momento do tiro da espingarda. E quando voltaram, depois de
encontrá-la, foi para descobrir que o cavalariço, que na verdade
havia apenas desmaiado, voltara a si e desaparecera.
Os bichos, então, tornaram a reunir-se, presas de grande
entusiasmo, cada qual narrando suas façanhas na batalha com a
voz mais alta que conseguia. Uma celebração de improviso realizou-
se imediatamente. A bandeira foi hasteada, e cantou-se “Bichos da
Inglaterra” muitas vezes; depois a ovelha morta recebeu funerais
solenes, sendo plantado em seu túmulo um ramo de espinheiro. Ao
pé do túmulo, Bola-de-Neve fez um pequeno discurso, pondo em
relevo a necessidade de todos os animais estarem prontos a morrer
pela Granja dos Bichos, se necessário.
Os animais decidiram, por unanimidade, criar uma condecoração
militar, a Herói Animal, Primeira Classe, conferida ali mesmo a Bola-
de-Neve e a Sansão. Consistia numa medalha de bronze (era, na
realidade, bronze dos arreios achados no galpão de ferramentas)
para ser usada nos domingos e feriados. Criaram também a Herói
Animal, Segunda Classe, conferida postumamente à ovelha morta.
Houve muita discussão quanto ao nome a ser dado à batalha. Por
fim, ela foi chamada Batalha do Estábulo, o lugar onde se armara a
emboscada. A espingarda de Jones foi encontrada na lama. Havia
uma boa quantidade de cartuchos na casa-grande, e ficou decidido
que colocariam a arma ao pé do mastro, como uma peça de
artilharia, e dariam uma salva duas vezes ao ano — uma no dia 12
de outubro, aniversário da Batalha do Estábulo, e outra no dia 24 de
junho, aniversário da Rebelião.
*
5.
Com a chegada do inverno, Mimosa tornou-se cada vez mais
importuna. Todas as manhãs atrasava-se para o trabalho e dava a
desculpa de dores misteriosas, embora gozasse de excelente
apetite. A qualquer pretexto largava o trabalho e ia para o açude, em
cuja beira permanecia admirando a própria imagem refletida na
água. Corriam também boatos de maior seriedade. Um dia, quando
Mimosa entrou no pátio, toda contente, sacudindo a cauda e
mascando um talo de feno, Quitéria abordou-a.
“Mimosa”, disse ela, “tenho um assunto muito sério para tratar.
Hoje de manhã vi você olhando por cima da sebe que separa a
nossa granja de Foxwood. Do outro lado estava um empregado do
senhor Pilkington. E ele — embora eu estivesse longe, tenho quase
certeza de que vi isso — falava com você e fazia festa em seu
focinho. Que quer dizer isso, Mimosa?”
“Ele não fez! Eu não estava! Não é verdade!”, gritou Mimosa,
agitando-se e escarvando a terra.
“Mimosa! Olhe nos meus olhos. Você me dá sua palavra de honra
de que o homem não a tocou no focinho?”
“Não é verdade!”, repetiu Mimosa, sem olhar Quitéria de frente,
depois virou-se e galopou para o campo.
Quitéria teve uma ideia. Sem dizer nada a ninguém, foi à baia de
Mimosa e virou a palha com o casco. Ali estavam, escondidos, um
montinho de torrões de açúcar e vários novelos de fitas de diversas
cores.
Três dias mais tarde, Mimosa desapareceu. Durante algumas
semanas ninguém teve notícias de seu paradeiro, até que os
pombos trouxeram o informe de que a haviam visto na parte mais
afastada de Willingdon, atrelada a uma bonita charrete vermelha e
preta, em frente a uma taverna. Um homem gordo, de rosto
vermelho, calças xadrez e polainas, com todo o tipo de
estalajadeiro, passava-lhe a mão no focinho e dava-lhe torrões de
açúcar. Estava de pelo bem tosado e usava uma fita escarlate no
topete. Parecia muito satisfeita, disseram os pombos. Os bichos
nunca mais falaram em Mimosa.
Em janeiro, o tempo piorou terrivelmente. A terra, dura como ferro,
não permitia o trabalho no campo. Houve muitas reuniões no celeiro
grande, e os porcos passaram ao planejamento dos trabalhos a
realizar na estação seguinte. Ficara acertado que os porcos, sendo
manifestamente mais inteligentes que os outros animais, decidiriam
todas as questões referentes à política agrícola da granja, embora
suas decisões devessem ser ratificadas pelo voto da maioria. Essa
combinação teria funcionado muito bem, não fossem as disputas
entre Bola-de-Neve e Napoleão. Esses dois discordavam em todos
os pontos passíveis de discordância. Se um propunha o aumento da
área de plantio de cevada, era certo que o outro proporia uma área
maior para o cultivo de aveia, e se um dissesse que tais e tais lotes
eram ótimos para plantar repolho, o outro diria que só prestavam
para nabos. Cada qual tinha seus seguidores, e havia debates
violentos. Nas reuniões, Bola-de-Neve frequentemente obtinha a
maioria, por seus discursos brilhantes, porém Napoleão era o
melhor na cabala de apoio durante os intervalos. Obtinha sucesso
especial com as ovelhas. Ultimamente elas haviam criado o hábito
de balir “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” em ocasiões
próprias ou impróprias, e muitas vezes interrompiam a reunião
dessa maneira. Notou-se que mostravam especial disposição de
atacar o “Quatro pernas bom, duas pernas ruim” justo quando Bola-
de-Neve chegava a um momento crucial de seus discursos. Bola-
de-Neve estudara atentamente alguns números atrasados da revista
O Agricultor e o Criador de Gado, encontrados na casa-grande, e
andava com a cabeça cheia de projetos de invenções e
melhoramentos. Falava com grande conhecimento de causa sobre
drenagens, ensilagem, escórias básicas, e havia elaborado um
complexo esquema segundo o qual os bichos evacuariam
diretamente no campo, em pontos diferentes cada dia, para
economizar o trabalho do transporte de esterco. Napoleão não fazia
projetos próprios, apenas dizia com toda a calma que os de Bola-de-
Neve não dariam em nada e parecia aguardar sua vez. De todas as
divergências, porém, nenhuma foi tão séria quanto a do moinho de
vento.
Não muito longe das casas havia um outeiro que era o ponto mais
alto da granja. Depois de realizar uma pesquisa no solo, Bola-de-
Neve declarou ser o local ideal para a construção de um moinho de
vento que poderia acionar um dínamo e suprir de energia elétrica
toda a granja. As baias teriam luz e aquecimento no inverno, haveria
força para uma serra circular, para moagem de cereais, para o corte
da beterraba de forragem e para um sistema de ordenha elétrica. Os
animais nunca tinham sequer ouvido falar nessas coisas (pois a
granja era antiquada, com aparelhagem das mais primitivas) e
escutaram boquiabertos Bola-de-Neve fazer desfilar como por
encanto, ante sua imaginação, as figuras dos aparelhos mais
espetaculares, máquinas que fariam todo o serviço em seu lugar,
enquanto eles aproveitariam a folga pastando ou cultivando a mente
através da leitura e da conversação.
Em poucas semanas, o projeto de Bola-de-Neve para o moinho
de vento ficou pronto. Os detalhes mecânicos foram retirados
principalmente de três livros que haviam pertencido ao sr. Jones —
Mil coisas úteis para sua casa, Seja o seu próprio pedreiro e
Eletricidade para principiantes. Bola-de-Neve utilizou como estúdio
um galpão que antes abrigara incubadoras e cujo piso era de
madeira lisa, própria para desenhar. Lá permanecia horas a fio, com
os livros abertos sob o peso de uma pedra e uma barra de giz entre
as duas pontas do casco. Andava lépido para lá e para cá, riscando
linhas e mais linhas e soltando guinchos de entusiasmo.
Aos poucos o projeto foi se transformando numa complicada
massa de manivelas e engrenagens que cobria quase metade do
assoalho, e que os outros animais achavam completamente
ininteligível — mas impressionante. Pelo menos uma vez por dia,
cada um vinha olhar os desenhos de Bola-de-Neve. Até as galinhas
e os patos apareciam, pisando com grande dificuldade para não
estragar os riscos de giz. Apenas Napoleão permaneceu
desinteressado. Havia se declarado contra o moinho de vento desde
o início. Um dia, entretanto, chegou de surpresa para ver o projeto.
Caminhou pesado em volta do galpão, olhou detidamente cada
detalhe do desenho, farejou-o uma ou duas vezes, depois deteve-se
a contemplá-lo por alguns instantes pelo canto dos olhos; então de
repente levantou a pata, urinou sobre o projeto e saiu sem proferir
palavra.
A granja estava profundamente dividida com respeito ao moinho
de vento. Bola-de-Neve não negava que sua construção era um
empreendimento difícil. Seria necessário carregar pedras e
transformá-las em paredes, depois construir as pás, e por fim
haveria necessidade de dínamos e fios (onde seriam encontrados,
Bola-de-Neve não dizia). Mas afirmava que tudo poderia ser feito
em um ano. Depois disso, dizia, tanto trabalho seria poupado que
bastariam apenas três dias de trabalho por semana. Napoleão, por
seu lado, argumentava que a grande necessidade do momento era
aumentar a produção de alimentos, e que eles morreriam de fome
se perdessem tempo com o moinho de vento. Os animais dividiram-
se em duas facções que se alinhavam sob os dísticos: “Vote em
Bola-de-Neve e na semana de três dias” e “Vote em Napoleão e na
manjedoura cheia”. Benjamim foi o único animal que não tomou
partido. Recusava-se a crer, tanto em que haveria fartura de
alimento como em que o moinho de vento economizaria trabalho.
Moinho ou não moinho, dizia ele, a vida seguiria como sempre — ou
seja, mal.
Além da disputa sobre o moinho de vento, havia o problema da
defesa da granja. Eles bem sabiam que, embora os humanos
tivessem sido derrotados na Batalha do Estábulo, poderiam fazer
outra tentativa, mais em força, para retomar a granja e restaurar
Jones. Tinham as melhores razões para tentar, pois a notícia da
derrota se espalhara por todo o interior e tornara os animais das
granjas vizinhas mais rebeldes do que nunca. Como de hábito, Bola-
de-Neve e Napoleão não estavam de acordo. Segundo Napoleão, o
que os animais deveriam fazer era conseguir armas de fogo e
instruir-se em seu emprego. Bola-de-Neve achava que deveriam
enviar mais e mais pombos e provocar a rebelião entre os bichos
das outras granjas. O primeiro argumentava que, incapazes de
defender-se, estavam destinados à submissão; o outro alegava que,
fomentando revoluções em toda parte, não teriam necessidade de
defender-se. Os animais ouviam Napoleão, depois Bola-de-Neve, e
não chegavam a conclusão nenhuma sobre quem tinha razão; na
verdade, estavam sempre de acordo com quem falava no momento.
Por fim, chegou o dia em que o projeto de Bola-de-Neve ficou
pronto. Na reunião do domingo seguinte deveria ser posta em
votação a questão de começar ou não o trabalho no moinho de
vento. Quando os animais se reuniram no grande celeiro, Bola-de-
Neve levantou-se e, embora fosse interrompido de vez em quando
pelo balido das ovelhas, expôs suas razões em favor da construção
do moinho de vento. Depois levantou-se Napoleão, para rebater.
Disse calmamente que o moinho de vento era uma tolice e que não
aconselhava ninguém a votar a favor daquilo. Sentou-se de novo;
falara durante trinta segundos, se tanto, e parecia indiferente ao
resultado. Ante isso, Bola-de-Neve pôs-se de pé outra vez, calou a
gritos as ovelhas, que começavam a balir de novo, e irrompeu num
candente apelo em favor do moinho de vento. Até então, os bichos
estavam quase igualmente divididos em sua simpatia, mas num
instante a eloquência de Bola-de-Neve arrastou a todos. Com
sentenças ardentes, pintou um quadro de como poderia ser a
Granja dos Bichos quando o trabalho sórdido fosse tirado dos
ombros de todos. Sua imaginação ia agora além da mó de cereais e
do corta-nabos. A eletricidade — disse ele — ia mover
debulhadoras, arados, grades, rolos compressores, ceifeiras e
atadeiras, além de prover a cada baia sua própria luz, água quente
e fria e um aquecedor elétrico. Quando parou de falar, não havia
mais dúvida quanto ao resultado da votação. Porém nesse exato
instante Napoleão levantou-se, e dando uma estranha olhadela de
viés para Bola-de-Neve, soltou um guincho estridente que ninguém
nunca ouvira antes.
Houve um terrível latido do lado de fora, e nove cães enormes
usando coleiras tachonadas de bronze entraram aos saltos no
celeiro. Jogaram-se sobre Bola-de-Neve, que saltou do lugar onde
estava mal a tempo de escapar àquelas presas. Num instante, zuniu
porta afora com os cães em seu encalço. Espantados e
aterrorizados demais para falar, os bichos amontoaram-se na porta
para observar a caçada. Bola-de-Neve corria pelo campo em
direção à estrada, como só um porco sabe correr, mas os cachorros
se aproximavam. De repente ele caiu, e pareceu que o pegariam.
Mas levantou-se outra vez e voou como um desesperado. Já os
cães o alcançavam de novo. Um deles quase fechou as mandíbulas
no rabicho de Bola-de-Neve, que o sacudiu bem na hora. Aí fez um
esforço extremo e, ganhando algumas polegadas, se enfiou por um
buraco da sebe e sumiu.
Calados e aterrados, os animais voltaram furtivamente para
dentro do celeiro. Logo chegaram os cachorros, latindo. A princípio,
ninguém pôde imaginar de onde tinham vindo aquelas criaturas,
mas o mistério logo se aclarou: eram os cachorrinhos que Napoleão
havia tomado das mães e criado em segredo. Embora ainda não
tivessem completado o crescimento, já eram cães enormes, mal-
encarados como lobos. Permaneceram junto a Napoleão, e notou-
se que sacudiam a cauda para ele da mesma maneira como os
outros cachorros outrora faziam para Jones.
Napoleão, com os cães a segui-lo, subiu para o estrado de onde o
Major fizera seu discurso. Anunciou que daquele momento em
diante terminariam as reuniões aos domingos de manhã. Eram
desnecessárias, disse ele, uma perda de tempo. Para o futuro,
todos os problemas relacionados com o funcionamento da granja
seriam resolvidos por uma comissão de porcos, presidida por ele,
que se reuniria em particular e depois comunicaria as decisões aos
demais. Os animais continuariam a reunir-se aos domingos para
saudar a bandeira, cantar “Bichos da Inglaterra” e receber as ordens
da semana; não haveria debates.
A despeito do estado de choque em que a expulsão de Bola-de-
Neve os deixara, os bichos caíram das nuvens com aquela notícia.
Vários teriam protestado, se conseguissem achar os argumentos.
Até Sansão ficou um tanto inquieto. Murchou as orelhas, sacudiu o
topete várias vezes e fez um esforço tremendo para pôr em ordem
as ideias; mas afinal não conseguiu pensar em nada para dizer.
Alguns porcos, porém, tinham maior flexibilidade de raciocínio.
Quatro jovens porcos castrados, colocados na primeira fila, soltaram
altos guinchos de protesto e levantaram-se, falando a um só tempo.
Mas os cachorros, junto de Napoleão, deram um rosnado fundo e
ameaçador, e os porcos calaram-se, sentando-se de novo. Aí
estrondaram as ovelhas um formidável balido de “Quatro pernas
bom, duas pernas ruim”, que durou cerca de um quarto de hora,
acabando com qualquer hipótese de discussão.
Mais tarde, Garganta foi mandado percorrer a granja para explicar
a nova situação aos demais.
“Camaradas”, ele disse, “tenho certeza de que cada animal
compreende o sacrifício que o Camarada Napoleão faz ao tomar
sobre seus ombros mais esse trabalho. Não penseis, camaradas,
que a liderança seja um prazer. Pelo contrário, é uma enorme e
pesada responsabilidade. Ninguém mais que o Camarada Napoleão
crê firmemente que todos os bichos são iguais. Feliz seria ele se
pudesse deixar-vos tomar decisões por vossa própria vontade; mas
às vezes poderíeis tomar decisões erradas, camaradas; e então,
onde iríamos parar? Suponhamos que tivésseis decidido seguir
Bola-de-Neve, com suas miragens de moinho de vento — logo Bola-
de-Neve, que, como hoje sabemos, não passava de um criminoso?”
“Ele foi valente na Batalha do Estábulo”, disse alguém.
“Valentia não basta”, respondeu Garganta. “A lealdade e a
obediência são mais importantes. E quanto à Batalha do Estábulo,
acredito, tempo virá em que verificaremos que o papel de Bola-de-
Neve foi muito exagerado. Disciplina, camaradas, disciplina férrea!
Esse é o lema para os dias que correm. Um passo em falso, e o
inimigo estará sobre nós. Por certo, camaradas, não quereis Jones
de volta, hein?”
Uma vez mais, esse argumento era irrespondível. Sem dúvida
alguma, os bichos não desejavam Jones de volta; e se a realização
dos debates dominicais podia ter essa consequência, então que
cessassem os debates. Sansão, que já tivera tempo de pensar,
expressou o sentimento geral: “Se é o que diz o Camarada
Napoleão, deve estar certo”. E daí por diante adotou a máxima
“Napoleão tem sempre razão”, acrescentando-a ao seu lema
particular “Trabalharei mais ainda”.
Já com o tempo melhor, iniciou-se a arada da primavera. O
galpão em que Bola-de-Neve desenhara o projeto do moinho de
vento foi trancado, e os desenhos, provavelmente apagados. Todos
os domingos, às dez horas, os animais reuniam-se no grande
celeiro para receber as ordens da semana. A caveira do velho
Major, já sem carnes, fora desenterrada e colocada sobre um toco
ao pé do mastro, junto da espingarda. Após o hasteamento da
bandeira, os animais deviam desfilar reverentemente perante a
caveira, antes de entrar no celeiro. Já não sentavam todos juntos,
como antes. Napoleão, com Garganta e outro porco chamado
Mínimo, dono de notável talento para compor canções e poemas,
aboletavam-se sobre a parte fronteira da plataforma, os nove
cachorros em semicírculo ao redor deles, e os outros porcos atrás.
O restante dos animais ficava de frente para eles, no chão do
celeiro. Napoleão lia as ordens da semana num áspero estilo militar,
e após cantarem uma única vez “Bichos da Inglaterra”, os animais
se dispersavam.
No terceiro domingo após a expulsão de Bola-de-Neve, os bichos
ficaram muito surpresos ao ouvir Napoleão anunciar que o moinho
de vento seria finalmente construído. Napoleão não deu nenhuma
explicação sobre o motivo que o fizera mudar de ideia, apenas
alertando os animais de que essa tarefa extraordinária significaria
trabalho mais duro, podendo até ser necessário reduzirem-se as
rações. O projeto, entretanto, estava formulado até o último detalhe.
Uma comissão especial de porcos trabalhara nele durante as três
últimas semanas. A construção do moinho de vento, com vários
outros melhoramentos, deveria levar dois anos.
Naquela tarde, Garganta explicou aos outros bichos, em
particular, que Napoleão nunca fora contra a construção do moinho
de vento. Pelo contrário, ele é que advogara a ideia desde o início, e
o projeto que Bola-de-Neve havia desenhado no assoalho do galpão
das incubadoras fora, na realidade, roubado de entre os papéis de
Napoleão. O moinho de vento era, na verdade, criação do próprio
Napoleão. Por que, então, perguntou alguém, ele falou tanto contra
o moinho? Garganta olhou, manhoso. Aí é que estava a esperteza
do Camarada Napoleão, disse. Ele fingira ser contra o moinho de
vento, apenas como manobra para livrar-se de Bola-de-Neve, que
era um péssimo caráter e uma influência perniciosa. Agora que
Bola-de-Neve saíra do caminho, o projeto podia prosseguir sem a
sua interferência. Isso, disse Garganta, era uma coisa chamada
tática. Repetiu inúmeras vezes: “Tática, camaradas, tática!”,
saltando à roda e sacudindo o rabicho, com um riso jovial. Os bichos
não estavam muito certos do significado da palavra, mas Garganta
falava de modo tão persuasivo, e três cachorros — que por
coincidência estavam com ele — rosnavam tão ameaçadores que
eles aceitaram a explicação sem mais perguntas.
*
6.
Todo aquele ano, os bichos trabalharam feito escravos. Mas
trabalhavam felizes; não mediam esforço ou sacrifício, cientes de
que tudo quanto fizessem reverteria em benefício deles próprios e
dos de sua espécie, que estavam por vir, e não em proveito de um
bando de seres humanos preguiçosos e aproveitadores.
Na primavera e no verão, enfrentaram uma semana de sessenta
horas de trabalho, e em agosto Napoleão fez saber que haveria
trabalho também nos domingos à tarde. Esse trabalho era
estritamente voluntário, porém o bicho que não aceitasse teria sua
ração diminuída pela metade. Mesmo assim, ficou alguma coisa por
fazer. A colheita foi pouco menor que a do ano anterior, e duas
lavouras, que deveriam receber nabos no início do verão, não foram
plantadas por não ter sido possível ará-las a tempo. Era fácil prever
que o inverno seria bastante duro.
A construção do moinho de vento apresentou dificuldades
imprevistas. Havia na granja uma boa pedreira, e grande quantidade
de areia e cimento fora encontrada num depósito, portanto o
material para a construção existia e estava à mão. O problema que
os animais não conseguiram resolver, de início, foi o de quebrar as
pedras no tamanho desejado. Não parecia haver outra maneira
senão com furadeiras e alavancas, coisas que nenhum animal podia
usar, porque não lhes era possível ficar sobre duas patas. Somente
após semanas de trabalho em vão foi que ocorreu a alguém a ideia
certa — aproveitar a força da gravidade. Pelo leito da pedreira
jaziam pedras enormes, demasiado grandes para ser usadas como
estavam. Os bichos amarravam cordas em torno das pedras, e
todos juntos, cavalos, vacas, ovelhas, todo animal que fosse capaz
de segurar os cabos — em certos momentos críticos até os porcos
entravam no grupo —, arrastavam-nas com desesperadora lentidão
até o ponto mais elevado da pedreira, de cuja borda eram
derrubadas para despedaçarem-se embaixo. O transporte das
pedras, uma vez quebradas, era relativamente simples. Os cavalos
carregavam-nas em carroças, as ovelhas arrastavam blocos
individuais, até mesmo Maricota e Benjamim atrelaram-se a uma
velha charrete e fizeram sua parte. No fim do verão já haviam
acumulado um bom estoque de pedras, e então começou a
construção, sob a superintendência dos porcos.
Entretanto, o processo era demorado e laborioso. Muitas vezes,
levavam um dia inteiro para arrastar uma pedra das maiores até o
topo da pedreira, e era frequente que, atirada pela borda, ela não
quebrasse. Nada se teria feito sem Sansão, cuja força parecia igual
à de todos os outros bichos juntos. Quando a pedra começava a
escorregar e os animais gritavam de desespero ao se ver arrastados
ladeira abaixo, era sempre Sansão que retesava os cabos e
continha a pedra. Vê-lo na faina da subida, palmo a palmo, com a
respiração acelerada, os costados molhados de suor e as pontas
dos cascos cravadas no solo, era algo que enchia a todos de
admiração. Quitéria recomendava-lhe que tivesse cuidado e não se
esforçasse demais, mas Sansão não lhe dava ouvidos. As duas
máximas “Trabalharei mais ainda” e “Napoleão tem sempre razão”
pareciam resolver todos os seus problemas. Pediu a um dos galos
que o acordasse três quartos de hora mais cedo, pela manhã, em
vez de meia hora. E nos momentos de folga, coisa que nos últimos
tempos não sucedia muito amiúde, ia sozinho à pedreira, juntava um
monte de pedras quebradas e puxava-o até o local do moinho de
vento, sem ajuda de ninguém.
Os bichos não passaram muito mal aquele inverno, malgrado a
dureza do trabalho. Se não dispunham de mais alimentos do que no
tempo de Jones, também não tinham menos. A vantagem de só
terem a si próprios para alimentar, sem os cinco esbanjadores seres
humanos, era tão grande que compensava bem algumas faltas. E
em muitos aspectos seus métodos eram mais eficientes e
econômicos. Certas tarefas, como, por exemplo, a limpeza de ervas
daninhas, podiam ser realizadas com uma perfeição impossível para
os humanos. E como nenhum animal roubava, não houve
necessidade de separar as pastagens das terras aráveis, o que
evitou o grande trabalho da construção de cercas e porteiras.
Mesmo assim, à medida que o verão passava, alguma escassez
imprevista começou a se fazer sentir. Faltaram óleo de parafina,
pregos, corda, biscoitos para os cachorros e ferraduras para os
cavalos, coisas que não podiam ser fabricadas na granja. Mais
tarde, faltaram também sementes e adubo artificial, além de vários
tipos de ferramentas, e finalmente a maquinaria para o moinho de
vento. Como obter isso tudo, ninguém conseguia imaginar.
Um domingo de manhã, quando os bichos se reuniram para
receber as ordens, Napoleão anunciou sua decisão de encetar uma
nova política. A partir daquele dia, a Granja dos Bichos passaria a
comerciar com as da vizinhança; naturalmente, sem nenhum
objetivo de lucro, mas com o fito único de obter algumas
mercadorias urgentemente necessárias. As exigências do moinho
de vento deviam sobrepujar tudo o mais, disse. Em consequência,
ele estava tratando da venda de uma grande meda de feno e de
parte da safra de trigo daquele ano; mais tarde, caso fosse
necessário mais dinheiro, teria de ser obtido com a venda de ovos,
para os quais sempre havia mercado em Willingdon. As galinhas,
disse Napoleão, deveriam agradecer a oportunidade de oferecer
esse sacrifício, como contribuição especial em prol da construção do
moinho de vento.
Os animais sentiram outra vez uma vaga inquietude. Nunca ter
contato com seres humanos, nunca comerciar, jamais usar dinheiro
— pois não estavam tais coisas entre as primeiras moções
passadas naquela formidável Reunião inicial, logo após a expulsão
de Jones? Todos se lembravam da aprovação dessas resoluções —
ou pelo menos julgavam lembrar-se. Os quatro jovens porcos
castrados que haviam protestado quando Napoleão acabara com as
reuniões levantaram timidamente a voz, mas foram logo silenciados
pelo rosnar medonho dos cachorros. Nesse instante, como de
hábito, as ovelhas irromperam em “Quatro pernas bom, duas pernas
ruim!”, e a momentânea impertinência foi abafada. Finalmente,
Napoleão levantou a pata ordenando silêncio e declarou que já
havia tomado todas as providências. Não haveria necessidade de
nenhum animal entrar em contato com seres humanos, coisa que
seria da maior inconveniência. Ele pretendia tomar sobre seus
ombros toda essa carga. Um certo sr. Whymper, que era advogado
em Willingdon, concordara em atuar como intermediário entre a
Granja dos Bichos e o mundo exterior, e viria à granja todas as
segundas-feiras pela manhã, a fim de receber instruções. Napoleão
finalizou o discurso com sua exclamação habitual de “Viva a Granja
dos Bichos!”, e após cantarem “Bichos da Inglaterra” os animais
foram dispensados.
Depois, Garganta percorreu a granja para tranquilizá-los.
Assegurou-lhes que tal resolução contra o engajamento no comércio
e o uso de dinheiro jamais fora aprovada, aliás nem sequer
apresentada. Era pura imaginação, e provavelmente tinha origem
em mentiras inventadas por Bola-de-Neve. Alguns bichos ainda
estavam em dúvida, porém Garganta, astuto, perguntou: “Vocês
estão certos de que não sonharam? Existe algum registro dessa
resolução? Está escrita em algum lugar?”. E uma vez que realmente
não existia nada assim escrito, os animais se convenceram do
engano.
Todas as segundas-feiras o sr. Whymper visitava a granja,
conforme o combinado. Era um homenzinho finório, de suíças
crescidas, procurador de pouca clientela, porém vivo o suficiente
para perceber, antes de qualquer outro, que a Granja dos Bichos
precisaria de um representante e que as comissões seriam
polpudas. Os bichos olhavam suas idas e vindas com um certo
receio e evitavam-no tanto quanto possível. Apesar disso, ver
Napoleão, de quatro, dando ordens a Whymper, que permanecia em
pé sobre duas pernas, era uma coisa que lhes acariciava o orgulho
e parcialmente os reconciliava com a nova situação. As relações
com o gênero humano andavam bem diferentes. Os humanos não
odiavam menos a Granja dos Bichos, agora que ela prosperava; na
verdade, odiavam-na mais que nunca. Todo ser humano tinha como
certo que a granja iria à bancarrota mais cedo ou mais tarde e,
sobretudo, que o moinho de vento seria um fracasso. Reuniam-se
nas tavernas e provavam uns aos outros, por meio de gráficos e
diagramas, que o moinho estava fadado a desabar e, caso se
mantivesse erguido, jamais funcionaria. Não obstante, mesmo
contra a vontade, haviam criado certo respeito pela eficiência com
que os bichos conduziam seus assuntos. Sintoma disso foi o fato de
começarem a chamar o sítio de Granja dos Bichos, deixando de
fingir que ela ainda se chamava Granja do Solar. Haviam também
acabado com o cartaz de Jones, que perdera toda a esperança de
reaver sua granja e fora viver noutro lugar. Até agora, exceto através
de Whymper, não houvera contato entre a Granja dos Bichos e o
mundo exterior, mas já circulavam insistentes boatos de que
Napoleão estava por chegar a um decisivo acordo de negócios, ora
com Pilkington, de Foxwood, ora com Frederick, de Pinchfield —
mas nunca, interessante, com ambos ao mesmo tempo.
Foi mais ou menos por essa época que os porcos, de repente, se
mudaram para a casa-grande, onde fixaram residência. Mais uma
vez os bichos julgaram lembrar-se de que havia uma resolução
contra isso, aprovada nos primeiros dias, e de novo Garganta
conseguiu convencê-los do contrário. Era absolutamente
necessário, ele disse, que os porcos, sendo os cérebros da granja,
tivessem um lugar calmo onde trabalhar. Além disso, viver numa
casa era mais adequado à dignidade do Líder (nos últimos tempos
dera para referir-se a Napoleão pelo título de “Líder”) do que viver
numa simples pocilga. Mesmo assim, alguns animais se
aborreceram ao ouvir dizer que os porcos não só faziam as
refeições na cozinha e utilizavam a sala como local de recreação,
mas ainda dormiam nas camas. Sansão resolveu o assunto com
seu “Napoleão tem sempre razão”; Quitéria, porém, que tinha a
impressão de lembrar-se de uma lei específica contra camas, foi até
o fundo do celeiro e tentou decifrar os Sete Mandamentos que lá
estavam escritos. Sentindo-se incapaz de ler mais do que algumas
letras separadamente, foi chamar Maricota.
“Maricota”, pediu, “leia para mim, por favor, o Quarto
Mandamento. Não diz qualquer coisa de nunca dormir em camas?”
Com alguma dificuldade, Maricota soletrou o mandamento:
“Diz que ‘Nenhum animal dormirá em cama com lençóis’.”
Curioso, Quitéria não se recordava dessa menção a lençóis no
Quarto Mandamento. Mas se estava escrito na parede, devia haver.
E Garganta, que por acaso passava nesse momento, acompanhado
de dois cachorros, colocou todo o assunto na perspectiva adequada.
“Com que então vocês, camaradas, ouviram dizer que nós, os
porcos, agora dormimos nas camas da casa? E por que não? Vocês
não supunham, por certo, que houvesse uma lei contra camas, não
é? A cama é meramente o lugar onde se dorme. Vendo bem, um
monte de palha no estábulo é uma cama. A lei era contra os lençóis,
que são uma invenção humana. Nós retiramos os lençóis das
camas da casa e dormimos entre cobertores. Confortáveis, lá isso
são! Porém não mais do que necessitamos, posso afirmar,
camaradas, com todo o trabalho intelectual que atualmente recai
sobre nós. Vocês não seriam capazes de negar-nos o repouso,
camaradas, seriam? Não desejariam nos ver tão cansados que não
pudéssemos cumprir nossa missão, não é verdade? Será que
alguém quer Jones de volta?”
Os animais tranquilizaram-no a esse respeito, e não se falou mais
no fato de os porcos dormirem nas camas da casa. E quando se
anunciou, alguns dias depois, que os porcos passariam a levantar-
se, de manhã, uma hora mais tarde que os outros bichos, ninguém
se queixou disso também.
Ao chegar o outono, os animais estavam cansados mas felizes.
Haviam tido um ano difícil, e após a venda de uma parte da safra de
feno e de trigo, os estoques para o inverno não eram lá muito
abundantes, mas o moinho de vento compensava tudo. Já estava
quase pela metade. Após a colheita houve um período de tempo
bom, e os bichos trabalharam mais do que nunca, satisfeitos com a
tarefa de andar para lá e para cá puxando blocos de pedras, desde
que com isso conseguissem fazer a parede subir mais alguns
centímetros. Sansão chegava a trabalhar de noite, uma hora ou
duas, por sua conta, à luz da lua. Nas horas de folga os animais
passeavam em volta do moinho inacabado, admirando a solidez e a
verticalidade de suas paredes, maravilhados com o fato de terem
sido capazes de construir algo tão imponente. Somente o velho
Benjamim se recusava a entusiasmar-se com o moinho de vento,
embora, como sempre, não pronunciasse nada além do enigmático
comentário de que os burros vivem muito tempo.
Novembro chegou, com fortes ventos de sudoeste. Foi preciso
interromper a construção, pois o tempo estava úmido demais para a
mistura de cimento. Finalmente, houve uma noite em que a
tormenta foi tão forte que os galpões da granja tremeram na base e
várias telhas do celeiro foram arrancadas. As galinhas acordaram
cacarejando aterrorizadas, pois haviam sonhado, todas ao mesmo
tempo, com o barulho de um tiro ao longe. Pela manhã, ao saírem
os animais de suas baias, deram com o mastro caído no chão e
viram o olmeiro do pomar desgalhado como um rabanete. Mal
haviam notado isso, quando soltaram um grito lancinante de
desespero. Visão terrível se apresentava aos seus olhos: o moinho
de vento estava em ruínas.
Correram todos para o local. Napoleão, que raras vezes
abandonava seu passo normal à frente de todos, correu também.
Sim, ali estava o moinho, o fruto de todas as suas lutas, caído ao
nível dos alicerces; e as pedras, que de modo tão laborioso haviam
levantado, espalhadas pelas redondezas. Impossível falar, de início;
ali ficaram, olhando com tristeza a desordem das pedras no chão.
Napoleão andava devagar de um lado para outro, em silêncio, de
vez em quando farejando o chão aqui e ali. Seu rabicho se esticava
e se sacudia energicamente, para lá e para cá, num sinal de febril
atividade mental. De repente estacou, como se tivesse chegado a
uma conclusão.
“Camaradas”, disse com toda a calma, “sabem quem é o
responsável por isto? Sabem quem foi o inimigo que, na calada da
noite, destruiu nosso moinho de vento? BOLA-DE-NEVE!”, rugiu violento,
com voz de trovão. “Bola-de-Neve foi o autor disto! Com rematada
maldade, pensando em destruir nossos planos e vingar-se de sua
ignominiosa expulsão, esse traidor insinuou-se até aqui, sob o
manto da escuridão, e destruiu nosso labor de quase um ano.
Camaradas, neste local e neste momento, pronuncio a sentença de
morte para Bola-de-Neve. Uma Herói Animal, Segunda Classe e
meio balde de maçãs ao animal que lhe fizer justiça. Um balde
inteiro a quem o capturar vivo!”
Os animais ficaram chocadíssimos ao saber que até Bola-de-
Neve fora capaz de uma coisa daquelas. Subiu ao céu um brado de
indignação, e cada um pôs-se a pensar num modo de pegar Bola-
de-Neve, se algum dia ele ousasse voltar. Quase ao mesmo tempo,
descobriram-se as pegadas de um porco a pequena distância da
colina. Embora marcassem apenas alguns metros, pareciam dirigir-
se a um buraco da sebe. Napoleão cheirou-as profundamente e
declarou serem de Bola-de-Neve. Na sua opinião, ele
provavelmente viera da Granja Foxwood.
“Não percamos tempo, camaradas!”, bradou Napoleão, depois do
exame das pegadas. “Temos muito trabalho pela frente. Hoje
mesmo, esta manhã, recomeçaremos a construção do moinho de
vento e trabalharemos por todo o inverno, com sol ou com chuva.
Mostraremos a esse traidor miserável que ele não pode desfazer
nosso trabalho assim tão fácil. Lembrem-se, camaradas, não deve
haver mudança em nossos planos: serão cumpridos à risca. Para a
frente, camaradas! Viva o moinho de vento! Viva a Granja dos
Bichos!”
*
7.
Aquele inverno foi horrível. Às tempestades seguiram-se o granizo
e as nevadas, depois o gelo, que só derreteu em meados de
fevereiro. Os bichos fizeram todo o possível na reconstrução do
moinho de vento, conscientes de que o mundo tinha os olhos sobre
eles e de que os invejosos seres humanos vibrariam de
contentamento se o moinho não fosse concluído a tempo.
Apesar de tudo, os humanos recusaram-se a crer que Bola-de-
Neve tivesse destruído o moinho de vento: afirmavam que as
paredes ruíram porque eram finas demais. Os animais sabiam não
ser essa a causa. Mesmo assim, deliberaram dessa vez construir as
paredes com noventa centímetros de largura, em vez de quarenta e
cinco, como inicialmente, o que exigia muito mais pedra. Durante
longo tempo, a pedreira esteve coberta de neve e foi impossível
fazer qualquer coisa. Algum progresso se conseguiu depois, no
tempo gelado e seco que se seguiu, mas foi um trabalho cruel, e os
animais já não o realizavam com a mesma esperança de antes.
Andavam sempre com frio, e em geral com fome. Só Sansão e
Quitéria nunca desanimavam. Garganta fazia excelentes discursos
sobre a alegria e a dignidade do trabalho, mas os animais
encontravam mais inspiração na força de Sansão e no seu
indefectível brado “Trabalharei mais ainda!”.
Em janeiro, a comida diminuiu. A ração de milho foi drasticamente
reduzida, e anunciou-se que uma ração extra de batata seria
entregue em seu lugar. Descobriu-se, então, que a maior parte da
colheita de batatas estava congelada, nas pilhas desprotegidas.
Moles e descoradas, poucas estavam em condição de ser
consumidas. Durante dias seguidos, os bichos não tiveram senão
palha e nabos para comer. O espectro da fome parecia surgir à sua
frente.
Era imprescindível ocultar esse fato ao resto do mundo.
Encorajados pelo colapso do moinho de vento, os humanos
andavam renovando mentiras sobre a Granja dos Bichos. Mais uma
vez, dizia-se que os bichos morriam de fome e doença, que
brigavam continuamente entre si e que haviam descambado para o
canibalismo e o infanticídio. Napoleão bem sabia dos maus
resultados que poderiam advir caso a verdadeira situação alimentar
da granja fosse conhecida, e resolveu utilizar o sr. Whymper para
divulgar uma impressão contrária. Até então, os animais haviam tido
muito pouco ou nenhum contato com Whymper, em suas visitas
semanais: agora, entretanto, alguns bichos selecionados,
principalmente ovelhas, foram instruídos para comentar,
casualmente, mas de forma bem audível, o fato de terem sido
aumentadas as rações. Em complemento, Napoleão deu ordens
para que as tulhas do depósito, que estavam quase vazias, fossem
recheadas de areia quase até a boca, depois completadas com
cereais e farinha grossa. A um pretexto qualquer, Whymper foi
conduzido através do depósito e pôde dar uma olhada nas tulhas.
Foi ludibriado e continuou a dizer lá fora que, absolutamente, não
havia falta de alimento na Granja dos Bichos.
Ainda assim, no fim de janeiro, ficou premente a necessidade de
conseguir mais cereais em algum lugar. Naqueles dias, Napoleão
raramente apareceu em público, passando o tempo todo no
casarão, guardado por um cão mal-encarado em cada porta.
Quando surgiu outra vez, foi de maneira cerimoniosa, com uma
escolta de seis cachorros que o cercavam de perto e rosnavam se
alguém se achegasse demais. Muitas vezes não aparecia, nem
sequer aos domingos de manhã, enviando suas ordens por
intermédio de outro porco, de preferência Garganta.
Certa manhã de domingo, Garganta anunciou que as galinhas,
que mal haviam começado a pôr, deveriam entregar-lhe os ovos,
pois Napoleão assinara, por intermédio de Whymper, um contrato de
fornecimento de quatrocentos ovos por semana. O rendimento
pagaria, em cereais e farinha, o bastante para manter a granja até
que chegasse o verão e as condições do tempo melhorassem.
Ao ouvir isso, as galinhas responderam com um grande cacarejo.
Já haviam sido alertadas sobre essa possibilidade, mas não
pensavam que viesse a acontecer. Acabavam de preparar as
ninhadas de ovos para a chocagem da primavera e protestaram
dizendo que tomar-lhes os ovos, agora, era um crime. Pela primeira
vez desde a expulsão de Jones aconteceu algo parecido com uma
rebelião. Lideradas por três jovens frangas minorcas, as galinhas
realizaram uma ação direta visando a contrariar os desejos de
Napoleão. O método usado foi voar para os caibros do telhado e dali
pôr os ovos, que vinham despedaçar-se no chão. Napoleão agiu
rápida e implacavelmente. Cortou a ração das galinhas e decretou
que o bicho que fosse apanhado dando a elas um grão sequer de
alimento seria condenado à morte. Os cachorros fiscalizavam a
execução da ordem. As galinhas resistiram por cinco dias, depois
capitularam e voltaram para os ninhos. Nove haviam morrido. Seus
corpos foram enterrados no pomar, e segundo se disse a causa da
morte fora coccidiose. Whymper nada ouviu sobre esse caso, e os
ovos foram entregues com pontualidade, vindo um caminhão
semanalmente buscá-los.
Entrementes, não se sabia mais de Bola-de-Neve. Havia rumores
de que estaria homiziado numa das granjas vizinhas, Foxwood ou
Pinchfield. Nessa época, Napoleão andava em termos ligeiramente
melhores com os outros proprietários. É que havia no pátio várias
pilhas de madeira, feitas dez anos antes, por ocasião da derrubada
de um bosque de faias. Como a madeira já estava bem seca,
Whymper aconselhara Napoleão a vendê-la, e tanto Pilkington como
Frederick desejavam comprá-la. Napoleão hesitava entre os dois,
sem se decidir. Notou-se que, toda vez que parecia ter chegado a
um acordo com Frederick, surgia o boato de que Bola-de-Neve
estava escondido em Foxwood, ao passo que, quando se inclinava
para Pilkington, Bola-de-Neve deveria andar em Pinchfield.
Subitamente, no início da primavera, descobriu-se um fato
alarmante. Bola-de-Neve estava frequentando a granja à noite, em
segredo! Os bichos ficaram tão preocupados que mal conseguiam
dormir nos estábulos. Todas as noites, dizia-se, ele se esgueirava
nas sombras e perpetrava um sem-número de maldades. Roubava
milho, entornava baldes de leite, quebrava ovos, esmagava os
viveiros de sementes e roía o córtex das árvores frutíferas. Sempre
que algo errado aparecia, o culpado era Bola-de-Neve. Uma janela
quebrada, um dreno entupido, e alguém com certeza diria que Bola-
de-Neve viera à noite e fizera aquilo; quando se perdeu a chave do
depósito, toda a granja se convenceu de que Bola-de-Neve a jogara
no fundo do poço. Interessante foi continuarem a acreditar, mesmo
depois que a chave perdida foi encontrada sob um saco de farinha.
As vacas declaravam unânimes que Bola-de-Neve entrara em suas
baias e as havia ordenhado durante o sono. Os ratos, por
incomodarem muito durante o inverno, foram tachados de aliados de
Bola-de-Neve.
Napoleão decretou uma ampla investigação sobre as atividades
de Bola-de-Neve. Com seus cachorros em atitude de alerta, saiu e
fez uma cuidadosa inspeção nos galpões da fazenda, com os outros
animais a segui-lo a uma distância respeitosa. A pequenos
intervalos, Napoleão parava e farejava o chão em busca de Bola-de-
Neve, cuja presença, segundo disse, podia perceber pelo faro.
Cheirou cada canto, no celeiro, no estábulo, nos galinheiros, na
horta, encontrando vestígios de Bola-de-Neve em quase toda parte.
Invariavelmente encostava o focinho no chão, puxava algumas
cheiradas profundas e exclamava numa voz terrível: “Bola-de-Neve!
Andou por aqui! Sinto perfeitamente o cheiro!”. E, à palavra “Bola-
de-Neve”, a cachorrada soltava rosnados sanguinários, pondo os
dentes à mostra.
Os animais andavam aterrorizados. Parecia-lhes que Bola-de-
Neve era uma espécie de entidade invisível, impregnando o ar à sua
volta e ameaçando-os com toda espécie de perigos. Certa tarde,
Garganta os reuniu e, com expressão alarmada, disse ter várias
notícias para dar.
“Camaradas”, gritou, cheio de tiques nervosos, “descobrimos uma
coisa pavorosa. Bola-de-Neve vendeu-se a Frederick, da Granja
Pinchfield, que neste mesmo instante está planejando atacar-nos e
tomar nossa granja! Bola-de-Neve será o guia, quando o ataque
começar. Mas ainda há coisa pior. Pensávamos que a rebelião de
Bola-de-Neve fosse causada por sua vaidade e ambição. Pois
estávamos enganados, camaradas. Sabeis qual foi a verdadeira
razão? Bola-de-Neve era aliado de Jones desde o início! Foi, o
tempo todo, agente de Jones. Tudo isso está comprovado em
documentos que deixou e só agora descobrimos. Para mim isso
explica muita coisa, camaradas. Pois não vimos, com nossos
próprios olhos, a maneira como ele tentou — felizmente sem
conseguir — fazer que fôssemos derrotados e destruídos na Batalha
do Estábulo?”
Os bichos ouviam, estupefatos. Isto era um crime muitíssimo
maior do que ter destruído o moinho de vento. Mas alguns minutos
se passaram até eles compreenderem a completa significação de
tudo aquilo. Todos se lembravam, ou julgavam lembrar-se, de ter
visto Bola-de-Neve liderando o ataque na Batalha do Estábulo, de
como ele os encorajava e incitava a cada instante, não titubeando
um só segundo quando as balas de Jones rasgaram-lhe o dorso. De
início foi um pouco difícil entender como isso se encaixava em sua
aliança com Jones. Até Sansão, que raras vezes fazia perguntas,
ficou confuso. Deitou-se, enfiou as patas dianteiras debaixo do
corpanzil, fechou os olhos e, com grande esforço, tentou reunir os
pensamentos.
“Não acredito”, disse. “Bola-de-Neve lutou bravamente na Batalha
do Estábulo. Isso eu vi com meus próprios olhos. Pois até não lhe
demos uma Herói Animal, Primeira Classe logo depois?”
“Esse foi o nosso erro, camarada, já que agora sabemos — está
tudo lá, nos papéis que encontramos — que, na realidade, ele
tentava nos conduzir à derrota.”
“Mas ele foi ferido”, insistiu Sansão. “Todos nós o vimos
ensanguentado.”
“Era parte do trato”, gritou Garganta. “O tiro de Jones pegou
apenas de raspão. Eu poderia lhes mostrar isso, escrito com a
própria letra dele, se vocês soubessem ler. A combinação era Bola-
de-Neve dar o sinal de retirada no momento crítico e abandonar o
terreno ao inimigo. E ele quase conseguiu isso — posso dizer até
que teria conseguido, não fosse o nosso heroico Líder, o Camarada
Napoleão. Vocês se lembram de que, bem no momento em que
Jones e seus homens atingiram o pátio, Bola-de-Neve, de repente,
virou-se e fugiu, seguido de muitos animais? E não foi nesse exato
momento, quando já nos dominava o pânico e tudo parecia perdido,
que o Camarada Napoleão surgiu bradando ‘Morte à Humanidade!’
e cravou os dentes na perna de Jones? Por certo vocês se lembram
disso, pois não, camaradas?”, exclamou Garganta, dando pulinhos
de um lado para outro.
Bem, agora que Garganta descrevera a cena de maneira tão
vívida, parecia aos animais que de fato se lembravam. Pelo menos
lembravam que, no momento crítico da batalha, Bola-de-Neve dera
meia-volta para fugir. Sansão, porém, ainda permanecia contrafeito.
“Não acredito que Bola-de-Neve fosse traidor desde o começo”,
disse por fim. “O que fez depois é outra coisa. Eu ainda acho que na
Batalha do Estábulo ele foi um bom camarada.”
“Nosso Líder, o Camarada Napoleão”, disse Garganta, falando
devagar e com firmeza, “declarou categoricamente
(categoricamente, camaradas!) que Bola-de-Neve era agente de
Jones desde o início… sim, desde o instante mesmo em que
imaginamos a Rebelião.”
“Ah, aí é diferente!”, respondeu Sansão. “Se o Camarada
Napoleão diz, deve ter razão.”
“Esse é o verdadeiro espírito, camarada!”, exclamou Garganta.
Porém, todos notaram a olhadela feia que deu para Sansão, com
seus olhos matreiros.
Depois virou-se para ir embora, mas se deteve e acrescentou de
maneira contundente:
“Alerto a todos os animais desta fazenda para que mantenham os
olhos bem abertos. Temos motivos para pensar que alguns agentes
secretos de Bola-de-Neve estão ocultos entre nós neste momento!”
Quatro dias depois, à tardinha, Napoleão mandou que os bichos
se reunissem no pátio. Quando todos haviam comparecido,
Napoleão emergiu do casarão, ostentando ambas as suas medalhas
(pois recentemente conferira a si próprio a Herói Animal, Primeira
Classe e a Herói Animal, Segunda Classe), com os nove cachorros
fazendo demonstrações à sua volta e soltando rosnados que davam
calafrios na espinha dos animais. Estes se encolheram silenciosos
em seus lugares, parecendo pressentir que algo horrível estava para
acontecer.
Napoleão postou-se e dirigiu um olhar severo à assistência;
depois deu um guincho estridente. Imediatamente os cachorros
avançaram, pegando quatro porcos pelas orelhas e arrastando-os, a
guinchar de dor e terror, até os pés de Napoleão. As orelhas dos
porcos sangraram, e o gosto do sangue parecia enlouquecer os
cachorros. Para surpresa de todos, três deles lançaram-se sobre
Sansão. Ele reagiu com um pataço, que pegou um dos cachorros
ainda no ar, e apertou-o no chão. O cachorro ganiu pedindo
piedade, e os outros dois fugiram com o rabo entre as pernas.
Sansão olhou para Napoleão para saber se devia liquidar o cachorro
ou deixá-lo ir. Napoleão pareceu mudar de expressão e, ríspido,
ordenou a Sansão que o soltasse, e este ergueu a pata, deixando ir
o cachorro ferido, a uivar.
O tumulto agora havia amainado. Os quatro porcos esperavam
trêmulos, com a culpa desenhada em cada linha do semblante.
Então Napoleão induziu-os a confessar seus crimes. Eram os
mesmos que haviam protestado quando Napoleão abolira as
reuniões dominicais. Sem mais demora, confessaram ter realizado
contatos secretos com Bola-de-Neve desde o dia de sua expulsão e
colaborado com ele na destruição do moinho de vento; confessaram
ainda que também haviam se comprometido a entregar a Granja
dos Bichos a Frederick. Acrescentaram que Bola-de-Neve admitira,
na presença deles, ter sido, durante muitos anos, agente secreto de
Jones. Ao fim da confissão, os cachorros estraçalharam a garganta
dos quatro, e Napoleão, com uma voz ameaçadora, perguntou se
algum outro animal tinha qualquer coisa a confessar.
As três galinhas que haviam liderado a tentativa de reação sobre
os ovos aproximaram-se e declararam que Bola-de-Neve lhes
aparecera em sonho, instigando-as a desobedecer às ordens de
Napoleão. Também foram degoladas. Aí veio um ganso e confessou
ter escondido seis espigas de milho durante a colheita do ano
anterior, comendo-as depois, à noite. Uma ovelha confessou ter
urinado no açude — por insistência, disse, de Bola-de-Neve —, e
duas outras confessaram ter assassinado um velho bode, seguidor
especialmente devotado de Napoleão, perseguindo-o em volta de
uma fogueira quando ele, coitado, estava com um ataque de asma.
Foram mortas ali mesmo. E assim prosseguiu a sessão de
confissões e execuções, até haver um montão de cadáveres aos
pés de Napoleão e um pesado cheiro de sangue no ar, coisa que
não sucedia desde a expulsão de Jones.
Quando tudo acabou, os bichos sobreviventes, com exceção dos
porcos e dos cachorros, retiraram-se furtivos, trêmulos, angustiados.
Não sabiam o que era mais chocante, se a traição dos animais que
se haviam acumpliciado com Bola-de-Neve ou a cruel repressão ali
presenciada. Nos velhos tempos, eram frequentes as cenas de
sangue, igualmente horripilantes, entretanto agora lhes pareciam
ainda piores, uma vez que ocorriam entre eles mesmos. Desde que
Jones deixara a fazenda até aquele dia, nenhum animal matara
outro animal. Nem sequer um rato fora morto. Haviam percorrido o
caminho até a colina do moinho inacabado e de comum acordo
deitaram-se, procurando aquecer uns aos outros — Quitéria,
Maricota, Benjamim, as vacas, as ovelhas e todo o bando de gansos
e galinhas —, todos eles, no fim, exceto a gata, que desaparecera
de repente ao chegar a ordem de Napoleão para a reunião. Durante
algum tempo ninguém falou. Só Sansão permanecia de pé. Andava,
impaciente, de um lado para o outro, batendo com a longa cauda
negra nos flancos e proferindo, de vez em quando, um gemido de
estupefação. Finalmente disse:
“Não entendo. Nunca pensei que coisas assim pudessem
acontecer em nossa granja. Deve ser o resultado de alguma falha
nossa. A solução que vejo é trabalhar mais ainda. Daqui por diante,
vou levantar uma hora mais cedo.”
E saiu no seu trote pesadão, rumo à pedreira. Lá chegando,
juntou dois grandes montes de pedra e arrastou-os até o moinho de
vento, antes de recolher-se para dormir.
Os bichos se amontoaram em volta de Quitéria, em silêncio. O
outeiro onde estavam dava-lhes uma ampla vista da região. A maior
parte da Granja dos Bichos abria-se diante deles — a grande
pastagem que se estendia até a estrada, o campo de feno, o
bosque, o açude, os campos arados onde estava o trigo novo, ainda
fino e verde, e os telhados vermelhos do casario da granja, de onde
saía fumaça pelas chaminés. Era uma tarde clara de primavera. A
grama e a sebe em brotação douravam-se aos raios horizontais do
sol. Jamais a granja lhes parecera — e com uma espécie de
surpresa lembraram que tudo era deles, cada centímetro era de sua
propriedade — um lugar tão agradável. Olhando pela encosta da
colina, Quitéria ficou com os olhos cheios d’água. Se pudesse
exprimir seus pensamentos, diria que aquilo não era bem o que
pretendiam ao se lançarem, anos atrás, ao trabalho de depor o
gênero humano. Aquelas cenas de terror e sangue não eram as que
previra naquela noite em que o velho Major, pela primeira vez, os
incitara à rebelião. Se ela própria pudesse imaginar o futuro, veria
uma sociedade de animais livres da fome e do chicote, todos iguais,
cada qual trabalhando de acordo com sua capacidade, os mais
fortes protegendo os mais fracos, como ela protegera aquela
ninhada de patinhos na noite do discurso do Major. Em vez disso —
não podia compreender por quê — havia chegado uma época em
que ninguém ousava dizer o que pensava, em que cachorros
rosnadores e malignos perambulavam por toda parte e todos eram
obrigados a ver camaradas feitos em pedaços após confessar os
crimes mais chocantes. Não tinha em mente ideias de rebelião ou
desobediência. Sabia que, por piores que fossem, as coisas
estavam muito melhores do que nos tempos de Jones e que antes
de mais nada era preciso evitar o retorno dos humanos. O que quer
que acontecesse, ela permaneceria fiel, trabalharia bastante,
cumpriria as ordens recebidas e aceitaria a liderança de Napoleão.
Mesmo assim, não fora por aquilo que ela e todos os animais
haviam esperado e trabalhado. Não fora para aquilo que haviam
construído o moinho de vento e enfrentado as balas da espingarda
de Jones. Tais eram seus pensamentos, embora ela não tivesse
palavras para expressá-los.
Por fim, sentindo que assim expressaria as palavras que não
conseguia encontrar, começou a cantar “Bichos da Inglaterra”. Os
outros animais, sentados à sua volta, foram aderindo e cantaram o
hino três vezes — bem na melodia, mas lenta e tristemente, como
nunca haviam cantado antes.
Mal haviam terminado de cantar a terceira vez, apareceu
Garganta, seguido de dois cachorros, com ar de quem tem coisa
muito importante a dizer. Anunciou que, por decreto especial do
Camarada Napoleão, a canção “Bichos da Inglaterra” fora abolida.
Daquele momento em diante era proibido cantá-la.
Os animais foram colhidos de surpresa.
“Por quê?”, perguntou Maricota.
“Não há necessidade, camaradas”, respondeu Garganta,
inflexível. “‘Bichos da Inglaterra’ era a canção da Rebelião. Mas
agora completou-se a Revolução. A execução dos traidores, nesta
tarde, foi o ato final. Em ‘Bichos da Inglaterra’ expressávamos nosso
anseio por uma sociedade melhor, no porvir. Ora, essa sociedade já
está criada. Evidentemente o hino não tem mais valor nenhum.”
Mesmo amedrontados como estavam, alguns animais poderiam
ter protestado, se nesse momento as ovelhas não enveredassem
pelo “Quatro pernas bom, duas pernas ruim”, que durou vários
minutos, pondo fim à discussão.
E assim, não mais se ouviu “Bichos da Inglaterra”. Em seu lugar,
Mínimo, o poeta, compusera outra canção que começava dizendo:
Granja dos Bichos, Revolução dos Bichos,
Nenhum de nós jamais te fará mal!
E isso passou a ser cantado todos os domingos após o
hasteamento da bandeira. Mas, de certa forma, nem a letra nem a
música jamais pareceram, para os animais, igualar-se às de “Bichos
da Inglaterra”.
*
8.
Poucos dias mais tarde, quando já amainara o terror causado
pelas execuções, alguns animais lembraram — ou julgaram lembrar
— que o Sexto Mandamento rezava: “Nenhum animal matará outro
animal”. Embora ninguém o mencionasse ao alcance dos ouvidos
dos porcos ou dos cachorros, parecia-lhes que a matança ocorrida
não se encaixava muito bem nisso. Quitéria pediu a Benjamim que
lesse o Sexto Mandamento, e quando Benjamim, como sempre,
respondeu que se recusava a tomar parte em tais assuntos, ela
procurou Maricota, que leu para ela o Sexto Mandamento. Dizia:
“Nenhum animal matará outro animal, sem motivo”. Sabe-se lá por
quê, as duas últimas palavras haviam escapado à memória dos
bichos. Mas eles viam agora que o Sexto Mandamento não fora
violado; sim, pois evidentemente havia boas razões para matar os
traidores que haviam se aliado a Bola-de-Neve.
Durante aquele ano, os bichos trabalharam ainda mais que no
ano anterior. A reconstrução do moinho de vento, as paredes com o
dobro da espessura, a conclusão no prazo marcado, juntamente
com o trabalho normal da granja, era tudo tremendamente
desgastante. Houve momentos em que lhes pareceu que
trabalhavam mais do que no tempo de Jones, sem se alimentar
melhor. Nos domingos de manhã, Garganta, segurando uma
comprida folha de papel, lia para eles relações de estatísticas
comprobatórias de que a produção de todas as classes de gêneros
alimentícios aumentara duzentos, trezentos ou quinhentos por
cento, conforme o caso. Os bichos não viam razão para descrer,
especialmente porque já não conseguiam lembrar-se com clareza
das exatas condições de antes da Rebelião. Mesmo assim, dias
havia em que preferiam ter menos estatísticas e mais comida.
Todas as ordens, agora, eram transmitidas através de Garganta
ou de outro porco. Napoleão não era visto em público mais do que
uma vez a cada quinze dias. E quando aparecia, era acompanhado
não só pela sua comitiva de cães, mas também por um garnisé
preto que marchava à sua frente, atuando como arauto, soltando um
cocoricó antes de cada fala de Napoleão. Mesmo na casa-grande,
diziam, Napoleão habitava um apartamento separado dos demais.
Fazia as refeições sozinho, com dois cachorros para servi-lo, e
comia no serviço de jantar de porcelana da cristaleira da sala.
Anunciou-se também que a espingarda seria disparada,
anualmente, na data do aniversário de Napoleão, assim como nos
outros dois aniversários.
Agora já não mencionavam o líder como “Napoleão”
simplesmente. Referiam-se a ele de maneira formal, como “nosso
Líder, o Camarada Napoleão”, e os porcos gostavam de inventar
para ele títulos tais como “Pai de Todos os Bichos”, “Terror da
Humanidade”, “Protetor dos Apriscos”, “Amigo dos Pintainhos” e
assim por diante. Garganta, em seus discursos, com lágrimas
rolando pelo focinho, falava da sabedoria de Napoleão, da bondade
de seu coração, do profundo amor que devotava aos animais de
toda parte, mesmo — e especialmente — aos infelizes animais que
ainda viviam na ignorância e na escravidão em outras granjas.
Tornara-se comum dar a Napoleão crédito por todos os êxitos e
todos os golpes de sorte. Ouvia-se frequentemente uma galinha
comentar com outra: “Sob a orientação do nosso Líder, o Camarada
Napoleão, botei cinco ovos em seis dias”; ou duas vacas, bebendo
juntas no açude, exclamarem: “Graças à liderança do Camarada
Napoleão, que gosto bom tem esta água!”. O sentimento geral da
granja era bem expresso num poema intitulado “O Camarada
Napoleão”, composto por Mínimo, que dizia assim:
Amigo dos orfãozinhos!
Fonte da felicidade!
Senhor do balde de lavagem! Oh, minh’alma arde
Em fogo quando te vejo
Assim, calmo e soberano,
Como o sol na imensidão,
Camarada Napoleão!
Tu és aquele que tudo dá, tudo
Quanto as pobres criaturas amam.
Duas barrigas cheias por dia, palha limpa onde rolar;
Os bichos todos, grandes, pequenos,
Dormem tranquilos, enquanto
Zelas tu por nós na solidão,
Camarada Napoleão!
Tivesse eu um leitão e,
Antes mesmo que atingisse
O tamanho de um barril ou garrafão,
Já teria aprendido a ser eternamente
Teu fiel e leal seguidor. E o primeiro
Guincho que daria meu leitão seria
“Camarada Napoleão!”.
Napoleão aprovou esse poema e mandou escrevê-lo no grande
celeiro, na parede oposta àquela onde estavam os Sete
Mandamentos. Sobre ele foi colocado um retrato de Napoleão de
perfil, executado por Garganta.
Enquanto isso, por intermédio de Whymper, Napoleão entrara em
negociações complicadíssimas com Frederick e Pilkington. As pilhas
de madeira ainda não estavam vendidas. Dentre os dois, Frederick
era o mais ansioso por colocar-lhes a mão, mas não oferecia um
bom preço. Ao mesmo tempo, circulavam novos boatos de que
Frederick e seus homens estavam planejando atacar a Granja dos
Bichos e destruir o moinho de vento, cuja construção lhe causara
indizível ciúme. Sabia-se que Bola-de-Neve ainda estava oculto na
Granja Pinchfield. Em meio ao verão, correu entre os animais a
notícia alarmante de que três galinhas se haviam apresentado
confessando que, instigadas por Bola-de-Neve, haviam conspirado
para assassinar Napoleão. Foram executadas imediatamente, e
novas medidas se tomaram para a segurança do líder. Quatro
cachorros passaram a montar guarda junto a sua cama, durante a
noite, um em cada canto, e um jovem porco de nome Rosito
recebeu a missão de provar a comida, para evitar que ele fosse
envenenado.
Mais ou menos por essa época, foi anunciado que Napoleão
acertara vender as pilhas de madeira ao sr. Pilkington; ia assinar
também um acordo para a troca regular de certos produtos entre a
Granja dos Bichos e a Granja Foxwood. As relações entre Napoleão
e Pilkington, embora mantidas apenas por intermédio de Whymper,
eram agora quase amistosas. Os bichos não confiavam em
Pilkington, ser humano que era, mas preferiam-no a Frederick, a
quem temiam e odiavam. Com o passar do verão e estando o
moinho de vento perto de ser concluído, os boatos de um iminente e
traiçoeiro ataque tornavam-se cada vez mais fortes. Frederick, dizia-
se, tencionava trazer contra eles vinte homens armados de
espingardas e já subornara os magistrados e a polícia, de modo que
não surgisse nenhum problema caso conseguissem colocar as
mãos na escritura de propriedade da Granja dos Bichos. Além disso,
filtravam-se de Pinchfield terríveis histórias a respeito das
barbaridades a que Frederick submetia seus animais. Havia
chicoteado um cavalo velho até liquidá-lo, matava as vacas de fome,
assassinara um cachorro jogando-o na fornalha, divertia-se de noite
assistindo a rinhas de galos em cujas esporas colocava estiletes de
lâminas de barbear. O sangue dos animais fervia de ódio quando
ouviam contar o que se fazia contra seus camaradas e, às vezes,
alguns pediam que lhes fosse permitido sair para atacar Pinchfield,
expulsar os humanos e libertar os bichos. Porém Garganta
aconselhava-os a evitar essas atitudes violentas e confiar na
estratégia do Camarada Napoleão.
Apesar de tudo, crescia o ódio a Frederick. Certo domingo de
manhã, Napoleão apareceu no celeiro e declarou que jamais, em
tempo algum, admitiria vender as pilhas de madeira a Frederick;
considerava abaixo de sua dignidade, disse, fazer negócios com
patifes dessa laia. Os pombos, que continuavam a espalhar a
mensagem da Rebelião, foram proibidos de pôr os pés em qualquer
ponto da Granja Foxwood e receberam ordem de modificar seu
slogan de “Morte à Humanidade” para “Morte a Frederick”.
Entrementes, no fim do verão, revelou-se outra das maquinações de
Bola-de-Neve. A lavoura de trigo estava cheia de joio, e descobriu-
se que ele havia misturado sementes de joio às de trigo. Um ganso
que tomara parte no feito confessou sua culpa a Garganta e
suicidou-se comendo frutinhas de erva-moura. Os animais ficaram
sabendo também que Bola-de-Neve jamais havia recebido — como
pensavam muitos até então — a comenda Herói Animal, Primeira
Classe. Era apenas uma lenda, criada algum tempo depois da
Batalha do Estábulo por ele próprio. Muito ao contrário, em vez de
condecorado, ele fora repreendido por demonstrar covardia durante
a batalha. Novamente, alguns bichos ouviram isso com
perplexidade, mas Garganta conseguiu convencê-los de que havia
um lapso em suas memórias.
No outono, após um tremendo e exaustivo esforço — pois a
colheita se fizera ao mesmo tempo —, o moinho de vento estava
pronto. Restava ainda instalar a maquinaria, e Whymper andava
tratando das compras, mas a estrutura já estava pronta. Contra
todas as dificuldades, a despeito da inexperiência, dos implementos
primitivos, da falta de sorte e da perfídia de Bola-de-Neve, a obra
estava concluída no exato dia marcado! Cansados mas orgulhosos,
os bichos deram voltas e mais voltas em torno de sua obra-prima,
que lhes parecia ainda mais linda que da primeira vez. Além disso,
as paredes tinham agora o dobro da espessura. Exceto explosivos,
nada poderia colocá-las abaixo. E ao pensarem em como haviam
trabalhado, em quanto abatimento tinham superado, e na enorme
diferença que suas vidas sofreriam quando as pás estivessem
girando e os dínamos funcionando — ao pensarem em tudo isso, o
cansaço os abandonava e eles saltavam ao redor do moinho de
vento, dando gritos de alegria. Napoleão em pessoa, acompanhado
dos seus cachorros e do seu garnisé, veio inspecionar o trabalho
concluído; congratulou-se com os animais pelo feito e anunciou que
o moinho se chamaria Moinho Napoleão.
Dois dias mais tarde, os animais foram convidados para uma
reunião especial no celeiro. E ficaram abobados de surpresa,
quando Napoleão comunicou ter vendido a madeira a Frederick. No
dia seguinte, os caminhões de Frederick chegariam para o
carregamento. Durante todo o período de aparente amizade com
Pilkington, Napoleão na realidade negociara um acordo secreto com
Frederick.
Todas as relações com Foxwood foram cortadas, e Pilkington
recebeu mensagens insultuosas. Os pombos tiveram ordens de não
pousar mais na Granja Pinchfield e de mudar o slogan de “Morte a
Frederick” para “Morte a Pilkington”. Ao mesmo tempo, Napoleão
assegurou a todos que as histórias sobre o iminente ataque à
Granja dos Bichos eram inteiramente falsas e que os boatos a
respeito da crueldade de Frederick para com os animais eram muito
exagerados. Todos esses boatos eram, provavelmente, coisa de
Bola-de-Neve e seus agentes. Parecia, agora, que Bola-de-Neve na
verdade não estava escondido na Granja Pinchfield; aliás, nunca
estivera lá em toda a sua vida. Vivia — e cercado de muito luxo,
sabiam agora — na Granja Foxwood, e era, além do mais,
sustentado por Pilkington há muitos anos.
Os porcos estavam em êxtase com a sagacidade de Napoleão.
Fingindo ser amigo de Pilkington, obrigara Frederick a aumentar a
oferta em doze libras. Porém, a qualidade superior da mente de
Napoleão, dizia Garganta, estava no fato de não confiar em
ninguém, nem mesmo em Frederick. Este quisera pagar a madeira
com uma coisa chamada cheque, que era, ao que diziam, um
pedaço de papel com uma promessa de pagamento escrita. Mas
Napoleão era vivo demais para cair nessa. Exigiu o pagamento em
notas autênticas de cinco libras, que deveriam ser entregues antes
da retirada da madeira. Frederick já pagara; e a soma era suficiente
para comprar a maquinaria do moinho de vento.
A madeira já fora retirada com grande rapidez. Quando todo o
carregamento estava bem longe, houve outra reunião especial no
celeiro, para os bichos examinarem as notas de Frederick. Sorrindo
com ar beatífico e usando suas condecorações, Napoleão
recostara-se numa cama de palha, com o dinheiro a seu lado,
cuidadosamente empilhado numa travessa da cozinha da casa-
grande. Os animais passavam devagar, em fila, e cada um olhava
pelo tempo que quisesse. Sansão espichou o focinho para cheirar
as notas, e as delicadas coisinhas mexeram-se e farfalharam com
sua respiração.
Três dias mais tarde, houve um deus-nos-acuda. Whymper,
branco como cera, chegou afobado em sua bicicleta, deixou-a caída
no pátio e correu para dentro da casa. Daí a momentos ouviu-se um
pavoroso rugido de raiva vindo do apartamento de Napoleão. A
notícia do que sucedera espalhou-se pela granja com a rapidez de
um raio. As notas eram falsas! Frederick levara a madeira de graça!
Napoleão imediatamente chamou os animais e com um vozeirão
de arrepiar proclamou a sentença de morte contra Frederick. Ao ser
capturado, disse, Frederick seria fervido vivo. Ao mesmo tempo
avisou que, depois daquela insídia, deveriam esperar pelo pior.
Frederick e seus homens poderiam desencadear a qualquer
momento o tão falado ataque. Colocaram-se sentinelas em todos os
caminhos que levavam à granja. Além disso, quatro pombos foram a
Foxwood com um recado conciliador que levava a esperança de
restabelecimento de boas relações com Pilkington.
Logo na manhã seguinte, sobreveio o ataque. Os animais
estavam fazendo a refeição matinal quando os sentinelas chegaram
correndo com a notícia de que Frederick e seus seguidores já
haviam atravessado a porteira das cinco barras. Corajosos, os
bichos saíram ao seu encontro, mas dessa vez não obteriam uma
vitória fácil como a da Batalha do Estábulo. Eram quinze homens,
com meia dúzia de espingardas, que abriram fogo tão logo
chegaram a cinquenta metros de distância. Os animais não
puderam fazer frente à saraivada de balas, e, a despeito dos
esforços de Napoleão e Sansão para fazê-los voltar à luta,
retrocederam. Muitos já estavam feridos. Refugiaram-se no casario
da granja e ficaram olhando prudentemente pelos buracos. Toda a
pastagem, inclusive o moinho de vento, caíra nas mãos do inimigo.
Até Napoleão estava perplexo. Caminhava de um lado para outro,
sem proferir palavra, com o rabo rígido e contraído. Olhares
ansiosos eram lançados na direção da Granja Foxwood. Se
Pilkington e seus homens os ajudassem, ainda poderiam ganhar a
parada. Porém, nesse momento, voltaram os quatro pombos
enviados no dia anterior, um deles trazendo um pedaço de papel da
parte de Pilkington, com a mensagem “Benfeito” escrita a lápis.
Enquanto isso, Frederick e seus homens haviam se detido junto
ao moinho de vento. Os animais continuavam observando e viram
surgir um pé de cabra e um malho. Correu um murmúrio de aflição.
Iam botar abaixo o moinho de vento.
“Impossível”, exclamou Napoleão. “As paredes são grossas
demais para isso. Nem em uma semana conseguirão. Coragem,
camaradas!”
Benjamim, porém, observava atento a atividade dos homens. Bem
devagar, com ar quase de quem se diverte, meneou o focinho.
“Era o que eu achava”, disse. “Vocês não veem o que eles estão
fazendo? Logo vão colocar explosivos naquele buraco.”
Aterrorizados, os bichos esperavam. Era impossível abandonar a
proteção das casas. Daí a pouco os homens saíram correndo em
todas as direções. Ouviu-se, logo após, um estrondo ensurdecedor.
Os pombos revolutearam no ar, e os animais todos, exceto
Napoleão, jogaram-se no chão. Quando se levantaram outra vez,
havia uma gigantesca nuvem preta no lugar do moinho. Aos poucos,
a brisa a dissolveu. O moinho de vento havia desaparecido!
Aquilo devolveu a coragem aos animais. O medo e o desânimo
que sentiam foram engolfados pelo tremendo ódio que os dominou
ante aquela vilania inominável. Um brado de vingança subiu aos
ares; sem esperar ordens, reuniram-se e, como um só corpo,
lançaram-se contra o inimigo. Desta vez não fugiram às balas cruéis
que caíam sobre eles em saraivadas. Foi uma batalha horrível,
selvagem. Os homens atiraram várias vezes, e quando os animais
os alcançaram foi aquela pancadaria em todas as direções, com
porretes e tacões de bota. Morreram uma vaca, três ovelhas e dois
gansos, e quase todo mundo ficou ferido. Até Napoleão, que dirigia
as operações da retaguarda, teve a ponta do rabicho arranhada por
um balim. Mas aos humanos não tocou melhor sorte. Três tiveram a
cabeça quebrada pelos golpes de Sansão; outro, a barriga furada
pelo chifre de uma vaca; outro viu suas calças quase arrancadas por
Lulu e Branca. E quando os nove cachorros da guarda pessoal de
Napoleão, que ele mandara fazer um desvio por trás da sebe,
apareceram de repente no flanco dos humanos, latindo furiosos, o
pânico os dominou. Perceberam o perigo de serem cercados.
Frederick gritou a seus homens que se retirassem enquanto havia
passagem, e logo o inimigo fugia acovardado para salvar a vida. Os
animais perseguiram-nos até o fundo do campo, desferindo ainda
uns últimos golpes ao atravessarem a sebe de pilriteiro.
Tinham vencido, mas estavam feridos e sangravam. Aos poucos,
começaram a voltar para a granja. A visão dos camaradas mortos,
estirados sobre a relva, comoveu alguns até as lágrimas. E por
instantes detiveram-se num triste silêncio no local onde existira o
moinho. Sim, ele sumira; fora-se quase todo o seu trabalho. Até os
alicerces estavam parcialmente destruídos. E desta vez, para
reconstruí-lo, não bastaria erguer de novo pedras caídas ali mesmo:
estas também haviam desaparecido. A força da explosão as
arremessara a centenas de metros. Era como se o moinho nunca
tivesse existido.
Ao se aproximarem do sítio, Garganta, que estivera
inexplicavelmente ausente da luta, veio ao encontro deles,
sacudindo o rabicho e guinchando de satisfação. E os animais
ouviram, vindo da direção da granja, o troar solene da espingarda.
“A troco de que está atirando aquela arma?”, perguntou Sansão.
“Celebrando a nossa vitória!”, exclamou Garganta.
“Vitória? Que vitória?”, gritou Sansão. Tinha os joelhos sangrando,
perdera uma ferradura, rachara o casco, e uma dúzia de
chumbinhos havia se alojado em sua pata traseira.
“Você pergunta que vitória, camarada? Mas então não
expulsamos o inimigo do nosso solo — do solo sagrado da Granja
dos Bichos?”
“Mas eles destruíram o moinho de vento. Nosso trabalho de dois
anos!”
“Que importa? Construiremos outro. Construiremos meia dúzia de
moinhos de vento, se quisermos. Vocês não perceberam,
camaradas, que coisa formidável realizamos? O inimigo ocupava
este mesmo chão em que pisamos. E agora — graças à liderança
do Camarada Napoleão — nós o ganhamos centímetro por
centímetro!”
“Quer dizer, ganhamos o que já era nosso”, retrucou Sansão.
“Essa foi a nossa vitória”, insistiu Garganta.
Coxearam até o pátio. As balas sob o couro de Sansão
aferroavam dolorosamente. Ele enxergava à sua frente a pesada
tarefa de reconstruir o moinho de vento, e mesmo em imaginação já
se atirava ao trabalho. Pela primeira vez, entretanto, ocorreu-lhe a
lembrança de que tinha onze anos de idade e que talvez seus
músculos não tivessem a mesma força de antes.
Porém, quando os bichos viram tremular a bandeira verde e
ouviram a arma atirar novamente — sete tiros ao todo — e o
discurso que Napoleão fez congratulando-se com a atuação deles,
pareceu-lhes que, afinal de contas, haviam obtido uma grande
vitória. Os animais caídos na batalha tiveram funerais solenes.
Sansão e Quitéria puxaram o carroção que serviu de carro fúnebre,
e Napoleão abriu em pessoa o cortejo. Dedicaram-se dois dias
inteiros às celebrações. Houve canções, discursos, novos disparos
de espingarda e o prêmio especial de uma maçã para cada animal,
cinquenta gramas de milho para cada ave e três biscoitos para cada
cachorro. Proclamou-se que a batalha se chamaria Batalha do
Moinho de Vento, e que Napoleão havia criado nova comenda, a
Ordem da Bandeira Verde, que conferira a si próprio. Em meio ao
regozijo geral, o assunto das notas de dinheiro morreu.
Foi alguns dias depois disso que os porcos encontraram, na
adega da casa-grande, uma caixa de uísque. Passara despercebida
na época da ocupação. Naquela noite, chegou da casa o som de
uma cantoria em que, para surpresa de todos, se ouviram trechos
de “Bichos da Inglaterra”. Mais ou menos às nove e meia da noite,
Napoleão, usando um velho chapéu-coco de Jones, foi visto
claramente emergir da porta de trás, dar um rápido galope em volta
do pátio e sumir pela porta outra vez. Na manhã seguinte, um
silêncio profundo tomara conta da casa. Ao que parecia, nenhum
porco estava de pé. Eram quase nove horas quando apareceu
Garganta, vacilante e deprimido, com os olhos embaçados, o
rabicho mole, com um aspecto gravemente doentio. Chamou todo
mundo e disse que tinha péssima notícia para dar. O Camarada
Napoleão estava à morte!
Ouviu-se um grito de lamento. Colocaram palha do lado de fora
da casa, e os animais andaram pé ante pé. Com lágrimas nos olhos,
perguntavam-se que seria deles se o Líder faltasse. Correu o boato
de que Bola-de-Neve afinal conseguira envenenar a comida de
Napoleão. Às onze, Garganta saiu de novo para fazer outra
proclamação. Como último ato sobre a terra, o Camarada Napoleão
expedira o seguinte decreto: a ingestão de álcool seria punida com a
morte.
Já à noite, Napoleão parecia um pouco melhor, e na manhã
seguinte Garganta pôde anunciar sua franca recuperação. Na tarde
desse dia, Napoleão voltou à atividade, e no dia seguinte soube-se
que dera instruções a Whymper para comprar, em Willingdon,
alguns folhetos sobre fermentação e destilação. Uma semana
depois, Napoleão ordenou que fosse arado o pequeno potreiro atrás
do pomar, anteriormente destinado ao repouso dos animais
aposentados. Espalhou-se que a grama estava cansada e
necessitava de uma nova semeadura, porém logo se soube que
Napoleão pretendia semeá-la com cevada.
Mais ou menos nessa época, aconteceu um incidente que
nenhum dos bichos pôde compreender. Certa noite, por volta de
meia-noite, ouviu-se um ruído de queda no pátio, e os animais
correram de suas baias para ver o que sucedera. Era noite de lua.
Ao pé da parede do fundo do celeiro, na qual estavam escritos os
Sete Mandamentos, encontraram uma escada quebrada em dois
pedaços. Garganta, momentaneamente aturdido, jazia estatelado
junto a ela, tendo ao lado uma lanterna, uma broxa e uma lata de
tinta branca entornada. Os cachorros logo fizeram um círculo em
torno de Garganta e escoltaram-no de volta à casa-grande, assim
que ele conseguiu caminhar. Os bichos não faziam ideia do que
significava aquilo, exceto Benjamim, que torceu o focinho com um ar
de compreensão e pareceu entender o que se passara, mas nada
disse.
Alguns dias mais tarde, no entanto, Maricota, lendo os Sete
Mandamentos, notou que havia outro mandamento mal lembrado
pelos animais. Todos pensavam que o Quinto Mandamento era
“Nenhum animal beberá álcool”, mas haviam esquecido duas
palavras. Na realidade, o mandamento dizia: “Nenhum animal
beberá álcool em excesso”.
*
9.
A rachadura do casco de Sansão levou tempo para cicatrizar.
Haviam iniciado a reconstrução do moinho de vento no dia seguinte,
ao final das celebrações. Sansão recusou-se a aceitar um só dia de
dispensa, e fez questão de não dar mostras da dor que sofria. À
noite, admitia em particular para Quitéria que o casco realmente o
incomodava muito. Quitéria tratava-o com infusões de ervas, que
preparava mastigando, e tanto ela como Benjamim diziam a Sansão
que não trabalhasse tanto.
“Pulmão de cavalo não é de ferro”, alertava ela. Sansão, porém,
não atendia. Explicava que só tinha uma ambição: ver o moinho de
vento concluído antes de aposentar-se.
De início, quando as leis da Granja dos Bichos foram elaboradas,
fixara-se a idade de aposentadoria em doze anos para os cavalos e
os porcos, catorze para as vacas, nove para os cachorros, sete para
as ovelhas e cinco para as galinhas e os gansos. Para os animais
idosos, fixaram-se pensões generosas. Até então, nenhum bicho se
aposentara, mas ultimamente o assunto vinha sendo objeto de
frequentes conversas. Como o potreiro atrás do pomar fora
semeado com cevada, dizia-se agora que um canto da pastagem
grande seria cercado e reservado para os velhos. Para os cavalos,
ao que se falava, a pensão seria de dois quilos e meio de milho por
dia, e no inverno oito quilos de feno, mais uma cenoura ou talvez
uma maçã nos feriados. O décimo segundo aniversário de Sansão
seria no fim do verão do ano seguinte.
A vida ia dura. O inverno foi tão frio quanto o anterior, e a
quantidade de alimento, ainda menor. Novamente reduziram-se
todas as rações, exceto as dos porcos e dos cachorros. Uma
igualdade por demais rígida em matéria de rações, explicou
Garganta, seria contrária ao espírito do Animalismo. De qualquer
maneira, não teve dificuldade de provar aos outros bichos que na
realidade eles não sentiam falta de comida, a despeito das
aparências. Naquele momento, de fato, fora necessário realizar um
reajuste das rações (Garganta sempre se referia a “reajustes”,
nunca a “reduções”), mas em comparação com o tempo de Jones, a
diferença para melhor era enorme. Lendo os dados estatísticos em
voz aguda e rápida, provou-lhes, com riqueza de detalhes, que eles
recebiam mais aveia, mais feno e mais nabos que na época de
Jones; que trabalhavam muito menos; que a água potável era de
melhor qualidade; que viviam mais tempo; que havia mais palha nas
baias; e que as pulgas já não incomodavam tanto. Os animais
acreditavam em cada palavra. Para falar a verdade, tanto Jones
como tudo quanto ele representava já estavam quase apagados de
sua memória. Sabiam que a vida estava difícil e cheia de privações,
que andavam constantemente com frio e com fome e trabalhando
sempre que não estavam dormindo. Mas, sem dúvida, antigamente
era muito pior. Gostavam de achar isso. Além do mais, naqueles
dias eram escravos, ao passo que agora eram livres; e tudo isso,
afinal, fazia diferença, como Garganta sempre dizia.
Havia agora muito mais bocas a alimentar. No outono, as quatro
porcas haviam dado cria quase simultaneamente — trinta e um
leitõezinhos ao todo. Os leitões eram malhados, e, sendo Napoleão
o único cachaço da fazenda, era fácil adivinhar sua linhagem. Foi
proclamado que, mais tarde, quando comprassem tábuas e tijolos,
construiriam uma escola no jardim da casa. Por enquanto, os leitões
seriam instruídos pelo próprio Napoleão, na cozinha. Faziam
exercícios no jardim e eram aconselhados a não brincar com os
filhotes dos outros animais. Mais ou menos por essa época,
estabeleceu-se que, quando um porco e outro animal se
encontrassem numa trilha, o outro animal cederia a passagem; e
também que os porcos, qualquer que fosse seu grau hierárquico,
teriam o direito de usar fitas vermelhas no rabicho, aos domingos.
A granja tivera um ano bem-sucedido, mas ainda faltava dinheiro.
Era necessário comprar tijolos, areia e cal para a escola e
economizar outra vez para a maquinaria do moinho de vento. Além
disso, havia necessidade de querosene para os lampiões e velas
para a casa, açúcar para a mesa de Napoleão (ele o proibira para
os outros porcos, dizendo que engordava), todo o suprimento
normal de ferramentas, pregos, carvão, arame, ferro-velho, e
biscoitos para cachorros. Venderam uma meda de feno e parte da
colheita de batatas, e o contrato de fornecimento de ovos foi
aumentado para seiscentos por semana, de forma que as galinhas
naquele ano mal puderam chocar um número de ovos que as
mantivesse no mesmo nível. As rações, já reduzidas em dezembro,
sofreram nova redução em fevereiro, e foram proibidos os lampiões
nos estábulos, a fim de economizar querosene. Os porcos,
entretanto, pareciam bastante bem, pelo menos ganhavam sempre
alguns quilinhos.
Uma tarde, em fins de fevereiro, correu pelo pátio, proveniente da
cozinha, um cheiro gostoso, suculento, quentinho, como nunca os
animais haviam sentido antes. Alguém disse que era cheiro de
cevada cozida. Os bichos farejaram avidamente o ar e ficaram a
pensar se não seria algum fervido para o jantar. Mas não apareceu
fervido nenhum no jantar, e no domingo seguinte comunicou-se que
toda a cevada passaria a ser reservada para os porcos. O campinho
junto ao pomar já fora semeado com cevada, e logo transpirou a
notícia de que cada porco estava recebendo, diariamente, a ração
de meia garrafa de cerveja, sendo que Napoleão recebia meio galão
e era servido na terrina da baixela de porcelana.
Mas se existiam grandes agruras a arrostar, estas eram
compensadas pelo fato de a vida ter agora muito mais dignidade.
Havia mais canções, mais discursos, mais desfiles. Napoleão
determinara que uma vez por semana houvesse uma coisa
chamada Manifestação Espontânea, cuja finalidade era comemorar
as lutas e triunfos da Granja dos Bichos. À hora marcada, os
animais deviam abandonar o trabalho e desfilar pelo terreno da
granja, em formação militar, os porcos à frente, depois os cavalos,
depois as vacas, depois as ovelhas e, por último, as aves. Os
cachorros enquadravam a formatura, e à testa marchava o garnisé
preto de Napoleão. Sansão e Quitéria conduziam sempre a bandeira
verde com o desenho do chifre e do casco e o dístico VIVA O CAMARADA
NAPOLEÃO! Em seguida, havia recitação de poemas compostos em
honra de Napoleão, um discurso de Garganta dando detalhes dos
últimos aumentos na produção de gêneros, e no momento exato a
espingarda dava um tiro. Quem mais gostava das Manifestações
Espontâneas eram as ovelhas, e se alguém se queixava (havia
quem o fizesse, quando os porcos ou os cachorros não andavam
por perto) de que aquele negócio era uma perda de tempo, além de
ser obrigado a ficar um bom pedaço no frio, o insatisfeito era
invariavelmente calado pelas ovelhas com um ensurdecedor balido
de “Quatro pernas bom, duas pernas ruim!”. De modo geral, porém,
os bichos gostavam daquelas celebrações. Achavam confortador
ser relembrados de que, afinal, não tinham patrões e todo o trabalho
que enfrentavam era em seu próprio benefício. E assim, à custa das
cantorias, dos desfiles, das estatísticas de Garganta, do estrondo da
espingarda, do cocoricó do garnisé e do drapejar da bandeira,
conseguiam esquecer que estavam de barriga vazia, pelo menos a
maior parte do tempo.
Em abril, a Granja dos Bichos foi proclamada República e houve
necessidade de eleger um presidente. Apareceu um só candidato,
Napoleão, que foi eleito por unanimidade. No mesmo dia notificou-
se a descoberta de novos documentos, que revelaram mais
detalhes sobre a cumplicidade de Bola-de-Neve e Jones. Soube-se
que Bola-de-Neve não apenas tentara perder a Batalha do Estábulo,
por meio de um estratagema, conforme os animais já tinham tomado
conhecimento, mas lutara abertamente ao lado de Jones. Na
realidade, fora ele o verdadeiro comandante das forças humanas, e
jogara-se à batalha com as palavras “Viva a Humanidade!” nos
lábios. Os ferimentos em suas costas, que alguns poucos bichos
lembravam-se de ter visto, haviam sido causados pelos dentes de
Napoleão.
Em meio ao verão, Moisés, o corvo, reapareceu inesperadamente
na granja, após uma ausência de vários anos. Continuava o mesmo,
não trabalhava e contava as histórias de sempre a respeito da
Montanha de Açúcar-Cande. Encarapitava-se num toco de árvore e
arengava durante horas para quem quisesse ouvir:
“Lá em cima, camaradas”, dizia solenemente, apontando o céu
com a bicanca, “lá em cima, pouco além daquela nuvem preta, ali
está ela, a Montanha de Açúcar-Cande, o lugar feliz onde nós,
pobres animais, descansaremos para sempre desta nossa vida de
trabalho.”
Chegava a afirmar ter estado lá, num dos seus voos mais altos, e
ter visto os infindos campos de trevo, os bolos de linhaça e o açúcar
crescendo nas sebes. Muitos bichos acreditavam. A vida atualmente
era só fome e trabalho, raciocinavam; não seria justo que lhes
estivesse reservado um mundo melhor, mais além? Coisa difícil de
determinar era a atitude dos porcos com relação a Moisés. Eles
afirmavam peremptoriamente que as histórias sobre a Montanha de
Açúcar-Cande não passavam de pura mentira; no entanto,
deixavam-no permanecer na granja, sem trabalhar, e ainda por cima
com direito a um copo de cerveja por dia.
Depois que o casco ficou bom, Sansão trabalhou mais
violentamente do que nunca. Aliás, naquele ano, todos os bichos
trabalharam feito escravos. Além da faina normal na fazenda e da
reconstrução do moinho de vento, ainda houve a escola dos
porquinhos, iniciada em março. Às vezes ficava difícil aguentar as
longas horas sem comer, mas Sansão nunca fraquejou. Em nada do
que dizia ou fazia era possível perceber nenhum sinal de que sua
energia já não era a mesma de antigamente. Apenas sua aparência
estava um pouco modificada; o pelo já não era tão brilhante, e as
ancas pareciam haver murchado. “Sansão vai se recuperar quando
crescer o capim da primavera”, diziam os outros, mas a primavera
chegou, e Sansão não mudou de aspecto. Por vezes, na rampa da
pedreira, quando enrijecia a musculatura contra o peso de um
enorme pedregulho, tinha-se a impressão de que apenas a vontade
o mantinha de pé. Nesses momentos seus lábios formavam
claramente as palavras “Trabalharei mais ainda”, mas não emitiam
nenhum som. Novamente, Quitéria e Benjamim o aconselharam,
porém ele não deu atenção. Seu décimo segundo aniversário se
aproximava.
Não se importava com o que sucedesse, desde que pudesse
amontoar uma boa quantidade de pedras antes de aposentar-se.
Certa noite, no verão, correu a súbita notícia de que algo
acontecera a Sansão, que havia saído sozinho para puxar uns
montes de pedra até o moinho. E era verdade. Poucos minutos
depois chegaram dois pombos afobados:
“Sansão está caído! Não consegue levantar-se!”
Metade dos animais da granja correu para a colina do moinho de
vento. Lá estava Sansão, deitado entre os paus da carroça, com o
pescoço esticado e sem poder sequer levantar a cabeça. Corria-lhe
da boca um filete de sangue. Quitéria abaixou-se a seu lado.
“Sansão”, chamou, “você está bem?”
“É o meu pulmão”, ele disse quase sem voz. “Não tem
importância. Vocês terminarão o moinho sem mim. Já deixei
bastante pedra aí. De qualquer maneira, só me restava um mês de
atividade. Para falar a verdade, tenho estado à espera desta hora.
E, como Benjamim também está ficando velho, talvez o deixem
aposentar-se para me fazer companhia.”
“Precisamos de socorro imediatamente”, gritou Quitéria. “Alguém
vá correndo contar a Garganta o que aconteceu.”
Os animais todos correram à casa-grande para dar a notícia a
Garganta. Só ficaram Quitéria e Benjamim, que se deitou ao lado de
Sansão e, sem dizer palavra, ficou a espantar-lhe as moscas com o
rabo comprido. Mais ou menos um quarto de hora depois, Garganta
apareceu, cheio de simpatia e preocupação. Disse que o Camarada
Napoleão tomara conhecimento, abaladíssimo, do mal que sucedera
a um dos trabalhadores mais leais da granja, e já estava cuidando
de enviar Sansão para tratar-se no hospital em Willingdon. Os
animais sentiram certa inquietação (com exceção de Mimosa e
Bola-de-Neve, nenhum deles jamais saíra da granja) e não
gostaram da ideia de seu camarada ir parar nas mãos dos
humanos. Entretanto, Garganta facilmente os convenceu de que o
cirurgião veterinário de Willingdon poderia tratar do caso de Sansão
muito melhor do que eles, na granja. Cerca de meia hora mais tarde,
quando Sansão já se recuperara um pouco, conseguiram pô-lo de
pé, e ele cambaleou de volta até sua baia, onde Quitéria e
Benjamim lhe haviam preparado uma boa cama de palha.
Durante os dois dias seguintes Sansão permaneceu na baia. Os
porcos enviaram uma garrafa contendo um remédio cor-de-rosa,
encontrado no armarinho do banheiro, e Quitéria servia-o a Sansão
duas vezes ao dia, após as refeições. À noite, Quitéria ficava a seu
lado, conversando com ele, enquanto Benjamim afastava as
moscas. Sansão afirmava não estar triste com o acontecido. Caso
se recuperasse bem, poderia viver mais três anos, e já imaginava os
dias tranquilos que passaria no rincão da pastagem. Seria a primeira
vez que lhe sobraria tempo de folga para estudar e melhorar seus
conhecimentos. Pretendia dedicar o resto de sua existência ao
aprendizado das vinte e duas letras restantes do alfabeto.
Contudo, Benjamim e Quitéria só podiam estar a seu lado após as
horas de trabalho, e foi durante o dia que o carroção veio buscá-lo.
Os animais estavam na lavoura semeando nabos, sob a supervisão
de um porco, e ficaram admirados ao ver Benjamim a galope, vindo
da direção das casas da granja ao encontro deles, zurrando feito
louco. Era a primeira vez na vida que viam Benjamim nervoso —
para falar a verdade, era a primeira vez que alguém o via galopar.
“Depressa, corram!”, gritou. “Venham logo! Estão levando
Sansão!”
Sem esperar ordens do porco, largaram o trabalho e correram de
volta para as casas. Realmente, lá estava um carroção fechado,
puxado por dois cavalos, com um letreiro no lado e um homem de
chapéu-coco sentado na boleia. A baia de Sansão estava vazia.
Os bichos se apinharam ao redor do carroção.
“Até breve, Sansão!”, gritaram. “Até já!”
“Idiotas! Idiotas!”, exclamou Benjamim, corcoveando em volta
deles e ferindo o chão com os cascos pequeninos. “Imbecis! Não
veem o que está escrito ali ao lado?”
Isso fez calar os animais e ouviu-se um pssss. Maricota começou
a soletrar as palavras, mas Benjamim empurrou-a para um lado e
leu, em meio a grande silêncio:
“ALFRED SIMMONDS, MATADOURO DE CAVALOS, FABRICANTE DE COLA, WILLINGDON. PELES E
FARINHA DE OSSOS. FORNECE PARA CANIS. Será que vocês não percebem? Vão
levar Sansão para o carniceiro!”
Houve um grito de horror dos bichos. Nesse momento, o homem
da boleia estalou o chicote, e os cavalos saíram a trote vivo,
abandonando o pátio. Os bichos correram atrás, gritando com toda
a força. Quitéria abriu caminho até a frente. O carroção tomou
velocidade. Quitéria tentou fazer que suas pernas grossas
galopassem e conseguiu um trotezinho.
“Sansão!”, ela gritou. “Sansão! Sansão! Sansão!” Nesse exato
momento, como se tivesse ouvido a barulheira de fora, apareceu na
janelinha de trás da carroça a cara de Sansão, com sua mancha
branca no focinho. “Sansão!”, berrou Quitéria, desesperada.
“Sansão! Saia depressa! Estão te levando pro matadouro!”
Os bichos gritavam a um tempo:
“Saia daí, Sansão, saia daí!”
Mas o carroção acelerou e começou a distanciar-se. Não podiam
saber se Sansão havia entendido Quitéria. Logo depois, entretanto,
sua cara desapareceu da janela, e ouviu-se o barulho da tremenda
pancadaria de seus cascos no interior do carroção. Ele tentava
livrar-se de qualquer maneira. Tempo houvera em que com alguns
coices Sansão transformaria aquela carroça num monte de lenha.
Mas ai! — sua força o abandonara; em poucos instantes, o som das
batidas diminuiu e morreu. Desesperados, os animais suplicaram
aos dois cavalos que puxavam o carroção que se detivessem.
“Camaradas! Camaradas!”, gritavam. “Não levem um irmão para
essa morte!” Porém os brutos, estúpidos, ignorantes demais para
entender o que acontecia, limitaram-se a murchar as orelhas e
apertar o passo. A cara de Sansão não reapareceu mais na janela.
Alguém pensou em correr à frente e fechar a porteira das cinco
barras, mas era tarde demais, pois logo o carroção atravessava a
porteira e desaparecia rapidamente na estrada. Sansão nunca mais
foi visto.
Três dias depois, chegou a notícia de que havia falecido no
hospital veterinário de Willingdon, a despeito de ter recebido todos
os cuidados que um cavalo merece. Garganta veio dar a notícia.
Presenciara, disse, os últimos momentos de Sansão.
“Foi a cena mais comovente de minha vida!”, relatou Garganta,
erguendo a pata e deixando rolar uma lágrima. “Eu estava à sua
cabeceira no instante final. Quase sem poder falar, ele sussurrou ao
meu ouvido que seu único pesar era morrer antes de ter terminado o
moinho de vento. ‘Avante, camaradas! Viva a Granja dos Bichos!
Viva o Camarada Napoleão! Avante, em nome da Revolução!
Napoleão tem sempre razão.’ Estas foram suas últimas palavras,
camaradas.”
Em seguida, os modos de Garganta se transformaram. Caiu em
silêncio por um momento, e seus olhinhos deram miradas
suspeitosas para os lados antes de prosseguir.
Chegara a seu conhecimento, disse ele, que um boato idiota e
perverso circulara por ocasião do internamento de Sansão. Alguns
animais tinham visto que na carroça que transportou Sansão estava
escrito MATADOURO DE CAVALOS, chegando à conclusão de que Sansão
estava sendo mandado para o carniceiro. Era quase inacreditável
que um bicho pudesse ser tão estúpido. Com certeza, gritou
indignado, sacudindo o rabicho e dando pulinhos, com certeza todos
conheciam seu amado Líder, o Camarada Napoleão, não? A
explicação era muito simples. A carroça pertencera, antes, ao
carniceiro, depois fora comprada pelo cirurgião veterinário, que
ainda não apagara o letreiro. Eis como se dera o engano.
Os bichos ficaram imensamente aliviados com isso. E quando
Garganta continuou dando detalhes sobre a câmara mortuária de
Sansão, o extraordinário cuidado que recebeu e os caríssimos
remédios que Napoleão mandara comprar sem olhar o preço,
desapareceram suas últimas dúvidas, e a tristeza pelo camarada
morto foi mitigada pela certeza de que pelo menos morrera feliz.
O próprio Napoleão apareceu no encontro do domingo seguinte e
pronunciou uma singela oração em memória de Sansão. Não fora
possível, explicou, trazer de volta os despojos do lamentado
camarada para o enterro, porém dera ordem para que se
confeccionasse uma grande coroa com louros do jardim e a enviara
para ser colocada no túmulo de Sansão. E anunciou-se, alguns dias
depois, que os porcos pretendiam realizar um banquete em
memória de Sansão. Napoleão finalizou seu discurso relembrando
as duas máximas prediletas de Sansão: “Trabalharei mais ainda” e
“O Camarada Napoleão tem sempre razão”, máximas, disse, que
cada animal deveria adotar.
No dia marcado para o banquete, chegou de Willingdon a carroça
de um armazém e desembarcou na casa-grande um engradado de
madeira. Naquela noite ouviu-se uma alta cantoria seguida de algo
que parecia uma discussão violenta e que terminou cerca das onze
horas com uma tremenda barulheira de vidros quebrados. No dia
seguinte, ninguém se levantou na casa-grande até o meio-dia, e
correu uma conversa de que os porcos haviam conseguido, não se
sabia de que maneira, dinheiro para adquirir outra caixa de uísque.
*
10.
Passaram-se anos. As estações se alternavam, e a curta vida dos
bichos se consumia. Tempo chegou em que ninguém mais se
lembrava de antes da Rebelião, exceto Quitéria, Benjamim, o corvo
Moisés e alguns porcos.
Maricota morreu; Branca, Lulu e Cata-Vento morreram. Jones
também morreu num asilo de alcoólatras, noutra cidade. Bola-de-
Neve fora esquecido. Sansão também, exceto pelos poucos que o
haviam conhecido. Quitéria era agora uma égua velha, corpulenta,
com os olhos atacados pela catarata. Já passara dois anos da idade
de se aposentar. Aquela história de reservar um pedaço de campo
para os animais idosos não era mais nem mencionada. Napoleão
tornara-se um cachaço madurão de uns cento e cinquenta quilos.
Garganta estava tão gordo que mal conseguia abrir os olhos.
Somente o velho Benjamim continuava o mesmo, apenas o focinho
um pouco mais grisalho, e desde a morte de Sansão, mais
rabugento e taciturno que nunca.
Agora existiam muito mais criaturas na granja, embora o índice de
crescimento não fosse aquele que esperavam nos primeiros anos.
Haviam nascido muitos animais; para alguns a Rebelião não
passava de uma obscura tradição transmitida oralmente, e outros
nem sequer tinham ouvido falar a respeito. A granja contava agora
com três cavalos além de Quitéria. Eram bichos maravilhosos,
trabalhadores incansáveis, bons camaradas, mas muito estúpidos.
Nenhum mostrou-se capaz de aprender o alfabeto além da letra B.
Aceitavam tudo quanto lhes era dito sobre a Revolução e os
princípios do Animalismo, especialmente por Quitéria, a quem
dedicavam um respeito filial, mas era duvidoso que entendessem lá
grande coisa.
A granja prosperava e estava mais bem organizada; fora até
aumentada pela compra de dois tratos de terra do sr. Pilkington. O
moinho de vento, afinal, fora concluído com êxito, a granja possuía
uma debulhadeira e um elevador de feno próprio, e várias
construções novas haviam se erguido. Whymper comprara uma
charrete. O moinho de vento, entretanto, não era usado para gerar
energia elétrica. Usavam-no para moer cereais, coisa que dava bom
dinheiro. Os animais estavam a braços com a construção de outro
moinho de vento; quando este estivesse concluído, dizia-se, seriam
instalados os dínamos. Mas naquele luxo de que Bola-de-Neve lhes
falara certa vez — baias com luz elétrica e água quente e fria — e
na semana de três dias não se falava mais. Napoleão denunciara
tais ideias como contrárias aos princípios do Animalismo. A
verdadeira felicidade, dizia, estava em trabalhar bastante e viver
frugalmente.
De certa maneira, era como se a granja tivesse ficado rica sem
que nenhum animal houvesse enriquecido — exceto, é claro, os
porcos e os cachorros. Talvez isso acontecesse por existirem ali
tantos porcos e tantos cachorros. Não que esses animais não
trabalhassem, à sua moda. Garganta nunca se cansava de explicar
que havia um trabalho insano na ação de supervisionar e organizar
a granja. Grande parte desse trabalho era de natureza tal que
estava além da ignorância dos bichos. Tentando explicar, Garganta
dizia que os porcos despendiam diariamente enormes esforços com
coisas misteriosas chamadas “arquivos”, “relatórios”, “minutas” e
“memos”. Grandes folhas de papel que precisavam ser miudamente
cobertas com escritos e logo depois queimadas no forno. Era tudo
da mais alta importância para o bem-estar da granja, dizia. A
verdade é que nem os porcos nem os cachorros produziam um só
grama de alimento com seu trabalho; e havia um bocado deles, com
o apetite sempre em forma.
Quanto aos outros, sua vida, ao que sabiam, continuava a
mesma. Geralmente andavam com fome, dormiam em camas de
palha, bebiam água no açude e trabalhavam no campo; no inverno,
sofriam com o frio; no verão, com as moscas. De vez em quando, os
mais idosos rebuscavam a apagada memória e tentavam determinar
se nos primeiros dias da Rebelião, logo após a expulsão de Jones,
as coisas tinham sido melhores ou piores que agora. Não
conseguiam lembrar. Nada havia com que comparar: não tinham em
que basear-se, exceto as estatísticas de Garganta, que
invariavelmente provavam estar tudo cada vez melhor. Os bichos
consideravam o problema insolúvel; de qualquer maneira,
dispunham de muito pouco tempo para essas especulações.
Apenas o velho Benjamim afirmava lembrar-se de cada detalhe de
sua longa vida e saber que as coisas nunca haviam estado e nunca
haveriam de ficar nem muito melhor nem muito pior, sendo a fome, o
cansaço e a decepção, assim ele dizia, a lei imutável da vida.
Apesar disso, os bichos nunca perdiam a esperança. Mais ainda,
jamais lhes faltava, nem por instantes, o sentimento de honra pelo
privilégio de serem membros da Granja dos Bichos, que continuava
a ser a única em todo o condado — em toda a Inglaterra! — de
propriedade dos animais e por eles administrada. Nenhum deles,
nem mesmo os mais moços, nem mesmo os provenientes de outras
granjas, situadas algumas a dez ou vinte quilômetros de distância,
nunca deixou de maravilhar-se com isso. E quando ouviam o tiro da
espingarda e viam a bandeira tremulando no topo do mastro, seu
coração inchava de orgulho, e a conversa passava a girar em torno
dos históricos dias de antanho, da expulsão de Jones, da inscrição
dos Sete Mandamentos, das grandes batalhas em que os invasores
humanos haviam sido derrotados. Nenhum dos antigos sonhos fora
abandonado. A República dos Bichos, que o velho Major havia
previsto, quando os verdes campos da Inglaterra não mais seriam
pisados por pés humanos, era coisa em que ainda acreditavam. O
dia havia de chegar. Podia ser mais cedo ou mais tarde, talvez não
acontecesse durante a vida de nenhum dos animais de então, mas
havia de chegar. Até a melodia de “Bichos da Inglaterra” talvez fosse
cantarolada em segredo aqui e ali; de qualquer maneira, a verdade
é que cada bicho da granja a conhecia, embora nenhum tivesse
coragem de cantá-la em voz alta. Talvez fosse verdade que a vida
era difícil e que nem todas as suas esperanças haviam se
concretizado; mas tinham consciência de não ser iguais aos outros
animais. Se sentiam fome, não era por alimentarem alguns tirânicos
seres humanos; se trabalhavam arduamente, pelo menos
trabalhavam em benefício próprio. Nenhuma criatura dentre eles
andava sobre duas pernas. Nenhuma criatura era “dona” de outra.
Todos os animais eram iguais.
Certo dia, no início do verão, Garganta mandou que as ovelhas o
seguissem e levou-as para um campo situado nos confins da granja,
que fora tomado de brotação de vidoeiro. As ovelhas passaram o
dia inteiro roendo as brotações, sob a supervisão de Garganta. À
noite, ele regressou à granja, mas, como o tempo estava quente,
disse às ovelhas que permanecessem lá. Terminaram ficando a
semana toda, durante a qual os outros bichos nem as viram.
Garganta passava com elas a maior parte do dia. Ensinava-lhes,
segundo explicou, uma nova canção para a qual precisava de certo
sigilo.
Foi logo após o retorno das ovelhas, numa noite agradável,
quando os bichos haviam terminado o trabalho e regressavam à
granja, que se ouviu, vindo do pátio, um relinchar horripilante.
Arrepiados, os animais estacaram. Era a voz de Quitéria. Ela
relinchou outra vez, e os bichos dispararam a galope para o pátio.
Viram, então, o que ela vira.
Um porco caminhava sobre as duas patas traseiras.
Sim, era Garganta. Um tanto desajeitado, devido à falta de prática
em manter seu apreciável volume naquela posição, mas em perfeito
equilíbrio, passeava pelo pátio. Momentos depois saiu pela porta da
casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as
patas de trás. Uns melhor que outros, um ou dois até meio
desequilibrados e dando a impressão de que apreciariam o apoio de
uma bengala, mas todos deram a volta no pátio muito bem.
Finalmente houve um alarido dos cachorros, ouviu-se o cocoricó
esganiçado do garnisé, e surgiu Napoleão, majestoso,
desempenado, lançando olhares arrogantes para os lados, com os
cachorros brincando em volta.
Empunhava um chicote nas patas dianteiras.
Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto dos
outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente ao
redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para
baixo. Então veio um momento em que, passado o primeiro choque
e a despeito de tudo — a despeito do terror dos cachorros e do
hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca
criticarem, pouco importa o que sucedesse —, poderiam lançar uma
palavra de protesto. Mas exatamente nesse instante, como se
obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas, em uníssono,
irromperam num balido espetacular:
“Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom,
duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor!”
Baliram durante cinco minutos sem cessar. E quando se calaram,
fora-se a oportunidade da palavra de protesto, pois os porcos já
haviam voltado para dentro da casa.
Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o lombo. Era Quitéria.
Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer
palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o
fundo do grande celeiro, onde estavam escritos os Sete
Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a
parede alcatroada com o grande letreiro branco.
“Minha vista está falhando”, ela disse afinal. “Mesmo quando eu
era moça, não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas me parece
agora que a parede está meio diferente. Os Sete Mandamentos são
os mesmos de sempre, Benjamim?”
Pela primeira vez Benjamim consentiu em quebrar sua norma, e
leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora,
senão um único Mandamento que dizia:
TODOS OS BICHOS SÃO IGUAIS, MAS
ALGUNS BICHOS SÃO MAIS IGUAIS QUE OUTROS
Depois disso, não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos
que supervisionavam o trabalho da granja andassem com chicotes
nas patas. Ninguém estranhou saber que os porcos haviam
comprado um aparelho de rádio, que estavam tratando da
instalação de um telefone e da assinatura de jornais e revistas. Não
estranharam quando Napoleão foi visto passeando nos jardins da
casa com um cachimbo na boca — não, nem quando os porcos se
apoderaram das roupas do sr. Jones e passaram a usá-las,
Napoleão apresentando-se com um casaco negro, calções de caça
e perneiras de couro, enquanto sua porca favorita surgia com o
vestido de seda chamalotado que a sra. Jones usava aos domingos.
Uma semana mais tarde, após o meio-dia, apareceram
numerosas charretes subindo rumo à granja. Uma representação de
granjeiros vizinhos fora convidada a realizar uma visita de inspeção.
Toda a granja lhes foi mostrada, e eles expressaram grande
admiração por tudo quanto viram, em especial pelo moinho de
vento. Os bichos estavam limpando a lavoura de nabos.
Trabalhavam diligentemente, mal levantando o olhar do chão e sem
saber a quem temer mais, se aos porcos, se aos visitantes
humanos.
Naquela noite, altas risadas e cantorias chegaram da casa. Lá
pelas tantas, ante o som das vozes misturadas, os bichos
encheram-se de curiosidade. Que estaria acontecendo lá dentro,
agora que, pela primeira vez, encontravam-se em termos de
igualdade os animais e os humanos? Pensando todos a mesma
coisa, dirigiram-se furtivamente para o jardim da casa.
No porão titubearam, um tanto temerosos, mas Quitéria deu o
exemplo e entrou. Andaram pé ante pé, até a casa, e os mais altos
espiaram através da janela da sala de jantar. Lá dentro, em volta de
uma mesa grande, estavam sentados meia dúzia de granjeiros e
meia dúzia de porcos dentre os mais eminentes, Napoleão no lugar
de honra, à cabeceira. Os porcos pareciam perfeitamente à vontade
em suas cadeiras. O grupo estivera jogando cartas, mas havia
interrompido o jogo por instantes, evidentemente para os brindes.
Um grande jarro circulava, e os copos se enchiam de cerveja.
Ninguém notou as caras admiradas dos bichos, que espiavam pela
janela.
O sr. Pilkington, da Granja Foxwood, levantara-se com o copo na
mão. Disse que ia convidar os presentes para um brinde. Mas antes
desejava dizer algumas palavras, que julgava ser seu dever
pronunciar.
Era motivo de grande satisfação para ele — e tinha certeza de
que falava por todos os demais — sentir que o longo período de
desconfianças e desentendimentos chegara ao fim. Tempo houvera
— não que ele ou qualquer um dos presentes tivesse pensado
dessa maneira —, mas tempo houvera em que os respeitáveis
proprietários da Granja dos Bichos eram olhados não diria com
hostilidade, mas com certa apreensão, por seus vizinhos humanos.
Ocorreram incidentes desagradáveis, e ideias errôneas circularam.
Parecera a muitos que a existência de uma granja pertencente a
animais e por eles administrada era coisa um tanto fora do comum e
poderia vir a causar transtornos à vizinhança. Muitos granjeiros
supuseram, sem as verificações devidas, que em tal granja
prevalecia um espírito de licenciosidade e indisciplina. Tinham se
preocupado com o efeito de tudo isso sobre seus próprios animais,
e até mesmo sobre seus empregados humanos. Mas todas essas
dúvidas estavam agora dissipadas. Hoje, ele e seus companheiros
tinham visitado a Granja dos Bichos, inspecionando cada metro
quadrado com seus próprios olhos, e o que haviam encontrado?
Não apenas métodos dos mais modernos, mas uma ordem e uma
disciplina que podiam servir de exemplo. Julgava poder afirmar que
os animais inferiores da Granja dos Bichos trabalhavam mais e
recebiam menos comida do que quaisquer outros animais do
condado. Para falar a verdade, ele e seus companheiros de visita
haviam visto, naquele dia, muita coisa que pretendiam introduzir
imediatamente em suas próprias granjas.
Finalizaria suas palavras, continuou, assinalando mais uma vez
os sentimentos de amizade que prevaleciam e deviam prevalecer
entre a Granja dos Bichos e seus vizinhos. Entre os porcos e os
seres humanos não havia, e eram inteiramente inadmissíveis,
quaisquer conflitos de interesses. Suas lutas e dificuldades eram
uma só. Pois o trabalho não constituía o mesmo problema em toda
parte? A essa altura, evidenciou-se que o sr. Pilkington pretendia
brindar a plateia com um dito espirituoso, mas por alguns momentos
pareceu que gozava demais da própria piada, para poder dizê-la.
Depois de muita sufocação, que deixou vermelhos seus vários
queixos, ele conseguiu dizê-la: “Se Vossas Senhorias têm
problemas com vossos animais inferiores, nós os temos lá com
nossas classes inferiores”. Este bon mot causou sensação na mesa,
e o sr. Pilkington novamente felicitou os porcos pelas muitas horas
de trabalho, pela ausência de mimos e pelas baixas rações que
observara na Granja dos Bichos.
E agora, disse finalmente, convidava o grupo a levantar-se e
verificar se os copos estavam cheios.
“Cavalheiros”, concluiu o sr. Pilkington, “proponho um brinde: à
prosperidade da Granja dos Bichos!”
Houve uma entusiástica ovação e uma salva de palmas.
Napoleão ficou tão emocionado que deixou seu lugar e deu a volta
na mesa para tocar com seu copo o do sr. Pilkington, antes de
esvaziá-lo. Quando as felicitações acabaram, Napoleão, que
permanecera de pé, disse que iria também proferir algumas
palavras.
Como todos os discursos de Napoleão, aquele foi curto e direto
ao assunto. Também ele, disse, alegrava-se de que o período de
desentendimentos tivesse chegado ao fim. Por longo tempo houvera
rumores — inventados, acreditava, e tinha razões para isso, por
algum inimigo mal-intencionado — de que havia algo de subversivo
e mesmo de revolucionário nos pontos de vista seus e de seus
companheiros. Tinham passado por desejosos de fomentar a
rebelião entre os animais das granjas vizinhas. Nada podia estar
mais longe da verdade! Seu único desejo, agora como no passado,
era viver em paz e gozando de relações normais com seus vizinhos.
Aquela granja que ele tinha a honra de governar, acrescentou, era
um empreendimento cooperativo. As escrituras que estavam em seu
poder conferiam a posse a todos os porcos.
Não acreditava que ainda restassem quaisquer das velhas
suspeitas, mas certas modificações na rotina da granja haviam sido
introduzidas com o fito de promover uma confiança ainda maior. Até
aquele momento os bichos haviam conservado o hábito imbecil de
se dirigir uns aos outros pelo vocativo de “camarada”. Isso ia acabar.
Existira também o costume insólito, cuja origem era desconhecida,
de marchar aos domingos, desfilando diante de uma caveira de
porco pregada num poste. Isso também ia acabar, e a caveira já fora
enterrada. Os visitantes, com certeza, teriam observado também a
bandeira verde que tremulava no poste. Nesse caso, haveriam de
ter notado que as antigas figuras do chifre e do casco, em branco,
tinham sido suprimidas. Daí por diante seria uma bandeira
puramente verde.
Gostaria de fazer apenas um reparo, disse, ao excelente discurso,
bem próprio de um bom vizinho, do sr. Pilkington. Este referira-se o
tempo todo à Granja dos Bichos. Naturalmente ele não podia saber
— mesmo porque Napoleão o estava proclamando naquele instante
pela primeira vez — que a denominação “Granja dos Bichos” fora
abolida. A partir daquele momento sua granja deveria ser chamada
Granja do Solar — que, aliás, era seu nome correto e original.
“Cavalheiros”, concluiu Napoleão, “levantarei o mesmo brinde,
mas de forma diferente. Enchei até a borda vossos copos.
Cavalheiros, este é o meu brinde: à prosperidade da Granja do
Solar!”
Houve as mesmas calorosas felicitações de antes, e os copos
foram esvaziados. Mas aos olhos dos bichos, que lá de fora
espiavam, pareceu que algo estranho estava acontecendo. Que
diabo teria alterado a cara dos porcos? Os olhos embaçados de
Quitéria iam de uma cara para outra. Algumas tinham cinco queixos,
outras quatro, outras três. Mas algo parecia misturá-las e modificá-
las. Então, findos os aplausos, o grupo pegou novamente nas
cartas, reencetando o jogo interrompido, e os animais afastaram-se
em silêncio.
Não haviam, porém, chegado sequer a vinte metros quando se
detiveram ante o vozerio alto que vinha lá de dentro. Voltaram
correndo e tornaram a espiar pela janela. De fato, era uma
discussão violenta. Gritos, socos na mesa, olhares irados, furiosas
negativas. A origem da briga, aparentemente, fora o fato de
Napoleão e o sr. Pilkington terem, ao mesmo tempo, apresentado
um ás de espadas.
Doze vozes gritavam, cheias de ódio, e eram todas iguais. Não
havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos
porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem,
de um homem para um porco e de um porco para um homem outra
vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era
porco.
*
Posfácio Repensando A revolução dos bichos
| Christopher Hitchens (2006)
Certo dia no final da década de 1930, pouco depois de regressar
da Guerra Civil Espanhola, George Orwell estava fazendo uma de
suas longas caminhadas solitárias pelo interior da Inglaterra. Como
haveria de recordar mais tarde:
Pensei em denunciar o mito soviético numa história que fosse fácil de compreender
por qualquer pessoa e fácil de traduzir para outras línguas. No entanto, os detalhes
concretos da história só me ocorreriam depois, na época em que morava numa
cidadezinha, no dia em que vi um menino de uns dez anos guiando por um caminho
estreito um imenso cavalo de tiro que cobria de chicotadas cada vez que o animal
tentava se desviar. Percebi então que, se aqueles animais adquirissem consciência
de sua força, não teríamos o menor poder sobre eles, e que os animais são
explorados pelos homens de modo muito semelhante à maneira como o proletariado
é explorado pelos ricos.
O conceito de “direitos dos animais” ainda não existia na época,
de maneira que Orwell decidiu fazer um uso antropomórfico de sua
percepção. Dessa vez os animais iriam adquirir fala, inteligência e a
coragem de derrubar seus exploradores humanos. Mas sua tragédia
seria uma escravidão nova e mais impiedosa nas mãos de seus
semelhantes. Todos os animais seriam proclamados iguais, só que
— de acordo com uma expressão que desde então entrou para o
vocabulário do nosso tempo — “alguns são mais iguais que outros”.
Orwell só terminaria o livro seis anos depois, preocupado que
estava com o início da Segunda Guerra Mundial, com seus
problemas de saúde e com a necessidade de ganhar a vida como
jornalista free-lancer e locutor de rádio. O manuscrito original quase
se perdeu quando seu apartamento em Londres foi atingido por um
dos primeiros mísseis conhecidos como “bombas voadoras”,
disparado do outro lado do canal pelos nazistas. E como veremos,
por muito pouco não deixou de ser publicado. Mas vale a pena
assinalar o momento germinal da história: a ambição declarada de
Orwell era “analisar a teoria de Marx do ponto de vista dos animais”.
Ele servira na Espanha com as milícias do POUM, um partido quase
trotskista que sofrera uma repressão terrível nas mãos do aparato
policial dominado pelos soviéticos, e Orwell e sua mulher, Eileen,
tiveram, como ele dizia, “muita sorte de sair da Espanha com vida”.
Não menos importante, em Barcelona tinham visto
gente inocente ser atirada na prisão só por suspeita de desvio da ortodoxia. No
entanto, quando voltamos à Inglaterra, encontramos muitos observadores sensatos e
bem informados que acreditavam nos relatos mais fantasiosos — envolvendo
conspirações, traição e sabotagem — que a imprensa fazia dos processos de
Moscou.
Na mesma medida em que os acontecimentos da Espanha assim
se transformaram, em seu espírito, numa alegoria dos fatos mais
amplos que aconteciam na Rússia, A revolução dos bichos se
transformou numa sátira sobre a experiência soviética como um
todo. “Ao longo dos últimos dez anos”, escreveu ele em 1947,
“convenci-me de que a destruição do mito soviético era essencial
para conseguirmos reviver o movimento socialista.”
Todos os trechos que cito aqui foram tirados de um prefácio que
Orwell escreveu para uma edição de A revolução dos bichos
publicada inicialmente em ucraniano e distribuída nos campos de
refugiados que se espalhavam pela Europa desde 1945.* Para os
refugiados ucranianos, que não só tinham sobrevivido à guerra
como também assistido à stalinização de seu país, à coletivização e
à fome que a acompanhava, a história precisava de muito pouco em
matéria de contexto ou explicação. No entanto, mais de meio século
se passou desde aquele momento, e alguns de seus contornos
merecem reforço, além de um certo reexame.
No momento em que a ação do livro começa, todos os bichos da
opressiva fazenda do sr. Jones são convocados para ouvir a última
mensagem do velho porco moribundo que era o animal mais
respeitado de toda a propriedade. O velho Major analisa a vida de
provação e sacrifício dos animais, conclama todos a derrubar seus
opressores e pinta um quadro de um futuro radioso baseado no
princípio da ajuda mútua e da prosperidade. Propõe um hino,
“Bichos da Inglaterra”, para servir como sua versão da “Internacional
Socialista”. Em seguida morre, mas a mensagem arrebatadora
dessa figura inspirada em Marx logo é adotada pelos porcos mais
cultos, a intelligentsia do mundo animal. Conseguem forjar uma
aliança entre os fortes cavalos Sansão e Quitéria, que representam
o proletariado, e os elementos disparatados do campo e da classe
média representados pelas ovelhas, pelas vacas, pelas galinhas e
outras forças dos pastos e do quintal. Só a égua branca Mimosa —
um tipo pequeno-burguês que tinha sido alvo dos mimos do sr.
Jones — e Moisés, o corvo — ave de uma eloquência crocitante e
vocação de pregador que fala de um mundo além do céu —,
permanecem indiferentes. Numa série de batalhas, não só expulsam
o sr. Jones como ainda derrotam suas tentativas de restaurar-se no
poder com a ajuda de fazendeiros vizinhos. Começa então um
período de intensa construção, acompanhada de isolamento e
perigo e, cada vez mais, da sensação de que os porcos se tinham
apoderado de uma fatia excessiva de poder e privilégios.
Qualquer um que conheça um pouco a história da Revolução
Russa já terá percebido as semelhanças. E Orwell ainda fez o
possível para sublinhar e enfatizar alguns paralelos. A excomunhão
dos dissidentes, a reescritura da história, os julgamentos
espetaculares e as execuções em massa são representados com
grande nitidez. O fim do nobre cavalo Sansão, que trabalha até
morrer e no final é despachado da maneira mais cínica, é uma cena
de emoção intensa e terrível, e sabe-se que tende a comover
mesmo os leitores mais jovens, que só têm uma noção muito vaga
da analogia histórica. (Vários dos contemporâneos de Orwell lhe
escreveram contando que seus filhos tinham gostado muito do livro
só pela sua história.) Mas é o cuidado com os detalhes que
impressiona: Moisés, o corvo, acaba obtendo permissão de voltar à
fazenda, assim como Stálin permitiu a reentrada em atividade da
Igreja ortodoxa russa durante a Segunda Guerra Mundial, e a
“Internacional Socialista” foi substituída por versos e palavras de
ordem mais simples.
Por isso, é mais estranho ainda que, em determinado aspecto, a
analogia seja extremamente enganosa e incompleta. É muito óbvio,
e não só devido ao nome, que Napoleão deve representar Stálin. E
é igualmente óbvio, inclusive no que diz respeito a seu exílio e sua
queda em desgraça, que o outro líder dos porcos, Bola-de-Neve,
pretende representar Trotski. Mas onde fica Lênin nisso tudo?
Tenho minha própria especulação acerca do motivo de Orwell ter
composto seu “conto de fadas” rural (como ele próprio chamava seu
livro) como um Hamlet sem o príncipe. Naquela época, a esquerda
em geral ainda não se decidira quanto a Lênin. Os trotskistas
denunciavam Stálin como o “coveiro” do leninismo; os stalinistas
reivindicavam o manto de Lênin. Só as forças conservadoras diziam
que o leninismo e o stalinismo não passavam de dois nomes para a
mesma coisa. E toda a “moral” da história se perde se a ideia da
revolução dos bichos for perversa ou irracional desde o início.
Assim, conscientemente ou não, Orwell apaga a figura que teria
deixado sua história um pouco complicada demais. (Estranhamente,
ou talvez por motivos semelhantes, também existe um Stálin, na
forma do Grande Irmão, e um Trotski, na forma de Emmanuel
Goldstein, em 1984. Mas Lênin está ausente.)
O leitor pode ter reparado que Orwell, acima, afirma que sua
finalidade é “reviver o movimento socialista”. Era uma aspiração
compartilhada pelos refugiados ucranianos e poloneses que lhe
escreveram logo depois da Segunda Guerra Mundial, perguntando
se poderiam traduzir o livro para sua língua. O primeiro deles foi Ihor
Sevcenko, que escreveu para Orwell em abril de 1946:
A parte dos nossos emigrantes que foi parar no exílio não só devido a convicções
nacionalistas, mas pelo que sentiam vagamente tratar-se de uma procura da
“dignidade humana” e da “liberdade”, não se sente nem um pouco reconfortada
quando algum intelectual de direita lhe faz uma advertência eloquente. Estava
especialmente ansiosa para ouvir alguma coisa desse tipo, mas produzida no campo
socialista, do qual se sentia intelectualmente mais próxima […] Em várias ocasiões
traduzi diferentes trechos de A revolução dos bichos. Meus ouvintes eram refugiados
soviéticos. O efeito sempre foi impressionante. Concordavam com quase todas as
suas interpretações. Sentiam-se profundamente afetados por cenas como as dos
animais cantando “Bichos da Inglaterra” no alto da encosta.
Foi em resposta a esse pedido que Orwell escreveu seu primeiro
e único posfácio a este livro, do qual retirei as citações acima. A
edição resultante, traduzida e barata, foi recolhida e queimada pelas
autoridades de ocupação americanas na Alemanha, temerosas de
que sua distribuição pudesse ofender as contrapartidas do Exército
Vermelho na outra “zona”. E nem foi esse o único destino irônico
que as primeiras edições do livro acabaram tendo. Os comunistas e
seus simpatizantes no Ministério da Informação britânico do tempo
da guerra (um dos quais seria mais tarde denunciado como agente
da KGB) fizeram naturalmente o possível para inibir a publicação da
obra, que poderia causar embaraços a Stálin, então aliado de
guerra. Mas até T. S. Eliot, o doyen do mundo editorial conservador,
rejeitou A revolução dos bichos quando o livro lhe foi submetido, e
achava que o romance era inoportuno — para não falar do quanto
era inadequado apresentar os comunistas como porcos. Nos
Estados Unidos, o livro foi rejeitado duas vezes. A primeira recusa,
que pode ter sido simples idiotice, veio da Dial Press, que escreveu
para Orwell dizendo-lhe que não havia mercado para histórias com
animais na América (numa cultura dominada por Walt Disney!). A
segunda rejeição foi claramente ideológica. Arthur Schlesinger Jr.
enviou um exemplar do livro para a Random House, onde foi
rejeitado por um importante companheiro de viagem comunista
chamado Angus Cameron. Embora A revolução dos bichos tenha
acabado encontrando pequenos editores em tiragens limitadas,
tanto em Londres quanto em Nova York, quase foi condenado ao
destino de Lutando na Espanha, o livro praticamente ignorado que
Orwell escrevera sobre suas experiências com o stalinismo na
Guerra Civil Espanhola. Talvez seja justo que este livro tenha sido
um caso prematuro de samizdat.**
Numa medida impressionante e surpreendente, continua a existir
nessa forma. Tendo se transformado num clássico da Guerra Fria (a
CIA mais tarde compensaria de sobra a destruição do livro pelo
exército americano, ajudando a patrocinar sua ampla distribuição
em inúmeros países do mundo, junto com uma versão de
propaganda em desenho animado), hoje é consagrado na Europa
Oriental como uma das primeiras afirmações originais do
antitotalitarismo. Mas na China continua proibido, muito embora uma
versão musical já tenha sido encenada por ousados vanguardistas,
e na Coreia do Norte, claro, nem sequer é conhecido. Um amigo
comunista me telefonou da China alguns anos atrás para dizer que
achava que eu podia ter razão sobre Orwell, no fim das contas.
Acabara de ler um discurso de um dos líderes do partido, dizendo
que os camponeses precisavam enriquecer, e que “alguns deles
iriam ficar mais ricos que os outros”. Foi a primeira vez que ouvi
falar em Deng Xiaoping.
No Zimbábue, em resposta à repressão generalizada promovida
pelo partido governante de Robert Mugabe, bem como ao uso de
alimentos como arma para premiar ou punir os eleitores, o jornal da
oposição simplesmente mandou reimprimir o texto de A revolução
dos bichos na forma de um folhetim diário ilustrado. Sem qualquer
comentário adicional: a única pista era o par de óculos parecidos
com os de Mugabe usado pela figura de Napoleão. Em pouco
tempo, a sede do jornal sofreu um atentado a bomba, com
explosivos de alta potência disponíveis apenas para o exército do
país. Do mundo islâmico, o livro continua banido, o que é justificado,
alega-se, pelo fato de retratar porcos. Pouco importa que os porcos
sejam apresentados como o opressor: o literalismo corânico
permanece absoluto. E pode haver outros motivos para a proibição:
pouco tempo atrás, fui abordado por dissidentes iranianos que
pretendiam produzir uma edição pirata que, esperam, possa
denunciar a corrupção e a ganância dos supostos puritanos que
governam a República Islâmica.
O livro é famoso por terminar com os animais reunidos do lado de
fora, no frio, observando o rapprochement entre porcos e seres
humanos e incapazes de distinguir quem era o quê. Isso já foi
entendido, erradamente, como a afirmação da equivalência moral
entre capitalismo e comunismo, e por essa razão o trecho foi
cortado do desenho produzido pela CIA. Na verdade, como sabemos
pelo próprio Orwell, o final era uma referência sarcástica ao então
famoso encontro de Teerã reunindo Churchill, Roosevelt e Stálin.
Saudado num primeiro momento como uma promessa de
cooperação no pós-guerra entre os diversos blocos, o encontro lhe
pareceu uma reunião cínica destinada à partilha do butim, cujos
efeitos dificilmente haveriam de durar muito. (O acordo subsequente
firmado em Yalta, consolidando a divisão da Europa e do resto do
mundo, inaugurou o estado de permanente “Guerra Fria” —
expressão cunhada por Orwell — que caracterizaria 1984.) O que o
romance na verdade nos diz, com seus amenos empréstimos de
Swift e Voltaire, é que aqueles que renunciam à liberdade em troca
de promessas de segurança acabarão sem uma nem outra. Essa é
uma lição que transcende o momento em que foi escrita.
*
* O prefácio de Orwell está reproduzido nesta edição, como apêndice. (N. E.)
** Publicações que circulavam clandestinamente nos países do bloco soviético. (N. E.)
Apêndices
I
A liberdade de imprensa
prefácio proposto pelo autor à primeira edição inglesa, de 1945*
Este livro começou a ser concebido, ou pelo menos sua ideia
central, em 1937, mas só comecei a escrevê-lo no final de 1943.
Quando finalmente terminei, ficou óbvio que seria muito difícil
publicá-lo (apesar da escassez corrente de livros, graças à qual
qualquer coisa que se possa descrever como um livro acaba
“vendendo”), e de fato ele acabou sendo recusado por quatro
editores. Só um deles tinha alguma motivação ideológica. Dois
outros vinham publicando livros antirrussos havia muitos anos, e o
outro não tinha nenhuma coloração política perceptível. Na verdade
um dos editores primeiro aceitou o livro, mas depois dos acertos
preliminares decidiu consultar o Ministério da Informação, que
parece ter se manifestado contrário à publicação, ou pelo menos
energicamente alarmado com ela. Eis um trecho de sua carta:
Mencionei a reação que colhi junto a um importante funcionário do Ministério da
Informação quanto a A revolução dos bichos, e devo confessar que a opinião que ele
manifestou me fez pensar muito seriamente […] Agora vejo o quanto a publicação do
livro no momento atual pode ser considerada de extrema inconveniência. Se a fábula
tratasse de ditadores e ditaduras em geral, não haveria problema em publicá-la, mas
ela, como agora entendi, corresponde tão completamente aos fatos ocorridos na
Rússia soviética e a seus dois ditadores que só pode se aplicar à Rússia, excluindo
as demais ditaduras. Outra coisa: seria menos ofensivo se a casta predominante na
fábula não fosse a dos porcos.** Creio que a escolha dos porcos para a casta
governante irá certamente ofender muita gente, especialmente as pessoas mais
suscetíveis, como sem dúvida é o caso dos russos.
Esse tipo de coisa não é um bom sintoma. Obviamente, não
desejamos que nenhum departamento do governo tenha poder de
censura (exceto a censura de segurança nacional, a que ninguém
se opõe em tempo de guerra) sobre livros que nem contam com
patrocínio oficial. Mas aqui o principal atentado contra a liberdade de
pensamento e de expressão não é a interferência direta do
ministério ou de qualquer outro organismo oficial. Se os donos e
diretores das editoras se empenham em manter certos tópicos longe
da página impressa, não é porque tenham medo de processos
judiciais, mas porque temem a opinião pública. Neste país, a
covardia intelectual é o pior inimigo que um escritor ou jornalista
precisa enfrentar, e esse fato não me parece estar sendo tão
discutido quanto mereceria.
Qualquer pessoa equilibrada com experiência jornalística admitirá
que, durante esta guerra, a censura oficial não tem sido
especialmente incômoda na Inglaterra. Não fomos submetidos ao
tipo de “coordenação” totalitária que seria até razoável esperar. A
imprensa tem algumas queixas justificáveis, mas no geral o governo
vem se comportando bem, demonstrando uma surpreendente
tolerância em relação às opiniões minoritárias. O pior da censura
literária na Inglaterra é que em grande parte ela é voluntária. Ideias
impopulares podem ser silenciadas, e fatos inconvenientes podem
ser mantidos à sombra, sem a necessidade de nenhuma proibição
oficial. Qualquer pessoa que tenha passado algum tempo num país
estrangeiro conhecerá muitos casos em que notícias
sensacionalistas — notícias que, por seus próprios méritos, fariam
manchete — são mantidas fora da imprensa britânica não por causa
de alguma intervenção do governo, mas devido a um acordo tácito
generalizado segundo o qual “não convinha” mencionar aquele fato
em particular. No que se refere aos jornais diários, isso é fácil de
entender. A imprensa britânica é altamente centralizada, e quase
toda controlada por homens ricos que têm todos os motivos para se
mostrar desonestos em relação a certas questões fundamentais.
Mas o mesmo tipo de censura velada também afeta livros e
periódicos, além de peças teatrais, filmes e a programação do rádio.
Em qualquer momento dado, existe uma ortodoxia, um corpo de
ideias que, supostamente, todas as pessoas bem-pensantes
aceitarão sem questionar. Não é exatamente proibido dizer isso ou
aquilo, mas dizê-lo é uma coisa que “não se faz”, assim como na era
vitoriana falar de roupas de baixo na presença de uma senhora era
coisa que “não se fazia”. Qualquer um que desafie a ortodoxia
predominante se vê silenciado com uma eficácia surpreendente.
Uma opinião genuinamente destoante quase nunca recebe a
atenção devida, nem na imprensa popular nem nos periódicos mais
intelectualizados.
No momento atual, o que a ortodoxia predominante exige é uma
admiração acrítica da Rússia soviética. Todo mundo sabe disso, e
quase todo mundo age de acordo. Qualquer crítica séria ao regime
dos sovietes, qualquer revelação de fatos que o governo soviético
prefira manter ocultos são coisas praticamente impublicáveis. E
essa conspiração de alcance nacional destinada a agradar nossa
aliada ocorre, o que é muito curioso, contra um fundo de autêntica
tolerância intelectual. Porque, embora não lhe seja permitido criticar
o governo soviético, pelo menos temos uma razoável liberdade para
criticar o nosso. Quase ninguém publicaria um ataque a Stálin, mas
não há o menor problema em atacar Churchill, pelo menos por
escrito, em livros ou revistas. E ao longo de cinco anos de guerra,
durante dois ou três dos quais lutamos pela sobrevivência nacional,
inúmeros livros, panfletos e artigos defendendo uma paz negociada
com o inimigo foram publicados sem nenhuma interferência. E mais,
foram publicados sem despertar muita reprovação. Contanto que o
prestígio da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas não esteja
envolvido, o princípio da liberdade de expressão tem sido
razoavelmente respeitado. Existem assuntos proibidos, e falarei em
seguida de alguns, mas a atitude dominante em relação à URSS é de
longe o mais sério dos sintomas. É por assim dizer espontânea, e
não se deve à atividade de nenhum grupo de pressão.
O servilismo com que a maior parte da intelligentsia britânica
engole e repete a propaganda russa desde 1941 seria espantoso se
os intelectuais britânicos não tivessem exibido um comportamento
similar em várias ocasiões anteriores. Em todas as questões
controversas, o ponto de vista russo é aceito sem discussão e em
seguida divulgado sem o menor respeito pela verdade histórica ou a
decência intelectual. Para mencionar um bom exemplo,
recentemente a BBC comemorou o 25o aniversário do Exército
Vermelho sem tocar no nome de Trotski. O que era mais ou menos
tão correto quanto celebrar a Batalha de Trafálgar sem mencionar o
almirante Nelson, mas não provocou qualquer protesto da
intelligentsia britânica. Nas disputas internas dos vários países
ocupados, a imprensa britânica em quase todos os casos tomou o
partido da facção favorecida pelos russos e difamou a facção
oposta, chegando às vezes a suprimir provas materiais em seu
esforço. Um caso especialmente flagrante foi o do coronel
Mikhailovich, o líder guerrilheiro iugoslavo. Os russos, que tinham
seu protegido iugoslavo no marechal Tito, acusaram Mikhailovich de
colaborar com os alemães, acusação prontamente encampada pela
imprensa britânica. Os partidários de Mikhailovich não tiveram
nenhuma oportunidade de rebatê-la, e fatos que contradiziam a
colaboração foram simplesmente mantidos fora das páginas. Em
julho de 1943, os alemães ofereceram uma recompensa de 100 mil
coroas de ouro pela captura de Tito, e recompensa igual pela
captura de Mikhailovich. A imprensa britânica deu ampla divulgação
à recompensa por Tito, mas só um jornal mencionou (em letras
miúdas) a recompensa por Mikhailovich, enquanto continuavam as
acusações de colaboração com os alemães. Coisas muito
semelhantes aconteceram durante a Guerra Civil Espanhola.
Também naquela época, as facções do lado republicano que os
russos estavam determinados a esmagar eram impiedosamente
difamadas na imprensa inglesa de esquerda [sic], e qualquer
declaração em sua defesa, mesmo em forma de carta, tinha a
publicação recusada. Hoje, além de se considerar repreensível
qualquer crítica séria à URSS, a própria existência dessas críticas
tende a ser mantida em segredo. Por exemplo, pouco antes de sua
morte, Trotski escreveu uma biografia de Stálin. Pode-se supor que
não fosse um livro exatamente imparcial, mas evidentemente muito
vendável. Uma editora americana combinou que iria publicá-lo, e o
livro já estava no prelo — acredito que os exemplares destinados à
imprensa já tinham sido distribuídos — quando a URSS entrou na
guerra. O livro foi imediatamente recolhido. Nenhuma palavra a
respeito jamais foi lida na imprensa britânica, embora tanto a
existência de tal livro quanto a sua supressão fossem uma notícia
claramente merecedora de alguns parágrafos.
É importante distinguir entre o tipo de censura que a intelligentsia
literária britânica aceita impor-se por vontade própria e a censura
que às vezes pode ser exercida por grupos de pressão. Existem
alguns assuntos que, notoriamente, não podem ser discutidos por
causa dos “interesses bem estabelecidos”. O caso que se conhece
melhor é o da quadrilha da indústria farmacêutica. Outro é o da
Igreja católica, que exerce uma influência considerável sobre a
imprensa e consegue silenciar até certo ponto as críticas que lhe
são feitas. Um escândalo com um padre católico quase nunca é
divulgado, enquanto qualquer sacerdote anglicano que se envolva
em problemas (por exemplo, o reitor de Stiffkey***) logo se
transforma em manchete. É muito raro qualquer coisa de tendência
anticatólica aparecer no palco ou nas telas. Qualquer ator pode
confirmar que uma peça ou filme que ataque a Igreja católica corre o
risco de ser boicotado pela imprensa, e estará provavelmente
fadado ao fracasso. Mas esse tipo de coisa é inofensivo, ou no
mínimo compreensível. Qualquer organização importante sempre
cuida dos seus interesses da melhor maneira, e não se pode objetar
à propaganda declarada. É tão provável o Daily Worker divulgar
fatos desfavoráveis à URSS quanto o Catholic Herald publicar
denúncias contra o papa. Mas também, qualquer pessoa pensante
sabe o que são o Daily Worker e o Catholic Herald. O que é
inquietante é que, sempre que a URSS e sua política estão em jogo,
não se pode esperar críticas inteligentes nem, em muitos casos,
pura e simples honestidade dos escritores e jornalistas liberais, que
não sofrem pressões diretas para falsificar suas opiniões. Stálin é
sacrossanto, e certos aspectos de suas diretrizes não podem ser
seriamente discutidos. Esta regra vem sendo quase universalmente
observada desde 1941, mas já operava, em medida bem mais
ampla do que às vezes se percebe, dez anos antes. Já naquela
época, a crítica do regime soviético a partir da esquerda só
conseguia se fazer ouvir com muita dificuldade. Havia uma vasta
produção de literatura antirrussa, mas quase toda vinha dos rincões
conservadores e era flagrantemente desonesta, desatualizada e
movida por motivos sórdidos. Do outro lado havia uma enchente
igualmente imensa e quase igualmente desonesta de propaganda
pró-russa, o que resultava no boicote de qualquer pessoa que
tentasse discutir questões fundamentais de forma adulta. Era
possível, de fato, publicar livros antirrussos, mas fazê-lo era a
garantia de ser ignorado ou ter suas palavras distorcidas por quase
toda a imprensa intelectualizada. Tanto em público quanto em
particular, era-se avisado de que isso “não se faz”. O que se tinha a
dizer podia até ser verdade, mas era “inoportuno” e “fazia o jogo”
deste ou daquele interesse da reação. Essa atitude era geralmente
defendida porque a situação internacional e a necessidade urgente
de uma aliança anglo-russa assim o exigiam; mas era claro que se
tratava de uma racionalização. A intelligentsia britânica, ou grande
parte dela, desenvolveu uma lealdade à URSS de fundo nacionalista
e, na verdade, estava convencida de que pôr em dúvida a sabedoria
de Stálin era uma espécie de blasfêmia. O que ocorria na Rússia
devia ser julgado por padrões diferentes dos empregados para
avaliar o que ocorria no resto do mundo. As infindáveis execuções
dos expurgos de 1936-8 foram aplaudidas por antigos opositores da
pena capital, e da mesma forma considerava-se adequado noticiar a
fome quando acontecia na Índia, mas escondê-la quando assolava a
Ucrânia. E se esse já era o panorama antes da guerra, a atmosfera
intelectual certamente não melhorou nos últimos tempos.
Mas voltando a este livro. A reação a ele por parte da maioria dos
intelectuais ingleses será muito simples: “Não devia ter sido
publicado”. Naturalmente, os autores de resenhas que entendem da
arte de denegrir não irão atacá-lo com base na política, mas usarão
argumentos literários. Dirão que é um livro tedioso e bobo, um
escandaloso desperdício de papel. O que pode até ser verdade,
mas obviamente não é a história toda. Não se pode dizer que um
livro “não devia ter sido publicado” só porque é ruim. Afinal, vastas
quantidades de lixo são impressas a cada dia, e ninguém se
incomoda com isso. A intelligentsia britânica, em sua maioria, irá
reclamar deste livro porque calunia seu Líder e (na opinião deles)
prejudica a causa do progresso. Se fosse o contrário, nada teriam a
dizer contra a obra, mesmo que seus defeitos literários fossem dez
vezes mais flagrantes do que são. O sucesso, por exemplo, do
Clube do Livro de Esquerda nos últimos quatro a cinco anos mostra
o quanto esses leitores estão dispostos a tolerar uma escrita tanto
ridícula quanto descuidada, contanto que lhes diga o que desejam
ouvir.
A questão em jogo aqui é muito simples: será que qualquer
opinião, por mais impopular — por mais estúpida, até — que seja,
tem o direito de ser difundida? Formule-se a questão dessa
maneira, e qualquer intelectual inglês se sentirá obrigado a
responder que sim. Mas quando ela se reveste de uma forma
concreta, e alguém pergunta: “E que tal, por exemplo, um ataque a
Stálin? Tem direito de ser difundido?”, a resposta quase sempre
será não. Neste caso, o que ocorre é um desafio à ortodoxia
corrente, de maneira que o princípio da liberdade de expressão
deixa de funcionar. Quando alguém defende a liberdade de
expressão e de imprensa, não está reivindicando uma liberdade
absoluta. Enquanto existirem sociedades organizadas, sempre deve
existir, ou pelo menos sempre haverá de existir, algum grau de
censura. Mas a liberdade, como disse Rosa Luxemburgo, é a
“liberdade para o outro”. O mesmo princípio contido nas famosas
palavras de Voltaire: “Detesto cada palavra que o senhor diz, mas
defenderei até a morte seu direito de dizê-las”. Se existe algum
significado na liberdade do intelecto, que, sem dúvida, tem sido uma
das marcas da civilização ocidental, é que cada um tem o direito de
dizer e escrever o que julga ser verdade, contanto que aquilo que
diz ou escreve não seja inequivocamente nocivo para o restante da
comunidade. Até há pouco, tanto a democracia capitalista quanto as
versões ocidentais do socialismo respeitavam tacitamente esse
princípio. Nosso governo, como já afirmei, ainda age como se o
respeitasse. As pessoas comuns — em parte talvez por não se
interessarem pelas ideias a ponto de se mostrarem intolerantes
quanto a elas — ainda defendem vagamente que “todo mundo deve
ter direito a sua opinião”. Quem começa a desprezar a liberdade,
tanto na teoria quanto na prática, é só, ou principalmente, a
intelligentsia literária e científica, exatamente aqueles que deveriam
ser seus maiores guardiães.
Um dos fenômenos característicos do nosso tempo é o liberal
renegado. Além da conhecida noção marxista segundo a qual a
“liberdade burguesa” é uma ilusão, existe hoje uma difundida
tendência a argumentar que a democracia só pode ser defendida
por métodos totalitários. Se a pessoa tem apego pela democracia,
diz o argumento, precisa esmagar seus inimigos lançando mão de
qualquer meio. E quem são seus inimigos? Sempre se diz que não
são só os que a atacam aberta e conscientemente, mas os que
“objetivamente” a põem em risco através da difusão de doutrinas
equivocadas. Noutras palavras, a defesa da democracia envolve a
destruição de qualquer independência de pensamento. Foi este o
argumento usado, por exemplo, para justificar os expurgos na
Rússia. Mesmo o mais ardoroso dos russófilos acredita que nem
todas as vítimas eram de fato culpadas do que as acusavam, mas
sim do cultivo de opiniões heréticas que prejudicavam
“objetivamente” o regime; portanto, era justo não só massacrá-las
mas também desacreditá-las lançando-lhes falsas acusações. O
mesmo argumento foi usado para justificar a mentira bastante
consciente que correu pela imprensa de esquerda acerca dos
trotskistas e outras minorias republicanas durante a Guerra Civil
Espanhola. E que voltou a ser usada como motivo de tanto alarido
contrário ao habeas corpus quando Mosley foi solto em 1943.*
Essas pessoas não veem que, quando se endossam métodos
totalitários, pode chegar um momento em que deixarão de ser
usados a favor para se voltarem contra o indivíduo. Caso se
transforme num hábito jogar fascistas na prisão sem julgamento, o
processo talvez não se limite aos fascistas. Pouco depois do Daily
Worker, que fora proibido, ter sido reaberto, fui chamado para dar
uma conferência num estabelecimento de ensino para
trabalhadores, no sul de Londres. A plateia era composta de
intelectuais da classe trabalhadora e de classe média baixa — o
mesmo tipo de público que costumava reunir-se nos encontros do
Clube do Livro de Esquerda. A conferência tocara na questão da
liberdade de imprensa, e no final, para meu espanto, várias pessoas
se levantaram e me questionaram: eu não achava que a retirada da
proibição ao Daily Worker tinha sido um grande erro? Quando
perguntei por quê, responderam-me que era um jornal de lealdade
duvidosa, que não devia ser tolerado em tempos de guerra. Logo
me vi defendendo o Daily Worker, que mais de uma vez fizera o
possível para me difamar. Mas onde aquelas pessoas teriam
adquirido essa visão essencialmente totalitária? Era muito provável
que a tivessem aprendido com os próprios comunistas! A tolerância
e a decência têm raízes profundas na Inglaterra, mas não são
indestrutíveis, e precisam manter-se vivas graças em parte a um
esforço deliberado. O resultado da pregação de doutrinas
totalitaristas é o enfraquecimento do instinto graças ao qual as
pessoas sabem o que representa ou não um perigo. O que é bem
ilustrado pelo caso de Mosley. Em 1940, era perfeitamente correto
prender Mosley, tivesse ele cometido ou não um crime no sentido
técnico. Estávamos lutando pelas nossas vidas, e não podíamos
permitir que um possível colaboracionista continuasse em liberdade.
Mas mantê-lo preso em 1943, sem julgamento, era inaceitável. O
fato de ninguém ver a diferença era um mau sintoma, embora seja
verdade que toda a agitação contra a libertação de Mosley foi em
parte fabricada, uma racionalização de outras insatisfações. Mas
que parcela da deriva atual na direção de formas de pensamento
fascistas pode ser atribuída ao “antifascismo” dos últimos dez anos,
e à falta de escrúpulo que ele vem pregando?
É importante perceber que a russomania atual é apenas mais um
sintoma do enfraquecimento generalizado da tradição liberal do
Ocidente. Se o Ministério da Informação tivesse cometido o exagero
de vetar em definitivo a publicação deste livro, o grosso da
intelligentsia britânica não teria visto nada de inquietante na medida.
A lealdade acrítica à URSS transformou-se na ortodoxia do momento,
e sempre que os supostos interesses da URSS estão envolvidos,
nossos intelectuais se dispõem a tolerar não só a censura como a
falsificação deliberada da história. Para dar um exemplo, quando
morreu John Reed, autor de Dez dias que abalaram o mundo — um
relato em primeira mão dos primeiros dias da Revolução Russa —,
os direitos autorais do livro passaram para as mãos do Partido
Comunista Britânico, a quem Reed, segundo creio, tinha legado sua
obra. Alguns anos mais tarde, os comunistas britânicos, depois de
destruir o mais completamente que puderam a edição original do
livro, publicaram uma versão truncada na qual eliminaram todas as
menções a Trotski e também a apresentação escrita por Lênin. Se
uma intelligentsia radical ainda existisse na Grã-Bretanha, esse ato
de contrafação teria sido apontado e denunciado em todas as
revistas literárias do país. Na realidade, porém, quase não houve
protesto. Para muitos intelectuais ingleses, aquilo pareceu uma
coisa bem natural. E essa tolerância ou flagrante desonestidade não
ocorre apenas porque a admiração pela Rússia esteja em voga. É
até provável que a moda não dure muito. Inclusive pode ser que, no
momento em que este livro finalmente chegar ao público, minha
visão do regime soviético tenha se generalizado. Mas de que isso,
por si só, vai adiantar? A troca de uma ortodoxia por outra não
representa necessariamente um avanço. O inimigo é a mentalidade
de gramofone, concordemos ou não com o disco que está tocando
agora.
Conheço bem todos os argumentos contrários à liberdade de
pensamento e de expressão — os argumentos segundo os quais ela
não pode existir, e os argumentos segundo os quais não deve.
Respondo simplesmente que eles não me convencem, e que a
nossa civilização dos últimos quatrocentos anos apoia-se justo na
noção oposta. Já faz praticamente uma década que acredito que o
regime russo é basicamente maligno, e reivindico o direito de dizê-
lo, apesar da nossa aliança com a URSS numa guerra que desejo que
vençamos. Se eu precisasse escolher um texto para justificar-me,
escolheria um verso de Milton: “Pelas regras conhecidas da antiga
liberdade”.**
A palavra “antiga” enfatiza o quanto a liberdade intelectual é uma
tradição que tem raízes profundas e sem a qual duvido que nossa
típica cultura ocidental pudesse existir. Mas é dessa tradição que
muitos de nossos intelectuais vêm se desviando de maneira
perceptível. Aceitaram o princípio de que um livro deva ser
publicado ou suprimido, louvado ou condenado, não com base em
seus méritos, mas de acordo com a sua conveniência política. E
outros que na verdade não têm a mesma opinião acabam
concordando com ela por pura covardia. Um bom exemplo disso
pode ser visto quando os inúmeros e loquazes pacifistas ingleses
deixam de erguer a voz contra o culto reinante ao militarismo russo.
De acordo com esses pacifistas, toda violência é funesta, e em
todos os momentos da guerra eles nos conclamaram a desistir do
combate, ou pelo menos almejar a uma paz negociada. Mas
quantos deles jamais sugeriram que a guerra também é nefasta
quando travada pelo Exército Vermelho? Os russos parecem ter o
direito à autodefesa; para nós, ele consiste num pecado mortal. Só
existe um modo de explicar essa contradição: a saber, um desejo
covarde de não se perder do grosso da intelligentsia, cujo
patriotismo tem como objeto a URSS, não a Grã-Bretanha. Sei que a
intelligentsia britânica tem muitos motivos para sua timidez e
desonestidade, e na verdade já conheço de cor os argumentos que
usa para se justificar. Mas pelo menos devíamos parar de aceitar
absurdos em nome da defesa das liberdades contra o fascismo. A
liberdade, se é que significa alguma coisa, significa o nosso direito
de dizer às pessoas o que não querem ouvir. As pessoas comuns
ainda acreditam vagamente nessa doutrina, e agem de acordo com
ela. Neste nosso país — ela não é a mesma em todos os países;
não era igual na França republicana, e não é a mesma nos Estados
Unidos de hoje —, são os liberais que temem a liberdade e os
intelectuais que querem jogar lama no intelecto: foi para chamar
atenção para esse fato que escrevi este prefácio.
*
* Na primeira edição de A revolução dos bichos, havia um espaço para um prefácio do próprio Orwell, como
indica a paginação das provas do autor. O prefácio acabou não sendo publicado, e o original datilografado só
seria encontrado anos mais tarde por Ian Angus e publicado com uma apresentação do professor Bernard
Crick, intitulada “Como o ensaio acabou sendo escrito”, no The Times Literary Supplement de 15 de setembro
de 1972. (N.E.)
** Não ficou muito claro se esta modificação foi sugerida por ideia do próprio sr. … ou se veio do Ministério da
Informação, mas pelo tom eu diria que tem origem oficial. [Nota de Orwell]
*** Harold Davidson, sacerdote anglicano de Stiffkey, em Norfolk, também conhecido como “The ‘Prostitutes’
Padre”. Envolvido com prostitutas e vagabundos londrinos, foi expulso da Igreja anglicana na década de 30
por comportamento imoral. Hoje sua condenação está sendo revista. (N. T.)
* Refere-se a Sir Oswald Mosley, que fundou o Partido Fascista Inglês em 1937, manifestava apoio ativo a
Hitler e Mussolini, e em maio de 1940, sem processo, foi preso juntamente com a mulher, até ser libertado por
um habeas corpus em 1943. (N. T.)
** Cita o segundo verso do soneto XII de John Milton (1608-74), que começa, no original: “I did but prompt the
age to quit their clogs/ By the known rules of ancient liberty” (“Só preguei que nosso tempo abandonasse seus
jugos/ Pelas regras conhecidas da antiga liberdade”). (N. T.)
II
Prefácio do autor à edição ucraniana (1947)*
Pediram-me para escrever um prefácio à tradução ucraniana de A
revolução dos bichos. Sei que estou escrevendo para leitores sobre
os quais não sei nada, mas também que eles nunca tiveram a
menor oportunidade de saber nada a meu respeito.
Neste prefácio, o mais provável é que esperem que eu conte
alguma coisa sobre a origem de A revolução dos bichos, mas
primeiro queria falar um pouco sobre mim e sobre as experiências
através das quais cheguei à minha posição política.
Nasci na Índia em 1903. Meu pai trabalhava na administração
colonial inglesa, e minha família era uma dessas famílias comuns de
classe média de soldados, religiosos, funcionários públicos,
professores, advogados, médicos etc. Estudei em Eton, a mais cara
e esnobe das Public Schools da Inglaterra.** Mas só fui aceito lá
graças a uma bolsa de estudos; de outro modo, meu pai não teria
meios de me mandar para uma escola desse tipo.
Pouco depois de me formar (ainda não completara vinte anos) fui
para a Birmânia e me alistei na Polícia Imperial da Índia. Era uma
força policial armada, uma espécie de gendarmerie muito
semelhante à Guardia Civil da Espanha ou à Garde Mobile francesa.
Lá servi cinco anos. Não gostei daquilo, que me fez detestar o
imperialismo, embora naquela época não houvesse sentimentos
nacionalistas muito pronunciados na Birmânia, e as relações entre
britânicos e birmaneses não fossem especialmente inamistosas. De
folga na Inglaterra, em 1927, deixei o serviço e resolvi me tornar
escritor: num primeiro momento sem muito sucesso. Entre 1928 e
1929, vivi em Paris, escrevendo contos e romances que ninguém
publicaria (destruí todos de lá para cá). Nos anos seguintes, vivi
praticamente da mão para a boca, e passei fome em várias
ocasiões. Foi só a partir de 1934 que consegui começar a viver do
que ganho com meus escritos. Entrementes, cheguei a passar
meses a fio em meio aos elementos pobres e semicriminosos que
vivem nas piores partes dos bairros mais pobres, ou moram nas
ruas, mendigando e roubando. Naquela época me associei a eles
devido à falta de dinheiro; mais tarde, porém, seu modo de vida me
interessou muito pelo que representava. Passei muitos meses (mais
sistematicamente, dessa vez) estudando as condições de vida dos
mineiros do norte da Inglaterra. Até 1930 eu não me considerava
totalmente socialista. Na verdade, nunca tive opiniões políticas
claramente definidas. Tornei-me pró-socialista mais por desgosto
com a maneira como os setores mais pobres dos trabalhadores
industriais eram oprimidos e negligenciados do que devido a
qualquer admiração teórica por uma sociedade planificada.
Casei-me em 1936. Praticamente na mesma semana irrompeu a
Guerra Civil Espanhola. Tanto minha mulher como eu quisemos ir
para a Espanha e lutar pelo governo espanhol. E ficamos prontos
em seis meses, o tempo que levei para acabar o livro que estava
escrevendo. Na Espanha, passei quase seis meses na frente de
Aragão até que, em Huesca, o disparo de um francoatirador fascista
atravessou minha garganta.
Nos primeiros estágios da guerra, os estrangeiros viviam
praticamente desinformados das lutas internas entre os vários
partidos políticos que apoiavam o governo. Devido a uma série de
acidentes, entrei não para as Brigadas Internacionais, como a
maioria dos estrangeiros, mas para a milícia do POUM — os
trotskistas espanhóis.
Assim, em meados de 1937, quando os comunistas obtiveram o
controle (ou o controle parcial) do governo espanhol e começaram a
perseguir os trotskistas, eu e minha mulher nos vimos em meio às
vítimas. Tivemos muita sorte de conseguir deixar a Espanha com
vida, e de não termos sido presos uma vez sequer. Muitos dos
nossos amigos foram fuzilados, outros passaram longo tempo na
cadeia ou simplesmente desapareceram.
Essas caçadas humanas ocorriam na Espanha ao mesmo tempo
que os grandes expurgos na URSS, e eram uma espécie de
complemento a eles. Tanto na Espanha como na Rússia, a natureza
das acusações (a saber, conspiração com os fascistas) era a
mesma, e no que diz respeito à Espanha, tenho todos os motivos
para julgar que fossem falsas. Vivenciar tudo isso foi uma lição
valiosa: ensinou-me como é fácil para a propaganda totalitária
controlar a opinião de pessoas educadas em países democráticos.
Tanto minha mulher como eu vimos gente inocente ser atirada na
prisão só por suspeita de desvio da ortodoxia. No entanto, quando
voltamos à Inglaterra, encontramos muitos observadores sensatos e
bem informados que acreditavam nos relatos mais fantasiosos —
envolvendo conspirações, traição e sabotagem — que a imprensa
fazia dos processos de Moscou.
E assim compreendi, mais claramente que nunca, a influência
negativa do mito soviético sobre o movimento socialista ocidental.
Aqui preciso parar para descrever minha atitude perante o regime
soviético.
Nunca estive na Rússia, e meu conhecimento a respeito dela
consiste apenas do que pode ser aprendido pela leitura de livros e
jornais. Mesmo que tivesse o poder para tanto, nunca desejaria
interferir nos negócios internos soviéticos: jamais condenaria Stálin
e seus associados só por seus métodos bárbaros e
antidemocráticos. E é possível que, mesmo com a melhor das
intenções, eles realmente não pudessem agir de outra maneira nas
condições lá reinantes.
Por outro lado, porém, era da maior importância para mim que as
pessoas na Europa Ocidental pudessem ver o regime soviético
como de fato era. Desde 1930, eu vira poucos indícios de que a URSS
estivesse avançando na direção de algo que se pudesse chamar de
socialismo. Pelo contrário, ficava chocado diante dos sinais claros
de sua transformação numa sociedade hierarquizada, em que os
governantes não têm mais razão de desistir do poder que qualquer
outra classe dominante. Além disso, os trabalhadores e os
intelectuais de um país como a Inglaterra não compreendem que a
URSS de hoje é totalmente diferente do que foi em 1917. Em parte
porque não querem compreender (ou seja, porque querem acreditar
que, em algum lugar, existe de fato um país realmente socialista), e
em parte porque, acostumados a relativas liberdade e moderação
na vida pública, o totalitarismo lhes é completamente
incompreensível.
No entanto, devemos lembrar que a Inglaterra não é
completamente democrática. Também é um país capitalista onde
existem grandes privilégios de classe e (ainda hoje, mesmo depois
que a guerra nos fez tender à igualdade) acentuadas diferenças
econômicas. Mesmo assim, é um país no qual as pessoas vivem
juntas há centenas de anos sem grandes conflitos, em que as leis
são relativamente justas, as informações e estatísticas oficiais são
quase invariavelmente críveis, e, para terminar, onde o fato de
cultivar e defender opiniões minoritárias não acarreta nenhum risco
de vida. Numa atmosfera como essa, o cidadão comum não tem
uma compreensão concreta do que sejam campos de concentração,
deportações em massa, prisões sem julgamento, censura da
imprensa etc. Tudo o que lê sobre um país como a URSS é
automaticamente traduzido em termos ingleses, e o ingênuo
cidadão acaba aceitando as mentiras da propaganda totalitária. Até
1939, e mesmo depois, a maioria do povo inglês era incapaz de
aquilatar a verdadeira natureza do regime nazista da Alemanha, e
hoje, com o regime soviético, ainda vivem em grande medida
submetidos ao mesmo tipo de ilusão.
Isso causou grande prejuízo ao movimento socialista da
Inglaterra, e teve sérias consequências sobre a política externa
britânica. De fato, a meu ver, nada contribuiu tanto para a corrupção
da ideia original de socialismo quanto a crença de que a Rússia é
um país socialista e cada gesto de seus governantes deve ser
desculpado, quando não imitado.
Ao voltar da Espanha, pensei em denunciar o mito soviético numa
história que fosse fácil de compreender por qualquer pessoa e fácil
de traduzir para outras línguas. No entanto, os detalhes concretos
da história só me ocorreriam depois, na época em que morava
numa cidadezinha, no dia em que vi um menino de uns dez anos
guiando por um caminho estreito um imenso cavalo de tiro que
cobria de chicotadas cada vez que o animal tentava se desviar.
Percebi então que, se aqueles animais adquirissem consciência de
sua força, não teríamos o menor poder sobre eles, e que os animais
são explorados pelos homens de modo muito semelhante à maneira
como o proletariado é explorado pelos ricos.
A partir daí, decidi analisar a teoria de Marx do ponto de vista dos
animais. Para eles, claro, o conceito de luta de classes entre os
seres humanos era pura ilusão, pois sempre que fosse necessário
explorar os animais os seres humanos se uniam contra eles: a
verdadeira luta se dava entre os bichos e as pessoas. A partir desse
ponto, não foi difícil elaborar o enredo. Só escrevi o livro em 1943,
pois estava sempre envolvido com algum outro trabalho que não me
deixava tempo; e no final acrescentei alguns acontecimentos, como
a Conferência de Teerã, que ocorriam no momento em que eu
escrevia. Assim, os principais contornos da história permaneceram
em meu espírito por seis anos antes que eu a escrevesse.
Não quero comentar a obra; se ela não falar por si mesma, é
porque fracassou. Mas gostaria de sublinhar dois pontos: primeiro,
que embora seus vários episódios tenham sido tirados da história
real da Revolução Russa, foram tratados de maneira esquemática, e
sua ordem cronológica foi alterada; isso foi necessário para dar
simetria à narrativa. O segundo ponto passou despercebido pela
maioria dos críticos, possivelmente por não ter sido devidamente
enfatizado por mim. Muitos leitores podem acabar de ler o livro com
a impressão de que ele termina com uma reconciliação total entre
os porcos e os seres humanos. Minha intenção não foi essa; ao
contrário, eu desejava que o livro terminasse com uma nota enfática
de discórdia, pois escrevi o fim imediatamente depois da
Conferência de Teerã, que todos julgaram ter estabelecido as
melhores relações possíveis entre a URSS e o Ocidente.
Pessoalmente, jamais acreditei que essas relações pudessem durar;
e, como os fatos demonstraram, não estava muito enganado.
Não sei o que mais preciso acrescentar. Se alguém se interessa
por detalhes de ordem pessoal, posso acrescentar que sou viúvo,
tenho um filho de quase três anos de idade, que minha profissão é a
de escritor e que desde o início da guerra tenho trabalhado
especialmente como jornalista.
O periódico para o qual escrevo com maior regularidade é o
Tribune, um semanário sociopolítico que representa, em termos
gerais, a ala esquerda do Partido Trabalhista. Os seguintes livros
que escrevi podem ter algum interesse para o leitor comum (caso o
leitor desta tradução encontre algum exemplar deles): Dias na
Birmânia (uma história birmanesa), Lutando na Espanha (com base
em minhas experiências na Guerra Civil Espanhola) e Ensaios
críticos (ensaios que tratam especialmente da literatura popular
inglesa de nossos dias, e mais instrutivos do ponto de vista
sociológico do que propriamente literário).
*
* A tradução ucraniana de A revolução dos bichos foi feita para os ucranianos alojados nos campos de
refugiados da Alemanha sob a administração britânica e americana depois da Segunda Guerra Mundial.
Eram pessoas, como indica uma carta escrita pelo organizador da tradução e da distribuição, Ihor Sevcenko,
partidárias da Revolução de Outubro e determinadas a defender o que fora conquistado, mas que se tinham
voltado contra “o bonapartismo contrarrevolucionário de Stálin” e a “exploração russa, nacionalista, do povo
ucraniano”. Eram pessoas simples, camponeses e trabalhadores, muitos com pouca instrução, mas todos
leitores vorazes. Para essas pessoas, ele pediu a Orwell que escrevesse uma introdução. O original em
inglês se perdeu, e a versão aqui publicada resulta de uma retradução do texto ucraniano. Orwell fez questão
de não receber direitos autorais por essa edição, nem por outras traduções voltadas para pessoas pobres
demais para comprar o livro (por exemplo, as edições em persa ou em telugu). O próprio Orwell arcou com os
custos de produção de uma edição em russo impressa em papel fino, dirigida a soldados e outros leitores
atrás da Cortina de Ferro. (N.E.)
** Que não são “escolas públicas do governo”, mas de certo modo exatamente o contrário: internatos de
ensino secundário muito seletivos e caros, e muito afastados uns dos outros. Até pouco tempo atrás,
praticamente só admitiam os filhos das famílias ricas da aristocracia. Era o sonho de banqueiros nouveaux
riches do século XIX conseguir matricular seus filhos em alguma das Public Schools inglesas. Nessas
escolas, a maior ênfase é dada aos esportes, que formam, por assim dizer, uma visão da vida senhorial, rude
e cavalheiresca. Entre essas escolas, Eton é especialmente famosa. Segundo contam, Wellington teria dito
que a vitória de Waterloo foi decidida nos campos esportivos de Eton. Não faz muito tempo, a esmagadora
maioria das pessoas que de um modo ou de outro controlam a Inglaterra vinha das Public Schools. [Nota de Orwell]